Emprego e desemprego no tempo do medo

O direito laboral está a reduzir-se ao direito de trabalhar pelo que quiserem pagar e nas condições que quiserem impor. Não existe no mundo mercadoria mais barata do que a mão de obra. Enquanto caem os salários e aumentam os horários, o mercado laboral vomita gente. É pegar ou largar, que a fila é comprida.  Continuar a ler

Obrigada por não me empurrares

As minhas pernas andavam para a frente e para trás. Embora estivesse a usar toda a força que tinha para que o meu baloiço chegasse ao céu, estava muito longe de o conseguir.

— Mãe, podes empurrar-me outra vez?

— Não, filha. Eu sei que consegues chegar mais alto. Concentra-te e continua a usar as tuas pernas.

Olhei em volta e vi todas as outras mães e pais do parque a empurrar os filhos, sob o calor escaldante de junho. Perguntei-me por que razão a minha mãe não fazia o mesmo. Não que lho fosse perguntar. Temia bem aquele olhar que os pais lançam aos filhos, quando acham que a sua autoridade está a ser questionada.

— Está bem — resmunguei.

Embora eu não acreditasse na força das minhas pernas, a minha mãe parecia ter muita confiança nelas. Coloquei as mãos em volta das correntes de metal, pus-me em posição, balancei para trás e lá continuei.

— Continua a balançar as pernas, filha! Tu consegues! — encorajou-me ela.

Parecia querer o meu sucesso mais do que eu mesma. Como não queria desapontá-‑la, lá me esforcei. Acabei por chegar tão perto do céu que os meus pés já tocavam as nuvens. Sorri abertamente ao ver que tinha conseguido o impossível. Tinha conseguido voar.

Saltei do baloiço e enterrei os pés na areia quente.

— Viste o que eu fiz, mãe? Viste?

— Claro que vi. Estive sempre a olhar para ti.

Naquela altura, não compreendia por que motivo a minha mãe queria que eu fizesse tudo sozinha. Se eu não conseguia balançar mais alto, porque não me empurrava ela?

Ao longo dos anos, a minha mãe deu-me o maior presente que um pai ou mãe podem dar aos filhos: um amor exigente, liberdade e independência. Ensinou-me a enfrentar os desafios sozinha. Preparou-me para o meu futuro. E mostrou sempre muita empatia e amor por mim, ao mesmo que tempo que fazia de minha professora e melhor amiga, e ainda de pai e de mãe.

De cada vez que ouvia as palavras “Não consigo”, sorria, porque sabia que eu conseguia. Se ela tivesse empurrado o meu baloiço, eu nunca teria saltado dele sentindo-‑me tão maravilhosamente capaz.

Christy Barge

O dia mais fantástico

Do lado de fora da minha janela há um cenário de beleza de cortar a respiração. Penhascos encimados por árvores erguem-se ao longo do rio, e, de cada vez que o sol se liberta das nuvens, polvilha as folhas de luz e ilumina o rio de reflexos de ouro.

Cá dentro, mais imagens alimentam os meus olhos. Um Buda sobre uma mesa de cerejeira, a sua eterna gargalhada magistralmente captada por um xilogravador filipino, e um cacho de cristais de quartzo a brilhar aos seus pés. Um conjunto de fotografias — família, amigos e locais longínquos — aumenta o encanto desta exposição.

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Novos destinos – o mesmo drama

Enquanto a União Europeia fecha as portas à emigração africana, uma nova vaga tenta a sua sorte na América Latina. Africanos podem levar mais de 30 difíceis dias a atravessar o Atlântico para chegar ao Brasil, Argentina ou México. Nos últimos dois anos, os números da imigração duplicaram, assim como os pedidos de estatuto de refugiado.

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As Crianças Lambem o Prato

Quer se trate de populações cujo fraco poder de compra não lhes permite o acesso aos víveres vendidos no mercado ou pessoas cujo estatuto social as torna desprezadas pelas sociedades em que estão inseridas, um elevado número de seres humanos está votado à eliminação ao longo dos próximos anos. Mas ninguém reconhecerá abertamente que “programou” a eliminação pela fome, pelo massacre ou pela deportação daqueles que os incomodam.  Continuar a ler

Adoro a minha parede

Um sábado, depois da nossa excursão pela Pizza Hut, pelo centro comercial e pelo cinema, levei a minha afilhada Samantha, de dez anos, à nova residência da sua família. Quando saímos da auto-estrada para uma estrada de terra que ia ter à sua casa, fiquei desolado ao ver que ela e os pais estavam a viver num velho autocarro escolar no meio do campo.

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A televisão e o coração do homem

Aqui é de televisão que se fala.

É de televisão que venho falando há mais de trinta anos. Porquê? Digamos que por amor. Não encontro melhor explicação, dado que só ele justifica a entrega de corpo e alma. A televisão é um dos grandes milagres do nosso tempo. Só para conhecê-la já valeu a pena ter vivido. Infelizmente, nem sempre tem sido usada da melhor forma, e isso me motivou para o combate.

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