O Natal em que fiquei rica

esta história e outras em Preparando o Natal

 

Ser pobre e satisfeito é ser rico. E bastante rico.
William Shakespeare

Havia uma árvore naquele Natal. Não tão grande e frondosa como outras, mas estava pejada de enfeites e tesouros e resplandecia de luzes. Havia presentes, também. Alegremente embrulhados em papel vermelho ou verde, com etiquetas coloridas e fitas. Mas não tantos presentes como de costume. Eu já tinha reparado que a minha pilha de presentes era muito pequena.

Nós não éramos pobres. Mas os tempos eram difíceis, os empregos escassos, o dinheiro à justa. A minha mãe e eu partilhávamos uma casa com a minha avó e com os meus tios. Naquele ano da Depressão, toda a gente espaçava refeições, Continuar a ler

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Meditações para o caminho de Advento – José Tolentino Mendonça

Meditações para o caminho de Advento:
«Nas mãos do oleiro, o universo descobre-se inacabado»

Uma das formas fundamentais da sabedoria é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a ciclo e a contraciclo, a tempo e fora de tempo, na nossa vida. E numa vida adulta avançada, muitas vezes é isto que experimentamos: descobrimo-nos inacabados porque nos descobrimos nas mãos do oleiro.
É importante associar a experiência da vida em aberto e a experiência de estarmos a viver continuamente um processo de criação. Este dia da nossa vida, em que parece que já não há nada para acontecer, em que parece que já vivemos tudo o que havia a viver, é um dia da criação.

«O que se instala na perfeição
desconhece aquilo
que só a indigência revela»

Um dos maiores obstáculos na vida espiritual é a ideia ou desejo de perfeição, porque Continuar a ler

Eu sei tudo sobre o Pai Natal

Eu sei tudo sobre o Pai Natal

Os crescidos dizem
que o Pai Natal não existe.
Mas eu não acredito neles.
Então se o Pai Natal não existe,
quem é que traz os presentes todos os anos?

Os crescidos dizem
que ninguém consegue descer pela chaminé. Sobretudo com um saco tão grande às costas.
Mas eu sei que é possível.
O mais difícil é subir.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal não tem tempo
para ler as cartas de todos os meninos.
Dizem que são tantas que nem se consegue contá-las.
Mas eu sei que ele as lê,
porque nunca se engana nos presentes.

Os crescidos dizem
que os trenós não podem voar pelos céus, nem aterram nos telhados das casas.
Mas eu digo que eles estão enganados,
porque são as renas que voam e não os trenós.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal não pode estar em todas as lojas ao mesmo tempo.
Mas eu acho que isso é um disparate,
porque toda a gente sabe
que os Pais Natais das lojas são a fingir!

Os crescidos dizem
que o Pai Natal, se existisse,
nunca poderia entrar nas casas que não têm chaminé.
Mas eu acho que o importante não é a chaminé.
O que importa é a árvore de Natal.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal nunca teria tempo
para embrulhar os presentes de todos os meninos.
Mas eu tenho a certeza
de que a Mãe Natal e os duendes lhe dão uma ajuda.

Os crescidos dizem
que é muito estranho
o Pai Natal nunca envelhecer.
Mas eu sei a verdade.
Ele envelhece mas, como tem barba e cabelos brancos, não se nota.

Os crescidos dizem
que, se o Pai Natal entrasse mesmo nas casas, já alguém o teria visto.
Mas um dia eu fiquei à espera dele, escondido debaixo dos cobertores.
Ouvi os seus passos, mas tive medo de ir ver.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal nunca aparece. E que isso é só uma história que os pais contam aos filhos.
Mas eu acho que eles não estão a pensar muito bem.
Se não é ele, quem é que leva as cenouras
que eu lhe deixo ao pé da árvore de Natal para ele dar às renas?

Os crescidos dizem
que, ao passar pelos países quentes, que o Pai Natal teria demasiado calor com o seu casaco vermelho.
Mas eu acho que eles não têm razão,
porque à noite, no céu, faz sempre um bocadinho de frio.

Os crescidos dizem
que só os meninos pequenos acreditam no Pai Natal.
Mas eu sei que eles estão enganados.

Se o Pai Natal não existe,
por que razão estão sempre a falar dele?

Nathalie Delebarre
Eu sei tudo sobre o Pai Natal
Lisboa, Editorial Presença, 2008

Retirado de “Preparando o Natal” : Eu sei tudo sobre o Pai Natal

Sugestões de leitura para adultos – edições portuguesas

o olhar de sophie jojo moyesO olhar de Sophie

Jojo Moyes
Porto Editora, 2014

Somme, 1916. Sophie vive numa vila ocupada pelo exército alemão, tentando sobreviver às privações e brutalidade impostas pelo invasor, enquanto aguarda notícias do marido, Edouard Lefèvre, um pintor impressionista, que se encontra a lutar na Frente. Quando o comandante alemão vê o retrato de Sophie pintado por Edouard, nasce uma perigosa obsessão que leva Sophie a arriscar tudo – a família, a reputação e a vida.
Quase um século depois, o retrato de Sophie encontra-se pendurado numa parede da casa de Liv Halston, em Londres. Entretanto, Liv conhece o homem que a faz recuperar a vontade de viver, após anos de profundo luto pela morte prematura do marido. Mas não tardará que Liv sofra uma nova desilusão – o quadro que possui é agora reclamado pelos herdeiros, e Paul, o homem por quem se apaixonou, está encarregado de investigar o seu paradeiro…
Até onde estará Liv disposta a ir para salvar este quadro? Será o retrato de Sophie assim tão importante que justifique perder tudo de novo?


comércioUm comércio respeitável

Philippa Gregory
Porto Editora, 2013

1787. Bristol é uma cidade em franco crescimento, uma cidade onde o poder atrai os que estão dispostos a correr riscos. Josiah Cole, um homem de negócios que se dedica ao comércio de escravos, decide arriscar tudo para fazer parte da comunidade que detém o poder na cidade. No entanto, para isso, Cole vai precisar de capital e de uma esposa bem relacionada que lhe abra as portas necessárias. Casar com Frances Scott é uma solução conveniente para ambas as partes. Ao trocar as suas relações sociais pela proteção de Cole, Frances descobre que a sua vida e riqueza dependem do comércio respeitável do açúcar, rum e escravos…
Em Um Comércio Respeitável, Philippa Gregory oferece-nos um retrato vívido e impressionante de uma época complexa onde imperam a ganância e a crueldade que devastaram todo um continente.


1A bibliotecária de Auschwitz

Antonio G. Iturbe
Agir, 2014

Minuciosamente documentado, e tendo como base o testemunho de Dita Dorachova, a jovem bibliotecária checa do Bloco 31, este livro conta a história inacreditável, mas verídica, de uma jovem de 14 anos que arriscou a vida para manter viva a magia dos livro, ao esconder dos nazis durante anos a sua pequena biblioteca, de apenas oito volumes, no campo de extermínio de Auschwitz.
Sobre a lama negra de Auschwitz, que tudo engole, Fredy Hirsch ergueu uma escola. Num lugar onde os livros são proibidos, a jovem Dita esconde debaixo do vestido os frágeis volumes da biblioteca pública mais pequena, recôndita e clandestina que jamais existiu.
No meio do horror, Dita dá-nos uma maravilhosa lição de coragem: não se rende e nunca perde a vontade de viver nem de ler, porque, mesmo naquele terrível campo de extermínio nazi, «abrir um livro é como entrar para um comboio que nos leva de férias».
Um romance comovente: uma história maravilhosa, pungente e diferente de tudo o que já leu sobre o Holocausto e de que poucos têm conhecimento.


OsUltimosDiasDosNossosPaisOs últimos dias dos nossos pais

Joël Dicker
Agir, 2014

Em 1940, Winston Churchill desenha um plano que mudará o curso da guerra: criar uma nova unidade nos serviços secretos — Special Operations Executive (SOE) — que leve a cabo ações de sabotagem a partir do interior das linhas inimigas, uma estratégia jamais vista.
Meses mais tarde, o jovem Paul-Émile parte de Paris rumo a Londres com a esperança de se juntar à Resistência. O SOE não tarda a recrutá-lo, bem como a um grupo de jovens voluntários. Depois de um treino brutal, os poucos eleitos para integrar a nova unidade são enviados para a França ocupada com a missão de treinar forças de resistência. Aí conhecerão o amor, o medo, a coragem e a amizade.
Mas, no Continente, a contra espionagem alemã ameaça toda a operação e o destino dos jovens militares…
Os últimos dias dos nossos pais é um livro profundamente humano e uma verdadeira homenagem à coragem e à lealdade.


Uma-Prova-do-CeuUma prova do céu

Dr. Eben Alexander
O testemunho de um neurocirurgião sobre a vida para além da morte
Lua de Papel, 2013

Em novembro de 2008, um reputado neurocirurgião americano contraiu uma espécie rara de meningite. Levado de urgência para o hospital, entrou em coma. Durante sete dias esteve em morte cerebral. Quando a equipa clínica discutia já a hipótese de desligar a máquina, deu-se o primeiro milagre: o médico despertou.
O segundo milagre, só viríamos a conhecê-lo em Uma Prova do Céu. Nos sete dias em que esteve cerebralmente morto, o neurocirurgião viajou até um território inexplorado – a vida depois da morte. O cético cientista, que durante anos negara a existência de Deus, viu-se confrontado com uma experiência transcendente que lhe deixou marcas profundas. Ao sétimo dia, quando emergiu do coma, soube que a sua vida nunca mais seria a mesma.
Autor de mais de 200 artigos científicos, percebeu que a ciência e o divino podem viver lado a lado. E que, como neurocirurgião, iria continuar a investigar os segredos do cérebro, mas agora munido da certeza de que a vida continua depois da morte.


HeregesHereges

Leonardo Padura
Porto Editora, 2015

Em 1939, o S.S. Saint Louis, onde viajavam novecentos judeus fugidos da Alemanha, passou vários dias ancorado no porto de Havana à espera de autorização para desembarcar. Um rapaz, Daniel Kaminsky, e o tio aguardam no cais a saída dos familiares, confiantes de que estes tentariam os oficiais havaneses com o tesouro que traziam escondido: uma pequena tela de Rembrandt, na posse dos Kaminsky desde o século XVII. Mas o plano fracassou e o transatlântico regressou à Europa, levando consigo qualquer esperança de reencontro e condenando muitos dos seus passageiros.
Volvidos largos anos, em 2007, quando essa tela vai a leilão em Londres, o filho de Daniel, Elías, viaja dos Estados Unidos a Havana para descobrir o que aconteceu com o quadro e com a sua família. Só um homem como o investigador Mario Conde o poderá ajudar. Elías descobre então que o pai vivia atormentado por um crime, e que esse quadro, uma imagem de Cristo, teve como modelo outro judeu, que quis trabalhar no atelier de Rembrandt e aprender a pintar com o mestre.
Hereges é um romance absorvente sobre uma saga judaica que chega até aos nossos dias e que vem confirmar o autor como um dos narradores mais ambiciosos e internacionais da língua espanhola.


O Homem que gostava de cãesO homem que gostava de cães

Leonardo Padura
Porto Editora, 2015

Em 2004, com a morte da mulher, Iván, um aspirante a escritor, relembra um episódio que lhe aconteceu em 1977, quando conheceu um homem enigmático que passeava pela praia acompanhado de dois galgos russos. Após vários encontros, «o homem que gostava de cães» começou a confidenciar-lhe relatos singulares sobre o assassino de Trótski, Ramón Mercader, de quem conhecia pormenores muito íntimos. Graças a essas confidências, Iván irá reconstituir a trajetória de Liev Davídovitch Bronstein, mais conhecido por Trótski, e de Ramón Mercader, e de como se tornaram vítima e verdugo de um dos crimes mais reveladores do século XX.
Através de uma escrita poderosa sobre duas testemunhas ambíguas e convincentes, Leonardo Padura traça um retrato histórico das consequências da mentira ideológica e do seu poder destrutivo sobre a utopia mais importante do século XX.


pintassilgoO pintassilgo

Donna Tartt
Editorial Presença, 2015

Theo Decker, um adolescente de 13 anos, vive em Nova Iorque com a mãe, com quem partilha uma relação muito próxima e que é a figura parental única, após a separação dos pais pouco antes do trágico acontecimento que dá início a este romance. Theo sobrevive inexplicavelmente ao acidente em que a mãe morre, no dia em que visitavam o Metropolitan Museum. Abandonado pelo pai, Theo é levado para casa da família de um amigo rico. Mas Theo tem dificuldade em se adaptar à sua nova vida em Park Avenue, e sente uma dor profunda pela falta da mãe. É neste contexto que uma pequena e misteriosa pintura que ela lhe tinha mostrado no dia em que morreu se vai impondo a Theo como uma obsessão. E será essa pintura que finalmente, já adulto, o conduzirá a entrar no submundo do crime.
O Pintassilgo é um livro poderoso sobre amor e perda, sobrevivência e capacidade de nos reinventarmos, uma brilhante odisseia através da América dos nossos dias, onde o suspense e a arte são dois elementos decisivos para prender o leitor.


odisseiahomerA odisseia de Homer

Gwen Cooper
Pergaminho, 2011

A última coisa que Gwen Cooper queria era adotar outro gato. Já tinha duas gatas, para não falar de um emprego em que lhe pagavam uma miséria, e estava a tentar recuperar de uma separação difícil. Até que a veterinária das suas gatas ligou para lhe falar de um gatinho de três semanas, abandonado e maltratado, cujos olhos tiveram de ser retirados cirurgicamente. Gwen era a sua última esperança de encontrar um lar. Foi amor à primeira vista. O gatinho era uma bola de pêlo mínima, preta e assustada e, mesmo tendo consciência das dificuldades que ele enfrentaria por causa da sua cegueira, Gwen decidiu adotá-lo — e ele tornou-se os olhos pelos quais ela passaria a ver o mundo.
Batizado de «Homer» — uma homenagem ao poeta grego supostamente cego, criador da Odisseia e do seu herói, Ulisses — este gatinho cresceu até se tornar um animal forte, confiante, cheio de entusiasmo e com uma vontade inesgotável de brincar! Mas foi a lealdade inabalável de Homer, com sua capacidade ilimitada de amar e o seu exemplo de força, superação e coragem, que levou Gwen a mudar a sua vida. E, quando conheceu o homem com quem viria a casar, Gwen percebeu que Homer lhe tinha ensinado a lição mais importante da vida: que o amor não é algo que possa ser visto com o olhar.


O jardim dos segredos

Kate Morton
Porto Editora, 2014

Uma criança perdida: em 1913 uma criança é encontrada só, num barco que se dirigia à Austrália. Uma mulher misteriosa prometera tomar conta dela, mas desapareceu sem deixar rasto.
Um terrível segredo: no seu 21.º aniversário, Nell Andrews descobre algo que mudará a sua vida para sempre. Décadas depois, embarca em busca da verdade, numa demanda que a conduz até à costa da Cornualha e à bela e misteriosa Mansão Blackhurst.
Uma herança misteriosa: aquando do falecimento de Nell, a neta, Cassandra, depara-se com uma herança surpreendente. A Casa da Falésia e o seu jardim abandonado são famosos nas redondezas pelos segredos que ocultam — segredos sobre a família Mountrachet e a sua governanta, Eliza Makepeace, uma escritora de obscuros contos de fadas. É aqui que Cassandra irá por fim desvelar a verdade sobre a família e resolver o mistério de uma pequena criança perdida.
Um livro marcante, que aborda com mestria a complexidade dos sentimentos humanos.


No país da nuvem branca

Sarah Lark
Marcador, 2014

Londres, 1852. Duas raparigas empreendem uma viagem de barco rumo à Nova Zelândia e tornam-se amigas. Trata-se, para ambas, do início de uma nova vida como futuras esposas de dois homens que conhecem apenas por correspondência. É o começo de uma nova vida com homens que não conhecem. Gwyneira, de origem nobre, está prometida ao filho de um magnata da criação de ovelhas, enquanto Helen, uma jovem precetora, parte para se casar com um fazendeiro. Procuram encontrar a felicidade num país que promete ser o paraíso. No entanto, as ilusões de ambas depressa se esfumam, principalmente quando descobrem que a sua amizade está em perigo porque os maridos são inimigos.
Gwyneira e Helen são mais fortes do que acreditavam ser e rompem com os preconceitos e as restrições da sociedade onde vivem, mas serão capazes de alcançar o amor e a felicidade do outro lado do mundo?
Um romance cativante sobre o amor e o ódio, a confiança e a inimizade, e sobre duas famílias cujo destino está indissoluvelmente unido.


um presenteUm presente muito especial

Joanne Huist Smith
Nascente, 2014

Depois da morte inesperada do marido, Joanne sente-se incapaz de retomar a sua vida e de ser o exemplo de força que os seus filhos, Ben, Nick e Megan, precisam mais do que nunca. Com a aproximação da quadra natalícia, tudo parece ainda mais duro de suportar.
Mas, 12 dias antes do Natal, um presente é deixado misteriosamente à porta de casa, acompanhado de um cartão com a assinatura «Os vossos verdadeiros amigos». No dia a seguir, um novo presente, no dia seguinte mais um presente, e assim acontece, até à véspera de Natal.
Estes 12 presentes irão tornar-se uma dádiva de grandeza incomparável e acabam por dar origem a um milagre: a reaproximação entre mãe e filhos e o fortalecimento dos seus laços de amor.
Uma história que aquece o coração e que mostra como simples atos de bondade são capazes de transformar um momento doloroso num caminho de força e amor.


Enquanto houver estrelas no céu

Kristin Harmel
Porto Editora, 2014

Desde sempre, Rose, ao entardecer, olhava o céu em busca da estrela da tarde. Era aquela estrela, agora que a sua memória estava a abandoná-la, que lhe permitia recordar-se de quem era e de onde vinha; que a transportava para os seus dezassete anos, para uma confeitaria nas margens do Sena. Ninguém conhecia a sua história nem sequer a sua neta, Hope. Num dos seus raros momentos de lucidez sente que é importante falar-lhe de um passado longínquo, que manteve em segredo durante setenta anos e que em breve ficará perdido para sempre. Munida de uma lista de nomes e de fragmentos de uma vida, Hope parte para Paris em busca de respostas.
Para Hope esta será também uma viagem de descoberta: de tradições religiosas há muito diluídas, de histórias vividas numa Paris ocupada onde o amor sobrevive e, sobretudo, da sua capacidade de recomeçar e acreditar em si mesma.

Kristin Harmel escreve com tamanha perspicácia e emoção que as personagens que criou permanecem com o leitor muito depois de este terminar o livro.


Mil sóis resplandecentes

Khaled Hosseini
Presença, 2008

Mil Sóis Resplandecentes é um romance pleno de sensibilidade, que tem como pano de fundo as convulsões sociopolíticas que abalaram o Afeganistão nas últimas três décadas.

Mariam e Laila são duas mulheres que a guerra e a morte obrigam a partilhar um marido comum e cuja coragem lhes permitirá lutar pela sua felicidade num cenário impiedoso.

Uma obra inesquecível que evoca o que há de mais intrínseco em todos os seres humanos: o direito ao amor, a um lar e à integridade, e que reflete sobre as relações humanas face à impunidade e às atitudes de tirania.


Não odiarei

Izzeldin Abuelaish
Planeta, 2012

O doutor Izzeldin Abuelaish — agora conhecido com o “Médico de Gaza” — tornou-se conhecido em todo o mundo na sequência de uma terrível tragédia: a 16 de Janeiro de 2009, bombardeiros israelitas atingiram a sua casa na Faixa de Gaza, matando três das filhas e a sobrinha.
Médico palestiniano formado em Harvard, nascido e criado num campo de refugiados na Faixa de Gaza, Abuelaish tem, ao longo de quase toda a sua vida, cruzado as linhas que dividem israelitas e palestinianos, na qualidade de médico que assiste as vítimas de ambos os lados do conflito; como humanista, tem também pugnado pelos direitos das mulheres a melhor saúde e educação, e pelo desenvolvimento no Médio Oriente.
Como pai de três filhas mortas por soldados israelitas, a sua reação a esta tragédia fez notícia e valeu-lhe prémios humanitários em todo o mundo. Em vez de procurar vingança ou de se abandonar ao ódio, tem apelado ao entendimento entre os povos da região, sendo a sua esperança mais profunda a de que as filhas venham a ser “o último sacrifício no caminho para a paz entre palestinianos e israelitas.”


Holocausto Brasileiro
Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil

Daniela Arbex
Guerra e Paz editores, 2014

Em Holocausto Brasileiro, a premiada jornalista de investigação Daniela Arbex resgata do esquecimento esta chocante e macabra história do século XX brasileiro: um genocídio feito pelas mãos do Estado, com a conivência de médicos, funcionários e população, que roubou a dignidade e a vida a 60.000 pessoas.
Bebiam água do esgoto. Comiam ratos. Morriam ao frio e à fome. Eram exterminados com electrochoques tão fortes, que toda a cidade ficava sem luz, por sobrecarga da rede. Os bebés eram roubados às mães logo à nascença. Nos períodos de maior lotação, morriam 16 pessoas por dia dentro dos muros do Colônia. Ao morrer, davam lucro. Os cadáveres eram vendidos às faculdades de medicina. Quando o número de corpos excedia a procura, eram decompostos em ácido, no pátio, diante dos pacientes. Os ossos eram comercializados. Nada ali se perdia. Excepto a vida.
É a essas 60.000 pessoas que Daniela Arbex devolve agora o rosto e a identidade, num relato que recupera o testemunho dos poucos sobreviventes e dá voz aos milhares que já não podem contar a sua própria história. O hospício de Colônia só foi transformado em verdadeiro Centro Hospitalar Psiquiátrico em 1980.


ettyEtty Hillesum: Uma vida transformada

Patrick Woodhouse
Paulinas, 2011

A 9 de março de 1941, uma judia holandesa de 27 anos de idade, chamada Etty Hillesum — que vivia na cidade de Amesterdão, ocupada pelo inimigo — escreveu a sua primeira entrada num diário, que se tornou um dos mais notáveis documentos surgidos do Holocausto nazi. Ao longo dos seguintes dois anos e meio, uma jovem mulher insegura, caótica e perturbada foi transformada numa pessoa que inspirava todos aqueles com quem partilhava o sofrimento do campo de trânsito de Westerbork e com quem viria a perecer em Auschwitz.
Através dos seus diários e cartas, ela continua a ser alguém de profundamente inspirador: uma jovem extraordinariamente viva e expressiva, que viveu uma espiritualidade de esperança no período mais sombrio do século XX.
Etty Hillesum: uma vida transformada explora a vida e os escritos de Etty, revelando-a como uma figura assombrosamente contemporânea.


as serviçaisAs serviçais

Kathryn Stockett
Saída de Emergência, 2013

Skeeter tem vinte e dois anos e acaba de regressar da universidade. Pode ter uma licenciatura, mas estamos em 1962, no Mississípi, e a sua mãe só a irá deixar em paz quando a vir com uma aliança no dedo. Provavelmente a jovem encontraria conforto junto da sua adorada Constantine, a empregada negra que a criou, mas esta foi embora e ninguém lhe diz para onde.
Aibileen é uma empregada negra que criou dezassete crianças brancas. Mas desde que o seu próprio filho morreu, algo mudou dentro de si. Quem a conhece sabe que tem um grande coração e uma história ainda maior para contar. Minny, a melhor amiga de Aibileen, é a mulher com a língua mais afiada do Mississípi. Cozinha divinamente, mas tem sérias dificuldades em manter o emprego… até ao momento em que encontra uma nova e insólita patroa.
Estas três personagens extraordinárias vão cruzar-se e iniciar um projeto clandestino que as vai colocar a todas em perigo. E porquê? Porque estão a sufocar com as barreiras que definem a sua cidade, o seu tempo e as suas vidas.

Natal no hipermercado – Luísa Ducla Soares

Natal no hipermercado

Muito gostava o Rodrigo de ir à caixa de correio. Quando o Natal se aproximava, estava sempre tão cheia que alguns papéis coloridos ficavam entalados na fresta estreita e comprida. O rapaz puxava-os, mesmo antes de dar a volta à chave, no entusiasmo de descobrir coisas maravilhosas, que apetecia mesmo comprar.

Subia no elevador com meia dúzia de envelopes brancos, sem graça nenhuma, e uma resma de publicidade.

A mãe abria as cartas e punha de lado, com um gesto aborrecido, todos os folhetos.

— Lixo! — irritava-se ela.

Rodrigo nunca recebia correspondência. O pai, que passava a vida em viagens, dantes ainda lhe mandava postais com monumentos ou paisagens. Agora, que comprara um telemóvel de última geração, com máquina fotográfica incorporada, falava-lhe à noite e mostrava-lhe, de relance, um quarto de hotel, um restaurante, o trecho de uma cidade desconhecida.

Certa tarde, depois de ler a correspondência, a mãe perguntou-lhe:

— Então, já está pronta a tua cartinha para o Pai Natal? Espero que a tenhas escrito com uma letra bonita…

— Ainda não. Posso escolher o que eu quiser?

Estava habituado a que se metessem sempre nos seus pedidos. Que lhe sugerissem um blusão novo e umas calças de bombazina, que aconselhassem uma bicicleta para fazer mais exercício.

Mas desta vez a mãe estava ocupada. Tinha de acabar um relatório para apresentar numa reunião. Por isso sentou-se ao computador, despachando-o:

— Decide à tua vontade. Já estás crescido.

Foi o que Rodrigo quis ouvir. Pela primeira vez, era livre!

Sentou-se à secretária no seu quarto azul cheio de carrinhos de colecção.

Sentiu-se paralisado diante do papel intacto, com a esferográfica na mão.

Tinha a cabeça cheia de imagens e ninguém o ajudava a tomar uma decisão. Escreveu:

Um rádio
Um pião
Uma lanterna
Uma mochila nova
Uma caixa de chocolates

Havia várias marcas, tantos tamanhos… E se o Pai Natal se enganava? De repente, surgiu-lhe uma ideia fantástica. Foi ao saco onde enfiava os prospectos que a professora mandara guardar para recortes e tirou alguns.

Muitos dos hipermercados tinham pequenos catálogos só com brinquedos. Pegou numa caneta de feltro e fez um círculo à volta de tudo o que queria. Eram páginas, páginas, mais páginas. Jogos, puzzles, automóveis, patins, máscaras, castelos de armar, jardins zoológicos, escorregas, baloiços, um nunca mais acabar de bonecada.

Não tinha paciência para copiar tudo à mão. Não estava o pai sempre a dizer que é preciso saber utilizar o que os tempos modernos põem à nossa disposição? Amarfanhou a primeira folha e escreveu de novo:

Querido Pai Natal,

Para lhe facilitar o trabalho, este ano mando-lhe folhetos de publicidade dos hipermercados. Assim escusa de andar de loja em loja.
Aviso-o de que é melhor arranjar uma camioneta porque as suas renas não vão poder com o peso. Acho-as muito giras mas bem pode mandá-las para o jardim zoológico porque são animais muito fracos. Os meninos ficavam a ganhar se, em vez da camioneta, arranjasse mesmo um camião gigante.
A minha morada vai na parte de fora, onde diz remetente.
Muitas saudades e desejos de Boas Festas do
Rodrigo

Quando quis meter toda a papelada no sobrescrito normal, evidentemente não cabia.

— Mãe, preciso de um envelope maior.

Ela ficou admirada. Mas foi à gaveta buscar o que o filho pretendia.

Só que, entretanto, Rodrigo já começara a abrir outros folhetos.

— Ah, que belas caixas de chocolates! Não as posso perder!

Havia doces e bolos de todas as espécies, pacotes de batatas fritas, pipocas, queijos amanteigados, pizas estaladiças…

Retirou outro folheto.

E se aproveitasse também as mochilas de rodinhas, os ténis de marca, os fatos-de-treino, as bolas de futebol… Sem falar dos álbuns de banda desenhada, dos livros de aventuras, da enciclopédia do mundo animal…

Sentia a cabeça rodar num turbilhão.

Puxou por outro catálogo repleto de consolas de jogos, outro com computadores, um terceiro de telemóveis.

Podia escolher tudo! Tudo! Tudo! Era de enlouquecer!

Para enviar tanto papel, o envelope grande não chegava.

Num salto, foi até à mercearia e pediu à menina Maria uma caixa de cartão vazia. Logo por sorte, ela acabara de desempacotar o açúcar.

Mal chegou ao quarto, toca a atirar para dentro da caixa a sua enorme provisão de papéis de publicidade.

— Faltará alguma coisa? — disse para os seus botões, inquieto. Voltou a remexer na papelada.

Claro, faltavam os refrigerantes, as coca-colas, os sumos de laranja, os batidos de chocolate e de morango. Estava farto de beber água! Voltou a procurar nos cantos escondidos.

— Como é que eu podia esquecer-me dos gelados?! Que grande seca comer sempre fruta à sobremesa por causa das vitaminas!

Do catálogo da ourivesaria aproveitou só a página dos relógios que eram fantásticos: de ouro, para os dias de festa, de mergulhador, para as férias, com cronómetros, para as corridas. Embora não gostasse de se levantar cedo, aproveitou até um despertador que cantava uma melodia de pássaros.

Esgotado o fornecimento, fechou a embalagem com fita-cola e colocou por cima a cartinha.

Arrastou, a custo, a pesada caixa até à sala onde a mãe via televisão.

— Que vem a ser isto? — espantou-se ela.

— A minha lista para o Pai Natal. Não disse que eu podia pôr o que me apetecesse? Quero tudo, tudo, tudo! O que eu queria mesmo era um hipermercado só, só, só para mim!

Se existe o Pai Natal, é preciso aproveitar!

Poucos dias faltavam para as férias. No recreio, os colegas falavam dos seus sonhos.

— Quero um equipamento de mágico — dizia o Zé.

— Eu também! — atalhava logo o Rodrigo.

— Quero uma máquina de fazer pipocas — dizia a Rita.

— Eu também! — ripostava o rapaz.

— Quero um jogo de computador — dizia a Mafalda.

— Ora, ora, eu vou ter isso tudo e muito mais! — vangloriava-se o nosso herói.

A casa estava toda enfeitada. Na porta de entrada uma coroa de azevinho com bolas vermelhas e pinhas douradas dava as boas-vindas a quem aparecia e lembrava a data que se aproximava.

Junto à lareira acesa estava pendurada uma bota de pano bordada e, em cima da pedra de mármore, a mãe colocara todos os cartões de boas-festas.

A árvore verdadeira tinha sido substituída por uma de plástico, muito verde, farfalhuda, salpicada de estrelas e luzes coloridas, a piscar. Este ano até havia uma música de fundo para animar.

No dia 23, foram esperar o pai ao aeroporto. A avó Catarina veio no comboio de Coimbra e os tios do Porto, carregados de filhos, malas, sacos e embrulhos, chegaram quase à hora da consoada porque apanharam um engarrafamento na auto-estrada.

A mesa brilhava com a mais fina loiça de porcelana, copos de cristal e dois candelabros de prata onde ardiam chamas esguias, que ondulavam sempre que os primos faziam corridas à sua volta.

Rodrigo nem saboreou o jantar, apesar dos elogios que todos lhe faziam. Estava ansioso pelo momento decisivo de abrir as prendas.

— Sentes-te doente? Não comes nada… — alarmava-se a avó. — Prova o peru, está uma delícia.

Quando a rolha da garrafa do espumante acertou no candeeiro, ecoou uma gargalhada geral. Mas Rodrigo olhava para os ponteiros do relógio. Ah, se eles começassem a rodar, a rodar, a rodar a toda a pressa para a meia-noite não tardar…

Como o tempo custava a passar.

Mandaram as crianças brincar para o quarto, depois do jantar, certamente para não se encontrarem com o Pai Natal, pois o maroto prefere entrar pé ante pé, sem que ninguém o veja. Porque será?

Finalmente, no momento em que os dois ponteiros se juntaram em cima do mostrador, soaram ao longe as doze badaladas.

Os miúdos precipitaram-se para a sala. Quem os conseguia conter? Caíram sobre o monte de prendas, procurando decifrar o nome que indicava o feliz possuidor de cada uma dela.

— Ana! — exclamou o tio Alberto, entregando à prima mais pequenina um volume tão grande que ela mal conseguia segurá-lo.

Todos ajudaram a abrir. Era uma boneca.

— Pedro! É para mim! — entusiasmou-se o primo mais velho, rasgando o papel que envolvia uma pista de automóveis.

A mãe, o pai, a avó, a Inês, foram-se apoderando de todas as embalagens que havia no chão.

— E eu? — exasperou-se o Rodrigo, já com uma lágrima ao canto do olho. — Será que o Pai Natal não recebeu a minha carta?

O pai e a mãe olharam um para o outro, sorrindo.

— Parece que falta abrir um envelope.

O rapaz pôs-se de gatas à procura. Entre fitas, lacinhos, papéis rasgados, lá estava ele, tão insignificante que bem passava despercebido. Tinha escrito o seu nome.

— Será dinheiro? Um cheque? — pôs-se a adivinhar o garoto. — Hoje os Pais Natais também devem ser mais práticos… Mas não. Era mesmo uma carta. Dizia assim:

Amigo Rodrigo,

Tinhas razão ao achar que as minhas renas não conseguiam carregar todos os presentes que pedias. Não pude trazê-los no camião gigante porque não tenho carta de condução.
Como o teu sonho era um hipermercado só para ti, vais hoje passar a noite de Natal no maior de todos. Ao amanhecer poderás levar para casa o que quiseres. Desta noite maravilhosa nunca te irás esquecer.
Dentro de cinco minutos estarei aí para te ir buscar.

Pai Natal

— Que sorte! — exclamou o pai.

— Temos de ir também! — exigiam os primos. Mas o Pai Natal só fizera um convite. Paciência…

Rodrigo enfiou o anoraque, um gorro, calçou as luvas porque a aragem devia estar fria e a avó refilava com a saída por causa das constipações.

Trim, trim, trim! tocou a campainha.

Correram todos para a porta. Lá estava o senhor do Natal, vermelho, gordinho, bonacheirão, com longas barbas brancas.

— Já só falta o teu presente — disse ele. — Não consegui estacionar o meu trenó nesta rua porque está atravancada de carros. Queres voar comigo pelos ares até ao terraço onde as deixei?

Rodrigo sentiu um arrepio. Tinha medo das alturas…

— Não podemos ir a pé, pelo chão? Afinal há um hipermercado mesmo ali na esquina.

O Pai Natal acedeu, deu-lhe a mão e, apesar do seu passo pesado, cansado, em breve chegaram às grandes portas envidraçadas.

Como era estranho o hipermercado sem vivalma… O espaço parecia ainda maior, as luzes fluorescentes iluminavam com um branco frio as paredes brancas, o chão esbranquiçado. As prateleiras imensas alinhavam-se como carruagens paradas numa estação fantasma.

— O teu desejo cumpriu-se. Tens tudo isto só para ti durante uma noite. Venho buscar-te quando o Sol nascer.

Dito isto, como que por artes mágicas, o velhote das barbas desapareceu.

Rodrigo desatou a correr entre as filas de expositores atulhados. Ali estavam arrumados os objectos dos seus sonhos e muitos mais, em que nunca pensara.

Encavalitou-se numa mota eléctrica, desfilou pela rua dos detergentes, dos óleos, do papel higiénico.

Abriu três caixas de chocolates e devorou-os porque mal provara o jantar. Atafulhou as algibeiras de bombons. Atirou-se a um bolo de chantilly e não deixou pitada. Para rematar empanturrou-se com gelado de framboesa.

Foi à secção de televisões onde 50 aparelhos transmitiam o mesmo programa. Ligou as aparelhagens de som no máximo. Tentou pôr a funcionar uma consola de jogos mas não atinou com as instruções.

Construiu um castelo medieval, fez um puzzle, um boneco de plasticina e pintou figuras que moldara em gesso, experimentou ténis pretos, azuis, brancos, às riscas. Enfiou todos os fatos-de-treino. Quais lhe ficariam melhor?

Abriu o jogo do monopólio. Rodou os bonecos dos matraquilhos. Atirou ao ar as bolas de futebol. Pena não ter com quem jogar!

Sem gente, o hipermercado ia ficando gelado.

Começou a doer-lhe a barriga. Aquela refeição de gulodices não lhe tinha caído bem…

Enfiou uns patins e foi à procura de um abre-caricas para beber água das pedras. Não dizia a avó que uma dessas garrafinhas curava todas as indisposições de estômago?

Mas onde se esconderiam, no meio de tanta barafunda? Estava tonto de ler rótulos e mais rótulos.

A cabeça andava-lhe à roda, as pernas tremelicavam, desequilibrava-se nos patins. Zás! Estampou-se no mosaico e um fio de sangue começou a escorrer-lhe da testa.

— Quem me acode?!

Ninguém lhe respondia.

Cambaleou até uma cadeira giratória da secção dos computadores. Enfiou um jogo na ranhura da máquina. Era um combate contra monstros terríveis.

Tentou vencê-los mas o soldadinho que ele movia acabava sempre apanhado pelas garras dos inimigos.

Que frio! Que frio! Foi à procura de uma manta, que estava justamente no extremo oposto. Azar! Era preciso andar quilómetros para achar o que queria.

Se ao menos houvesse ali uma cama… Viu lençóis, edredons, toalhas. Mas, de camas, nem sinal.

Onde ficaria a secção dos relógios? Queria saber as horas. Quanto tempo faltaria para sair dali?

Experimentou mais de 20 telemóveis mas encontravam-se todos desactivados.

Afinal estava preso, preso, preso com milhares de coisas à volta. Bateu nos vidros grossíssimos. Nem estremeceram.

— Pai Natal! Pai Natal!

Ninguém lhe respondia.
Pingava-lhe o nariz. Estava a ficar constipado. Acendeu um radiador eléctrico e pôs-se, de cócoras, a aquecer-se. Meteu as mãos nas algibeiras para procurar um lenço. Vieram todas castanhas e peganhentas: os bombons que lá guardara tinham derretido com o calor. Limpou as mãos às calças. Que horror!

Assim, sujas de castanho, parecia que… parecia que não tinha chegado a tempo à casa de banho. Que vergonha! Que diriam os primos quando regressasse? Iam rir à gargalhada.

Para lavar as mãos foi até a peixaria, onde pairava um cheiro a bacalhau e a peixe congelado que dava a volta às tripas.

A cada minuto sentia-se mais maldisposto. Podia agarrar em milhões de objectos mas já nada o interessava.

Tinha de fugir daquele lugar. Deu a volta ao espaço comercial à procura de outra saída. Até as portas de emergência estavam trancadas. Foi buscar um escadote e trepou até uma alta janela das traseiras. Abriu-a a custo, enfiou-se pelo buraco, deixando-se escorregar para o desconhecido.

Caiu sobre um monte de papelões amarrotados junto aos contentores do lixo, que abarrotavam. Havia por ali caixas, plásticos, embalagens de comida fora de prazo.

Que porcaria, pensou o rapaz, ainda mais agoniado.

De repente ouviu um ruído rastejante. Seriam ratos? Baratas? Tinha pavor desses bicharocos. Ia já a fugir quando ouviu miar devagarinho. Era um som tão fraco que mal se ouvia.

Rodrigo deu meia volta, escutou de novo o som, cada vez mais débil como se estivesse quase a calar-se para sempre. Deu por si a levantar aquela tralha em busca do dono de tal voz.

Retirou as caixas amontoadas e dentro da última, no fundo de tudo, estava um gatinho tigrado, com olhos dourados, a luzir. Mal se viu liberto, encostou-se às pernas do salvador, tremendo. Seguia-lhe os passos como uma sombra. O rapaz pegou no animal, leve, leve, e meteu-o dentro do anoraque. Sentia um coraçãozinho assustado bater junto do seu.

Avançou até à entrada principal do hipermercado, sentou-se nos degraus.

No céu, sem Lua, as estrelas pareciam pequenos fósforos que mãos invisíveis acendiam. Entre elas havia uma estrada de luz. Seria a Via Láctea? Era essa a estrada por onde o Pai Natal viajava?

O gatinho ronronou, feliz, e começou a brincar com o fecho do blusão. Rodrigo não estava mais sozinho.

Uma estrela riscou o firmamento. Para onde se dirigia ela?

Uma claridade muito ténue espreitava do Nascente. Então surgiu, na penumbra, o Pai Natal, esfregando os olhos com sono.

— Acabou a noite de Natal. Vou levar-te a casa. Depois tenho um longo caminho a percorrer até poder deitar-me a dormir. Que queres levar contigo? Escolhe, de entre tudo o que viste, o teu presente.

— Está aqui, é meu amigo… — balbuciou o rapaz, mostrando o gatinho.

Seguiram os três, por entre os primeiros raios da madrugada, até casa, onde uma coroa de azevinho, à porta, dava as boas-vindas.

Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006

A tua véspera de Natal

A tua véspera de Natal

Impecável. Foi impecável a tua véspera de Natal. Não te poupaste a nenhum esforço, a nenhuma despesa. Trataste dos mínimos pormenores com a antecedência necessária. Pareceram realmente espontâneos os gestos que deviam ser, ou pelo menos parecer, realmente espontâneos. Houve alegria, houve calor e gratidão à tua volta. Houve também, é certo, uns súbitos abismos de silêncio, uns turvos remoinhos de silêncio. Mas não terás sido tu quem afinal os procurou?

E podes crer que ninguém deu por nada. Correu tudo bastante bem. Logo pela manhã, os teus empregados – embora não manifestassem a exultante gratidão com que sonharas — sempre se mostraram tepidamente reconhecidos com o inesperado aumento das gratificações. Foi uma bela decisão da tua parte: tanto mais bela quanto pareceu tomada à última hora, no preciso momento em que o pessoal à tua roda se reunia para a já tradicional apresentação das Boas Festas. Só o Azevedo se encontrava, há mais de um mês, ao corrente dos teus propósitos; só com ele examinaras, atentamente, ao longo de várias noites, a situação da firma neste último ano. Mas com o Azevedo podes tu contar. Podes contar sempre com aquela gaguejante discrição que toda se enrola nas curvaturas do Azevedo. E, no entanto, às vezes gostarias de lhe dizer que tão patente fidelidade lhe dobra excessivamente a espinha.

Mas fizeste muito bem em convidá-lo depois para almoçar contigo, no espaventoso grill desse hotel onde jamais ele pensara pôr os pés. O pior é que foi aí, durante o almoço, que julgaste sentir a primeira tontura — como se um abismo se tivesse cavado por debaixo da mesa ou como se a própria mesa, do lado onde estavas, se encontrasse em risco de ser tragada por um remoinho.

O Azevedo não se cansara de te louvar; e de informar-te, em doses iguais de muito zelo e algum exagero, das óptimas reacções que o teu gesto provocara em todo o pessoal. Por fim, com bagas de suor já nascidas do esforço de atacar uma laranja com garfo e faca, cometeu a imprudência de repetir-se — como se acaso o ignorasses — que sempre soubeste fazer bem as coisas. Mas de repente deve ter surpreendido qualquer sombra nos teus olhos: apressou-se imediatamente a inquirir se te sentias mal. Respondeste que não; que já passara; que tinha sido só uma tontura. Agora sabes que nem chegou a ser o que dizias; ou que foi mais do que disseste. Descobriras, simplesmente, nas palavras do Azevedo, uma grotesca e impiedosa caricatura de ti próprio: tão grosseiro era o traço com que elas te desenhavam que ficavas com beiços e queixo de quem julga, sob uma testa de dois centímetros, que fazer o bem e fazer bem as coisas serão afinal a mesmíssima coisa.

Aproveitaste a seguir os últimos minutos do almoço (tolo serias se o não fizesses) para cuidadosamente recapitular, com o Azevedo, alguns assuntos porventura pendentes e para o encarregares ainda de umas tantas tarefas. Retiraste do bolso a agenda (mais uma agenda quase no fim!) e lá foste conferindo o cumprimento de certas ordens, a exactidão de uns tantos endereços, por entre os goles de café e do conhaque, por entre o fumo das cigarrilhas de circunstância.

Podes estar tranquilo: seguiram, com certeza, a tempo e horas, todas as caixas de charutos, todos os caixotes de espumante, todos os isqueiros em que mandaste gravar o nome da firma. Amigos, conhecidos, fornece¬dores, clientes, agentes, intermediários, — todos seguramente receberam os teus brindes de Boas Festas. Duas das furgonetas da casa, incumbidas da distribuição, não terão feito outra coisa em todo o dia.

Entretanto (por iniciativa do Azevedo), já tinhas o porta-bagagens do Volvo conscienciosamente atulhado com os presentes para a família. Findo o almoço, foi só pegares no volante; e o Azevedo, depois de te fechar a porta, ainda ficou, fora do passeio, a dissolver-se em mesuras.

Nem te deste ao trabalho de verificar a cor dos vestidos ou a marca dos perfumes que tinhas mandado comprar para a tua mulher e para a tua filha; sequer o nome dos livros ou a qualidade dos brinquedos destinados aos dois gémeos; muito menos, ainda, quais seriam, este ano, as lembranças para a tua cunhada e para a governante. Felizmente para ti, até nisso podes contar com o Azevedo, que já se vai habituando a não ter mau-gosto.

Só em plena estrada, quando vinhas a caminho da quinta, reparaste que te esqueceras do teu genro: hás-de levar tempo a considerá-lo da família. Mas não é certo que ele entrou na família contra tua vontade? E não é certo que faz sempre tudo para se manter à margem, sempre a tirar da barba hirsuta diatribes e remoques de toda a espécie? De qualquer modo, não seria difícil remediar o esquecimento. Mal chegaste à quinta, mandaste apartar e embrulhar três garrafas daquele whisky de que não gostas (do que te enviaram o ano passado) e bem viste, depois, como ele ficou satisfeito (embora talvez contrafeito por estar satisfeito), quando à meia-noite lhas ofereceste.

Vês? Não foi nada má a ideia deste primeiro Natal na quinta. No entanto, assim que chegaste, às quatro e meia da tarde, sentiste de novo entreabrir-se, sob os teus pés, aquela voragem de silêncio. A tua mulher tivera ainda de voltar a Lisboa, com a irmã, para algumas compras de última hora; só retornariam, já noite fechada, na companhia da tua filha e do teu genro. A casa dividia-se, por enquanto, em largas zonas da mais desamparada solidão e em dois pequenos focos de morna actividade: a cozinha, onde parolavam as criadas com a mulher do caseiro, e a sala grande do primeiro andar, já com a lareira acesa e com os teus rapazes, moles e magros, iguais como dois círios, a darem os últimos retoques no presépio. Através das demais divisões, apenas deslizava, a espaços, como um fantasma, a sombra da governante.

Às seis da tarde já não sabias que fazer. Não falando no frio e na humidade, estava demasiado escuro para andar lá por fora. Tiveste de intervir, por duas vezes, em pequenas questões que entre os teus filhos se acenderam. Só por ser véspera de Natal é que não aplicaste um tabefe em cada um. Mostravam-se ambos, aliás, — eles que geralmente se dão tão bem! — implicativos, impacientes, morbidamente insubmissos. E um cão, ao longe, começara a uivar.

Àquela hora, em Lisboa, as ruas estariam cheias de gente… Haveria o calor das luzes, arabescos e serpentinas de luzes, uma ponta de febre a empolgar a multidão, a mágica euforia dos encontros inesperados, o bafo tépido das lojas a derramar-se nos passeios, a agitação de festa que precede a Festa, — tudo aquilo, enfim, a que pretenderas fugir com a solu¬ção do Natal na quinta. Pois seria possível que te apetecesse tamanho tumulto, semelhante balbúrdia? Por muito que te espantasse, parecia-te que sim. Deste contigo a fazer contas: ida e volta, uma hora; mais uma hora que por lá andasses… Era evidente que tinhas tempo.

Mas conseguiste resistir a essa absurda tentação, e foste procurar, ao lado da lareira, na estante cavada na parede, um livro ou uma revista que te ajudassem a passar o tempo.

Deparaste, porém, com um maço de jornais do ano passado, do Verão do ano passado. Grandes títulos a referirem acontecimentos que na altura pareciam grandes. Nem poderias dizer, ao certo, se bem chegaras a dar por eles. No entanto, de um ou outro, mais anódino, paradoxalmente conservavas tão fresca recordação como se fossem da véspera. E entanto já tinham rolado dezasseis meses! Mas que estariam ali a fazer aqueles jornais? De súbito, perante uma data, compreendeste: eram os jornais em que viera publicada a participação da morte da tua mãe, a notícia do enterro, o convite para a missa do sétimo dia. Ali tinham ficado aquele tempo todo, não por incúria ou esquecimento, mas porque o Azevedo organizara, no escritório, com recortes de outros exemplares, um dossier completo. De qualquer modo, trataste de recortar, pacientemente, os duplicados que vinham assim ao teu encontro; e por fim recolheste-os na carteira, ao lado do retrato da tua mãe. Só depois atiraste ao fogo o maço dos jornais — como se pretendesses, com esse gesto, para sempre queimar aqueles dias.

Saberias acaso explicar como de novo te encontraste ao volante do carro? Não tinhas, no entanto, a impressão de fugir; sequer a de buscar fosse o que fosse. Era apenas como se urgisse completar, para lá do nevoeiro, o ritual de guardar os recortes, a decisão de queimar os jornais. Os faróis do automóvel encaminhavam-te para Lisboa, a preceder-te, a orientar-te, como as mãos do sonâmbulo que vão à frente rasgando a escuridão. Confusamente compreendias que tinha sido já um aceno, embora falso, o das ruas cheias de gente, cheias de luzes e de bulício. Era afinal outra Lisboa que a tua alma te pedia. Evitaste, por isso mesmo, ao chegar à cidade, as avenidas que atravessam os novos bairros e conduzem ao centro, para seguires à beira-rio, por entre as docas, até subires, por fim, à rua onde nasceste, onde a infância te correu.

Deixaste o carro ao pé do arco: começavam ali os teus reinos de outrora. E principiaste a trepar a rua estreita, ziguezagueante, de casas pobres e sombrias que alternavam, agora, com prédios novos não menos lúgubres. Como o Natal continuava a chegar timidamente àquelas paragens! Havia apenas, nalgumas montras, um sortido de objectos mais faiscantes, votos de Boas Festas desenhados nos vidros com algodão, lampadazinhas de cor a iluminarem um ou outro modestíssimo presépio.

E, de repente, aquele abalo que sentiste. Já sabias que o prédio tinha sido demolido, pouco depois da morte da tua mãe; mas não esperavas encontrar de chofre, em lugar dele, esse imenso montão de escombros — e, por cima, um tão ostensivo cubo de nada no local exacto onde a vossa casa tinha existido. Surpreendeste-te a reconstituir, por alturas do primeiro andar, a caprichosa sucessão das quatro acanhadas divisões, a disposição dos móveis dentro de cada uma, até mesmo o volume, a forma, a cor, o tacto, o cheiro de alguns deles. E tudo aquilo te pareceu perfeito, milagrosamente certo à força de ser simples.

Então, compreendeste as razões da tua mãe para tão apegada se sentir àquelas coisas e para só consentir em passar curtíssimas temporadas em tua casa. Mas compreendeste também, pela primeira vez, como tu próprio, por comodismo, antes de haveres entendido o que entendias agora, te dispunhas sempre a aceitar essas mesmas razões; e como essas mesmas razões, no fim de contas, de premeditada desculpa te serviam para não insistires suficientemente com ela. O pior é que os dois factos te apareciam com idêntico peso, um e outro tão maciços e inamovíveis que não te davam espaço para teres remorsos nem para os não teres. E concluíste que não é fácil, em estado puro, poder sentir-se o quer que seja: muito menos alguma coisa que em bloco te pungisse, mas que de súbito, e em bloco, ao mesmo tempo te libertasse.

Desceste e subiste a rua, tornaste a descê-la, voltaste a subi-la. De cada vez que paravas diante dos escombros, animava-te ainda a esperança de te sentires totalmente ilibado ou de enfim experimentares um remorso a valer. Em certos momentos, quando mais próximo te julgavas de o atingir, mais aconchegado se recompunha, na tua memória o interior da casa desaparecida; e, depois, era como se a tua memória o projectasse sobre aquele écran de vácuo e de penumbra. Aliás, com os olhos fechados ou abertos, reconstituía-se tudo do mesmo modo: o quarto da tua mãe, o teu quarto; a cozinha onde a um canto se improvisara a minúscula casa de banho; a sala de estar, e de jantar, com a sacada sobre a rua; os vasos com begónias, a máquina de costura, o soalho encerado, os tectos baixos com florões de estuque; o armário enorme, que atravancava o corredor; e a talha de barro vidrado sobre o poial da cozinha; e a varanda, ao fundo, com a escada de ferro que dava para o quintal.

Vias tudo com tanta nitidez que se tornou praticamente um jogo, de certa altura em diante, ires sobrecarregando de pormenores, que há muito supunhas esquecidos, aquele cenário já não atulhado de móveis, de objectos, de utensílios, de bugigangas. Mas subitamente reparaste, quase aterrado, que só não conseguias imaginar, ali dentro (ali dentro?), a presença viva de quem quer que fosse. Nem o que mais te agradaria reevocar nesse instante: a atmosfera — que apenas abstractamente recordavas — de certas noites de Natal. E foste sensato em não ter insistido.

Mais tarde, de novo no automóvel, já fora de Lisboa, perguntaste a ti próprio se não teria sido um capricho de rico esse teu gesto de buscares, no passado, o cenário longínquo dos teus Natais de pobre. Melhor seria, de qualquer modo, não dizeres nada a ninguém. Quem saberia compreender-te? O teu genro deixaria escapar, de entre a barba agressiva, qualquer coisa como «complexo de culpa». O Azevedo, sim, haveria de louvar-te: tanto, porém, que ficarias enojado de ti mesmo. A tua mulher talvez sorrisse com amizade; ou talvez antes por distracção. E a tua filha evitaria, por todas as formas, dar a entender fosse o que fosse. Quanto aos rapazes — ainda não têm idade para entender. Mas sentias-te, apesar de tudo, inexplicavelmente mais completo: como se, pelo menos, tivesses tentado restaurar, dentro de ti, de ti para ti, um circuito que se encontrava interrompido.

E a reunião, à noite, correu o melhor possível. Nem te mantiveste, como é costume, em pé-de-guerra com o teu genro. Houve alegria, houve calor e gratidão à tua volta. Foram espontâneos os gestos que deviam ser espontâneos. Não há razão, agora, para teres ficado nesta espertina. Trata mas é de adormecer. Já é tarde. Ou cedo ainda, se preferes. Mais minuto, menos minuto, começarão os galos a cantar.

David Mourão-Ferreira
in «Natal»
(Arcádia)

João Alfacinha da Silva (Org.)
Textos para o Natal
Edição do F. A. O. J. Série C, Nº 11
Lisboa, 1979