Sobre contadores.destorias

Contadores d’Estórias é um blogue criado por um grupo de professores empenhados em incentivar o gosto pela leitura. Esta iniciativa possui apenas uma motivação pedagógica, não havendo, por isso, qualquer interesse financeiro envolvido. estorias.em.portugues@gmail.com

Aldeia

foto paisagem laranja m

recordo os abraços de mãe
nas noites de trovoada
e de lhe perguntar se aquela chuva toda
ia inundar o mundo.
recordo aquela manta que servia toda a família
quando chegava a hora da novela.
e aqueles passeios pelo campo
sem destino ou direcção.

as lareiras iluminavam as noites
de cheiro a madeira queimada,
a escuridão combatia-se com a luz fraca
dos candeeiros da rua.
e nós cantávamos canções,
dizíamos boas noites aos avós e tios,
e depois mergulhávamos nos lençóis gélidos.

ao nascer do dia
seguíamos em excursões sem fim,
prometendo a nós próprios
desbravar o mundo.
e o mundo era aquele campo de milho,
a ribeira e os sapos,
as pinhas
(que aqueciam a casa)
e as amoras
(que davam para fazer geleia).

recordo as incursões ao rio
e de como invejava o miúdo que nadava até uma pedra.
tão distante como daqui à lua, julgava eu.
recordo os dias de feira,
das galinhas, patos e perus.
recordo aqueles homens e mulheres
com as linhas da mão sujas
pelas enxadas que trabalhavam a terra
e pela lenha que tinham de cortar
para vencer o frio.

vivia-se com pouco,
mas vivia-se com um sorriso.
agora parecem memórias distantes,
impossíveis de repetir.

resta este poema
e a alegria de saber
que tudo isto existiu
a memória deixa assim
de
morrer
comigo.

Rodrigo Ferrão

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A leitura aproxima as pessoas

livro palavras 1 m

Os bons escritores são aqueles que conseguem colocar os leitores na pele do outro. Creio ser essa a maior virtude da leitura. Ao entrar na pele de diferentes narradores, ao sentir-se parte de outras vidas, o leitor vai-se percebendo também parte da restante Humanidade. Tenho para mim, e atrevo-me a partilhar com vocês esta convicção — ingenuidade, dirão os cínicos —, que os grandes leitores tendem a ser menos inclinados à violência. Primeiro, porque a violência é sempre um recuo do pensamento.

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Vedações

barco refugiados px m

Acordo com um peso nos ombros. Somos um mundo feito de naufrágios, penso, agarrada às notícias desse mar do meio onde se sepultam os esfomeados.

Penso sempre em Agostinho da Silva que alertou para a chegada dos do sul a desnortear a Europa. Entristeço ao saber este lugar de ricos a erguer vedações farpadas para que não entrem os que nada têm senão, ainda, o desejo de viver.

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