O maltrato subtil

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O maltrato subtil

Num qualquer dia, numa qualquer cidade, num qualquer país, nasceu uma linda menina, cujos olhos maravilhosos observavam tudo em redor.

Quando começou a andar pela cidade, as pessoas disseram-lhe que, para ser bonita, tinha de usar vestidos bonitos. E ela deixou de se sentir bonita quando não tinha posto um vestido bonito.

Quanto à cor da pele, aconselharam-na a mudá-la, para ser mais bonita, e ensinaram-na a maquilhar-se. A partir desse dia, a menina nunca mais se sentiu bonita se não estivesse maquilhada.

Outro reparo que lhe fizeram foi relativo à altura. Se não fosse mais alta, não seria bonita. A menina começou, então, a usar saltos altos, com grande sacrifício. Aliás, se não calçasse sapatos de tacão, sentia-se sempre baixa e insignificante.

Claro que para ser bonita tinha de ser magra. Assim, nunca mais pôde comer aquilo de que gostava sem se sentir sempre culpada.

E também lhe falaram do cabelo, da cintura, do peito. Deste modo, a menina começou a sentir-se tão feia que todos os dias despendia mais tempo e fazia mais sacrifícios para se sentir um pouco mais bonita.

Acabou por estragar a pele por causa da maquilhagem diária, por deformar os pés por causa dos saltos altos, que usava constantemente, e por ficar debilitada para poder continuar magra segundo os padrões que lhe exigiam.

Tinham-lhe ensinado a não gostar de si como era e a usar sempre artifícios para ser digna do apreço dos outros.

Até que chegou o dia em que começou a ter medo de que os outros descobrissem como era realmente. Sentindo-se feia, apaixonou-se por um rapaz que a tratava como se não fosse digna dele, atitude que ela achou normal. Sentindo-se feia e sem conseguir aceitar-se, passou a permitir que a maltratassem.

Nunca te esqueças de que a verdadeira beleza é uma atitude, e de que és sempre uma pessoa lindíssima quando és autêntica.

Diego Jiménez

 

A galinha vermelha

Tendo uma galinha vermelha encontrado alguns grãos de trigo, disse aos seus vizinhos de capoeira:

— Se plantarmos este trigo, teremos pão para comer. Alguém quer ajudar-me a plantá-lo?
A vaca disse que não. O pato, o porco e o ganso também se recusaram a fazê-lo.
— Então, eu mesma os plantarei — disse a galinha.
E assim fez. O trigo cresceu alto e doirado. Quando estava já amadurecido, a galinha perguntou:
— Quem quer ajudar-me a colhê-lo?
— Eu não — negou-se o pato.
— Isso não faz parte do meu trabalho — disse o porco.
— Tenho demasiados anos de campo! — exclamou a vaca.
— Não posso arriscar-me a perder a ajuda do meu dono — disse o ganso.
— Então, eu mesma o colherei — disse a galinha.
Quando chegou a hora de preparar o pão, a galinha perguntou:
— Quem quer ajudar-me a cozê-lo?
— Só se me pagares! — exclamou a vaca.
— Eu não posso pôr em risco o meu estatuto de doente — disse o pato.
— Eu fugi da escola e nunca aprendi a fazer pão — explicou o porco.
— Se for só eu a ajudar, considero-me vítima de discriminação — resmungou o ganso.
— Então, eu mesma o faço — disse a galinha.
Assou cinco pães e colocou-os numa cestinha onde todos os podiam ver. De repente, todos pareciam querer pão.
Mas a galinha anunciou:
— Comerei eu os pães sozinha.
Então, a vaca gritou:
— Os teus lucros são excessivos!
O pato protestou:
— Não passas de uma sanguessuga!
— Exijo direitos iguais! — bradou o ganso.
Quanto ao porco, apenas grunhiu.

Todos os animais pintaram faixas e cartazes e marcharam em protesto contra a galinha. Chegou, então, o feitor da quinta, que disse:
— Galinha, não podes ser assim egoísta!
— Mas eu ganhei este pão com o meu próprio suor —protestou a galinha.
— É esse, justamente, o princípio da livre iniciativa — continuou o feitor. — Qualquer um ganha o que quiser. Contudo, segundo as regras da nossa quinta, os animais mais produtivos têm obrigação de partilhar o que produzem com os animais que nada querem fazer.
E todos viveram felizes para sempre, incluindo a pequena galinha vermelha, que sorria e cacarejava:
— Eu estou grata, eu estou grata…
Contudo, a verdade é que a galinha nunca mais fez nada. Nem sequer um pão.

Julio Cesar Zanluca
(Adaptação)

O concurso real

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Nota das Autoras

“O Concurso Real” inspirou-se na história verdadeira do nosso avô, Hong Seung Han, que viveu na Coreia no final do século dezanove. Iletrado e demasiado pobre para aceder ao ensino, Hong costumava escutar à porta da escola destinada apenas a meninos ricos, para tentar aprender algo. Um dia, porém, permitiram-lhe integrar a turma. Depois de ganhar uma competição académica nacional, o governador da província convidou-o a residir no palácio, onde Hong ensinava o jovem filho do governador enquanto prosseguia a sua própria educação.
Anos mais tarde, o nosso avô frequentou um seminário em Pyongyang, no qual estudou sob a orientação de um missionário americano, e tornou-se um pastor célebre. Em 1905, casou com a nossa avó, Pang Seung Hwa, e trabalharam juntos como missionários na China.

***

No tempo em que os reis governavam a Coreia, apenas as crianças privilegiadas iam à escola. Vestiam roupas delicadas, possuíam livros e podiam candidatar-se ao Concurso Real, que se realizava no palácio do governador. Um dia, todas elas seriam pessoas eruditas e nobres. Song-ho não se contava entre esses privilegiados e vestia-se de forma andrajosa. Contudo, o som distante do sino da escola fazia-o sonhar com o dia em que poderia ler livros e escrever poesia.

Song-ho observava a mãe a lavar o rosto cansado numa bacia de água, mal a luz fraca do dia iluminava a pequena cabana onde moravam. A mãe pedia-lhe que fosse um bom rapaz e Song-ho prometia que realizaria todas as tarefas de que ela o incumbira. Depois, a mãe saía para os campos de milho para trabalhar. O pai de Song-ho fora pescador, mas tinha morrido no mar há alguns anos. A mãe trabalhava na colheita dos cereais em cada estação para poder pôr comida na mesa. Se o dia lhe corresse bem, traria para casa uma braçada de frutos e legumes murchos. Quanto ao filho, varria a cabana, demolhava os grãos de soja para o jantar e lavava os trapos no ribeiro da montanha.

Um dia, enquanto Song-ho torcia o último farrapo no ribeiro, Continuar a ler

A árvore da chuva

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Era uma vez uma aldeia, situada num terreno árido no meio do deserto. O sol tinha secado os seus campos e a areia invadira por completo os caminhos, as casas e as bocas dos aldeões.
Apesar do calor sufocante, os homens tentavam lavrar os campos, retirando água de um poço… cada vez mais vazio. Mas parecia que a terra não tinha mais para dar e se mantinha surda às súplicas dos habitantes da região…
Num pátio próximo das cubatas feitas de argamassa, as mulheres teciam tapetes com folhas de tamareira para vender no mercado da cidade vizinha. Partiam cedo de manhã, a pé, e um burro carregava a mercadoria. Chegavam lá apenas ao meio-dia, exaustas da longa caminhada sob o sol. Quando regressavam à aldeia era já noite, e tanto homens como crianças há muito que dormiam.
Os pés estavam gretados de percorrer tantos quilómetros, mas os sacos de arroz e os bidões de água que tinham trazido consigo, comprados com o dinheiro do seu trabalho, eram um bálsamo para as suas feridas.
Quanto às crianças, frequentavam a escola todas as manhãs, embora tivessem dificuldade de aprender com o estômago vazio.
Todos os dias os aldeões perscrutavam o céu, na esperança de que uma nuvem a anunciar chuva aparecesse. E todos os dias o poço secava cada vez mais e as colheitas de arroz diminuíam, o que aumentava o medo do que traria o dia seguinte.

Certa manhã, na pequena praça de terra vermelha, situada entre a árvore dos debates e a cubata do chefe, um Continuar a ler

Rosa Branca – uma história do Holocausto

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Assinalando o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, uma leitura diferente em

Uma história de dor e perda, mas também de bondade e compaixão, passada durante a Segunda Guerra Mundial.

Esperemos que goste!

A velhinha que dava nomes às coisas

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Era uma vez uma velhinha que adorava dar nomes às coisas.
Chamava Betsy ao velho carro que conduzia.
Chamava Fred à velha cadeira onde se sentava.
Chamava Roxane à velha cama onde dormia.
Chamava Franklin à velha casa onde vivia.
E todas as manhãs saía da Roxane, bebia uma chávena de chocolate no Fred, fechava o Franklin, ia aos correios na Betsy. Estava sempre à espera de uma carta, mas só recebia contas para pagar.
Não recebia cartas porque todos os seus amigos já tinham falecido, o que a deixava preocupada. Não lhe agradava a ideia de ser uma velhinha solitária, sem amigos, sem alguém a quem pudesse recorrer.
Então, começou a dar nomes às coisas. Mas só às coisas que sabia que não iriam acabar. O seu carro Betsy tinha circulado mais do que outro qualquer. A sua cadeira Fred nunca empenou na vida. E nem um rangido, nem um gemido ouviu nunca da sua cama, Roxane. E a sua casa, Franklin, continuava de pedra e cal: com mais de cem anos parecia ter pouco mais de vinte.
A velhinha já não se preocupava em sobreviver a qualquer um deles… e vivia feliz. Continuar a ler

Não sou um super-herói!

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Tenho seis anos.
Estou no meu quarto.
As paredes são cor de laranja, gosto mesmo dessa cor.
Foi o meu pai que colocou o papel de parede.

A minha mãe costuma gritar muito alto. O meu pai também.
Os gritos fazem-me sempre medo, muito medo.
Ouço outros barulhos, acho que começaram a bater um no outro.
Nunca ouvi a minha mãe gritar assim.
Queria ir lá ver, queria que parassem, mas fico muito quieto na cama.

A minha mãe entra aos gritos no meu quarto, o meu pai veio atrás dela.
Ela quer que eu a proteja.
Ele agarra-a pelos cabelos e começa a puxá-la para fora do quarto.
Ela cai e ele dá-lhe pontapés. Até na cara.
Começo também a gritar.
Quero muito que ele pare, tem de Continuar a ler

Um projecto especial

Desejando passar mais tempo com a família, um velho empregado da construção civil informou o dono da empresa onde trabalhava da sua vontade de se reformar. Embora a empresa não fosse afetada por esta saída, o dono sentiu pena de ver um tão bom funcionário partir e pediu-lhe que trabalhasse num último projeto.

O homem concordou mas, como não se sentia entusiasmado com a ideia, construiu uma casa de qualidade inferior, na qual empregou materiais desadequados.

Quando o projeto ficou concluído, o patrão foi fazer a vistoria da casa. Finda a inspeção, entregou a chave da habitação ao empregado e disse:

— Esta casa é para si, como prenda pela sua dedicação de inúmeros anos à empresa.

O empregado ficou deveras surpreendido e pensou para consigo, “Se eu soubesse que a casa iria ser para mim, tê-la-ia construído de forma diferente.”

Muitos de nós vão construindo a sua vida ficando sempre aquém do seu melhor. É com surpresa que nos damos conta, mais tarde, de que temos de viver na casa que construímos.

 Autor Desconhecido

Novo projecto “Das Histórias aos Livros” : envio de obra de leitura extensiva por capítulos

Caros Leitores,

Gostaríamos de os convidar a participar num novo projecto com o título – Das Histórias aos Livros

Os membros do Clube das Histórias têm vindo, desde há algum tempo, a dedicar-se à recolha e selecção de livros capazes de proporcionar uma reflexão sobre princípios éticos fundamentais para a nossa sociedade. Os temas presentes nesses livros giram em torno de valores como a solidariedade, a coragem, a honestidade, o respeito pela diferença, o sentido de justiça. Valores intemporais, que têm merecido, ao longo do tempo, a atenção de escritores de diversas nacionalidades.

Assim, em simultâneo com o envio das histórias, o Clube teria o maior gosto de colocar gratuitamente à disposição um conjunto de obras integrais divididas em trechos/capítulos, que seriam enviados todas as semanas.

Se estiver interessado(a) em receber semanalmente via email uma obra de leitura extensiva dividida em capítulos, basta escrever-nos um email para 

livros [at] contadoresdehistorias . com ou  clubecontadores [at] gmail . com

copiando a seguinte frase no campo do “Assunto”: 

“Estou interessado em participar no projecto: Das Histórias aos Livros.”

Com a convicção de que este novo projecto do Clube das Histórias merecerá o interesse dos nossos leitores, agradecemos desde já a atenção dispensada.

O Clube das Histórias

Meditações para o caminho de Advento – José Tolentino Mendonça

Meditações para o caminho de Advento:
«Nas mãos do oleiro, o universo descobre-se inacabado»

Uma das formas fundamentais da sabedoria é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a ciclo e a contraciclo, a tempo e fora de tempo, na nossa vida. E numa vida adulta avançada, muitas vezes é isto que experimentamos: descobrimo-nos inacabados porque nos descobrimos nas mãos do oleiro.
É importante associar a experiência da vida em aberto e a experiência de estarmos a viver continuamente um processo de criação. Este dia da nossa vida, em que parece que já não há nada para acontecer, em que parece que já vivemos tudo o que havia a viver, é um dia da criação.

«O que se instala na perfeição
desconhece aquilo
que só a indigência revela»

Um dos maiores obstáculos na vida espiritual é a ideia ou desejo de perfeição, porque Continuar a ler

Mary Anning, investigadora de fósseis

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Mary Anning, investigadora de fósseis

O maior investigador de fósseis conhecido foi uma mulher inglesa chamada Mary Anning, cujas descobertas constituem alguns dos achados geológicos mais importantes de sempre, essenciais para conhecermos a história da Terra.

Aos 12 anos de idade, Mary descobriu o primeiro fóssil de ictiossauro. O fóssil media cinco metros de comprimento e estava incrustado num penhasco íngreme, na costa de Dorset. As suas descobertas incluem outros répteis marinhos antigos, hoje em exposição no Museu de História Natural de Londres, como o plesiossauro e um dos primeiros fósseis de pterodáctilo.

Os rochedos e a praia de Lyme eram ricos em belemnites e amonites, assim como em répteis e peixes, ali deixados 200 milhões de anos antes, durante a Era Jurássica. Anning procurava fósseis na área dos penhascos de Blue Lies, sobretudo durante os meses de inverno, altura em que os deslizamentos de terra expunham novos espécimes, que tinham de ser extraídos rapidamente, antes que fossem levados pelo mar. Era um trabalho perigoso, no qual ela quase morreu em 1833, e que lhe custou a perda do seu cão Tray.

Nascida em 1799, Mary Anning teve de lutar com dificuldades financeiras durante grande parte da sua vida. A família era Continuar a ler

O autocarro fantasma

O autocarro-fantasma

De todos os mortos daquele cemitério aquele que mais se aborrecia era Tomás Bondi. O guarda encontrava frequentemente terra removida à beira da sua campa e a lápide de mármore, onde se lia “Tomás Bondi (1939-2004) Prémio Volante de Ouro para o melhor motorista de autocarro”, deslocada um metro ou dois.

O falecido Tomás Bondi sentia muita falta do seu autocarro. Os outros mortos lembravam-se, quando muito, de sair a dar uma volta convertidos em fantasmas, mas ele, pelo contrário, precisava mesmo de conduzir o autocarro durante algum tempo.

Saía da campa, passava pelo guarda do cemitério, que não o via porque os fantasmas são invisíveis, e andava umas trinta ruas até chegar à empresa de transportes onde em vida tinha trabalhado.

Metia-se no hangar onde estavam estacionados os veículos e, quando via o seu autocarro, o 121, quase chorava de emoção.

Daí a nada estava ele a passar-lhe uma flanela. Limpava os espelhos, dava lustro aos faróis e brilho aos vidros. O problema era o guarda-noturno. Ao ver um trapo sozinho a limpar o autocarro, sem que ninguém o segurasse, desatava a fugir, abandonando o posto de trabalho.

De seguida, Tomás Bondi punha o 121 a andar e ia dar uma volta. Continuar a ler

LYDIA CACHO e a luta pela liberdade

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 “O jornalismo está em liberdade condicional.”

Jornalista, feminista, escritora e defensora dos direitos humanos, Lydia Cacho é especialista em temas de género e violência na UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher). Cofundadora da Rede de Jornalistas do México, Centro-América e Caraíbas, é ainda, atualmente, fundadora e diretora do Centro de Atendimento Externo para Mulheres Maltratadas em Cancun, CIAM. Foi galardoada com os prémios Human Rights Watch 2007, o Prémio Mundial UNESCO para a Liberdade de Imprensa, Guillermo Cano – 2008 e, no mesmo ano de 2008, também recebeu o Prémio Liberdade de Expressão, da União de Jornalistas de Valência.

Em 2006, conheci Lydia, na Cidade Juárez, enquanto preparava a viagem ao México com a Plataforma das Mulheres Artistas, para denunciar os crimes contra as mulheres. Já antes dessa viagem, tinha estado em contacto com ela, e juntas planificámos todas as ações a levar a cabo no México. Recordo o primeiro encontro, na Casa de Espanha, e nunca esquecerei aqueles seus olhos cheios de vida e de doçura, nem aquela energia que me uniu a ela para sempre. Senti como se de minha irmã gémea se tratasse, como sei que sentem muitíssimas mulheres às quais foi devolvida a valentia e a força para seguirem em frente, particularmente as da Casa de Acolhimento que dirige, com uma metodologia baseada no amor e no Continuar a ler

lman Ahmad Jamas, lutando pela paz no Iraque

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 IMAN AHMAD JAMAS, lutando pela paz no Iraque

“Serão precisos muitos anos para reconstruir o Iraque.

Será muito difícil.”

Jornalista, tradutora e escritora, Iman Ahmad Jamas criou e dirigiu, em junho de 2003, o Observatório da Ocupação no Iraque, uma iniciativa de organizações internacionais e iraquianas para informar sobre a ocupação dos Estados Unidos e seus efeitos políticos, económicos e sociais, dando conta dos abusos e violações contra a população civil levada a cabo pelas tropas estrangeiras.

Apesar do importante trabalho de documentação e denúncia, o Observatório viu-se obrigado a encerrar em junho de 2004 devido à falta de segurança reinante no país. Refugiada en Espanha, recolheu centenas de testemunhos de torturas e crimes durante a ocupação dos Estados Unidos no seu  livro Crónicas do Iraque, publicado en 2006. Em abril de 2007 recebeu em Córdova o Prémio Internacional de Jornalismo, “Julio Anguita Parrado” em reconhecimento pelo seu trabalho.

Povoação a povoação, família a família, Iman Ahmad Jamas percorreu um Iraque em guerra para recolher os testemunhos das vítimas dos desmandos das tropas dos Estados Unidos, durante os primeiros anos da ocupação do país árabe. Mulheres Continuar a ler

Amira Hass

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AMIRA HASS, PERITA EM OCUPAÇÃO

O meu trabalho é vigiar o poder.

Oficialmente, é a correspondente para os assuntos palestinianos do diário israelita Aaretz, mas prefere ser conhecida como perita em ocupação. Amira Hass, jornalista israelita nascida em Jerusalém, dá a conhecer aos seus compatriotas o que se passa a poucos quilómetros de suas casas, o que muitos não querem ver. Com residência habitual na cidade da Cisjordânia, em Ramala, mantém na realidade “um romance com Gaza”, segundo as suas próprias palavras. Há já alguns anos que passa temporadas na faixa de Gaza e conta como é viver em estado de sítio.

O meu desejo de viver em Gaza não se deveu à sede de aventuras ou à loucura, mas ao medo de ser uma observadora passiva, à minha necessidade de compreender até ao último pormenor um mundo que, de acordo com os meus conhecimentos políticos e históricos, é uma criação profundamente israelita. Gaza encarna para mim toda a saga do conflito israelo-palestiniano, representa a principal contradição do Estado de Israel: democracia para alguns, privação para outros”, explica Hass.

Foi pela primeira vez à Faixa de Gaza como voluntária da organização Workers Hotline (Linha Direta de Trabalhadores), que se ocupava em defender os direitos dos trabalhadores palestinianos face aos abusos dos seus empregadores israelitas. E lá regressou, como jornalista, em muitas ocasiões.

A última vez foi Continuar a ler

A arte da lentidão

A arte da lentidão

José Tolentino Mendonça*

Talvez precisemos de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados.

À conta disso, os ritmos de atividade tornam-se impiedosamente inaturais. Cada projeto que nos propõem é sempre mais absorvente e tem a ambição de sobrepor-se a tudo. Os horários avançam, impondo um recuo da esfera privada. E mesmo estando aí é necessário permanecer contactável e disponível a qualquer momento. Passamos a viver num open space sem paredes nem margens, sem dias Continuar a ler

Horizonte

Só ausentando estás presente.

Nos passos perdidos encontrarás
as cerejas prometidas.

Negando-te afirmarás. Mil
palavras navegarão na humidade
da terra.

Esquecendo-te abrirás a prisão
em que te enclausuraste. Mil
luzes iluminarão a frescura
de seres a ilusão e a realidade.

A soma não interessa, apenas a subtração.

Subtraindo-te aumentarás a fundura
do celeiro. Inabalável se tornará
a fome da vida que te cerca
como as flores de um impossessivo jardim.

Não demores. A régua exata da lisura
mede os passos da caminhada.

João Guerra
Chuva de Rosas
(excertos)

http://poemasanonimos.wordpress.com/

O piano vermelho

China, 1975, um final de tarde de abril.
Há sete anos que pessoas jovens e cultas frequentam campos de reeducação, por vezes com entusiasmo, mas mais frequentemente sob ameaça. Objetivo dos campos: erradicar o elitismo através do trabalho manual. Os jovens convivem lado a lado com pobres camponeses e são “reeducados” pelo estudo das obras políticas do Presidente Mao.

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Um luar sinistro abate-se sobre o campo Zhangjiake 46-19 na fronteira entre a China e a Mongólia Interior.
Na camarata, os quartos repletos tresandam a suor doce, ao cheiro nauseabundo das fogueiras de carvão extintas e da terra sobrelotada. Apertados uns contra os outros, os camaradas já dormem no chão despido. Com passos pequenos e cautelosos, a rapariguinha deixa a casa comunitária.
Lá fora, o vento fustiga.
Era suposto haver um recolher obrigatório rigoroso, mas já passou muito tempo desde a última vez que o comité colocou guardas a vigiar. Tudo o que ela tem a fazer é saltar o muro da latrina e seguir por um caminho ladeado de árvores. No fim do caminho, no limite da aldeia, ela já consegue ver a casa da sua cúmplice, a mãe Han.
Um piano vertical ocupa o armazém. À luz do candeeiro o teclado é amarelo.
Puxa um banco baixo e levanta as mãos congeladas. Faz, então, uma pausa. O seu pensamento retrocede, no tempo, até ouvir o seu primeiro professor de piano murmurar:
— Precisas de aquecer as tuas mãos, minha pequenina, de preferência com um prelúdio de Bach, em vez de martelares nas teclas como se fosses louca.
Ela inclina-se para a frente, o seu corpo frágil perdido no seu casaco azul, as tranças roçando as teclas e, sem mais esperas, entrega-se ao seu prelúdio. O calor regressa.
A música eleva-se, livre, Continuar a ler

A fábula do velho cão

A fábula do velho cão

Uma velha senhora foi fazer um safari em África e levou consigo o seu velho cão. Um dia, enquanto caçava borboletas, o cão deu-se conta de que estava perdido. Enquanto vagueava em busca do caminho de regresso, reparou que um leopardo o vira e que caminhava na sua direção, com intenção, decerto, de o transformar em repasto.
O velho cão pensou “Estou metido em sarilhos!” Então, olhando em volta, viu que havia ossos espalhados pelo chão e pôs-se a roê-los, de costas voltadas para o predador. Quando o leopardo estava prestes a saltar sobre ele, o cão exclamou:
— Este leopardo estava delicioso! Haverá mais algum que se coma?
Ao ouvir isto, o leopardo desatou a fugir em direção às árvores, enquanto pensava Continuar a ler

O Astrónomo

O Astrónomo

À sombra de um templo
o meu amigo e eu
vimos um cego
sentado, solitário.

O meu amigo disse:
— Olha que esse
é o homem mais sábio da nossa terra.
Então, deixando o meu amigo,
aproximei-me do cego,
saudei-o e começámos a falar.

Pouco depois disse-lhe:
— Desculpa a pergunta,
mas há quanto tempo estás cego?
Ele respondeu:
— Desde que nasci.

 
Perguntei então:
— E que caminho de sabedoria escolheste?
Ele respondeu:
— Sou astrónomo.

Em seguida
levou a mão ao peito e disse:
— Sim, observo todos estes sóis,
estas luas e estas estrelas.

Khalil Gibran
O Profeta

Os fantasmas de Evros

Vêm de África, do Magrebe, do Afeganistão… Todas as noites tentam franquear, clandestinamente, as portas da Europa, nos confins do espaço Schengen, entre a Grécia e a Turquia. Centenas de pessoas já deixaram a sua vida nas águas do rio Evros, no país que faz tremer o Velho Continente e por onde passam cada vez mais os náufragos do sonho europeu.

Para já, não passa de um retângulo de arame farpado, ao mesmo tempo ameaçador e irrelevante, plantado na fronteira. De um lado, a bandeira turca e os minaretes de Edirna. Do outro, a Grécia e, sobretudo, o espaço Schengen, uma Europa sonhada que milhares de imigrantes tentam alcançar. Logo o retângulo se torna vedação: 12,5 quilómetros de comprimento, 3 metros de altura, câmaras por todo o lado, para repelir os clandestinos. Assim decidiu o Governo grego. Mas será que podemos impedir a chuva de cair? Já há mais de um ano que os clandestinos evitam aventurar-se nesta zona militarizada, entre a Grécia e a Turquia, uma planície lisa como uma pedra, sem uma árvore para os esconder das patrulhas policiais.
Hoje, o verdadeiro «muro» está um pouco mais a sul. Ao longo do rio Evros, que corre 180 quilómetros entre os dois países. Todos os dias, todas as noites, são centenas a tentar passar. Amontoados aos quinze ou vinte em barcos insufláveis, tal como aqueles que vemos nas praias. Ao longo das margens do Evros, as embarcações rebentadas e os montes de roupas abandonadas formam manchas coloridas. Papéis, cartas, mochilas… E, por vezes, também corpos. Cadáveres de afogados. Um a dois por semana, pelo menos, recenseados do lado grego. A corrente não quer saber de bandeiras nem de fronteiras.
Que vale isso, uma vida? Para«300561a», anónima, sexo feminino, 20 a 30 anos», não vale grande coisa. Clandestina, nunca existiu nos registos da polícia. Os seus documentos flutuam algures nas águas do Evros. A «300561a» é um fantasma. Exceto talvez para Pavlos Pavlivis, o responsável da morgue de Alexandroupoli, pequena cidade grega do Sul da região. Este homem calmo apesar das unhas roídas até fazer sangue deu à jovem uma existência administrativa e um número de processo («300561a»). Atribuiu-lhe um «processo». Quatro folhas dispersas e um envelope de onde surgiu este tesouro, ainda manchado pela lama do Evros: brincos, uma pulseira, um colar com um minúsculo pendente de couro cozido. «Há uma oração no interior», diz Pavlivis. «Uma sura do Corão. Esta desconhecida era, pois, muçulmana. Talvez da Somália ou da Nigéria…»

VIDAS ‘LOWCOST’ Continuar a ler

Ainda há espaço para a alegria?

Ainda há espaço para a alegria?

O ano que agora começa não vai ser pro­priamente um tempo festivo. Por isso, poderá parecer ao leitor que este tema é uma dolorosa provocação. Mas não é: falo muito a sério.

A alegria é um sentimento sem o qual os hu­manos não podem viver. Mesmo na noite mais escura, em que a dor, o sofrimento e o choro encharcam a nossa alma, se não encontrarmos um espaçozinho para a verdadeira alegria, dificilmente suportaremos tal situação.

É claro que há várias formas de alegria e nem todas produzem esse efeito libertador.

Há a alegria de aviário, que não tem consistên­cia, usa-se quando a circunstância a exige, mas não tem nada por detrás. É como a carne dos frangos produzidos em série, obrigados a crescer à pressão, com um sabor sem sabor, filhos de hormonas e antibióticos insossos.

Há a alegria industrializada, que estrondeia nas vielas da noite, alimentada a combustíveis etíli­cos ou a passas que não são de uva. É hoje muito estimada por industriais legais de drogas ilegais que se alimentam da sua distribuição bem lucra­tiva e muito desejada, porque gera euforias mo­mentâneas a quem as usa e lhe dá bravata para tomar atitudes das quais, em estado sóbrio, se envergonharia.

Há a alegria amarela, Continuar a ler

A violência humana sobre as outras espécies

A violência humana sobre as outras espécies

ESPECISMO

A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo de carne industrial e de lacticínios.

Vivemos uma profunda crise do paradigma que dominou a humanidade europeia-ocidental e se mundializou: nele o homem vê-se como centro e dono do mundo, reduzindo natureza e seres vivos a objectos desprovidos de valor intrínseco, meros meios destinados a servir fins e interesses humano. Se a tecnociência contemporânea confiou no progresso geral da hu­manidade mediante a exploração ilimitada dos recursos naturais e dos seres vivos, frustra-se hoje essa expectativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico-económico: o sonho dos projectos neoliberais e socialistas converteu-se no pesadelo da guerra, fome e pobreza, da crise económico-financeira, da destruição da biodiversidade, do sofrimento humano e animal e da iminência de colapso ecológico.

Os relatórios científicos mostram o tremendo impacte que o actual modelo de crescimento económico tem sobre a biosfera planetária, acelerando a sexta extinção em massa do Holoceno, com uma redução drástica da biodiversi­dade, sobretudo nos últimos 50 anos, a um ritmo que chega a 140 000 espécies de Continuar a ler

Brinquedo – Miguel Torga

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel
Um codel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subido, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim,sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga, Diário I, 1941

Conversas maldosas

Conversas maldosas

Introdução

O relacionamento com os outros é uma necessidade universal, assim como o sentimento de pertença. No entanto, é importante compreender que se pode responder a estas exigências tanto de forma construtiva como destrutiva. Conversas maldosas é a história de uma rapariga chamada Bailey que o fez de um modo destrutivo. Infelizmente, Bailey não é uma exceção. Na nossa cultura aprendemos muitas vezes a relacionar-nos com os outros pela partilha de informação negativa (“Ouviste falar de _____?”) ou de informação que não nos compete a nós partilhar (“Imagina o que eu ouvi?”), ou dando opiniões ou conselhos não solicitados (“Não é para te desiludir, mas…”).
Alguns estudiosos descobriram que as mulheres são particularmente vulneráveis à armadilha das “conversas maldosas”. Isto faz todo o sentido, dado que as meninas aprendem a socializar desde muito cedo no seio de uma cultura que sugere relações mais íntimas com os outros pela partilha de segredos… Por vezes, os próprios segredos, muitas vezes, os dos outros.
Enquanto adultos, uma das nossas tarefas é a de ensinar rapazes e raparigas a desenvolver relações saudáveis e íntimas sem partilhar informação que não é deles e que não lhes compete divulgar. Partilhar os problemas dos outros permite estabelecer laços e torna-se entusiasmante. Mas pode também vir a ser um pau de dois bicos, que acaba por ferir…
A necessidade de adquirir poder e estatuto entre pares pode levar aos rumores, à criação de alianças, à exclusão, e a uma miríade de outros comportamentos destrutivos, sintomáticos de agressões relacionais. Infelizmente, o desfecho inclui quase sempre relacionamentos desfeitos e sentimentos de traição que podem bem prolongar-se até à idade adulta. Seria bem melhor que as crianças aprendessem cedo a criar e manter amizades, usando conversas construtivas e saudáveis, e partilhando esperanças, sonhos e objetivos, em vez de ferir-se umas às outras.

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Conheço uma rapariga que tem realmente uma língua enorme… O nome dela é Bailey. Bailey Boca Grande. Nunca soube que lhe chamo isto porque eu nunca o disse em voz alta. Mas é o que penso.
Quando Bailey veio para a Escola básica de Hoover, a minha professora, a Srª. Rodriguez, escolheu-me para ser a “Amiga das Boas Vindas”.
No início, eu mostrava-me um pouco envergonhada: tinha medo de dizer algum disparate e que ela não gostasse de mim. Mas Bailey começou logo a tagarelar, a fazer montes de perguntas sobre a escola e sobre os miúdos que a frequentam. E eu gostava de lhe dizer tudo o que ela queria saber.
Sentávamo-nos juntas todos os dias ao almoço e falávamos de tudo. E Bailey nunca esgotava o repertório, contando sempre piadas muito engraçadas.

Tudo estava a correr lindamente — até à noite em que dormimos em casa de Keisha.
“Vamos jogar ao Verdade ou Consequência,” disse Bailey. “Eu sou a primeira. Keisha — verdade ou consequência?”
“Verdade!” respondeu ela com uma risadinha.
“Não é para te ofender, mas essa camisa que trazes é demasiado pequena. Foram as tuas roupas que encolheram ou estás a engordar?”
Keisha abriu a boca de espanto. Continuar a ler

A patinha e a doberman

Embora Jessie, a nossa Doberman preta de quase quarenta quilos, tivesse um ar ameaçador — rosnava sempre que via estranhos e atacava todas as criaturas que aparecessem no pátio das traseiras — era uma cadela extremamente leal e amorosa connosco. Apesar de querermos ter um outro cão, achávamos que a Jessie estava melhor sozinha, porque tínhamos medo de que a inveja a fizesse atacar um qualquer animal que trouxéssemos para casa.
Quando, um dia, o nosso filho Ricky trouxe um ovo da escola, pressentimos que ia haver sarilho. O ovo tinha a ver com um projeto que envolvia a incubação e o nascimento de patos. Como não o ovo não abrira na escola, o professor tinha deixado trazê-lo para casa. O meu marido e eu não pensávamos que o ovo abrisse fora da incubadora, mas deixámos que o Ricky ficasse com ele. O nosso filho colocou-o num pedaço de relva ao sol e ficou à espera.
Na manhã seguinte, acordámos com um guincho bizarro vindo do pátio das traseiras. Quando fomos ver o que se passava, a Jessie tinha o focinho colado ao bico de uma patinha cor de pêssego, acabada de nascer.
— A Jessie vai engoli-la viva! — gritei para o meu marido. — Agarra-a!
Mas o meu marido disse: Continuar a ler

O pão dos outros

Remi está a conversar com a avó. Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.
— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.
Remi lança palpites:
— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?
A avó riu-se:
— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.
— Então, faziam as prendas?
— Não propriamente!
— Mas como é que faziam?
— Era muito simples. Ora ouve…

Antigamente, cada família cozia o seu pão. Continuar a ler

Tarte para inimigos

Devia ter sido um Verão perfeito. O meu pai ajudara-me a construir uma cabana numa árvore do nosso jardim. A minha irmã tinha ido três semanas para um acampamento. E eu estava na melhor equipa de basebol da cidade. Devia ter sido um Verão perfeito. Mas não foi.

Estava a correr tudo bem até o Cláudio Garcia se ter mudado para o meu bairro, para a casa mesmo ao lado da do Filipe, o meu melhor amigo. Eu não gostava do Cláudio Garcia. Ria-se de mim quando eu perdia no basebol. Deu uma festa em sua casa para saltar na cama elástica, mas não me convidou. Mas ao Filipe, o meu melhor amigo, sim.

O Cláudio Garcia era o único que constava da minha lista de inimigos. Nunca tive sequer uma lista de inimigos até ele ter vindo para cá mas, mal chegou, precisei de uma. Preguei-a na minha cabana, onde ele não podia entrar.

O meu pai era um especialista em inimigos. Contou-me que, na minha idade, também tinha tido inimigos. Mas que conhecia uma forma de nos livrarmos deles. Pedi-lhe que me contasse o segredo.

— Contar-te? Vou mostrar-te — disse o meu pai.

Tirou da estante um livro de receitas muito, muito antigo. Continuar a ler

Que batom combina com as montanhas?

É no aconchego mútuo que as pessoas vivem.
Provérbio Irlandês

“Há apenas três coisas que me preocupam,” disse a minha mãe ao telefone.

Conseguia imaginá-la de pé, em frente à janela da cozinha, com o telefone preso entre a cara e o pescoço, enquanto cortava orégãos frescos para o jantar. “Ser atacada por ursos, precisar de ir à casa de banho… e ficar feia nas fotografias.”

Esforcei-me por fazer ouvir a minha voz mais confiante, suave e tranquilizadora…e disse-lhe: “Se tiver de ser, vou espantar os ursos para bem longe com um pau, mas provavelmente não veremos nenhum. Ter que fazer chichi de cócoras no meio do monte não é nada de especial; e prometo que não vamos publicar fotografias feias na revista. Se o fizermos, podemos sempre pôr uma daquelas tiras pretas por cima dos teus olhos….”

Estava combinado.

Iria levar a minha mãe de cinquenta e um anos, Priscilla, e a sua irmã gémea, Linda, numa viagem de três dias de mochila às costas — um trabalho para a revista Backpacker. Estava entusiasmada, mas também nervosa. A minha mãe e a tia Linda não são exatamente montanhistas… Para elas, passar um dia inteiro ao ar livre equivale a dezoito buracos de golfe e a um bife no churrasco. Mas cada uma delas tem três filhos que adoram o ar livre. E estavam ansiosas por ver o que aquilo era…

“Posso ao menos levar um batom?” suplicou a minha mãe já no trilho principal, enquanto eu verificava o conteúdo do seu saco. Continuar a ler

«A nossa hora chegou» – Jean Ziegler

Marie-Ange Magloire é uma avó de 59 anos, refugiada da fome de Jérémie, no Sul do Haiti. Com os seis filhos da sua filha falecida, de idades compreendidas entre os 3 e os 9 anos, ela ocupa uma barraca de 15 m2, sem água nem eletricidade, na zona de Cité Soleil. Este bairro de lata estende-se à beira do cintilante mar das Caraíbas, junto de Port-au-Prince, a capital, e abriga em 4 km2 umas trezentas mil pessoas.
Bandos rivais, em luta pelo domínio do tráfico da cocaína, semeiam o terror neste aglomerado.
Uma vala a céu aberto atravessa o bairro onde habita Marie-Ange, cloaca que escoa detritos e dejetos humanos, infestada de ratos. Na penumbra do casebre, sobre uma esteira roída pelas baratas, o mais novo dos netos, Dieudonné, de 3 anos, dorme.
Marie-Ange está acocorada desde o nascer do Sol diante da barraca. A sua magreza esconde-se debaixo de um vestido vermelho, remendado vezes sem conta, roto de um lado. Sobre os seus cabelos pretos usa um lenço vermelho; nos pés, sandálias de cauchu.
Tem o porte de uma rainha. O seu olhar é grave; os seus gestos, enérgicos.
Uma bacia de plástico onde se amontoam algumas tiras de cabaça está no chão à sua frente.
Marie-Ange vende bolos de lama.
Misturada com um pouco de sal e com dejetos vegetais que fornecem matéria gorda, a lama forma uma massa lisa. Depois de secar ao sol, torna-se dura.
Marie-Ange vende-a às rodelas. A lama é apreciada pelo seu cálcio. Betona o estômago e alivia a fome.
Mesmo no meio das piores tragédias, os Haitianos não perdem o seu sentido de humor. A essas rodelas dão o nome de «biscoitos duros».
Para centenas de milhares de famílias, o bolo de lama constitui a principal refeição do dia.
Em tempo normal, os nove milhões de haitianos consomem 200 000 toneladas de farinha e 320 000 toneladas de arroz por ano. A farinha é importada a 100%, o arroz a 75%.
Entre Janeiro de 2007 e Janeiro de 2008, o preço da farinha no Haiti teve um aumento de 83%, o do arroz subiu 69%.
Seis milhões de haitianos vivem numa pobreza extrema. Estão condenados a comer lama.
«Ojos que no ven, corazón que no siente» («Olhos que não veem, coração que não sente»).
Raramente, na História, os Ocidentais deram mostra de uma tal cegueira, de um tal desinteresse, de um tal cinismo como este que hoje demonstram. A sua ignorância das realidades é impressionante. E assim se alimenta o ódio.
Durante o primeiro trimestre de 2008, motins da fome rebentaram em trinta e sete países do Sul, Continuar a ler

As crianças escravas de Wuze – Jean Ziegler

Wuze-Market II é um cafarnaum, um interminável labirinto de barracas de betão cinzento, de tabernas, de restaurantes finos, de armazéns, de parques de camiões e carroças, de ruelas incontáveis e estreitas, de avenidas inundadas de lixo de plástico, de milhares de talhos a céu aberto, de poços de água, de capelas, de mesquitas.

É percorrido dia e noite por uma turba discreta e colorida. Povos vindos de toda a Nigéria e de muitos outros países da África Negra, do Magrebe, do Médio Oriente, das costas do mar Vermelho são ali reconhecíveis pelas suas escarificações, pelos seus bubus, pelas suas túnicas, pelas suas tangas ou pelos seus cânticos. Dezenas de milhares de pessoas bebem, comem, negoceiam, vendem, compram, rezam, cantam, deambulam permanentemente neste espaço caótico.

Aqui reina a grande paz dos comerciantes. A atmosfera é agradável, as pessoas sorriem prazenteiramente umas para as outras. Nenhuma agressividade é percetível. Aqui um mercador iemenita anuncia ruidosamente as suas especiarias e os seus aromas, ali os ourives senegaleses oferecem – a preços espantosamente baixos para uma capital – joias sumptuosas. Os bidões de óleo de palma, os sacos de arroz, pirâmides de cebolas, batatas, tomates, caixas de ananases, nozes de cola, feijão vermelho, peixe fumado (pouco peixe fresco), carcaças de zebus e de carneiros amontoam-se a perder de vista.

Wuze II é um mercado rico, que oferece produtos variados em grande quantidade. Nas artérias à volta circulam os Peugeot pretos climatizados – viaturas standard dos ministros, dos generais e dos altos-funcionários. São as suas arrogantes esposas que os usam para irem ao mercado. Mas o essencial do tráfico é feito por carroças sobrecarregadas, puxadas por burros.

De tempos a tempos, passa um camelo.

A maioria dos compradores é pobre. Pensam demoradamente, hesitam, partem, voltam atrás, tentam uma baixa do preço; finalmente compram em quantidade reduzida.

Na Nigéria, existe um costume tocante. Todo o estrangeiro que passe o limiar de uma habitação, qualquer que ela seja Continuar a ler

A propósito do Dia Mundial da Consciencialização do Autismo – O passeio de Ian

Está um dia perfeito para ir ao parque dar de comer aos patos com a minha irmã mais velha, a Tara. Só que o meu irmão também quer ir connosco.

— Oh, Ian, porque é que não ficas aqui? — pergunto.

O Ian, porém, nem me responde, porque tem autismo. Mas bate com os dedos com força contra a rede da porta e começa a choramingar.

— Tudo bem, Ian. Ele pode vir connosco? — pergunto à minha mãe.

— Vais ter de o vigiar bem. Tens a certeza de que queres fazê-lo? — pergunta ela. Continuar a ler

…vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam (Shahenaz Kureshi, 18 anos)

Chamo-me Shahenaz Kureshi.

Tenho 18 anos e vivo com a minha mãe nos bairros de lata de Nagpur. O meu pai, Hakim Kureshi, queria desesperadamente ter um herdeiro varão e, por isso, ficou furioso com a minha mãe quando eu nasci. De­pois de eu nascer, começou a mal­tratá-la, tanto física como men­talmente. Considerava o facto de eu ser a primeira criança do sexo feminino da sua família como uma ofensa pessoal e tentou matar-me.

Por fim, a minha mãe decidiu deixá-lo para me salvar.

Quando tinha apenas um mês, a minha mãe partiu da nossa terra natal em Orissa, em direção a Nagpur, onde viviam os meus avós maternos. Mas, quando lá chegámos, eles não quiseram receber-nos. A minha mãe sentiu-se completamente desamparada e, nos dias seguintes, vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam.

Para piorar ainda mais a situação, Continuar a ler

…e largou-o. A ele, à droga e à prostituição (Inês 43 anos)

Rebelde, com boa imagem e uma vontade imensa de experimentar coisas novas, deixou-se aliciar por um estado surreal que alguns traficantes lhe proporcionavam através da droga. Tinha 19 anos, na altura, e trabalhava num hipermercado.

Deixou-se levar, e em três tempos estava no Técnico a prostituir-se. Na primeira vez que se prostituiu, encontrou um homem que a tratou bem e a tentou desincentivar desse caminho, mas o vício e a necessidade de ter dinheiro eram superiores a qualquer tipo de consciência. “Adorava consumir. A droga é uma maravilha, o pior é conseguir sustentá-la.” E começou logo a ter muitos clientes, a prostituir-se de dia e de noite e a consumir cada vez mais, “ao ponto de adormecer assim que entrava num carro”. Ainda assim, sabia que tinha de parar. “Ou parava ou morria”. O acesso à droga era facílimo. Continuar a ler

A filha de Elizabeti

Elizabeti tinha um  irmão ainda bebé chamado Obedi. Via a mãe cuidar dele e, por isso, também queria  ter um bebé para cuidar.

Mas não tinha nenhuma  boneca. Assim sendo, saiu de casa e apanhou um pau. Pegou nele, tentou  abraçá-lo, mas ele picava-a e, assim, ela deixava-o sempre cair ao chão. Depois,  apanhou uma pedra. Tinha mesmo o tamanho ideal! Elizabeti podia segurá-la e não  a magoava quando a abraçava. Por isso, beijou a pedra e deu-lhe um nome:  Eva.

Quando o irmãozinho  tomava banho, chapinhava e molhava a mãe. Mas quando Eva tomava banho,  portava-se muito bem e só chapinhava um pouquinho.

A mãe dava de comer a  Obedi e ele fazia “Brrrrp!” bem alto. Elizabeti dava de comer a Eva, mas ela era  muito educada e nunca arrotava… Continuar a ler

Um segredo para a minha Mãe

Enquanto  espero pelas festas, penso em todos os Natais calorosos e maravilhosos quando  era criança, e dou-me conta de que um sorriso me ilumina a  face.  Na verdade, são tempos que vale a pena recordar! Contudo, reparo que, à medida  que fui ficando mais velha, as memórias do Natal tornaram-se menos vívidas e  foram-se transformando numa época triste e deprimente… até ao ano passado. Foi  nessa data que creio ter recuperado a alegria própria da infância. A alegria que  eu sentia quando era criança…

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Todos  os anos me canso à procura de algo para oferecer à minha mãe no Natal. Mais um  roupão e uns chinelos, um perfume, umas camisolas? Tudo prendas interessantes,  mas que não dizem Amo-te da maneira  que deviam dizer. Desta vez, queria algo de diferente, algo que ela recordasse  para o resto da vida… Algo que Continuar a ler