A criança no sótão

 

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Vou chamar-lhe Walter, embora esse não seja o seu verdadeiro nome.

Walter era uma criança esperta que não se empenhava muito nos estudos.

Um dia, a sua vida mudou radicalmente. O pai abandonou-o e aos irmãos, deixando a mãe com três rapazes para cuidar. Como o Estado não fornecia qualquer tipo de apoio a mães trabalhadoras, a mãe de Walter trabalhava em vários lados a fim de assegurar o sustento dos filhos. À medida que as férias grandes se aproximavam, começou a preocupar-se com os perigos a que os filhos estariam sujeitos ao vaguear pelas ruas enquanto ela trabalhava. Continuar a ler

As folhas da tília

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Quero explicar-vos, amigos, por que motivo escrevo contos. Até há muito pouco tempo não me apercebera da magia que ficou presa às minhas mãos quando, em menina, brincava com as folhas da tília. Não podia guardar por mais tempo este maravilhoso segredo e por isso aqui deixo a minha história. Continuar a ler

A evolução humana

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A evolução humana encontra-se marcada por uma série de diferenciações importantes, que são, ao mesmo tempo, normais e cruciais no contexto do desenvolvimento da consciência. Cada etapa de evolução permite-nos observar as etapas que a precederam, bem como as características que lhe foram adicionadas e que as transcendem. Continuar a ler

A verdadeira e maravilhosa história do dragão Samuel

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Para lá das montanhas onde o dia acaba, por trás da noite e do escuro, num sítio escuro e muito perigoso, fica o terrível país dos dragões. Foi aí que nasceu o pequeno Samuel, que logo revelou ser um dragão muito especial, embora quem o visse pela primeira vez o achasse igualzinho a todos os outros dragões. Continuar a ler

A irritação tóxica

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Aquele que domina a sua cólera,
domina o seu pior inimigo.

Confúcio

Todas as nossas emoções existem para serem sentidas. Como parte delas, sentir-se irritado é algo normal e universal. De acordo com a forma como a utilizamos, a irritação pode ser uma emoção geradora de energias ou uma emoção tóxica. Continuar a ler

O desejo de Ruby

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Se caminhar por uma certa rua de uma certa cidade na China, e passar pelo mercado de animais de estimação, com os papa-arroz amarelos e verdes a saltar nas gaiolas de bambu, os peixinhos dourados e as tartarugas de água doce nas taças de porcelana, há-de chegar a um quarteirão de casas. Nesses edifícios, agora castanhos devido à idade e à sujidade, moram muitas famílias. Porém, se olhar com atenção, verá que outrora essas casas eram uma só, uma magnífica casa que pertencia a uma única família. Continuar a ler

Eu sei, mas não devia

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Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. Continuar a ler

Os pequenos cavalos de vento

Os pequenos cavalos de vento*

Nessa noite, por baixo da manta, Dolma tomara uma decisão. No dia seguinte, partiria ao alvorecer com o seu iaque e subiria o estreito que leva ao grande lago sagrado Zhara Yuntso. Ficava longe e muito alto na montanha, mas fá-lo-ia, pela sua mãe doente. Arranjara muitos pequenos cavalos de vento que lançaria do cume para levarem as suas orações.

Antes do amanhecer, Dolma encheu o alforge com comida para a viagem: carne seca, bolas de tsampa** e chá de manteiga. Abraçou a mãe e saiu para a manhã fria. O ar glacial apanhou-a de surpresa. Cerrou os dentes, pegou na corda do seu iaque e afastou-se do acampamento que ainda dormia. Após algumas horas de marcha, levantou-se uma tempestade, mas Dolma descobriu uma gruta entre as inclinadas rochas que a rodeavam.

— Vamos abrigar-nos!

No fundo da gruta, a menina encontrou uma estátua de Buda. Ajoelhou-se, murmurando uma súplica. Mas, de tão esgotada que estava devido à longa caminhada, adormeceu aos pés da estátua. E sonhou que estava na mão de Buda e sobrevoava imensas planícies verdes. Buda falava-lhe docemente, animava-a, tranquilizava-a. E apontou-lhe com o dedouma ermida perdida na montanha. Dolma acordou sobressaltada, com uma estranha frase a martelar-lhe na cabeça: “Desconfia do mel doce oferecido no gume da navalha.”

Estava sozinha com o seu iaque e segurava na mão uma pequena flauta. Quando a levou aos lábios, dela saiu uma doce melodia. Nesse instante sentiu a presença de alguém…uma sombra que logo desapareceu. A menina correu para a entrada da gruta e viu um enorme e belo bharal***.

— Espera! Não te vás embora! — gritou ela. — Tenho de ir até à pequena ermida no cimo da montanha. Ajuda-me!

— Porque é que te hei de ajudar? — perguntou a cabra azul.

— Porque, sozinha, nunca conseguirei lá chegar! E tu és a rainha desta montanha.

— O que fazes aqui sozinha?

— A minha mãe está doente e já não temos remédios que a curem. E o meu pai está na aldeia. Vou ao desfiladeiro de Zhara enviar as minhas preces aos deuses. É a única coisa que posso fazer.

— Anda comigo — disse a cabra a sorrir. — O som da tua flauta tocou-me.

Montada no seu iaque, Dolma seguiu obharal até ao pôr-do-sol. Outras cabras vieram-se-lhes juntar e, à chegada ao mosteiro, eram já um pequeno grupo. Dolma agradeceu a ajuda da cabra e quis oferecer-lhe a flauta. Mas aquela recusou:

— A flauta escolheu-te a ti. Adeus e boa sorte, pequena Dolma.

A divisão estava na penumbra. Dolma aproximou-se. Pela janela aberta viu um velho monge a rezar diante de um altar. Bateu suavemente à porta para não assustar o ermita.

— Boa tarde. Gostaria de passar aqui a noite. Prometo não incomodar.

— Entra, pequena, entra. Estava à tua espera! — disse o monge, retorcendo-se de um modo estranho.

Dolma viu que o seu olhar era maligno. Tossia e a cara desfigurava-se ao falar.

— Acomoda-te, grrr, fica à vontade. Trago-te já um pouco de chá e uns deliciosos bolinhos. Volto já, grrr

— Que esquisito! — pensou Dolma.

Foi então que viu um prato cheio de raízes. Apanhou algumas e guardou-as no gorro. Do quarto para onde o monge tinha desaparecido vinha um cheiro a chá, mas também uns sons nada tranquilizadores. Dolma lembrou-se do sonho e das palavras de Buda. Levantou-se para ver melhor o que se passava. E o que viu deixou-a sem fala: um demónio! Invadiu-a um cheiro a podre. Não havia um minuto a perder!

Fugiu dali. Pegou no alforge e no seu iaque e correu tanto quanto as suas pequenas pernas o permitiram. Deixou-se cair atrás de um chorten**** e acariciou o iaque, tranquilizando-o.

— Escapámos por um triz, meu bom amigo. Mais um pouco e estaríamos agora entre aquelas coisas que estavam dependuradas no teto.

Dolma olhou à sua volta. A noite estava clara. O iaque apontou então com a cabeça para o cume da montanha.

— Tens razão! — suspirou Dolma — Afastemo-nos mais desse demónio.

Caminharam a bom passo, mas o frio era tão intenso que a menina deixou de sentir os pés. Parou ao abrigo do vento e o iaque deitou-se, com ela entre as suas patas. Dolma pegou na flauta, e a melodia que saiu aqueceu-lhe o coração. Adormeceu sorrindo, embalada pela respiração do animal. Ao despertar, um pequeno cavalo fitava-a com curiosidade.

— Assustaste-me!

— Desculpa. O que fazes aqui?

— Vou para o desfiladeiro do lago sagrado. Vou oferecer as minhas orações.

— Posso acompanhar-te porque para mim é fácil. Mas, primeiro, tens de me deixar comer algumas dessas raízes para me darem força.

Dolma deu-lhe os pedaços que apanhara em casa do monge. O cavalo depressa os comeu. E logo saíram a galope. Parecia à menina que estavam a voar. Andaram muito e iam tão depressa que logo viram o resplendor do sol refletido na superfície do lago dominado pelo majestoso Zhara Lhatse.

— Oh, que fumo é aquele a sair da água?

— São as fontes quentes da montanha. Podes tomar banho lá, se quiseres.

Dolma entrou com prazer nas águas borbulhantes. Em seguida, continuaram o caminho e, após umas horas, chegaram ao desfiladeiro de Zhara. A menina pegou nos seus pequenos cavalos de vento, aproximou-os dos lábios e soprou com todo o amor e força que tinha dentro de si. Fechou os olhos e enviou-os em pensamento aos deuses.

A viagem de regresso durou muitos dias. Dolma orou todo o caminho até chegar à aldeia. Ao entrar na tenda, deparou com o pai, os irmãos… e a mãe sentados em volta do lume. Colocou a pequena flauta diante da estátua de Buda e atirou-se para os braços da mãe.

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Vocabulário:

*CAVALOS DE VENTO: pequenos papéis com a figura de um cavalo pintado que se lançam ao céu. O vento leva aos deuses as preces que se escrevem neles. Os cavalos de vento também podem ser de tecido, em forma de bandeirinhas de oração.

**TSAMPA: bolinhas muito nutritivas típicas do Tibete, confecionadas com feijão vermelho, grão-de-bico, lentilhas, milho, amendoim natural, mel puro, banana verde, soja em grão e trigo.

***BAHRAL: cabra de pelagem azul e cornos grandes que vive nas montanhas do Tibete.

****CHORTEN ou STUPA: monumento funerário que guarda as relíquias de um santo ou orações sagradas. Encontram-se por todo o lado, porque dão vida aos lugares à entrada das aldeias, ao lado dos mosteiros, nos desfiladeiros e nos vales.

Anne-Catherine de Boel
Los pequeños caballos del viento
Barcelona, Corimbo, 2009
(Tradução e adaptação)

 

O Herói do papel

O Herói do papel

Assim que o sol derreteu os grãos de neve escuros, e lavou a água suja e todo o lixo doméstico depositado durante o inverno – trapos, ossos, vidros partidos –, começaram a sentir-se no ar um sem número de odores, sobrepondo-se a todos eles o cheiro doce da terra no início da primavera. Foi então que Genia saiu para o pátio.

O seu nome era tão ridículo que ele, desde que aprendera a escrever, o sentia como uma humilhação. Para mais, Genia tinha, de nascença, um problema nas pernas que o fazia saltar de uma forma esquisita quando andava. A acrescentar a tudo isso, o nariz, continuamente entupido, obrigava-o a respirar pela boca, de forma que os lábios estavam sempre secos, o que o fazia lambê-los constantemente. Para completar, não tinha pai. É certo que metade das crianças não tinha pai mas, ao contrário das outras, Genia não podia dizer que o pai havia morrido na guerra: ele nunca tinha tido um pai. Tudo isto o tornava muito infeliz.

Saiu, portanto, para o pátio, ainda meio convalescente das suas maleitas de inverno e de primavera, com um gorro de lã enfiado na cabeça, por cima de um lenço, e um longo cachecol verde enrolado à volta do pescoço. O sol estava incrivelmente quente. As meninas tinham descido as meias, enrolando-as à volta das pernas como salsichas. A senhora da casa número sete, com a ajuda da neta, arrastara uma cadeira para debaixo da janela, e ali se encontrava sentada, com a cara virada ao sol. O ar, a terra, tudo estava cheio de vida e emanava força, principalmente as árvores despidas, de onde, a qualquer momento, pequenas folhas rebentariam alegremente.

Genia estava parado no meio do pátio, escutando, impressionado, os magníficos sons à sua volta. Um gato gordo atravessava o pátio na diagonal, colocando, hesitante, as patas na terra molhada. A primeira bola de lama caiu exatamente entre o rapaz e o gato, que curvou as costas e deu um salto para trás. Genia estremeceu. Chapiscos de lama bateram-lhe com força na cara. A segunda bola acertou-lhe nas costas, e ele nem esperou pela terceira: desatou a correr aos saltos em direção à porta de casa. Um dito trocista perseguiu-o como uma lança sonora: Genia Manco, limpa o ranho!

Voltou-se. Kolka atirava as bolas de lama, as meninas riam-se e por detrás deles, encontrava-se aquele a quem todos obedeciam, inimigo de quem não pertencesse ao seu grupo: o astucioso e destemido Shenka. Genia correu para a porta de casa. A avó vinha naquele momento a descer as escadas, uma avó minúscula, com um chapéu castanho na cabeça. Ia passear no jardim. Uma pele de raposa já gasta, com olhos de âmbar luzidios, repousava-lhe sobre os ombros.

Naquela noite, quando Genia ressonava por detrás do biombo verde, a mãe e a avó ficaram bastante tempo sentadas à mesa.

— Porquê? Porque é que andam sempre a fazer-lhe mal? — perguntou a avó num sussurro.

— Acho que devíamos convidá-los para o aniversário dele — respondeu a mãe.

— Estás maluca! — disse a avó assustada. — Aquilo não são crianças, são bandidos!

— Não vejo outra saída — retorquiu a mãe. — Temos de fazer um bolo, alguma coisa para comer e preparar-lhe uma festa de anos a sério.

— São uns bárbaros e uns bandidos. Vão levar-nos tudo o que temos em casa — teimava a avó.

— Ora diz lá, o que é que tens que possam roubar-te? — perguntou a mãe de Genia. — Os teus sapatos velhos, talvez?

— Ora, os sapatos! — a avó soltou um suspiro pesado. — O rapaz faz-me pena.

♥♥♥♥

Passaram-se duas semanas. Chegou uma primavera suave e amena. A lama secara. O pátio ficou coberto de erva e, embora os moradores se esforçassem por sujá-‑la novamente, ela continuava limpa e verde. As crianças brincavam de manhã à noite aos “polícias e ladrões”. As cercas estavam pintalgadas de setas de giz e carvão, o sinal dos ladrões à solta. Há já duas semanas que Genia ia à escola. A mãe e a avó trocavam olhares entre si. A avó, supersticiosa, cuspia por cima do ombro – pelo sim e pelo não. O intervalo entre duas doenças geralmente não durava mais de duas semanas. De manhã, a avó levava o neto à escola. Depois das aulas, esperava por ele no átrio, enrolava-lhe o cachecol verde, pegava-lhe pela mão e levava-o para casa.

Na véspera do dia de anos, a mãe disse a Genia que nesse ano iam fazer uma festa a sério.

— Convida quem tu quiseres da tua sala e do pátio — sugeriu.

— Não quero ninguém. Por favor, mãe, não! — pediu Genia.

— Tem de ser — respondeu a mãe laconicamente, e o estremecer das sobrancelhas disse a Genia que nada a demoveria.

Ao anoitecer, a mãe desceu ao pátio e convidou as crianças para o dia seguinte. Falou ao grupo inteiro, sem diferenciar ninguém; só a Shenka é que se dirigiu em separado:

— E tu também, Shenka.

Ele olhou-a com uns olhos tão frios e adultos, que ela ficou embaraçada.

— E porque não? Eu vou — respondeu, impassível.

E a mãe foi começar a preparar a massa do bolo.

Genia olhava tristemente em volta do quarto. O que mais o preocupava era o piano preto e brilhante. De certeza que mais ninguém tinha em casa uma coisa daquelas. O armário dos livros e as partituras na prateleira ainda se desculpavam… Mas Beethoven, aquela horrível máscara preta de Beethoven! De certeza que alguém iria perguntar maldosamente: “Aquele é o teu avô? Ou o teu pai?”

Genia pediu à avó que guardasse a máscara. A avó ficou admirada.

— Mas o que é que te incomoda nela agora? Olha que a tua mãe recebeu-a de presente, da professora!

E a avó contou, pela infinitésima vez, como a mãe era uma pianista de talento e como, se não tivesse sido a guerra, teria acabado o conservatório…

Sobre a mesa posta havia, pouco antes das quatro, uma terrina com salada de batata, pão torrado com arenque, e pirogas com recheio de arroz. Genia estava sentado à janela, de costas voltadas para a mesa e tentava não pensar que dali a nada os seus barulhentos, alegres e irreconciliáveis inimigos entrariam por ali dentro… Parecia completamente mergulhado na sua ocupação favorita: fazer um barco de folha de jornal.

Genia era um grande mestre na arte do papel. Passara na cama centenas de dias da sua vida. Bronquite de outono, anginas de inverno e constipações de primavera, tudo aguentara com paciência, dobrando pontas e alisando dobras de folhas de papel, tendo junto de si um livro cinzento azulado com uma girafa na capa. Intitulava-se “Horas divertidas” e tinha sido escrito por um sábio, um mágico, o melhor homem do mundo – um tal M. Gershenson. Este era um grande professor, mas Genia era também um grande aluno. Incrivelmente dotado para aquele passatempo de papel, já tinha feito coisas que nem Gershenson ousara imaginar! Genia rodava nas mãos o barquinho incompleto, esperando, com pavor, a chegada dos convidados.

Chegaram em grupo às quatro em ponto. As irmãs loirinhas, as convidadas mais novas, entregaram-lhe um grande ramo de margaridas. Os outros vieram sem prenda. Ordeiramente, todos se sentaram à mesa. A mãe serviu gasosa caseira com cerejas, e disse:

— Vamos brindar ao Genia, que faz anos hoje.

Cada um pegou no seu copo e brindaram. A mãe puxou o banco giratório, sentou-se ao piano e tocou “A marcha turca”. As irmãs olhavam fascinadas para as mãos a deslizar pelas teclas. A mais nova estava com uma cara assustada, como se fosse desatar a chorar a qualquer momento. Shenka, com um ar indiferente, comia salada de batata e uma piroga, e a avó rodeava cada convidado de cuidados, como costumava fazer com Genia. A mãe tocava agora canções de Schubert. Que cena incrível! Doze crianças mal vestidas, mas limpas e bem penteadas, comiam em completo silêncio, enquanto uma mulher magra tirava sons fugidios das teclas do piano. O aniversariante estava sentado, com as mãos transpiradas, a olhar fixamente para o prato. A música entretanto chegou ao fim, voou pela janela, e só alguns tons graves ficaram a pairar sob o teto, antes de seguirem os outros.

— Genia — disse de repente a avó, com voz doce —, não queres tocar também alguma coisa?

A mãe lançou à avó um olhar alarmado. O coração de Genia quase parava: eles detestavam-no pelo nome ridículo, pelo andar saltitante, pelo cachecol comprido e pela avó que ia passear com ele. E agora tinha de tocar piano à frente deles!

A mãe viu que ele empalidecera, adivinhou a razão e respondeu:

— Noutro dia. O Genia toca noutro dia.

A corajosa Valka perguntou, incrédula e quase admirada:

— Ele sabe tocar?

A mãe trouxe o bolo. Serviu-se chá. Numa taça redonda havia bombons, rebuçados de fruta e caramelos. Kolia comia à boca cheia sem vergonha nenhuma, e metera ainda alguns ao bolso. As irmãs chupavam rebuçados ácidos e pensavam em quais iriam pegar a seguir. Valka alisava papel de prata em cima do joelho bicudo. Shenka olhava em volta da sala com à-vontade. Os olhos deslizavam de um lado para o outro. Por fim, apontou para a máscara e perguntou:

— Tia Mussia! Quem é aquele? Pushkin?

A mãe sorriu e respondeu amavelmente:

— Aquele é Beethoven. Um compositor alemão. Era surdo mas, mesmo assim, compôs música magnífica.

— Um alemão? — perguntou Shenka alerta.

A mãe apressou-se a ilibar Beethoven de qualquer suspeita.

— Já morreu há muito tempo. Viveu há mais de cem anos, muito antes do fascismo.

A avó começara já a contar que a tia Mussia recebera a máscara de presente da professora, mas a mãe olhou-a com um olhar severo e ela calou-se.

— Querem que vos toque alguma coisa de Beethoven? — perguntou a mãe.

— Sim, por favor — concordou Shenka, e a mãe puxou novamente o banco, voltou-o  para o piano  e tocou a peça  preferida de Genia, “A Marmota”, que, por uma razão qualquer, lhe causava tristeza.

Estavam todos sentados muito quietos, sem o mínimo sinal de impaciência, embora os rebuçados e os doces já tivessem acabado há muito. A tensão de Genia afrouxara e, pela primeira vez, sentia até uma espécie de orgulho: a sua mãe estava a tocar Beethoven e ninguém se ria, todos a escutavam e olhavam para as mãos fortes correndo sobre as teclas.

A mãe parou de tocar.

— Pronto, chega de música. Vamos jogar alguma coisa. A que é que gostavam de jogar?

— Talvez às cartas — disse Kolia, sem pensar duas vezes.

— Vamos antes fazer um jogo de prendas — propôs a mãe.

Ninguém sabia o que era. Shenka estava à janela e revirava nas mãos o barquinho inacabado. A mãe explicou como funcionava um jogo de prendas, mas ninguém tinha nada para dar. Lília, uma menina com uma trança complicada, tinha sempre um pente no bolso, mas não queria dá-lo – e se desaparecesse? Shenka poisou o barquinho em cima da mesa e disse:

— Esta é a minha prenda.

Genia pegou no barquinho, e muito facilmente o terminou.

— Genia, faz também prendas para as meninas — pediu a mãe, colocando um jornal e duas folhas de papel mais rijo em cima da mesa.

Genia pegou numa folha, pensou um instante, dobrou o papel ao meio…

As cabeças rapadas dos rapazes e as cabeças com tranças apertadas das meninas curvaram-se sobre a mesa. Um barco, uma barcaça, um barco à vela, um copo, uma barrica de sal, um cesto de pão, uma camisa…

Mal Genia acabava uma peça, os outros arrancavam-lha imediatamente da mão.

— Para mim também, faz-me também alguma coisa!

— Mas tu já tens! Agora é a minha vez!

— Faz-me um copo, Genia, por favor!

— Um boneco, Genia, faz-me um bonequinho!

O jogo estava esquecido. Genia dobrava, alisava, voltava a dobrar, virava cantos. Uma pessoa, uma camisa, um cão… Esticavam as mãos na sua direção, ele oferecia aquelas maravilhas de papel e todos sorriam, todos lhe agradeciam. Puxou uma vez do lenço e assoou-se – e ninguém notou, nem mesmo ele.

Só em sonhos experimentara uma sensação daquelas. Estava feliz! Não sentia medo, rejeição, hostilidade. Não era nem um pouco inferior a eles. Mais ainda: admiravam-lhe um talento trivial, a que nem mesmo ele dava importância alguma. Pela primeira vez observou-lhes os rostos: não estavam zangados. Não estavam absolutamente nada zangados.

Shenka virava e revirava uma folha de jornal no parapeito da janela. Tinha desdobrado o barquinho e tentava dobrá-lo outra vez. Quando viu que não era capaz, chegou junto de Genia, pôs-lhe a mão no ombro e perguntou-lhe, tratando-o pela primeira vez pelo nome:

— Ora olha, Genia, e agora, como é que se faz?

A mãe lavava a loiça, sorria e as lágrimas caíam-lhe na água com sabão.

Feliz, o rapazinho distribuía brinquedos de papel.

 

 

Ludmila Ulitzkaia

Ein glücklicher Zufall und andere Kindergeschichten

München, Carl Hanser Verlag, 2005

(Tradução e adaptação)

Ah-nuld, o macaco

Durante os últimos dez anos tenho orientado passeios ecológicos e de vida selvagem na Costa Rica. Embora tenha tido inúmeros encontros hilariantes com macacos, preguiças, jaguares e outros animais exóticos da floresta tropical, há uma viagem que se destaca entre todas —quando o nosso grupo teve o privilégio de testemunhar um acontecimento verdadeiramente extraordinário.

Nessa viagem em particular, o nosso grupo de entusiastas da vida selvagem incluía Jim e o seu filho adolescente Andy. Pai e filho não eram o que podemos chamar de clientes típicos. Jim era um antigo militar de modos austeros, nos seus cinquenta e muitos anos, que não falava muito, mas que parecia entrar frequentemente em confronto com o filho. Eu tinha pena de Andy, cujo entusiasmo pela aventura chocava com a carapaça dura e modos controladores de Jim. Uma vez, Jim chegou mesmo a ser rude com ele, puxando-o asperamente pelo braço quando Andy se deixou ficar para trás tentando apanhar uma rã venenosa de cor vermelha e azul. Ninguém proferiu palavra, mas quase todos os do grupo passaram a evitar Jim depois desse episódio.

Tentei passar um tempo extra com Andy. Ele confessou-me que estava morto por ver um jaguar. Então esgueirávamo-nos, tarde na noite, já depois de todos terem ido para a cama, para ir procurar rãs e outros animais noturnos. Era o nosso pequeno segredo.

Mais ou menos a meio da viagem, numa área remota do Parque Nacional do Corcovado, o nosso grupo encontrou um bandode vinte macacos capuchinho de cara branca e parámos para observar. Os capuchinhos de cara branca são frequentemente usados em filmes, porque são extremamente espertos e têm um comportamento muito semelhante ao dos humanos. Mas embora estes macacos sejam, por norma, bastante amistosos e sociáveis, este bando incluía um macho alfa, que era invulgarmente agressivo. Era muito territorial e até ao final da tarde já tínhamos presenciado várias escaramuças violentas. Quando algum dos outros macacos se aproximava demasiado, ele corria em direção aos outros arreganhando os dentes, chegando mesmo a embater contra eles. Pusemos-lhe a alcunha de Ah-nuld, em homenagem a Arnold Schwarzenegger.

Mantendo uma distância respeitosa, seguimos o bando de macacos à medida que eles iam pilhando através da floresta, parando ocasionalmente para se regalar com figos maduros que pendiam de algumas árvores. Na retaguarda do bando encontrava-se um macaquinho bastante jovem, que não teria mais de 1 metro de altura, cuja mãe andava já a ensinar-lhe como trepar aos ramos e seguir os outros. De quando em quando, a mãe conseguia levá-lo do tronco de uma árvore mais larga até um ramo mais afastado. Isto era o mais difícil de fazer para o macaquinho. Parava, choramingava, recuava e avançava, analisando qualquer outra opção antes de finalmente dar o salto para além do tronco. O nosso grupo batia palmas entusiasticamente sempre que ele conseguia.

Depois de algum tempo, o macaquinho começou a ficar cansado e a deixar-se ficar para trás. Quanto mais afastado ficava, mais alto ele choramingava e gemia, para conseguir a atenção da mãe. Esta parava e esperava por ele, mas nunca voltou para trás. Finalmente, o macaquinho bebé chegou a uma árvore grande, que era demasiado larga para ele conseguir ultrapassar. O seu choro tornou-se cada vez mais alto até que, por fim, a mãe recuou uns passos e permitiu que ele usasse as suas costas como uma espécie de ponte. Uma vez a salvo o filhote, ela continuou na retaguarda do bando, com o pequeno macaco cansado, ainda a choramingar, agarrado fortemente às suas costas.

Mas o choro continuou, cada vez mais alto e irritante, até que despertou a atenção do macho alfa que liderava o bando —o terrífico Ah-nuld. Arreganhando os dentes e silvando furiosamente, o grande macho dirigiu-se para a mãe e a cria, deitando fogo pelos olhos. Aquela assumiu uma postura defensiva e emitiu um forte rosnado. Todos nós suspendemos a respiração, sem saber o que Ah-nuld iria fazer, mas esperando o pior.

Quando Ah-nuld se abeirou de mãe e do filhote, a sua face suavizou-se. Olhou diretamente para o macaquinho bebé, como se o visse pela primeira vez. De seguida, Ah-nuld acercou-se da cria aterrorizada, tomou delicadamente a minúscula cara do bebé entre as mãos e depositou-lhe um beijo na testa. O bebé parou de chorar imediatamente. Ah-nuld ficou ali, embalando suavemente a cabeça do macaquinho, e afagando-lhe amorosamente o pelo com os dentes.

O nosso grupo deixou escapar um suspiro coletivo de alívio. Estávamos tão rendidos à ternura do momento que quase não nos apercebemos de Jim, o nosso Ah-nuld, a soluçar discretamente. Ninguém disse uma palavra, talvez por delicadeza, embora eu suspeite que, lá no fundo, todos nós ficámos felizes ao vê-lo amolecer um pouco. Sussurrando com entusiasmo, fizemos o percurso de regresso à cabana. Depois do jantar, sentei-me com Jim e alguns outros na varanda, a balançar nas redes e a escutar os sons da floresta tropical, tão lindos e variados como se de uma sinfonia se tratasse.

A paz foi quebrada quando Andy se dirigiu para o alpendre e Jim se esticou para agarrá-lo, segurando bruscamente o braço do rapaz. Andy ficou tenso. O coração caiu-me aos pés, pois estava à espera de outra luta entre os dois. Todos os olhares se fixaram ansiosamente no pai e no filho. Então Jim puxou Andy até ele, deu-lhe um abraço e disse “Estou tão feliz por estarmos a fazer esta viagem juntos! Sempre quis que tivesses uma experiência deste tipo. Andy, eu sei que muitas vezes nem te dás conta, mas eu amo-te.” Chocado, Andy olhou para o pai, como se fosse a primeira vez que o tinha ouvido dizer “Eu amo-te”. Mais tarde, viemos a saber que efetivamente assim era.

Josh Cohen

Jack Canfield; Mark Victor Hansen; Steve Zikman

Chicken soup for the nature lover’s soul

Florida, HCI, 2004

(Tradução e adaptação)

O tesouro do peregrino – conto marroquino

Ao início da manhã, a aldeia de In-Amènas não tinha ainda retomado as suas atividades habituais: alguns camponeses altivos, envoltos nos seus bournous (mantos de lã com capucho), falavam em voz alta, bebendo chá de menta.

Um grupo de homens em pé rodeava dois jogadores de dominó que dispunham lentamente as suas pedras numa pequena tábua oscilante. Um nómada que transportava vários feixes de raízes secas esperava pacientemente um eventual comprador… Os camelos, habituados ao grande erg (deserto de areia), e nervosos por se encontrarem num local fechado, rodeado de arcadas, soltavam roncos insuportáveis.

Nas casas baixas de paredes sem janelas, ouvia-se de vez em quando o barulho de um tear. Na parte inferior das pequenas lojas sombrias, os mercadores dormitavam de leque na mão. Numa pequena sala do andar térreo contígua à mesquita, o velho Taleb, com uma longa cana na mão, obrigava todas as crianças de cócoras diante de si a repetir versículos do Corão, e o ruído surdo das vozes roufenhas dos pequenos perdia-se nas ruas estreitas…

Mas eis que chega, pela porta norte da aldeia, um homem montado num camelo. Com imponência e lentidão, penetra pela poterna e para. O viajante afrouxa a rédea do animal e inclina a cabeça sobre o peito. De repente, veem-no cair na areia. Os que bebiam chá, os jogadores de damas, os mercadores e os artesãos, todos se precipitaram na direção do pobre que tentava falar…

Revirando os olhos, o que podia ser entendido como a angústia de um moribundo, o viajante sussurrou algumas palavras incompreensíveis, ao mesmo tempo que apontava, com uma mão trémula, para uma grande bolsa de couro que trazia presa à cintura. Em seguida, elevando um dedo para o céu, recitou a Fatiha (oração diária) … A cabeça voltou a pender sobre o ombro… Estava morto!

A multidão que, entretanto, se tinha aglomerado, estava imóvel. Quem seria ele? De onde viria? Para onde iria? Ninguém era capaz de responder. Prepararam o cadáver e enterraram-no, no dia seguinte, num pequeno cemitério situado bem longe das casas, por detrás das primeiras dunas.

Na sala do café, foi decidido fazer o inventário dos objetos que o desconhecido transportava no seu camelo e dos que se encontravam nele. Numa das bolsas, roupas; na outra, diversos objetos indispensáveis aos viajantes; mas, na grande bolsa de couro negro que trazia à cintura, descobriu-se, com estupefação, um tesouro! Colares, braceletes, diademas, anéis, fivelas, pedras preciosas e peças em ouro amontoavam-se na mesa do café…

 

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Toda a gente se entreolhou em silêncio, mas todos pensavam o mesmo: “Que vamos fazer com estas riquezas? Reparti-las? Distribuí-las pelos pobres?” Estava instalada a discussão e cada um, querendo que a sua opinião fosse adotada, protagonizava uma rápida subida do tom de voz. Não tardariam as escaramuças. Seria mais avisado pedir a opinião da djemaa, o conselho dos anciãos.

Sob a autoridade do imã da mesquita, os dez anciãos de In-Amènas reuniram-se no dia seguinte. Foi decidido vender o camelo e o conteúdo das duas grandes bolsas e dar o dinheiro apurado aos pobres. Sábia decisão que todos aplaudiram. E o tesouro? Após longa e cuidadosa reflexão, o imã sentenciou que o tesouro seria enterrado na sepultura do desconhecido.

Esquecida a deceção, pensou-se que, afinal, fora esta a decisão mais acertada. Esse tesouro teria, porventura, despoletado invejas, rancores, porque cada um pensaria, certamente, que os outros teriam sido mais favorecidos que ele próprio. O tesouro desconhecido voltaria ao nada. Um buraco muito profundo foi cavado ao pé do túmulo e aí foi lançado o saco.

 

♦♦♦♦♦

Passaram-se meses, passaram-se anos… A pequena aldeia de In-Amènas já tinha esquecido o incidente e retomado a sua vida normal. Os camponeses bebiam chá, outros jogavam dominó, os mercadores dormitavam e as crianças recitavam versículos do Corão… quando um dia, de repente, ecoaram imensos gritos que pareciam vir do cemitério… Quem podia gritar daquela maneira? Toda a gente correu na direção das sepulturas e, no sítio da do viajante desconhecido, viram o imã deitado ao pé da cova com os braços enterrados no buraco que havia escavado. Era ele que soltava aqueles gritos terríveis…

Os primeiros que chegaram puxaram-no pelos pés para o tirar daquela posição deplorável. Tempo perdido! As suas duas mãos estavam presas à bolsa de couro negro que parecia tão pesada como um rochedo de várias toneladas… Toda a gente compreendeu, então, que o imã tinha querido recuperar o tesouro e que se tinha ordenado que o enterrassem era para, mais tarde, o poder reaver…

Mas, no imediato, era necessário tirá-lo daquela posição miserável. Puxaram-no pelos braços, pelas pernas, pelo corpo… Em vão! Os mais caridosos construíram um pequeno abrigo de palmas sobre a cabeça do imã, evitando, assim, uma insolação. Só ao fim da tarde, vencido pela dor, é que o imã se sentiu obrigado a reconhecer a sua falta diante de toda a aldeia, que, entretanto, se tinha reunido à sua volta:

— Não passo de um ganancioso! Sou indigno da vossa confiança. O que fiz não tem perdão. Quis recuperar o tesouro e guardá-lo só para mim!

Mal acabou de proferir estas palavras, as mãos separaram-se da bolsa… Mas, quando se pôs de joelhos diante da sepultura, apenas tinha dois tocos queimados pelo fogo nas extremidades dos braços. Apressou-se a deixar a aldeia e foi esconder a sua vergonha numa das montanhas de Aïr.

Voltaram a tapar o buraco escavado pelo imã e todos tentaram esquecer o incidente.

♦♦♦♦♦

 

Contudo, seria possível esquecer que na sepultura do viajante havia um tesouro digno de um rei? Seria possível ignorar que esse ouro poderia transformar um pobre camponês num senhor ainda mais rico que um sultão?

Ali não pensava noutra coisa, e refletia sem cessar… Foi assim que arquitetou um plano que lhe permitiria, no seu entender, recuperar o saco sem lhe tocar… Ali era burriqueiro. Ganhava a vida a transportar, com o seu animal, pedras, areia ou legumes. Montado no dorso do burro, tinha muito tempo para pensar no desenrolar do seu plano. No entanto, decidiu esperar alguns anos, o tempo necessário para fazer cair no esquecimento o que se tinha passado.

Quando chegou o momento que lhe parecia mais propício, saiu de noite e dirigiu-se ao cemitério. Tirou uma das duas pedras presas na sepultura e, com a pá, cavou um buraco onde sabia que se encontrava a bolsa com o tesouro. De facto, descobriu a bolsa de couro com as duas mãos do imã enegrecidas ainda coladas a ela, uma de cada lado. Não tocou em nada e, sentado junto à sepultura, esperou o nascer do sol.

De manhã, viu caminhar na sua direção o pequeno Mohamed. Mohamed era demasiado jovem para ter ouvido falar da bolsa com o tesouro. Conduzia um burro e dirigia-se ao palmeiral. Ali levantou-se e pediu-lhe que tivesse a amabilidade de descer à cova a fim de reaver a bolsa que, inadvertidamente, lhe tinha caído.

Mohamed parou e olhou para a bolsa no fundo do buraco:

— Mas por que é que tu não a podes ir buscar?

— Porque fiquei com uma dor nas costas, ontem ao fim do dia, — respondeu Ali, agarrando-se aos rins e esboçando um esgar de dor — não me posso baixar.

— Nesse caso, segura o meu animal que eu vou buscar a tua bolsa.

Mohamed desceu à cova, pegou na bolsa e subiu. Não viu que as duas mãos do imã se soltaram e rolaram para o fundo do buraco.

— Toma a tua bolsa — disse.

Ali estava felicíssimo: a maldição deixara de existir! Aproximou-se, agradeceu a gentileza a Mohamed e pegou na bolsa. Mas, de repente, soltou gritos de dor. As suas duas mãos ficaram presas à bolsa de couro e Ali quase desmaiou… E a bolsa rolou para o fundo da cova, arrastando-o com ela! Uma fumaça espessa emanava do corpo, que se calcinava, espalhando um odor infeto. Mohamed estava aterrorizado e não compreendia o que se passava; tentou puxar o seu companheiro pelos pés, mas depressa desistiu.

Alertados pelos gritos inumanos do ladrão, os habitantes da aldeia reuniram-se de novo à volta da sepultura… Os mais velhos sabiam muito bem o que estava a acontecer e pediram a Ali para reconhecer rapidamente a sua falta.

— Perdoai-me. Quis roubar o tesouro do viajante. Sou um ser indigno!

Nesse preciso momento, as mãos do ladrão separaram-se dos braços e permaneceram coladas à sacola. Quando se levantou, verificou que apenas tinha nas extremidades dos braços dois cotos enegrecidos pelo fogo do inferno. Apenas lhe restava fugir da aldeia se não quisesse ouvir as reprimendas dos amigos.

Mas a lenda não acaba aqui… Os anciãos da aldeia de In-Amènas reuniram-se e decidiram fazer desaparecer para sempre a bolsa que já tinha provocado tanta dor! Pediram, então, a Mohamed, para pegar nela – ele que nunca tinha pensado em roubar podia pegar-lhe sem dificuldade – e imploraram-lhe que a escondesse na montanha. Foi o que fez… e, logo que voltou à aldeia, ninguém lhe perguntou nada.

 

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Pois bem, amigos, estão avisados: se, um dia, encontrarem numa gruta da montanha de Tassili N’Ajjer uma bolsa de couro negro, não toquem nela! Sabem bem o risco que correm!

Os anciãos de In-Amènas que contam esta lenda acrescentam para concluir: “A bolsa do tesouro é o que tu desejas. As mãos queimadas são os remorsos que te farão sofrer se pegares no que não te pertence. E o jovem Mohamed, que pode tocar na bolsa sem se ferir, é a felicidade prometida àquele que não tem maus pensamentos. No entanto, a bolsa escondida na montanha é também a esperança de nos tornarmos ricos um dia, mas na condição de sermos tão puros como o pequeno Mohamed! Parece não haver muita esperança para nós… mas, quem sabe? …”

André Voisin

Contes traditionnels du désert

Toulouse, Ed. Milan, 2002

(Tradução e adaptação)

 

 

 

O olhar do professor – Rubem Alves

Walt Whitman conta o que sentiu quando, menino, foi para a escola:

 

Ao começar os meus estudos, agradou-me tanto o passo inicial, a simples consciencialização dos factos, as formas, o poder do movimento, o mais pequeno insecto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor – o passo inicial, torno a dizer, assustou-me tanto, agradou-me tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali a vaguear o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados.

Nietzsche disse que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É a primeira tarefa porque é através dos olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contacto com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm que ser educados para que a nossa alegria aumente.

Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didáctica – mas, por mais que me esforce, não me consigo lembrar de qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar na educação.

Por isso, lhe digo: Professor: trate de prestar atenção ao seu olhar. Ele é mais importante que os seus planos de aula. O olhar tem o poder de despertar ou, pelo contrário, de intimidar a inteligência. O seu olhar tem um poder mágico!

O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar. Ela continua lá, mas recusa-se a partir para a aventura de aprender. A criança de olhar amedrontado e vazio, de olhar distraído e perdido. Ela não aprende. Os psicólogos apressam-se em diagnosticar alguma perturbação cognitiva. Chamam os pais. Aconselham-nos a mandá-la para uma terapia. Pode até ser. Mas uma outra hipótese tem que ser levantada: que a inteligência dessa criança – que parece incapaz de aprender –, tenha sido petrificada pelo olhar do professor.

Por isso lhe digo, professor: cuide dos seus olhos…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

O homem deve reencontrar o Paraíso… – Rubem Alves

Era uma família grande, todos amigos. Viviam como todos nós: moscas presas na enorme teia de aranha que é a vida da cidade. Todos os dias a aranha lhes arrancava um pedaço. Ficaram cansados. Resolveram mudar de vida: um sonho louco: navegar! Um barco, o mar, o céu, as estrelas, os horizontes sem fim: liberdade. Venderam o que tinham, compraram um barco capaz de atravessar mares e sobreviver a tempestades.

Mas para navegar não basta sonhar. É preciso saber. São muitos os saberes necessários para se navegar. Puseram-se então a estudar cada um aquilo que teria de fazer no barco: manutenção do casco, instrumentos de navegação, astronomia, meteorologia, as velas, as cordas, as polias e roldanas, os mastros, o leme, os parafusos, o motor, o radar, o rádio, as ligações eléctricas, os mares, os mapas…

Disse certo poeta: Navegar é preciso. A ciência da navegação é um saber preciso, exige aparelhos, números e medições. Os barcos fazem-se com precisão, a astronomia aprende-se com o rigor da geometria, as velas fazem-se com saberes exactos sobre tecidos, cordas e ventos, os instrumentos de navegação não informam mais ou menos. Assim, eles tornaram-se cientistas, especialistas, cada um na sua – juntos para navegar.

Chegou então o momento da grande decisão – para onde navegar. Um sugeria as geleiras do sul do Chile, outro os canais dos fiordes da Noruega, um outro queria conhecer os exóticos mares e praias das ilhas do Pacífico, e houve mesmo quem quisesse navegar nas rotas de Colombo. E foi então que compreenderam que, quando o assunto era a escolha do destino, as ciências que conheciam de nada serviam.

De nada valiam os números, as tabelas, os gráficos, as estatísticas. Os computadores, coitados, chamados a dar o seu palpite, ficaram em silêncio. Os computadores não têm preferências – falta-lhes essa subtil capacidade de gostar, que é a essência da vida humana. Inquiridos sobre o porto de sua escolha, disseram que não entendiam a pergunta, que não lhes importava para onde se estava a ir.

Se os barcos se fazem com ciência, a navegação faz-se com os sonhos. Infelizmente a ciência, utilíssima, especialista em saber como as coisas funcionam, tudo ignora sobre o coração humano. É preciso sonhar para se decidir sobre o destino da navegação. Mas o coração humano, lugar dos sonhos, ao contrário da ciência, é coisa imprecisa. Disse certo poeta: Viver não é preciso. Primeiro vem o impreciso desejo. Primeiro vem o impreciso desejo de navegar. Só depois vem a precisa ciência de navegar.

Naus e navegação têm sido uma das mais poderosas imagens na mente dos poetas. Ezra Pound inicia os seus Cânticos dizendo: E pois com a nau no mar/assestamos a quilha contra as vagas… Cecília Meireles: Foi, desde sempre, o mar! A solidez da terra, monótona/parece-nos fraca ilusão! Queremos a ilusão do grande mar/ multiplicada em suas malhas de perigo. E Nietzsche: Amareis a terra de vossos filhos, terra não descoberta, no mar mais distante. Que as vossas velas não se cansem de procurar esta terra! O nosso leme nos conduz para a terra dos nossos filhos…Viver é navegar no mar alto!

Não só os poetas. C. Wright Mills, um sociólogo sábio, comparou a nossa civilização a uma galera que navega pelos mares. Nos porões estão os remadores. Remam com precisão cada vez maior. A cada novo dia recebem remos novos, mais perfeitos. O ritmo das remadas acelera. Sabem tudo sobre a ciência do remar. A galera navega cada vez mais rápido. Mas, inquiridos sobre o porto do destino, respondem os remadores: O porto não nos importa. O que importa é a velocidade com que navegamos

C. Wright Mills usou esta metáfora para descrever a nossa civilização por meio duma imagem plástica: multiplicam-se os meios técnicos e científicos ao nosso dispor, que fazem com que as mudanças sejam cada vez mais rápidas; mas não temos ideia alguma de para onde navegamos. Para onde? Somente um navegador louco ou perdido navegaria sem ter ideia do para onde. Em relação à vida da sociedade, ela contém a busca de uma utopia. Utopia, na linguagem comum, é usada como sonho impossível de ser realizado. Mas não é isso. Utopia é um ponto inatingível que indica uma direcção.

Mário Quintana explicou a utopia com um verso: Se as coisas são inatingíveis… ora!/Não é motivo para não querê-las…Que tristes os caminhos, se não fora/A mágica presença das estrelas! Karl Mannheim, outro sociólogo sábio que poucos lêem, já na década de 1920 diagnosticava a doença da nossa civilização: Não temos consciência de direcções, não escolhemos direcções. Faltam-nos estrelas que nos indiquem o destino.

Hoje, dizia ele, as únicas perguntas que são feitas, determinadas pelo pragmatismo da tecnologia (o importante é produzir o objecto) e pelo objectivismo da ciência (o importante é saber como funciona), são: Como posso fazer tal coisa? Como posso resolver este problema concreto particular? E conclui: E em todas essas perguntas sentimos o eco optimista: não preciso de me preocupar com o todo, ele tomará conta de si mesmo.

Nas nossas escolas é isso que se ensina: a precisa ciência da navegação, sem que os estudantes sejam levados a sonhar com as estrelas. A nau navega veloz e sem rumo. Nas universidades, essa doença assume a forma de peste epidémica: cada especialista dedica-se, com paixão e competência, a fazer pesquisas sobre o seu parafuso, a sua polia, a sua vela, o seu mastro.

Dizem que o seu dever é produzir conhecimento. Se forem bem sucedidas, as suas pesquisas serão publicadas em revistas internacionais. Quando se lhes pergunta: Para onde está o seu barco a navegar?, eles respondem: Isso não é científico. Os sonhos não são objecto de conhecimento científico...

E assim ficam os homens comuns abandonados por aqueles que, por conhecerem mares e estrelas, lhes poderiam mostrar o rumo. Não posso pensar a missão das escolas, começando com as crianças e continuando com os cientistas, como outra que não a da realização do dito do poeta: Navegar é preciso. Viver não é preciso.

É necessário ensinar os precisos saberes da navegação enquanto ciência. Mas é necessário apontar com imprecisos sinais para os destinos da navegação: a terra dos filhos dos meus filhos, no mar distante… Na verdade, a ordem verdadeira é a inversa. Primeiro, os homens sonham com navegar. Depois aprendem a ciência da navegação. É inútil ensinar a ciência da navegação a quem mora nas montanhas…

O meu sonho para a educação foi dito por Bachelard: O universo tem um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso. O paraíso é jardim, lugar de felicidade, prazeres e alegrias para os homens e mulheres. Mas há um pesadelo que me atormenta: o deserto. Houve um momento em que se viu, por entre as estrelas, um brilho chamado progresso. A galera navega em direcção ao progresso, a uma velocidade cada vez maior, e ninguém questiona a direcção. E é assim que as florestas são destruídas, os rios se transformam em esgotos de fezes e veneno, o ar se enche de gases, os campos se cobrem de lixo – e tudo ficou feio e triste.

Sugiro aos educadores que pensem menos nas tecnologias do ensino – psicologias e quinquilharias – e tratem de sonhar, com os seus alunos, sonhos de um Paraíso.

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

 

 

O canto do galo – Rubem Alves

O meu pensamento é um devorador de imagens. Quando me aparece uma boa imagem eu rio de felicidade e o meu pensador põe-se a brincar com ela como um menino brinca com uma bola. Se me disserem que este hábito intelectual não é próprio de um filósofo, que os filósofos devem manter-se dentro dos limites de uma dieta austera de conceitos puros e sem temperos, invoco em minha defesa Albert Camus, que dizia que só se pensa através de imagens.

Amo as imagens mas elas amedrontam-me. As imagens são entidades incontroláveis que frequentemente produzem associações que o autor não autorizou. Os conceitos, ao contrário, são bem comportados, pássaros engaiolados. As imagens são pássaros em voo… Daí o seu fascínio e o seu perigo. Mas eu não consigo resistir à tentação. Assim, aqui vai uma parábola que me apareceu, com todos os riscos que ela implica:

Era uma vez um lavrador que criava galinhas. Era um lavrador fora do comum, intelectual e progressista. Estudou administração para que a sua quinta funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutoramento em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado. Aplicado à criação de galinhas esse princípio traduz-se assim: galinha que não põe ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total da sua quinta, o lavrador estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos postos pela unidade de tempo escolhida. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na quinta como galinhas poedeiras.

Estabeleceu, inclusive, um sistema de mérito galináceo: as galinhas que punham mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que punham menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, acto contínuo, subiam para as costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a agacharem-se. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o lavrador que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da quinta, nenhum deles tinha posto.

Lembrou-se o lavrador, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha. As galinhas continuaram a pôr ovos como sempre haviam posto: os números escritos nos relatórios não deixavam margens para dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, quebravam-se e de dentro deles saíam pintainhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintainhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Então o lavrador científico aprendeu duas coisas:

1º: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.

2º: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.

 

Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer aquele que ensina. Mas o ensino é, precisamente, uma actividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correcta é pesquisadores, isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.

Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta pôr ovos. É preciso pô-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

Como resultado da pressão publish or perish, ponha ovos ou a sua cabeça será cortada, a docência acaba por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de pôr ovos, são obrigados, pela presença de alunos, a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: o ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem orientar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objectivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, a sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar, porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam os ovos postos.

Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que nelas trabalham, dêem mais atenção ao canto do galo…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

Jardins – Rubem Alves

Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. Descobri que os livros eram um tapete mágico que me levava instantaneamente a viajar pelo mundo… Lendo, eu deixava de ser o menino pobre que era e tornava-me um outro. Vejo-me sentado no chão, num dos quartos do sótão do meu avô. Via figuras. Era um livro, folhas de tecido vermelho. Nas suas páginas alguém colara gravuras, recortadas de revistas. Não sei quem o fez. Só sei que quem o fez amava as crianças. Eu passava horas a ver as figuras e nunca me cansava de as ver. Um outro livro que me encantava era o Jeca Tatu, do Monteiro Lobato. Começava assim: “Jeca Tatu era um pobre caboclo…”. De tanto ouvir a estória lida para mim, acabei por sabê-lo de cor. “De cor”: no coração. Aquilo que o coração ama não é jamais esquecido. E eu “lia-o” para a minha tia Mema, que estava doente, presa numa cadeira de baloiço. Ela ria com o seu sorriso suave, ouvindo a minha leitura.

Um outro livro que eu amava pertencera à minha mãe quando era criança. Era um livro muito velho. Façam as contas: a minha mãe nasceu em 1896… Na capa havia um menino e uma menina que brincavam com o globo terrestre. Era um livro que me fazia viajar por países e povos distantes e estranhos. Gravuras apenas. Esquimós, com as suas roupas de couro, dando tiros para o ar, saudando o fim do seu longo inverno. Em baixo, a explicação: “Onde os esquimós vivem, a noite é muito longa; dura seis meses”. Um crocodilo, boca enorme aberta, com os seus dentes pontiagudos, e um negro a arrastar-se na sua direcção, tendo na mão direita um pau com duas pontas afiadas. O que ele queria era introduzir o pau na boca do crocodilo, sem que ele se desse conta. Quando o crocodilo fechasse a boca estaria fisgado e haveria festa e comedoria!

Na gravura dedicada aos Estados Unidos havia um edifício, com a explicação assombrosa: “Nos Estados Unidos há casas com dez andares…”. Mas a gravura que mais mexia comigo representava um menino e uma menina a brincar, querendo fazer um jardim. Na verdade, era mais que um jardim. Era um minicenário. Haviam feito montanhas de terra e pedra. Entre as montanhas, um lago cuja água, transbordando, transformava-se num riachinho. E, nas suas margens, o menino e a menina haviam plantado uma floresta de pequenas plantas e musgos. A menina enchia o lago com um regador. Eu não me contentava em ver o jardim: largava o livro e ia para a horta, com a ideia de plantar um jardim parecido. E assim passava toda uma tarde, fazendo o meu jardim e usando galhos de hortelã como as árvores da floresta… Onde foi parar o livro da minha mãe? Não sei. Também não importa. Ele continua aberto dentro de mim.

Bachelard refere-se aos “sonhos fundamentais” da alma. “Sonhos fundamentais”: o que é isso? É simples. Há sonhos que nascem dos eventos fortuitos, peculiares a cada pessoa. Esses sonhos são só delas: sonhos acidentais, individuais. Mas há certos sonhos que moram na alma de todas as pessoas. Jung deu a esses sonhos universais o nome de “arquétipos”. Esses são os sonhos fundamentais. O facto de termos, todos, os mesmos sonhos fundamentais, cria a possibilidade de “comunhão”. Ao compartilhar os mesmos sonhos descobrimo-nos irmãos. Um desses sonhos fundamentais é o de um “jardim”.

Faz de conta que a tua alma é um útero. Ela está grávida. Dentro dela há um feto que quer nascer. Esse feto que quer nascer é o seu sonho. Quem engravidou a tua alma, isso eu não sei. Acho que foi um ser de outro mundo… Imagino que o tal “Big-Bang” a que se referem os astrónomos foi Deus a soltar o seu grande sonho e a lançar pelo vazio milhões, biliões, triliões de sementes. Em cada uma delas estava o sonho fundamental de Deus: um jardim, um paraíso… Assim, a nossa alma foi engravidada pelo sonho fundamental de Deus… Mas toda a semente quer brotar, todo o feto quer nascer, todo o sonho se quer realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados transformam-se em demónios dentro da alma. E ficam a atormentar-nos. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações – uma vez por outra elas tomam conta de nós – aposto que são o sonho de um jardim que está dentro de cada um e que não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins…

Quando eu era menino, os jardins eram o lugar da minha maior felicidade. Dentro da casa, os adultos estavam sempre a vigiar-me: “Não mexas aí, não faças isso, não faças aquilo…”. O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a vigiar-se. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá, eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. As árvores eram as minhas melhores amigas. A pitangueira, com seus frutinhos sem vergonha. O meu primeiro furto foi o furto de uma pitanga: “furto” – “fruto” – é só trocar uma letra… Até inventei uma maquineta de roubar pitangas…

Havia uma jabuticabeira que eu considerava minha, em especial. Fiz um rego à sua volta para que ela bebesse água todo dia. Jabuticabeiras regadas sempre florescem e frutificam várias vezes por ano. Na ocasião das flores era uma festa. O perfume das suas flores brancas é inesquecível. E vinham milhares de abelhas. No pé de uma nêspera fiz um baloiço. Já disse que balançar é o melhor remédio para depressão. Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancés para as crianças pequenas. Devia haver baloiços para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, a balançarem? Sorriem? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O vosso sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e sinto-me rejuvenescer a baloiçar até tocar com a ponta do pé na folha do caquizeiro onde o meu baloiço está amarrado!

Crescido, os jardins começaram a ter para mim um sentido poético e espiritual. Percebi que a Bíblia Sagrada é um livro construído em torno de um jardim. Deus cansou-se da imensidão dos céus e sonhou… Sonhou com um… jardim. Se ele – ou ela – estivesse feliz lá no céu, ele ou ela não se teria dado ao trabalho de plantar um jardim. A gente só cria quando aquilo que se tem não corresponde ao sonho. Todo o acto de criação tem por objectivo realizar um sonho. E quando o sonho se realiza, vem a experiência da alegria. No Génesis está escrito que, ao terminar o seu trabalho, Deus viu que tudo “era muito bom”. O mais alto sonho de Deus é um jardim. Essa é a razão por que no Paraíso não havia templos e altares. Para quê? “Deus andava pelo meio do jardim…”. Gostaria de saber quem foi a pessoa que teve a ideia de que Deus mora dentro de quatro paredes! Uma coisa eu garanto: não foi ideia dele. Seria bonito se as religiões, em vez de gastarem dinheiro construindo templos e catedrais, usassem esse mesmo dinheiro para fazer jardins onde, evidentemente, crianças, adultos e velhos poderiam balançar e tocar com os pés nas folhas das árvores.

Ninguém jamais viu Deus. Um jardim é o seu rosto sorridente… E se vocês lerem as visões dos profetas, verão que o Messias é jardineiro: vai plantar de novo o Paraíso, e nele voltarão a nascer regatos nos desertos, nos lugares ermos crescerão a murta (perfumada!), as oliveiras, as videiras, as figueiras, os pés de romã, as palmeiras… E lá, à sombra das árvores, acontecerá o amor… Leia o livro do “Cântico dos Cânticos”! Pensei, então, que o acto de plantar uma árvore é um anúncio de esperança. Especialmente se for uma árvore de crescimento lento. E isso porque, sendo lento o seu crescimento, eu a plantarei sabendo que nem vou comer dos seus frutos, nem me vou sentar à sua sombra… Vou plantá-la pensando naqueles que comerão os seus frutos e se sentarão à sua sombra. E isso bastará para me trazer felicidade!

Rubem Alves

Mansamente pastam as ovelhas…

São Paulo, Papirus Editora, 2002

(excertos adaptados)

Gaiolas e asas – Rubem Alves

Os pensamentos chegam-me de um modo inesperado, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que, frequentemente, também Lichtenberg, William Blake e Nietzsche eram atacados por eles. Digo atacados porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Os aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, este aforismo atacou-me: Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controlo. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados têm sempre um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri, conversando com professores em escolas. O que eles contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E eles, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e os domadores com os seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que os fecha com os tigres. Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes? Ou serão as escolas que são violentas?

As escolas serão gaiolas? Vão falar-me da necessidade das escolas dizendo que os adolescentes precisam de ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: as nossas escolas estão a dar uma boa educação? O que é uma boa educação? O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ficam com uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Sabe o que é um “dígrafo”? E conhece os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual é a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professores, também engaiolados… São obrigados a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é um hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata a sua experiência com as escolas: Fui forçado (!) a estudar o que os professores decidiam que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira.

 O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que a inteligência era a ferramenta e o brinquedo do corpo, Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender ferramentas, aprender brinquedos. As ferramentas são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. Os brinquedos são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.

Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. As ferramentas permitem-me voar pelos caminhos do mundo. Os brinquedos permitem-me voar pelos caminhos da alma. Quem está a aprender ferramentas e brinquedos está a aprender liberdade, não fica violento. Fica alegre, ao ver as asas crescer… Assim todo o professor, ao ensinar, deveria perguntar-se: Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo? Se não for, é melhor pôr de parte. As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se as escolas são gaiolas ou asas.

Mas eu sei que há professores que amam o voo dos seus alunos.

Há esperança…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

E uma criança guiá-los-á… – Rubem Alves

A fotografia é simples: duas mãos dadas, uma mão segurando a outra. Uma delas é grande, a outra é pequena, rechonchuda. Isso é tudo. Mas a imaginação não se contenta com o fragmento – completa o quadro: é um pai que passeia com o seu filhinho. O pai, adulto, segura com firmeza e ternura a mãozinha da criança: a mãozinha do filho é muito pequena, termina no meio da palma da mão do pai. O pai vai conduzindo o filho, indicando o caminho, vai apontando para as coisas, mostrando como elas são interessantes, bonitas, engraçadas. O menino vai sendo apresentado ao mundo.

É assim que as coisas acontecem: os grandes ensinam, os pequenos aprendem. As crianças nada sabem sobre o mundo. Também, pudera! Nunca estiveram aqui. Tudo é novidade. Alberto Caeiro tem um poema sobre o Olhar (dele), que ele diz ser igual ao de uma criança:

O meu olhar é nítido como um girassol. (. . .)

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo.

 

O olhar das crianças é de espanto! Vêem o que nunca tinham visto! Não sabem o nome das coisas. O pai vai dando os nomes. Aprendendo os nomes, as coisas estranhas vão ficando conhecidas e amigas. Transformam-se num rebanho manso de ovelhas que respondem quando são chamadas. Quem sabe as coisas são os adultos. Conhecem o mundo. Não nasceram a saber. Tiveram de aprender. Houve um tempo em que a mãozinha rechonchuda era deles. Um outro, de mão grande, os conduziu. O mais difícil foi aprender quando não havia ninguém que ensinasse. Tiveram de tactear através do desconhecido. Erraram muitas vezes. Foi assim que as rotas e os caminhos foram descobertos. Já imaginaram os milhares de anos que tiveram de se passar até que os homens aprendessem que certas ervas têm poderes de cura? Quantas pessoas tiveram de morrer de frio até que os esquimós descobrissem que era possível fabricar casas quentes com o gelo! E as comidas que comemos, os pratos que nos dão prazer! Por detrás deles há milénios de experiências, acidentes felizes, fracassos! Vejam o fósforo, essa coisa insignificante e mágica: esfrega-se e eis o milagre: o fogo na ponta de um pauzinho. Eu gostaria, um dia, de dar um curso sobre a história do fósforo. Na sua história há uma enormidade de experiências e de pensamentos.

Ensinar é um acto de amor. Se as gerações mais velhas não transmitissem o seu conhecimento às gerações mais novas, nós ainda estaríamos na condição dos homens pré-‑históricos. Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam os seus mapas e ferramentas! Assim, as crianças não precisam de começar da estaca zero. Ensinam-se os saberes para poupar àqueles que não sabem o tempo e o cansaço do pensamento: saber para não pensar. Não preciso de pensar para riscar um fósforo. Os grandes sabem. As crianças não sabem. Os grandes ensinam. As crianças aprendem.

Está resumido na fotografia: o da mão grande conduz o da mãozinha pequena. Esse é o sentido etimológico da palavra pedagogo: aquele que conduz as crianças. Educar é transmitir conhecimentos. O seu objectivo é fazer com que as crianças deixem de ser crianças. Ser criança é ignorar, nada saber, estar perdido. Toda a criança está perdida no mundo. A educação existe para que chegue um momento em que ela não esteja mais perdida: a mãozinha de criança tem de se transformar na mãozona de um adulto que não precisa de ser conduzido: ele conduz-se, ele sabe os caminhos, ele sabe como fazer. A educação é um progressivo despedir-se da infância.

A pedagogia do meu querido amigo Paulo Freire amaldiçoava aquilo que se denomina ensino bancário – os adultos vão depositando saberes na cabeça das crianças da mesma forma como depositamos dinheiro num banco. Mas parece-me que é assim mesmo que acontece com os saberes fundamentais: os adultos simplesmente dizem como as coisas são, como as coisas são feitas. Sem razões e explicações. É assim que os adultos ensinam as crianças a andar, a falar, a dar um laço no cordão do sapato, a tomar banho, a descascar laranja, a nadar, a assobiar, a andar de bicicleta, a acender o fósforo. Tentar criar consciência crítica para essas coisas é tolice. O adulto mostra como se faz. A criança faz do mesmo jeito. Imita. Repete. Mesmo as pedagogias mais generosas, mais cheias de amor e ternura pelas crianças, trabalham sobre esses pressupostos. Se as crianças precisam de ser conduzidas é porque elas não sabem o caminho. Quando tiverem aprendido os caminhos andarão por conta própria. Serão adultos. Toda a gente sabe que as coisas são assim: as crianças nada sabem, quem sabe são os adultos. Depreende-se, então, logicamente, que as crianças são os alunos e os adultos são os professores. A diferença entre quem sabe e quem não sabe. Dizer o contrário é puro nonsense. Porque o contrário seria dizer que as crianças devem ensinar os adultos. Mas, nesse caso, as crianças teriam um saber que os adultos não têm. Se já tiveram, perderam-no… Mas quem levaria a sério tal hipótese?

Pois o Natal é essa absurda inversão pedagógica: os grandes aprendendo com os pequenos. Um profeta do Antigo Testamento, certamente sem entender o que escrevia – os profetas nunca sabem o que estão a dizer –, resumiu essa pedagogia invertida numa frase curta e maravilhosa:… E uma criança guiá-los-á (Isaías 11.6). Se colocarmos este mote ao pé da fotografia tudo fica ao contrário: é a criança que vai mostrando o caminho. O adulto vai sendo conduzido: olhos arregalados, bem abertos, vendo coisas que nunca viu. São as crianças que vêem as coisas – porque elas vêem-nas sempre pela primeira vez com espanto, com assombro, surpreendidas de que elas sejam como são. Os adultos, de tanto as verem, já não as vêem mais. As coisas – as mais maravilhosas – permanecem banais. Ser adulto é ser cego.

Os filósofos, cientistas e educadores acreditam que as coisas vão ficando cada vez mais claras à medida que o conhecimento cresce. O conhecimento é a luz que nos faz ver. Os sábios sabem o oposto: existe uma progressiva cegueira das coisas à medida que o seu conhecimento cresce. Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la. Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez. As crianças fazem-nos ver a eterna novidade do mundo. (Fernando Pessoa). .

Japucz Korczak, um dos grandes educadores do século XX – que foi (porque não as queria deixar) com as crianças da sua escola para a câmara de gás de um campo de concentração nazi –, deu a um dos seus livros o título: Quando eu voltar a ser criança. Ele sabia das coisas. Era sábio. Lição de psicanálise: os cientistas e os filósofos vêem o lado direito. Os sábios vêem o avesso. O avesso é este: os adultos são os alunos; as crianças são os mestres. Por isso os magos, sábios, deram por encerrada a sua jornada ao encontrarem um menino numa estrebaria…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas.

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

Caro professor – Rubem Alves

Caro professor: compreendo a sua situação. Foi contratado para ensinar uma disciplina e ganha para isso. A escolha do programa não foi sua. Foi imposta. Veio de cima. Talvez tenha ideias diferentes. Mas isso é irrelevante. Tem de ensinar o que lhe foi ordenado. Será julgado pelos resultados do seu ensino – e disso depende o seu emprego. A avaliação do seu trabalho faz-se por meio da avaliação do desempenho dos seus alunos. Se, de uma forma sistemática, os seus alunos não aprenderem, é porque não tem competência.

O processo de avaliação dos alunos é curioso. Imagine uma pessoa que conheça uma série de ferramentas, a forma como são feitas, a forma como funcionam – mas não saiba para que servem. Os saberes que se ensinam nas escolas são ferramentas. Frequentemente os alunos dominam abstractamente os saberes, sem entretanto conhecerem a sua relação com a vida.

Como aconteceu com aquela assistente de bordo a quem perguntei o nome de um rio perto de Londrina, no norte do Paraná. Ela respondeu-me: Acho que é o São Francisco. Apanhei um susto. Pensei que tinha apanhado o voo errado e que estava a chegar ao norte de Minas… Garanto que, numa prova, a rapariga responderia certo. No mapa saberia onde se encontra São Francisco. Mas não aprendera a relação entre o símbolo e a realidade.

É possível que os alunos acumulem montanhas de conhecimentos que os levarão a passar nos exames, sem saber para que servem. Como acontece com os “vasos comunicantes” que qualquer pedreiro sabe para que servem sem, entretanto, conhecerem o seu nome. O pedreiro seria reprovado na avaliação escolar, mas construiria a casa no nível certo. Mas você não é culpado. Você é contratado para ensinar a disciplina.

Cada professor ensina uma disciplina diferente: Física, Química, Matemática, Geografia, etc. Isso é parte da tendência que dominou o desenvolvimento da ciência: especialização, fragmentação. A ciência não conhece o todo, conhece as partes. Essa tendência teve consequências para a prática da medicina: o corpo como uma máquina formada por partes isoladas. Mas o corpo não é uma máquina formada por partes isoladas.

Às vezes, as escolas fazem-me lembrar o Vaticano. O Vaticano, 400 anos depois, penitenciou-se sobre Galileu e está prestes a fazer as pazes com Darwin. Os currículos, só agora, muito depois da hora, estão a começar a falar de “interdisciplinaridade”. “Interdisciplinaridade” é isto: uma maçã é, ao mesmo tempo, uma realidade matemática, física, química, biológica, alimentar, estética, cultural, mitológica, económica, geográfica, erótica…

Mas o facto é que você é o professor de uma disciplina específica. Ano após ano, hora após hora, ensina aquela disciplina. Mas, como ser de dever, tem de fazer de forma competente aquilo que lhe foi ordenado. A fim de sobreviver, faz o que deve fazer para passar na avaliação. A disciplina é o deus a quem você e os alunos se devem submeter. O pressuposto desse procedimento é que o saber é sempre uma coisa boa e que, mais cedo ou mais tarde, fará sentido.

São sobretudo os adolescentes que, movidos pela inteligência da contestação, perguntam sobre o sentido daquilo que têm de aprender. Mas frequentemente os professores não sabem dar respostas convincentes. Para quê aprender o uso dessa ferramenta complicadíssima se não sei para que serve e não vou usá-la? A única resposta é: Tens de aprender porque sai no exame – resposta que não convence por não ser inteligente mas simplesmente autoritária.

O que está pressuposto, nos nossos currículos, é que o saber é sempre bom. Isso talvez seja abstractamente verdade. Mas, nesse caso, teríamos de aprender tudo o que há para ser aprendido – o que é tarefa impossível. Quem acumula muito saber só prova um ponto: que é um idiota de memória boa. Não faz sentido aprender a arte de escalar montanhas nos desertos, nem a arte de fazer iglos nos trópicos. Abstractamente, todos os saberes podem ser úteis. Mas, na vida, a utilidade dos saberes subordina-se às exigências práticas do viver. Como diz Cecília Meireles: O mar é longo, a vida é curta.

Eu penso a educação ao contrário. Não começo com os saberes. Começo com a criança. Não julgo as crianças em função dos saberes. Julgo os saberes em função das crianças. É isso que distingue um educador. Os educadores olham primeiro para o aluno e depois para as disciplinas a serem ensinadas. Os educadores não estão ao serviço de saberes. Estão ao serviço de seres humanos – crianças, adultos, velhos. Dizia Nietzsche: Aquele que é um mestre, realmente um mestre, leva as coisas a sério – inclusive ele mesmo – somente em relação aos seus alunos. (Nietzsche, Além do bem e do mal).

Eu penso por meio de metáforas. As minhas ideias nascem da poesia. Descobri que o que penso sobre a educação está resumido num verso célebre de Fernando Pessoa: Navegar é preciso. Viver não é preciso.

Navegação é ciência, conhecimento rigoroso. Para navegar, são necessários barcos. E os barcos fazem-se com ciência, física, números, técnica. A própria navegação se faz com ciência: mapas, bússolas, coordenadas, meteorologia. Para a ciência da navegação é necessária a inteligência instrumental, que decifra o segredo dos meios. Barcos, remos, velas e bússolas são meios.

Já o viver não é coisa precisa. Nunca se sabe ao certo. A vida não se faz com ciência. Faz-se com sapiência. É possível ter a ciência da construção de barcos e, ao mesmo tempo, o terror de navegar. A ciência da navegação não nos dá o fascínio dos mares e os sonhos de portos onde chegar. Conheço um erudito que tudo sabe sobre filosofia, sem que a filosofia jamais tenha tocado a sua pele. A arte de viver não se faz com a inteligência instrumental. Ela faz-se com a inteligência amorosa.

A palavra amor tornou-se maldita entre os educadores que pensam a educação como ciência dos meios, ao lado de barcos, remos, velas e bússolas. Envergonham-se de que a educação seja coisa do amor-piegas. Mas o amor – Platão, Nietzsche e Freud sabiam-no – nada tem de piegas. O amor marca o impreciso círculo de prazer que liga o corpo aos objectos. Sem o amor tudo nos seria indiferente – inclusive a ciência.

Não teríamos sentido de direcção, não teríamos prioridades. A inteligência instrumental precisa de ser educada. Parte da educação é ensinar a pensar. Mas essa educação, sendo necessária, não é suficiente. Os meios não bastam para nos trazer prazer e alegria – que são o sentido da vida. Para isso é preciso que a sensibilidade seja educada. Fernando Pessoa fala, então, na educação da sensibilidade.

Educação da sensibilidade: Marx, nos Manuscritos de 1844, dizia que a tarefa da História, até então, tinha sido a de educar os sentidos: aprender os prazeres dos olhos, dos ouvidos, do nariz, da boca, da pele, do pensamento (Ah! O prazer da leitura!). Se fôssemos animais, isso não seria necessário. Mas somos seres da cultura: inventamos objectos de prazer que não se encontram na natureza: a música, a pintura, a culinária, a arquitectura, os perfumes, os toques.

No corpo de cada aluno encontram-se, adormecidos, os sentidos. Como na história da Bela Adormecida… É preciso despertá-los, para que a sua capacidade de sentir prazer e alegria se expanda.

 

 

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

O prazer da leitura – Rubem Alves

Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de “alfabeto”. “Alfabeto” é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que “abecedário”. A palavra “alfabeto” é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: “alfa” e “beta”. E “abecedário”, com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: “a”, “b”, “c” e “d”. Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que “abecedarizar”, palavra inexistente, pudesse ser sinónimo de “alfabetizar”…

“Alfabetizar”, palavra aparentemente inocente, contém a teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras… E assim era. Lembro-me da criançada a repetir em coro, sob a regência da professora: “bê-á-bá; bê-e-bê; bê-i-bi; bê-ó-bó; bê-u-bu”… Estou a olhar para um postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redacção: uma menina deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê “fa”, “fe”, “fi”, “fo”, “fu”…

Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música se deveria chamar “dorremizar”: aprender o dó, o ré, o mi… Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem a repetir as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse…Toda a gente sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega no bebé e embala-o, cantando uma canção. E a criança percebe a canção. O que o bebé ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no facto de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas!

Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: a minha mãe tocava-as ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o conhecimento das partes. Isto é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. A criança volta-se para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está a ler.

Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no acto de ler para os seus alunos, é o “seio bom”, o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintáctica. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-‑me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.

Antes de ler Monteiro Lobato, eu ouvi-o. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro… Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, a ler para o filho… Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afectiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai, a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas de um mundo maravilhoso!

 Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem – continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afectuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: Por favor, ensine-me! Eu quero poder entrar no livro por minha própria conta…Toda a aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontece. Há aquele velho ditado: É fácil levar a égua até ao meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber. Traduzido pela Adélia Prado: Não quero faca nem queijo. Quero é fome. Metáfora para o professor.

Todo o texto é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos “concertos de leitura”. Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.

E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza, é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia… Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é só deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula “se”, dígrafos, encontros consonantais, análise sintáctica – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto. E a missão do professor? Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua.

Paul Goodman, controverso pensador norte-americano, diz: Nunca ouvi falar de nenhum método para ensinar literatura (humanities) que não acabasse por matá-la. Parece que a sobrevivência do gosto pela literatura tem dependido de milagres aleatórios que são cada vez menos frequentes. Vendem-se, nas livrarias, livros com resumos das obras literárias que saem nos exames. Quem aprende resumos de obras literárias para passar, aprende mais do que isso: aprende a odiar a literatura.

Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objecto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.

 

 

 

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

 

A manta das histórias

A manta das histórias

A pequena aldeia onde Babba Zarrah vivia ficava situada nas montanhas cobertas de neve. Babba Zarrah tinha uma manta das histórias, na qual as crianças adoravam sentar-se a ouvi-la.

Certo dia, enquanto contava uma história, a velhinha reparou que o sapato de Nicolai tinha um buraco. Depois de as crianças terem ido embora, Babba Zarrah decidiu tricotar-lhe umas meias bem quentinhas. Mas, como tinha caído imensa neve naquele Inverno, ninguém aparecera na aldeia a entregar lã. Como poderia ela tricotar meias sem lã?

Continuar a ler

O desejo de Nathan

A minha vizinha, Miss Sandy, é reabilitadora de aves de rapina, ou seja, toma conta de aves feridas, como corujas e falcões, até elas serem capazes de voar de novo.

Todos os dias, vejo-a misturar medicamentos, distribuir comida e limpar as grandes gaiolas que tem no pátio. Por muito cansada ou ocupada que esteja, Miss Sandy tem sempre tempo para falar comigo acerca dos pássaros.

O meu maior desejo era poder andar sozinho para poder ajudá-la nas tarefas, em vez de estar apenas a observar. Mas, como tenho paralisia cerebral, os meus músculos não têm força suficiente para que eu ande sem cadeira de rodas ou andarilho.

Certo dia, Miss Sandy mostra-me uma coruja-das-torres, que tem uma asa partida. Embora a asa esteja dentro de uma tala, a coruja tenta escapar debatendo-se contra as paredes da caixa de madeira onde foi colocada.

— Vai ter de ficar aqui até a asa sarar — diz Miss Sandy. — Que nome achas que lhe devemos dar, Nathan? — pergunta-me.

Os olhos brilhantes e amarelos da coruja faíscam, zangados.

— Que tal Fogo? — proponho.

— Parece-me um bom nome — concorda Miss Sandy. — Espero que em breve a Fogo acalme.

Contudo, em cada dia que passa, a Fogo continua a lutar para ser livre e preocupo-me que se magoe de novo. Finalmente, Miss Sandy tira a tala da asa e coloca a coruja numa gaiola.

— A Fogo precisa de exercitar a asa — explica-me.

À medida que as semanas passam, a asa torna-se cada vez mais forte e a Fogo é colocada numa gaiola maior. Por vezes, ignora os ratos mortos que Miss Sandy lhe traz e prefere perscrutar o céu. Percebo que gostaria de caçar a sua própria comida.

— Quanto tempo falta para ela poder voar de novo? — pergunto, um dia.

— Uma asa partida demora muito a ficar curada — respondeu Miss Sandy. — Pareces tão impaciente quanto ela, Nathan!

E estou. Estou ansioso que a Fogo seja de novo livre. Quando estou na escola e vejo um pássaro a voar lá fora, penso na Fogo e deixo de ouvir o professor.

À noite, quando oiço um grito estridente vindo do pátio, pergunto-me se a Fogo estará a chamar os amigos.

Um dia, vejo a gaiola dela vazia. Miss Sandy colocou-a numa pequena caixa que segura nas mãos.

— Vou pô-la na gaiola de voo, para ver até onde consegue ir — explica-me.

Enquanto a sigo, oiço o coração a bater nos meus ouvidos. Se a Fogo voar bem, Miss Sandy irá libertá-la hoje! Sustenho a respiração enquanto ela vira a caixa gentilmente, de forma à coruja pousar no chão da gaiola. A Fogo dá um salto e voa, forte e bonita.

Contudo, de repente, inclina-se para o lado e começa a descer. Embora tenha os olhos bem fechados, consigo ouvir o baque suave da sua aterragem desajeitada. E quando abro os olhos, vejo Miss Sandy a abanar a cabeça. Dou-me conta, de repente, de que a Fogo nunca será libertada. Não tem a asa suficientemente forte para sobreviver na floresta.

— Pobre Fogo — lamenta Miss Sandy. — Queria tanto ser livre!

Viro-me para que ela não veja as lágrimas no meu rosto. Sei muito bem o que é ter um desejo que não se pode realizar.

Depois desse dia, a luz dos olhos da Fogo apaga-se. Recusa a comida e nem sequer tenta sair da gaiola.

— Por favor, não desistas! — sussurro-lhe.

Mas ela continua imóvel como uma estátua, em cima do poleiro.

Deve haver uma forma de ajudar esta coruja. Procuro, no computador, informação sobre aves feridas. Deparo com um corujão-orelhudo quase cego que toma conta de corujinhas órfãs até estas terem idade para serem libertadas. Talvez a Fogo consiga fazer o mesmo. Imprimo a informação e mostro-a a Miss Sandy, que diz:

— Vale a pena tentar. Tenho três crias que ficaram órfãs na tempestade da semana passada.

Miss Sandy põe as três crias na gaiola da Fogo. As corujinhas balançam as cabecinhas e emitem uns pios engraçados. Mas a Fogo não parece interessada em crias esfomeadas ou no que quer que seja.

Como não suporto vê-la tão infeliz, decido ficar em casa alguns dias, cheio de tristeza por ela e por mim. Uma noite, Miss Sandy toca à nossa porta e entra de rompante.

— Vem comigo, Nathan! — pede. — Tens de ver a Fogo!

Antes de me aperceber do que está a acontecer, já Miss Sandy conduz a minha cadeira aos tropeções até casa dela. Finalmente, estaciona-me junto da gaiola da Fogo.

— Olha! — sussurra.

Nem posso acreditar no que vejo. A Fogo pega num pedaço de carne que estava no chão e leva-o, aos saltos, até à gaiola-ninho, onde o depõe no bico de uma das crias. Embora o seu desejo de ser livre não possa realizar-se, a coruja encontrou algo de importante para fazer. E isso dá-me uma ideia!

No dia seguinte, vou até casa de Miss Sandy e olho para o pátio. Posso não poder andar sozinho, mas vou encontrar uma forma de a ajudar nas suas tarefas! Sei que os baldes são demasiado pesados; contudo, posso encher as tinas de banho das aves com a mangueira. Demoro bastante tempo a desdobrá-la e a arrastá-la até cada uma das gaiolas. Mas não desisto até as tinas estarem todas cheias.

Quando vejo a carrinha do correio a aproximar-se, vou até ao fim da alameda e recebo a correspondência para Miss Sandy. Enfio as cartas no bolso do meu casaco e levo-as até casa dela. Quando são horas de alimentar os pássaros, ofereço-me para ficar no escritório a atender os telefonemas. O telefone toca quatro vezes e anoto os recados.

Antes de ir-me embora, Miss Sandy abraça-me e diz:

— Ajudaste-me muito hoje, Nathan.

Fico corado e baixo a cabeça. Mas sorrio. Agora sei o quão orgulhosa a Fogo se sente!

 

Laurie Lears

Nathan’s wish: a story about cerebral palsy

Illinois, Albert Whitman & Co, 2005

(Tradução e adaptação)

O gosto das bruxas

Era uma vez uma menina que estava presa na torre mais alta de um castelo.
Ela era um princesa, mas não lhe valia de nada, porque perdera os seus pais e o reino, numa guerra que o dono do castelo, já se vê, é que ganhara.
Ainda era o tempo das fadas. Por isso a menina disse, para que as paredes ouvissem:
— Se uma fada me salvasse, fosse boa, má ou assim-assim, eu repartia a meias com ela o tesouro do meu perdido reino, que só eu sei onde está enterrado.
As paredes toda a gente diz que têm ouvidos. Estas ouviram, passaram palavra e daí a nada uma velha fada apareceu na sala.
— Vou dar volta à tua vida — disse a fada.
— És uma fada boa? — perguntou a menina.
— Nem por isso — respondeu a fada.
Era uma fada assim-assim e para provar que não era das melhores, mas também não era das piores, impôs, à partida, uma condição. Salvava a menina, mas, antes, ela tinha de adivinhar-lhe o nome. E avisou logo que não tinha um nome muito mimoso.
— Serafina — disse a menina.
Nem pensar. Não era Serafina nem Leopoldina nem Marcolina. Nem Eufrásia nem Tomásia. Nem Quitéria nem Pulquéria. Nem Aniceta nem Eustáquia nem Teodósia nem Venância nem Bonifácia nem Gregória. Nem sequer Capitolina.
A princesa esgotou os nomes mais esquisitos que conhecia. E a fada sempre com a cabeça a dizer que não. Até que propôs o seguinte negócio:
— Salvo-te, mesmo que não descubras o meu nome, mas fico com o tesouro só para mim. Todinho!
A menina concordou. Não tinha outro remédio. Vai daí a fada pronunciou umas palavras mágicas e ela e a princesa atravessaram as paredes da prisão.
Uma vez em liberdade, a princesa ensinou o local onde estava escondido o tesouro e pronto, a história acaba aqui.
E o nome da fada-bruxa?
Também a menina quis saber.
— Chamo-me Joaninha — respondeu a fada-bruxa, baixando os olhos, envergonhada.
— Mas Joaninha é um nome bonito — estranhou a princesa.
— Eu não acho — disse ela. — Gostava mais de ser Virgolina Zebedeia.
Vá lá a gente entender o gosto das bruxas.

António Torrado

Entrelaçadas

Entrelaçadas

Na Primavera de 1943, Lillian Scott deu à luz gémeas. As crianças eram muito semelhantes e tinham sido concebidas no mesmo momento. Com os seus vestidinhos iguais, aconchegadas todas as noites na mesma cama, eram também profundamente diferentes. Joyce, a primeira a nascer, era uma bebé saudável, destinada a enfrentar os desafios e os triunfos daquilo que se costuma designar como uma vida normal. Judith veio a este mundo com os traços faciais enfezados e achatados, próprios da síndroma de Down. Embora na altura não se pudesse ainda saber, viria a revelar também uma surdez profunda.
Apesar do abismo entre ambas, abismo esse que se foi aprofundando com os anos, Joyce Scott vai contar-nos que, a partir do momento em que se nasce gémeo, é-se gémeo para toda a vida. Joyce entrou na vida activa, foi mãe e tornou-se profissional da saúde, mas nunca deixou de ter a irmã no pensamento, ainda que esta vivesse numa instituição longínqua. Com o tempo, porém, a distância entre ambas, quer do ponto de vista literal, quer metafórico, começou a fazê-la sofrer. Esta é a história de como Joyce e Judith voltaram a reunir-se e de como, de várias maneiras, se salvaram uma à outra.

No início, as crianças eram inseparáveis. Deixadas entregues às suas próprias brincadeiras pelos três irmãos mais velhos, passavam longas tardes entretidas no quintal dos subúrbios de Cincinnati, a brincar às casinhas e a inventar jogos. Mas à medida que os anos passavam, as diferenças entre ambas iam-se acentuando. Joyce fazia as etapas do desenvolvimento normal, Judith ficava muito atrás. Joyce já construía frases completas, Judith apenas balbuciava. «Queria tanto comunicar com ela!», diz Joyce, actualmente com 60 anos. «Fazia de conta que ela falava. E nos meus sonhos falava!»
Chegada a altura de irem para a escola, Judith fez testes, na esperança de ser admitida na única escola pública para crianças com dificuldades de aprendizagem. Mas não conseguiu responder à maior parte das perguntas. «Ninguém se apercebeu de que era surda», diz Joyce. «Aponta o círculo», disse-lhe o psicólogo. Mas ela nem sequer conhecia as palavras. Nessa época, as famílias raramente mantinham em casa os filhos com deficiências profundas, e a pressão para mandar Judith para fora começou a aumentar. «Falámos com o padre, com os psicólogos, e todos nos disseram a mesma coisa, que devíamos interná-la numa instituição», diz Lillian, agora com 91 anos. «Senti que se me partia o coração.»
Numa manhã de Outono, aos 7 anos e meio, Joyce acordou e deparou com um lugar vazio na cama da irmã. Os pais explicaram-lhe que a Judith ia para um sítio onde havia pessoas mais aptas a tomar conta dela. Joyce lembra-se de se ter sentido profundamente desolada. «Lembro-me daquela sensação extrema de solidão e de vazio sem ela.»
Sempre que podia, a família visitava Judith na fria e labiríntica Estadual de Columbus, que ficava a três horas de distância de carro. Ao fim de cinco anos, Judith foi transferida para o Centro de Desenvolvimento Gallipolis, um pouco mais moderno que a escola anterior, mas ainda mais longe de casa. As visitas da família foram rareando, sobretudo depois da morte do pai, em 1956, o que deixou Lillian sozinha e com quatro filhos para criar.
Mas mesmo em Gallipolis, Judith recebeu pouca educação e formação. Nunca aprendeu a falar, a ler ou a escrever, e nem após lhe ter sido diagnosticada a surdez, por volta dos 30 anos, lhe ensinaram a linguagem gestual.
Entretanto, Joyce cresceu, entrou para a faculdade e mais tarde mudou-se para a Califórnia, onde se casou, constituiu família e fez carreira como enfermeira. Meses, por vezes anos, decorreram entre as viagens ao Ohio para visitar Judith. Ilana, a filha de Joyce, lembra-se de aos 9 anos ter acompanhado a mãe e ter visto a tia Judy pela primeira vez. «Há anos que não se viam, mas quando a Judy deparou com a minha mãe, reconheceu-a logo. A mamã só conseguiu soluçar.»
Em 1985, Joyce, que tinha começado a trabalhar com doentes terminais e precisava de recarregar as baterias, fez um retiro nas montanhas de Santa Cruz, nos arredores de São Francisco. Durante as horas que passou sozinha, a lembrança da irmã consumiu-a. «É diferente estar-se naquele silêncio», diz Joyce. «Não só me apercebi de como a nossa relação era profunda, como de que não havia razão para que estivéssemos separadas.» Antes do fim do retiro, decidiu que ela e Judy passariam o resto da vida juntas.
Joyce fez as diligências necessárias para se tornar a responsável legal da irmã, e um ano depois trouxe-a para a Califórnia. Depressa encontrou um centro de dia perto de casa, em Berkeley, onde Judith poderia receber os cuidados diários de que necessitava. E, a conselho de um psicólogo amigo, inscreveu-a nas aulas do Centro de Arte de Desenvolvimento Criativo, um estúdio de arte para pessoas com deficiência.
O armazém aberto e arejado onde os artistas dão aulas de pintura, cerâmica e tapeçaria é um local espantoso, explica Joyce. «Há uma enorme sensação de liberdade e de criatividade.» Durante os primeiros meses, Judith chegava às aulas todas as manhãs e limitava-se a sentar-se a uma das grandes mesas e a fixar o olhar vago, enquanto os formadores lhe iam passando argila, tinta e lápis de cor para trabalhar. «Era intratável e teimosa», diz Sylvia Seventy, que lhe deu aulas no centro. «Por mais que tentássemos levá-la a fazer qualquer coisa, não se mexia.»
Até que a situação mudou. «Ela é engraçada e eu também», diz Sylvia. «Pus-me a imitar as expressões dela e consegui pô-la a rir. E assim começou a apreciar-me.»
Sylvia iniciou o trabalho com Judith numa tela de tapete, ensinando-a a coser com uma agulha de tecelagem e fio de lã. «Ela cosia e cosia até preencher uma boa área», diz a formadora. Um dia, começou a enrolar lã à volta de um feixe de vimes. E acrescentou cordel, tecido, rede de arame e tábuas à criação artística.
«Desde que começou a trabalhar com lã e desperdícios, foi como se encontrasse uma voz para exprimir algo que até então nunca conseguira exprimir», diz Stan Peterson, outro professor do centro. Nos meses seguintes, Judith desenvolveu um estilo próprio e singular. Começou por utilizar objectos de refugo, como uma prancha de skate, uma ventoinha partida, madeira, um sapato, e a envolvê-los com fio de lã ou cordel, trabalhando horas a fio até o objecto inicial ficar irreconhecível. Alguns dos seus trabalhos atingiram tais proporções que foram precisos dois homens para os carregar.
Embora a maior parte tivesse formas abstractas, algumas das peças iniciais tinham uma certa semelhança com bonecas. Judith chamou à sua primeira escultura tridimensional «Baba» e embalou-a nos braços. Fez também um par de figuras enroladas em lã preta. Joyce chorou ao vê-las e pensou: «Somos nós.»
Em 1989, Frank Maresca, co-proprietário da Galeria de Arte Ricco/Maresca, de Nova Iorque, que expõe trabalhos de artistas marginais e autodidactas, visitou o Grupo Criativo e ficou encantado com o trabalho de Judith. «Era algo diferente de tudo o que eu já vira, aqueles casulos muito texturados que escondiam sabe-se lá o quê no seu âmago», diz Maresca. «Senti-me atraído pelo exterior e envolvido pelo mistério do interior.»
Maresca começou a expor e a vender os trabalhos de Judith, tendo alguns deles atingido o preço de 15 000 dólares. (A maior parte das necessidades financeiras de Judith é coberta pela Segurança Social, pelo que os seus proventos são depositados na sua conta bancária.)
A fama da sua arte foi-se espalhando, e os curadores de museus começaram a aparecer para a conhecerem e verem as enigmáticas esculturas de fibra. Nos últimos anos, o seu trabalho tem sido exposto em museus e galerias de Chicago, São Francisco, Paris e Tóquio. Em 1999, o historiador de arte John M. MacGregor traçou o perfil da artista no livro Metamorfoses: A Arte de Fibra de Judith Scott. No ano passado, o Museu Norte-Americano de Arte Popular acolheu cinco peças da colecção de Judith.
Joyce diz que, embora Judith não tenha consciência da fama, sofreu transformações com a atenção pública. «Está mais sociável agora», diz ela. «Dantes, era desconfiada, calada, fechada em si mesma. Agora, irradia amor pela vida.» Joyce também mudou. «Quando a Judy estava no lar, sentia que me faltava uma parte. Agora que estamos juntas e que a vejo desabrochar sinto-me muito melhor. Que bem me sinto por estar perto dela!»
Numa recente manhã de sol, Judith senta-se no cantinho habitual, no estúdio de arte de tijolo e vidro, a trabalhar na última peça, um guarda-sol partido envolto em fio de lã de múltiplas cores. Com calma e método, corta 1 m de fio azul-claro de um novelo, passa-o pelas varetas meio cobertas do guarda-sol, ata-o, enrola-o, corta-o e recomeça com um novo fio de lã. Esta mulher pequena e rechonchuda, de cabelo às farripas, concentra-se no trabalho, que apenas interrompe de vez em quando para saborear uma Diet Pepsi.
Mal a irmã entra na sala, Judith abre-se num sorriso. Balança como uma criança, abrindo e fechando a mão. Joyce abraça-a. Aperta-lhe as mãos e beija-lhe a face. Uma gémea é-o para sempre.

Rachele Kanigel

Selecções do Reader’s Digest
Março – 2004

O rapaz que não desistiu do sonho

O rapaz que não desistiu do sonho

William Kamkwamba suspirou de alívio. Os três dias dos exames nacionais tinham chegado ao fim. Pensou, com orgulho e alegria que, se passasse, no próximo ano iria finalmente para a escola secundária. Deixaria de usar calções para passar a usar calças; e estudaria quanto fosse preciso para ser dos melhores alunos, e motivo de contentamento para os pais. A irmã mais velha não só a frequentava como já ia a meio do curso, e agora chegara a vez dele. Mas, até saírem os resultados e ser afixada a escola para onde iria em meados de Janeiro, ainda faltavam muitos meses.
— Então, Gilbert? — perguntou William ao amigo. — Agora que temos as manhãs por nossa conta, o que vamos fazer?
— Que tal começarmos por ir à caça? Há tanto tempo que não vamos…
Gilbert era filho do chefe da aldeia. Tal como William, tinha treze anos, e também queria continuar a estudar. Ambos viviam na aldeia de Wimbe, no Malawi, um país da África Oriental junto a Moçambique e ao grande lago Niassa.
No Malawi, a base da alimentação é o milho, por isso os dois rapazes tinham de ajudar os pais nas plantações. E para se frequentar a escola secundária também era preciso pagar, outra razão para desejarem que as colheitas daquele ano fossem abundantes.
No entanto, uma tragédia vinha aos poucos a abater-se sobre todo o Malawi. Naquele ano, as chuvas de Dezembro chegaram mais tarde e provocaram inundações no país inteiro, arruinando as plantações dos agricultores. Às inundações seguira-se a seca. Devido a uma má gestão do governo, a maior parte das reservas de milho tinha sido vendida para o estrangeiro e o que restava alcançou preços exorbitantes. A corrupção e a especulação fizeram com que nem toda a população, empobrecida, pudesse adquirir novas sementes. Nesse ano, na colheita de Maio, o pai de William conseguira apenas cinco sacos de milho. O rapazinho começou a preocupar-se. Como é que cinco sacos iam alimentar oito pessoas durante um ano inteiro? E será que o pai conseguiria o dinheiro para pagar a escola?
A partir de Outubro, a fome abateu-se sobre todo o Malawi e durou cinco meses. Foi o maior período de fome que o país alguma vez atravessara. Sem dinheiro para comprar milho nem farinha, que foram ficando cada vez mais caros até desaparecerem do mercado, as pessoas começaram por vender os seus bens e passaram a comer tudo o que encontravam: folhelho de milho, mangas verdes, peles de animais, ervas, até, não havendo absolutamente mais nada, começarem a definhar e a morrer de fome. Como se não bastasse, os mosquitos trouxeram depois uma epidemia de malária que vitimou muita gente. No dia em que a mãe de William moeu o último balde de milho, o pai reuniu os filhos na sala.
— Dada a situação, a única maneira de sobrevivermos é passarmos a fazer somente uma refeição por dia — disse. — Durante o dia é mais fácil não pensarmos na fome, mas de noite, não. Por isso, vamos comer à noite.
Nessa mesma noite, a família reuniu-se em volta de uma única tigela, de onde todos comeram.
Apesar da fome que piorava de dia para dia, William e o pai tinham, a todo o custo, de continuar a trabalhar nas plantações, para poderem ter uma colheita de milho e tabaco que fosse vendida no ano seguinte. Não era tarefa fácil. O corpo quase não sentia o pouco que comiam, e por vezes desmaiavam durante o trabalho.
As aulas começavam em meados de Janeiro e William ia finalmente entrar para a escola secundária. Não para a que desejara, porque as notas não o permitiram, mas para uma outra, a cinco quilómetros. No entanto, tal como a maioria dos alunos, teve de desistir por não poder pagar as propinas. De qualquer forma, em Fevereiro, todas as escolas acabaram por fechar devido à fome generalizada. Os professores e os alunos sentiam-se demasiado fracos e alguns acabaram por morrer. Em Março, assim que o milho e as abóboras amadureceram, o distrito começou lentamente a recuperar. Embora a colheita tivesse sido boa graças aos esforços sobre-humanos de pai e filho, depois de saldadas as dívidas, William continuou sem dinheiro para poder pagar a escola. Teria de passar o semestre em casa.
Certo dia, olhando para os pobres campos em volta da aldeia e pensando na vida que o pai levava, William decidiu que não desejava para si um futuro semelhante. E tomou uma resolução: iria estudar sozinho afincadamente para recuperar o atraso, antes de as aulas recomeçarem. Para ocupar o tempo, delineou um rigoroso plano de estudos e começou a frequentar a biblioteca da escola da aldeia, passando a tarde a ler os livros que requisitava pela manhã. Gilbert, cuja família conseguira dinheiro para que prosseguisse os estudos, punha-o todos os dias ao corrente das matérias estudadas e ajudava-o no que ele não percebia. Infelizmente, os livros eram em inglês, língua que não dominava, mas os gráficos e os desenhos ajudavam-no a compreender e, aos poucos, foi também percebendo melhor a língua.
William sempre fora curioso. Gostava de conhecer o funcionamento dos aparelhos e das máquinas e, alguns meses atrás, conseguira ligar um dínamo a um rádio e fazê-lo tocar enquanto pedalava na bicicleta. Com o seu primo Geoffrey, montara depois um pequeno negócio para compor aparelhos de rádio, mas, como eram precisas pilhas e estas eram caras, depressa tiveram de o abandonar. Por isso, ficou radiante ao encontrar na biblioteca livros, sobretudo de Física, que respondiam a muitas questões que lhe suscitavam interesse, tais como, por exemplo, de que forma um motor queimava gasolina, ou como funcionavam os travões de um carro ou uma televisão a cores. Até que um dia, ao procurar um dicionário de inglês-nianja, tropeçou num livro que lhe chamou a atenção. Na capa tinha a imagem de um moinho de vento e dentro vinha explicado o seu modo de funcionamento.
Ao lê-lo e ao ver os gráficos e as legendas, fez-se luz na mente de William. Da mesma forma que conseguira fazer o rádio tocar, descobria agora que, com a mesma técnica, também podia construir um moinho de vento de grandes dimensões, capaz de gerar energia eléctrica. “Podia instalar luz em casa e usar ainda o moinho para bombear água para regar os campos. E assim, em vez de uma, podíamos ter duas colheitas por ano. A mãe não precisava de se cansar a ir buscar água ao poço e acabava-se a fome na aldeia!”, pensou, esperançado. William imaginava já a horta onde a mãe poderia cultivar para casa e para vender no mercado.
Partindo do modo de funcionamento do dínamo como gerador de energia, bem como das ventoinhas que fazia em pequeno com o primo, e usando os conhecimentos aprendidos nos livros, William construiu uma ventoinha ligada a um dínamo, que gerou energia suficiente para pôr o velho rádio a tocar. Entusiasmou-se com aquele primeiro sucesso e pensou determinadamente em construir um moinho de vento de grandes dimensões.
— Se consegui um moinho pequeno, tenho de conseguir fabricar um grande! Mas sem dinheiro, como é que vou arranjar as peças de que preciso? E onde é que vou arranjá-las?
À primeira vista, o local mais indicado para procurar todo o tipo de materiais que pudessem ser usados na sua construção parecia ser a sucata de Kachokolo, ao lado da escola secundária. “Encontrei uma mina de ouro!”, pensou William quando olhou em volta. Vasculhou durante semanas e semanas, recolhendo todas as peças que pensava poderem vir a ser úteis para a sua nova máquina. A busca foi morosa, mas graças à sua persistência e determinação, foi aos poucos juntando todo o tipo de peças, que guardava no quarto, para desespero da mãe. Virou literalmente a sucata do avesso.
Chegou a levar três dias até encontrar as peças que pretendia. Passava horas a desmontá-las cuidadosamente para não as estragar e por vezes martelava horas a fio até conseguir a que pretendia. Acabava muitas vezes com as mãos cheias de bolhas, mas com uma agradável sensação de vitória.
No início do segundo período, William pensava voltar à escola. No entanto, após a venda das folhas de tabaco, o dinheiro continuou a não ser suficiente para pagar os dois semestres e permitir ao mesmo tempo que a família comprasse os bens essenciais. Para o pai de William, o momento em que teve de dizer ao filho que não podia pagar a escola foi-lhe dos mais custosos. No Malawi, uma mulher é sustentada pelo marido, e o pai não queria que William, como único filho homem na família, tivesse uma vida difícil como a sua. A educação escolar era a única saída para aquela lamentável vida de pobreza.
Decepcionado, William teve de se conformar com a ideia de não voltar à escola e de o seu destino estar previamente traçado da forma que mais temia: tornar-se um agricultor malawiano, como o pai, e passar o resto da vida a labutar para conseguir cultivar milho e, com sorte, algumas folhas de tabaco, para um dinheiro extra. Finda a colheita desse ano, abençoadamente abundante, William pôde regressar ao ferro-velho, e prosseguir com a busca de peças para o moinho de vento gigante. No entanto, não tinha a vida facilitada. Admirava o pai acima de tudo e, antes de lhe pedir a bicicleta velha encostada a um canto da sala, explicou-lhe detalhadamente a sua ideia, acabando a suplicar:
— Por favor, pai, deixe-me tentar! Podemos ter luz em casa durante a noite e bombear água do poço!
Depois de pensar um momento, o pai suspirou:
— Está bem, podes ficar com ela. Mas, William, não a partas, por favor. Já me queimaste tantos rádios… — e deu-lhe uma das maiores peças de que ele precisava: a única bicicleta que tinha, velha, sem guiador, só com uma roda, o quadro, e tudo cheio de imensa ferrugem.
Compreendeu que a ideia do filho de gerar electricidade era importante para ele, por isso dera-lhe também autorização para se dedicar inteiramente ao seu projecto. À medida que o monte de ferro-velho acumulado no quarto de William ia aumentando, o pai defendia-o perante as irmãs e a mãe, que não percebiam a razão de o irmão ter deixado de ajudar no campo e começado a ficar em casa. Esse apoio permitiu-lhe entregar-se com mais afinco ao seu novo projecto.
Mas não era apenas em casa que era criticado. Os rapazes da escola secundária que o viam remexer na sucata começaram a fazer troça dele, a chamar-lhe maluco e a dizer que fumava marijuana. De cada vez que a mãe ia ao mercado, tinha de ouvir todo o tipo de comentários sobre o filho mandrião e maluco, que passava o tempo a remexer no lixo e a fumar erva.
Todavia, William tinha também um grupo de apoiantes, embora muitíssimo reduzido. O primo Geoffrey tivera de ir trabalhar para um moinho do tio, de forma que só restava Gilbert. Foi com a ajuda deste que conseguiram arranjar o material que faltava. Por vezes, Gilbert oferecia o seu dinheiro para comprar peças em falta, como porcas e parafusos. Nessas alturas, William ficava sem palavras para agradecer. Quando tudo estava preparado para montar o moinho, continuava a faltar a peça mais importante: um dínamo. Todas as bicicletas dispunham de um, mas, infelizmente também, todas as bicicletas tinham dono… Ao fim de um mês de busca, William e Gilbert viram passar um rapaz desconhecido montado numa bicicleta.
— Olha, Gilbert, outro dínamo.
— Quanto queres pelo dínamo? — perguntou Gilbert, dirigindo-se ao rapaz.
— Não, Gilbert, não tenho…. — tentou dizer William.
O rapaz da bicicleta começou por recusar mas, naquela altura, o dinheiro fazia falta e só quem fosse tolo é que não o aceitava.
— O meu pai deu-me uns trocos — explicou Gilbert a William, enquanto entregava as duas notas pedidas. — Nós vamos construir o teu moinho de vento.
Emocionado, William conseguiu apenas balbuciar um agradecimento. Durante os meses de fome, o pai de Gilbert, chefe da aldeia, distribuíra toda a comida que havia guardado para a sua família pelas pessoas que iam bater-lhe à porta, e a falta de saúde não lhe permitia agora cultivar as terras. De certeza que havia muito pouco dinheiro em casa. Mesmo assim, Gilbert não hesitara em comprar as porcas e os parafusos, e agora comprava-lhe o dínamo.
Na cabeça de William, o moinho já estava a funcionar!
Quando, ao fim de horas, soldou manualmente o ventilador de um tractor, um amortecedor, tubos de plástico, fios, o quadro da bicicleta do pai, uma lâmpada de automóvel, e o dínamo comprado por Gilbert – tudo à mistura com muito talento, engenho, persistência e determinação – e, com a ajuda de Gilbert e Geoffrey, içou a engrenagem para o alto da armação de cinco metros de altura, uma multidão de curiosos começou a reunir-se em volta deles, cochichando e rindo. Vinham da aldeia e das aldeias vizinhas, onde a notícia da máquina tinha chegado. Quem passava de automóvel, parava na berma da estrada, admirado.
— Quem é aquele?
— É o doido do ferro-velho.
— O que é que o rapaz vai inventar agora? Queres ver que foi desta que ficou maluco de vez?
— Coitada da família! Já o deviam ter levado mais cedo ao feiticeiro.
No alto da torre, e no momento de soltar as pás, William sentiu-se nervoso. Mas, quando o vento, que acreditava no sonho daquele corajoso rapaz de catorze anos, fez girar as pás da hélice, a lâmpada que William segurava na mão começou a iluminar-se. William sentiu que o peito ia explodir de alegria. Conseguira! Em baixo, a multidão não queria acreditar no que via e, uma a uma, as pessoas começaram a aplaudir e a gritar entusiasticamente.
Ao fim de mais algumas experiências, em que quase pegava fogo à casa, conseguiu instalar luz eléctrica no interior, e uma tomada. A sua família já não era obrigada a deitar-se às sete horas, para além de passar a ter luz de forma gratuita. Os vizinhos que durante meses zombaram das suas idas à sucata e o tinham apelidado de maluco, faziam agora fila à sua porta, para carregarem as baterias dos telemóveis. E não era sem orgulho que explicavam aos forasteiros, cada vez mais numerosos, que aquela torre de cinco metros parecida com o pescoço de uma girafa fazia vento eléctrico.
A notícia espalhou-se rapidamente. O engenho de William foi objecto de notícia nos jornais e na rádio. O director de uma organização nacional de professores foi pessoalmente à aldeia, e não queria acreditar que um rapazinho, impedido de ir à escola por falta de recursos, montara uma torre eólica partindo simplesmente de uma fotografia encontrada num livro de Física na biblioteca local. Lamentando a situação do seu país e a burocracia que atrasava ainda mais o desenvolvimento deste, o Dr. Mchazime fez todos os possíveis para que William conseguisse regressar à escola e, desta vez, a uma melhor.
Entretanto, a notícia do seu moinho de vento chamou a atenção de um famoso bloguista e empresário nigeriano encarregado de organizar o programa de uma grande conferência anual, em que cientistas, inventores e inovadores se reuniam para troca de experiências. Pediu a William que se inscrevesse e, a partir do momento em que foi seleccionado para participar no evento, a sua vida mudou. Pela primeira vez, dormiu num hotel, numa cama de colchão, e viajou de avião até à Tanzânia. Aí viu também pela primeira vez um computador e tomou contacto com a internet. Nunca na vida estivera entre tantos brancos. Perante uma vasta assistência, o inglês básico de William desapareceu por completo e, se não fosse a ajuda do director da organização, nada teria conseguido dizer.
A apresentação de William terminou com um grande aplauso e muitos ouvintes comoveram-se até às lágrimas. Apesar de todos aqueles anos de dificuldades, da fome que passara, das mortes a que assistira, do medo de perder a família com as doenças que surgiam constantemente, tais como a malária, da desistência da escola, das críticas da aldeia e do meio supersticioso em que vivia, aquele rapaz lutara convictamente até ao fim pela concretização do seu sonho. Sensibilizados, vários presentes ajudaram William a aceder a um ensino mais qualificado, o que lhe permitiu realizar o seu grande sonho: construir um moinho para bombear água e irrigar toda a aldeia. O seu contributo para a luta contra a fome.
É fácil esquecer-se os sonhos quando se tem de lutar diariamente pela subsistência, enfrentar a doença e a morte. Porém, como conclui William, “se quiseres construir alguma coisa, só tens de tentar. Acredita em ti e acredita que vais conseguir.”

A. Vicente

Alerta, mas sem alarmismo – Shaun Tan

Agora que todos têm um míssil balístico pessoal de longo alcance em casa, é engraçado ver como já ninguém lhes dá importância.

No início distribuíram-nos à sorte. Nessa altura, foi muito excitante: uma pessoa, nossa conhecida, recebe uma carta do governo e, ao fim de uma semana de espera, um camião vinha entregar-lhe o míssil. Depois, nas casas de cada esquina era preciso que houvesse um. A seguir, nas casas do lado. Até que se chegou ao ponto de, hoje em dia, parecer raro que alguém não tenha um míssil no telheiro do jardim ou no estendal da roupa.

Sabe-se por que é que lá estão… Mas temos uma ideia aproximada… É que devemos proteger a nossa forma de vida num mundo cada vez mais hostil. Todos devem participar na segurança nacional (aliviando assim a pressão em que se acham os armazéns de material de guerra) e, acima de tudo, todos têm direito a sentir que estão a contribuir com o seu diminuto grão de areia. É uma pequena ajuda.

Basta apenas limpar e encerar o míssil no primeiro domingo de cada mês e, de vez em quando, deitar uma olhadela ao indicador do nível do óleo. E, uma vez num intervalo de vários anos, recebe-se uma encomenda com um kit completo de pintura, sinal evidente de que chegou a altura de eliminar qualquer ponto de oxidação e de lhe dar uma mão de pintura cor de chumbo.

Não obstante, muitas pessoas começaram a pintar os mísseis com outras cores e até há quem se tenha atrevido a pintá-los com desenhos de borboletas e flores.

É que ocupam tanto espaço no jardim que o mínimo que se pode fazer é pô-los bonitos. Além de que os panfletos governamentais não proíbem a utilização doutros tipos de pintura diferentes dos enviados.

Ultimamente, é costume cobri-los de luzes pelo Natal. Seria bom subir de noite a uma montanha e ver as centenas de pontinhos acesos a brilhar e a pestanejar na escuridão.

Além disso, o míssil do jardim pode ter uma enorme quantidade de usos práticos. Quem desapertar a tampa inferior e retirar os fios e o resto, pode utilizar o espaço para guardar sementes, ferramentas, molas de roupa ou lenha. Se for alterado um pouco mais, pode-se facilmente fazer dele uma fantástica cabana-foguetão espacial e, quem tiver cão, arranja assim uma casota de graça. Numa casa, até houve quem lhe pusesse uma chaminé na parte de cima e usasse o míssil como forno de fazer pizas.

Sim, todos sabemos que, no dia em que o governo decidir usá-los, os mísseis já não irão funcionar, mas com o passar do tempo já não nos preocupamos com isso. Afinal, a maioria das pessoas tem a sensação de que assim é melhor. Sobretudo, esperamos que, no outro lado do mundo onde as famílias têm mísseis no jardim de casa, armados e apontados para nós, também elas tenham encontrado para eles aplicações muito melhores.

Shaun Tan
Cuentos de la periferia
Arcos de la Frontera, Barbara Fiore Editora, 2008
(Tradução e adaptação)

O homem que ficou sem sono ou a história de um herói contada em português – José Jorge Letria

O homem que ficou sem sono

ou

a história de um herói contada em português

Era uma vez um homem que um dia ficou sem sono. Queria dormir, mas não conseguia, apesar de sempre ter dormido bem. Quando fechava os olhos, não lhe saía da cabeça a tristeza que havia no olhar das crianças que se apinhavam junto da porta da casa onde morava e trabalhava. Era um homem bom que gostava do que fazia e que fora educado para obedecer às ordens dos seus superiores, estivesse onde estivesse. Nunca lhe passara sequer pela cabeça a possibilidade de um dia vir a infringir essa regra.
Esta história é verdadeira e aconteceu poucos dias antes de começar o Verão do ano de 1940. Ainda há muita gente viva que se lembra bem desse homem e daquilo que ele fez, deixando de pensar em si e pensando nos outros e na sua salvação. O homem era diplomata e nascera no norte de Portugal. Chamava-se Aristides de Sousa Mendes, era casado e tinha vários filhos. A sua carreira como cônsul levou-o até à cidade francesa de Bordéus, onde lhe chegaram as primeiras notícias do começo da Segunda Guerra Mundial quando as tropas alemãs atacaram a Polónia e a Inglaterra se opôs a essa agressão, em defesa da liberdade e da democracia, declarando que faria frente, pelas armas, aos agressores.
O homem era pessoa de bem e defensor da paz. Não podia aceitar a ideia de que alguém pudesse ser perseguido, torturado e morto só por ter ideias políticas diferentes ou outra religião. Fora educado para a tolerância e por isso respeitava os direitos dos outros. À medida que as tropas alemãs invadiam países como a Bélgica ou a Holanda e se aproximavam da fronteira francesa, iam chegando a Bordéus refugiados das nações ocupadas, em busca de um visto no passaporte que lhes permitisse chegar a Espanha e depois a Portugal, apanhando mais tarde, em Lisboa, um barco ou um avião que os levasse para países como os Estados Unidos da América, o Brasil ou a Argentina, onde não havia guerra. Portugal e Espanha, governados por ditadores como Hitler, o senhor da Alemanha, não tinham entrado na guerra e iriam manter-se à margem dela, embora durante muito tempo tenham estado ao lado dos alemães e do que eles representavam.
O homem queria dormir, mas não era capaz. Ecoavam-lhe na cabeça as vozes das crianças que sofriam de fome e de sede e que, lembrando-lhe os seus filhos, tinham o direito de viver e de crescer em liberdade. De Lisboa, o cônsul português recebera ordens muito rigorosas no sentido de não deixar chegar refugiados a Portugal. Pensou e voltou a pensar, consultou a mulher e escreveu uma longa carta aos filhos explicando o que tencionava fazer e as razões dessa opção. Espreitou pela janela e viu nos olhos das crianças um sorriso fugidio que representava a última réstia de esperança. Por elas valeria a pena arriscar. Por elas e pelos princípios que defendia. Foi assim que a palavra «desobediência» entrou definitivamente no seu vocabulário. Mandou abrir as portas do Consulado de Portugal e forneceu aos funcionários carimbos e selos brancos para poderem emitir o maior número de vistos possível. A partir desse momento seria uma batalha sem tréguas contra o tempo. Cada minuto contava. Cada dia parecia uma eternidade.
Durante três dias não houve descanso para ninguém dentro do Consulado, e ainda sobrou tempo para se dar água e comida àqueles que esperavam à porta em intermináveis filas, com a esperança de que o pesadelo por fim terminasse. Pela rádio chegavam notícias da rendição da França, o que significava que já faltava muito pouco para que as tropas de Hitler chegassem também a Bordéus, perseguindo e prendendo judeus e opositores políticos ao regime nazi. Era preciso actuar ainda mais depressa. O cônsul conseguiu arranjar tempo para ir às cidades de Bayonne e Hendaye onde havia um grande número de refugiados tentando passar a fronteira em direcção a Espanha. Aristides de Sousa Mendes sabia que o desrespeito pelas ordens de Lisboa teria consequências dramáticas para o seu futuro e da sua família. Ainda assim, não recuou. Sabia que a razão estava do seu lado e não estava disposto a abdicar dessa razão, que correspondia à salvação de mil hares de vidas.
— Mãe, tenho fome e sede e quero sair deste sítio — dizia a menina austríaca para a mãe pálida e exausta.
— Talvez amanhã de manhã já possamos estar a caminho da liberdade, porque há ali dentro um homem bom que nos quer ajudar.
O homem não se deixou vencer pelo cansaço, pelo sono, pela fome ou pela sede. A vida dos outros estava primeiro. Se eles tinham pressa, a sua conseguia ser ainda maior. No Consulado, houve quem o avisasse: «O senhor bem sabe o que lhe pode acontecer!» Mas ele não quis saber e continuou a passar vistos, perdendo a conta às pessoas que já tinha conseguido salvar. Terão sido dez mil, quinze mil ou trinta mil? Não se sabe ao certo. Sabe-se sim que chegaram a Lisboa e que depois foram encaminhados para o Estoril, para a Ericeira, para a Figueira da Foz ou para as Caldas da Rainha. Mais tarde, a maioria conseguiu partir para países onde havia liberdade. Alguns voltaram depois do final da guerra às suas terras, outros nunca mais as quiseram ver porque não conseguiram esquecer as horas de sofrimento e perda. Três dias bastaram para que o cônsul Aristides de Sousa Mendes abrisse a milhares de refugiados as portas pa ra a liberdade, desobedecendo a Salazar e ao regime que ele dirigia. Por isso foi prontamente banido da carreira diplomática e proibido de exercer qualquer actividade profissional, morrendo na miséria em 1954, com os filhos dispersos por países como os Estados Unidos, onde puderam estudar e seguir as suas carreiras. Num dia quente de Junho de 1940, no Rossio, em Lisboa, um menino de cabelo loiro perguntou aos pais, enquanto estes procuravam uma pensão ou um hotel onde se pudessem instalar até conseguirem arranjar bilhetes num barco ou num avião para Nova Iorque:
— Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar a este país?
O pai, não contendo uma lágrima comovida, respondeu-lhe:
— Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome.
Ainda não houve um grande realizador de cinema que fizesse um filme sobre esta história verdadeira, à semelhança do que Steven Spielberg fez com Oskar Schindler, mas pode ser que ainda venha a ser feito. Nunca é tarde para celebrar os feitos dos heróis.
Naquelas noites quentes de Junho de 1940, havia em Bordéus um português que não conseguia dormir. Não lhe saía da memória a aflição das crianças que queriam ver abrir-se a porta que as deixasse seguir o caminho até à liberdade. Essa porta abriu-se e por ela passou uma réstia de luz, desenhando no cetim negro do céu, entre as estrelas, a linda palavra «Esperança», escrita em português como esta história verdadeira que é sempre bom contar e recontar.
Porquê? Porque é sempre possível que a tragédia volte a acontecer, onde e quando menos se espera.

José Jorge Letria

AAVV
Contos de um Mundo com Esperança
Lisboa, Texto Editora, 2003
(adaptação)

Sobre Harry Potter

Sobre Harry Potter

Agora que chegou ao fim a saga de Harry Potter, talvez valha a pena reflectir sobre alguns dos aspectos da obra.

Quando a saga começa, com o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, encontramos o protagonista a viver em casa dos tios, que o criaram desde criança, e que têm um filho de idade semelhante à dele. Nesta casa, que deveria ser para ele um lar, Harry é obrigado a dormir num armário debaixo das escadas e enfrenta a hostilidade constante dos familiares. A hostilidade explica-se pelo facto de Harry ter nascido feiticeiro, e de ser filho de um casal de feiticeiros (a mãe dele era irmã da tia). Ficamos a saber, mais tarde, que o casal foi morto pelo maior feiticeiro de sempre, Lord Voldemort, enquanto tentavam salvar o filho, ainda bebé. Harry sobreviveu ao ataque, que lhe deixou uma cicatriz na testa, e que quase matou Voldemort, e isso transforma-o numa lenda viva do mundo da feitiçaria.

Contudo, Harry ignora tudo isto até fazer 11 anos, data em que é chamado a inscrever-se na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts, que fica situada num castelo, num mundo paralelo ao mundo dos humanos. Toda a obra parte do princípio de que ser feiticeiro é sempre melhor do que ser humano. Aliás, os humanos, apelidados de Muggles (um termo pejorativo que poderia ser traduzido por Trouxas), invejam sistematicamente os feiticeiros e são-lhes, obviamente, inferiores. Todos aqueles anos de degredo para Harry parecem, assim, ter sido recompensados.

Em Hogwarts, o leitor cedo descobre que a competitividade é o valor supremo, e que tudo o que os alunos fazem, de bom e/ou de mau, é registado em termos de pontuação. No final do ano lectivo, a Casa vencedora é a que tiver obtido a maior pontuação. Escusado será dizer que a Casa de Harry Potter (Gryffingdor), que valoriza a bravura e a ousadia, sai sempre vencedora em relação à sua principal rival, Slythering, cujos atributos são a ambição e a astúcia. As outras duas Casas, Ravenclaw e Hufflepuff, apenas existem como pano de fundo. E, contudo, os atributos que elas enaltecem seriam muito mais adequados a uma escola. Ravenclaw valoriza a inteligência e o conhecimento, enquanto Hufflepuff louva o trabalho árduo, a paciência, a lealdade e o jogo limpo.

Num mundo em que o ideal do Guerreiro é sempre visto como superior ao ideal do Cuidador, faz sentido conceber Gryffingdor e Slythering como superiores. Veja-se o estado em que o mundo está…

Assim, em Hogwarts, a inteligência, a bondade e a conquista da excelência à custa do próprio esforço de pouco ou nada valem. A própria vontade de estudar é ridicularizada (veja-se a chacota de que é alvo Hermione Granger, que leva a sério os TPCs que os professores marcam), e as aventuras e os feitos espectaculares é que têm valor. O que importa é derrotar o adversário, num mundo em que todos são adversários, ou apenas aliados contra adversários.

No mundo de Harry Potter, ninguém pensa construir a vida com base nos seus próprios méritos, porque todos são predestinados. Sejam predestinados “bons” ou predestinados “maus”, já nasceram assim e nada do que possam fazer alterará a sua condição. Os predestinados podem até dar-se ao luxo de quebrar regras, o que Harry e o seu melhor amigo, Ron Weasley, fazem constantemente, para desespero dos professores e para gáudio dos próprios, já que as regras não se aplicam a eles, e muito menos a Potter, o mais jovem jogador de Quidditch da Escola desde há um século.

Este jogo bruto e violento, em que pernas e braços partidos são as consequências mais brandas dos encontros, é a única “cadeira” em que Harry se destaca, já que em tudo o resto é um aluno medíocre. Harry não estuda, nem quer saber de estudar: a sua cicatriz dá-lhe o passaporte para o protagonismo de que necessita e dispensa-o da humildade de achar que tem coisas a aprender. Os únicos conhecimentos que lhe interessam são os de Defesa contra as Artes Ocultas, porque Potter precisa de derrotar Voldemort, como vingança pela morte dos pais. Aliás, a vingança torna-se, desde muito cedo, a razão de ser da sua vida.

Os temas da vingança e da morte são uma constante dos livros. E a morte, omnipresente até à exaustão numa obra que se quer para jovens, é tratada com leviandade. No contexto da obra, é considerado normal que haja adolescentes que têm de morrer. Uma cadeira chamada Arte de Adivinhação do Futuro faz, entre outras coisas, isso mesmo: prevê mortes de alunos. Nos livros, tudo se passa como se fosse normal viver a vida rodeado de morte. Quando, em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, aparecem na escola umas personagens chamadas Dementores, que são seres que sugam a alma das pessoas, somos supostos achar que estes riscos fazem parte do quotidiano invejável dos alunos de um estabelecimento de ensino de elite.

Tal como faz parte de Hogwarts a presença de um professor que se revela ser um lobisomem e que, por pouco, não mata alunos; o aparecimento de Devoradores da Morte, emissários de Voldemort, que assassina barbaramente um aluno no final do quarto volume (Harry Potter e o Cálice de Fogo); ou a visita de Neville Longbottom ao manicómio onde estão internados os seus pais, vítimas também eles dos sicários de Lord Voldemort (ver Harry Potter e a Ordem da Fénix). Nestas visitas, Longbottom é sempre acompanhado pela avó, que faz questão que o neto saiba que os pais são uns heróis, porque foram submetidos a tortura e não revelaram os nomes dos inimigos de Voldemort. Assim, o requinte macabro de uns é igualado pela indiferença macabra de outros, já que a avó de Neville prefere ignorar o sofrimento do neto a abdicar do orgulho familiar.

E isto sem falar da forma como Voldemort vai ganhando “vida” ao longo da obra: depois de a sua tentativa de assassinato de Potter ter falhado, e de ter ficado reduzido a um estado virtual, o Senhor do Mal vai parasitando mentes e corpos alheios, incluindo a absorção do sangue de Harry, até ganhar uma forma que lhe permita aguentar o confronto final.

Estas realidades sombrias, apesar de camufladas pela brincadeira e pelo humor (rebuçados de ranho, fantasmas sem cabeça a vaguear pelo castelo, jornalistas metediças, rivalidade entre animais de estimação, paixonetas desencontradas entre alunos) não se tornam menos sombrias. Brinca-se com a integridade física e psíquica, porque se parte do princípio de que o corpo e a mente têm pouco valor e de pouco nos servem num mundo em que reinam poções e varinhas mágicas.

Os protagonistas recorrem às varinhas e às poções sempre que precisam de algo, seja um simples gesto quotidiano como vestir-se, deslocar-se ou comer. Mas também as usam para desarmar os adversários, ler-lhes os pensamentos, estropiá-los, matá-los. O uso da varinha, com tudo o que esse gesto implica de mecanicidade, significa que os esforços, por simples que sejam, são indignos de seres especiais. Aqui, a raiva descarrega-se sobre o(s) outro(s), como nos videojogos, com um simples toque de mãos.

Ao longo de toda a saga, não existe um único momento de introspecção por parte das personagens. Os feiticeiros parecem estar dispensados de pensar e de reflectir. Apenas devem agir. As personagens crescem física e cronologicamente, mas não há evolução interior em nenhuma delas. O guião do que será a sua vida futura já está escrito e tudo o que têm a fazer é decorar o papel. A sua vida está organizada em função de um combate que terão de vencer, seja a que preço for. No final de Harry Potter e a Ordem da Fénix, a figura tutelar de Sirius Black, o padrinho de Potter, é morta, e o protagonista dá-se conta de que a vida só lhe reserva uma opção: ou mata Voldemort ou é morto por ele. A impossibilidade de escapar ao Mal anula qualquer pensamento e reflexão. Como todos lutam pela sobrevivência, e não há como escapar ao destino, os dados estão lançados. Em Hogwarts, não se aprende que “destino” é o que acontece quando não transformamos os conteúdos inconscientes da nossa psique em consciência.

Nos dois últimos volumes da saga, Harry Potter e o Príncipe Misterioso e Harry Potter e os Talismãs da Morte, assistimos a um crescendo de violência, explícita e implícita. Harry empreende uma viagem com Dumbledore, o Director de Hogwarts, para o ajudar na tarefa de destruir a alma de Voldemort, que se encontra espalhada por diversos objectos. Contudo, ao tentar destruir a alma de Voldemort, Dumbledore acaba por ser destruído por ela, e vê-se obrigado a pedir a um colega, Severus Snape, que ponha termo ao seu sofrimento e o mate.

Só resta Harry para, com a ajuda dos Talismãs da Morte (a Pedra da Ressurreição, que ressuscita os mortos, a Varinha de Sabugueiro, que é invencível, e o Manto da Invisibilidade, que é infalível), derrotar definitivamente Voldemort. Mas este antecipa-se e, num dos derradeiros combates, mata Harry, ao lançar-lhe a Maldição da Morte. Contudo, Harry não morre realmente, porque ele é um dos objectos que contêm a alma de Voldemort. Ao tentar matar Potter em bebé, o Senhor do Mal transferiu para a criança uma parte de si. Como essa parte deixou de existir mal Voldemort a matou, Harry pode, apesar de morto, regressar à vida, e acabar de vez com o seu arqui-inimigo. A obra termina com os filhos dos protagonistas a ingressarem, por sua vez, em Hogwarts, onde irão, provavelmente, seguir as pisadas dos seus pais e mães.

O que ganham os nossos jovens com a leitura disto tudo?

Uma coisa é certa: sempre que, na nossa vida, o mundo da sombra usurpa o lugar da luz, todos perdemos.

Tens namorada, Jerónimo?

jer

Tens namorada, Jerónimo?

Ainda sou uma criança. O que não significa que seja um bebé.
Bebé é a minha irmã Rosa, que ainda não sabe andar nem falar, e que faz xixi nas fraldas. Uma coisa é ser-se criança, outra é ser-se bebé.
Gosto de ir ao mercado com os meus pais. Paramos numa e noutra banca a fazer compras.
— Olá, Jerónimo — diz o peixeiro.
— Olá — respondo.
— Então, já tens namorada? Continuar a ler

Tobias e o Anjo – Susanna Tamaro (sugestão de leitura)

Susanna Tamaro
Tobias e o Anjo
Lisboa, Editorial Presença

Marta é uma menina de oito anos que vive só… quer dizer, vive no quarto andar de um grande prédio, nuns subúrbios tristonhos com prédios todos iguais.
Também tem uma televisão, um papá e uma mamã. Só que qualquer destes três nunca parece disposto a escutá-la e muito menos a conversar com ela. Não tem irmãos, mas por sorte o avô vem sempre visitá-la e ensina-lhe muitas coisas.
Por exemplo, que existem por aí portas secretas que as pessoas não vêem porque andam sempre cheias de preocupações.
Marta imagina que há palavras-chave para abrir essas portas e encontrar os mundos maravilhosos de que fala o avô. Porém, para achar essas portas e descobrir as palavras, Marta tem de encontrar o seu próprio caminho…
Tudo começou naquele dia em que o avô não apareceu!

Tobias e o Anjo

Excerto

A voz das coisas

Quantas línguas existem no mundo?», perguntava-se Marta, naquela noite, a sós na cama. Há as línguas que as pessoas falam: francês, alemão, espanhol, chinês, italiano. Para indicar a mesma coisa, usa-se uma palavra diferente em cada país. Mas uma mesa continua a ser uma mesa, um relógio um relógio, uma maçã uma maçã. Apenas varia o som para chamar essas coisas.

Os cães também têm a sua língua. Quase todas as noites, Marta ouvia os seus uivos subir da rua e das varandas do prédio. O do segundo andar, por exemplo, zangava-se por tudo e por nada: bastava o eco de um latido para ele se atirar contra as grades, a rosnar. Era evidente que os cães se compreendiam entre si. Talvez até se compreendessem entre cães de países diferentes. Um cão francês podia conversar com um cão russo e um russo com um esquimó. Não precisavam de estudar línguas para falar uns com os outros.

O mesmo se passava entre gatos, pardais, condores, abutres, hienas, elefantes e láparos. Talvez que até as aranhas e os escorpiões estivessem em condições de se compreender.

Um dia, tinha visto na televisão um documentário sobre este assunto. Havia um aranho que estava apaixonado por uma aranha. A aranha era tão gorda e peluda que dava a impressão de ter uma peruca; dormitava no centro da teia e ele devia ir ter com ela. Às aranhas — explicava uma voz —, a boca só serve para comerem, não têm língua nem garganta, por isso «ele» não podia chamar a sua «ela». A única maneira de se fazer notar era transformar-se numa espécie de músico: com as patas anteriores, dedilhava os fios da teia como se fossem cordas de harpa. Pling plong, meu amor, pling plong, espera, aí vou eu.

Para os aranhos apaixonados, é muito importante ter o ritmo da música no sangue. Devem fazer pling plong e não, por exemplo, pling pling. De facto, basta um pequeníssimo sinal de vibração diferente para que a bela ara­nha, em vez de se voltar para o seu pretendente com um sorriso, lhe salte para cima e o devore num instante. Sim, porque pling pling, para uma aranha esfaimada, quer dizer precisamente isto: — Sou uma mosca e caí na armadilha, come-me, depressa.

No entanto, à parte estes tristes acidentes de percurso, também as aranhas conseguiam, de uma maneira ou de outra, comunicar entre si.

Uma vez, em pleno Inverno, Marta foi passear com o avô para um extenso parque, perto do seu bairro. A relva estava queimada pela geada e as árvores já tinham perdido as folhas. Soprava uma forte nortada e não havia ninguém por ali. A certa altura, o avô parou no meio de um pequeno grupo de carvalhos novos.

— Notas alguma coisa de estranho? — perguntou.

— Não. Ah, sim — respondeu ela —, conservam as folhas. Estão todas secas, mas ainda lá estão.

— Isso mesmo. Os carvalhos nunca deixam cair todas as folhas no Inverno. E sabes porquê?

Marta abanou a cabeça.

— Escuta — disse o avô.

Naquele momento, uma rajada de vento sacudiu os ramos, e dos ramos desceu um tinido seco e leve. Assemelhava-se muito ao barulho da cauda da cobra-cascavel, que tinha visto na TV.

— Ouviste? É a voz do carvalho, no Inverno. Se não fossem as folhas secas, seria muito fácil confundi-lo com um castanheiro-da-índia ou com um ácer. Cada árvore tem a sua própria voz. Só tens que aprender a escutá-la.

O Sol estava a pôr-se e eles encaminharam-se para a saída do parque. Devido ao frio, Marta já não sentia o nariz nem os pés: só a mão que dava ao avô se mantinha quente. De vez em quando, uma lata rolava diante deles, ao mesmo tempo que uns sacos de plástico rodopiavam no ar como medusas tontas.

— Avô! — gritou Marta. — As latas também falam?

— Sim, as latas e os sacos de plástico.

— E as flores?

— As flores também. As flores, as pedrinhas, as conchas…

— E os motores dos automóveis?

— Ah, esses vociferam. Já para não falar dos autocarros…

— E a roupa a secar?

— Também, Marta, também. Se ouvires os lençóis e as peúgas estendidas, podes aprender um poema completo…

Naquele dia, assim que voltaram para casa, Marta abraçou-se a uma perna do avô.

— Avô, mas tu sabes tudo!

O avô fez-lhe uma festa na cabeça.

— Talvez, meu pintainho, talvez.

Permaneceram assim algum tempo, em silêncio, enquanto o relógio de pêndulo da cozinha batia as cinco horas.

Agora, o relógio batia as três. Marta tinha experimentado contar carneiros, mas de nada lhe serviu. Em vez de carneiros prestes a saltar o tapume, via o avô. Apoiava os cotovelos à paliçada e sorria-lhe com doçura. Vestia o habitual casacão bege com gola de pele sintética e tinha os olhos um pouco tristes. Não trazia cachecol. O cachecol, tinha-o Marta nas mãos. O avô tinha-se esquecido dele da última vez que viera visitá-la.

Quanto tempo passara entretanto? Seis dias? Dez? Tinha tentado telefonar-lhe, mas ninguém respondia de casa dele. Não viera na terça-feira, nem na quinta. Eram os seus dias fixos. Semana sim, semana não, vinha também ao domingo.

Marta tinha pegado no cachecol e enrolara-o ao seu urso, como se fosse um sobretudo. Conservava o cheiro do avô. Cheiro a espuma de barbear, a autocarro e a fritos.

Pela janela aberta, entrava o uivo do cão do segundo andar. Ao uivo sobrepôs-se o alarme de um automóvel. Marta mudou de posição: por mais voltas que desse, a cama parecia-lhe feita de alfinetes.

Quatro horas, e o papá sem voltar. A mamã dormia com máscaras nos olhos. A senhora do andar de cima tinha posto a roupa a lavar. Levantou-se uma aragem e os lençóis inflavam como velas de um galeão. Flap flap strr, flap flap schee, sche. A voz do vento, a voz das ondas. Para onde ia partir aquele navio?

O avô tinha razão, cada coisa possui a sua própria voz. Mas também havia coisas sem voz, o futuro, por exemplo, ou as perguntas sem resposta. Havia tantas na sua cabeça! Ao adormecer, Marta viu-as: pareciam luzes a derramar-se numa margem distante. O galeão velejava em direcção oposta, rumo à grande noite silente de um mar sem faróis, de um céu sem estrelas.

A criança que não queria falar – Torey Hayden (sugestão de leitura)

Torey Hayden
A criança que não queria falar
Lisboa, Editorial Presença

Esta é a história verídica e comovente da relação entre uma professora que ensina crianças com dificuldades mentais e emocionais, e a sua aluna Sheila, de seis anos, abandonada por uma mãe adolescente e que até então apenas conhecera um mundo onde fora severamente maltratada.

Excerto

A criança que não queria falar

CAPÍTULO 5

No dia seguinte, decidi que chegara a altura de Sheila participar. O autocarro que a trazia deixava-a em frente do liceu a dois quarteirões e, portanto, Anton fora buscá-la para a trazer até à nossa escola. Quando chegaram, Sheila despiu o casaco e dirigiu-se logo à sua cadeira.

Aproximei-me e sentei-me, explicando que nesse dia lhe seria pedido que fizesse algumas coisas. Examinei o horário do dia com ela e disse-lhe que esperava que se nos juntasse para todas as actividades como no anterior e que esperava igualmente que resolvesse alguns exercícios de cálculo para mim na hora da matemática. Acrescentei que nas tardes de quarta-feira cozinhávamos sempre e, portanto, queria que ela nos ajudasse a fazer bananas com chocolate. Era suposto que fizesse estas duas coisas.

Observou-me enquanto eu falava, com os olhos reflectindo a mesma desconfiança do dia anterior. Perguntei-lhe se compreendia o que eu desejava. Não respondeu.

Durante a discussão da manhã, Sheila juntou-se-nos quando lhe fiz o pedido com um olhar severo. Sentou-se aos meus pés sem fazer nada. O cálculo foi outra história. Eu planeara fazer umas contas simples. Portanto, tirei os cubos da gaveta e disse-lhe para que se aproximasse. Permaneceu no sítio onde estivera para a discussão da manhã.

— Sheila, chega aqui, por favor — pedi indicando-lhe a cadeira de que ela tanto gostava. — Vá lá.

Ela não se mexeu. Anton começou a preparar-se cautelosamente para a apanhar, se ela se esquivasse ante a minha aproximação. Ela apercebeu-se logo do nosso plano e entrou em pânico. Esta criança tinha a fobia da perseguição. Com um grito selvagem, pôs-se a correr, derrubando os colegas e os seus trabalhos, naquela fuga. Contudo, Anton estava muito perto e apanhou-a quase de imediato. Arranquei-a aos braços dele.

— Quando te agarramos, não é para te fazer mal, querida. Não percebes? — Sentei-me com ela, abraçando-a com força, pois ela debatia-se. Escutava-lhe a respiração ofegante e receosa.

— Calma, gatinha.

— Eh, malta — gritou Peter, encantado. — Agora, temos de portar-nos todos bem. — Aquelas pequenas cabeças inclinaram-se sobre os cadernos e Tyler levantou-se, solícita, para inspeccionar o trabalho de Susannah e Max.

Sheila retomou a gritaria, com o rosto afogueado. Mas não chorava. Agarrando-a no colo, espalhei os cubos. Alinhei-os, cuidadosamente, enquanto esperava que ela se acalmasse. — Ouve. Quero que contes uns cubos.

Ela gritou ainda mais alto.

— Conta três para mim. — Ela continuava a tentar soltar-se.

— Vou ajudar-te — prossegui, dirigindo a mão renitente para os cubos. — Um, dois, três. Agora, tenta tu.

Ela agarrou inesperadamente num cubo e atirou-o, com toda a força, pela sala. Num abrir e fechar de olhos, pegou num outro, que atingiu Tyler na testa. Tyler soltou um gemido.

Imobilizei o braço de Sheila contra ela e levantei-me, arrastando-a para o canto.

— Aqui não fazemos essas coisas. Ninguém se magoa uns aos outros. Quero que te sentes nesta cadeira até acalmares e poderes voltar a trabalhar — disse, ao mesmo tempo que fazia sinal a Anton para que se aproximasse. — Ajuda-a a ficar na cadeira, se for preciso.

Voltei para junto das outras crianças, esfreguei a testa dorida de Tyler e elogiei todos por se terem mantido ocupados. Colocando uma marca no placard para indicar a nossa aproximação do gelado de sexta-feira, instalei-me junto de Freddie e ajudei-o a empilhar os cubos. No canto, o diabo andava à solta. Sheila gritava selvaticamente, dando pontapés na parede com os ténis e balançando a cadeira. Anton mantinha um silêncio sombrio, conservando-a firmemente no sítio.

Durante todo tempo reservado ao cálculo, Sheila continuou a armar confusão. Quando o recreio já começara há meia hora, estava cansada de dar pontapés e de lutar. Aproximei-me.

— Estás pronta para vires fazer os exercícios comigo? — perguntei. Ela fitou-me e emitiu um grito furioso e sem palavras. Anton deixara de a agarrar, segurando apenas a cadeira, e fiz-lhe sinal para que se ocupasse dos outros. — Quando estiveres disposta para fazer os exercícios, podes vir. Até lá, quero-te nessa cadeira. — Em seguida, virei costas e afastei-me.

O facto de ficar completamente só sobressaltou-a por um instante e deixou de gritar. Quando tomou consciência de que nem Anton nem eu estávamos por perto para a manter na cadeira, levantou-se.

— Estás pronta para o cálculo? — inquiri do outro lado da sala, onde estava a ajudar Peter a construir uma auto-estrada com os cubos.

— Não! Não! Não! — gritou com uma expressão furiosa.

— Nesse caso, volta a sentar-te.

Guinchou de raiva e a sua repentina mudança de volume fez com que todos parassem. Contudo, ela manteve-se ao lado da cadeira.

— Mandei-te sentar, Sheila. Não podes levantar-te até estares pronta para fazeres os exercícios.

Durante o que me pareceu uma eternidade, gritou com tanta força que senti a cabeça a latejar. Depois, repentina e surpreendentemente, reinou a calma e fulminou-me com o olhar. Um ódio tão visível retirou-me a pouca autoconfiança que tinha em relação ao que estava a fazer.

— Senta-te nessa cadeira, Sheila.

Ela obedeceu. Virou a cadeira de forma a poder observar-me, mas sentou-se. Depois, retomou a gritaria. Emiti um profundo e íntimo suspiro de alívio.

— Sabes, Torey, acho que desta vez devíamos ganhar dois pontos por bom comportamento — declarou Peter, fitando-me. — Ela é difícil de ignorar.

— Acho que tens razão, Peter — anuí com um leve sorriso. — Isto vale dois pontos.

Sheila gritou e berrou durante todo o tempo das actividades. Havia uma hora e meia que continuava aquela barulheira. Batia com os pés no chão e balançava a cadeira. Puxava pela roupa e agitava os pulsos. Contudo, manteve-se na cadeira.

Quando chegou a hora do recreio, estava rouca e tudo o que vinha do canto eram leves grasnidos abafados. No entanto, a sua raiva não diminuíra e os grasnidos de fúria continuaram. Permaneci na sala, enquanto Anton levou os outros para o recreio. Tal aumentou a agitação de Sheila durante uns momentos. Emitiu mais alguns gritos e fez girar a cadeira em todos os sentidos. Estava, porém, a ficar cansada. No final do recreio, tinham deixado de se ouvir quaisquer sons vindos do canto. Sentia a cabeça a latejar.

Não repeti as condições para ela sair do canto. Achava que era inteligente bastante para as saber e não queria dar-lhe mais atenção do que aos outros. As crianças entraram, geladas e de faces afogueadas do recreio, cheias de histórias sobre o jogo da cabra-cega na neve com Anton, que fora sempre apanhado. O período de leitura iniciou-se sem novidade, cada um de nós entregue às suas tarefas, como se o montinho de carne sentado na cadeira, ao canto, não existisse.

Quase no final do período de leitura, senti um leve toque no meu ombro, quando estava a trabalhar com Max. Virei-me e deparei com Sheila, de pé, atrás de mim, a pele manchada de ansiedade, o rosto franzido com aquela expressão desconfiada, que os seus olhos tantas vezes reflectiam.

— Estás disposta a fazer os exercícios?

Premiu os lábios durante um momento e depois assentiu devagar com a cabeça.

— Muito bem. Vou pedir à Sarah que ajude o Max. Vai apanhar os cubos que atiraste ao chão e tira os outros do armário junto ao lava-louças.

Falei-lhe num tom casual e desprendido, como se fosse normal esperar que ela obedecesse, embora sentisse um aperto no coração. Ela fitou-me atentamente, mas em seguida foi fazer o que lhe pedira.

Sentámo-nos juntas na alcatifa e espalhei os cubos.

— Mostra-me três cubos.

Ela pegou em três com gestos cautelosos.

— Mostra-me dez.

De novo, dez cubos foram alinhados na alcatifa na minha frente.

— Boa menina. Conheces bem os números, verdade?

Ela ergueu o rosto com uma expressão ansiosa.

— Vou dificultar a tarefa. Conta-me vinte e sete. — Segundos depois, surgiram vinte e sete cubos.

— Sabes somar?

Ela não respondeu.

— Mostra-me quantos cubos são dois mais dois. — Quatro cubos surgiram sem hesitação. Observei-a durante um momento. — Que tal três mais cinco? — Ela alinhou oito cubos.

Ignorava se ela sabia mesmo as soluções, ou se as ia encontrando. Mas compreendia, sem dúvida, a mecânica por trás da adição. Hesitava quanto a ir buscar uma folha e lápis, dado conhecer a sua tendência para destruir papel. Não queria estragar a nossa frágil e recém-conquistada relação. Mas queria saber como é que ela resolvia os problemas. Portanto, decidi mudar para a subtracção, o que me daria mais indicações.

— Mostra-me três menos um.

Sheila alinhou rapidamente dois cubos. Sorri. Era óbvio que conhecia este problema sem ter de colocar três cubos e tirar um.

— Mostra seis menos quatro.

De novo, dois cubos.

— Eh! És muito esperta. Mas tenho um problema para ti em que vou apanhar-te. Mostra-me doze menos sete.

Sheila ergueu o rosto na minha direcção e um leve vestígio de sorriso brilhou-lhe nos olhos, embora não lhe chegasse aos lábios. Colocou um, dois, três, quatro, cinco cubos em cima uns dos outros. Fê-lo, sem sequer olhar para os cubos. «A diabinha», pensei. Onde quer que tivesse estado nestes últimos anos e o que quer que tivesse feito, também aprendera. Tinha capacidades superiores às de uma criança normal da sua idade. Não hesitara uma fracção de segundo, antes de colocar os cubos. O coração pulou-me de alegria ante a hipótese de ter uma criança inteligente debaixo de toda aquela revolta e sujidade.

Resolveu mais alguns exercícios antes de eu lhe dizer que chegava e ela podia largar os cubos. Agora, era o período de leitura e dissera-lhe, de manhã, que ela não tinha de participar nesta activi­dade. Levantei-me para me ocupar das outras crianças e Sheila levantou-se também. Foi atrás de mim, sem largar a caixa dos cubos.

— Podes largá-los, se quiseres, querida — disse, virando-me para ela. — Não precisas de andar com eles atrás de ti.

Sheila tinha outras intenções. Quando voltei a erguer a cabeça, ela estava na sua cadeira favorita no canto oposto da mesa com os cubos espalhados na sua frente. Manipulava-os, muito ocupada, fazendo algo, mas eu não sabia o quê.

O almoço pareceu deprimi-la novamente e Sheila regressou ao seu posto na cadeira. No entanto, quando chegou a hora de cozinhar, convencia-a facilmente a aproximar-se, estendendo-lhe uma banana num pau de chupa-chupa.

Todas as quartas-feiras preparávamos algum prato. Organizara esta actividade por várias razões. Para as crianças mais evoluídas, era um bom exercício de cálculo e leitura. Para todos, encorajava a actividade social, a conversa e trabalho de conjunto. Além de que cozinhar era divertido. Uma vez por mês, pegávamos numa receita favorita das crianças e esta tarde era bananas com chocolate, uma receita que consistia em enfiar uma banana num pau, mergulhá-la em chocolate, enrolá-la numa cobertura e pô-la a congelar.

Para simplificar as coisas, resolvera não experimentar uma receita nova no primeiro dia de Sheila e as bananas com chocolate eram um bom recurso. Quase todas as crianças conseguiam manejar os ingredientes sem ajuda. Até mesmo Susannah conseguia fazer tudo, sob a supervisão atenta de Max e Freddie. Havia, obviamente, chocolate por tudo o que era sítio e uma boa parte das coberturas era devorada antes de encontrarem uma banana onde a colocarem, mas passávamos momentos maravilhosos.

Sheila hesitou em juntar-se-nos, agarrando a banana com firmeza e olhando de lado os outros, que tagarelavam alegremente. Contudo, não ofereceu resistência e Whitney atraiu-a até junto do molho de chocolate, quando todos já haviam acabado. Depois de começar, Sheila absorveu-se por completo na tarefa e começou a tentar enrolar quatro coberturas diferentes na sua pegajosa banana.

Eu observava-a do canto oposto da mesa. Nunca falou, mas tornou-se visível que ela tinha ideias muito claras quanto a fazer que as coberturas colassem, voltando a mergulhar a banana no chocolate depois de a envolver em cada cobertura. As outras crianças começaram a parar uma a uma para a observar enquanto ela experimentava a sua ideia. As vozes transformaram-se num sussurro, à medida que a curiosidade levava a melhor. Enrolando a grande e pegajosa massa no prato com a última cobertura, ergueu-a com cuidado. Os seus olhos encontraram os meus e um sorriso estampou-se-lhe devagar no rosto e atravessou-o de um lado ao outro, mostrando os espaços onde lhe faltavam os dentes de baixo.

No final de cada dia tínhamos actividades que, à semelhança do tópico da manhã, se destinavam a unir-nos e a preparar-nos para o tempo de separação. Uma delas era a Caixa do Duende.

Eu adorava inventar histórias para contar às crianças e dissera-lhes, uma vez, no início do ano, que os duendes eram como fadas, mas viviam nas casas das pessoas e cuidavam das coisas, enquanto elas dormiam. Peter sugerira que talvez houvesse um duende na nossa sala que cuidava das nossas coisas e fazia companhia durante a noite a Benny, Charles e Onions, o coelho irascível. Tal deu azo a uma série de histórias sobre o nosso duende.

Assim, um dia, eu trouxe uma grande caixa de madeira e expliquei às crianças que era este o sítio onde o duende passaria a deixar mensagens. Garanti que ele nos vira a trabalhar e ficara muito satisfeito ao verificar como todos na sala se iam tornando bons e ponderados. Por conseguinte, sempre que assistisse a uma boa acção, deixaria uma mensagem na caixa.

No final de cada dia, eu lia, portanto, os bilhetes da Caixa do Duende. Passados uns dias, disse-lhes que o duende estava a ficar com cãibras e precisava de uma ajuda, porque havia tantos a praticar boas acções. Pedi aos miúdos que estivessem de olho nas boas acções dos outros, escrevessem um bilhete e o metessem na caixa, ou, caso não soubessem escrever, viessem ter comigo e eu escreveria por eles.

Foi assim que começou a funcionar um dos nossos mais populares e eficazes exercícios. Todas as noites havia cerca de trinta bilhetes das crianças sobre boas acções que observavam nos companheiros. Tal não só encorajava as crianças a observarem comportamentos positivos nos outros, mas também rivalizavam em bondade com a esperança de verem o seu nome aparecer na caixa ao fim do dia.

Alguns bilhetes eram tradicionais, mas outros denotavam especial perspicácia no elogio de uma criança devido a pequenos mas significativos actos, às vezes por coisas que nem eu havia notado. Por exemplo, Sarah foi elogiada por não ter usado um seu palavrão favorito durante uma discussão e Freddie foi elogiado por procurar um lenço de papel, em vez de se assoar à camisa.

Eu adorava abrir a caixa todas as noites, pois raramente contribuía para ela, à excepção de me certificar de que todos recebiam, pelo menos, um bilhete. A emoção de ver o que as crianças haviam observado era algo excitante. E confesso que também me agradava encontrar um bilhete que me fosse dirigido.

A leitura das mensagens, depois de cozinharmos na quarta–feira, foi particularmente agradável, porque, pela primeira vez, apareceu o nome de Sheila escrito com uma caligrafia que não era a minha. Sheila, que se mantinha sentada longe de nós, conservou a cabeça baixa, enquanto as outras crianças batiam palmas de satisfação com as suas mensagens. Contudo, aceitou prontamente os bilhetes, quando lhos entreguei.

Anton acompanhou as outras crianças até aos autocarros quando as aulas acabaram. Sentei-me à mesa para classificar uns papéis e actualizar uns gráficos de comportamento que estava a elaborar sobre algumas crianças.

Sheila fora à casa de banho para limpar os restos de banana com chocolate da cara. Já se mantinha lá há algum tempo e eu embrenhara-me no meu trabalho. Ouvi o som do autoclismo e ela saiu. Não levantei a cara, porque estava a completar o traçado de uma curva com um marcador e não queria cometer um erro. Sheila aproximou-se da mesa e observou-me por um momento. Depois, chegou-se mais, apoiando os cotovelos em cima da mesa e inclinando-se de forma a ficarmos apenas uns centímetros separadas. Ergui os olhos e fitei-a. Ela examinou atentamente o meu rosto.

— Por que é que as outras crianças não vão à sanita?

— O quê? — retorqui, surpreendida.

— Disse por que é que os outros, embora sejam crescidos, fazem nas calças e não na sanita?

— Bom. É uma coisa que ainda não aprenderam.

— Como assim? São grandes. Mais crescidos que eu.

— Bom, ainda não aprenderam. Mas estamos a trabalhar nisso. Todos estão a tentar.

Sheila baixou os olhos para o gráfico que eu estava a traçar. — Mas já deviam ter aprendido — insistiu. — O meu pai dava-me uma grande tareia se eu fizesse isso.

— Toda a gente é diferente e aqui ninguém apanha.

Ficou pensativa durante um longo momento e traçou um pequeno círculo na mesa com o dedo.

— Isto é uma sala de malucos, não é?

— Não propriamente, Sheila.

— O meu pai diz que sim. Diz que sou maluca e que me puseam numa aula para crianças malucas. Diz que isto aqui é uma sala para crianças malucas.

— Não propriamente.

— Não me interessa muito — retorquiu, depois de uma pausa com a testa franzida. — Este sítio é tão bom como qualquer outro onde estive antes. Não me interessa que seja uma sala de malucos.

Fiquei um pouco à toa, sem saber como negar o óbvio. Não esperara ver-me envolvida com uma das minhas crianças neste tipo de discussão. A maioria não era coerente bastante para ter essa percepção nem suficientemente corajosa para o afirmar.

— Tu seres maluca? — perguntou Sheila, coçando a cabeça e olhando-me com um ar pensativo.

— Espero que não. — Ri-me.

— Como é que fazes isto?

— O quê? Trabalhar aqui? Porque gosto muito de meninos e meninas e acho que ensinar é divertido.

— Como é que estás com crianças malucas?

— Porque gosto. Ser louco não é mau. E apenas diferente, nada mais.

Sheila abanou a cabeça sem sorrir e endireitou-se.

— Acho que também seres maluca — concluiu.

Uma viagem espiritual – Nicholas Sparks (sugestão de leitura)

Billy Milles; Nicholas Sparks
Uma viagem espiritual
Lisboa, Editorial Presença

David nunca esqueceria aquele Verão. Era então um rapazinho, que acabara de perder a sua irmã. Depois da morte da mãe, anos antes, ela era a fonte da sua alegria de viver. E agora que a perdera, o jovem índio mergulhara num desespero sombrio, e o seu pai começara a inquietar-se. Tinham sido anos muito duros, aqueles… felizmente, àquela família índia, discriminada pelos novos americanos, restava ainda o legado das suas tradições ancestrais. O pai viu o pesar que consumia o filho e compreendeu. Entregou-lhe o rolo de pele pintado à mão, gasto pelos anos. Daquelas imagens e símbolos emanava um poder misterioso. Foi esse o ponto de partida para uma estranha viagem, que mudou para sempre a vida de David. Continuar a ler

«Que haverá nos livros?»

«Que haverá nos livros? – costumava perguntar a mim mesma, quando tinha três ou quatro anos, sentada no meu banquinho na livraria dos meus avós.

Atrás da caixa, sentava-se a avó. Do outro lado do balcão, a minha mãe esperava os clientes. Por detrás dela, as estantes chegavam até ao tecto e, para se poder alcançar os livros das prateleiras de cima, uma grande escada, suspensa de uma barra de ferro por dois ganchos, deslizava da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Não pensem que me aborrecia! Quando um cliente entrava na loja, eu punha-me a adivinhar irá escolher um livro das estantes inferiores ou interessar-se-á por algum colocado nas de cima?

Jovem, ágil e inteligente, a minha mãe sabia onde se encontrava cada livro, subia a escada se necessário, descia com um livro de capa azul, vermelha ou dourada e colocava-o diante do comprador. Eu sentia-me orgulhosa da minha mãe e cada vez me interessava mais e mais pelo que pudesse existir nos livros. Nas filas de baixo, também os havia de capa azul, vermelha ou dourada, cheios de letras negras, pequeninas, mas nenhum tinha desenhos tão bonitos como os meus!

Em minha casa toda a gente lia. A minha mãe, o meu pai, os meus avós. Ao observar os seus rostos inclinados sobre um livro, ao ver que às vezes sorriam, que outras vezes se punham sérios, e que em certos momentos viravam a página com uma atenção tensa, interrogava-me: Por onde andarão? Se lhes falo, não me ouvem e, quando por fim me prestam atenção, parecem acabados de sair de algum lugar distante. Por que não me levam com eles? Que existe afinal nos livros? Qual é o segredo que não me querem contar?

Mais tarde aprendi a ler. E descobri, enfim, o segredo dos livros. Descobri que neles estava tudo. Não apenas fadas, gnomos, princesas e bruxas malvadas. Também lá estávamos tu e eu com todas as nossas alegrias, as nossas preocupações, os nossos desejos, as nossas tristezas; o bem e o mal, a verdade e a falsidade, a natureza, o universo. Tudo isso cabe nos livros. Abre um livro! Ele partilhará contigo todos os seus segredos.»

Éva Janikovszky Malasartes
Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude, nº 5.
Porto, Campo das Letras, 2001

Gritos contra a indiferença – Fernando Nobre (sugestão de leitura)

Fernando Nobre
Gritos contra a indiferença
Lisboa, Temas e Debates

 (Excerto)

Como não me inquietar quando vejo a paz global tão ameaçada e os Direitos Humanos tão espezinhados? Como não interpelar quando assisto à degradação contínua do nosso planeta Terra e ao seu esgotamento, provocado por uma ganância louca, sem freio nem nexo? Como não me assustar quando penso nas tragédias em curso na Palestina, no Afeganistão e no Iraque (e em breve no Irão) e assisto ao aniquilamento do Direito Internacional, impotente perante as espúrias situações de Guantánamo e dos voos da US até na minha Europa ainda democrática? Como não gritar quando ouço falar como inevitável, e sem retrocesso possível, de um confronto atómico e que penso nos milhões de mortos e de refugiados que um tal apocalipse acarretaria? Como não me questionar sobre o futuro da acção humanitária e os desafios e perversões que encontra?

 

A geopolítica do caos e da fome*

 

De regresso de várias viagens à Guiné-Bissau (via Senegal) durante o último Verão, para apoio às populações vítimas da guerra, de uma estada no Bangladesh onde a AMI está a financiar um projecto junto dos miseráveis deslocados pelas recentes inundações, de uma passagem por Nova Iorque a convite da Fundação Konrad Hilton para participar num seminário sobre «O Humanitário e o século xxI» e de uma missão humanitária nas Honduras para socorrer as vítimas do ciclone Mitch, devo confessar que concordo com o senhor Ignacio Ramonet, director do Le Monde Diplomatique: «Estamos a caminho do caos.» Ou paramos já — para escutarmos e socorrermos os gritos de desespero de três quartos da população mundial, para olhar e ver os erros cometidos nomeadamente na defesa do Homem e do meio ambiente e para pensarmos no que realmente queremos fazer do nosso mundo — ou todo este frenesim descontrolado pode levar-nos ao caos global.

Hoje, os políticos, os economistas e os financeiros estão todos ultrapassados, tentando no máximo gerir o dia-a-dia, em virtude da rapidez com que a globalização se fez e da instantaneidade com que os colossais fluxos financeiros se movimentam, desestabilizando regiões inteiras num jogo virtual especulativo, perverso e perigosíssimo para o mundo inteiro. Estamos em equilíbrio muito instável em cima de um castelo de cartas que pode ruir de repente, levando consigo toda esta aparente e falsa tranquilidade. A falência do banco Barings e os efeitos do El Niño e da El Niña já deviam ter sido suficientes, entre muitos outros sinais de alerta, para nos chamar à razão e ao bom senso!

As revoluções tecnológica (tendencialmente desumanizante), económico-financeira (um verdadeiro jogo, como no «mercado dos futuros») e social (a crise global do poder/desemprego) em curso estão a levar ao domínio total do financeiro sem rosto sobre o político, o social, o ético e o moral com todas as suas terríveis consequências. Sem querer ser o velho do Restelo, grito: «Alerta Cuidado!»

Com tanto miserável no nosso mundo, onde trezentas pessoas acumulam mais riqueza do que três biliões (50 por cento da população mundial), onde o fosso entre o Norte e o Sul nunca foi tão abissal, onde as disparidades sociais nos países ditos civilizados e desenvolvidos nunca foi tão grande, isso só pode rebentar. Quando? Não sei! Só sei que assim não vamos a parte nenhuma. É tempo de inverter a marcha funesta que nos tem conduzido. Por favor, é preciso bom senso.

Após ter estado no intervalo de um mês em Gabu, na Guiné, em Nova Iorque e na sua frenética Wall Street, em Bogra, no Bangladesh, e em Tegucigalpa, nas Honduras, sinto-me em estado de choque. Não aceito tão fantásticas disparidades: não é humanamente suportável. Não consigo conviver com isso sem gritar a minha angústia, revolta e indignação e sem tentar, convosco, fazer algo de positivo pelos sofredores, pelo nosso mundo.

Peço-vos, pois, para reagirem. À escala individual, sejamos solidários. Não à indiferença, não à intolerância, não ao caos que alguns estão a fazer a tantos, em nome de coisa nenhuma a não ser a insensatez e a cobiça. Temos, cada vez mais, de continuar juntos a nossa luta. Só ela dá sentido à vida.

 * Editorial AMI Notícias, n.º 14, Dezembro de 1998.

O azulejo bumerangue – Jorge Bucay

Jorge Bucay
Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver.
Cascais, Editora Pergaminho

 

Damião é um rapaz curioso e inquieto, que deseja saber mais acerca de si mesmo. Esta busca leva-o a conhecer Jorge, “o gordo”, um psicanalista muito invulgar que o ajuda a enfrentar a vida e a encontrar as respostas que procura através de um método muito pessoal: em cada sessão, conta-lhe um conto. São contos clássicos, modernos ou populares, reinventados pelo psicanalista para ajudar o seu jovem amigo a esclarecer as suas dúvidas. Trata-se de histórias que nos podem ajudar a todos a compreender-nos melhor a nós próprios, a ponderar as nossas relações e a ver os nossos temores com outros olhos.

(Excerto)

O azulejo bumerangue

Naquele dia, eu estava muito irritado. Estava de mau humor e tudo me incomodava. A minha atitude no consultório foi lamurienta e pouco produtiva. Detestava tudo o que fazia e tudo o que tinha. Mas, acima de tudo, estava aborrecido comigo mesmo, como num conto de Papini que o Jorge me leu, naquele dia eu sentia que não conseguia suportar «ser eu mesmo».

— Sou um estúpido — disse-lhe (ou disse para mim próprio). — Um imbecil… Acho que me detesto.

— És detestado por metade da população deste consultório. A outra metade vai contar-te uma história.

Era uma vez um homem que andava sempre com um azulejo na mão. Tinha decidido que, quando alguém o irritasse a ponto de ficar cheio de raiva, lhe daria com o azulejo na cabeça. O método era um bocado troglodita, mas parecia eficaz, não achas?

Acontece que se cruzou com um amigo muito prepotente, que lhe falou com maus modos. Fiel à sua decisão, o homem pegou no azulejo e atirou-lho à cabeça.

Não me lembro se lhe acertou ou não. Mas acontece que, depois disso, o facto de ter de ir buscar o azulejo depois de o arremessar lhe pareceu um bocado incómodo. Decidiu, então, inventar o «Sistema de Autopreservação do Azulejo», como lhe chamou. Atou um cordel de um metro ao azulejo e saiu para a rua. Isto permitia que o azulejo nunca se afastasse demasiado, mas rapidamente o homem constatou que o novo método também tinha os seus problemas: por um lado, a pessoa destinatária da sua hostilidade tinha de estar a menos de um metro de distância e, por outro, depois de atirar o azulejo, era obrigado a recolher o fio que, além do mais, muitas vezes se enredava e fazia nós, com todas as chatices que daí decorriam.

Foi então que o homem inventou o «Sistema Azulejo III». O protagonista continuava a ser o mesmo azulejo, mas, neste sistema, em vez de estar atado a um cordel, estava atado a um elástico. Agora, o azulejo podia ser lançado uma e outra vez e voltaria sempre para trás, como um bumerangue, pensou o homem.

Quando saiu de casa e recebeu a primeira agressão, atirou o azulejo. Mas foi um fiasco total: quando o elástico entrou em acção, o azulejo voltou para trás e acertou em cheio na cabeça do próprio homem.

Tornou a tentar e levou segunda vez com o azulejo na cabeça por ter medido mal a distância.

À terceira, foi por ter atirado o azulejo fora de tempo.

A quarta vez foi muito sui generis, porque, depois de ter decidido bater na vítima, arrependeu-se e tentou protegê-la, acabando por levar com o azulejo na cara.

Ficou com um galo enorme…

Nunca se soube porque é que o homem nunca conseguiu acertar com o azulejo em alguém: se foi por causa das pancadas que levou, ou se por uma alteração no seu ânimo.

Todas as pancadas acabaram sempre por ser auto-infligidas.

— Chama-se a este mecanismo retroflexão: basicamente porque consiste em proteger os outros da nossa própria agressividade. Sempre que o pomos em prática, a nossa energia agressiva e hostil detém-se antes de chegar ao outro, através de uma barreira que nós impomos a nós próprios. Esta barreira não absorve o impacto, limita-se a reflecti-lo. E toda essa irritação, todo esse mau humor e agressividade se viram contra nós mesmos, através de comportamentos reais de auto-agressão (autolesionar-se, enfardar-se de comida, consumir drogas, correr riscos desnecessários) e, outras vezes, através de emoções ou sentimentos dissimulados (depressão, culpa, somatização).

É muito provável que um utópico ser humano «iluminado», lúcido e íntegro nunca se irrite. Seria óptimo para nós se nunca perdesse-as estribeiras, no entanto, uma vez que sentimos raiva, ira ou irritação, a única maneira de nos livrarmos delas é arrancando-as cá para fora transformadas em acção. Caso contrário, a única coisa que conseguimos, mais cedo ou mais tarde, é irritarmo-nos com nós próprios.

Pequenos assassinos – Matt Whylman (sugestão de leitura)

Matt Whylman
Pequenos assassinos
Porto, Campo das Letras

Por vezes as armas falam mais alto do que as palavras.
É pelo menos nisso que Sonny e Alberto acreditam. Na cidade onde vivem, parece que as únicas pessoas que merecem respeito são os traficantes de droga.
Os traficantes são ricos.
São poderosos.
Não têm medo de ninguém.
De modo que Alberto não pode deixar de ficar contente quando um dia é contratado como assassino a soldo por um traficante.
A sua família nunca mais irá ter fome. E ele vai passar a ser uma figura importante.
A vida parece ter finalmente começado.
Mas nesta violentíssima cidade da América Latina os assassinos de palmo e meio são descartáveis. E não demorará muito até que Alberto e Sonny o descubrirem.
Continuar a ler

Madassa – o menino que não conseguia aprender a ler

Madassa

Madassa não sabia ler nem escrever.
Madassa tinha a idade que as crianças têm quando sabem ler e escrever.
Mas Madassa não sabia ler nem escrever.

Na cabeça de Madassa não havia lugar para palavras.
Na cabeça de Madassa habitava apenas o medo, escuro e negro, causado pelos barulhos da guerra, e pelos mortos, muitos mortos.

Na cabeça de Madassa vivia uma raiva imensa cheia de porquês.
Como se as perguntas fossem garras dilacerantes.
Na cabeça de Madassa pairava um nevoeiro de tristeza.
Tão espesso que ele não conseguia lembrar-se sequer da cara do irmão ou da irmã, cujo paradeiro ninguém conhecia.

Havia dias em que, na cabeça de Madassa morava a mesma fome que lhe enchia o ventre. A negrura do medo, as garras da raiva, o nevoeiro da tristeza – e, em certos dias, a fome – ocupavam toda a cabeça de Madassa.
Na cabeça de Madassa não havia lugar para as palavras.

A professora já não sabia o que fazer para ajudar Madassa.
Quanto tinha tempo, lia-lhe histórias que ele sozinho não conseguia ler.
Lia-lhe a história do Pequeno Polegar, que tivera tanto medo na floresta.
E o medo do Polegarzinho passeava pela cabeça de Madassa.
Lia-lhe a história de Martinho , que estava sempre irritado.
E a irritação do rapaz era igual à que existia na cabeça de Madassa.
Lia-lhe a história da Menina dos Fósforos.
E a tristeza da Menina chorava na cabeça de Madassa.
A professora contava-lhe também a história de Pedro e a Lua, do menino que queria fazer florir a terra inteira com plumas de pássaro.
E as plumas dançavam na cabeça de Madassa.

E, entretanto, o que acontecia na cabeça de Madassa?
O medo do Polegarzinho deixava palavras para exprimir o medo.
A cólera de Martinho deixava palavras para exprimir a cólera.
A tristeza da Menina dos Fósforos deixava palavras para exprimir a tristeza.
A dança das palavras de Pedro e a Lua deixava palavras que davam vontade de dançar.

Certa manhã, as palavras, fortemente agitadas, não quiseram ficar na cabeça de Madassa.
Então, o menino pegou num caderno, numa caneta, e, embora desajeitadamente, como uma criança que aprende a andar, escreveu:

Madassa medo
Madassa cólera
Madassa tristeza

Madassa por entre as ervas
Madassa ao vento
Madassa na água

Madassa cinzento preto azul
Madassa vermelho amarelo preto
Madassa cinzento amarelo verde

Madassa galo tigre
Madassa sol

─ Um poema! ─ exclamou a professora. ─ Escreveste um poema!

Então escrever é isto!
Pegar nas palavras das histórias e transformá-las nas palavras de Madassa.
Mas é preciso ler muitas histórias para ter muitas palavras.

Madassa começou a ler.
E a escrever também.
Quanto mais lia, mais escrevia.
Quanto mais escrevia, mais vontade tinha de ler.
Era um círculo mágico.

Madassa não sabia ler nem escrever.
Mas enchia agora cadernos e mais cadernos.
Talvez um dia escrevesse um livro.

Madassa escritor.

Michel Séonnet
Madassa
Paris, Ed. Sarcabane, 2003
(Tradução e adaptação)

Os saris da minha mãe (história indiana)

Os saris da minha mãe

— Quando é que vou poder vestir um sari? — perguntei à minha mãe, saltando para cima da sua cama.
A minha mãe pegou numa mala de couro, dentro da qual guarda todos os seus saris, e que está sempre debaixo da cama. A mala contém o sari de cetim amarelo que ela usou na festa do bebé da Uma Didi, o sari cor de pêssego, que é fino como uma teia de aranha, e o meu favorito, o sari vermelho do seu casamento. Só o vi uma vez, porque está cuidadosamente embrulhado num velho lençol de cama.
— Podes vestir saris quando fores mais velha — disse a minha mãe, abrindo a mala.
— Mas hoje faço sete anos e vamos ter uma festa! Por isso é que estás a usar um sari.
A minha mãe só abre esta mala em dias especiais. A mãe dela, a Nanima, usa um sari todos os dias, mesmo quando dorme. As dobras e os recantos dos saris da Nanima estão cheios de segredos. Neles encontro moedas, alfinetes de segurança, e o seu odor permanente a sabonete de sândalo.
A minha mãe corre o fecho da mala e eu tento absorver todas as cores que ela encerra.
— Ajudas-me a escolher um sari? — pede.
— Claro que sim — respondo.
Talvez ela me deixe escolher um também.
— Que tal me fica este? — pergunta, segurando um sari cor de púrpura junto do rosto.
— Oh mãe, pareces uma beringela — rio.
— E este?
A minha mãe desenrola um sari de seda preta que brilha como um céu estrelado.
— Esse não, porque já o usaste na festa de anos da Devi Masi.
— Não acredito que te lembres disso tudo!
Mas é verdade que me lembro de todos os saris que a minha mãe usou. Ainda me lembro do sari cor de lavanda, que ela vestiu na festa do Diwali, e do sari cor de magenta com veados bordados, que ela vestiu no dia em que a Nanima nos fez a primeira visita.
A minha mãe fica lindíssima com saris. São tão diferentes das camisolas cinzentas e das calças castanhas que veste todos os dias para ir trabalhar.
— E este? — pergunto, apontando para um sari que nunca tinha visto.
Parece uma bola de fogo laranja e as pontas vermelhas parecem ter sido mergulhadas em tinta vermelha. A minha mãe sorri:
— Usei esse sari no dia em que te trouxemos do hospital. Todos os teus tios e tias vieram dar-te as boas vindas.
— Veste-o hoje outra vez!
A minha mãe desenrola-o e molda-o ao corpo. O sari brilha como o sol poente.
Olho para as minhas roupas e sinto-me desinteressante em comparação.
— Porque não posso usar um sari?
— Os saris são para mulheres adultas. Mesmo que o dobrasses várias vezes, acabarias por tropeçar nele.
— Nunca me deixas fazer nada. Ontem, disseste-me que não podia ir para a escola com sapatos de festa, embora todos os dias calces tacões para ir trabalhar.
— Porque não usas a tua chanya choli? — sugeriu. — Disseste-me que os espelhos da saia te faziam parecer uma princesa.
— Não quero. Já tenho idade para usar um sari. Já não preciso de luz de presença no quarto e consigo servir-me de leite de manhã sem entornar uma gota.
A minha mãe ficou calada durante algum tempo. Depois disse:
— Lembro-me da primeira vez que usei um dos saris da minha mãe. Senti-me tão crescida!
— Por favor, mamã, deixa-me escolher um — sussurro. — Até sei qual quero usar.
— Bem, estás a ficar mais alta e talvez consigamos segurar as dobras com muitos alfinetes. Mas só vestes o sari hoje, porque fazes anos.
— E posso vestir outro quando fizer oito anos? Nessa altura, já serei tão alta como tu!
A minha mãe ri e começa a mostrar-me os saris, um a um. Quando só resta um no fundo da mala, exclamo:
— É esse mesmo! O azul com flores douradas nas pontas.
— Põe-te de pé em cima da cama — pede a minha mãe.
Depois, começa a enrolar o sari em volta do meu corpo. Quando tento ver-me ao espelho, avisa:
— Espera, ainda não estás pronta!
De uma latinha em forma de coração que tem no armário, tira algumas pulseiras em ouro. Coloca seis no meu braço, que caem no chão a tilintar quando o estico.
— Temos de pedir à Nanima que nos envie pulseiras que condigam com este sari — brinca a minha mãe.
— Já posso ver-me ao espelho? — peço.
— Só mais uma coisa — responde a minha mãe, abrindo uma gaveta da cómoda.
Dela retira uma pequena caixa que contém alguns bindis de cores e feitios diferentes. Pega num prateado e coloca-o bem no meio das minhas sobrancelhas.
— Já podes olhar.
Debruço-me sobre o espelho, pegando no sari com cuidado.
— Que tal?
Sinto-me a flutuar num oceano de azul. O material reluzente faz-me brilhar. É tão bonito que digo, dedilhando a borda do sari:
— Acho que estou parecida contigo, mãe!

Pooja Makhijani; Elena Gomez
Mama’s Saris
New York, Hachette Book, 2007
(Tradução e adaptação)

* * * * *

GLOSSÁRIO DE PALAVRAS EM HINDI

Bindi – sinal decorativo que as mulheres hindus usam na testa. Antigamente, era sempre um sinal vermelho e simbolizava o estatuto da mulher casada. Hoje em dia, é considerado um acessório de moda e não conhece restrições de cor ou feitio.

Chanya choli – conjunto de saia larga e blusa justa, tradicionalmente usado pelas mulheres dos estados do Gurajat e do Rajastão.

Didi – termo respeitoso usado para com uma irmã mais velha, uma prima, ou uma amiga.

Diwali – significa “fiadas de luzes acesas”. É o festival da renovação da vida, o Festival das Luzes, no qual é comum as pessoas usarem roupas novas. É uma altura em que as famílias acendem lâmpadas de azeite e as colocam em torno das casas, para dar as boas vindas ao novo ano.

Masi – a irmã da mãe.

Nanima – a mãe da mãe.

Sari – o traje tradicional das mulheres indianas. Um sari é um pano de 6,30m de comprimento e 1,20m de largura, cujos estilo, cor e textura variam muito. Pode também ser dobrado de forma diferente, conforme o estatuto, a idade, a profissão, a religião e a região da mulher.

As sextas-feiras de Nana

As sextas-feiras de Nana

As noites de sexta-feira em casa da avó Nana começam logo de manhã cedo na cozinha. Nós comemos pão com doce de pêssego, que é o preferido dela e o meu.

Nana sorve chá, que está muito quente, e sopra para dentro da taça antiga de porcelana chinesa, fazendo ondinhas.

— Hoje não tenho escola! — digo a cantar. — Que sorte a minha!

— Hoje não tens escola! — responde. — Que sorte a MINHA!

— Agora fala-me da noite de hoje – peço.

— Vem a família toda! Vem para o Sabbath e nós temos muito que fazer!

Nana apressa-se a fazer a cama e a limpar os quartos. Eu estou encarregada de alisar as almofadas.

Nana lava as porcelanas chinesas e passa a ferro os vincos da renda da toalha de mesa. Eu dobro guardanapos com bordos de renda.

Nana inspecciona se faltam botões no seu vestido de Sabbath, azul marinho, de gola branca e punhos brancos também.

— É altura de fazer a tarte? — pergunto.

— Daqui a pouco, Jennie.

Eu puxo e volto a puxar o lustro a dois candelabros.

— Já é altura agora?

— É – diz Nana, estendendo a massa, e eu deito açúcar nas maçãs para a tarte. Em seguida, ela entrança os challah* e mete-os no forno.

Ao meio-dia comemos sandes no parque, perto do rio. Bebemos também uma chávena de cacau.

O céu está cinzento e o vento sopra do rio, levantando-nos o cabelo, e nós dançamos para nos mantermos quentes, com os ponchos vestidos e as luvas calçadas.

Depois, andamos pela cidade de mãos dadas, à procura de flores roxas, que são as preferidas da Nana e as minhas.

— Oh, obrigada! — diz Nana.

— Obrigada — repito, saltitando pelo passeio com as flores.

Quando regressamos a casa da Nana, pomo-las numa jarra alta com água.

— É altura de nos vestirmos? — pergunto.

— Daqui a pouco, Jennie.

Mais para o fim da tarde, a casa está toda esfregada, a sopa de cevada já ferve e os challah estão a arrefecer. O frango aloura no forno e as batatas também.

— Agora já é altura?

— É — diz Nana. Nós vestimos os nossos vestidos, ambos azul-marinho. Os sapatos também são azuis. Nana põe batom nos lábios, olhando-se ao espelho.

Pomos a mesa, contamos os talheres de prata e as taças da sopa, os copos que cintilam. Nana pica o frango para ver se está tenro.

Lá fora escurece.

— Nana, olha! Neve!

A campainha da porta toca e a família precipita-se para dentro, abraçando Nana. Também me abraçam a mim, principalmente os meus pais, e eu faço cócegas ao meu irmão bebé, o Lewis, metido no fatinho de bebé.

A campainha toca de novo e entra mais família de rompante. Os tios, as tias e os primos. Toda a gente fala ao mesmo tempo, tiram os sapatos aos pontapés, atiram os sobretudos para cima das cadeiras.

No forno, a minha tarte já começa a cheirar.

— Já é altura? — pergunto.

— Agora é — diz Nana, e finalmente chega o melhor momento da noite.

Nana acende as velas e os nossos vestidos tocam um no outro; ela murmura orações de Sabbath e todos ficam em silêncio. Até o Lewis.

Daí a pouco, estamos a mastigar os challah e a passar taças de sopa, e todos falam ao mesmo tempo sentados à comprida mesa de jantar.

Lá fora, o vento uiva. A neve levanta-se em lindos rodopios brancos.

Mas aqui dentro as velas tremulam. Um cântico de Sabbath está no ar. É altura da tarte, e nós estamos todos juntos na sexta-feira da Nana.

* Challah – Pão tradicional para o Sabbath e outras festas judaicas.

Amy Hest
The Friday nights of Nana
Cambridge, Candlewick Press, 2001
Tradução e adaptação

O Sapato do Coração

O Sapato do Coração

Há sempre dois sapatos: o sapato esquerdo e o sapato direito.

O sapato esquerdo calça o coração. O sapato direito joga futebol.

Quando chove, os sapatos dão pontapés na chuva. Quando faz sol, os sapatos dão passeios aos domingos.

À noite, quando tu dormes, os sapatos dão passos pela casa do teu sonho.

Os sapatos, patos, patos, sapa, sapa, sapateiam.

Com saúde, vão até ao fim do mundo. Doentes, vão até ao sapateiro.

Três sílabas apenas: sa-pa-tos.

Mas podem ter quatro sílabas se forem muito pequeninos: sa-pa-ti-nhos. E novamente três se forem muito grandes: sa-pa-tões.

Os sapatos, na gramática, são uns brincalhões.

Brincalhões, merecem brincar. Menino que não meteu os sapatos no frigorífico não merece sorvete no Verão.

Não é asneira, não: são os sapatos no trapézio da imaginação.

Vê lá tu: já houve um sapato com pregos que subiu ao monte Evereste.

Nunca lá estiveste?

Pena: ensina geografia aos teus sapatos até eles ficarem sem tacões.

Enfim… faz tudo com os teus sapatos, sapatinhos, sapatões.

Mas, se um dia endureceres e fores mau sem razão, tira o sapato esquerdo, põe o pé no chão… E ouve descalço o teu coração.

Pedro Alvim
O sapato do coração
Lisboa, Plátano, 1981

Nas pedreiras de Abeokuta

Nas pedreiras de Abeokuta

O fenómeno da escravidão e do trabalho infantil persiste em África. No Benim, por exemplo, há tráfico de crianças com destino ao trabalho nas pedreiras de Abeokuta, na Nigéria. A reportagem, bem actual, documenta o drama destas crianças vendidas pelos pais e exploradas pelos traficantes.

 

«Venho para levar as crianças ao “akowé”», disse François à mulher logo após se ter apeado da moto. Na língua fon, falada no Benim, akowé significa “mestre”. A mulher chamou os miúdos pelo nome, Lewidjo e Pierre, e em minutos os dois estavam já em cima da mota. Deu um saco de plástico a cada um: uma T-shirt e umas calças lavadas e pouco mais. Essa era toda a bagagem para uma viagem de quatro ou cinco anos.

«Diz ao “akowé” que cuide bem dos catraios. Se os maltratar, denunciá-lo-ei à polícia, e diz-lhe que os quero em casa uma semana pelo fim de ano e que tragam dinheiro.» A mulher, Plantine, despediu-se dos seus filhos apenas com uma carícia na mão. Ficou a olhar como se ajeitavam na mota sem fazer gesto algum, alheada da mais pequena expressão de tristeza.

As estatísticas da ONU sobre a pobreza mundial dizem que a República do Benim ocupa o décimo quinto lugar da lista. A mais pobre é a Serra Leoa. Dos dez países mais subdesenvolvidos do planeta, cinco estão na África Subsariana, como é o caso do Benim; porém, não é a mesma coisa ter a sorte de nascer na sua emergente capital, Cotonou, ou na paupérrima Zakpoktá. Trata-se do município mais pobre do país, pelo que muitas das suas crianças sobem para as motas dos traficantes.

A miséria é uma condenação, mas se, além disso, se nasceu na rota de passagem para a Nigéria, que é o grande colosso africano, a condenação converte-se em sentença: muitas crianças de Zakpoktá são vendidas pelos próprios pais como escravos aos traficantes locais, que os levam para a Nigéria e os exploram nas pedreiras de Abeokuta.

Lugar no Inferno

Victorin Adeokunté, o “akowé”, é um dos traficantes mais conhecidos da zona. Anda mais perto dos 40 anos do que dos 30, veste-se à maneira fon e tem uma casa nos arredores de Zakpoktá. Comporta com tanta indiferença a designação de “negreiro” que ganhou a pulso um bom lugar no Inferno.

No sábado passado, 9 de Fevereiro, mandou um primo da sua confiança, François, buscar os dois meninos à aldeia de Allahé. Tinha-os comprado uns dias antes aos pais por 25 euros. Ao cair da tarde, o “akowé”, os dois irmãos e eu partimos no seu carro rumo à Nigéria. Lewidjo Adjakpa tem uns 13 anos e não abriu a boca durante a viagem. O seu irmão Pierre não passa dos 10 e adormeceu assim que abalámos.

Victorin não colocou nenhum entrave quando lhe propus que me mostrasse como funciona o tráfico de crianças entre o Benim e a Nigéria. Apenas uma condição. «Obatedo é a última cidade antes da fronteira. Vais sair lá e tratar de arranjar uma mota para passar para a Nigéria. Assim que se passa a fronteira, há uma bomba de gasolina Texaco à direita. Espero aí por ti.»

Victorin não queria arriscar-se a transpor a fronteira com as duas crianças traficadas e um homem branco no seu carro. Uma coisa era ter a polícia comprada e outra chamar a atenção gratuitamente. «Esta noite estão de vigia os meus, por isso viajo aos fins-de-semana. Largarei cinco mil cefas, uns sete euros, em cada controlo policial e não haverá problemas.»

Ao fim de uma hora e meia de viagem, estávamos em Obatedo. Num cruzamento não me foi difícil contratar uma moto-táxi, “zemiján”, como lhe chamam no Benim, e segui Victorin a uma distância prudente até ao posto de controlo beninense. Vi como o seu carro passava sem problemas a barreira, enquanto eu entrava nos escritórios para carimbar o meu passaporte.

Passada meia hora, estava novamente sentado na furgoneta do traficante, com os garotos na parte de trás a comer umas bananas que o Victorin lhes tinha comprado. A estrada até Abeokuta, uns 200 quilómetros, estava infestada de controlos militares. O soldado de turno limitava-se a perpassar as janelas com a sua lanterna e a comprovar com gesto mecânico quantas pessoas iam dentro do carro. Nada de parar a viatura para pedir os papéis ou fazer perguntas. Pelo meio-dia, Victorin deixava-me à porta do Presidential Hotel de Abeokuta. «Amanhã poderás passear pela cidade. Na segunda-feira, às oito, venho buscar-te para ir às pedreiras.»

Pá ao ombro

Abeokuta é a capital histórica dos Yoruba, a etnia principal da Nigéria. Com meio milhão de habitantes, é uma das cidades mais importantes do país. Daqui são o Prémio Nobel da Literatura Wole Soyinka e o ex-presidente do país, Obasanjo. O cimento, os tijolos e a brita são as suas principais indústrias. Vá-se onde se for, há sempre um rapaz com uma pá recém-comprada ao ombro. Vendem-nas em todo o lado: nos mercados, nos semáforos e à beira das estradas. As pedreiras estão perdidas no meio da selva. O território é propriedade dos Yoruba e os beninenses arrendam-no para extrair areia, brita e granito. Aqui só podem entrar os beninenses; é o seu gueto e para o proteger estabeleceram uma rede de controlos que impede o acesso a estranhos. O tráfico e a exploração de crianças é dos Fon, é um assunto entre beninenses; aqui, os Yoruba, os nigerianos, não têm nada que fazer; quando muito, olham para o outro lado.

Na segunda-feira seguinte, 11 de Fevereiro, às oito da manhã, a furgoneta do Victorin estava à porta do meu hotel. Vinha só ele, sem os miúdos. «Levei-os ontem para as pedreiras. Têm de se habituar, quanto antes, à sua nova vida. Há muitas valas para cavar na selva», disse-me com um leve sorriso.

Atravessámos a cidade, semi-deserta a essa hora da manhã, e chegámos ao subúrbio de Sabo. Acabava a estrada asfaltada e continuámos por um caminho de terra em muito mau estado. Percorremos cerca de 15 quilómetros sem encontrar uma única povoação nem ver ninguém, apenas um intenso tráfego de camiões, uns que desciam com o reboque cheio e outros que subiam vazios.

De repente, sem dizer nada, Victorin parou o carro na berma do caminho e disse-me que o seguisse. Eu não via mais do que espessa vegetação, até que ao longe destrincei umas pequenas montanhas de areia. Victorin acenou a um grupo de gente ao longe. «Ali estão as crianças», disse-me. Ao aproximar-me, vi um panorama desolador. À direita e à esquerda havia dezenas de pequenas valas escavadas no solo. Teriam entre um e dois metros de profundidade. Nalgumas, não chegava a aparecer a cabeça de um miúdo alto. Traçavam uma linha curva de uns três metros. A paisagem era lunar: uma multidão de montículos de areia e brita e vários camiões carregando o material.

Jornada dura

Em cada vala estava a trabalhar um grupo de três miúdos. Aproximei-me de uma e pus-me a falar com eles. O mais velho, que não passava dos 13 anos, cavava a encosta com uma picareta. Chamava-se Etienne Montchomi. Vinha de Yohoné, uma aldeia de Zakpoktá. Contava já dois anos nas pedreiras. O seu dia começava com o nascer do Sol, às seis da manhã, e terminava com o pôr-do-sol, doze horas depois. Parava da uma às três para comer e para fugir ao calor sufocante do meio-dia. Reconhecia que as condições de trabalho eram duras, mas não se queixava. «Aqui pelo menos como duas vezes ao dia. Em Zakpoktá passava vários dias sem meter nada na boca», dizia-me resignado.

Ao seu lado, outro menino, Eugène Animanou, atirava pás de terra a um terceiro que estava empoleirado na ladeira. Tinha chegado às pedreiras em 2006, vindo da povoação de Zahla, também em Zakpoktá. Contou-me que foi trazido por um vizinho, de quem não quis dizer o nome, de carro, com outros meninos. «Estão a trabalhar noutras pedreiras longe daqui. Não os vejo há meses. Tenho saudades deles porque eram meus amigos e protegíamo-nos uns aos outros, mas o Etienne trata-me bem», disse-me, enquanto agarrava na pá e me virava as costas.

Cada grupo é formado por seis crianças. Três trabalham na vala, enquanto as outras três se encarregam de carregar o camião e de procurar comida na selva. Em cinco minutos fazem uma fogueira e deitam sobre a grelha o que encontram. Nesse dia tinham como menu quatro ratazanas preparadas para assar. O patrão visita-os cada segunda-feira e traz-lhes farinha de mandioca, um tubérculo africano, pimentos e legumes. Com isso e com o que encontram na selva, têm comida para toda a semana. Os mais sortudos podem ir às aldeias dormir mas muitos têm de se conformar com passar a noite ao pé da vala, sujeitos à intempérie, sobre uns plásticos ou umas esteiras feitas com ramas. Trabalham de segunda a sábado e descansam ao domingo. Nesse dia vão às povoações, se tiverem a sorte de encontrar um carro que os leve; caso contrário, ficam a descansar nas valas.

Os mais novos dos grupos fazem o trabalho menos duro. Bertin Dosson tem 8 anos e encarrega-se de remover a terra que Eugène lhe lança com a pá a partir da vala. Zarandea criva-a com as mãos e deixa que a areia fina lhe caia aos pés, deitando a brita que fica na peneira para o monte que está a formar. Bertin contou-me que o seu pai tinha morrido havia dois meses e que um seu tio o trouxera para as pedreiras. «Aqui tratam-me bem, mas o trabalho é muito duro, por isso quero voltar para casa», disse-me olhando-me nos olhos, como que pedindo-me socorro, enquanto a areia fina cobria os seus pés descalços e levantava uma nuvem de pó que se dissolvia à altura da sua frágil cintura.

Castigos corporais

É um ritual que os Fon trouxeram das suas aldeias, nas margens do rio Quémé. Quando o patrão se irrita, não tem de dizer nada: chega à vala e bate no chão ou numa árvore várias vezes com o seu bastão, e entrega-o de seguida ao encarregado, que normalmente é o mais velho do grupo. Toda a gente nas pedreiras fica a saber que foi dado um castigo. O traficante afasta-se uns metros da vala e o encarregado elege um dos meninos do grupo. Pode ser o mais preguiçoso dessa semana, o mais rebelde ou, simplesmente, o novato. Coloca-o de cabeça para baixo num monte de areia e dá-lhe uma lição até que o patrão mande parar.

À exploração das crianças há que acrescentar uma vasta lista de problemas sanitários. «Barrigas inchadas pela desnutrição, parasitas intestinais de todos os tipos, perda de visão, problemas pulmonares por causa do pó e lesões oculares provocadas por areia que salta», relata de memória Mathieu Shanu, o médico das pedreiras. Vive com a sua família numas cabanas a alguns quilómetros das valas, e quando uma criança adoece levam-lha para que a cure. «O pior de tudo é a falta de água, mas essa é uma questão de difícil solução», conta-me, resignado, ante a situação dos petizes.

À hora do almoço e do descanso dos grupos, perguntei a Victorin pelos irmãos Lewidjo e Pierre, os quais não tinha reconhecido entre os cerca de trinta rapazes que havia contado nessa zona de pedreiras. «Os Adjakpa não estão aqui. Estas pedreiras não são minhas. Eu tenho cinco grupos a trabalhar numas valas, mas não estão nesta zona. Tu pediste-me que te trouxesse às pedreiras de Abeokuta, não às minhas pedreiras», disse-me com uma gargalhada que ecoou em metade da selva. Agora entendia porque é que as crianças das aldeias e das pedreiras lhe chamavam “akowé”. Porque, para eles, Victorin, o mestre, significa a possibilidade de aprender um ofício e ter um trabalho, ainda que seja um trabalho de pá e picareta, pó nos olhos e quatro ratazanas na brasa no meio da selva.

Xaquín López

Além-Mar, Junho 2009

Tentando alcançar a lua – conto tibetano

Tentando alcançar a lua

(conto tibetano)

Uma noite, o Rei dos Macacos reparou numa gloriosa lua dourada que repousava no fundo de uma lagoa. Não se apercebendo de que se tratava apenas de um reflexo, o Rei chamou os seus súbditos para que lhe fossem buscar aquele tesouro não reclamado.

— O nosso macaco mais forte agarra-se a esta árvore — ordenou o Rei. — E o nosso segundo macaco mais forte agarra-se à mão dele, tenta alcançar a água e pega na lua dourada.

Assim fizeram. Mas o segundo macaco não conseguia alcançar a lua.

— Quem é o nosso terceiro macaco mais forte? Agarra-te à mão do teu irmão e vai buscar a lua.

Mas a lua continuava fora do alcance deles.

— Tragam o quarto macaco mais forte. Que desça até junto da lagoa e tente a sua sorte.

Os macacos formavam agora uma cadeia, cada um pendurado no braço do outro. O quarto macaco usou os braços deles como escada e ficou pendurado na mão do terceiro macaco… mas a lua continuava fora do seu alcance. E assim continuaram… cinco… seis… sete… oito… macaco após macaco, até que o último conseguia tocar já na superfície da água.

— Estamos quase a conseguir! — gritaram os macacos.

— Deixem-me ser o primeiro a agarrá-la! — gritou o Rei, que se lançou cadeia abaixo.

Mas o peso de toda esta loucura tinha-se tornado demasiado para as forças do macaco mais forte, que continuava agarrado ao topo da árvore. Quando o Rei ia a tocar a água para pegar na lua, o macaco mais forte largou o tronco. Um a um, caíram todos na lagoa e afogaram-se, juntamente com o Rei.

Aquele que segue um líder insensato é ele próprio um tolo.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005