A criança no sótão

 

livro luz 3m

 

Vou chamar-lhe Walter, embora esse não seja o seu verdadeiro nome.

Walter era uma criança esperta que não se empenhava muito nos estudos.

Um dia, a sua vida mudou radicalmente. O pai abandonou-o e aos irmãos, deixando a mãe com três rapazes para cuidar. Como o Estado não fornecia qualquer tipo de apoio a mães trabalhadoras, a mãe de Walter trabalhava em vários lados a fim de assegurar o sustento dos filhos. À medida que as férias grandes se aproximavam, começou a preocupar-se com os perigos a que os filhos estariam sujeitos ao vaguear pelas ruas enquanto ela trabalhava. Continuar a ler

Tolerância

O sentido literal de tolerância é “suportar em silêncio”. A palavra possui, no entanto, outros sentidos, que passo a enumerar:

a) Enfrentar o contraditório. Testar os limites daquilo em que acredito ou penso acreditar. Ter consciência da minha própria sombra, que  tantas vezes vejo refletida nas palavras e nos atos dos outros. Continuar a ler

Adoro a minha parede

Um sábado, depois da nossa excursão pela Pizza Hut, pelo centro comercial e pelo cinema, levei a minha afilhada Samantha, de dez anos, à nova residência da sua família. Quando saímos da auto-estrada para uma estrada de terra que ia ter à sua casa, fiquei desolado ao ver que ela e os pais estavam a viver num velho autocarro escolar no meio do campo.

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Professores e alunos

Professores e alunos

Há uns anos fiz uma investigação em várias escolas secundárias de Lisboa. Depois de ter analisado os problemas dos jovens que tinham feito tentativas de suicídio, quis saber o que pensavam sobre o tema alunos que nunca tivessem ido a uma consulta de Psiquiatria. Numa das escolas conheci uma professora do Conselho Executivo com quem travei um inesquecível diálogo.

Depois de lhe explicar o objetivo do estudo, pretendi falar com os estudantes. Respondeu-me que não valia a pena, poderia falar com muitos alunos na minha consulta hospitalar. Disse-lhe que queria falar com jovens… normais. Então encostou-se na cadeira, segurou os óculos de lentes grossas e disse-me: «NORMAIS?! Normais aqui nesta escola? Não existem!»  Continuar a ler

A arte da lentidão

A arte da lentidão

José Tolentino Mendonça*

Talvez precisemos de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados.

À conta disso, os ritmos de atividade tornam-se impiedosamente inaturais. Cada projeto que nos propõem é sempre mais absorvente e tem a ambição de sobrepor-se a tudo. Os horários avançam, impondo um recuo da esfera privada. E mesmo estando aí é necessário permanecer contactável e disponível a qualquer momento. Passamos a viver num open space sem paredes nem margens, sem dias Continuar a ler

Os fantasmas de Evros

Vêm de África, do Magrebe, do Afeganistão… Todas as noites tentam franquear, clandestinamente, as portas da Europa, nos confins do espaço Schengen, entre a Grécia e a Turquia. Centenas de pessoas já deixaram a sua vida nas águas do rio Evros, no país que faz tremer o Velho Continente e por onde passam cada vez mais os náufragos do sonho europeu.

Para já, não passa de um retângulo de arame farpado, ao mesmo tempo ameaçador e irrelevante, plantado na fronteira. De um lado, a bandeira turca e os minaretes de Edirna. Do outro, a Grécia e, sobretudo, o espaço Schengen, uma Europa sonhada que milhares de imigrantes tentam alcançar. Logo o retângulo se torna vedação: 12,5 quilómetros de comprimento, 3 metros de altura, câmaras por todo o lado, para repelir os clandestinos. Assim decidiu o Governo grego. Mas será que podemos impedir a chuva de cair? Já há mais de um ano que os clandestinos evitam aventurar-se nesta zona militarizada, entre a Grécia e a Turquia, uma planície lisa como uma pedra, sem uma árvore para os esconder das patrulhas policiais.
Hoje, o verdadeiro «muro» está um pouco mais a sul. Ao longo do rio Evros, que corre 180 quilómetros entre os dois países. Todos os dias, todas as noites, são centenas a tentar passar. Amontoados aos quinze ou vinte em barcos insufláveis, tal como aqueles que vemos nas praias. Ao longo das margens do Evros, as embarcações rebentadas e os montes de roupas abandonadas formam manchas coloridas. Papéis, cartas, mochilas… E, por vezes, também corpos. Cadáveres de afogados. Um a dois por semana, pelo menos, recenseados do lado grego. A corrente não quer saber de bandeiras nem de fronteiras.
Que vale isso, uma vida? Para«300561a», anónima, sexo feminino, 20 a 30 anos», não vale grande coisa. Clandestina, nunca existiu nos registos da polícia. Os seus documentos flutuam algures nas águas do Evros. A «300561a» é um fantasma. Exceto talvez para Pavlos Pavlivis, o responsável da morgue de Alexandroupoli, pequena cidade grega do Sul da região. Este homem calmo apesar das unhas roídas até fazer sangue deu à jovem uma existência administrativa e um número de processo («300561a»). Atribuiu-lhe um «processo». Quatro folhas dispersas e um envelope de onde surgiu este tesouro, ainda manchado pela lama do Evros: brincos, uma pulseira, um colar com um minúsculo pendente de couro cozido. «Há uma oração no interior», diz Pavlivis. «Uma sura do Corão. Esta desconhecida era, pois, muçulmana. Talvez da Somália ou da Nigéria…»

VIDAS ‘LOWCOST’ Continuar a ler

…vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam (Shahenaz Kureshi, 18 anos)

Chamo-me Shahenaz Kureshi.

Tenho 18 anos e vivo com a minha mãe nos bairros de lata de Nagpur. O meu pai, Hakim Kureshi, queria desesperadamente ter um herdeiro varão e, por isso, ficou furioso com a minha mãe quando eu nasci. De­pois de eu nascer, começou a mal­tratá-la, tanto física como men­talmente. Considerava o facto de eu ser a primeira criança do sexo feminino da sua família como uma ofensa pessoal e tentou matar-me.

Por fim, a minha mãe decidiu deixá-lo para me salvar.

Quando tinha apenas um mês, a minha mãe partiu da nossa terra natal em Orissa, em direção a Nagpur, onde viviam os meus avós maternos. Mas, quando lá chegámos, eles não quiseram receber-nos. A minha mãe sentiu-se completamente desamparada e, nos dias seguintes, vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam.

Para piorar ainda mais a situação, Continuar a ler

…e largou-o. A ele, à droga e à prostituição (Inês 43 anos)

Rebelde, com boa imagem e uma vontade imensa de experimentar coisas novas, deixou-se aliciar por um estado surreal que alguns traficantes lhe proporcionavam através da droga. Tinha 19 anos, na altura, e trabalhava num hipermercado.

Deixou-se levar, e em três tempos estava no Técnico a prostituir-se. Na primeira vez que se prostituiu, encontrou um homem que a tratou bem e a tentou desincentivar desse caminho, mas o vício e a necessidade de ter dinheiro eram superiores a qualquer tipo de consciência. “Adorava consumir. A droga é uma maravilha, o pior é conseguir sustentá-la.” E começou logo a ter muitos clientes, a prostituir-se de dia e de noite e a consumir cada vez mais, “ao ponto de adormecer assim que entrava num carro”. Ainda assim, sabia que tinha de parar. “Ou parava ou morria”. O acesso à droga era facílimo. Continuar a ler

Os novos abolicionistas

Retirado de A condição da Mulher

OS NOVOS ABOLICIONISTAS

Embora, em termos globais, as mulheres não tenham alcançado posições de topo como líderes políticas, são elas que encabeçam as fileiras do empreendorismo social. Mesmo em países onde os homens monopolizam o poder político, as mulheres constituíram organizações influentes e têm desempenhado um papel catalisador como agentes de mudança. Muitas mulheres tornaram-se empreendedoras sociais para poderem assumir posições de liderança no novo movimento abolicionista contra os traficantes de sexo. Uma delas, Sunitha Krishnan, um Membro da Ashoka[1] na Índia, é uma figura lendária nesse domínio.

Oriunda da classe média, Sunitha frequentou um infantário em criança. Quando chegava a casa, pegava numa lousa e ia ensinar a um grupo de crianças pobres o que aprendera nesse dia. Essa experiência marcou-a tanto que decidiu tornar-se assistente social. Fez estudos universitários na Índia e a sua atenção centrou-se na literacia. Um dia, quando, acompanhada por um grupo de colegas, tentava ajudar alguns pobres de uma aldeia, foi interrompida por um bando de homens que se ressentia da sua “interferência”.

“Como não gostaram do que estávamos a fazer, decidiram dar-nos uma lição,” recorda Sunitha.

Num inglês de classe média-alta, o que a faz parecer mais uma professora universitária do que uma ativista, Sunitha descreve, de forma analítica e neutra, embora incisiva, a violação de que foi alvo e a sua recusa em fazer uma denúncia, por achar que era tempo perdido. Contudo, esse ato levou à estigmatização da sua família e à sua culpabilização.

“Não foi tanto a violação que me afetou como a forma como a sociedade me tratou. Ninguém questionou a motivação daqueles homens. Apenas questionaram a razão da minha presença ali e o facto de os meus pais me terem dado liberdade para eu o fazer. Compreendi que o sucedido fora um episódio isolado para mim, mas que, para muitas mulheres, era algo que ocorria todos os dias.”

Sunitha decidiu, então, dedicar-se à abolição do tráfico sexual em vez de à implementação da literacia. Viajou por todo o país e falou com o maior número de prostitutas possível, num esforço para compreender o mundo do sexo comercial. Estava a viver em Hyderabad, quando a polícia levou a cabo uma ação repressiva numa das zonas de meretrício, talvez porque os donos dos bordéis não lhe tivessem pago subornos suficientes ou precisassem de um “incentivo”. A ação teve consequências catastróficas. De um dia para o outro, os bordéis da zona foram fechados, sem que as raparigas que lá trabalhavam recebessem qualquer tipo de apoio. As prostitutas eram alvo de um tal estigma que não tinham para onde ir nem tinham forma de ganhar qualquer tipo de sustento.

“Muitas daquelas mulheres começaram a suicidar-se,” recorda Sunitha. “Quando ajudei a cremar corpos, vi que a morte funcionava como um fator de união entre as pessoas. Quando perguntei às mulheres o que queriam que fizéssemos por elas, pediram que fizéssemos antes algo pelos filhos.”

Sunitha começou a trabalhar com um missionário católico, o Irmão Joe Vetticatil. Embora ele já tenha morrido, Sunitha ainda mantém uma fotografia dele no seu gabinete e a fé dele marcou-a profundamente.

“Embora seja uma hindu convicta, considero os ensinamentos de Cristo muito inspiradores,” comenta.

Sunitha e o Irmão Joe abriram uma escola num antigo bordel. No início, apenas se inscreveram cinco de entre os 5 mil filhos de prostitutas que tinham direito a frequentar a escola. Mas a escola cresceu e, em breve, Sunitha começou a construir albergues, não só para as crianças, mas também para as raparigas e mulheres que tinham sido libertadas dos bordéis. Chamou Prajwala à sua organização, que significa “Uma Chama Eterna”, e cujo endereço eletrónico é http://www.prajwalaindia.org.

Embora uma zona de meretrício tenha sido fechada, havia outras em Hyderabad e Sunitha começou a organizar operações de resgate das prostitutas que trabalhavam nos bordéis. Percorreu as periferias mais abomináveis e sórdidas da cidade para falar com elas e tentar convencê-las a organizarem-se e a denunciarem os proxenetas. Em seguida, confrontou proxenetas e donos de bordéis, numa tentativa de recolher informações para entregar na polícia e convencer os agentes a levar a cabo mais ações repressivas. Tudo isto enfurecia os donos das casas de passe, que não compreendiam por que razão uma mulher minúscula lhes fazia frente e tornava o seu negócio tão pouco lucrativo. Organizaram-se e exerceram represálias, atacando Sunitha e todos quanto trabalhavam com ela. Partiram-lhe um braço e deixaram-na surda de um ouvido.

O primeiro empregado de Sunitha foi Akabar, um antigo proxeneta que tomou consciência do mal que cometera e que lutou de forma valerosa para ajudar as raparigas da zona de meretrício. Mas os donos dos bordéis retaliaram, apunhalando-o até à morte. Foi quando teve de contar à família de Akabar como este morrera que Sunitha se deu conta da necessidade de ser mais cautelosa.

“Apercebi-me de que a nossa abordagem não era sustentável. Se quiser levar a cabo uma tarefa duradoura, tenho de prestar contas à minha equipa e às suas famílias. Não posso esperar que ajam todos como eu.”

A organização Prajwala começou a trabalhar com o governo e com grupos de ajuda para fornecer reabilitação, aconselhamento e outros serviços. Sunitha arranjou forma de ensinar as antigas prostitutas a fazer artesanato e encadernações — algo que outras organizações também costumam fazer — bem como a ser soldadoras e carpinteiras. Até agora, Sunitha já ajudou a reabilitar 1500 mulheres, ao fornecer-lhes estágios de trabalho de seis a oito meses que lhes vão permitir iniciar carreiras novas. A Prajwalatambém ajuda as mulheres a regressar às suas famílias, a casar, ou a viver sozinhas. Sunitha afirma que, até agora, 85 por cento das mulheres têm conseguido manter-se afastadas da prostituição, enquanto 15 por cento regressaram a ela.

“Há mais prostituição agora do que quando começámos a trabalhar,” declara, com tristeza. “Quase diria que falhámos, porque em cada dez raparigas que salvamos, entram outras vinte nos bordéis.”

Nós, contudo, cremos que este balanço é demasiado pessimista.

Comemos em conjunto um almoço simples servido em pratos de lata amolgados. Enquanto debica o seu chapati, Sunitha entabula conversa com uma das suas voluntárias, Abbas Be, uma jovem de cabelo negro e pele castanha clara. Abbas tinha sido levada para Deli em adolescente para trabalhar como empregada doméstica, mas acabou num bordel, onde a espancavam com um bastão de críquete para a forçar a obedecer. Três dias depois da sua entrada, Abbas e as setenta raparigas foram forçadas a assistir ao castigo infligido a uma outra adolescente, que tinha repelido os clientes e tentado incitar as outras raparigas a rebelar-se.

Quando Abbas foi libertada durante um raide, Sunitha encorajou-a a vir para a Prajwala e aprender uma profissão. Neste momento, Abbas está a iniciar-se na arte da encadernação e ensina as outras raparigas da organização a evitarem ser traficadas.

Ambas desejam que todos os bordéis sejam fechados e não apenas regulamentados e a opinião de Sunitha tem cada vez mais impacto na região. Há uma dezena de anos atrás, seria impensável que uma jovem assistente social, de baixa estatura e com um pé aleijado, pudesse ter alguma influência sobre as máfias que dirigem os bordéis de Hyderabad. Os grupos de ajuda eram demasiado sensatos para se imiscuírem no problema. Contudo, Sunitha entrou corajosamente nesse mundo e fundou a sua própria organização, numa atitude que é caraterística dos empreendedores sociais. Embora pareçam, por vezes, pessoas pouco razoáveis e difíceis, são estas mesmas caraterísticas que as tornam bem-sucedidas.

Sozinha, Sunitha não teria tido recursos para fazer campanha contra os bordéis. Foram os doadores americanos que a apoiaram e ampliaram o seu impacto. A título de exemplo, um dos maiores apoiantes dos programas da Prajwala tem sido a organização americana Catholic Relief Services[2].

As redes de apoio e as referências que Bill Drayton tem feito a ela, enquanto Membro da Ashoka, também ajudaram a alargar a sua influência. Este é o tipo de aliança entre o primeiro e o terceiro mundo de que o movimento abolicionista necessita.

Nicholas D. Kristoff & Sheryl Wudunn
Half the sky – How to change the world
London, Virago Press, 2010
(Tradução e adaptação)

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[1] Fundada pelo americano Bill Drayton em 1980, a Ashoka é uma organização mundial, sem fins lucrativos, pioneira no campo da inovação social, do trabalho e do apoio aos empreendedores sociais – pessoas com ideias criativas e inovadoras capazes de provocar transformações com amplo impacto social. (N.T.)

[2] A agência humanitária oficial da comunidade católica dos Estados Unidos. (N.T.)

Crianças abandonadas

Crianças abandonadas

Aumentam na Europa os bebés abandonados em “rodas” modernas

  

ONU revela-se contra as caixas onde os bebés são deixados

Em vários países europeus, os bebés indesejados são abandonados numa espécie de “caixas” semelhantes à “roda”, na Idade Média. Em 12 anos, mais de 400 crianças foram deixadas nesses dispositivos. As Nações Unidas consideram que é uma violação dos Direitos da Criança.

Na Idade Média, em Portugal, os bebés ilegítimos eram colocadas na chamada Roda dos Enjeitados que foi oficializada em 1783 por Pina Manique, Intendente Geral da Polícia. Foi por sua iniciativa que foram criadas as Casas de Roda para receber essas crianças indesejadas. Esses depósitos de recém-nascidos foram extintos por decreto em 1867. Hoje, os bebés indesejados são entregues em instituições e muitos deles são depois candidatos à adoção.

O recurso a sistemas semelhantes ao da “roda” para abandonar bebés recém-nascidos está a aumentar na Europa. Na República Checa, na parede exterior do edifício da clínica GynCentrum, no leste de Praga, está colocada uma “caixa” que recolhe bebés indesejados. É um local isolado, onde as mães podem evitar ser vistas. No interior desse dispositivo encontram-se folhetos em checo, russo e inglês, com números de telefone que oferecem ajuda às mães que mudem de ideias. Logo que a criança é ali deixada, soa um alarme dentro da clínica para alertar os enfermeiros que recolhem o recém-nascido do outro lado da parede. Dezassete bebés foram deixados na “caixa” da clínica checa desde que abriu em 2005, segundo Lenka Benediktova, uma das responsáveis, ouvidas pelo The Guardian.

Esta é um dos 50 dispositivos para o efeito colocados em todo o país pela Fundação para Crianças Abandonadas (Statim), uma ONG privada dirigida por Ludvik Hess, um pai de 20 filhos, oito biológicos e os outros adotados, que se diz poeta e empresário e afirma agir por motivos humanitários. Cada um custa 39 mil euros e os fundos são angariados junto de empresas, incluindo um dos maiores bancos da República Checa, o Komercni.

 Graças a estas “caixas”, 75 bebés já foram salvos, segundo Ludvik Hess. O objetivo é instalar 70 equipamentos destes para fazer a cobertura de todos os distritos do país, ajudando as mães solteiras e acolhendo os bebés indesejados para os dar para adoção. Zuzana Baudysova, diretora da Fundação Criança, uma instituição checa de caridade para crianças, nota que esta iniciativa beneficia muitos bebés indesejados, filhos de mulheres de outras nacionalidades. “Muitos delas não são checas, mas dos Balcãs, Albânia ou Roménia. Algumas são imigrantes africanas”, diz, acrescentando não ter dúvidas de que, “se as caixas não existissem, alguns desses bebés seriam deitados no lixo”.

Nações Unidas preocupada

O aumento destas caixas que acolhem bebés na Europa está a preocupar cada vez mais as Nações Unidas por considerar que esta prática “contraria o direito da criança a ser conhecida e cuidada pelos seus pais”. O comité da ONU que zela sobre o cumprimento dos Direitos da Criança mostra-se alarmado com o aumento destas “caixas” colocadas geralmente no exterior dos hospitais. Este comité lamenta que as “rodas”, que já tinham desaparecido da Europa no século passado, reapareceram na última década e totalizam quase 200 em países tão diversos como Alemanha, Áustria, Suíça, Polónia, República Checa e Letónia.

Desde 2000, mais de 400 crianças foram abandonadas nesses dispositivos. Em França e na Holanda, as mulheres têm o direito ao anonimato após o parto; no Reino Unido continua a ser um crime abandonar secretamente uma criança. Para os funcionários da ONU, a existência destas “caixas” viola uma das ideias básicas da Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC), que diz que estas têm direito a conhecer os seus pais e, mesmo em caso de separação, o Estado tem o dever de “respeitar o direito da criança a manter relações pessoais com o pai ou a mãe “. No ano passado, o comité das Nações Unidas recomendou ao Governo da República Checa que tomasse “todas as medidas necessárias para acabar com a situação o mais rapidamente possível”. Tal não está a acontecer.

 

Jornal “O PÚBLICO”

11.06.2012

Gratidão: Uma Atitude de Cura

Gratidão: Uma Atitude de Cura

Dr. Emmett E. Miller

O Dr. Emmett E. Miller ensinou, com sucesso, as pessoas a melhorar a sua saúde e bem-estar durante mais de vinte e cinco anos. As suas cassetes de relaxamento e imagética (I am, Letting go of stress e Healing journey, entre outras) são o padrão reconhecido por todo o mundo e são muito utilizadas por atletas olímpicos, homens de negócios, médicos e outros actores das artes curativas. O seu novo livro intitula-se Deep heeling: the essence of mind/body medicine.

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Olhem só para a minha vida! Devia eu estar a sentir gratidão, ou será que fui enganado? Estará o copo meio-vazio ou meio-cheio?

Posso queixar-me por as roseiras terem espinhos, ou posso estar grato por alguns arbustos espinhosos darem rosas. A nível puramente intelectual ou «científico», estas duas atitudes são equivalentes. Mas, na vida real, faz uma diferença enorme qual escolhemos.

Quando a imagem que temos de nós próprios em relação ao mundo nos retrata como vítimas, o sentimento de impotência que daí resulta é transmitido através de todo o sistema. A consequência física disto pode ser a falha ou colapso de um órgão ou de um sistema de órgãos.

Quer sintamos gratidão e opulência, ou perda, privação e ressentimento, é criado um estado químico interno correspondente. Este estado, por sua vez, gera comportamentos característicos – saúde ou doença, autoridade/impotência, realização/descontentamento, sucesso/fracasso.

No meu exercício médico (medicina de mente/corpo), a importância da gratidão é notoriamente clara de um ponto de vista psicofisiológico – as pessoas gratas curam-se mais depressa; elas são capazes de eliminar comportamentos nocivos das suas vidas com maior facilidade; elas são mais felizes.

Em vinte e tal anos de exercício, fiz uma descoberta interessante. Há uns que aproveitam o que aprendem comigo para fazer alterações profundas nas suas vidas; há outros, cujos sintomas e doenças são exactamente os mesmos, que têm dificuldade em curar-se ou mudar os seus comportamentos. Os pacientes que estão gratos pelas sessões que temos, que reconhecem a energia e a concentração que lhes dou, são aqueles que se dão bem. Aqueles que têm suspeitas e desconfianças, que acham que as sessões deviam ser mais longas ou menos dispendiosas, que se perguntam se estarão a ser «enganados», demoram muito mais tempo a mudar. E óbvio, pela sequência de acontecimentos, que a gratidão (ou falta dela) vem primeiro.

O modo como vemos o mundo modela as nossas respostas aos desafios que a vida nos apresenta. Um sentido de gratidão dá-nos poder para escolhermos com sensatez… como nos sentimos, o que dizemos, aquilo em que acreditamos, o que fazemos. Que absurdo é da nossa parte, os americanos, que somos mais ricos e consumimos dez vezes mais os recursos do que 95 por cento da população mundial, que, em média, vivemos mais vinte e cinco anos do que os nossos bisavós, que nos deleitamos com a nossa liberdade pessoal e potencial, concentrarmo-nos no «meio-vazio». A gratidão leva-nos a ver o que está disponível, o que pode desenvolver-se. Afinal, não há nada com que trabalhar na parte vazia do copo.

Sem a atitude de gratidão, resulta um sentimento de privação bem conhecido, por exemplo, dos 60 por cento de americanos obesos. De um modo semelhante, os fumadores, alcoólicos e toxicodependentes – cuja qualidade de vida se deteriora continuamente – são incapazes de pôr em prática as escolhas aparentemente simples que eles dizem e verdadeiramente acreditam que querem fazer. Essas pessoas estão num estado involuntário de negação – uma negação da riqueza que possuem dentro deles. A tomada de consciência da plenitude do Eu tornaria indistintas, em comparação, as suas compulsões. Sem a sensação de quem realmente somos, é difícil discernir o verdadeiro valor de qualquer coisa que tenha lugar na nossa vida, a não ser ao nível directo e transitório da gratificação imediata.

Círculo Vicioso, Círculo Virtuoso

Quando nos sentimos gratos, interagimos com outras pessoas a partir da nossa plenitude; elas sentem-se reconhecidas e são atraídas pela nossa energia. O ressentimento, a amargura e a vitimização tendem a repelir as pessoas, e nós passamos a ter menos apoio dos outros. De um modo semelhante, quando a nossa falta de gratidão leva à impotência e à doença, sentimo-nos «enganados» por a nossa saúde estar a ir por água abaixo, enquanto outros se divertem.

Gratidão Aprendida

No campo da psiconeuroimunologia, temos agora a certeza de que as emoções, as convicções e as interpretações (o nosso mapa do mundo) têm um efeito profundo no funcionamento do corpo, incluindo a possibilidade de ficarmos doentes ou resistirmos à doença. Mais dramáticos são os estudos sobre a «impotência aprendida». Quaisquer que sejam os desafios ou crises na nossa vida, se nos sentirmos impotentes em relação a eles, temos muito mais probabilidades de ficar doentes.

O estado de espírito a que chamamos gratidão não é inato, na minha opinião, mas sim uma coisa que aprendemos, A gratidão tem a ver com sentirmo-nos plenos, completos, adequados – temos tudo o que precisamos e merecemos; abordamos o mundo com uma sensação de valor. E a experiência da quantidade de realização que é possível que nos leva a uma capacidade de gratidão. Sem gratidão, a tendência é para nos sentirmos incompletos, enganados, deficientes – numa palavra, impotentes.

Se não teve a sorte de ter aprendido a atitude da gratidão em criança, pode sentir-se, de tempos a tempos, a cair no desespero, ressentido e não abençoado. Isso ainda acontece comigo, por vezes, e quando acontece, recordo-me simplesmente das minhas razões para fazer as coisas que faço, a minha missão e visão pessoal da vida, com gratidão, Pode demorar um pouco, mas com concentração interior e imagética, a minha atitude altera-se sempre. Afinal, tal como você, «Eu sou o que penso».

Louise L. Hay

Gratidão, Uma forma de vida

Lisboa, Editora Pergaminho, 2011

Noivas-crianças (crianças menores de 15 anos estão à mercê desta forma de escravatura e abuso sexual)

Noivas-crianças

 

Mais de 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamentos durante a próxima década, uma prática que traz como consequência a maternidade precoce. Desprovidas de direitos, crianças menores de 15 anos estão à mercê desta forma de escravatura e abuso sexual.

Condicionadas por sociedades arcaicas, costumes ancestrais, leis religiosas e pobreza, crianças são casadas à força em todo o mundo. Grande parte das vítimas de casamentos forçados são meninas provenientes das camadas mais marginalizadas e vulneráveis da sociedade, que ficam isoladas ao serem retiradas das suas famílias e escolas e separadas das suas amigas. Mais de 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamentos forçados durante a próxima década, segundo o estudo da UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, que revela que a taxa de casamentos de menores é de 39 por cento na África Subsariana.

Os casamentos de crianças ocorrem em todo o mundo, mas são mais comuns no Sul da Ásia e em zonas da África Subsariana. As taxas de casamento de menores atingem 65 por cento no Bangladesh e 48 por cento na Índia. Em África, alcançam 76 por cento no Níger e 71 por cento no Chade.

O relatório «Child Marriage – Girls 14 and Younger at Risk», promovido pela organização IWHC, foca o noivado e o casamento de meninas de 14 anos ou menos, especialmente vulneráveis a violações da sua saúde e dos seus direitos e classifica tais casamentos como «forçados», porque raparigas tão jovens raramente têm capacidade jurídica ou interferência pessoal para desobedecer aos mais velhos ou para fornecer ou negar o seu consentimento.

Em 2007, a iniciativa «UNICEF Photo of the Year» denunciou a prática de casamentos forçados ao premiar como imagem do ano a foto de um afegão de 40 anos casado com a menina Ghulam, de 11 anos. A família de Ghulam vendeu-a ao «marido» para poder comprar alimentos a outros filhos. A representante especial do secretário-geral das Nações Unidas sobre a Violência contra as Crianças alerta que «ao casar e ao assumir responsabilidades no seio da família, as meninas não só ficam dependentes da autoridade do marido, mas também da família do marido». Marta Santos Pais explica que «muitas vezes, sem terem direito à educação e poder contribuir, construtivamente, para o desenvolvimento da família e da sociedade. Ao engravidar, dão à luz com uma idade muito baixa e isto cria riscos gravíssimos no momento do nascimento da criança», acrescenta a portuguesa representante especial sobre a Violência contra as Crianças.

As menores casadas têm pouca ou nenhuma escolaridade e fracas oportunidades de educação, o que lhes limita a capacidade para ingressar na força de trabalho remunerada e ter um rendimento independente. Factores que criam uma maior insegurança pessoal perante a possibilidade de divórcio ou viuvez precoce e isolamento social da sua própria família e amigos.

Violação desumana

Na África Subsariana e no Sul da Ásia, os pais frequentemente acreditam estar a preservar a segurança das suas filhas menores ao casá-las com homens com dinheiro ou condição social mais elevada. Nestas regiões, os estupradores não são punidos caso concordem casar com a vítima violada.

O casamento arranjado de meninas na puberdade, ou até antes, costuma ocorrer com o objectivo de «proteger a virgindade», a «honra da família» ou para aumentar o seu «valor de troca». Os pais podem sentir-se também eles forçados a casarem as suas filhas cedo por temerem pela sua protecção e segurança económica. Nos países nos quais o registo dos recém-nascidos não é efectuado imediatamente em virtude de registo a posteriori, a idade das meninas pode ser fixada arbitrariamente, o que facilita os casamentos precoces, já que as meninas menores de idade podem facilmente ser declaradas como maiores para legitimar casamentos forçados. As meninas que se casam muito jovens sofrem um maior controlo por parte da família do marido, inclusive restrições à sua procura de serviços de saúde e planeamento familiar. As menores casadas têm também maior probabilidade de sofrer de violência doméstica e abuso sexual.

Nos países em desenvolvimento, a idade mínima mais comum do casamento sem o consentimento paterno é de 18 anos. Contudo, muitos destes Estados permitem casamentos mais cedo com o consentimento dos pais, responsáveis legais ou autoridades judiciais ou religiosas. Particularmente, os casamentos antes dos 15 anos violam as leis que estabelecem uma idade mínima para o consentimento de uma jovem para a prática de sexo.

A esmagadora maioria dos países já legislou sobre o casamento de crianças, inibindo-o, ou são signatários de tratados internacionais que o proíbem. Mas estes procedimentos não se traduziram, na prática, em mudanças reais. No Níger, o Código Civil proíbe que os rapazes se casem com menos de 18 anos e as raparigas com menos de 15 anos. Contudo, o código raramente é aplicado por causa da existência de dois sistemas legais, o judicial e o islâmico, que permitem o casamento com menores de idade. Mesmo sem estas excepções, a legislação que rege a idade mínima para o casamento pode ser ignorada ou burlada. Uma menina pode casar-se numa cerimónia tradicional muito antes de a união ser registada junto das autoridades civis ou as idades podem ser falsificadas na ausência de certidões de nascimento. Na Zâmbia, a idade legal mínima para o casamento é de 21 anos, mas 10 por cento das meninas casam quando chegam aos 15 anos. Torna-se necessário fortalecer os sistemas de registo de casamentos para exigir o registo civil obrigatório, comprovação da idade e «consentimento livre e total» dos noivos e eliminar o mito do casamento como zona de segurança para as meninas.

Entrave ao desenvolvimento

O casamento infantil tem sido um grande entrave para o progresso em seis dos oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, promovidos pelas Nações Unidas. As expectativas globais na redução da mortalidade infantil e materna, no combate ao VIH/sida e na educação primária universal são prejudicadas pelo facto de uma em cada sete mulheres (15 por cento) nos países em desenvolvimento se casar antes dos 15 anos. O casamento infantil também frustra as ambições para eliminar a extrema pobreza e a promoção da igualdade de género.

A probabilidade de as meninas menores de 15 anos morrerem durante a gravidez ou no parto é cinco vezes maior do que as mulheres na faixa dos 20 anos. A falta de informação e a impossibilidade de negociar práticas sexuais seguras também aumenta o risco de as noivas-crianças serem infectadas pelo VIH, em comparação com as outras meninas solteiras da sua classe etária. Além disso, as noivas-crianças são mais propensas a abandonar a escola para se concentrarem nas tarefas domésticas e na criação dos filhos.

A pobreza é um dos principais motores do casamento infantil. Em muitos países e comunidades pobres, casar uma filha representa menos uma boca para alimentar. Por outro lado, o «preço» da noiva, ou o dote, é um factor encorajador, dado que a entrada de bens, em géneros ou dinheiro, é um benefício para as famílias desesperadas. Tudo isto tem um impacto negativo intergeracional. Os filhos de meninas jovens e pouco instruídas tendem a ter um pior desempenho na escola e salários mais baixos, perpetuando o ciclo da pobreza.

Os ex-presidentes dos Estados Unidos e do Brasil Jimmy Carter e Fernando Henrique Cardoso, membros da parceria Girls Not Brides, promovida pelo grupo de líderes The Elders, alertam que «há relutância em intervir no que é tradicionalmente considerado um assunto de família. O casamento infantil é uma tradição enraizada em muitas sociedades, muitas vezes sancionada pelos líderes religiosos e não pela doutrina religiosa. A distorção da fé e os costumes antigos são usados para ignorar os direitos das raparigas e para manter as suas comunidades em situação de pobreza».

Com a imigração, estes problemas transferiram-se também para os países desenvolvidos. Na Europa, os casamentos forçados entre imigrantes estão na «moda», dado que o casamento representa uma possibilidade legal de imigração. São frequentes os relatos de jovens muçulmanos de ambos os sexos que subitamente se encontram no estado civil de casados no território da União Europeia ou após umas férias no seu país de origem, sendo muito ténue a barreira entre um casamento «forçado» e um casamento «combinado». O casamento forçado, que também constitui uma expressão da recusa de integração, é uma prática mais comum do que se supunha no território da União Europeia e já suscitou polémica após o líder espiritual da Arábia Saudita, mufti Abdul Aziz al-Ashaikn, defender que «as meninas de dez ou doze anos estão aptas a casar e quem pensa que são demasiado jovens está a ser injusto para com elas», numa clara violação dos direitos da criança.

Carlos Reis

Revista Além-Mar,Fevereiro 2012

 

 

Meninas menores de 15 anos em   risco

 

País Casamento Maternidade
Níger 27% 4%
Bangladesh 26 6
Guiné 20 7
Mali 19 5
Chade 18 6
Nigéria 16 3
Rep.   Centro-Africana 16 4
Índia 14 2
Etiópia 14 1
Mauritânia 13 3
Fonte: Measure DHS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Moi Nojoud, 10 ans, Divorcée»

Em 2008, Nojoud Ali, uma menina iemenita de 10 anos, foi notícia mundial quando, ao ousar pedir e obter o divórcio, desafiou não só as tradições ancestrais do seu país, mas também a autoridade paterna. Casada à força, com idade inferior à legal para a contração de matrimónio, Nojoud Ali manifestou uma maturidade que só a violência pode forjar na cabeça de uma criança, indo ao tribunal da sua cidade pedir o divórcio ao juiz, quando se julgava que tinha ido comprar pão.

Libertando-se de um casamento indesejado com um homem três vezes mais velho do que ela, Nojoud Ali tornou-se um símbolo da causa das mulheres do Iémen, criando um antecedente que ajudou outras crianças casadas à força, antes da idade legal do casamento, a obterem também o divórcio. No livro Moi Nojoud, 10 ans, Divorcée, conta a sua história «para que outras meninas, nas mesmas circunstâncias, possam ter a coragem de pedir o divórcio». A narrativa foi escrita em colaboração com a jornalista francesa Delphine Minoui, especializada no Médio Oriente, e publicada em 2009 pela editora Michel Lafon.

O homem deve reencontrar o Paraíso… – Rubem Alves

Era uma família grande, todos amigos. Viviam como todos nós: moscas presas na enorme teia de aranha que é a vida da cidade. Todos os dias a aranha lhes arrancava um pedaço. Ficaram cansados. Resolveram mudar de vida: um sonho louco: navegar! Um barco, o mar, o céu, as estrelas, os horizontes sem fim: liberdade. Venderam o que tinham, compraram um barco capaz de atravessar mares e sobreviver a tempestades.

Mas para navegar não basta sonhar. É preciso saber. São muitos os saberes necessários para se navegar. Puseram-se então a estudar cada um aquilo que teria de fazer no barco: manutenção do casco, instrumentos de navegação, astronomia, meteorologia, as velas, as cordas, as polias e roldanas, os mastros, o leme, os parafusos, o motor, o radar, o rádio, as ligações eléctricas, os mares, os mapas…

Disse certo poeta: Navegar é preciso. A ciência da navegação é um saber preciso, exige aparelhos, números e medições. Os barcos fazem-se com precisão, a astronomia aprende-se com o rigor da geometria, as velas fazem-se com saberes exactos sobre tecidos, cordas e ventos, os instrumentos de navegação não informam mais ou menos. Assim, eles tornaram-se cientistas, especialistas, cada um na sua – juntos para navegar.

Chegou então o momento da grande decisão – para onde navegar. Um sugeria as geleiras do sul do Chile, outro os canais dos fiordes da Noruega, um outro queria conhecer os exóticos mares e praias das ilhas do Pacífico, e houve mesmo quem quisesse navegar nas rotas de Colombo. E foi então que compreenderam que, quando o assunto era a escolha do destino, as ciências que conheciam de nada serviam.

De nada valiam os números, as tabelas, os gráficos, as estatísticas. Os computadores, coitados, chamados a dar o seu palpite, ficaram em silêncio. Os computadores não têm preferências – falta-lhes essa subtil capacidade de gostar, que é a essência da vida humana. Inquiridos sobre o porto de sua escolha, disseram que não entendiam a pergunta, que não lhes importava para onde se estava a ir.

Se os barcos se fazem com ciência, a navegação faz-se com os sonhos. Infelizmente a ciência, utilíssima, especialista em saber como as coisas funcionam, tudo ignora sobre o coração humano. É preciso sonhar para se decidir sobre o destino da navegação. Mas o coração humano, lugar dos sonhos, ao contrário da ciência, é coisa imprecisa. Disse certo poeta: Viver não é preciso. Primeiro vem o impreciso desejo. Primeiro vem o impreciso desejo de navegar. Só depois vem a precisa ciência de navegar.

Naus e navegação têm sido uma das mais poderosas imagens na mente dos poetas. Ezra Pound inicia os seus Cânticos dizendo: E pois com a nau no mar/assestamos a quilha contra as vagas… Cecília Meireles: Foi, desde sempre, o mar! A solidez da terra, monótona/parece-nos fraca ilusão! Queremos a ilusão do grande mar/ multiplicada em suas malhas de perigo. E Nietzsche: Amareis a terra de vossos filhos, terra não descoberta, no mar mais distante. Que as vossas velas não se cansem de procurar esta terra! O nosso leme nos conduz para a terra dos nossos filhos…Viver é navegar no mar alto!

Não só os poetas. C. Wright Mills, um sociólogo sábio, comparou a nossa civilização a uma galera que navega pelos mares. Nos porões estão os remadores. Remam com precisão cada vez maior. A cada novo dia recebem remos novos, mais perfeitos. O ritmo das remadas acelera. Sabem tudo sobre a ciência do remar. A galera navega cada vez mais rápido. Mas, inquiridos sobre o porto do destino, respondem os remadores: O porto não nos importa. O que importa é a velocidade com que navegamos

C. Wright Mills usou esta metáfora para descrever a nossa civilização por meio duma imagem plástica: multiplicam-se os meios técnicos e científicos ao nosso dispor, que fazem com que as mudanças sejam cada vez mais rápidas; mas não temos ideia alguma de para onde navegamos. Para onde? Somente um navegador louco ou perdido navegaria sem ter ideia do para onde. Em relação à vida da sociedade, ela contém a busca de uma utopia. Utopia, na linguagem comum, é usada como sonho impossível de ser realizado. Mas não é isso. Utopia é um ponto inatingível que indica uma direcção.

Mário Quintana explicou a utopia com um verso: Se as coisas são inatingíveis… ora!/Não é motivo para não querê-las…Que tristes os caminhos, se não fora/A mágica presença das estrelas! Karl Mannheim, outro sociólogo sábio que poucos lêem, já na década de 1920 diagnosticava a doença da nossa civilização: Não temos consciência de direcções, não escolhemos direcções. Faltam-nos estrelas que nos indiquem o destino.

Hoje, dizia ele, as únicas perguntas que são feitas, determinadas pelo pragmatismo da tecnologia (o importante é produzir o objecto) e pelo objectivismo da ciência (o importante é saber como funciona), são: Como posso fazer tal coisa? Como posso resolver este problema concreto particular? E conclui: E em todas essas perguntas sentimos o eco optimista: não preciso de me preocupar com o todo, ele tomará conta de si mesmo.

Nas nossas escolas é isso que se ensina: a precisa ciência da navegação, sem que os estudantes sejam levados a sonhar com as estrelas. A nau navega veloz e sem rumo. Nas universidades, essa doença assume a forma de peste epidémica: cada especialista dedica-se, com paixão e competência, a fazer pesquisas sobre o seu parafuso, a sua polia, a sua vela, o seu mastro.

Dizem que o seu dever é produzir conhecimento. Se forem bem sucedidas, as suas pesquisas serão publicadas em revistas internacionais. Quando se lhes pergunta: Para onde está o seu barco a navegar?, eles respondem: Isso não é científico. Os sonhos não são objecto de conhecimento científico...

E assim ficam os homens comuns abandonados por aqueles que, por conhecerem mares e estrelas, lhes poderiam mostrar o rumo. Não posso pensar a missão das escolas, começando com as crianças e continuando com os cientistas, como outra que não a da realização do dito do poeta: Navegar é preciso. Viver não é preciso.

É necessário ensinar os precisos saberes da navegação enquanto ciência. Mas é necessário apontar com imprecisos sinais para os destinos da navegação: a terra dos filhos dos meus filhos, no mar distante… Na verdade, a ordem verdadeira é a inversa. Primeiro, os homens sonham com navegar. Depois aprendem a ciência da navegação. É inútil ensinar a ciência da navegação a quem mora nas montanhas…

O meu sonho para a educação foi dito por Bachelard: O universo tem um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso. O paraíso é jardim, lugar de felicidade, prazeres e alegrias para os homens e mulheres. Mas há um pesadelo que me atormenta: o deserto. Houve um momento em que se viu, por entre as estrelas, um brilho chamado progresso. A galera navega em direcção ao progresso, a uma velocidade cada vez maior, e ninguém questiona a direcção. E é assim que as florestas são destruídas, os rios se transformam em esgotos de fezes e veneno, o ar se enche de gases, os campos se cobrem de lixo – e tudo ficou feio e triste.

Sugiro aos educadores que pensem menos nas tecnologias do ensino – psicologias e quinquilharias – e tratem de sonhar, com os seus alunos, sonhos de um Paraíso.

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

 

 

O canto do galo – Rubem Alves

O meu pensamento é um devorador de imagens. Quando me aparece uma boa imagem eu rio de felicidade e o meu pensador põe-se a brincar com ela como um menino brinca com uma bola. Se me disserem que este hábito intelectual não é próprio de um filósofo, que os filósofos devem manter-se dentro dos limites de uma dieta austera de conceitos puros e sem temperos, invoco em minha defesa Albert Camus, que dizia que só se pensa através de imagens.

Amo as imagens mas elas amedrontam-me. As imagens são entidades incontroláveis que frequentemente produzem associações que o autor não autorizou. Os conceitos, ao contrário, são bem comportados, pássaros engaiolados. As imagens são pássaros em voo… Daí o seu fascínio e o seu perigo. Mas eu não consigo resistir à tentação. Assim, aqui vai uma parábola que me apareceu, com todos os riscos que ela implica:

Era uma vez um lavrador que criava galinhas. Era um lavrador fora do comum, intelectual e progressista. Estudou administração para que a sua quinta funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutoramento em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado. Aplicado à criação de galinhas esse princípio traduz-se assim: galinha que não põe ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total da sua quinta, o lavrador estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos postos pela unidade de tempo escolhida. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na quinta como galinhas poedeiras.

Estabeleceu, inclusive, um sistema de mérito galináceo: as galinhas que punham mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que punham menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, acto contínuo, subiam para as costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a agacharem-se. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o lavrador que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da quinta, nenhum deles tinha posto.

Lembrou-se o lavrador, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha. As galinhas continuaram a pôr ovos como sempre haviam posto: os números escritos nos relatórios não deixavam margens para dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, quebravam-se e de dentro deles saíam pintainhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintainhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Então o lavrador científico aprendeu duas coisas:

1º: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.

2º: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.

 

Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer aquele que ensina. Mas o ensino é, precisamente, uma actividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correcta é pesquisadores, isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.

Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta pôr ovos. É preciso pô-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

Como resultado da pressão publish or perish, ponha ovos ou a sua cabeça será cortada, a docência acaba por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de pôr ovos, são obrigados, pela presença de alunos, a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: o ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem orientar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objectivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, a sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar, porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam os ovos postos.

Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que nelas trabalham, dêem mais atenção ao canto do galo…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

Jardins – Rubem Alves

Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. Descobri que os livros eram um tapete mágico que me levava instantaneamente a viajar pelo mundo… Lendo, eu deixava de ser o menino pobre que era e tornava-me um outro. Vejo-me sentado no chão, num dos quartos do sótão do meu avô. Via figuras. Era um livro, folhas de tecido vermelho. Nas suas páginas alguém colara gravuras, recortadas de revistas. Não sei quem o fez. Só sei que quem o fez amava as crianças. Eu passava horas a ver as figuras e nunca me cansava de as ver. Um outro livro que me encantava era o Jeca Tatu, do Monteiro Lobato. Começava assim: “Jeca Tatu era um pobre caboclo…”. De tanto ouvir a estória lida para mim, acabei por sabê-lo de cor. “De cor”: no coração. Aquilo que o coração ama não é jamais esquecido. E eu “lia-o” para a minha tia Mema, que estava doente, presa numa cadeira de baloiço. Ela ria com o seu sorriso suave, ouvindo a minha leitura.

Um outro livro que eu amava pertencera à minha mãe quando era criança. Era um livro muito velho. Façam as contas: a minha mãe nasceu em 1896… Na capa havia um menino e uma menina que brincavam com o globo terrestre. Era um livro que me fazia viajar por países e povos distantes e estranhos. Gravuras apenas. Esquimós, com as suas roupas de couro, dando tiros para o ar, saudando o fim do seu longo inverno. Em baixo, a explicação: “Onde os esquimós vivem, a noite é muito longa; dura seis meses”. Um crocodilo, boca enorme aberta, com os seus dentes pontiagudos, e um negro a arrastar-se na sua direcção, tendo na mão direita um pau com duas pontas afiadas. O que ele queria era introduzir o pau na boca do crocodilo, sem que ele se desse conta. Quando o crocodilo fechasse a boca estaria fisgado e haveria festa e comedoria!

Na gravura dedicada aos Estados Unidos havia um edifício, com a explicação assombrosa: “Nos Estados Unidos há casas com dez andares…”. Mas a gravura que mais mexia comigo representava um menino e uma menina a brincar, querendo fazer um jardim. Na verdade, era mais que um jardim. Era um minicenário. Haviam feito montanhas de terra e pedra. Entre as montanhas, um lago cuja água, transbordando, transformava-se num riachinho. E, nas suas margens, o menino e a menina haviam plantado uma floresta de pequenas plantas e musgos. A menina enchia o lago com um regador. Eu não me contentava em ver o jardim: largava o livro e ia para a horta, com a ideia de plantar um jardim parecido. E assim passava toda uma tarde, fazendo o meu jardim e usando galhos de hortelã como as árvores da floresta… Onde foi parar o livro da minha mãe? Não sei. Também não importa. Ele continua aberto dentro de mim.

Bachelard refere-se aos “sonhos fundamentais” da alma. “Sonhos fundamentais”: o que é isso? É simples. Há sonhos que nascem dos eventos fortuitos, peculiares a cada pessoa. Esses sonhos são só delas: sonhos acidentais, individuais. Mas há certos sonhos que moram na alma de todas as pessoas. Jung deu a esses sonhos universais o nome de “arquétipos”. Esses são os sonhos fundamentais. O facto de termos, todos, os mesmos sonhos fundamentais, cria a possibilidade de “comunhão”. Ao compartilhar os mesmos sonhos descobrimo-nos irmãos. Um desses sonhos fundamentais é o de um “jardim”.

Faz de conta que a tua alma é um útero. Ela está grávida. Dentro dela há um feto que quer nascer. Esse feto que quer nascer é o seu sonho. Quem engravidou a tua alma, isso eu não sei. Acho que foi um ser de outro mundo… Imagino que o tal “Big-Bang” a que se referem os astrónomos foi Deus a soltar o seu grande sonho e a lançar pelo vazio milhões, biliões, triliões de sementes. Em cada uma delas estava o sonho fundamental de Deus: um jardim, um paraíso… Assim, a nossa alma foi engravidada pelo sonho fundamental de Deus… Mas toda a semente quer brotar, todo o feto quer nascer, todo o sonho se quer realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados transformam-se em demónios dentro da alma. E ficam a atormentar-nos. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações – uma vez por outra elas tomam conta de nós – aposto que são o sonho de um jardim que está dentro de cada um e que não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins…

Quando eu era menino, os jardins eram o lugar da minha maior felicidade. Dentro da casa, os adultos estavam sempre a vigiar-me: “Não mexas aí, não faças isso, não faças aquilo…”. O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a vigiar-se. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá, eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. As árvores eram as minhas melhores amigas. A pitangueira, com seus frutinhos sem vergonha. O meu primeiro furto foi o furto de uma pitanga: “furto” – “fruto” – é só trocar uma letra… Até inventei uma maquineta de roubar pitangas…

Havia uma jabuticabeira que eu considerava minha, em especial. Fiz um rego à sua volta para que ela bebesse água todo dia. Jabuticabeiras regadas sempre florescem e frutificam várias vezes por ano. Na ocasião das flores era uma festa. O perfume das suas flores brancas é inesquecível. E vinham milhares de abelhas. No pé de uma nêspera fiz um baloiço. Já disse que balançar é o melhor remédio para depressão. Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancés para as crianças pequenas. Devia haver baloiços para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, a balançarem? Sorriem? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O vosso sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e sinto-me rejuvenescer a baloiçar até tocar com a ponta do pé na folha do caquizeiro onde o meu baloiço está amarrado!

Crescido, os jardins começaram a ter para mim um sentido poético e espiritual. Percebi que a Bíblia Sagrada é um livro construído em torno de um jardim. Deus cansou-se da imensidão dos céus e sonhou… Sonhou com um… jardim. Se ele – ou ela – estivesse feliz lá no céu, ele ou ela não se teria dado ao trabalho de plantar um jardim. A gente só cria quando aquilo que se tem não corresponde ao sonho. Todo o acto de criação tem por objectivo realizar um sonho. E quando o sonho se realiza, vem a experiência da alegria. No Génesis está escrito que, ao terminar o seu trabalho, Deus viu que tudo “era muito bom”. O mais alto sonho de Deus é um jardim. Essa é a razão por que no Paraíso não havia templos e altares. Para quê? “Deus andava pelo meio do jardim…”. Gostaria de saber quem foi a pessoa que teve a ideia de que Deus mora dentro de quatro paredes! Uma coisa eu garanto: não foi ideia dele. Seria bonito se as religiões, em vez de gastarem dinheiro construindo templos e catedrais, usassem esse mesmo dinheiro para fazer jardins onde, evidentemente, crianças, adultos e velhos poderiam balançar e tocar com os pés nas folhas das árvores.

Ninguém jamais viu Deus. Um jardim é o seu rosto sorridente… E se vocês lerem as visões dos profetas, verão que o Messias é jardineiro: vai plantar de novo o Paraíso, e nele voltarão a nascer regatos nos desertos, nos lugares ermos crescerão a murta (perfumada!), as oliveiras, as videiras, as figueiras, os pés de romã, as palmeiras… E lá, à sombra das árvores, acontecerá o amor… Leia o livro do “Cântico dos Cânticos”! Pensei, então, que o acto de plantar uma árvore é um anúncio de esperança. Especialmente se for uma árvore de crescimento lento. E isso porque, sendo lento o seu crescimento, eu a plantarei sabendo que nem vou comer dos seus frutos, nem me vou sentar à sua sombra… Vou plantá-la pensando naqueles que comerão os seus frutos e se sentarão à sua sombra. E isso bastará para me trazer felicidade!

Rubem Alves

Mansamente pastam as ovelhas…

São Paulo, Papirus Editora, 2002

(excertos adaptados)

Gaiolas e asas – Rubem Alves

Os pensamentos chegam-me de um modo inesperado, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que, frequentemente, também Lichtenberg, William Blake e Nietzsche eram atacados por eles. Digo atacados porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Os aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, este aforismo atacou-me: Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controlo. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados têm sempre um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri, conversando com professores em escolas. O que eles contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E eles, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e os domadores com os seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que os fecha com os tigres. Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes? Ou serão as escolas que são violentas?

As escolas serão gaiolas? Vão falar-me da necessidade das escolas dizendo que os adolescentes precisam de ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: as nossas escolas estão a dar uma boa educação? O que é uma boa educação? O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ficam com uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Sabe o que é um “dígrafo”? E conhece os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual é a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professores, também engaiolados… São obrigados a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é um hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata a sua experiência com as escolas: Fui forçado (!) a estudar o que os professores decidiam que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira.

 O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que a inteligência era a ferramenta e o brinquedo do corpo, Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender ferramentas, aprender brinquedos. As ferramentas são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. Os brinquedos são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.

Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. As ferramentas permitem-me voar pelos caminhos do mundo. Os brinquedos permitem-me voar pelos caminhos da alma. Quem está a aprender ferramentas e brinquedos está a aprender liberdade, não fica violento. Fica alegre, ao ver as asas crescer… Assim todo o professor, ao ensinar, deveria perguntar-se: Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo? Se não for, é melhor pôr de parte. As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se as escolas são gaiolas ou asas.

Mas eu sei que há professores que amam o voo dos seus alunos.

Há esperança…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

E uma criança guiá-los-á… – Rubem Alves

A fotografia é simples: duas mãos dadas, uma mão segurando a outra. Uma delas é grande, a outra é pequena, rechonchuda. Isso é tudo. Mas a imaginação não se contenta com o fragmento – completa o quadro: é um pai que passeia com o seu filhinho. O pai, adulto, segura com firmeza e ternura a mãozinha da criança: a mãozinha do filho é muito pequena, termina no meio da palma da mão do pai. O pai vai conduzindo o filho, indicando o caminho, vai apontando para as coisas, mostrando como elas são interessantes, bonitas, engraçadas. O menino vai sendo apresentado ao mundo.

É assim que as coisas acontecem: os grandes ensinam, os pequenos aprendem. As crianças nada sabem sobre o mundo. Também, pudera! Nunca estiveram aqui. Tudo é novidade. Alberto Caeiro tem um poema sobre o Olhar (dele), que ele diz ser igual ao de uma criança:

O meu olhar é nítido como um girassol. (. . .)

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo.

 

O olhar das crianças é de espanto! Vêem o que nunca tinham visto! Não sabem o nome das coisas. O pai vai dando os nomes. Aprendendo os nomes, as coisas estranhas vão ficando conhecidas e amigas. Transformam-se num rebanho manso de ovelhas que respondem quando são chamadas. Quem sabe as coisas são os adultos. Conhecem o mundo. Não nasceram a saber. Tiveram de aprender. Houve um tempo em que a mãozinha rechonchuda era deles. Um outro, de mão grande, os conduziu. O mais difícil foi aprender quando não havia ninguém que ensinasse. Tiveram de tactear através do desconhecido. Erraram muitas vezes. Foi assim que as rotas e os caminhos foram descobertos. Já imaginaram os milhares de anos que tiveram de se passar até que os homens aprendessem que certas ervas têm poderes de cura? Quantas pessoas tiveram de morrer de frio até que os esquimós descobrissem que era possível fabricar casas quentes com o gelo! E as comidas que comemos, os pratos que nos dão prazer! Por detrás deles há milénios de experiências, acidentes felizes, fracassos! Vejam o fósforo, essa coisa insignificante e mágica: esfrega-se e eis o milagre: o fogo na ponta de um pauzinho. Eu gostaria, um dia, de dar um curso sobre a história do fósforo. Na sua história há uma enormidade de experiências e de pensamentos.

Ensinar é um acto de amor. Se as gerações mais velhas não transmitissem o seu conhecimento às gerações mais novas, nós ainda estaríamos na condição dos homens pré-‑históricos. Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam os seus mapas e ferramentas! Assim, as crianças não precisam de começar da estaca zero. Ensinam-se os saberes para poupar àqueles que não sabem o tempo e o cansaço do pensamento: saber para não pensar. Não preciso de pensar para riscar um fósforo. Os grandes sabem. As crianças não sabem. Os grandes ensinam. As crianças aprendem.

Está resumido na fotografia: o da mão grande conduz o da mãozinha pequena. Esse é o sentido etimológico da palavra pedagogo: aquele que conduz as crianças. Educar é transmitir conhecimentos. O seu objectivo é fazer com que as crianças deixem de ser crianças. Ser criança é ignorar, nada saber, estar perdido. Toda a criança está perdida no mundo. A educação existe para que chegue um momento em que ela não esteja mais perdida: a mãozinha de criança tem de se transformar na mãozona de um adulto que não precisa de ser conduzido: ele conduz-se, ele sabe os caminhos, ele sabe como fazer. A educação é um progressivo despedir-se da infância.

A pedagogia do meu querido amigo Paulo Freire amaldiçoava aquilo que se denomina ensino bancário – os adultos vão depositando saberes na cabeça das crianças da mesma forma como depositamos dinheiro num banco. Mas parece-me que é assim mesmo que acontece com os saberes fundamentais: os adultos simplesmente dizem como as coisas são, como as coisas são feitas. Sem razões e explicações. É assim que os adultos ensinam as crianças a andar, a falar, a dar um laço no cordão do sapato, a tomar banho, a descascar laranja, a nadar, a assobiar, a andar de bicicleta, a acender o fósforo. Tentar criar consciência crítica para essas coisas é tolice. O adulto mostra como se faz. A criança faz do mesmo jeito. Imita. Repete. Mesmo as pedagogias mais generosas, mais cheias de amor e ternura pelas crianças, trabalham sobre esses pressupostos. Se as crianças precisam de ser conduzidas é porque elas não sabem o caminho. Quando tiverem aprendido os caminhos andarão por conta própria. Serão adultos. Toda a gente sabe que as coisas são assim: as crianças nada sabem, quem sabe são os adultos. Depreende-se, então, logicamente, que as crianças são os alunos e os adultos são os professores. A diferença entre quem sabe e quem não sabe. Dizer o contrário é puro nonsense. Porque o contrário seria dizer que as crianças devem ensinar os adultos. Mas, nesse caso, as crianças teriam um saber que os adultos não têm. Se já tiveram, perderam-no… Mas quem levaria a sério tal hipótese?

Pois o Natal é essa absurda inversão pedagógica: os grandes aprendendo com os pequenos. Um profeta do Antigo Testamento, certamente sem entender o que escrevia – os profetas nunca sabem o que estão a dizer –, resumiu essa pedagogia invertida numa frase curta e maravilhosa:… E uma criança guiá-los-á (Isaías 11.6). Se colocarmos este mote ao pé da fotografia tudo fica ao contrário: é a criança que vai mostrando o caminho. O adulto vai sendo conduzido: olhos arregalados, bem abertos, vendo coisas que nunca viu. São as crianças que vêem as coisas – porque elas vêem-nas sempre pela primeira vez com espanto, com assombro, surpreendidas de que elas sejam como são. Os adultos, de tanto as verem, já não as vêem mais. As coisas – as mais maravilhosas – permanecem banais. Ser adulto é ser cego.

Os filósofos, cientistas e educadores acreditam que as coisas vão ficando cada vez mais claras à medida que o conhecimento cresce. O conhecimento é a luz que nos faz ver. Os sábios sabem o oposto: existe uma progressiva cegueira das coisas à medida que o seu conhecimento cresce. Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la. Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez. As crianças fazem-nos ver a eterna novidade do mundo. (Fernando Pessoa). .

Japucz Korczak, um dos grandes educadores do século XX – que foi (porque não as queria deixar) com as crianças da sua escola para a câmara de gás de um campo de concentração nazi –, deu a um dos seus livros o título: Quando eu voltar a ser criança. Ele sabia das coisas. Era sábio. Lição de psicanálise: os cientistas e os filósofos vêem o lado direito. Os sábios vêem o avesso. O avesso é este: os adultos são os alunos; as crianças são os mestres. Por isso os magos, sábios, deram por encerrada a sua jornada ao encontrarem um menino numa estrebaria…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas.

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

Caro professor – Rubem Alves

Caro professor: compreendo a sua situação. Foi contratado para ensinar uma disciplina e ganha para isso. A escolha do programa não foi sua. Foi imposta. Veio de cima. Talvez tenha ideias diferentes. Mas isso é irrelevante. Tem de ensinar o que lhe foi ordenado. Será julgado pelos resultados do seu ensino – e disso depende o seu emprego. A avaliação do seu trabalho faz-se por meio da avaliação do desempenho dos seus alunos. Se, de uma forma sistemática, os seus alunos não aprenderem, é porque não tem competência.

O processo de avaliação dos alunos é curioso. Imagine uma pessoa que conheça uma série de ferramentas, a forma como são feitas, a forma como funcionam – mas não saiba para que servem. Os saberes que se ensinam nas escolas são ferramentas. Frequentemente os alunos dominam abstractamente os saberes, sem entretanto conhecerem a sua relação com a vida.

Como aconteceu com aquela assistente de bordo a quem perguntei o nome de um rio perto de Londrina, no norte do Paraná. Ela respondeu-me: Acho que é o São Francisco. Apanhei um susto. Pensei que tinha apanhado o voo errado e que estava a chegar ao norte de Minas… Garanto que, numa prova, a rapariga responderia certo. No mapa saberia onde se encontra São Francisco. Mas não aprendera a relação entre o símbolo e a realidade.

É possível que os alunos acumulem montanhas de conhecimentos que os levarão a passar nos exames, sem saber para que servem. Como acontece com os “vasos comunicantes” que qualquer pedreiro sabe para que servem sem, entretanto, conhecerem o seu nome. O pedreiro seria reprovado na avaliação escolar, mas construiria a casa no nível certo. Mas você não é culpado. Você é contratado para ensinar a disciplina.

Cada professor ensina uma disciplina diferente: Física, Química, Matemática, Geografia, etc. Isso é parte da tendência que dominou o desenvolvimento da ciência: especialização, fragmentação. A ciência não conhece o todo, conhece as partes. Essa tendência teve consequências para a prática da medicina: o corpo como uma máquina formada por partes isoladas. Mas o corpo não é uma máquina formada por partes isoladas.

Às vezes, as escolas fazem-me lembrar o Vaticano. O Vaticano, 400 anos depois, penitenciou-se sobre Galileu e está prestes a fazer as pazes com Darwin. Os currículos, só agora, muito depois da hora, estão a começar a falar de “interdisciplinaridade”. “Interdisciplinaridade” é isto: uma maçã é, ao mesmo tempo, uma realidade matemática, física, química, biológica, alimentar, estética, cultural, mitológica, económica, geográfica, erótica…

Mas o facto é que você é o professor de uma disciplina específica. Ano após ano, hora após hora, ensina aquela disciplina. Mas, como ser de dever, tem de fazer de forma competente aquilo que lhe foi ordenado. A fim de sobreviver, faz o que deve fazer para passar na avaliação. A disciplina é o deus a quem você e os alunos se devem submeter. O pressuposto desse procedimento é que o saber é sempre uma coisa boa e que, mais cedo ou mais tarde, fará sentido.

São sobretudo os adolescentes que, movidos pela inteligência da contestação, perguntam sobre o sentido daquilo que têm de aprender. Mas frequentemente os professores não sabem dar respostas convincentes. Para quê aprender o uso dessa ferramenta complicadíssima se não sei para que serve e não vou usá-la? A única resposta é: Tens de aprender porque sai no exame – resposta que não convence por não ser inteligente mas simplesmente autoritária.

O que está pressuposto, nos nossos currículos, é que o saber é sempre bom. Isso talvez seja abstractamente verdade. Mas, nesse caso, teríamos de aprender tudo o que há para ser aprendido – o que é tarefa impossível. Quem acumula muito saber só prova um ponto: que é um idiota de memória boa. Não faz sentido aprender a arte de escalar montanhas nos desertos, nem a arte de fazer iglos nos trópicos. Abstractamente, todos os saberes podem ser úteis. Mas, na vida, a utilidade dos saberes subordina-se às exigências práticas do viver. Como diz Cecília Meireles: O mar é longo, a vida é curta.

Eu penso a educação ao contrário. Não começo com os saberes. Começo com a criança. Não julgo as crianças em função dos saberes. Julgo os saberes em função das crianças. É isso que distingue um educador. Os educadores olham primeiro para o aluno e depois para as disciplinas a serem ensinadas. Os educadores não estão ao serviço de saberes. Estão ao serviço de seres humanos – crianças, adultos, velhos. Dizia Nietzsche: Aquele que é um mestre, realmente um mestre, leva as coisas a sério – inclusive ele mesmo – somente em relação aos seus alunos. (Nietzsche, Além do bem e do mal).

Eu penso por meio de metáforas. As minhas ideias nascem da poesia. Descobri que o que penso sobre a educação está resumido num verso célebre de Fernando Pessoa: Navegar é preciso. Viver não é preciso.

Navegação é ciência, conhecimento rigoroso. Para navegar, são necessários barcos. E os barcos fazem-se com ciência, física, números, técnica. A própria navegação se faz com ciência: mapas, bússolas, coordenadas, meteorologia. Para a ciência da navegação é necessária a inteligência instrumental, que decifra o segredo dos meios. Barcos, remos, velas e bússolas são meios.

Já o viver não é coisa precisa. Nunca se sabe ao certo. A vida não se faz com ciência. Faz-se com sapiência. É possível ter a ciência da construção de barcos e, ao mesmo tempo, o terror de navegar. A ciência da navegação não nos dá o fascínio dos mares e os sonhos de portos onde chegar. Conheço um erudito que tudo sabe sobre filosofia, sem que a filosofia jamais tenha tocado a sua pele. A arte de viver não se faz com a inteligência instrumental. Ela faz-se com a inteligência amorosa.

A palavra amor tornou-se maldita entre os educadores que pensam a educação como ciência dos meios, ao lado de barcos, remos, velas e bússolas. Envergonham-se de que a educação seja coisa do amor-piegas. Mas o amor – Platão, Nietzsche e Freud sabiam-no – nada tem de piegas. O amor marca o impreciso círculo de prazer que liga o corpo aos objectos. Sem o amor tudo nos seria indiferente – inclusive a ciência.

Não teríamos sentido de direcção, não teríamos prioridades. A inteligência instrumental precisa de ser educada. Parte da educação é ensinar a pensar. Mas essa educação, sendo necessária, não é suficiente. Os meios não bastam para nos trazer prazer e alegria – que são o sentido da vida. Para isso é preciso que a sensibilidade seja educada. Fernando Pessoa fala, então, na educação da sensibilidade.

Educação da sensibilidade: Marx, nos Manuscritos de 1844, dizia que a tarefa da História, até então, tinha sido a de educar os sentidos: aprender os prazeres dos olhos, dos ouvidos, do nariz, da boca, da pele, do pensamento (Ah! O prazer da leitura!). Se fôssemos animais, isso não seria necessário. Mas somos seres da cultura: inventamos objectos de prazer que não se encontram na natureza: a música, a pintura, a culinária, a arquitectura, os perfumes, os toques.

No corpo de cada aluno encontram-se, adormecidos, os sentidos. Como na história da Bela Adormecida… É preciso despertá-los, para que a sua capacidade de sentir prazer e alegria se expanda.

 

 

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

O prazer da leitura – Rubem Alves

Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de “alfabeto”. “Alfabeto” é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que “abecedário”. A palavra “alfabeto” é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: “alfa” e “beta”. E “abecedário”, com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: “a”, “b”, “c” e “d”. Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que “abecedarizar”, palavra inexistente, pudesse ser sinónimo de “alfabetizar”…

“Alfabetizar”, palavra aparentemente inocente, contém a teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras… E assim era. Lembro-me da criançada a repetir em coro, sob a regência da professora: “bê-á-bá; bê-e-bê; bê-i-bi; bê-ó-bó; bê-u-bu”… Estou a olhar para um postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redacção: uma menina deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê “fa”, “fe”, “fi”, “fo”, “fu”…

Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música se deveria chamar “dorremizar”: aprender o dó, o ré, o mi… Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem a repetir as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse…Toda a gente sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega no bebé e embala-o, cantando uma canção. E a criança percebe a canção. O que o bebé ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no facto de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas!

Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: a minha mãe tocava-as ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o conhecimento das partes. Isto é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler.

Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no acto de ler para os seus alunos, é o “seio bom”, o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintáctica. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-‑me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.

Antes de ler Monteiro Lobato, eu ouvi-o. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro… Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, a ler para o filho… Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afectiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai, a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas de um mundo maravilhoso!

 Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem – continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afectuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: Por favor, ensine-me! Eu quero poder entrar no livro por minha própria conta…Toda a aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontece. Há aquele velho ditado: É fácil levar a égua até ao meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber. Traduzido pela Adélia Prado: Não quero faca nem queijo. Quero é fome. Metáfora para o professor.

Todo o texto é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos “concertos de leitura”. Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.

E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza, é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia… Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é só deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula “se”, dígrafos, encontros consonantais, análise sintáctica – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto. E a missão do professor? Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua.

Paul Goodman, controverso pensador norte-americano, diz: Nunca ouvi falar de nenhum método para ensinar literatura (humanities) que não acabasse por matá-la. Parece que a sobrevivência do gosto pela literatura tem dependido de milagres aleatórios que são cada vez menos frequentes. Vendem-se, nas livrarias, livros com resumos das obras literárias que saem nos exames. Quem aprende resumos de obras literárias para passar, aprende mais do que isso: aprende a odiar a literatura.

Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objecto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.

 

 

 

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

 

Escrava – Pascale Maret

A propósito do Dia Internacional da Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição,
dia 23 de Agosto, enviamos a seguinte história:

Escrava 
 
Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome.
Capturada em África e embarcada com destino à América,
é vendida num mercado da Venezuela.
Baptizada Ana, trabalha duramente e vai-se adaptando à sua nova vida,
na qual aprende depressa, demasiado depressa…
Muitos têm ciúmes dela e, um dia, acusam-na de algo que não fez.
Chicoteada e humilhada, Ana decide fugir.
Mas reencontrar a liberdade vai revelar-se uma luta bem difícil…

Nos finais do século XVIII, a Venezuela, então uma colónia de Espanha, contava com cerca de 60.000 escravos, trazidos de África em navios espanhóis, portugueses, ingleses e franceses.
Todos os anos, mais de mil Africanos desembarcavam em La Guaira, o principal porto do país, para aí serem vendidos. Os colonos venezuelanos usavam-nos para pescar pérolas no fundo do oceano, extrair minérios da terra, desbravar selva, plantar café e cacau, e assegurar todas as tarefas domésticas.
Tal como acontecia no resto da América, os escravos venezuelanos eram tratados com crueldade. Para escaparem à sua triste condição, alguns não hesitavam em revoltar-se e fugir, instalando-se em regiões afastadas do país, ainda muito despovoado.
  
Sobre o cais alinhavam-se filas de Africanos, seminus. Todos piscavam os olhos, aturdidos que se sentiam por verem luz após semanas de obscuridade num porão de navio. Para que tivessem um ar mais atraente como mercadoria, tinham sido lavados e oleados, e as suas feridas curadas à pressa. Apesar disso, os boçais[1], como eram denominados os escravos acabados de desembarcar dos navios negreiros, tinham um ar bastante miserável.
A travessia horrível, no decurso da qual muitos haviam morrido, tinha-os tornado mais fracos, doentes e desesperados. Alguns eram amparados pelos companheiros, e uma jovem grávida estava estendida no pavimento, completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um pouco afastadas, observavam, com olhos assustados e admirados, este Novo Mundo.
No seio do grupo apavorado, estava uma menina de cerca de dez anos, que parecia alheada de tudo o que a rodeava. A sua cara bonita, emagrecida por todas as provações que sofrera, tinha um ar totalmente ausente, e esta impassibilidade ainda a tornava mais patética do que os outros. Não manifestou qualquer tipo de emoção quando o traficante a puxou pelo braço para a apresentar a um homem muito moreno, cujos traços duros eram pontuados por um fino bigode.
― Leve esta miúda, senhor. Não posso baixar o preço do lote, mas dou-lha de graça.
― É muito magrita! ― protestou o homem. ― E nem sequer parece acordada.
― Ouça, señor Ricardo, é pegar ou largar. Os três homens são robustos e as duas mulheres são jovens e sadias. Cinco belas “peças” por mil e duzentos pesos, com a miúda a completar, eis o que eu chamo um belo negócio!
O homem chamado Ricardo fingia hesitar, enquanto observava a rapariguinha sem qualquer piedade. Don José Mijares de Solapado y Pacheco, de quem era intendente, tinha necessidade de novos criados e tinha-o incumbido de comprar alguns boçais. O intendente tinha viajado de propósito de Caracas, a capital, que ficava para lá das montanhas, a fim de assistir à chegada desta carga.
Claro que iria comprar o lote. Era preciso aproveitar a ocasião. À parte a miúda, tinha seleccionado os melhores exemplares e tinha negociado um bom preço. Don José ficaria satisfeito.
― Está bem ― disse lentamente. ― Põe a miúda junto dos outros.
Os seis boçais foram colocados na casa principal de Don José, a fim de se habituarem à língua. Também era preciso saber quais deles estariam aptos para o serviço doméstico. Após algumas semanas, foram mandados embora dois homens e uma mulher, que se mostravam rudes e teimosos. Enviaram-nos para uma plantação de café, onde o chicote do capataz os poria no lugar.
Eram precisos escravos dóceis e inteligentes para o serviço da casa. Só ficaram com um dos homens, que parecia ter jeito para a jardinagem, e com uma mulher, que confiaram à cozinheira, também ela negra. A miúda, que os medos e os sofrimentos passados pareciam ter estupidificado, ficou também na casa. Era demasiado débil para trabalhar no campo.
As criadas tentaram conquistá-la, mas ela parecia um animal acossado num canto. Quase não pegava na comida que lhe davam. Na casa, havia escravos de várias origens, e todos os que ainda se lembravam do seu dialecto africano tentavam falar com ela. A cozinheira, a ama, a criada de passar a ferro, um criado, todos tentavam fazê-la falar.
Mas a rapariga não reagia. Parecia nada compreender e olhava-os apenas com uns belos olhos cheios de medo. A sua existência passada parecia-lhe agora extremamente longínqua. Lembrava-se do pesadelo que fora a invasão da aldeia por guerreiros inimigos, e a morte do chefe, seu pai, durante a batalha.
Depois, tinham sido feitos prisioneiros e forçados a caminhar durante dias a fio: ela, a mãe, os dois irmãos, e muitos outros. Separaram os homens das mulheres e os irmãos desapareceram. A mãe e ela tinham ficado fechadas numa casa abafada, juntamente com outras mulheres, antes de embarcarem numa horrível prisão flutuante, onde eram guardadas por homens brancos.
Quase todos os prisioneiros, acorrentados e amontoados no porão abafado do navio, tinham enjoos horríveis. O cheiro de vómito e de excrementos era insuportável e a escuridão ressoava de lágrimas, gritos e gemidos. Contudo, após alguns dias de travessia, Ana tinha-se sentido um pouco melhor, e tinha engolido um pouco da ração que lhes davam duas vezes por dia.
A mãe não comia, porém. Tinha o corpo a arder, os olhos sempre fechados, e era violentamente sacudida por tremuras que a filha tentava em vão acalmar, apertando-a nos bracitos magros. Nem conseguia pensar no que sucedera depois. Com um olhar cansado e os lábios gretados, a mãe murmurara:
― Não te esqueças, minha filha, de que o teu pai era um grande chefe. Sê corajosa, como ele.
 ― Prometo! ― dissera a filha.
Quando ouviu a respiração fraca da mãe transformar-se num gemido assustador, e sentiu o seu corpo acolhedor e quente transformar-se em algo de rígido e frio, a coragem abandonou-a e a noite apoderou-se do seu espírito. O mundo em redor tornou-se confuso e obscuro, como se as máscaras sagradas da sua aldeia a tivessem conduzido às profundezas da floresta interdita, onde só reinava o caos e as trevas.
Não se lembrava do que acontecera em seguida. Mesmo o sol e o ar livre não conseguiram libertá-la da noite permanente em que estava mergulhada.

Pascale Maret
Esclave !
Toulouse, Milan Poche Junior, 2007
(Tradução e adaptação)

Carta Aberta a um Jovem

Caro Jovem

Não há nada de antiquado no facto de procurares comportar-te com dignidade nas tuas relações com o sexo oposto. O teu corpo não é um objecto, nem um qualquer mecanismo que não possas controlar.
Numa relação, o afecto é muito mais importante do que o sexo. A falta de carinho leva a que as pessoas acabem por se tornar agressivas uma com a outra. Nunca te precipites. Os contactos sexuais não te farão mais próximo de quem julgas gostar.
É uma grande ilusão confundir-se atracção física com amor. Deixa as experiências sexuais para quando tiveres uma relação verdadeiramente madura, ou podes ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, tudo se desmoronará. Não coloques o prazer à frente do carinho e do respeito. Deixa que o tempo exerça a sua acção. Já experimentaste comer um fruto ainda verde?
Fala-se muito de amor, quando, na maior parte dos casos, tudo não passa de aparência. Não antecipes experiências que só devem ser vividas quando houver respeito e ternura bastantes para tornarem sólida uma relação. De outra forma, apenas encontrarás o vazio.
A precipitação pode ter consequências sérias: uma gravidez não planeada, por exemplo. Interrompe-se a gravidez, dirás tu. E achas correcto matar uma vida, sobretudo quando foi a tua irresponsabilidade que a criou?
Não te esqueças também das doenças transmissíveis por via sexual, e do enorme sofrimento que poderão causar. Relações sexualmente protegidas serão a solução, pensarás. Pois convence-te de que a solução consiste em te tornares interiormente adulto e responsável, e aprenderes a agir com rectidão e dignidade.
O ser humano não é um animal irracional que actua impelido pelo cio. É um ser pensante e criativo, com capacidade de escolha e de decisão, e que tem o dever de reflectir sobre os seus actos.
Os muitos filmes e novelas incessantemente despejados na cabeça das pessoas distorcem o sentido da conduta humana, induzindo à vulgaridade e à imitação de comportamentos grosseiros, quando não claramente anti-éticos.
Deves desenvolver o teu espírito crítico, para não te limitares a ser mais uma ovelha de um imenso rebanho obtuso e amorfo, que se deixa conduzir por qualquer um.
Não esqueças que a vida é uma oportunidade demasiado preciosa para a desperdiçares com caprichos e fantasias. Procura a justiça e tenta contribuir para uma sociedade melhor.

Com o desejo sincero de que sejas feliz.

Anónimo

Sobre Harry Potter

Sobre Harry Potter

Agora que chegou ao fim a saga de Harry Potter, talvez valha a pena reflectir sobre alguns dos aspectos da obra.

Quando a saga começa, com o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, encontramos o protagonista a viver em casa dos tios, que o criaram desde criança, e que têm um filho de idade semelhante à dele. Nesta casa, que deveria ser para ele um lar, Harry é obrigado a dormir num armário debaixo das escadas e enfrenta a hostilidade constante dos familiares. A hostilidade explica-se pelo facto de Harry ter nascido feiticeiro, e de ser filho de um casal de feiticeiros (a mãe dele era irmã da tia). Ficamos a saber, mais tarde, que o casal foi morto pelo maior feiticeiro de sempre, Lord Voldemort, enquanto tentavam salvar o filho, ainda bebé. Harry sobreviveu ao ataque, que lhe deixou uma cicatriz na testa, e que quase matou Voldemort, e isso transforma-o numa lenda viva do mundo da feitiçaria.

Contudo, Harry ignora tudo isto até fazer 11 anos, data em que é chamado a inscrever-se na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts, que fica situada num castelo, num mundo paralelo ao mundo dos humanos. Toda a obra parte do princípio de que ser feiticeiro é sempre melhor do que ser humano. Aliás, os humanos, apelidados de Muggles (um termo pejorativo que poderia ser traduzido por Trouxas), invejam sistematicamente os feiticeiros e são-lhes, obviamente, inferiores. Todos aqueles anos de degredo para Harry parecem, assim, ter sido recompensados.

Em Hogwarts, o leitor cedo descobre que a competitividade é o valor supremo, e que tudo o que os alunos fazem, de bom e/ou de mau, é registado em termos de pontuação. No final do ano lectivo, a Casa vencedora é a que tiver obtido a maior pontuação. Escusado será dizer que a Casa de Harry Potter (Gryffingdor), que valoriza a bravura e a ousadia, sai sempre vencedora em relação à sua principal rival, Slythering, cujos atributos são a ambição e a astúcia. As outras duas Casas, Ravenclaw e Hufflepuff, apenas existem como pano de fundo. E, contudo, os atributos que elas enaltecem seriam muito mais adequados a uma escola. Ravenclaw valoriza a inteligência e o conhecimento, enquanto Hufflepuff louva o trabalho árduo, a paciência, a lealdade e o jogo limpo.

Num mundo em que o ideal do Guerreiro é sempre visto como superior ao ideal do Cuidador, faz sentido conceber Gryffingdor e Slythering como superiores. Veja-se o estado em que o mundo está…

Assim, em Hogwarts, a inteligência, a bondade e a conquista da excelência à custa do próprio esforço de pouco ou nada valem. A própria vontade de estudar é ridicularizada (veja-se a chacota de que é alvo Hermione Granger, que leva a sério os TPCs que os professores marcam), e as aventuras e os feitos espectaculares é que têm valor. O que importa é derrotar o adversário, num mundo em que todos são adversários, ou apenas aliados contra adversários.

No mundo de Harry Potter, ninguém pensa construir a vida com base nos seus próprios méritos, porque todos são predestinados. Sejam predestinados “bons” ou predestinados “maus”, já nasceram assim e nada do que possam fazer alterará a sua condição. Os predestinados podem até dar-se ao luxo de quebrar regras, o que Harry e o seu melhor amigo, Ron Weasley, fazem constantemente, para desespero dos professores e para gáudio dos próprios, já que as regras não se aplicam a eles, e muito menos a Potter, o mais jovem jogador de Quidditch da Escola desde há um século.

Este jogo bruto e violento, em que pernas e braços partidos são as consequências mais brandas dos encontros, é a única “cadeira” em que Harry se destaca, já que em tudo o resto é um aluno medíocre. Harry não estuda, nem quer saber de estudar: a sua cicatriz dá-lhe o passaporte para o protagonismo de que necessita e dispensa-o da humildade de achar que tem coisas a aprender. Os únicos conhecimentos que lhe interessam são os de Defesa contra as Artes Ocultas, porque Potter precisa de derrotar Voldemort, como vingança pela morte dos pais. Aliás, a vingança torna-se, desde muito cedo, a razão de ser da sua vida.

Os temas da vingança e da morte são uma constante dos livros. E a morte, omnipresente até à exaustão numa obra que se quer para jovens, é tratada com leviandade. No contexto da obra, é considerado normal que haja adolescentes que têm de morrer. Uma cadeira chamada Arte de Adivinhação do Futuro faz, entre outras coisas, isso mesmo: prevê mortes de alunos. Nos livros, tudo se passa como se fosse normal viver a vida rodeado de morte. Quando, em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, aparecem na escola umas personagens chamadas Dementores, que são seres que sugam a alma das pessoas, somos supostos achar que estes riscos fazem parte do quotidiano invejável dos alunos de um estabelecimento de ensino de elite.

Tal como faz parte de Hogwarts a presença de um professor que se revela ser um lobisomem e que, por pouco, não mata alunos; o aparecimento de Devoradores da Morte, emissários de Voldemort, que assassina barbaramente um aluno no final do quarto volume (Harry Potter e o Cálice de Fogo); ou a visita de Neville Longbottom ao manicómio onde estão internados os seus pais, vítimas também eles dos sicários de Lord Voldemort (ver Harry Potter e a Ordem da Fénix). Nestas visitas, Longbottom é sempre acompanhado pela avó, que faz questão que o neto saiba que os pais são uns heróis, porque foram submetidos a tortura e não revelaram os nomes dos inimigos de Voldemort. Assim, o requinte macabro de uns é igualado pela indiferença macabra de outros, já que a avó de Neville prefere ignorar o sofrimento do neto a abdicar do orgulho familiar.

E isto sem falar da forma como Voldemort vai ganhando “vida” ao longo da obra: depois de a sua tentativa de assassinato de Potter ter falhado, e de ter ficado reduzido a um estado virtual, o Senhor do Mal vai parasitando mentes e corpos alheios, incluindo a absorção do sangue de Harry, até ganhar uma forma que lhe permita aguentar o confronto final.

Estas realidades sombrias, apesar de camufladas pela brincadeira e pelo humor (rebuçados de ranho, fantasmas sem cabeça a vaguear pelo castelo, jornalistas metediças, rivalidade entre animais de estimação, paixonetas desencontradas entre alunos) não se tornam menos sombrias. Brinca-se com a integridade física e psíquica, porque se parte do princípio de que o corpo e a mente têm pouco valor e de pouco nos servem num mundo em que reinam poções e varinhas mágicas.

Os protagonistas recorrem às varinhas e às poções sempre que precisam de algo, seja um simples gesto quotidiano como vestir-se, deslocar-se ou comer. Mas também as usam para desarmar os adversários, ler-lhes os pensamentos, estropiá-los, matá-los. O uso da varinha, com tudo o que esse gesto implica de mecanicidade, significa que os esforços, por simples que sejam, são indignos de seres especiais. Aqui, a raiva descarrega-se sobre o(s) outro(s), como nos videojogos, com um simples toque de mãos.

Ao longo de toda a saga, não existe um único momento de introspecção por parte das personagens. Os feiticeiros parecem estar dispensados de pensar e de reflectir. Apenas devem agir. As personagens crescem física e cronologicamente, mas não há evolução interior em nenhuma delas. O guião do que será a sua vida futura já está escrito e tudo o que têm a fazer é decorar o papel. A sua vida está organizada em função de um combate que terão de vencer, seja a que preço for. No final de Harry Potter e a Ordem da Fénix, a figura tutelar de Sirius Black, o padrinho de Potter, é morta, e o protagonista dá-se conta de que a vida só lhe reserva uma opção: ou mata Voldemort ou é morto por ele. A impossibilidade de escapar ao Mal anula qualquer pensamento e reflexão. Como todos lutam pela sobrevivência, e não há como escapar ao destino, os dados estão lançados. Em Hogwarts, não se aprende que “destino” é o que acontece quando não transformamos os conteúdos inconscientes da nossa psique em consciência.

Nos dois últimos volumes da saga, Harry Potter e o Príncipe Misterioso e Harry Potter e os Talismãs da Morte, assistimos a um crescendo de violência, explícita e implícita. Harry empreende uma viagem com Dumbledore, o Director de Hogwarts, para o ajudar na tarefa de destruir a alma de Voldemort, que se encontra espalhada por diversos objectos. Contudo, ao tentar destruir a alma de Voldemort, Dumbledore acaba por ser destruído por ela, e vê-se obrigado a pedir a um colega, Severus Snape, que ponha termo ao seu sofrimento e o mate.

Só resta Harry para, com a ajuda dos Talismãs da Morte (a Pedra da Ressurreição, que ressuscita os mortos, a Varinha de Sabugueiro, que é invencível, e o Manto da Invisibilidade, que é infalível), derrotar definitivamente Voldemort. Mas este antecipa-se e, num dos derradeiros combates, mata Harry, ao lançar-lhe a Maldição da Morte. Contudo, Harry não morre realmente, porque ele é um dos objectos que contêm a alma de Voldemort. Ao tentar matar Potter em bebé, o Senhor do Mal transferiu para a criança uma parte de si. Como essa parte deixou de existir mal Voldemort a matou, Harry pode, apesar de morto, regressar à vida, e acabar de vez com o seu arqui-inimigo. A obra termina com os filhos dos protagonistas a ingressarem, por sua vez, em Hogwarts, onde irão, provavelmente, seguir as pisadas dos seus pais e mães.

O que ganham os nossos jovens com a leitura disto tudo?

Uma coisa é certa: sempre que, na nossa vida, o mundo da sombra usurpa o lugar da luz, todos perdemos.

Sex machine? – Gilles Lipovetsky

Sex machine?

O sexo é muitas vezes apresentado como um outro continente emblemático da supremacia do Super-Homem. Trata-se, de resto, de uma leitura pouco original. Já nos anos 50, os observadores mais conceituados chamavam a atenção para o facto de a dinâmica do consumo estar a anexar a ordem sexual. Vistas como um divertimento fácil de alcançar, como um prazer frívolo válido em si mesmo, as relações sexuais têm tendência a transformar-se em «bens de consumo» que podem ser obtidos à vontade de cada um, sem verdadeiro compromisso, de certa forma nos moldes do livre-serviço.
Mas este encontro entre o Homo sexualis e o Homo consomator, liberto das antigas tradições repressivas, foi determinado por novas imposições colectivas geradoras de conformismo e receios, de «competições ansiosas» e «ocupações angustiantes». Embora beneficie do afrouxamento das restrições tradicionais, o sujeito libidinal moderno é, ao mesmo tempo, movido por novos modelos estandardizados, tais como a obrigação de se mostrar livre, de atingir o máximo de prazer possível, de se mostrar à altura dos padrões do desempenho erótico. No passado, predominava a norma do pudor; agora, estamos a braços com uma «liberdade imposta», uma «perseguição» inédita: a sexualidade «obrigatória».
Julgava ter conquistado a liberdade? Erro completo, já que a nossa cultura nos força metodicamente a experimentar de tudo, a libertar-nos dos nossos bloqueios e inibições, a usufruir ao máximo, a tornarmo-nos numa espécie de atletas da libido. Sob a capa da permissividade esconde-se, afinal, a ferocidade das normas da excelência mensurável, um hedonismo quantitativo e obrigatório, mais capaz de gerar complexos nos indivíduos do que de desinibi-los.
Assim, o direito ao prazer reclamado pela geração rebelde ter-se-á tornado numa intimação, numa «obrigação», numa espécie de produtivismo do prazer, análogo, em termos de princípio, àquele que rege o mundo industrial. E tal como a economia liberal gera a ansiedade relativamente à obtenção de resultados e à angústia do desemprego, também a nova economia libidinal origina o pânico do insucesso e da impotência, o pavor de se ser subdotado para os prazeres carnais, de não se corresponder à imagem do Super-Homem (ou da Super-Mulher) no dito amor.
Depois do tempo da transgressão, o tempo da mercantilização de Eros; depois da era do pecado, a era do sexo eficaz, hipertécnico e operacional. As livrarias estão repletas de manuais aptos a transformar-nos em amantes peritos. A pornografia anula as palavras e os sentimentos, enfatizando as proezas. Na época das «façanhas sexuais», todo o indivíduo é incitado a tornar-se numa espécie de actor, num Super-Homem da libido, adepto do êxito a 100%. O imperativo do desempenho já não se confina ao mundo empresarial e ao desporto, tendo conquistado também o planeta do sexo.
Neste cenário, que resta da delicadeza e da autenticidade do amor? Segundo declaram os críticos da permissividade, nesta era da pornografia e da sexologia, não existe nada para além de um erotismo hiper-realista e obsessivo, desumanizado, em que a dimensão relacional face ao outro está ausente. A logorreia emancipadora e o hedonismo cultural conjugaram-se para minar o conteúdo afectivo da sexualidade, reduzindo esta última a um procedimento técnico, a relações contratuais, pobres e despoetizadas, desprovidas de imaginação e de afecto. À medida que se difundem a «deserotização do mundo» e a impessoalidade da relação com o outro, os indivíduos, «carenciados de amor», tornam-se sujeitos calculistas, incapazes de construir ligações afectivas autênticas entre si.

O amor, sempre

Se a ideia de uma cultura anti-sentimental dificilmente resiste à análise dos factos, não podemos ignorar que estão em curso transformações profundas ligadas à sociedade de hiperconsumo. Um número crescente de homens e de mulheres reconhece a sua dificuldade em amar a mesma pessoa «para toda a vida». Relativamente a este aspecto, a situação mais frequente não é o sexo pelo sexo e o aumento relativo dos parceiros sexuais, mas a multiplicação das próprias histórias amorosas. Por um lado, o ideal amoroso constitui um obstáculo ao consumo-mundo; por outro, a vida sentimental tende a acompanhar a temporalidade efémera e acelerada do hiperconsumo.
Assistimos à anulação da dimensão afectiva, a uma vida amorosa que começa a desenvolver em si mesma a estrutura do turboconsumismo, com a desregulação do mito do amor eterno, a desqualificação dos ideais de sacrifício, a progressão das relações temporárias, a instabilidade e a inconstância dos sentimentos. Uma prática de consumo sentimental que nada tem de eufórica, sendo acompanhada por sensações de vazio, decepção, rancor, sofrimento. Se há um consumo hedonista, existe igualmente uma dimensão sismográfica do hiperconsumo dominada pela alternância repetida entre felicidade e tristeza, exaltação e abatimento.

Miséria sexual e prazer sensual

O balanço que fazem certos observadores do Eros contemporâneo não é de modo algum positivo. Uns assinalam o «declínio de Eros»; outros denunciam uma sexualidade narcísica, indiferente ao outro; outros ainda pintam o quadro apocalíptico de uma época em que os seres vivem desesperados, deprimidos, frustrados, isolados, com os seus desejos sempre insatisfeitos. Miséria sexual e afectiva que se deve a convergência entre ordem erótica e ordem económica. Assim como o liberalismo económico produz uma nova pobreza, também o liberalismo sexual está na origem de um maior, muito maior pauperismo afectivo.
Neste universo hiperconcorrencial, a grande maioria dos seres está condenada ao isolamento, à frustração, à vergonha de si mesma, ao adiamento do ideal afectivo. Como se o «horror económico» não bastasse, estamos agora também perante um «horror dos afectos». O individualismo e o liberalismo cultural não teriam, afinal, feito mais do que contribuir para o isolamento das pessoas, tornando-as egocêntricas e incapazes de proporcionar felicidade umas às outras. Longe de ter favorecido a felicidade dos sentidos, a dita revolução sexual provocou um formidável desenvolvimento das frustrações e do mal-estar. Libertação dos corpos, abandono do espírito. Negação dos indivíduos.

Gilles Lipovetsky
A felicidade paradoxal
Ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo.

Lisboa, Edições 70, 2007
(excertos adaptados)

O “medo de existir” nos tempos de crise – entrevista com Carlos Mota, psiquiatra

in: Porto sempre
Janeiro 2011

Entrevista com Carlos Mota Cardoso, Psiquiatra e Professor na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

Em declarações recentes, o professor e filósofo José Gil referia-se a estes tempos de crise como cenários potenciadores de um certo «medo de existir» e de um individualismo exacerbado, justamente devido à incerteza e ao receio do futuro. Acompanha esta leitura, ou, pelo contrário, haverá ainda, em sua opinião, lugar ao optimismo individual e colectivo?

Acompanho. O “medo de existir” que refere relaciona-se com a amargura que tolda a intimidade de cada um quando se tenta perscrutar os caminhos do futuro. O homem de hoje vive mergulhado num mar de dúvidas e de incertezas face à sua condição humana. Esbraceja, só ou quase só, numa sociedade profundamente mediatizada e, por consequência, devassada. Daí encapsular-se mais e mais em si próprio. Não escapa a um certo tipo de solidão e de angústia que, escorrendo nas profundezas do ser, lhe martiriza a alma. É esta uma marca do nosso tempo. Trata-se duma solidão curiosa e paradoxal, na medida em que acontece justamente nos locais onde o homem está, aparentemente, mais acompanhado, ou seja, mais comprimido nas malhas dos grandes aglomerados urbanos. O homem experimenta-se fisicamente acompanhado, mas sente um vazio mortal na dimensão humana dessa parceria, particularmente no campo afectivo.

E isso deve-se a quê, na sua óptica?

Isto sucede, a meu ver, por três ordens de razões. A primeira é que somos netos dum positivismo que, em certos períodos, se revelou galopante e desenfreado. Daqui resultou, de alguma forma, um indiscutível benefício com o acesso a meios técnicos impensáveis há 50 anos. Mas também resultou uma inevitável subordinação do homem à máquina. Para compreendermos esta subjugação basta pensar na importância que tem hoje, por exemplo, o telemóvel.
A segunda razão prende-se com o fenómeno da comunicação cultivada na modernidade. Trata-se duma comunicação epidérmica. Não há penetração na interioridade do outro. No encontro existencial apenas se trocam sinais de conveniência. Ou seja, não se constrói um verdadeiro encontro existencial, a não ser no reduto íntimo da família ou no contexto de ligações afectivas similares. A vida teatralizou-se excessivamente. As relações tecem-se hoje de forma surpreendentemente rápida. Porém, raramente escapam ao fenómeno da competição que as fermenta e, muitas vezes, inquina.
A terceira razão relaciona-se com o desaparecimento das distâncias e a quase anulação do espaço. Os espaços siderais, outrora repletos de enigmas, são hoje preenchidos por sondas e satélites lançados da terra ou pelas ondas electromagnéticas que permitem o milagre da televisão ou da internet. Uma e outra mudaram radicalmente a vida de cada um, impondo severos limites e silêncios forçados ao relacionamento interpessoal.

Do ponto de vista psicossocial, o actual clima criado poderá, ou não, ser gerador de distúrbios psíquicos e afectivos, capazes de afectar a nossa qualidade de vida, que é como quem diz, a nossa felicidade enquanto cidadãos, bem como os princípios e valores da sociedade que nos cerca?

Da resposta anterior infere-se que assistimos hoje em dia a uma profunda alteração psicocultural da sociedade. Esta mudança tem raízes antigas. O primado da racionalidade reforçado por algumas doutrinas materialistas acabou por subalternizar a vertente simbólica da vida com consequências para a criação duma nova ordem psicossocial. Nasceu, de alguma forma, um novo tipo de angústia cuja matriz emerge do vazio resultante da desertificação do limbo simbólico da existência. A racionalidade nua, tal como algumas correntes defendem e propagam, não consegue preencher os vazios que outrora verdejavam de projectos humanos coloridos de valores simbólicos nos campos prometidos do futuro.

De acordo com a sua formação e experiência clínica no campo da psiquiatria e também enquanto profundo observador da realidade social quotidiana, como caracteriza e diagnostica a situação? Tem-se deparado, por exemplo, com muitos desses casos nas consultas, por exemplo ao nível de estados de depressão e angústia? De que é que, actualmente, as pessoas mais se queixam?

O futuro abre-se diante de nós como uma espécie de estrada por percorrer. Sabemos que ela nos conduz inexoravelmente à morte. Uma morte que em condições normais entrevemos como algo muito esfumado nas brumas do tempo mais ou menos distante. E porquê esfumado e distante quando todos sabemos que pertence à vida de cada um? Porque é-nos dada a possibilidade de semearmos nos tais campos do futuro projectos de vida que com mais ou menos esforço vamos acarinhando, abandonando ou realizando. Os projectos são como as árvores duma floresta que encobrem o horizonte que a limita. Pensemos por exemplo no casamento, nos filhos, no trabalho, enfim na realização da própria vida. Semeamos hoje para colher amanhã. Ora, se a fogueira que outrora aquecia a família perdeu calor, se os valores do trabalho se reduziram à dimensão aritmética, se os valores afectivos se superficializam, se a ética se estreita nas malhas da conveniência e se a estética se consome no lume fátuo do erotismo mais primário, o que resta? O vazio à nossa frente. A angústia do existir, o abatimento, a depressão e a legião de doenças psicossomáticas que castigam tanta gente e que são responsáveis por tanto sofrimento silencioso constituem a resultante final desse vazio.

O Astrónomo e a brisa da noite – A criação

Nuno Tomar de Lemos, S. J
O Príncipe e a Lavadeira
Coimbra, Edições Tenacitas, 2003

O Astrónomo e a brisa da noite

A criação

 

“Eu sei que Tu estás aí!” — Gritou de novo o astrónomo, sozinho, no meio da noite. O frio entrava-lhe pelas mangas, o pescoço doía-lhe de tanto olhar para o céu. “Deus, eu sei que Tu estás aí. Dá-me um sinal da Tua presença”. Mas mais uma vez ninguém respondeu.
— Sei que Tu estás aí, Deus Antigo, Deus Imenso — sussurrou o astrónomo. Sei que Te moves devagarinho enquanto as estrelas avançam, lentamente, pela noite. Sei que estendes os Teus braços por milhões de anos-luz até às galáxias distantes. Sei que és muito grande e que brincas com Saturno quando o escondes no horizonte. Sei que no Teu jardim plantas constelações feitas de estrelas. Sei da lágrima que choras em cada estrela cadente. Sei que Tu és Antigo, mais Antigo que a própria Terra. Mais Antigo que esta terra que piso e em que um dia hei-de morrer. Eu sei, mas dá-me um sinal da Tua presença.
Esperou. Mas mais uma vez ninguém respondeu. Durante cem noites o astrónomo subira a esta colina. Durante cem noites esperara ansiosamente um sinal, um sinal por mais pequeno que fosse de que estava certo e de que os seus colegas estavam errados. De que ele estava certo quando dizia haver um Deus maior que tudo. Que eles estavam errados quando diziam que era tudo fantasia sua. Que ele estava certo quando dizia que havia um Criador. Que eles estavam errados quando lhe respondiam com fórmulas matemáticas e com teorias de uma explosão inicial que tudo explicada. E quando se riam na sua cara. E quando o tratavam como cientista de segunda. Agora, pela última vez, voltava-se para cima e pedia um sinal. Nem pedia um sinal para eles. Pedia apenas um sinal para si, um sinal que lhe permitisse dormir em paz, apesar das gargalhadas dos outros. Mas passaram-se i cem dias e cem noites e o sinal não veio.
Desistiu. Abandonou-se à brisa, a mesma brisa suave e fria que soprava desde a primeira noite e que tantas vezes o irritara por não o deixar concentrar-se.
— Olá — disse uma voz jovem e descontraída.
— Boa noite. — Disse o astrónomo surpreendido. — Não te vi. Como chegaste aqui sem que te sentisse? Perdeste alguma ovelha?
— Estava a ver é que te perdia a ti. — Respondeu a voz, a sorrir. — Cem vezes pediste um sinal. Cem vezes te toquei com a minha brisa. Creio que hoje te preparavas para não voltar.
— Senhor, Meu Deus! Sois Vós? O Altíssimo? O Deus Antigo? O Deus Imenso?
— Bem, se me preferes chamar assim…
— Senhor, Altíssimo, Tu não devias estar lá em cima nos céus? Não é lá que Tu moras? O que estás a fazer aqui?
— Onde eu moro não brilham estrelas, a não ser quando o coração de algum homem se converte ao amor. Nem há constelações, a não ser quando dois ou mais se reúnem em Meu nome. Moro onde tu moras. Compreendes?
— Tu moras onde eu moro?! Eu moro numa casa tão pequena e Tu és tão grande!
— Só é grande quem se encaixa no pequeno por amor.
— Sempre pensei que moravas no céu e que por isso o céu era tão grande. Sabes, às vezes ficava horas e horas sem fim a olhar a imensidão das estrelas e a pensar em Ti.
— Eu sei. Eu vi-te quando te comoveste, encostado à figueira, a olhar o céu. Fiquei com vontade de te contar tudo, sobretudo de te dizer isto: O universo não é a minha casa. E a tua. É a casa que Eu criei para ti e para todos os homens. Sabes, às vezes os pais montam casas para os filhos…
— Mas então porque é tão grande o universo? A nós chegavam-nos umas quantas montanhas e outras tantas planícies…
— Sim, se calhar tens razão. Talvez tenha exagerado. Sabes como é, uma pessoa quando é Deus pensa nos homens e entusiasma-se… Pegamos em papel e lápis e desenhamos o Sol e a Terra, um à frente do outro. “Terão a Terra para habitar e o Sol para os aquecer”, pensamos. Fica bem, mas ainda está tudo muito parado. Pensamos então em pôr a Terra a rodar à volta do Sol para haver anos e darem pelo tempo passar. E pomo-la a rodar sobre si mesma para haver dias e noites e poderem recomeçar a vida de novo cada manhã. E já agora inclinamos um pouco o eixo para poder haver estações, e sementeiras e colheitas no tempo certo, e festas. A Terra até fica bem assim — um belo planeta para os homens! — e resolvemos então pôr mais planetas à volta do Sol. Todos diferentes, uns maiores, outros mais pequenos, um com anéis, outro com satélites. Quando damos por ela já vai em nove e resolvemos que chega. De facto de dia chega, mas de noite achamos tudo bastante escuro. Os homens, de noite, morrerão de tédio, pensamos. Começamos então a desenhar estreias e mais estrelas. Primeiro uma pessoa pensa em pô-las todas alinhadas. Depois começa-se a desarrumar tudo e a fazer constelações. Será bem mais divertido para os homens olhar um céu assim… Começamos com uma constelação, e já agora outra ali mais ao lado, e quando damos por ela já vamos em milhões de galáxias a milhões de milhões de anos-luz. E já agora umas nebulosas, e já agora uns cometas de vez em quando para que fique tudo mais emocionante, e já agora a Lua, para que o mar tenha marés cheias e marés vazias e eles tenham semanas e ao sábado se possam apaixonar.
— Tenho uma pergunta, Senhor. É uma pergunta um pouco embaraçosa. Os meus colegas dizem que Tu não criaste nada. Que tudo aconteceu numa grande explosão, há muitos milhões de milhões de milhões de anos.
— Bem, imagina que Eu decidi criar através de uma explosão…? Não posso criar da maneira que achar melhor? Também as árvores nascem devagarinho das sementes, isso eles entendem. Entendem que a árvore já lá está toda naquela semente pequena que o tempo irá regar. Eu é que não entendo os teus colegas. Se houve uma explosão, alguma coisa tinha de existir primeiro para que depois houvesse explosão, não é? Os homens, quando descobrem as leis do universo, sentem-se tão contentes que se esquecem de que para haver leis foi preciso que eu inventasse essas leis. Esquecem-se de que para que alguém possa descobrir, alguém antes teve de criar.
— Desculpa-me o atrevimento, Senhor, de Te fazer tantas perguntas, agora que Te tenho aqui à mão… Mas então a Bíblia? Não diz que Tu fizeste tudo em sete dias? Eles dizem que um universo assim nem em sete milhões de anos,
— Os homens esqueceram a poesia. E sem poesia não entendem quando Eu falo. Esqueceram que sete quer dizer plenitude. A plenitude do Meu amor. É isso. É só isso que precisam de saber, para depois poderem olhar pelos telescópios e não se perderem. A Bíblia não diz como criei, diz que criei tudo para vocês, por amor. E explica como é que podem usar de tudo com amor e serem felizes. A Bíblia não é um manual de fabrico, é uma espécie de manual de instruções, percebes?
— Mas então Tu não te importas que nós olhemos o céu com telescópios? E que depois vamos para casa fazer contas e escrever livros de ciência? E depois, se calhar, que nos metamos numas naves para ir ver mais de perto…
— Quero que amem a casa que vos dei. Quero que a contemplem e conheçam. Há nela recantos que ainda nem sonham que existem. Quero que usem a inteligência que vos dei e que os vossos filhos saibam mais que vocês, e que os filhos deles saibam mais que eles. Só tenho pena é que ainda saibam tão pouco.
— Não são segredos a mais? Por que é que não dizes logo tudo de uma vez? Poupavas-nos tanto tempo!
— Sim, Eu podia dizer tudo de uma vez. Podia até escrever uma legenda no céu com letras de raios laser a dizer que o autor sou Eu e que escusassem de pensar mais. Poupava-vos muito trabalho e conseguiria que todos me adorassem. Mas tirava-vos a Liberdade e sem liberdade não há amor. Prefiro que me descubram pelo amor. Detestaria que me adorassem à força. Percebes isto?
— Mas, Senhor, assim há sempre quem se esqueça de Ti. Como é que Tu, sendo tão grande, Te sujeitas a isso?
— Maior grandeza é não se impor. Amar somente, escondido no brilho dos astros, na escuridão da noite, no soprar da brisa. Chamar sem forçar. Falar ao coração daquele que olha o universo, como quem sussurra, e esperar que me deseje. Como tu, nestes cem dias, nestas cem noites em que me abriste o teu coração e eu te desejei e tu me desejaste até quase não poderes mais.
“Deixei-Te até quase não poder mais”, concordou o astrónomo, no cimo da colina. Quando abriu os olhos não viu ninguém. Sentiu apenas a brisa da noite que lhe tocava a cara. Mas agora já não tinha frio.

Água – Bapsi Sidhwa (sugestão de leitura)

Bapsi Sidhwa
Água
Lisboa, Editorial Presença

Chuya, uma mulher-menina de oito anos, fica viúva de um homem de quarenta e seis, dois anos após o seu casamento e, por decisão da sogra, é deixada numa casa de viúvas, onde é obrigada a viver uma vida de penitência e de infelicidade. Essa casa é liderada por Madhumati, uma mulher sem escrúpulos que obriga as mais jovens a prostituir-se em troca de marijuana.
Este livro conta uma história passada em 1938, na Índia colonial, em pleno movimento de emancipação da mulher, liderado por Mahatma Gandhi.

 Água

Excerto

Madhumati alcançou a varanda a transpirar, respirando com dificuldade. Entrou pela porta das escadas e chamou Kalyani.

Kalyani apareceu à porta, a tremer de medo e deu de caras com Madhumati. O longo cabelo escuro caía-lhe húmido pelas costas.

Madhumati falou-lhe num tom baixo e enfurecido:

— A Chuyia diz que te vais casar…

Kalyani anuiu.

— Endoideceste? Ninguém se casará com uma viúva.

Kalyani falou com uma certeza serena.

— Ele vai fazê-lo..

Madhumati emitiu um sopro de desdém.

— Desavergonhada! Vais afundar-te e vais afundar-nos a todas! Seremos amaldiçoadas. Temos de viver em pureza, para morrer em pureza — explicou-lhe Madhumati, sem ter noção da hipocrisia de pregar tal coisa a uma jovem que era obrigada a prostituir-se contra a sua vontade.

Kalyani sofrera tempo demais, vivendo aquela vida dupla e agora, estava disposta a enfrentar Madhumati.

— Por que razão me enviaste então para a outra margem do rio? — perguntou, calmamente.

Madhumati sentia-se ultrajada por Kalyani contestar as suas atitudes.

— É pela nossa sobrevivência! É a nossa única forma de sobrevivência e ninguém tem o direito de a questionar! Nem mesmo Deus! — proferiu irada.

Antes que Kalyani se apercebesse do que lhe estava a acontecer, Madhumati agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a até ao barsati que servia de arrecadação junto ao seu quarto. Retirando uma tesoura do interior do sari, cortou-lhe uma mecha de cabelo num movimento surpreendentemente rápido. Kalyam caiu de joelhos aturdida, demasiado entorpecida para resistir. Madhumati prosseguiu retalhando-lhe o resto do cabelo até lhe deixar apenas uns escassos tufos. Kalyani permaneceu imóvel, como um pássaro jovem caído do ninho.

Tendo terminado a sua missão destrutiva, Madhumati fechou a porta à rapariga encolhida de medo girando a chave na imensa fechadura. Prendeu a chave ao sari e voltou a sua atenção para os rostos atentos das viúvas reunidas no pátio lá em baixo.

Madhumati manteve-se na balaustrada de olhar alucinado, com as órbitas vermelhas e inflamadas anormalmente dilatadas.

— Teríamos ardido no inferno por causa dela. Salvei-vos a todas! — disse, justificando a brutalidade da sua atitude. — Vamos ver se a puta agora se casa.

As viúvas estavam ofegantes e sem fala, Shakuntala voltou-se para Chuyia que perguntou:

É verdade?

Shakuntala repreendeu-a.

— Fala baixo!

E dirigiram-se ambas, abatidas, até ao quarto de Shakuntala, deixando as outras viúvas a olhar estupidamente para a figura gigantesca de Madhumati descendo as escadas. Chuyia agarrou-lhe no sari.

Didi, vais deixar Kalyani sair, não vais? — implorou.

— A simples ideia de voltar a casar já é um pecado — replicou Shakuntala com os pensamentos em tumulto. O seu amor por Kalya opunha-se às suas profundas crenças religiosas.

— Porquê? — perguntou Chuyia, inocentemente.

— Pergunta a Deus — retorquiu Shakuntala asperamente, impaciente consigo mesma por duvidar daquilo que acreditava estar escrito nas escrituras.

Profundamente magoada, Chuyia desapareceu a correr sem uma palavra.

Os ombros de Shakuntala cederam ao cansaço. Não conseguia reunir energia suficiente para a chamar e lhe explicar que estava zangada com ela.

Pouco tempo depois, sentou-se na sua mesinha, folheando alguns textos religiosos, tentando encontrar passagens que mencionasse as leis que governavam a conduta e o estatuto das viúvas. De acordo com o Manusmriti, o texto sânscrito mais importante nas tradições ortodoxas, a cabeça de uma viúva é rapada, os seus ornamente removidos e ela deve viver num luto perpétuo. Deve respeitar jejum, não comer coisas «picantes» para não estimular a sua energia sexual, evitar ocasiões de bom agoiro por ser considerada mau agoiro (por ter provocado a morte do marido), permanecer solteira, devotada e leal à memória do marido.

O Vriddha Hirata posterior era mais explícito. Devia abster-se de mastigar noz de bétele, usar perfume, flores, ornamentos e poupas coloridas, retirar comida de um recipiente de bronze, tomar duas refeições por dia e aplicar colírio nos olhos. Só podia vestir uma veste branca, dominar os seus sentidos e a ira, e dormir no chão.

Com os pensamentos num turbilhão, o olhar de Shakuntala projectou-se através da janela. As viúvas escandalizadas estavam novamente reunidas em redor de Madhumati. Esta estava sentada no seu takth, com o couro cabeludo a transpirar, de rosto vermelho do esforço por ter subido e descido as escadas até ao barsati. Kunti estava inclinada sobre ela, limpando solicitamente a transpiração do pescoço e do ombro exposto, e Snehlata estava agachada junto ao takth, abanando lentamente a folha de palmeira que servia de leque. A força da monção estava a desvanecer-se, mas a atmosfera ainda estava muito húmida.

O que tinha acabado de ler apenas afirmava aquilo que ela conhecia e aceitava – não encontrou em parte alguma nada que pudesse redimir Kalyani. Voltar a casar condenaria a alma do marido ao inferno e amaldiçoaria os karmas de toda a sua família. Apesar da sua aceitação incondicional do Dharma Shastras que advoga que a viuvez é um castigo por uma existência pecaminosa no passado, a situação difícil de Kalyani veio abalar a sua fé na lei.

Fechou a cortina e afastou-se da janela. Abriu a esteira junto da janela e deitou-se, era algo que nunca fazia àquela hora do dia. As memórias da sua vida de antigamente, que reprimira ao longo dos anos como uma parte terminada da sua vida porque era pecado recordar, afloraram-lhe a consciência, deixando inundar-se por elas.

O nascimento de Shakuntala tinha sido uma surpresa para os pais na sua meia-idade avançada. Já tinham quatro filhos robustos e a filha foi recebida como a Deusa Lakshmi, precursora da prosperidade e da felicidade. A sua família era proprietária de muitas terras e o pai era uma figura respeitada na aldeia. Os irmãos idolatravam-na, envolvendo-a em todo o tipo de actividades que geralmente as raparigas na aldeia não tinham permissão para fazer. Ensinaram-lhe a ler e ela conseguia recitar as multiplicações até 20. Tinha uma mente aguçada e rapidamente começou a ler os livros que eles traziam para casa.

Os pais estavam decididos a arranjar-lhe um bom casamento numa família que a tratasse bem e que lhe permitisse fazer as coisas às quais estava habituada. Shakuntala permaneceu junto dos pais muito mais tempo do que aquilo que muitas famílias teriam considerado prudente. Quando os pais começavam a desesperar por pensarem nunca iriam conseguir encontrar um marido apropriado antes de a filha atingir a puberdade, ouviram falar de um jovem viúvo numa aldeia vizinha que estava pronto a casar outra vez. Tal como todas as jovens na aldeia, Shakuntala estava ansiosa por se casar e, aos 14 anos, a sua cabeça estava repleta de fantasias românticas.

Os horóscopos deles coincidiam e o casamento rapidamente foi acertado. Como de costume, a família da noiva assumiu todas as despesas e o pai presenteou o noivo com um belo dote que excedeu as expectativas da família.

Shakuntala fechou os olhos e, tal como Bua, visualizou o banquete de casamento: grandes pratos atestados de puris fritos e inchados, legumes condimentados, montinhos de arroz de açafrão aromáticos e toda a espécie de picles, sumos de fruta e seiva fresca da palmeira. Tabuleiros de doce de amêndoa e caju recortado em forma de losango e thalis de aço apinhados de laddoos reluzentes, cobertos com uma folha prateada que se evaporava na língua. Tal como Bua, podia sentir o sabor dos laddoos e sentir a água a crescer na boca. Sorriu, fazendo uma pequena prece de agradecimento pelo facto de Bua ter comido o seu laddoo antes de morrer.

Que coisa mais mesquinha de se negar a uma idosa, pensou Shakuntala, e depois a sua mente centrou-se numa série de mesquinharias que eram negadas às viúvas para que estas conservassem a sua pureza.

Que Deus a preservasse da percepção distorcida que se tinha da pureza, pensou. Mas se não tivesse sido a caridade dos irmãos, ela teria sido obrigada a prostituir-se, tal como Kalyani.

Os pensamentos de Shakuntala regressaram ao passado. O seu noivo era jovem, tinha apenas mais 13 anos do que ela. Embora tivesse sofrido muito com a morte da primeira mulher, quando passou um ano, ele descobriu que o seu coração não se tinha endurecido com a perda e estava pronto a abrir-se a Shakuntala.

No primeiro ano de casamento, o marido mostrou-se bastante paciente, e ela desabrochou de menina para uma bela mulher. Com o passar dos anos, foram-se apaixonando profundamente. Na esperança de que Shakuntala fosse o instrumento através do qual o filho pagaria a dívida aos antepassados reproduzindo filhos, a sogra tratava-a com benevolência e carinho. No entanto, à medida que os anos iam passando, a sogra começou a culpá-la por não ser capaz de gerar filhos, tornando-se cada vez mais detestável para a sua nora estéril. Apesar de a sua relação ser muito apaixonada e ardente, Shakuntala ficava decepcionada todos os meses perante a deprimente evidência da sua fertilidade falhada, ansiando desesperadamente por um filho. Ela tinha apenas 30 anos quando o marido começou a cuspir sangue, definhando diante dos seus olhos. Perto do fim, nem Shakuntala nem a sogra saíam da sua cabeceira. Nos curtos períodos de lucidez, entre momentos de delírio, o marido pegava-lhe na mão e apertava-a contra a sua cara: os seus olhos imploravam à mãe que tomasse conta dela quando ele fosse embora. O rosto da mãe ia-se endurecendo cada vez mais.

A boa sorte, que até então lhe regera a vida como uma espécie de talismã mágico, chegou ao fim com a morte do marido. Foi obrigada a ficar com a família do marido, com a sogra amargurada e rancorosa e, durante o ano que permaneceu junto deles, viveu num inferno terreno. No princípio, Shakuntala pensou que morreria de tristeza e não sabia como poderia viver sem o amor e a protecção do marido. A dor era ainda maior graças ao tratamento doentio que recebia dos sogros. Passara da condição de adorada à de maltratada e era olhada como uma coisa imunda. A cabeça foi rapada de modo a retirar o pecado e a poluição que havia no seu cabelo e para a marcar como um ser assexual que uma viúva tinha de ser. Ainda conseguia vislumbrar a fúria nos olhos da sogra quando esta lhe partiu as pulseiras de vidro e lhe arrancou o mangal-sutra do pescoço, iniciando os rituais de passagem para a viuvez. Viu-se despojada de todas as suas jóias e bens e só podia cobrir o corpo com um tecido branco. No fundo, ia morrendo de fome aos poucos, já que estava limitada a uma refeição por dia – uma refeição frugal de arroz sem condimentos e daals para purificar o seu corpo da luxúria. Tinha de dormir no chão. A sua única função útil – a de esposa e reprodutora de filhos desaparecera para sempre. Não só era responsabilizada pela morte do marido, como também era considerada uma ameaça para a família dele e, sobretudo, ao espírito do marido morto, pela sua condição feminina vital e potencial sexualidade.

Sentia que a vigiavam constantemente, com medo de que cometesse algum pecado que lhes trouxesse maldições e enviasse o marido para o inferno.

Um ano depois, Shakuntala soube que tinha de partir. Os seus irmãos trataram de tudo para que ela fosse para o ashram, em Rawalpur, e para que recebesse regularmente um pequeno montante. Os seus pais já tinham falecido e ela abençoou os irmãos nas suas orações. O dinheiro que recebia e, o facto de poder ler e escrever com facilidade, proporcionaram-lhe um estatuto independente no ashram. A família do marido ficou contente por se ver livre dela e não tivera qualquer contacto com eles durante 12 anos. Shakuntala tinha encontrado um lar no ashram e jamais o poderia abandonar.

Cada palavra é uma semente – Susanna Tamaro (sugestão de leitura)

Susanna Tamaro
Cada palavra é uma semente
Lisboa, Editorial Presença

Acreditando que a escrita deve propagar a semente da inquietação, Susanna Tamaro aborda neste livro, sempre numa atitude de espanto e de humildade, o grande mistério da vida humana. Uma viagem espiritual, embaladora, que nos confronta e nos inspira através do realismo e da sensibilidade da prosa envolvente a que Susanna Tamaro já nos habituou.

Cada palavra é uma semente

Excerto

O meu pai era uma pessoa bastante especial. Vivia num pequeno quarto com uma varanda que dava para a gravilha de uma linha férrea. Já estava reformado há alguns anos e sentia-se feliz. Não sei o que fazia o dia todo, não tinha amigos, não convivia com ninguém. Sentia-se vaidoso por poder comprar o passe social a preço reduzido. «Sabes — dizia-me ele —, por esta quantia, por esta modesta quantia, posso viajar dia e noite, nos meios de transporte que quiser.»

Acho que passava a maior parte do seu tempo a andar nos autocarros e nos comboios citadinos.

Por mais do que uma vez, fui encontrá-lo em lugares impensáveis, muito afastados da casa onde vivia. O passo era sempre o mesmo, mãos atrás das costas, ar absorto. E quando eu lhe perguntava: «O que é que andas a fazer por estes lados?», respondia invariavelmente: «Vim dar uma volta.»

Por vezes, eram os amigos que me diziam onde ele estava. «Vi-o perto do entroncamento… no túmulo de Nero… no fundo da Aurelia… no átrio da Stazione Tiburtina… «Estava sozinho?» «Claro.» «O que é que estava a fazer?» «A passear.»

À noite, voltava para casa e desligava o telefone, ou talvez, mais simplesmente, evitava atender. Penso que já só havia duas ou três pessoas que soubessem o seu número, mas isso não tinha importância. Não queria ser incomodado, não queria que ninguém fosse lá a casa, ser convidado, para lhe dar cabo do seu tempo.

Na varanda, tinha uma bicicleta já velha; não era um desportista, mas tinha problemas de coração. Por isso, à noite, pedalava. Pedalava e via passar os comboios. De vez em quando, telefonava para me dizer: «Sabes, já começam a aparecer os primeiros pirilampos, vejo-os reluzir entre dois comboios…» Ou então: «Há uma gata que teve gatinhos, dois ruivos e um cinzento. Quando volta da caça, vão a correr ao encontro dela, todos contentes, de cauda levantada.»

O meu pai chegava sempre a horas aos nossos encontros, mas não tinha o sentido do tempo. Olhava para os outros — aqueles a quem o Principezinho chama «os adultos» — com um espanto mal disfarçado. Para onde iam eles a correr? Porque têm tanta pressa? Não conseguia entender.

Já numa idade mais do que adulta, começou a estudar chinês. Descobrira no taoísmo a repercussão perfeita do seu ser. «Pratica o não agir. Tenta não fazer nada. Saboreia o que não tem sabor. Considera o pequeno como grande, o pouco como muito.»

O meu pai não tinha o sentido do tempo, mas, apesar disso, foi ele, juntamente com a minha mãe, quem me deu o meu tempo. Deu-me o tempo, o meu tempo, e deu-me o seu não-tempo, a indiferença total pelo desenrolar das coisas.

Também chego sempre a horas aos encontros, mas abro as cartas uns meses depois de as receber e respondo, se me lembrar, passados uns anos. Quando o telefone toca, nem o ouço. Se digo a alguém «telefono-te amanhã», é certo e sabido que telefonarei passado um mês, não por maldade, desleixo ou arrogância, mas porque também vivo numa espécie de presente eterno. No meu tempo interior, um mês, uma semana, um dia, valem o mesmo.

Quanto tempo demorei a reparar no tempo? Não muito. Devia ter uns sete anos. Lembro-me de uma tarde cinzenta e ventosa, o vento sul entrava por baixo da janela e esfriava o quarto. Eu estava a meter os livros na pasta, para o dia seguinte. De repente, pensei: este dia já passou e nunca mais voltará. Tudo o que vi, senti, sofri e ouvi desapareceu para sempre. Cada pôr do Sol é um pequeno passo para a morte.

Foi a partir de então que comecei a ver de uma forma diferente cada pessoa que encontrava. Havia a pessoa e, a seu lado, um pequeno poço. Esse poço ficava perto da cama e cada entardecer engolia o dia que tinha passado. Havia poços quase vazios, como o meu e o dos meus irmãos, e poços já cheios, como os dos avós. Os poços quase cheios faziam-me chorar.

A partir daí, a ansiedade foi a minha fiel companheira. Sentia-me como um ramo que a chuva atirara para a água de um rio lamacento que ia correndo lentamente para um sítio qualquer, a paisagem não era muito diferente da que vi muitas vezes do comboio, entre Trieste e Veneza. Neblina, casas, campos de milho, ca­nais, choupos e campanários. Neblina, casas e campos de milho. De vez em quando, uma figura escura, de bicicleta.

Nunca tinha pedido para descer aquele rio e não tinha qualquer possibilidade de sair dele, navegava como navegavam os outros todos, mas também com um sentimento de grande impotência.

O que era a vida? Levantar de manhã, ir à casa de banho, ir para a escola, comer, fazer os trabalhos de casa e ir para a cama, para recomeçar, no dia seguinte, a mesma série de sequências ridículas. Haveria de crescer e, em vez de ir para a escola, iria para o trabalho e essa seria a única diferença substancial. Depois, o trabalho também acabaria e os meus cabelos ficariam brancos, as pernas começariam a fraquejar e eu ficaria muito tempo parada diante das passadeiras para peões, antes de atravessar a rua. Depois, as pernas deixariam de aguentar com o meu peso e deitar-me-iam no caixão como, durante tantos anos, me tinha deitado na minha cama. Fim do tédio, fim da repetição, fim de tudo o resto.

Era para isso que as pessoas vinham ao mundo? E o que era a vida senão um monótono desperdício de tempo e de energia?

Nessa altura, como é natural, não sabia nada do Big Bang e do espaço, dos cem milhões de galáxias que giram connosco no cosmos, nem das relações que ligam o espaço ao tempo, a massa à energia Todavia, tinha percebido uma coisa absolutamente fundamental, isto é, que o tempo é como uma seta, sai do arco e vai parar no alvo e nunca pode fazer o percurso inverso. Pelo menos, não para nós, seres humanos e animais e plantas. Para nós que, de uma forma ou de outra, respiramos.

Para os eléctrodos e as partículas fundamentais, tudo muda, não têm relógios, nem encontros marcados, não se apaixonam, nem serão avós, e também não imaginam que a morte existe. Para eles, o passado e o futuro são a mesma coisa.

Para nós, não. Para as criaturas — para todas as criaturas — só há um caminho e uma única direcção. É daí que nasce o espanto, o horror vacui que senti na infância e hoje sente qualquer pessoa que pare, ao menos por um instante, para reflectir.

A pergunta acerca do tempo é, acima de tudo, uma pergunta acerca do sentido. Porquê? Para quem? Para quê?

Tenho um temperamento marcadamente terrestre. Entre olhar para as alturas e olhar para o chão, sempre preferi olhar para o chão. Compreendo mais coisas ao ver uma formiga a transportar uma semente do que ao estudar as fórmulas matemáticas que definem o trajecto das estrelas.

Na memória de todas as culturas, antes do mundo, havia o caos. A certa altura — que talvez ainda não fosse altura nenhuma porque o tempo não existia — houve uma coisa muito pequena que explodiu, gerando uma coisa grande.

Na língua chinesa, o que exprime o caos primogénito — um caos que, naturalmente, não é caos, mas apenas uma ordem diferente da que conhecemos — é o ideograma hun tun..

O meu pai tinha estudado chinês e, durante um certo tempo, eu estudei a caligrafia chinesa. Tinha uma professora minuciosa e silenciosa, mas que, diante das folhas brancas, se transformava e brandia o pincel com energia e graça, como uma dança. Gostava de repetir: «Céu, pai, terra mãe, nós muito pequenos, muito, muito pequenos.»

Os ideogramas não são gatafunhos incompreensíveis, são representações de microcosmos e do macrocosmo.

O Hun Tun, o caos que antecede a criação, é formado por dois ideogramas. O ideograma Hun que representa um homem e, por baixo dele, o Sol, um Sol abaixo do horizonte, ainda prisioneiro das trevas. Pelo contrário, o ideograma Tun representa uma pequena planta que tenta criar raízes. Em ambos os ideogramas, está presente o signo da água. A água é, portanto, a fonte da vida, foi aí que todo o mundo que conhecemos começou a criar raízes. E é também aí, na água do ventre materno, que a vida de cada criatura inicia o seu percurso de crescimento.

Existir no tempo é, acima de tudo, criar raízes.

Um dos livros que leio com maior paixão é o livro da evolução, a vida que houve antes de nós. A grande seta que permitiu o disparo da seta mais pequena, a da nossa existência individual. Uma seta lançada por uma criança e uma seta disparada por um gigante, ambas apontadas para o mesmo alvo.

Eu não posso transformar-me em lémure, tal como um carvalho não pode transformar-se em alga unicelular. No entanto, num determinado momento, a alga começou a imaginar dentro de si o carvalho.

Aconteceu há cerca de quatrocentos milhões de anos, no devónico [Quarto período do Paleozóico, em que apareceram os primeiros vertebrados terrestres e as primeiras plantas vasculares. (NT)] Até essa altura, as plantas tinham vivido e tinham-se propagado apenas horizontalmente.

Todavia, o sonho gera a inquietação e, de repente, tudo o que era cómodo e natural começa a ficar acanhado. Porque não explorar também outros espaços? Porque não tentar atingir a grande estrela que enche de luz o espaço circundante?

Para isso, não se pode estar parado, a flutuar. Necessita-se de um sistema diferente de transporte dos alimentos. É assim que se formam novas células, células muito compridas, capazes de transportar a água para o topo, e outras capazes de voltar a trazer a linfa elaborada para baixo. Assim se desenvolve uma espécie de tecido celular com uma estrutura semelhante à medula, no centro. No meio, há ar, e ar significa respiração. Células com clorofila rodeiam o tecido vascular e a planta cobre-se de pequenos botões, os estornas. Botões que se abrem e fecham para conterem ou libertarem vapor. O vapor sobe até ao céu e o céu restitui-o sob a forma de chuva.

E é nessa altura que a terra dá início ao grande processo da respiração.

Para falar verdade, até há poucos anos, não prestava grande atenção à vida das plantas. Privilegiava o estudo dos animais porque os animais têm um olhar. Só com o tempo, aprofundando alguns pensamentos, é que fui reparando na grande afinidade que existe entre o nosso destino e o destino do mundo vegetal.

Entre nós e uma planta, a diferença não é muito grande. Tanto nós como elas somos feitos de tecido vascular, temos uma medula que nos mantém direitos e nos faz ter, crescendo, uma posição erecta. Tanto nós como elas, para podermos continuar a viver, precisamos da dose de alimento adequada.

Criar raízes, alimentar-se, crescer.

Enquanto os animais crescem na horizontal, nós e as plantas somos seres verticais. Elas aguentam o peso da ramagem, nós, o embaraçoso peso da cabeça.

As plantas demoraram alguns milhares de anos a mudar de estado. Desenvolvendo-se em altura, tinham resolvido vários problemas, mas ainda havia muitos por resolver. O da propagação, por exemplo. Antes do nascimento das sementes, o ovo fecundado não tinha qualquer tipo de protecção, bastava uma mínima mudança de clima para gastar o seu potencial de crescimento.

Por conseguinte, as sementes foram a outra grande revolução silenciosa.

A semente tem tudo no seu interior, pode ficar protegida no ovário, ou transformar-se em fruto e ir parar à barriga de uma pessoa, pode cair ao chão e ficar adormecida durante meses, ou mesmo anos, à espera das condições propícias para crescer, ou pode agarrar-se ao pêlo de um animal e andar a vaguear pelo mundo.

Há sementes que explodem, como a da impatiens, ou voam ligeiras, como o dente-de-leão, e outras que ficam paradas no ar como máquinas de Leonardo.

As sementes são potencialidade, uma potencialidade em prudente espera. Primeiro, não agem, e, quando agem, têm um projecto. A margarida converte-se em margarida, a genciana converte-se em genciana.

As plantas crescem para a luz e nós também crescemos para a Luz, embora muitas vezes façamos tudo para o ignorar.

Olhando à minha volta, tenho muitas vezes a impressão de que, para muitas pessoas, o tempo da vida se parece com um grande armário cheio de gavetas que elas têm de encher o mais depressa possível.

O tempo, com a sua vacuidade, gera ansiedades dificilmente controláveis.

«Não, hoje, não, amanhã, também não. Talvez na semana que vem, mas não sei. É difícil conseguir arranjar tempo.»

Quantas vezes ouvimos conversas deste género?

Estamos no tempo, mas não temos tempo.

Temos de correr, andar, fazer coisas, ver pessoas, adquirir talentos cada vez mais novos para calar o rumor dos dias, dos meses, dos anos que vão passando e que não podemos deter de forma alguma.

Depois, um instante antes de morrermos, talvez vejamos num lampejo a nossa vida e, ao vê-la, aperceber-nos-emos de que os únicos instantes verdadeiramente nossos, verdadeiramente cheios, foram aqueles em que pudemos ter «perdido tempo» para contemplar uma flor, a forma de uma árvore, ou acariciar a cabeça de uma criança que ia a passar ao nosso lado.

Na língua chinesa, a ausência da acção é definida pelo ideograma Xu. Neste ideograma, não há um homem deitado numa rede, há sopros que se movem entre eles, sem gerarem conflitos, numa harmonia perfeita.

A ausência de acção é o movimento perfeito, o movimento do homem que acolheu dentro de si não a arrogância do saber, mas a humildade da sabedoria.

Não agir é estar-se sempre pronto. Pronto para a morte e para a vida. Pronto para a chamada.

«Aqui estou eu, envia-me a mim!», diz o profeta Isaías.

Não diz: «Irei amanhã» ou «Podias ter-me chamado ontem.»

Não, diz: «Aqui estou eu!»

Viver esta dimensão significa, antes de mais, perceber que o nosso tempo é como uma fatia de gelado. O seu destino é ser consumido, ou derreter-se.

Ao passo que o verdadeiro tempo, ou seja, o gelado inteiro, permanece no congelador.

Existia antes e continua a existir, depois de a nossa porção ter terminado.

Para se perceber o tempo, para se perceber o significado mais profundo, em vez de o interpretarmos, teríamos de nos despojar.

Despojarmo-nos do eu, mais do que de qualquer outra coisa.

Eu quero, eu faço, eu compreendo, eu sou.

Despojarmo-nos e esperar.

Esperar e ouvir.

Assim, a pouco e pouco, iremos reparando que este tempo, este tempo que nos torna ansiosos, este tempo em que vamos acumulando coisas a fazer e a dizer, é, na realidade, um tempo que não difere muito da corrida de uma formiga, um tempo ligeiro, breve, curto. O verdadeiro tempo não é esse.

É o tempo do mistério e da transcendência.

É o tempo em que a cada semente será revelado o seu projecto. Um tempo que nos envolve e nos ultrapassa. Um tempo sem tempo, sem madrugadas, nem crepúsculos, sem aniversários, nem funerais.

É um tempo que nos antecede e nos segue, mas é também um tempo que nos acompanha ao longo dos dias, ou melhor, que irrompe nos dias, salvando-nos da deriva.

É o tempo da humildade, da descida às raízes.

O tempo da escuta, da escuta que se transforma em diálogo.

É o tempo do acolhimento e do reconhecimento.

É o tempo da semente que se transforma em rebento e do rebento que se transforma em planta.

É o tempo da planta que transforma a energia do crescimento na beleza inútil da flor e que, um momento antes de murchar e deixar cair as sementes, repara com espanto que aquilo a que, até esse momento, chamara Luz, era, de facto, Amor.

Quando ando pelas ruas de Roma, de noite e de dia, tenho muitas vezes a impressão de que estou a ver o meu pai.

Não era ele, aquela figura de perfil, no autocarro meio vazio? Aquele casaco que acabava de dobrar a esquina não era o seu?

De tempos a tempos, paro e ouço-o suspirar. Suspirava muito. Suspirava como se sentisse sempre um peso no coração.

As suas longas e intermináveis caminhadas talvez fossem uma tentativa para se libertar desse peso.

Caminhando sem parar, talvez andasse à procura de uma coisa qualquer que, de repente, lhe tornasse tudo claro.

Caminhava para fugir, para fugir de si mesmo, do seu passado, da sua solidão.

E talvez caminhasse também com a esperança desesperada de que lhe aparecesse, de repente, o rosto do Outro.

Porque uma semente pode estar parada na terra durante meses, durante anos, mas, nessa obscura permanência, nunca deixa de desejar a água, de esperar por ela.

Espera pela água e pela força que lhe permita romper o tegumento e começar a subir para as alturas, para o universo da luz e da respiração. Para descobrir finalmente a forma que, desde o início, tinha sido chamada a assumir no mundo.

Pouco antes de morrer, o meu pai tentou escrever-me um bilhete. Não conseguiu.

Na folha, só ficou um ponto.

O que terá querido dizer?

Perdão? Medo?

Ou seria paz?

Nunca saberei, pelo menos neste tempo.

No mistério deste tempo-seta, lançado para as trevas do cosmos justamente pela explosão de um ponto.

Uma viagem espiritual – Nicholas Sparks (sugestão de leitura)

Billy Milles; Nicholas Sparks
Uma viagem espiritual
Lisboa, Editorial Presença

David nunca esqueceria aquele Verão. Era então um rapazinho, que acabara de perder a sua irmã. Depois da morte da mãe, anos antes, ela era a fonte da sua alegria de viver. E agora que a perdera, o jovem índio mergulhara num desespero sombrio, e o seu pai começara a inquietar-se. Tinham sido anos muito duros, aqueles… felizmente, àquela família índia, discriminada pelos novos americanos, restava ainda o legado das suas tradições ancestrais. O pai viu o pesar que consumia o filho e compreendeu. Entregou-lhe o rolo de pele pintado à mão, gasto pelos anos. Daquelas imagens e símbolos emanava um poder misterioso. Foi esse o ponto de partida para uma estranha viagem, que mudou para sempre a vida de David. Continuar a ler

Sinais do fim de um mundo – Michel Béaud

Sinais do fim de um mundo

  • Desprezo pela Terra e pela vida

Desprezando-se a si mesmo e aos outros, indiferente ao lugar por onde passa, assim como ao tempo que está para vir, o homem do nosso tempo propaga resíduos e dejectos pelo mundo: desde os papéis gordurosos, o gás de escape e os detritos domésticos aos poluentes ricos, metais pesados e detritos radioactivos.

Atira sacos de plástico, caixas e garrafas, embalagens, recipientes e materiais diversos pelas janelas dos carros e dos comboios, em lugares bonitos ou sublimes e até no coração dos desertos e dos cumes dos Himalaias. Acumula pilhas de resíduos perto das suas aglomerações. Lança objectos de trabalho, de consumo e de lazer e muitas toneladas de metais pesados, de resíduos petrolíferos ou de produtos químicos nos mares e nos oceanos; certo da sua capacidade técnica, acumula armas bacteriológicas ou químicas e materiais radioactivos, esquecendo que toda a maquinaria social se pode, um dia, desconjuntar. Destrói as mais belas paisagens até ultrajar a recordação, infecta os terrenos, contamina a terra, a água, o ar. Chega mesmo a obstruir as órbitas mais úteis do espaço com perigosos destroços.

Secagem do mar de Arai, empobrecimento das terras da Ucrânia, descarga nuclear de Cheliabinsk: acidentes sem limites do estatismo totalitário. Florestas devastadas, água imprópria para a irrigação, rios transformados em esgotos químicos por causa dos erros da industrialização. Expulsão dos gases dos navios em pleno mar, destruição das paisagens pela implantação de grandes superfícies, tumefacção das embalagens, recipientes; produtos para deitar fora: prejuízos colectivos para benefícios privados. Danos devidos à insaciável voracidade do homem moderno que invade, se apropria, se apodera, pilha, desperdiça, transforma o planeta numa lixeira e destrói, por muito tempo, os recursos que pensávamos ser inesgotáveis.

Beneficiando de milénios de adaptação e de aprendizagem recíprocas das sociedades e do seu ambiente, de saberes e de belezas, a sociedade, que pretende emergir à escala mundial, é ávida, destruidora, sem consciência. Recursos desperdiçados, terrenos degradados, desertos alargados, águas diminuídas e contaminadas, mares e oceanos transformados em últimas descargas de múltiplos perigos, paisagens ocupadas pelas nossas catedrais industriais e nucleares, depósitos dos nossos detritos radioactivos: as gerações futuras deverão lutar contra tudo isto.

 

  • O aumento dos perigos

Em Minamata, pequeno porto do Japão, nos anos cinquenta e sessenta, uma doença atinge os gatos, de seguida, os pescadores, as suas famílias e outros habitantes. Esta doença ataca o sistema nervoso, conduz à perda de controlo de si mesmo e, depois, à morte; mais tarde, nascem pequenas larvas: a empresa química Chisso que, desde 1932, tinha despejado cerca de 100 toneladas de mercúrio na baía, recusa-se, durante mais de vinte anos, a admitir a sua responsabilidade. Mil e duzentos mortos, dez mil pessoas com a saúde afectada e só em 1996 chegará ao fim de uma longa batalha jurídico-administrativa para a indemnização das vítimas.

Três de Dezembro de 1984, uma fuga de quarenta toneladas de gás isocianato de metilo da fábrica de pesticidas da União Carbide, em Bhopal, provoca, num só dia, entre dois a três mil mortos e numerosas vítimas, das quais milhares estão condenadas a uma morte mais ou menos lenta; a empresa litiga diante dos tribunais americanos, depois indianos, para finalmente negociar com o governo de Deli, em 1989, um acordo «para pagar todas as contas» com indemnizações em valores de uma sexta parte das pedidas de início.

Vinte e seis de Abril de 1986, o reactor n° 4 da central electronuclear de Chernobil explode; as primeiras vítimas são os técnicos da central; são precisos vários dias para que as autoridades soviéticas sejam informadas e tomem a informação em consideração, para que as populações sejam evacuadas e que o exército comece a enterrar o reactor na areia. As autoridades suecas, que tinham sido alertadas da existência de uma elevação da radioactividade no dia 27, difundem a informação no dia 28. Em França, o director do Serviço Central da Protecção contra as radiações ionizadas só no dia 10 de Maio tomará conhecimento de que a nuvem radioactiva sobrevoou o território. Iniciou-se, assim, uma longa saga onde se descobre como é difícil tanto parar um reactor acidentado como limitar a difusão (através das lixeiras, águas, plantas e animais) da radioactividade dispersada.

Minamata, Bhopal, Chernobil: estes acidentes, guias da modernidade industrial, deveriam incitar à reflexão sobre dois séculos de doenças e acidentes de trabalho, de catástrofes industriais e mineiras, de poluição contínua, acidental ou periódica. Isto porque, na Europa Ocidental e na América do Norte a partir do século XIX, no grupo soviético e nos novos países industriais a partir da última guerra, nos países pobres e emergentes desde há já alguns anos e em todo o mundo, existem empresas que podem prejudicar a saúde dos seus trabalhadores, a água, o ar, os terrenos circunvizinhos e, portanto, a vida das populações. Se algumas se comportaram de uma maneira responsável, muitas colocaram o imperativo industrial e a procura pelo menor custo acima do respeito pelos homens e pela vida.

 

Michel Béaud: O Desequilíbrio do Mundo. 2007

O azulejo bumerangue – Jorge Bucay

Jorge Bucay
Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver.
Cascais, Editora Pergaminho

 

Damião é um rapaz curioso e inquieto, que deseja saber mais acerca de si mesmo. Esta busca leva-o a conhecer Jorge, “o gordo”, um psicanalista muito invulgar que o ajuda a enfrentar a vida e a encontrar as respostas que procura através de um método muito pessoal: em cada sessão, conta-lhe um conto. São contos clássicos, modernos ou populares, reinventados pelo psicanalista para ajudar o seu jovem amigo a esclarecer as suas dúvidas. Trata-se de histórias que nos podem ajudar a todos a compreender-nos melhor a nós próprios, a ponderar as nossas relações e a ver os nossos temores com outros olhos.

(Excerto)

O azulejo bumerangue

Naquele dia, eu estava muito irritado. Estava de mau humor e tudo me incomodava. A minha atitude no consultório foi lamurienta e pouco produtiva. Detestava tudo o que fazia e tudo o que tinha. Mas, acima de tudo, estava aborrecido comigo mesmo, como num conto de Papini que o Jorge me leu, naquele dia eu sentia que não conseguia suportar «ser eu mesmo».

— Sou um estúpido — disse-lhe (ou disse para mim próprio). — Um imbecil… Acho que me detesto.

— És detestado por metade da população deste consultório. A outra metade vai contar-te uma história.

Era uma vez um homem que andava sempre com um azulejo na mão. Tinha decidido que, quando alguém o irritasse a ponto de ficar cheio de raiva, lhe daria com o azulejo na cabeça. O método era um bocado troglodita, mas parecia eficaz, não achas?

Acontece que se cruzou com um amigo muito prepotente, que lhe falou com maus modos. Fiel à sua decisão, o homem pegou no azulejo e atirou-lho à cabeça.

Não me lembro se lhe acertou ou não. Mas acontece que, depois disso, o facto de ter de ir buscar o azulejo depois de o arremessar lhe pareceu um bocado incómodo. Decidiu, então, inventar o «Sistema de Autopreservação do Azulejo», como lhe chamou. Atou um cordel de um metro ao azulejo e saiu para a rua. Isto permitia que o azulejo nunca se afastasse demasiado, mas rapidamente o homem constatou que o novo método também tinha os seus problemas: por um lado, a pessoa destinatária da sua hostilidade tinha de estar a menos de um metro de distância e, por outro, depois de atirar o azulejo, era obrigado a recolher o fio que, além do mais, muitas vezes se enredava e fazia nós, com todas as chatices que daí decorriam.

Foi então que o homem inventou o «Sistema Azulejo III». O protagonista continuava a ser o mesmo azulejo, mas, neste sistema, em vez de estar atado a um cordel, estava atado a um elástico. Agora, o azulejo podia ser lançado uma e outra vez e voltaria sempre para trás, como um bumerangue, pensou o homem.

Quando saiu de casa e recebeu a primeira agressão, atirou o azulejo. Mas foi um fiasco total: quando o elástico entrou em acção, o azulejo voltou para trás e acertou em cheio na cabeça do próprio homem.

Tornou a tentar e levou segunda vez com o azulejo na cabeça por ter medido mal a distância.

À terceira, foi por ter atirado o azulejo fora de tempo.

A quarta vez foi muito sui generis, porque, depois de ter decidido bater na vítima, arrependeu-se e tentou protegê-la, acabando por levar com o azulejo na cara.

Ficou com um galo enorme…

Nunca se soube porque é que o homem nunca conseguiu acertar com o azulejo em alguém: se foi por causa das pancadas que levou, ou se por uma alteração no seu ânimo.

Todas as pancadas acabaram sempre por ser auto-infligidas.

— Chama-se a este mecanismo retroflexão: basicamente porque consiste em proteger os outros da nossa própria agressividade. Sempre que o pomos em prática, a nossa energia agressiva e hostil detém-se antes de chegar ao outro, através de uma barreira que nós impomos a nós próprios. Esta barreira não absorve o impacto, limita-se a reflecti-lo. E toda essa irritação, todo esse mau humor e agressividade se viram contra nós mesmos, através de comportamentos reais de auto-agressão (autolesionar-se, enfardar-se de comida, consumir drogas, correr riscos desnecessários) e, outras vezes, através de emoções ou sentimentos dissimulados (depressão, culpa, somatização).

É muito provável que um utópico ser humano «iluminado», lúcido e íntegro nunca se irrite. Seria óptimo para nós se nunca perdesse-as estribeiras, no entanto, uma vez que sentimos raiva, ira ou irritação, a única maneira de nos livrarmos delas é arrancando-as cá para fora transformadas em acção. Caso contrário, a única coisa que conseguimos, mais cedo ou mais tarde, é irritarmo-nos com nós próprios.

“Maravilhas” ignoram o passado esclavagista de Portugal

“Maravilhas” ignoram escravatura

Catedráticos de África, Europa e América acusam o Governo português de querer apagar o seu passado esclavagista.

Vários catedráticos proeminentes especializados no estudo da África de expressão portuguesa e no colonialismo português redigiram uma carta aberta em três línguas (inglês, francês e português), em protesto contra a recente tentativa do Governo português para distorcer a História manchada de sangue da expansão colonial portuguesa.

O Governo português e instituições académicas como a Universidade de Coimbra estão a promover um concurso internacional para encontrar as «Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo» [anunciadas no passado dia 16 de Junho]. Muitas destas maravilhas, dispersas pelo globo, foram erigidas no auge do poder imperial português.

Algumas são, efectivamente, impressionantes. Mas as notas explicativas tratam-nas como pouco mais do que exemplos de excelência arquitectónica. Pelos textos que acompanham o concurso, ninguém suporia que, durante séculos, diversos desses locais desempenharam um papel de charneira no comércio de escravos do Atlântico.

Estimativas indicam que cerca de 12 milhões de africanos foram sequestrados e transportados através do Atlântico na época da escravatura. Portugal e o Brasil foram responsáveis por metade deste número. O comércio de escravos é um facto da maior relevância, que domina a história da expansão colonial portuguesa; mas foi deliberadamente omitido no concurso das «maravilhas».

A carta aberta salienta que, nas últimas décadas, tem havido uma crescente consciencialização da «memória dolorosa do comércio de africanos escravizados, valorizando o património que lhe é associado». Algumas das antigas nações esclavagistas, nomeadamente a França, reconheceram o comércio de escravos como um crime contra a Humanidade, e a França adoptou mesmo uma data específica, 10 de Maio, como «Dia Nacional de Memória do Comércio Negreiro, da Escravatura e da sua Abolição».

O Vaticano, em tempos cúmplice da escravatura, desculpou-se, na pessoa do Papa João Paulo II, quando este visitou a Casa dos Escravos na ilha de Goreia, em frente da costa do Senegal, em 1992. Vários Chefes de Estado de países que estiveram envolvidos no comércio de escravos, incluindo Inácio Lula da Silva, do Brasil, e dois Presidentes dos Estados Unidos, Bill Clinton e George W. Bush, condenaram a escravidão e o passado trágico das suas nações. Em 2007, a Grã-Bretanha comemorou o 200.° aniversário da abolição do comércio de escravos, e o primeiro-ministro de então, Tony Blair, expressou pesar pelo papel britânico na escravização de africanos.

Mas Portugal, assinala a carta aberta, está a remar contra esta maré de reconhecimento e contrição. A lista de «maravilhas» inclui locais como o centro histórico de Luanda, hoje capital de Angola, a ilha de Moçambique, que foi a primeira capital do país, Ribeira Grande na ilha cabo-verdiana de Santiago, e o castelo de S. Jorge da Mina no actual território do Gana.

Todos estes lugares estiveram profundamente envolvidos no comércio de escravos e esse facto é sistematicamente omitido na literatura do concurso. Apenas um texto das «Sete Maravilhas» diz que o Castelo de S. Jorge da Mina foi um depósito de escravos, depois de ter sido ocupado pelos holandeses em 1637. O pressuposto é claro: os holandeses eram esclavagistas, mas os portugueses não; no entanto, assinala a carta aberta, os portugueses fundaram a feitoria de S. Jorge da Mina como entreposto do tráfico de escravos em 1482. Servia igualmente de centro do comércio do ouro e de outros bens; mas não há nenhuma dúvida de que grande número de escravos passou pela Mina quando estava sob o controlo português, para ser desembarcado no Brasil.

A carta aberta acusa o Governo português e os organizadores do concurso de ignorarem «a dor daqueles que tiveram os seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos». «Seria possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias euro peias?», perguntam os autores da carta.

A carta aberta foi assinada por dezenas de catedráticos de Universidades de África, Europa e Américas do Norte e do Sul, que quiseram «repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados».

Paul Fauvet

Allafrica.com (excertos)

29.05.2009

Uma mulher rebelde – Ayaan Hirsi Ali (sugestão de leitura)

Ayaan Hirsi Ali
Uma mulher rebelde
Lisboa, Editorial Presença

Desde o seu nascimento em Mogadísio, Somália, em 1969, até ao momento em que consegue fugir para a Europa, Ayaan Hirsi Ali foi vítima de muitas das violências que todos os dias são praticadas sobre milhões de mulheres em todo o mundo islâmico, mas a sua inteligência acutilante e o seu espírito independente e combativo trouxeram-na até ao Ocidente e fizeram-na chegar a membro do parlamento holandês, sem nunca esquecer a luta pelos direitos das mulheres e de outros grupos tiranizados pela cultura muçulmana.

(excertos)

Tal como em muitos outros países da África e do Médio Oriente, «purificam-se» as rapariguinhas amputando-as dos órgãos genitais. Não há outra maneira de descrever este procedimento, feito normalmente por volta dos cinco anos. Uma vez cortado o clitóris e retalhados ou nivelados os lábios do sexo – em algumas regiões, por compaixão, limitam-se a retalhá-los e picá-los – toda a zona é cosida, de maneira que, muitas vezes, a pele sacarificada da rapariguinha forma, ao cicatrizar, uma espécie de grosso cinto de castidade. É deixado apenas um pequeno orifício para a urina sair. Apenas uma penetração violenta pode rasgar a cicatriz; é o que acontece aquando da primeira relação sexual.

A mutilação sexual das mulheres é anterior ao Islão. Nem todos os povos muçulmanos a fazem, e há algumas comunidades não muçulmanas que a praticam. Na Somália, porém, onde todas as raparigas praticamente são vítimas desta prática, a excisão é sistematicamente feita em nome do Islão. Uma rapariga não excisada será possuída pelos demónios, sucumbirá ao vício, tornar-se-á uma prostituta e, depois da morte, uma alma penada. Os imãs nunca desaconselham esta prática já que, na sua opinião, ela faz que as raparigas se mantenham puras.

Muitas raparigas morrem em consequência da excisão ou das infecções que provoca. Há outras complicações que podem deixar sequelas penosas, por vezes definitivas. O meu pai era um homem moderno e que considerava esta prática bárbara, tendo insistido sempre em que as suas filhas não fossem submetidas a ela. Neste particular, era um homem que estava muito à frente do seu tempo. Mahad, aos seis anos, também não tinha sido circuncidado, mas talvez por outras razões.

Pouco depois da minha primeira briga na madrassa, a minha avó decidiu que era altura de sermos todos submetidos à purificação ritual. O nosso pai estava na cadeia, a nossa mãe andava em viagem, mas felizmente estava lá a avó para velar pelo respeito das tradições ancestrais.

Depois de ter feito os preparativos, a avó andou toda a semana numa excelente disposição. Foi instalada uma mesa especial no seu quarto e, durante toda a semana, recebemos as visitas das tias, conhecidas e desconhecidas. Quando chegou o grande dia, eu não estava com medo, apenas com curiosidade. Não fazia ideia do que ia acontecer, sabia apenas que era um dia de festa e que, os três, íamos ser purificados. Depois disso, já ninguém poderia chamar-me kintirleey.(1)

Mahad foi o primeiro. Mandaram-me sair do quarto, mas eu espreitei por um buraco da porta. O meu irmão estava deitado no chão, com a cabeça e os braços pousados nos joelhos da avó. Entre as pernas de Mahad, que duas mulheres mantinham abertas, estava ajoelhado um homem que eu nunca tinha visto.

Estava calor no quarto, pairava no ar um cheiro a suor e a incenso. A avó sussurrava ao ouvido de Mahad: «Não chores, não manches a honra da tua mãe. Estas mulheres vão contar tudo o que viram. Cerra os dentes.» Mahad não emitia qualquer som, mas as lágrimas corriam-lhe pela cara crispada de dor.

Eu não via o que o homem lhe estava a fazer, mas vi-lhe as mãos cheias de sangue e tive muito medo.

Era a minha vez. A avó aproximou-se de mim e disse: «Vão tirar-vos esse kintir comprido, e então, tu e a tua irmã, ficareis puras.» A julgar pelas palavras e pelos gestos da avó, esse vergonhoso kintir entre as minhas pernas, o meu clitóris, cresceria tanto que me balançaria nas pernas a cada passo que desse. Pegou em mim e, com uma mão firme, colocou-me na mesma posição que Mahad. Duas mulheres abriram-me as pernas. O homem, provavelmente um circuncisor itinerante do clã dos ferreiros, pegou numa tesoura. Com a outra mão, pôs-se a apalpar e a puxar o que eu tinha entre as pernas, como a minha avó quando ordenhava uma cabra. «Cá está ele, o kintir, cá está», disse uma mulher.

Vi então as lâminas a baixarem entre as minhas pernas e o homem cortou-me os pequenos lábios e o clitóris. Ouvi um som, como o do golpe do talhante quando retira a gordura da carne. Senti uma dor fulgurante, indescritível, e desatei a gritar. Tinham ainda de me coser: lembro-me da agulha comprida e embotada com que o homem furava os meus lábios ensanguentados, dos meus gritos de angústia e dor, das palavras da minha avó. «Isto é só uma vez na vida, Ayaan. Sê forte, ele está quase a acabar.» O homem acabou, cortou o fio com os dentes.

É tudo do que me lembro.

Lembro-me disto e também dos gritos de gelar o sangue de Haweya, que foi a última. Embora fosse mais pequena do que nós — tinha quatro anos, eu tinha cinco, Mahad seis — , deve ter-se debatido mais, ou talvez as mulheres já estivessem cansadas de nos segurarem, por isso agarravam-na com menos firmeza: foi assim que ficou cheia de cortes nas coxas. Ficou com as cicatrizes para o resto da vida.

Adormeci e só acordei ao cair da noite. Tinham-me atado as pernas para impedir que eu me mexesse e para facilitar a cicatrização. Sentia a bexiga a pontos de rebentar, mas já tentara urinar e a dor era insuportável. Coberta de sangue e suor, sacudida por calafrios, o meu sofrimento não acabava. No dia seguinte, a minha avó conseguiu que eu fizesse umas gotas. A dor era inimaginável. Quando estava deitada, era muito forte, mas, quando urinava tornava-se tão intensa como no momento em que tinha sido retalhada.

A nossa convalescença durou cerca de duas semanas. A avó estava sempre à nossa cabeceira, inesperadamente meiga e afectuosa, acorrendo a cada grito de angústia, a cada gemido, mesmo durante a noite. Depois de cada passagem dolorosa pela casa de banho, lavava-nos cuidadosamente as feridas com água morna e fazia-nos os pensos com panos embebidos num líquido roxo. Depois voltava a atar-nos as pernas e dizia-nos para ficarmos completamente imóveis, senão as feridas abrir-se-iam e seria necessário chamar o senhor para que ele voltasse a coser-nos.

Ao fim de uma semana, o homem veio examinar-nos. Achou que Mahad e eu cicatrizávamos bem, mas que Haweya, pelo contrário, tinha rasgado os pontos de sutura de tanto se debater nos braços da avó e quando urinava. Era preciso voltar a cosê-la. Lembro-me dos seus gritos quando o homem o fez: era uma agonia para ela. Aquilo foi uma tortura para nós os três, mas Haweya foi sem dúvida quem mais sofreu.

Mahad já andava a pé, completamente curado, quando o homem voltou para tirar os pontos. Mais uma vez, magoou-me muito. Começava por soltar os fios com uma pinça de depilação, depois arrancava-os com puxões secos. A avó e duas outras mulheres tiveram de me segurar. Depois disto fiquei mesmo com uma grande cicatriz entre as coxas, que me doía se me mexesse muito, mas, pelo menos, não voltaram a atar-me as pernas e não tinha de ficar deitada todo o dia sem me mexer.

Urna semana depois foi a vez de Haweya. Foram precisas quatro mulheres para a segurarem. Dessa vez eu estava dentro do quarto e nunca mais esquecerei a expressão de pânico na sua cara e os gritos lancinantes que ela soltava, lutando com todas as suas forças para manter as pernas fechadas.

A partir de então, Haweya nunca mais foi a mesma. Ficou várias semanas doente, com febre, perdeu muito peso, enfraqueceu. À noite tinha pesadelos horríveis e, durante o dia, isolava-se, tornando-se cada vez mais solitária. A minha irmãzinha, que dantes era traquina e alegre, passava horas sem fazer nada, de olhar perdido. Depois daquela operação, começámos todos a fazer xixi na cama, e Mahad ainda durante muito tempo.

(1) que tem clítoris

**

Neelie tinha previsto ir ver o filho, que vivia em S. Francisco, e foi lá que nos encontrámos. Eu disse-lhe que pensava ficar nos Estados Unidos para fazer um doutoramento. Falámos de política. Ela ouviu-me a falar do século das Luzes, de John Stuart Mill, da jaula que a opressão das mulheres representava, depois olhou-me com um ar decidido e disse: «Você não é socialista. Você é das nossas.»

Nellie disse-me ainda que os meus sonhos de estudos universitários não passavam de uma quimera; nunca levavam a lado nenhum. Por mais entusiasmo que a minha tese de doutoramento suscitasse, acabaria no fundo de uma gaveta sem fazer avançar um milímetro que fosse a causa das muçulmanas. O mais importante era eu expor perante os responsáveis políticos a realidade vivida por essas mulheres e assegurar-me de que as leis existentes – sobre a igualdade entre os sexos, por exemplo – eram concretamente aplicadas. O meu combate situava-se ao nível da acção, não das ideias. Devia apresentar-me às eleições e entrar para o Parlamento, onde teria um verdadeiro impacte sobre a emancipação das mulheres muçulmanas e sobre a integração dos imigrantes.

Passei a noite a pensar no que Neelie me dissera. Eu estava a tentar chegar aonde? A três coisas: primeiro, que a Holanda acordasse e cessasse de tolerar a opressão das mulheres muçulmanas no seu solo; o governo deveria tomar medidas para as proteger e para castigar os seus opressores. Segundo, queria suscitar na comunidade muçulmana um debate sobre a reforma de alguns aspectos do Islão que permitissem aos seus membros fazer perguntas e criticar as suas crenças. Isso apenas poderia acontecer no Ocidente, onde os muçulmanos tinham a liberdade de se exprimir.

Terceiro: queria que as mulheres muçulmanas compreendessem até que ponto o seu sofrimento era inaceitável. Queria ajudá-las a dotarem-se de um vocabulário de resistência. Inspirava-me em Mary Wollstonecrait, a pioneira feminista que, simplesmente, disse às mulheres que a sua capacidade de raciocínio valia tanto como a dos homens e que mereciam ter os mesmos direitos. Mesmo depois de ter publicado A Vindication of the Rights of Women, passou-se mais de um século antes que as sufragistas pudessem desfilar nas ruas exigindo o direito ao voto. Sabia que a libertação das mulheres muçulmanas das suas grilhetas mentais levaria muito tempo ainda. Não esperava ser imediata e maciçamente seguida pelas mulheres muçulmanas. Quando as mulheres estão tão condicionadas à humildade, já não têm praticamente inteligência própria e, infelizmente, são incapazes de se organizar e de exprimir as suas opiniões.

Quando eu estava no grupo de reflexão do Partido do Trabalho, tentando fazer passar estas minhas ideias, acusavam-me sempre de não ter estatísticas que as apoiassem. Na verdade, porém, não existiam números. Quando tentava saber quantas raparigas tinham sido mortas pelos pais por questões de honra, na Holanda, os funcionários do Ministério da Justiça respondiam-me: «Não temos registos de mortes ocorridas com base nessa categoria de motivação. Isso significaria estigmatizar um grupo social.» O Estado registava o número de homicídios ligados à droga, mas não os crimes de honra porque os funcionários se recusavam a reconhecer que tais crimes eram cometidos efectiva e regularmente.

Nem sequer a Amnistia Internacional tinha qualquer estatística respeitante às mulheres vítimas de crimes de honra no mundo. O número de homens presos e torturados era conhecido, mas não o das mulheres flageladas em público por adultério. Era um assunto que não lhes interessava.

Decidi que, se viesse a ser membro do Parlamento, me poria como missão sagrada efectuar um recenseamento destes crimes. Queria que, de cada vez que um homem matasse a filha porque ela tinha um namorado qualquer em qualquer parte, isso fosse registado. Queria que todas as violências domésticas – incluindo a violação e o incesto – fossem registadas e classificadas no respectivo grupo étnico e que se pudesse calcular quantas rapariguinhas tinham sido excisadas por ano nas mesas de cozinha holandesas. Eu sabia que estes números, uma vez conhecidos, criariam uma onda de choque no país. E desacreditariam definitivamente a atitude complacente dos relativistas que afirmavam a igualdade entre todas as culturas. Já ninguém teria a desculpa de não saber.
Se eu estivesse no Parlamento, poderia transformar as minhas convicções em actos, e não apenas falar sobre elas. E Neelie tinha razão: mesmo eu considerasse o Partido do Trabalho como o meu partido – e apesar da minha lealdade para com Paul Kalma e Job Cohen – algumas das suas ideias não se me adequavam. A finalidade da social-democracia era defender os grupos, não os indivíduos. O Partido Liberal, talvez mais duro, baseava a sua filosofia nos valores da liberdade individual. Sentir-me-ia ali mais à vontade.

Além disso, na política, eu era – e continuo a ser – uma mulher de uma só causa. Estou convicta, também, de que essa causa será para a nossa sociedade e para o nosso planeta o principal problema a resolver no século XXI. Todas as sociedades ainda dominadas pelo Islão oprimem as mulheres ou atrasam o seu desenvolvimento. Quase todas estas sociedades são pobres e se debatem com conflitos e guerras, ao passo que as sociedades que respeitam os direitos das mulheres e a sua liberdade são prósperas e vivem em paz.

Nas pedreiras de Abeokuta

Nas pedreiras de Abeokuta

O fenómeno da escravidão e do trabalho infantil persiste em África. No Benim, por exemplo, há tráfico de crianças com destino ao trabalho nas pedreiras de Abeokuta, na Nigéria. A reportagem, bem actual, documenta o drama destas crianças vendidas pelos pais e exploradas pelos traficantes.

 

«Venho para levar as crianças ao “akowé”», disse François à mulher logo após se ter apeado da moto. Na língua fon, falada no Benim, akowé significa “mestre”. A mulher chamou os miúdos pelo nome, Lewidjo e Pierre, e em minutos os dois estavam já em cima da mota. Deu um saco de plástico a cada um: uma T-shirt e umas calças lavadas e pouco mais. Essa era toda a bagagem para uma viagem de quatro ou cinco anos.

«Diz ao “akowé” que cuide bem dos catraios. Se os maltratar, denunciá-lo-ei à polícia, e diz-lhe que os quero em casa uma semana pelo fim de ano e que tragam dinheiro.» A mulher, Plantine, despediu-se dos seus filhos apenas com uma carícia na mão. Ficou a olhar como se ajeitavam na mota sem fazer gesto algum, alheada da mais pequena expressão de tristeza.

As estatísticas da ONU sobre a pobreza mundial dizem que a República do Benim ocupa o décimo quinto lugar da lista. A mais pobre é a Serra Leoa. Dos dez países mais subdesenvolvidos do planeta, cinco estão na África Subsariana, como é o caso do Benim; porém, não é a mesma coisa ter a sorte de nascer na sua emergente capital, Cotonou, ou na paupérrima Zakpoktá. Trata-se do município mais pobre do país, pelo que muitas das suas crianças sobem para as motas dos traficantes.

A miséria é uma condenação, mas se, além disso, se nasceu na rota de passagem para a Nigéria, que é o grande colosso africano, a condenação converte-se em sentença: muitas crianças de Zakpoktá são vendidas pelos próprios pais como escravos aos traficantes locais, que os levam para a Nigéria e os exploram nas pedreiras de Abeokuta.

Lugar no Inferno

Victorin Adeokunté, o “akowé”, é um dos traficantes mais conhecidos da zona. Anda mais perto dos 40 anos do que dos 30, veste-se à maneira fon e tem uma casa nos arredores de Zakpoktá. Comporta com tanta indiferença a designação de “negreiro” que ganhou a pulso um bom lugar no Inferno.

No sábado passado, 9 de Fevereiro, mandou um primo da sua confiança, François, buscar os dois meninos à aldeia de Allahé. Tinha-os comprado uns dias antes aos pais por 25 euros. Ao cair da tarde, o “akowé”, os dois irmãos e eu partimos no seu carro rumo à Nigéria. Lewidjo Adjakpa tem uns 13 anos e não abriu a boca durante a viagem. O seu irmão Pierre não passa dos 10 e adormeceu assim que abalámos.

Victorin não colocou nenhum entrave quando lhe propus que me mostrasse como funciona o tráfico de crianças entre o Benim e a Nigéria. Apenas uma condição. «Obatedo é a última cidade antes da fronteira. Vais sair lá e tratar de arranjar uma mota para passar para a Nigéria. Assim que se passa a fronteira, há uma bomba de gasolina Texaco à direita. Espero aí por ti.»

Victorin não queria arriscar-se a transpor a fronteira com as duas crianças traficadas e um homem branco no seu carro. Uma coisa era ter a polícia comprada e outra chamar a atenção gratuitamente. «Esta noite estão de vigia os meus, por isso viajo aos fins-de-semana. Largarei cinco mil cefas, uns sete euros, em cada controlo policial e não haverá problemas.»

Ao fim de uma hora e meia de viagem, estávamos em Obatedo. Num cruzamento não me foi difícil contratar uma moto-táxi, “zemiján”, como lhe chamam no Benim, e segui Victorin a uma distância prudente até ao posto de controlo beninense. Vi como o seu carro passava sem problemas a barreira, enquanto eu entrava nos escritórios para carimbar o meu passaporte.

Passada meia hora, estava novamente sentado na furgoneta do traficante, com os garotos na parte de trás a comer umas bananas que o Victorin lhes tinha comprado. A estrada até Abeokuta, uns 200 quilómetros, estava infestada de controlos militares. O soldado de turno limitava-se a perpassar as janelas com a sua lanterna e a comprovar com gesto mecânico quantas pessoas iam dentro do carro. Nada de parar a viatura para pedir os papéis ou fazer perguntas. Pelo meio-dia, Victorin deixava-me à porta do Presidential Hotel de Abeokuta. «Amanhã poderás passear pela cidade. Na segunda-feira, às oito, venho buscar-te para ir às pedreiras.»

Pá ao ombro

Abeokuta é a capital histórica dos Yoruba, a etnia principal da Nigéria. Com meio milhão de habitantes, é uma das cidades mais importantes do país. Daqui são o Prémio Nobel da Literatura Wole Soyinka e o ex-presidente do país, Obasanjo. O cimento, os tijolos e a brita são as suas principais indústrias. Vá-se onde se for, há sempre um rapaz com uma pá recém-comprada ao ombro. Vendem-nas em todo o lado: nos mercados, nos semáforos e à beira das estradas. As pedreiras estão perdidas no meio da selva. O território é propriedade dos Yoruba e os beninenses arrendam-no para extrair areia, brita e granito. Aqui só podem entrar os beninenses; é o seu gueto e para o proteger estabeleceram uma rede de controlos que impede o acesso a estranhos. O tráfico e a exploração de crianças é dos Fon, é um assunto entre beninenses; aqui, os Yoruba, os nigerianos, não têm nada que fazer; quando muito, olham para o outro lado.

Na segunda-feira seguinte, 11 de Fevereiro, às oito da manhã, a furgoneta do Victorin estava à porta do meu hotel. Vinha só ele, sem os miúdos. «Levei-os ontem para as pedreiras. Têm de se habituar, quanto antes, à sua nova vida. Há muitas valas para cavar na selva», disse-me com um leve sorriso.

Atravessámos a cidade, semi-deserta a essa hora da manhã, e chegámos ao subúrbio de Sabo. Acabava a estrada asfaltada e continuámos por um caminho de terra em muito mau estado. Percorremos cerca de 15 quilómetros sem encontrar uma única povoação nem ver ninguém, apenas um intenso tráfego de camiões, uns que desciam com o reboque cheio e outros que subiam vazios.

De repente, sem dizer nada, Victorin parou o carro na berma do caminho e disse-me que o seguisse. Eu não via mais do que espessa vegetação, até que ao longe destrincei umas pequenas montanhas de areia. Victorin acenou a um grupo de gente ao longe. «Ali estão as crianças», disse-me. Ao aproximar-me, vi um panorama desolador. À direita e à esquerda havia dezenas de pequenas valas escavadas no solo. Teriam entre um e dois metros de profundidade. Nalgumas, não chegava a aparecer a cabeça de um miúdo alto. Traçavam uma linha curva de uns três metros. A paisagem era lunar: uma multidão de montículos de areia e brita e vários camiões carregando o material.

Jornada dura

Em cada vala estava a trabalhar um grupo de três miúdos. Aproximei-me de uma e pus-me a falar com eles. O mais velho, que não passava dos 13 anos, cavava a encosta com uma picareta. Chamava-se Etienne Montchomi. Vinha de Yohoné, uma aldeia de Zakpoktá. Contava já dois anos nas pedreiras. O seu dia começava com o nascer do Sol, às seis da manhã, e terminava com o pôr-do-sol, doze horas depois. Parava da uma às três para comer e para fugir ao calor sufocante do meio-dia. Reconhecia que as condições de trabalho eram duras, mas não se queixava. «Aqui pelo menos como duas vezes ao dia. Em Zakpoktá passava vários dias sem meter nada na boca», dizia-me resignado.

Ao seu lado, outro menino, Eugène Animanou, atirava pás de terra a um terceiro que estava empoleirado na ladeira. Tinha chegado às pedreiras em 2006, vindo da povoação de Zahla, também em Zakpoktá. Contou-me que foi trazido por um vizinho, de quem não quis dizer o nome, de carro, com outros meninos. «Estão a trabalhar noutras pedreiras longe daqui. Não os vejo há meses. Tenho saudades deles porque eram meus amigos e protegíamo-nos uns aos outros, mas o Etienne trata-me bem», disse-me, enquanto agarrava na pá e me virava as costas.

Cada grupo é formado por seis crianças. Três trabalham na vala, enquanto as outras três se encarregam de carregar o camião e de procurar comida na selva. Em cinco minutos fazem uma fogueira e deitam sobre a grelha o que encontram. Nesse dia tinham como menu quatro ratazanas preparadas para assar. O patrão visita-os cada segunda-feira e traz-lhes farinha de mandioca, um tubérculo africano, pimentos e legumes. Com isso e com o que encontram na selva, têm comida para toda a semana. Os mais sortudos podem ir às aldeias dormir mas muitos têm de se conformar com passar a noite ao pé da vala, sujeitos à intempérie, sobre uns plásticos ou umas esteiras feitas com ramas. Trabalham de segunda a sábado e descansam ao domingo. Nesse dia vão às povoações, se tiverem a sorte de encontrar um carro que os leve; caso contrário, ficam a descansar nas valas.

Os mais novos dos grupos fazem o trabalho menos duro. Bertin Dosson tem 8 anos e encarrega-se de remover a terra que Eugène lhe lança com a pá a partir da vala. Zarandea criva-a com as mãos e deixa que a areia fina lhe caia aos pés, deitando a brita que fica na peneira para o monte que está a formar. Bertin contou-me que o seu pai tinha morrido havia dois meses e que um seu tio o trouxera para as pedreiras. «Aqui tratam-me bem, mas o trabalho é muito duro, por isso quero voltar para casa», disse-me olhando-me nos olhos, como que pedindo-me socorro, enquanto a areia fina cobria os seus pés descalços e levantava uma nuvem de pó que se dissolvia à altura da sua frágil cintura.

Castigos corporais

É um ritual que os Fon trouxeram das suas aldeias, nas margens do rio Quémé. Quando o patrão se irrita, não tem de dizer nada: chega à vala e bate no chão ou numa árvore várias vezes com o seu bastão, e entrega-o de seguida ao encarregado, que normalmente é o mais velho do grupo. Toda a gente nas pedreiras fica a saber que foi dado um castigo. O traficante afasta-se uns metros da vala e o encarregado elege um dos meninos do grupo. Pode ser o mais preguiçoso dessa semana, o mais rebelde ou, simplesmente, o novato. Coloca-o de cabeça para baixo num monte de areia e dá-lhe uma lição até que o patrão mande parar.

À exploração das crianças há que acrescentar uma vasta lista de problemas sanitários. «Barrigas inchadas pela desnutrição, parasitas intestinais de todos os tipos, perda de visão, problemas pulmonares por causa do pó e lesões oculares provocadas por areia que salta», relata de memória Mathieu Shanu, o médico das pedreiras. Vive com a sua família numas cabanas a alguns quilómetros das valas, e quando uma criança adoece levam-lha para que a cure. «O pior de tudo é a falta de água, mas essa é uma questão de difícil solução», conta-me, resignado, ante a situação dos petizes.

À hora do almoço e do descanso dos grupos, perguntei a Victorin pelos irmãos Lewidjo e Pierre, os quais não tinha reconhecido entre os cerca de trinta rapazes que havia contado nessa zona de pedreiras. «Os Adjakpa não estão aqui. Estas pedreiras não são minhas. Eu tenho cinco grupos a trabalhar numas valas, mas não estão nesta zona. Tu pediste-me que te trouxesse às pedreiras de Abeokuta, não às minhas pedreiras», disse-me com uma gargalhada que ecoou em metade da selva. Agora entendia porque é que as crianças das aldeias e das pedreiras lhe chamavam “akowé”. Porque, para eles, Victorin, o mestre, significa a possibilidade de aprender um ofício e ter um trabalho, ainda que seja um trabalho de pá e picareta, pó nos olhos e quatro ratazanas na brasa no meio da selva.

Xaquín López

Além-Mar, Junho 2009

O Mito do Amor – M. Scott Peck

M. Scott Peck
O Caminho Menos Percorrido
Cascais, Sinais de Fogo, 2000

 

A VIDA É DIFÍCIL.

Com esta frase inicial, M. Scott Peck revoluciona a maneira como vivemos, e isto é tão verdadeiro hoje como o era quando foi escrito, há vinte anos. Neste guia de como enfrentar e resolver os nosso problemas – e viver o sofrimento das mudanças – aprendemos que é possível conseguir serenidade e plenitude na nossa vida.

 

Excerto

 

O Mito do Amor Romântico

Para servir assim tão bem para nos apanhar no casamento, a experiência de se apaixonar tem provavelmente como uma das suas características a ilusão de que a experiência irá durar sempre. Esta ilusão é fomentada na nossa cultura pelo mito vulgarmente cultivado do amor romântico, que tem as suas origens nas nossas histórias infantis favoritas, em que o príncipe e a princesa, uma vez unidos, vivem felizes para sempre. O mito do amor romântico diz-nos, com efeito, que para cada rapaz no mundo há uma rapariga que “foi feita para ele” e vice-versa. Além disso, o mito implica que há um só homem destinado a uma mulher e uma só mulher para um homem e que isso foi predeterminado “nas estrelas”.

Quando conhecemos a pessoa a quem estamos destinados, o reconhecimento advém do facto de nos apaixonarmos. Encontrámos a pessoa a quem os céus nos tinham destinado, e uma vez que a união é perfeita, seremos capazes de satisfazer as necessidades um do outro para sempre, e portanto viver felizes para sempre em perfeita união e harmonia. Se acontecer, no entanto, não satisfazermos ou não irmos de encontro a todas as necessidades um do outro surgem atritos e desapaixonamo-nos. Está claro que cometemos um erro terrível, interpretámos as estrelas erradamente, não nos entendemos com o nosso único par perfeito, o que pensámos ser amor não era amor real ou “verdadeiro”, e não há nada a fazer quanto à situação a não ser viver infelizes para sempre ou obter o divórcio.

Embora eu pense que, de um modo geral, os grandes mitos são grandes precisamente porque representam e incorporam grandes verdades universais (serão explorados vários destes mitos mais adiante neste livro), o mito do amor romântico é uma terrível mentira. Talvez seja uma mentira necessária por assegurar a sobrevivência da espécie, por estimular e validar convenientemente a experiência de nos apaixonarmos que nos leva ao casamento. Mas, como psiquiatra, o meu coração chora quase todos os dias pela horrível confusão e sofrimento que este mito gera. Milhões de pessoas desperdiçam enormes quantidades de energia tentando desesperada e futilmente fazer com que a realidade das suas vidas se ajuste à irrealidade do mito.

A Sra. A submete-se absurdamente ao marido devido a um sentimento de culpa. “Eu não amava verdadeiramente o meu marido quando nos casámos,” diz ela. “Fingia que sim. Acho que o enganei para se casar comigo, portanto não tenho o direito de me queixar dele, e devo-lhe fazer tudo o que ele quiser.” O Sr. B lamenta: “Estou arrependido de não me ter casado com a Menina C. Penso que poderíamos ter tido um bom casamento. Mas não me sentia perdidamente apaixonado por ela, portanto parti do princípio que ela não era a pessoa certa para mim.” A Sra. D, casada há dois anos, fica gravemente deprimida sem causa aparente e começa a fazer terapia, afirmando: “Não sei o que se passa de errado. Tenho tudo o que preciso, incluindo um bom casamento.” Só meses mais tarde consegue aceitar o facto de se ter desapaixonado do marido, mas que isso não significa que tenha cometido um horrível erro. O Sr. E, também casado há dois anos, começa a sofrer de dores de cabeça intensas à noite e não acredita que sejam psicossomáticas. “A minha vida doméstica corre bem. Amo tanto a minha mulher como no dia em que casei com ela. Ela é tudo o que eu sempre quis.” Mas as dores de cabeça continuaram até que, um ano mais tarde, conseguiu admitir, “Ela dá-me cabo da cabeça porque está sempre a querer, querer, querer coisas sem se preocupar com o meu orde­nado,” e foi então capaz de a confrontar com a sua extravagância. O Sr. e a Sra. F reconhecem que deixaram de estar apaixonados e passam a fazer-se infelizes um ao outro por mútua infidelidade galopante à medida que procuram o “verdadeiro amor”, sem se aperceberem que o seu próprio reconhecimento podia marcar o início da obra do seu casamento em vez do fim.

Mesmo quando os casais reconhecem que a lua-de-mel terminou, que já não estão romanticamente apaixonados um pelo outro e ainda conseguem empenhar-se na sua relação, continuam a agarrar-se ao mito e tentam adaptar-lhe as suas vidas. “Apesar de já não estarmos apaixonados, se agirmos por força de vontade como se estivéssemos apaixonados, pode ser que o amor romântico regresse às nossas vidas,” segundo o seu raciocínio. Estes casais privilegiam o estar juntos. Quando iniciam a terapia de grupo para casais (que é o cenário em que a minha mulher e eu e os nossos colegas mais próximos exercemos o aconselhamento matrimonial mais crítico), sentam-se juntos, falam um pelo outro, defendem os defeitos um do outro e tentam apresentar ao resto do grupo uma frente unida, acredi­tando que esta unidade seja um sinal de saúde relativa do seu casamento e um pré-requisito para a sua melhoria.

Mais cedo ou mais tarde, normalmente mais cedo, temos que dizer à maior parte dos casais que estão demasiado casados, demasiado próximos, e que têm de estabelecer alguma distância psicológica entre si antes de começarem a tratar construtivamente os seus problemas. Por vezes, é mesmo necessário separá-los fisicamente, dando-lhes instruções para se sentarem longe um do outro no círculo do grupo. Repetidamente, temos que dizer, “Deixe a Mary falar por si própria, John” e “O John é capaz de se defender, Mary, é suficientemente forte.”

Por fim, se continuam na terapia, todos os casais aprendem que a verdadeira aceitação da sua própria individualidade e da do outro e a independência são as únicas fundações sobre as quais se pode basear um casa­mento adulto e o verdadeiro amor pode crescer.

Tentando alcançar a lua – conto tibetano

Tentando alcançar a lua

(conto tibetano)

Uma noite, o Rei dos Macacos reparou numa gloriosa lua dourada que repousava no fundo de uma lagoa. Não se apercebendo de que se tratava apenas de um reflexo, o Rei chamou os seus súbditos para que lhe fossem buscar aquele tesouro não reclamado.

— O nosso macaco mais forte agarra-se a esta árvore — ordenou o Rei. — E o nosso segundo macaco mais forte agarra-se à mão dele, tenta alcançar a água e pega na lua dourada.

Assim fizeram. Mas o segundo macaco não conseguia alcançar a lua.

— Quem é o nosso terceiro macaco mais forte? Agarra-te à mão do teu irmão e vai buscar a lua.

Mas a lua continuava fora do alcance deles.

— Tragam o quarto macaco mais forte. Que desça até junto da lagoa e tente a sua sorte.

Os macacos formavam agora uma cadeia, cada um pendurado no braço do outro. O quarto macaco usou os braços deles como escada e ficou pendurado na mão do terceiro macaco… mas a lua continuava fora do seu alcance. E assim continuaram… cinco… seis… sete… oito… macaco após macaco, até que o último conseguia tocar já na superfície da água.

— Estamos quase a conseguir! — gritaram os macacos.

— Deixem-me ser o primeiro a agarrá-la! — gritou o Rei, que se lançou cadeia abaixo.

Mas o peso de toda esta loucura tinha-se tornado demasiado para as forças do macaco mais forte, que continuava agarrado ao topo da árvore. Quando o Rei ia a tocar a água para pegar na lua, o macaco mais forte largou o tronco. Um a um, caíram todos na lagoa e afogaram-se, juntamente com o Rei.

Aquele que segue um líder insensato é ele próprio um tolo.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

A guerra entre as galinholas e as baleias – conto das Ilhas Marshall

A guerra entre as galinholas e as baleias

( conto das Ilhas Marshall)

Todas as manhãs, a pequena galinhola ia à praia tomar o pequeno-almoço. Corria para a água com as suas perninhas altas e slup… slup… engolia um pequeno vairão. Depois corria de novo para a praia e esperava. Voltava de novo à água e slup… slup… engolia um outro pitéu.

A baleia, que vivia nas águas profundas da baía, viu a galinhola a correr para dentro e para fora de água. Ergueu bem a cabeça enorme e chamou-a:

— Ei, passarinho! Não te quero na minha água! O mar pertence às baleias!

A galinhola decidiu ignorá-la.

— O mar também pertence às galinholas. E há muito mais galinholas do que baleias. Vê lá se me deixas em paz!

A baleia encolerizou-se e começou a esguichar. A galinhola tinha-a enfurecido.

— Mais galinholas? Há muito mais baleias no oceano do que galinholas em terra!

— Não há, não! — replicou a pequena galinhola. Há mais galinholas!

A baleia estava furiosa.

— Vou chamar as minhas irmãs. Vais ver!

A baleia veio à superfície e esguichou buuturu… buuturu. Depois voltou a mergulhar bem fundo na baía. Virou-se para leste e chamou:

— Baleias do leste. Baleias do leste. Venham…venham para esta ilha!

Veio de novo à superfície.

Esguichou buuturu… buuturu… e mergulhou em direcção ao oeste.

— Baleias do oeste. Baleias do oeste. Venham… venham para esta ilha!

De novo veio à superfície.

Esguichou buuturu… buuturu… e mergulhou em direcção ao norte.

— Baleias do norte. Baleias do norte. Venham…venham para esta ilha!

Voltou de novo a emergir.

Esguichou buuturu… buuturu… e mergulhou em direcção ao sul.

— Baleias do sul. Baleias do sul. Venham…venham para esta ilha!

A leste, a oeste, a norte e a sul, as suas irmãs baleias ouviram-na. Começaram a nadar em direcção à ilha. Quando já tinham chegado todas, a baía ficou tão cheia de baleias que podíamos caminhar nos seus dorsos! Estavam todas apinhadas naquela baía.

A galinhola ficou alarmada.

— Tens mesmo muitas irmãs! Mas espera, que eu vou chamar as minhas irmãs galinholas!

A pequena galinhola começou a saltar para cima e para baixo e a emitir o seu grito de galinhola:

Kirriri… kirriri… kirriri… kirriri… Galinholas! Galinholas! Leste! Leste! Leste! Leste! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

— Galinholas! Galinholas! Oeste! Oeste! Oeste! Oeste! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

— Galinholas! Galinholas! Norte! Norte! Norte! Norte! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

— Galinholas! Galinholas! Sul! Sul! Sul! Sul! Venham depressa! Venham depressa! Para esta ilha!

E as galinholas vieram a voar! Do leste, do oeste, do norte, do sul. Quando pousaram, cobriram a praia inteira! Cobriram as árvores! Havia tantos pássaros! Havia mais pássaros ou mais baleias? Havia mais baleias ou mais pássaros? Era impossível dizer.

As baleias falavam entre elas.

— Temos de chamar os nossos primos. Nessa altura, haverá mais baleias do que pássaros.

Então, as baleias vieram todas à tona da água e chamaram:

Buuturu… buuturu…

Mergulharam fundo, bem fundo.

Chamaram a leste.

— Primos do leste! Primos do leste! Venham… venham para esta ilha!

Voltaram à superfície e esguicharam.

Buuturu… buuturu…

Mergulharam.

— Primos do oeste! Primos do oeste! Venham… venham para esta ilha!

Voltaram à superfície e esguicharam.

Buuturu… buuturu…

Mergulharam.

— Primos do norte! Primos do norte! Venham… venham para esta ilha!

Voltaram à superfície e esguicharam. Mergulharam uma vez mais.

— Primos do sul! Primos do sul! Venham… venham para esta ilha!

Do leste e do oeste, do norte e do sul, os primos das baleias começaram a nadar em direcção à ilha. Os golfinhos ouviram o chamamento e vieram. As orcas ouviram o chamamento e vieram. Os lobos-marinhos ouviram o chamamento e vieram também. Até os tubarões vieram.

Quando já tinham chegado todas os primos da baleia, os peixes eram tantos que rodeavam completamente a ilha. Até onde a vista alcançava, havia criaturas marinhas a esguichar e a mergulhar.

As galinholas ficaram assustadas.

— Há tantas criaturas do mar. Depressa! Temos de chamar todos os nossos primos!

As galinholas começaram aos pulos e a emitir o seu chamamento:

Kirriri… kirriri… kirriri… kirriri…

— Primos das galinholas! Leste! Leste! Leste! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

— Primos das galinholas! Oeste! Oeste! Oeste! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

— Primos das galinholas! Norte! Norte! Norte! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

— Primos das galinholas! Sul! Sul! Sul! Venham depressa! Venham depressa para esta ilha!

Do leste e do oeste, do norte e do sul, os primos das galinholas começaram a chegar. As gaivotas ouviram o chamamento e vieram. As gaivinas ouviram o chamamento e vieram. Os corvos-marinhos ouviram o chamamento e vieram também. Até as garças-reais vieram.

Depois de todas estas aves marinhas terem chegado, cobriram as praias e estenderam-se até às montanhas. Não havia um pedaço de terra naquela ilha que não estivesse coberto por pássaros!

Havia mais pássaros ou mais animais marinhos? Mais primos das baleias ou mais primos das galinholas? Ninguém saberia dizer.

Então as baleias tiveram uma ideia.

— Se as baleias comessem a terra toda… os pássaros afogar-se-iam. Haveria então mais baleias do que galinholas. Vamos a isso!

As baleias começaram a mastigar a terra. Scrunch… scrunch… scrunch… A praia desaparecia gradualmente por entre as suas mandíbulas enormes. Então a galinhola teve uma ideia.

— Se os pássaros bebessem toda a água do mar… as baleias morreriam! Então haveria mais galinholas do que baleias. Vamos a isso!

Os pássaros voaram em direcção ao oceano. Cada um deles enfiou o bico na água e começou a beber. Beberam… beberam… até ficarem com a boca cheia de água… Beberam… beberam… até ficarem com as barrigas cheias de água. Como era mais fácil beber do que mastigar, os pássaros acabaram a sua tarefa primeiro!

Olharam em volta. As baleias estavam a morrer por falta de água. Os peixes também estavam a morrer por falta de água. Os caranguejos minúsculos… as estrelas-do-mar… todas as criaturas marinhas estavam a morrer sob o sol escaldante.

De repente, os pássaros pensaram numa coisa.

— Os caranguejos minúsculos… todas estas criaturas do mar… tudo isto é o nosso alimento. É o que nós comemos. Se elas morrerem, nós morremos também. Isto é uma má ideia! Rápido! Cuspam a água! Cuspam fora o oceano!

Ptooooie… ptoooie… ptoooie… Os pássaros cuspiram fora o oceano todo.

As baleias começaram de novo a mover-se. Os peixes recomeçaram a nadar. Os pequenos caranguejos e as estrelas-do-mar esticaram as suas perninhas e começaram a viver de novo.

— Isto foi uma péssima ideia! — disseram as baleias. — O oceano é a nossa casa. A praia faz parte do oceano. Estamos todos a destruir o nosso próprio lar. Depressa! Cuspam fora a areia toda.

Glurk… glurk… glurk… As baleias cuspiram fora a areia toda.

— Esta guerra foi uma péssima ideia — disse a baleia. — Há mar que chegue para todos partilharmos.

— Tens razão — concordou a galinhola. — Foi uma má ideia. Quase destruímos o nosso lar!

Então, as baleias e os seus primos nadaram em direcção ao mar alto. Em direcção ao leste, ao oeste, ao norte e ao sul. E as galinholas e os seus primos também voaram para longe. Em direcção ao leste, ao oeste, ao norte e ao sul. E até hoje nunca ninguém descobriu se há mais baleias ou mais galinholas. Se há mais galinholas ou mais baleias. Não que isso interesse, realmente. No fundo, é uma razão demasiado insignificante para começar uma guerra…

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas , August House Publishers, Inc., 2005

Um homem sem cabeça – conto argelino

Um homem sem cabeça

(conto argelino)

Esta é a aventura do famoso Jouha. Na Argélia chamam-lhe Jha, ou então, Ben Sakrane. Mais a leste, conhecem-no como Nasredin Hodja. Na realidade, trata-se de Till Eulenspiegel ou de Jean le Sot; o louco que vende a sua sabedoria, aquele que zurra como um burro para ser ouvido, e que às vezes é dono de uma esperteza imbatível.

Um dia, Jha encontrou alguns amigos prontos para combater. Tinham escudos, lanças, arcos e aljavas cheias de setas.

— Onde vão nesses preparos? — perguntou-lhes.

— Não sabes que somos soldados profissionais? Vamos tomar parte numa batalha, que promete ser dura!

— Óptimo, eis uma oportunidade para ver o que acontece nessas coisas de que ouvi falar mas que nunca vi com os meus próprios olhos. Deixem-me ir convosco, só desta vez!

— Está bem! És bem-vindo!

E lá foi ele com o pelotão que se ia juntar ao exército no campo de batalha.

A primeira seta acertou-lhe em cheio na testa!

Depressa! Um cirurgião! O médico chegou, examinou o ferido, meneou a cabeça e declarou:

— A ferida é profunda. Vai ser fácil remover a seta. Mas, se tiver a mais ínfima parte de cérebro agarrada, está perdido!

O ferido agarrou na mão do médico e beijou-a, exprimindo a sua “profunda gratidão para com o Mestre”, e declarou:

— Doutor, pode remover a seta sem medo; não vai encontrar nela a mais ínfima parte de cérebro.

— Esteja calado! — disse o médico. — Deixe os especialistas tratarem de si! Como sabe que a seta não atingiu o seu cérebro?

— Sei-o bem demais — disse Jha. — Se eu tivesse a mais pequena partícula de cérebro, nunca teria vindo com os meus amigos.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Força – conto da África Ocidental

Força

(conto da África Ocidental)

Os animais decidiram fazer um concurso para ver qual deles era o mais forte. A ideia do concurso foi do Elefante.

— Encontramo-nos todos na quarta-feira. Veremos quem tem FORÇA.

O primeiro a chegar foi o Chimpanzé, que chegou aos saltos.

— Força! Eu tenho força. Vejam só estes BRAÇOS! Esperem só até verem a minha força!

O Chimpanzé sentou-se. Chegou o Veado.

— Força! Olhem para estas PERNAS! Tenho tanta força!

O Veado sentou-se. A seguir veio o Leopardo. Mostrava as garras e rugia.

— Força! Olhem para estas GARRAS! Eu tenho força!

O Leopardo sentou-se. Depois veio o Bode, que baixou os seus chifres fortes.

— Força! Vejam estes CHIFRES! Isto é força.

O Bode sentou-se. Chegou o Elefante. Caminhava muito devagar.

— El…e…fante…significa força.

O Elefante sentou-se. Esperaram e voltaram a esperar. Faltava mais um animal. Finalmente o Homem chegou, a correr.

— Força! Força!

O Homem exibia os seus músculos.

— Eis-me aqui! Podemos começar!

O Homem tinha trazido a sua espingarda para a floresta e tinha-a escondido nos arbustos. Era por isso que estava atrasado. O Elefante encarregou-se de dar início ao concurso.

— Agora que o Homem chegou, podemos começar. Chimpanzé, mostra-nos a tua força!

O Chimpanzé deu um pulo. Correu para uma pequena árvore e trepou-a. Dobrou-a e deu-lhe um nó. Desceu da árvore e disse:

— Então? Isto não é força?

Os animais exultaram.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

Depois acalmaram.

— Bem…Chimpanzé. Senta-te. O próximo!

O Veado pôs-se de pé com um salto. Correu três quilómetros em direcção à floresta. Correu outros três quilómetros de volta. Nem sequer estava ofegante. Vangloriou-se:

— Vejam só! Se isto não é força…

Os animais concordaram.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem…Veado. Senta-te. O próximo!

O Leopardo pôs-se de pé e esticou as garras enormes. Começou a esgravatar a terra. Scrung…scrung…scrung…scrung… Como o pó voava! Os animais saltaram para trás. Estavam assustados. O Leopardo perguntou:

— Aaaah! Isto é força ou não é?

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem… Leopardo. Senta-te. O próximo!

O Bode era o seguinte. Baixou os chifres enormes. Havia por ali um campo de canas e o Bode começou a escavar o campo. Shuuu…shuuu…shuuu…shuuu… Os chifres fizeram uma estrada através do campo. O Bode voltou-se. E escavou outra estrada até ao lugar onde estavam os animais. Depois perguntou:

— Não é força, isto?

Os animais ficaram impressionados.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem… Bode. Senta-te. A seguir?

A seguir vinha o Elefante. Havia muitas árvores em redor que cresciam bem juntas. O Elefante encostou o seu ombro enorme de encontro às árvores. E eennhh…eeennhh… eeennhh…kangplong! As árvores caíram todas. O Elefante exclamou:

— Que tal? Isto não é força?

Os animais ficaram impressionados.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem… Elefante. Senta-te. O próximo!

Era a vez do Homem. O Homem correu para o meio do círculo. Começou a rodopiar. Deu saltos mortais. Fez a roda. Fez o pino. Volteou em redor deles sem cessar. Depois parou e perguntou:

— Força! Força! Isto não é força?

Os animais entreolharam-se.

— Bem… foi excitante.

— Mas era força, aquilo?

— Nem por isso…

— Só sabes fazer isso?

O Homem sentiu-se insultado.

— Muito bem, então vejam isto!

O Homem subiu a uma palmeira. Tão depressa! Tão depressa! Atirou cocos da palmeira. Desceu da árvore. Perguntou de novo:

— Força! Força! Isto não é força?

Os animais olharam para ele.

— Chamarias àquilo força?

— Só subiu a uma árvore.

— Isso não é bem força.

— Há mais alguma coisa…?

O Homem estava zangado.

— Força? Eu mostro-vos o que é FORÇA!

O Homem correu para o arbusto. Agarrou na arma. Correu de novo para junto deles. O Homem apontou a arma ao Elefante. Ting… Puxou o gatilho. Kangalang! O Elefante tombou. Estava morto. Morto. O Homem dava pulos e gabava-se:

— Força! Força! Isto não é FORÇA?

O Homem olhou em redor. Os animais tinham ido embora. Tinham fugido para a floresta.

— Força!…

Não havia ninguém para o ouvir gabar-se. O Homem estava sozinho. Na floresta, os animais juntaram-se a um canto para trocar impressões.

— Viste aquilo?

— Era força aquilo?

— Chamarias àquilo força?

— Não. Aquilo era MORTE.

— Aquilo era MORTE.

A partir desse dia, os animais não voltaram a caminhar com o Homem. Quando o Homem entra na floresta, tem de caminhar sozinho. Os animais ainda falam do Homem… Da criatura Homem… O Homem é aquele que não conhece a diferença entre força e morte.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Quem luta perde sempre – conto indiano

Quem luta perde sempre

(conto indiano)

Um chacal recém-casado vivia perto da margem de um rio. Um dia, a esposa pediu-lhe uma refeição de peixe. O chacal prometeu trazer-lha, embora não soubesse nadar. Aproximou-se do rio com todas as cautelas e viu duas lontras a lutarem com um peixe enorme que tinham apanhado. Depois de matarem o peixe, começaram a lutar para dividir o peixe entre ambas.

— Eu vi-o primeiro, por isso a parte maior pertence-me! — disse uma delas.

— Mas ias-te afogando a pescá-lo e eu salvei-te — contrapôs a outra.

Continuaram a lutar até que o chacal se aproximou delas e se ofereceu para ajudar a regular a disputa. As lontras concordaram em acatar a decisão que ele tomasse. O animal cortou o peixe em três pedaços. A uma das lontras deu a cabeça e à outra deu a cauda.

— A parte do meio é para o juiz — declarou.

Afastou-se dali todo contente e disse para consigo:

— Quem luta perde sempre.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

O pássaro e a guerra – fábula do Zaire

O pássaro e a guerra

Nesta fábula dos Legas (do Zaire), um pássaro explica-nos como são absurdas as guerras dos homens.

Ai se os homens lhe dessem ouvidos…

Kansisi é um pássaro branco com as asas negras e faz o ninho nos bananais em redor das aldeias. Testemunha da vida quotidiana das pessoas, sabe muita coisa sobre o comportamento dos homens.

Por isso, um dia, o seu amigo Monkonia, pássaro que frequenta pouco estes sítios, veio colocar-lhe um problema que há muito o apoquentava:

— Porque é que os homens fazem a guerra?

Kansisi deu uma gargalhada. Mas o amigo voltou a insistir:

— Os homens dizem que são inteligentes e racionais; como é que não conseguem, então, estar de acordo? Não há ninguém que cometa tantas asneiras como eles.

— Por diversos motivos — respondeu Kansisi. — A avidez, a inveja, a vingança levam-‑nos a pegar em armas uns contra os outros. Guerreiam-se até por coisas banais, sem pensar nas consequências. Anda comigo, que eu mostro-te um exemplo concreto.

Voaram juntos até à aldeia vizinha. Monkonia poisou numa folha de bananeira, de onde podia observar tudo o que acontecia.

Era meio-dia, e o sol queimava. A aldeia estava deserta, parecia adormecida. Só uma criança pequena brincava no meio do pó, junto de alguns potes de barro ainda frescos, a secar ao sol antes de serem cozidos no forno.

Kansisi poisou num desses potes. A criança viu-o e correu para o espantar com um pau. O pássaro voou para mais longe e a criança acabou por bater no pote, que rolou no chão, com uma pequena mossa. Ao ouvir o barulho, a dona dos potes saiu cá para fora e deu duas valentes chapadas na criança. Ouvindo a criança a chorar, a mãe agarrou num ramo de árvore e deu com ele na mulher, que gritou por socorro. O marido dela saiu de casa com uma faca, e a mãe da criança fugiu chamando pelo marido. Ouvindo esta barulheira toda, mais homens e mulheres saíram de casa gritando e brandindo bastões, sachos e facas. Voavam insultos e ameaças de todos os lados. Dez minutos mais tarde, a aldeia estava em pé de guerra: o clã da dona dos potes contra o clã da outra mulher. Ninguém fazia ideia do motivo que causara esta situação e nem queria saber nem pensar nas consequências do conflito. A briga durou o tempo suficiente para provocar danos irreparáveis; houve mesmo mortos e feridos.

Entretanto, Kansisi, regressando para junto do amigo, contemplava com satisfação o desenvolvimento da peleja.

— Aí tens! — disse ao amigo. — É assim que nascem as guerras entre os homens. A conclusão podes tirá-la tu mesmo!

Ela está bem expressa em dois provérbios dos Lega:

O pássaro Kansisi provoca a guerra, mas fica em paz pousado na sua folha.

O estulto entra na rixa sem medir as causas nem os efeitos.

Além-Mar
Abril 2004

Duas cabras numa ponte – conto russo

Duas cabras numa ponte

(conto russo)

Uma ponte estreita ligava duas montanhas. Em cada uma das montanhas vivia uma cabra. Dias havia em que a cabra da montanha ocidental atravessava a ponte para ir pastar na montanha oriental. Dias havia em que a cabra da montanha oriental atravessava a ponte para ir pastar na montanha ocidental. Mas, um dia, as cabras começaram a atravessar a ponte ao mesmo tempo.

Encontraram-se no meio da ponte. Nenhuma queria ceder passagem à outra.

— Sai da frente! — gritou a Cabra Ocidental. — Estou a atravessar a ponte.

— Sai tu da frente! — berrou a Cabra Oriental. — Quem está a atravessar sou eu!

Como nenhuma delas queria recuar e nenhuma delas podia avançar, ali ficaram, enfurecidas, durante algum tempo. Finalmente, entrelaçaram os chifres e começaram a empurrar. Eram tão semelhantes em força que apenas conseguiram empurrar-se uma à outra da ponte abaixo. Molhadas e furiosas, saíram do rio e subiram a encosta, a caminho de casa, cada uma murmurando para si: “Vejam só o que a teimosia dela provocou.”

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 200

O cão preto – conto indiano

O cão preto

(conto indiano)

Shakra, rei dos deuses, ergueu-se do seu trono dourado e observou a Terra com atenção. Havia oceanos reluzentes e nuvens como pérolas, montanhas com cumes de neve e continentes de muitas cores. Embora tudo fosse belo, Shakra sentiu uma certa apreensão.

Os seus sentidos luminosos expandiram-se pelos céus. Sentiu o calor da guerra. Ouviu o balir dos vitelos, o ladrar dos cães, o grasnar dos corvos. Ouviu crianças a chorarem e vozes a gritarem de raiva. Ouviu o choro dos esfomeados, dos sós, dos pobres. As lágrimas rolaram-lhe pela cara abaixo e caíram sobre a terra como aguaceiros de meteoros.

— É preciso fazer alguma coisa! — disse Shakra.

Metamorfoseou-se num guarda-florestal e levou consigo um grande arco em osso. A seu lado caminhava um grande cão preto. O pelo do cão era emaranhado, os olhos brilhavam como fogo incandescente, os dentes mais pareciam presas, e a boca e língua pendente eram da cor do sangue.

Shakra e o cão deram um salto e mergulharam em direcção à Terra por entre as estrelas brilhantes. Por fim, aterraram mesmo ao lado de uma cidade esplêndida.

— Quem és tu, forasteiro? — perguntou, admirado, um soldado, do alto das muralhas da cidade.

— Sou estrangeiro nestas paragens e este — disse, apontando o animal com um gesto — é o meu cão.

O cão preto abriu as mandíbulas. O soldado que estava de guarda às muralhas ficou aterrado. Foi como se estivesse a olhar para um enorme caldeirão de fogo e de sangue. A garganta do cão emanava fumo. As mandíbulas do cão abriram-se ainda mais e mais…

— Fechem os portões! — ordenou o soldado. — Fechem-nos imediatamente!

Mas Shakra e o cão conseguiram saltar os portões cerrados. Os habitantes da cidade fugiram em todas as direcções, como se fossem marés a subir ao longo de uma praia. O cão foi no seu encalço, juntando as pessoas como se fossem um rebanho de ovelhas. Homens, mulheres e crianças gritavam, aterrorizados.

— Parem! — gritou Shakra. — Não se mexam!

As pessoas imobilizaram-se.

— O meu cão tem fome. O meu cão tem de ser alimentado.

O rei da cidade, a tremer de medo, ordenou:

— Rápido! Tragam comida para o cão! Imediatamente!

Em breve, carroças chegavam ao mercado carregadas de carne, pão, milho, frutos e cereais. O cão engoliu tudo de uma só vez.

— O meu cão precisa de mais comida! — exclamou Shakra.

As carroças voltaram de novo, carregadas. E o cão voltou a devorar tudo de uma assentada. Depois soltou um grito de angústia, um grito que parecia emanar das profundezas do Inferno.

As pessoas caíram por terra e taparam os ouvidos, aterradas. Shakra, o forasteiro, fez soar a corda do seu arco, que fez um ruído semelhante ao ribombar do trovão numa noite de tempestade.

— O meu cão ainda tem fome! — Dêem-lhe de comer!

O rei contorceu as mãos e pôs-se a chorar.

— Já lhe demos tudo o que tínhamos. Não temos mais!

— Sendo assim, o meu cão alimentar-se-á de pastos e montanhas, de pássaros e animais ferozes. Devorará as rochas e mastigará o sol e a lua. O meu cão alimentar-se-á de vós!

— Não! — gritaram as pessoas. — Tem misericórdia de nós! Rogamos-te que nos poupes! Poupa o nosso mundo!

— Então acabem com a guerra — disse Shakra. Alimentem os pobres. Cuidem dos doentes, dos sem-abrigo, dos órfãos, dos velhos. Ensinem a bondade e a coragem às vossas crianças. Respeitem a terra e todas as suas criaturas. Só assim açaimarei o meu cão.

Shakra transformou-se num gigante, resplandecente de luz. Ele e o cão deram um salto e, numa espiral de fumo, subiram cada vez mais alto.

Lá em baixo, nas ruas da cidade, homens e mulheres olhavam o céu consternados. Estenderam as mãos uns para os outros e prometeram mudar as suas vidas, fazer o que o forasteiro lhes tinha ordenado que fizessem.

Bem lá de cima, Shakra sorriu no seu trono dourado, ao olhar para a terra. Limpou a testa com um braço resplandecente. As inúmeras estrelas cintilavam, fulgentes, e a escuridão dormitava entre elas, tal como um cão junto de uma fogueira.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Um novo mundo – Eckhart Tolle (sugestão de leitura)

Eckhart Tolle: Um novo mundo
Lisboa, Editora Pergaminho, 2006

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Na sequência do best-seller internacional O Poder do Agora, Eckhart Tolle apresenta aos leitores uma abordagem franca do estado presente da evolução espiritual da humanidade. Trata-se, segundo o autor, de um estado comparável a uma loucura colectiva, derivada da identificação com a mente egóica. Contudo, é precisamente neste momento da sua história que a humanidade tem a oportunidade única de criar um mundo novo, mais são e dedicado ao amor. Mas isso implica uma profunda transformação interior, uma passagem do ego a uma forma totalmente nova de consciência. Ao longo destas páginas, Tolle revela, com o seu estilo profundo mas acessível, os passos necessários para cada um de nós preparar tal transformação.

 

Excertos

O anel perdido

Quando comecei a exercer a profissão de conselheiro e professor espiritual, visitava duas vezes por semana uma senhora que tinha um cancro, que estava já disseminado por todo o corpo. Ela era professora, tinha cerca de quarenta e cinco anos e os médicos não lhe tinham vaticinado mais do que alguns meses de vida. Por vezes, trocávamos algumas palavras durante as visitas, mas a maior parte do tempo ficávamos sentados em silêncio e, à medida que as sessões foram decorrendo, ela teve os seus primeiros vislumbres da paz que se encontrava dentro de si, cuja existência desconhecia na sua atribulada vida de professora.

Contudo, um dia encontrei-a num estado de grande aflição e irritação. «O que é que aconteceu?», perguntei-lhe eu. O seu anel de diamantes, com um valor monetário e sentimental bastante elevado, havia desaparecido, e ela tinha a certeza de que fora roubado pela mulher que vinha cuidar dela todos os dias durante algumas horas. Afirmou que não compreendia como é que alguém era capaz de ser tão insensível e cruel ao ponto de lhe fazer uma coisa daquelas. Perguntou-me se deveria confrontar a mulher ou se seria melhor chamar imediatamente a polícia. Eu respondi-lhe que não a podia aconselhar, mas pedi-lhe para pensar na importância que o anel ou outra coisa qualquer tinha para ela nesta altura da sua vida. «Não está a perceber», retorquiu ela, «este anel era da minha avó. Eu usava-o todos os dias, até que adoeci e as minhas mãos incharam muito. Para mim significa mais do que apenas um anel. Como posso não ficar aborrecida?»

A rapidez da resposta, a raiva e o tom defensivo que se adivinhava na sua voz eram indícios de que ela ainda não se tinha tornado suficientemente presente para olhar para dentro de si própria, para se libertar da sua reacção relativamente ao sucedido e observar ambos. A raiva e a postura defensiva eram sinais de que o ego continuava a falar através dela. Então, eu disse-lhe: «Vou fazer-lhe algumas perguntas, mas em vez de responder logo, veja se consegue encontrar as respostas dentro de si mesma. Vou fazer uma pequena pausa após cada pergunta. Quando a resposta surgir, pode não vir necessariamente sob a forma de palavras.» Ela declarou que estava pronta para ouvir as perguntas, que fiz em seguida: «Tem consciência de que um dia vai ter de se desprender do anel, talvez dentro em breve? De quanto tempo mais precisa até estar pronta para se desprender dele? Vai passar a ser menos do que aquilo que é quando o fizer? Quem você é ficou diminuído pela perda?» Ela manteve-se em silêncio durante alguns minutos após a última pergunta.

Quando recomeçou a falar, tinha um sorriso no rosto e parecia estar em paz. «A última pergunta permitiu-me perceber algo importante. Primeiro, fui à minha mente à procura de uma resposta e ela disse-me: “Sim, é claro que ficaste diminuída.” Depois, perguntei novamente a mim própria: “A pessoa que eu sou ficou diminuída?” Desta vez, tentei sentir em vez de pensar na resposta. E, de repente, fui capaz de sentir o meu Eu Sou. Nunca tinha sentido isto. Se consigo sentir o Eu Sou de uma maneira tão forte, então quem eu sou não foi nada diminuído. Ainda o sinto agora, é algo pacífico, mas muito vivo.»

«Essa é a alegria do Ser», esclareci eu. «Só somos capazes de a sentir quando saímos da nossa cabeça. O Ser tem de ser sentido, não pode ser pensado. O ego não conhece essa alegria porque consiste apenas em pensamentos. Na realidade, o anel estava na sua cabeça como um pensamento que você confundiu com a percepção do Eu Sou. Pensou que o Eu Sou, ou parte dele, estava no anel.»

«O que quer que seja que o ego procure e ao qual se agarre é um substituto para o Ser que o ego não é capaz de sentir. Você pode dar valor às coisas e gostar delas, mas sempre que se apegar a elas, vai saber que é o ego que se apega. Você nunca fica realmente apegada a uma coisa, mas a um pensamento que contém as palavras “eu”, “meu” ou “minha”. Sempre que aceitar totalmente uma perda, está a ir para além do ego, e quem você é, o Eu Sou que personifica a própria consciência, vem à tona.»

Ela replicou: «Agora compreendo algo que Jesus disse e que antes nunca fez muito sentido para mim: “Se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa.”»

«Exactamente», observei eu. «Não quer dizer que não devemos pôr trancas à porta. Só quer dizer que, por vezes, não nos apegar-mos às coisas é um acto de poder muito maior do que defendê-las ou agarrarmo-nos a elas.»

Nas suas últimas semanas de vida, à medida que o seu corpo ia ficando mais fraco, ela tornou-se cada vez mais radiosa, como se a luz brilhasse através dela. Deu muitos dos seus haveres, alguns deles à mulher que julgava ter-lhe roubado o anel, e sempre que se desprendia de alguma coisa, a sua alegria aumentava. Quando a mãe dela me telefonou a informar de que ela tinha falecido, também me disse que, após a sua morte, o anel fora encontrado no armário dos medicamentos, na casa de banho. Teria a mulher devolvido o anel ou teria ele estado sempre lá? Nunca saberemos. Mas pelo menos uma coisa sabemos: a vida dar-nos-á a experiência mais útil para a evolução da nossa consciência. Como sabemos que esta é a experiência de que precisamos? Porque esta é a experiência que estamos a ter neste momento.

Então está errado termos orgulho dos nossos bens ou sentirmo-nos melindrados em relação às pessoas que têm mais do que nós? De todo. Essa sensação de orgulho, essa necessidade de sobressair, a aparente elevação do nosso eu através das palavras «mais do que» e a sua inferiorização através de «menos do que» não estão certos nem errados – fazem parte do ego. O ego não está errado; apenas é inconsciente. Quando observar o ego que se encontra dentro de si, começará a ir para além dele. Não leve o ego demasiado a sério. Quando detectar um comportamento egóico seu, sorria. E possível que, por vezes, até se ria à gargalhada. Como pode a Humanidade ter-se deixado levar por isto durante tanto tempo? Acima de tudo, saiba que o ego não é pessoal. Não é quem você é. Se considerar o ego um problema pessoal, estará a alimentá-lo.

(…)

Em defesa de uma ilusão

Não há dúvida de que os factos existem. Se dissermos «A velocidade da luz é maior do que a velocidade do som» e outra pessoa disser que é o oposto, é claro que nós temos razão e a outra pessoa está errada. Basta observar que o relâmpago vem antes do trovão para confirmar este facto. Não só temos razão, como sabemos que temos razão. Estará o ego envolvido nisto? Possivelmente, mas não necessariamente. Se nos limitarmos a constatar o que sabemos ser verdade, o ego não está de todo envolvido, pois não existe qualquer identificação. Identificação com o quê? Com a mente e com uma posição mental. Porém, tal identificação pode facilmente infiltrar-se. Se dermos por nós a afirmar «Acredita, eu sei» ou «Porque é que nunca acreditas em mim?», isto significa que o ego já se infiltrou. Está escondido nas palavrinhas «eu» e «mim». A simples afirmação «A luz é mais rápida do que o som», embora verdadeira, está agora ao serviço da ilusão, do ego. Foi contaminada por urna falsa noção de «eu»; foi personalizada, transformada numa posição mental. O «eu» sente-se diminuído ou ofendido porque alguém não acredita no que «eu» disse.

O ego transforma tudo numa questão pessoal. A emoção surge, assim como a atitude defensiva, e talvez até mesmo a agressão. Estaremos a defender a verdade? Não, a verdade, em qualquer caso, não precisa de defensores. Nem a luz nem o som se importam com que nós ou as outras pessoas pensam. Estamos a defender-nos ou melhor, estamos a defender a ilusão de nós próprios, o substituto criado pela mente. Seria ainda mais correcto afirmar que a são se está a defender a si própria. Se até o domínio claro e evidente dos factos pode ser colocado ao serviço da distorção e da ilusão egóica, quanto mais o domínio menos óbvio das opiniões, dos pontos de vista e dos juízos de valor, todos eles formas de pensamento que podem ser facilmente impregnadas de uma noção de identidade.

Todos os egos confundem opiniões e pontos de vista com factos. Além disso, não são capazes de fazer a distinção entre um acontecimento e a sua própria reacção a esse acontecimento. Todos os egos são peritos na percepção selectiva e na interpretação distorcida. Só a consciência — e não o pensamento — consegue distinguir entre um facto e uma opinião. Só através da consciência somos capazes de ver que esta é a situação e que esta é a ira que sentimos em relação a ela e, em seguida, de perceber que há outras formas de agir nessa situação, outras formas de a analisar e de lidar com ela. Só através da consciência somos capazes de compreender a totalidade da situação ou da pessoa e de não adoptar uma perspectiva limitada.

Tsunami silencioso – Fernando Nobre

Tsunami silencioso

Está adiado o sonho de o prémio Nobel da Paz, o bengali Muhammad Yunus, impulsionador do microcrédito, ver a fome restringida a museus para que o ser humano nunca se esquecesse das tragédias que a fome provoca. A fome foi e é, mais do que as guerras e a peste, a pior arma de destruição maciça! Foi e é responsável por inúmeros e silenciosos morticínios humanos.

Com a incompetência, a indiferença e a ganância instaladas há décadas na governação global, nos seus aliados institucionais (FMI, BM, OMC…) e em alguns fundos globais, sem ética, continuaremos a observar por muito tempo o nefando quadro da fome: ela instalou-se no nosso seio e já está a ceifar milhões de vidas.

As causas do espectro da fome global são múltiplas, todas previsíveis e evitáveis, não fossem os aprendizes de feiticeiro já citados terem dado ou obtido de bandeja todas as oportunidades para agravarem o mortífero tsunami silencioso da fome. De desregulamentação em desregulamentação, chegou-se à desenfreada especulação sobre os alimentos, prevendo a ONU que se possa chegar, se medidas estruturantes urgentes não forem tomadas, ao morticínio de cem milhões de pessoas! E não falo dos sofrimentos que o espectro da fome provoca, como aquele que observei na fronteira entre Jalalabad (Afeganistão) e Peshawar (Paquistão): adultos e crianças, tentando passar sorrateiramente, evitando bastonadas, alguns quilos de farinha para sobreviver! Nesse jogo do gato e do rato, uma menina afegã de oito anos morreu, marcando indelevelmente a minha consciência humana.

Que medidas estruturantes globais têm de ser já tomadas para acabar com a verdadeira escravidão biológica que é a fome? Impedir a especulação financeira sobre os alimentos, a grande detonadora do cataclismo actual; proibir a produção de biodiesel com alimentos e em áreas agrícolas destinados à alimentação dos seres humanos e animais (há alternativas!); adoptar medidas que evitem o agravamento das alterações climáticas a médio prazo, dado que algumas das suas consequências são já irreversíveis; aumentar as áreas de cultivo destinadas a alimentar seres humanos e animais. Já o falecido professor Josué de Castro, antigo presidente da FAO, demonstrava no seu magistral livro Geopolítica da Fome que o planeta, se bem gerido, poderia alimentar o dobro da população actual; regulamentar e controlar o preço dos combustíveis! Nunca as empresas petrolíferas e os estados ganharam tanto dinheiro como agora; acabar com as guerras travadas sob pretextos falaciosos e com as violações do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, que só criam mais refugiados e mais conflitos. E por isso, também, mais esfomeados; aliviar a asfixia que sufoca os países mais pobres, perdoando-lhes as dívidas e os juros, e bloquear as contas faraónicas dos seus corruptos governantes, afim de se criar um fundo de desenvolvimento para esses países; acabar com as monoculturas de exportação, nos países economicamente subdesenvolvidos, incentivadas ou impostas pelos funestos planos de (des)ajustamento estrutural do FMI e BM; implementar um comércio justo entre os países ricos e pobres.

Não é com a injecção pontual de milhões de euros que se resolve a epidemia da fome. Se não se aplicarem as medidas estruturais referidas, o genocídio pela fome vai agravar-se. As primeiras vítimas dessa praga social criada pelo homem são sempre as mesmas: os miseráveis dos países mais pobres. Por efeito de ricochete, seremos todos atingidos. Temos de reagir todos e agora, pois o espectro da fome já está entre nós!

Fernando Nobre
Presidente da AMI
Notícias Magazine, 11 Maio 2008

O dia em que não acabei os trabalhos de casa – Hermann Schulz

O dia em que não acabei os trabalhos de casa

— Eu estou aqui mas tomo sempre cuidado! — disse-me um dia mais tarde o turco que trabalhava no snack-bar “Adana” em Barmen, na Rua Schützen.

Por vezes conversávamos um pouco quando, depois da escola, passava por lá depressa porque estava com fome e ele era muito simpático. A rapariga, que nunca falava e estava quase sempre a limpar a gordura da placa ou a pôr salsichas a grelhar, devia ser filha. Ou sobrinha, quem sabe. Talvez a loja lhe pertencesse, ou talvez ele fosse só empregado. Com os turcos, nunca se sabe. Geralmente, pertencem todos a uma grande família e acautelam-se para que ninguém mandrie. Não cheguei a perguntar-lhe essas coisas privadas porque o snack-bar fechou.

— De qualquer maneira, não se deve ter muita confiança com os clientes — dizia ele. — Eu, pelo menos, não quero ter aborrecimentos. Nunca se sabe quem se tem à frente.

 

Era entre as 18 e as 19 horas, altura em que as pessoas vão ainda rapidamente comprar batatas fritas ou salsichas de caril antes do cinema e os pais pedem grandes doses e prendem o serviço com os seus pedidos. Se uma pessoa tinha pressa, ficava furiosa com aqueles pais. Se não tinha nada planeado, não tinha importância.

Eu não tinha nada planeado, estava no fim da fila e olhava para o ecrã da televisão, em cima, ao canto. Não conseguia perceber muito mas, quando se está à espera, tanto faz. Pelo menos, comigo é assim. No ecrã uns homens corriam de um lado para o outro e, no chão, estava um homem deitado, baleado ou morto, não conseguia perceber. Não fazia ideia se estava a passar um filme ou as notícias. Nos filmes, os mortos estão muitas vezes caídos na rua com todos a correr à volta. A fila avançou um pedaço e eu ouvi indistintamente o nome Martin Luther King.

À minha frente encontrava-se um indivíduo bastante forte, mais velho e maior do que eu um palmo. Quando uma pessoa está na fila de um snack-bar, não lhe interessa quem está à frente porque não se conversa com a pessoa quando não se conhece, só muito raramente. O importante é que essa pessoa não tenha um rol de pedidos a fazer. A nossa vez está quase a chegar mas ainda pode demorar muito. Eu não tinha nada para fazer, só alguns – poucos – trabalhos de casa. Nada de importante.

Ainda faltava muito para a minha vez; tinha, pelo menos umas sete pessoas à frente, homens e mulheres. “Espero que muitos deles estejam sozinhos”, pensava eu. “Despacham os pedidos mais depressa.”

Esperanças destas não servem de nada porque não sabemos. Nas mesas estavam sentadas algumas pessoas a comer, também um casal já avançado na idade. Provavelmente não lhes apetecia cozinhar só para eles. Eu não estava com pressa mas, mesmo assim, não queria ficar ali em pé uma eternidade. A começar pelo facto de gordura e batatas fritas não cheirarem lá muito bem quando se tem de aguentar o cheiro durante muito tempo. Bem, adiante.

O indivíduo à minha frente também estava a olhar para o ecrã, pelo jeito da cabeça, e disse em voz alta:

— Menos um preto nojento! — olhou em volta com um risinho, como se esperasse uma aprovação ou, pelo menos um assentimento.

Ninguém disse nada. Mas, de repente, fez-se um silêncio tal, que se ouvia o frigir da gordura e o barulho do papel em que o turco estava a embrulhar outro pedido. Algumas pessoas olharam fixamente em frente, uma mulher lá à frente virou-se para trás para ver quem tinha falado mas não disse nada. Eu queria ter dito alguma coisa, mas não sabia o quê. Foi muito de surpresa, penso eu. A fila avançou.

O homem que estava à frente de tudo pagou. Quando se voltou, reconheci-o. Trabalha nas obras em frente da nossa escola. Conduz o cilindro para a frente e para trás, sempre devagar. Reconheci-o pelo capuz de pala com um boi vermelho à frente. E, para além disso, pelo físico. Não era pequeno, mas também não era um gigante. Pegou no recipiente das batatas fritas e seguiu ao longo da fila. Meteu uma batata frita à boca e mastigou muito calmamente. Tudo nele era lento como o pesado cilindro que conduzia, sempre devagar, de cada vez que eu olhava pela janela da sala de aula. Parou muito calmamente ao lado do indivíduo à minha frente e disse:

— Não percebi muito bem o que disseste. Ora diz lá outra vez!

Continuava a comer calmamente mas os olhos estavam postos no grandalhão à minha frente, uns bons quinze anos mais novo do que ele, de certeza, e maior. O homem do cilindro não era muito pequeno, mas talvez mais forte de ombros.

— O que eu disse, toda a gente ouviu — respondeu ele, em tom de desafio, mas os olhos tremiam-lhe um pouco ao falar. — Em todo o caso, é a minha opinião.

O condutor do cilindro olhava calmamente para ele continuando a comer.

— Eu não percebi lá muito bem — disse — por isso é que pedi que repetisses.

O tipo à minha frente saltava de uma perna para a outra e olhava de soslaio para o homem parado ao lado dele.

— Abre os ouvidos! Toda a gente ouviu! Eu falo quando quero e não quando me mandam! — falava num tom arrogante, esticava os ombros, olhando para outro lado e notava-se que, de certa forma se sentia incomodado.

Uma voz de mulher, vinda de mais à frente, disse então, bastante alto:

— Acha muito bem que tenham morto um pastor negro na América. Devia era ter vergonha!

Era a mulher que já se voltara uma vez. O último burburinho extinguiu-se. Estava um silêncio tenso, antes de o homem do cilindro dizer, sempre com o olhar dirigido para o fulano à minha frente:

— Finalmente percebi. Então uma pessoa como tu acha bem uma coisa destas… Deves ter viajado muito, deves conhecer um montão de pretos e tens muito contacto com eles, não? — perguntou amigavelmente.

— Isso não é da conta de ninguém — disse num tom brusco o tipo à minha frente. — Deixe-me mas é em paz.

A voz tremia-lhe. O turco já só perguntava em surdina o pedido do próximo cliente. A rapariga atrás do balcão, com o pano de limpar nas mãos, olhava com medo para os dois homens. A maioria dos clientes também se tinha voltado.

— Se tu dizes o que pensas aqui tão abertamente, então isso é muito da minha conta. Por acaso até admiro alguém com tanta coragem. A sério! Isso quando não diz disparates… ou até asneiras maiores!

— Quem é que está a dizer disparates? — o grandalhão à minha frente fazia-se de indignado mas a voz soava bastante tremida. Tinha suor na testa. Pensei que talvez ele estivesse com medo do condutor do cilindro, que não é propriamente uma criança. E é um pouco mais velho e talvez mais forte. Mas o homem do cilindro não parecia querer lutar.

— Quem é que está a dizer disparates? Bom, então vamos pedir a opinião das pessoas aqui! — virou-se e olhou em redor.

Algumas riam, inseguras, outras murmuravam, concordando. Eu tinha quase a certeza de que a maioria estava do lado do homem do cilindro. Mesmo que não dissessem nada.

“Os que provavelmente não são da mesma opinião, agora calam a boca”, pensei eu e disse ao homem que podia contar comigo. Eu também era da opinião que o tipo tinha dito asneira. Corei, mas depois senti-me bem, mesmo estando o indivíduo imediatamente à minha frente.

O turco suava em bica e passava o lenço pela testa cada vez com mais frequência para as gotas não caírem na comida. O condutor do cilindro manteve-se muito calmo e continuava a comer. Quando a fila avançava, ele andava um pouco porque queria continuar ao lado do indivíduo.

— Ora repara — disse ele suavemente mas tão claramente para que todos ouvissem. — Não vejo aqui ninguém que ache isso correcto… Ou será que há? — virou-se também para o velho que, sentado à mesa com a mulher, picava a salsicha de caril sem uma única vez levantar os olhos. Desta vez também não ergueu. Baixou ainda mais a cabeça e murmurou:
— Não somos de cá…

O condutor do cilindro olhou-os com certa pena mas não disse nada. Sentou-se a uma mesa, esticou as pernas, sempre com as batatas fritas nas mãos e o olhar dirigido ao fulano à minha frente.

— Pareces estar um pouco só com a tua opinião. Porque será? Talvez voltes a pensar outra vez no assunto. Um rapaz como tu… é pena.

O homem à minha frente mexia-se de um lado para o outro, nervoso. Vi claramente que a nuca estava ruborizada e não sabia onde meter as mãos. Olhava à sua volta, mas todos os olhares o evitavam.

De repente, deixou a fila e dirigiu-se à porta de saída, quase chocando com clientes que vinham a entrar, e quis atirar com a porta atrás dele mas ela fechou-se devagar e silenciosamente. Toda a gente olhava pela janela e via como ele estava no passeio, na paragem do autocarro, um pouco só, de costas viradas para a janela, e cada um fazia o seu juízo. O turco estava aliviado, via-se bem. A filha, ou sobrinha, com o pano na mão, sorria agora muito amavelmente.

Isto passou-se a 4 de Abril de 1968 entre as dezoito ou dezanove horas. Não me esqueço porque não se passa por uma situação destas muitas vezes. Tinha esquecido a data e o ano mas vi na enciclopédia sob o nome de King, Martin Luther.

Passou-se isto na Rua Schützen, em Barmen, quando, entre o posto dos correios e a taberna, que antes se chamava “Cantinho da Protecção”, ainda havia aquele snack-bar turco, e eu, na altura, ainda não tinha acabado de fazer os meus trabalhos de casa. Naquele dia também não os acabei.

Hermann Schulz

Karlhans Frank (org.)
Menschen sind Menschen. Überal.
München, C. Bertelsmann Verlag, 2002
tradução e adaptação