Tolerância

O sentido literal de tolerância é “suportar em silêncio”. A palavra possui, no entanto, outros sentidos, que passo a enumerar:

a) Enfrentar o contraditório. Testar os limites daquilo em que acredito ou penso acreditar. Ter consciência da minha própria sombra, que  tantas vezes vejo refletida nas palavras e nos atos dos outros. Continuar a ler

Adoro a minha parede

Um sábado, depois da nossa excursão pela Pizza Hut, pelo centro comercial e pelo cinema, levei a minha afilhada Samantha, de dez anos, à nova residência da sua família. Quando saímos da auto-estrada para uma estrada de terra que ia ter à sua casa, fiquei desolado ao ver que ela e os pais estavam a viver num velho autocarro escolar no meio do campo.

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Professores e alunos

Professores e alunos

Há uns anos fiz uma investigação em várias escolas secundárias de Lisboa. Depois de ter analisado os problemas dos jovens que tinham feito tentativas de suicídio, quis saber o que pensavam sobre o tema alunos que nunca tivessem ido a uma consulta de Psiquiatria. Numa das escolas conheci uma professora do Conselho Executivo com quem travei um inesquecível diálogo.

Depois de lhe explicar o objetivo do estudo, pretendi falar com os estudantes. Respondeu-me que não valia a pena, poderia falar com muitos alunos na minha consulta hospitalar. Disse-lhe que queria falar com jovens… normais. Então encostou-se na cadeira, segurou os óculos de lentes grossas e disse-me: «NORMAIS?! Normais aqui nesta escola? Não existem!»  Continuar a ler

A arte da lentidão

A arte da lentidão

José Tolentino Mendonça*

Talvez precisemos de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados.

À conta disso, os ritmos de atividade tornam-se impiedosamente inaturais. Cada projeto que nos propõem é sempre mais absorvente e tem a ambição de sobrepor-se a tudo. Os horários avançam, impondo um recuo da esfera privada. E mesmo estando aí é necessário permanecer contactável e disponível a qualquer momento. Passamos a viver num open space sem paredes nem margens, sem dias Continuar a ler

Os fantasmas de Evros

Vêm de África, do Magrebe, do Afeganistão… Todas as noites tentam franquear, clandestinamente, as portas da Europa, nos confins do espaço Schengen, entre a Grécia e a Turquia. Centenas de pessoas já deixaram a sua vida nas águas do rio Evros, no país que faz tremer o Velho Continente e por onde passam cada vez mais os náufragos do sonho europeu.

Para já, não passa de um retângulo de arame farpado, ao mesmo tempo ameaçador e irrelevante, plantado na fronteira. De um lado, a bandeira turca e os minaretes de Edirna. Do outro, a Grécia e, sobretudo, o espaço Schengen, uma Europa sonhada que milhares de imigrantes tentam alcançar. Logo o retângulo se torna vedação: 12,5 quilómetros de comprimento, 3 metros de altura, câmaras por todo o lado, para repelir os clandestinos. Assim decidiu o Governo grego. Mas será que podemos impedir a chuva de cair? Já há mais de um ano que os clandestinos evitam aventurar-se nesta zona militarizada, entre a Grécia e a Turquia, uma planície lisa como uma pedra, sem uma árvore para os esconder das patrulhas policiais.
Hoje, o verdadeiro «muro» está um pouco mais a sul. Ao longo do rio Evros, que corre 180 quilómetros entre os dois países. Todos os dias, todas as noites, são centenas a tentar passar. Amontoados aos quinze ou vinte em barcos insufláveis, tal como aqueles que vemos nas praias. Ao longo das margens do Evros, as embarcações rebentadas e os montes de roupas abandonadas formam manchas coloridas. Papéis, cartas, mochilas… E, por vezes, também corpos. Cadáveres de afogados. Um a dois por semana, pelo menos, recenseados do lado grego. A corrente não quer saber de bandeiras nem de fronteiras.
Que vale isso, uma vida? Para«300561a», anónima, sexo feminino, 20 a 30 anos», não vale grande coisa. Clandestina, nunca existiu nos registos da polícia. Os seus documentos flutuam algures nas águas do Evros. A «300561a» é um fantasma. Exceto talvez para Pavlos Pavlivis, o responsável da morgue de Alexandroupoli, pequena cidade grega do Sul da região. Este homem calmo apesar das unhas roídas até fazer sangue deu à jovem uma existência administrativa e um número de processo («300561a»). Atribuiu-lhe um «processo». Quatro folhas dispersas e um envelope de onde surgiu este tesouro, ainda manchado pela lama do Evros: brincos, uma pulseira, um colar com um minúsculo pendente de couro cozido. «Há uma oração no interior», diz Pavlivis. «Uma sura do Corão. Esta desconhecida era, pois, muçulmana. Talvez da Somália ou da Nigéria…»

VIDAS ‘LOWCOST’ Continuar a ler

…vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam (Shahenaz Kureshi, 18 anos)

Chamo-me Shahenaz Kureshi.

Tenho 18 anos e vivo com a minha mãe nos bairros de lata de Nagpur. O meu pai, Hakim Kureshi, queria desesperadamente ter um herdeiro varão e, por isso, ficou furioso com a minha mãe quando eu nasci. De­pois de eu nascer, começou a mal­tratá-la, tanto física como men­talmente. Considerava o facto de eu ser a primeira criança do sexo feminino da sua família como uma ofensa pessoal e tentou matar-me.

Por fim, a minha mãe decidiu deixá-lo para me salvar.

Quando tinha apenas um mês, a minha mãe partiu da nossa terra natal em Orissa, em direção a Nagpur, onde viviam os meus avós maternos. Mas, quando lá chegámos, eles não quiseram receber-nos. A minha mãe sentiu-se completamente desamparada e, nos dias seguintes, vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam.

Para piorar ainda mais a situação, Continuar a ler