Uma Rapariga Corajosa – Clara Lemlich e a Greve das Costureiras de 1909

Sem TítuloUm navio aporta em Nova Iorque, com centenas de imigrantes a bordo e alguém que virá a revelar-se uma surpresa para a cidade.

Clara Lemlich é uma surpresa extremamente pobre, tem cerca de metro e meio e mal fala uma palavra de Inglês. Mas é uma rapariga de coragem e irá demonstrá-lo.

Clara sabe bem distinguir o certo do errado.

O errado é o que acontece algumas semanas depois de os Lemlich ocuparem o alojamento que lhes destinaram na América. Continuar a ler

A travessa-cavalinho

Margarida olhou a antiga travessa, pendurada há anos, depois de ter sido substituída por loiça mais moderna, destacando-se na parede das recordações – se é que se pode chamar assim a um conjunto de objetos que trazem memórias e, neste caso, quase sempre felizes.

 A travessa, de cor parda pelo uso e pelo tempo, mantinha, no fundo, uma paisagem arborizada, em tons de verde, e, no centro, um cavalo veloz, guiado por um jovem e ágil cavaleiro. Continuar a ler

O Sentido da Gratidão

O Homo technicus-economicus julga-se autossuficiente. Arrogante, demiurgo, autocomplacente, põe e dispõe de tudo o que o planeta lhe oferece. Outorga-se todos os direitos, ignora todos os deveres, e corta todos os laços que o unem aos outros seres humanos, à natureza, à história, ao cosmos. Leva tão longe a sua emancipação que corre o risco de soltar todas as amarras e de desligar, de se desligar, de se autoexpulsar da criação.

A sua ideologia é tão simplista que qualquer fundamentalismo religioso parece subtil e pluralista em comparação. Funciona segundo um só preceito, uma só lei, um só Continuar a ler

Li Na e o Imperador

linaHá muito, muito tempo, na China longínqua, vivia uma mulher idosa num pequeno barco ancorado no Rio Amarelo. Chamava-se Li Na e era calígrafa.

Li Na tinha trabalhado toda a vida para alcançar a perfeição na sua arte. Muitas pessoas sabem escrever, mas só um artista consegue exprimir a verdade através de alguns traços desenhados numa folha.

Por essa altura vivia na capital da China um imperador. Habitava um imenso palácio, cuja entrada estava proibida às pessoas comuns. Era muito rico, muito poderoso e cruel. Até mesmo a mulher e os filhos tinham medo dele.

Em contrapartida, toda a gente gostava da velha calígrafa. Vinham de toda a parte admirar as suas obras de arte. — Desenha o signo do amor! — pediam-lhe. Ou então: Continuar a ler

O murmúrio dos fantasmas B. Cyrulnik

O afeto é uma necessidade tão vital que, quando se é privado dele, agarramo-nos intensamente a qualquer acontecimento que desperte em nós um pouco de vida, seja qual for o preço a pagar. Aqueles que recusam  ficar prisioneiros de um trauma devem libertar-se dele para voltarem à vida. Há mesmo quem transforme esse trauma numa ferramenta imprescindível para regressar ao caminho da felicidade.

Nestas páginas, Boris Cyrulnik, apesar de uma infância marcada pela guerra e pela deportação dos pais, tornou-se um homem que superou os seus próprios traumas e se tornou respeitado por todos. O drama que viveu não o afastou dos homens, mas levou-o a tentar compreender «o que é o humano» e a acreditar que há algo em todos nós que «nos leva a não fazer o mal porque nos pomos no lugar do outro, e isto é, provavelmente, o fundamento da moral». Estudou medicina, tornando-se neuropsiquiatra, psicólogo e psicanalista, e conta como o fracasso do passado permanece na criança grande que tece novos laços afetivos e sociais. Enquanto atitude nova face ao sofrimento psíquico, a resiliência propõe a construção deste processo de libertação. O seu livro intitulado O Murmúrio dos Fantasmas é uma verdadeira mensagem de esperança. Continuar a ler

Pia vê tudo cinzento

Está novamente a chover.a

Como tantas vezes, Pia está sentada à janela com o olhar fixo na cidade molhada, lá em baixo. Nada mais do que casas e ruas! Pia só vê cinzento e também se sente assim: cinzenta, sombria e só. Não tem vontade de fazer nada. Há muito que já não consegue rir. Desde que o pai se mudou para casa da namorada. O que foi muito mau! A mãe limitava-se a ficar parada, a pensar e a chorar. Também Pia perguntava constantemente:

— Porque é que o papá fez isto?

— Temos de sair daqui — disse, certo dia, a mãe. — Para longe. Para esquecer! E tenho de voltar a trabalhar, assim fico sem tempo para pensar! Continuar a ler

O remedeio

aCatarina torceu o pé na aula de ginástica. Agora tem de usar uma ligadura e coxeia. O facto não é só desagradável para ela. É desagradável para toda a turma porque Cati devia dançar na festa da escola, no parque. O brilhante número da turma do quarto ano está em perigo.
— Que azar! — disse Jacob. — Isto tudo só porque a Cati não quis deixar de ir à aula de ginástica! Nenhuma estrela de dança vai fazer ginástica antes da festa da escola. Devíamos tê-la proibido!
— A Susi pode dançar por ela — propõe Max.
— Eu? — exclama Susi. — Agora assim, de repente? Vocês queriam a Cati! Ela é que não devia ter torcido o pé! Continuar a ler