Novos destinos – o mesmo drama

Enquanto a União Europeia fecha as portas à emigração africana, uma nova vaga tenta a sua sorte na América Latina. Africanos podem levar mais de 30 difíceis dias a atravessar o Atlântico para chegar ao Brasil, Argentina ou México. Nos últimos dois anos, os números da imigração duplicaram, assim como os pedidos de estatuto de refugiado.

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A fábula do velho cão

A fábula do velho cão

Uma velha senhora foi fazer um safari em África e levou consigo o seu velho cão. Um dia, enquanto caçava borboletas, o cão deu-se conta de que estava perdido. Enquanto vagueava em busca do caminho de regresso, reparou que um leopardo o vira e que caminhava na sua direção, com intenção, decerto, de o transformar em repasto.
O velho cão pensou “Estou metido em sarilhos!” Então, olhando em volta, viu que havia ossos espalhados pelo chão e pôs-se a roê-los, de costas voltadas para o predador. Quando o leopardo estava prestes a saltar sobre ele, o cão exclamou:
— Este leopardo estava delicioso! Haverá mais algum que se coma?
Ao ouvir isto, o leopardo desatou a fugir em direção às árvores, enquanto pensava Continuar a ler

A filha de Elizabeti

Elizabeti tinha um  irmão ainda bebé chamado Obedi. Via a mãe cuidar dele e, por isso, também queria  ter um bebé para cuidar.

Mas não tinha nenhuma  boneca. Assim sendo, saiu de casa e apanhou um pau. Pegou nele, tentou  abraçá-lo, mas ele picava-a e, assim, ela deixava-o sempre cair ao chão. Depois,  apanhou uma pedra. Tinha mesmo o tamanho ideal! Elizabeti podia segurá-la e não  a magoava quando a abraçava. Por isso, beijou a pedra e deu-lhe um nome:  Eva.

Quando o irmãozinho  tomava banho, chapinhava e molhava a mãe. Mas quando Eva tomava banho,  portava-se muito bem e só chapinhava um pouquinho.

A mãe dava de comer a  Obedi e ele fazia “Brrrrp!” bem alto. Elizabeti dava de comer a Eva, mas ela era  muito educada e nunca arrotava… Continuar a ler

Uma oficina diferente

Aboubacar trancou a porta da sua oficina com um suspiro cansado mas satisfeito. O dia fora longo. Parecia que todas as motas e motocicletas da cidade tinham decidido avariar naquele dia. Felizmente não lhe faltavam clientes. Alguns diziam que não havia melhor mecânico em toda a capital, Ouagadougou, outros diziam que em todo o Burquina Faso! Aboubacar sorria modestamente. Sabia bem que, quando os clientes que tinham chegado suados a empurrar a motoreta sob o sol intenso regressavam a casa montados nela, não se poupavam a elogios… de alívio e de felicidade!

A meio dos quarenta, Aboubacar era o filho mais velho de uma família numerosa. Ainda pequeno, os pais tinham-no enviado para casa de um parente afastado que vivia na capital, para aprender um ofício e ser mais tarde o chefe da família, como era a tradição. Um vizinho mecânico, a quem todos tratavam carinhosamente por TioAssouf, gostou daquele rapazinho de olhar vivo e curioso, e acabou por levá-lo para a sua oficina. A família afeiçoou-se a Aboubacar, e como os filhos de Assouf tinham partido para França, este acabou por passar a viver em casa dele.

Ao final do dia, o Tio Assouf gostava de se sentar à porta de casa a fumar e a ler o jornal. Certo dia, o rapazinho perguntou-lhe:

— Tio Assouf, o que está a fazer com esses papéis nas mãos?

— Estou a ler o jornal, Aboubacar — respondeu-lhe seriamente.

— E porque é que está sempre a ver os mesmos papéis?

— Aboubacar, eu não estou a ver, estou a LER — disse-lhe. — E isto é um jornal. Aqui estão escritas as coisas mais importantes que acontecem no nosso país. Chega cá.

E perguntou-lhe em tom mais baixo:

— Tu sabes ler?

— Não.

— Humm… é pena… podias ajudar-me aqui numa frase que não consigo ler. Sabes, quando tinha a tua idade, não tive a sorte de poder ir para a escola todos os dias e aprendi só um bocadinho. Mas como tinha muita vontade, fui continuando a aprender sozinho. Mas há algumas palavras que não sei ler muito bem, e outras que não percebo, porque são novas. É por isso que demoro muitos dias, quer dizer… Bem… digamos que leio mais devagar. Mas… espera aí! Se não sabes ler, como é que descobriste que estou com o mesmo jornal?

— Porque há dois dias que vejo sempre a mesma imagem na parte de trás da página — respondeu Aboubacar.

— Tu és esperto, rapaz! — exclamou o Tio Assouf, passando-lhe a mão pela cabeça e soltando uma gargalhada jovial. De repente parou, com os olhos fixos em Aboubacar e disse-
-lhe, com um largo sorriso radioso:

 — Como é que eu não pensei nisto mais cedo! TU é que vais aprender a ler e a escrever. E vamos ver se conseguimos que seja já na próxima semana! De manhã, escola. De tarde, logo se vê.

— Tio Assouf, eu tenho de trabalhar na oficina. É por isso que estou aqui!

— Não, Aboubacar. Aprender a ler e a escrever, a pensar sozinho e a compreender o que se passa à nossa volta é mil vezes mais importante. Até para trabalhar na oficina. Sabes fazer melhor as contas, percebes melhor o que fazes, podes ler e aprender coisas novas em livros e não demoras uma semana para ler um jornal de cinco folhas, como eu. Amanhã mesmo vou falar com o professor e logo se vê se podes ir para a escola normal ou juntar-te ao grupo de crianças cá do bairro a quem dá aulas em casa ao fim do dia. Anda, vamos jantar e contar tudo à Tia Esther.

A esposa de Assouf ficou radiante com a perspetiva de oferecer um futuro mais promissor a Aboubacar. Ela própria lamentava ter sido obrigada a ficar em casa e a ocupar-se unicamente das tarefas domésticas. Sentia que as raparigas não deviam ter um tratamento diferente dos rapazes. Por que razão não as mandavam à escola e as retiravam de lá quando eram precisas em casa? Se eram elas que iam ao mercado, que vendiam e faziam as compras? E dizia o que pensava em voz alta, sem vergonha do que pudessem pensar:

— As mulheres são tão capazes como os homens!

Decididamente, a família do Tio Assouf era muito diferente das normais, e não admira que Aboubacar se tivesse empenhado ao máximo em aprender avidamente tudo o que lhe ensinavam, quer fosse na escola ou na oficina, e escutasse com atenção as conversas de Assouf e da esposa e se começasse também a questionar sobre determinados assuntos.

Assim, de cada vez que fechava a oficina, que fora a de Assouf, Aboubacar nunca deixava de pensar nele e na esposa, e agradecia-lhes as oportunidades que lhe tinham dado.

♦♦♦

Naquele dia tão quente, Aboubacar ainda tinha tempo, antes do jantar, para se juntar aos amigos no largo, debaixo da árvore de mangas.

— Então, Abubacar, que tal o dia? — saudaram os amigos quando o viram chegar.

— Bebe uma cerveja — convidou-o Salit. — Com este calor, qualquer dia vais ter de comprar um ar condicionado para a oficina!

— Ar condicionado? Isso é para ti, que trabalhas para o estado…

— Sim, mas também não faz grande falta. À velocidade com que carimbam os papéis, não devem aquecer muito! — riu-se Aziz.

— Valia mais gastar o dinheiro num despertador. Passam o tempo a dormir, qualquer dia ainda ficam lá fechados de noite! — riu-se outro.

— Se o negócio continuar assim, precisava era de meter um… — começou Aboubacar.

— Olha, quem tem mais um em casa, sou eu.

— Vais ter outro filho?

— Não, tenho uma cunhada da sobrinha da minha mulher. Diz que o marido a tratava mal e resolveu fugir… Apareceu lá em casa cheia de nódoas negras, quase sem forças e lavada em lágrimas. Imaginem que caminhou dois dias inteiros. Vinha num estado miserável! A pena que metia!

— Coitada! Não consigo entender porque é que alguns maridos tratam tão mal as mulheres! Uma prima da Srª Maimouna, a que vende bolos no mercado, também fugiu para cá.

— Tratar mal? Mas as mulheres querem-se em casa a trabalhar e a ter filhos! E as filhas devem casar-se o mais depressa — ripostou o velho Suleiman.

— Porquê? Isso não é vida. Porque não hão de saber ler e escrever, ir à escola, trabalhar em qualquer lado, serem tratadas com respeito? São tão capazes como os homens. Olha a prima da Srª Maimouna. Tirou um curso de costura e agora trabalha em casa como costureira. Aprendeu a ler e consegue costurar a partir dessas revistas de costura modernas.

— Ora, lá vens tu com as tuas modernices, Abubacar — continuou Suleiman.

— Não são modernices. Vocês, Salit, não têm mulheres lá no escritório? E não fazem o mesmo trabalho?

— Sim, são da família do chefe. E… a verdade é que até não trabalham mal, quero dizer… bem… despacham as coisas mais depressa, lá isso é… E já que falas na prima da Srª Mamouna, a minha mulher já lá mandou coser uns tecidos e diz que não quer mais ninguém.

— Veem? Então?

— Pode ser, mas não acho bem. Só tive rapazes, mas se tivesse filhas…

— Pensavas de maneira diferente — atalhou rapidamente Abubacar.

— Ai, sim? Tu e as tuas ideias do costume. Se são tão boas como os homens, Abubacar, porque não metes nenhuma na oficina? — perguntou o velho Suleiman num tom desafiador.

— E porque não? Só porque ainda não me apareceu nenhuma.

Nesse momento, a mulher de Aboubacar chegou a correr.

— Aboubacar, desculpa, podes vir depressa para casa? Precisava de falar contigo.

— Aconteceu alguma coisa, Aida?

— Vem depressa. É a tua irmã Miriam.

♦♦♦

Miriam era a irmã mais nova de Aboubacar. Embora com vinte anos menos, era a sua preferida. Sempre insistira em trazê-la para junto dele, mas os pais nunca o permitiram e obrigaram-na a ficar na aldeia e a trabalhar no campo. Um pouco à revelia e com o apoio do irmão, Miriam tinha conseguido frequentar a escola durante três anos, chegando a levar os livros para o campo enquanto guardava as cabras. Tentara ganhar o máximo de tempo que conseguira, mas os pais acabaram por obrigá-la a casar aos dezoito anos com um homem dezanove anos mais velho. Numa família, uma mulher é mais um peso, uma boca a alimentar, e, se não casar, é mal vista por todos.

Fora um casamento infeliz. Miriam tinha de trabalhar no campo, cuidar dos animais e da casa. Era obrigada a entregar ao marido o dinheiro que conseguia juntar com as vendas no mercado, e ele gastava-o todo em cerveja. Bêbedo, humilhava-a e batia-lhe violentamente. Por infelicidade, o primeiro filho que teve foi uma menina, que morreu ao fim de um ano. O marido violentava-a porque queria um rapaz. O segundo filho tornou a ser uma menina que nasceu já morta. Bêbedo, o marido espancou-a e a família passou a desprezá-la ainda mais, obrigando-a a fazer todo o tipo de trabalhos e injuriando-a por não conseguir gerar filhos. Fruto da violência física e psicológica de que era vítima, nunca mais pôde ter filhos. Até que num dia em que o marido, bêbado, a espancara e abalara da aldeia com outra mulher, levando todo o dinheiro que possuíam, Miriam fugiu.

— Bem sabes que a nossa família nunca me aceitará de volta e a do meu marido, então… Nem a quero ver. Desculpa ter aparecido aqui, Aboubacar, mas não tenho dinheiro nenhum nem para onde ir. Só me lembrei de ti. E como sempre quiseste que viesse para Ouaga…

— Mas como conseguiste chegar até aqui? São mais de cem quilómetros!! E olha-me para a tua cara, estás toda pisada. Tens de ir imediatamente ao hospital.

— Estava tão desesperada que saí da aldeia sem pensar. Apanhei alguma fruta pelo caminho até chegar perto da aldeia do Sr. Ibrahim, que me encontrou na estrada. Como vinha ao mercado, trouxe-me na carrinha dele. Foi uma sorte. Importas-te que fique aqui por uns dias? Não quero incomodar nem dar despesa; hei de arranjar trabalho e, logo que possa, mudo-
-me.

— É que nem pensar, Miriam! — interrompeu Aida. — Ficas aqui connosco. Primeiro, vamos curar-te essas feridas, descansas o tempo que for preciso e depois pensamos numa forma de passares a ganhar algum dinheiro para ti. Temos agora uma costureira nova cá no bairro a quem aconteceu o mesmo que a ti. Tem bastante serviço, talvez precise de uma ajudante, e as mulheres têm de se unir. Tu ainda és nova e a vida não acabou, não é, Aboubacar?

— Claro! E desde quando é que a minha irmã mais nova ia andar por aí perdida nesta cidade? Agora que te livraste do teu marido, é aqui que a tua vida vai finalmente começar. E agora vais lavar-te imediatamente e descansar.

— Obrigada, Aboubacar, obrigada, Aida. Muito, muito obrigada. Sinto-me bem melhor e vocês tiraram-me um peso enorme do coração. Vou lavar-me e venho já ajudar-te a preparar o jantar, Aida.

— Não preferes descansar?

— Acho que não. Sinto-me tão aliviada que parece que já nem estou cansada.

— Tu é que sabes. Então, para comemorar, o jantar tem de ser especial. Não é todos os dias que se comemora uma decisão e uma mudança tão importante como a tua. O que há de ser?

— Hum… que tal um estufado de inhame com arroz de tomate e cebolas? Se bem te conheço, Miriam — atalhou Aboubacar — é a tua comida preferida! E voltei a esquecer-me de uma coisa na oficina! O tio Bono trouxe-me umas papaias … que por sinal também são os nossos frutos preferidos! Venho já!

— Muito obrigada! — agradeceu Miriam atirando-se ao pescoço do irmão. — E a ti também, Aida. Nem imaginas a sorte que tens!

Nessa noite, a sobremesa teve de esperar para o dia seguinte: Miriam adormeceu à mesa. Aida e Aboubacar deitaram-na cuidadosamente na cama deles e voltaram para a cozinha.

— Coitada da tua irmã. Acontece a tantas mulheres! Ao menos ela teve a coragem de sair da aldeia.

— Eu sei. Estive sempre à espera deste momento, acreditas?

♦♦♦

Nessa noite, Miriam dormiu pesadamente e só acordou depois da hora do almoço do dia seguinte.

— Meu Deus! — exclamou ao encontrar Aida. — Nem acredito que dormi tanto!

— Como te sentes? Tens a cara toda pisada.

— Estou bem, obrigada. Estou com muito mau aspeto mas não me dói nada. Desta vez não fiquei com golpes. Vou por umas folhas para ajudar a cicatrizar. Aliás, sinto-me tão aliviada, que nem penso na minha cara. Mas acredito que não esteja nada bonita…

— O Aboubacar está na oficina e eu tenho de sair, não sei se queres vir comigo.

— Estive a pensar… Realmente, se a tal costureira precisar de alguém que a ajude… Costurar não é o meu forte, mas faço qualquer coisa. Achas que posso fazer algumas limpezas?

— Espera. Vamos ver primeiro cá no bairro. Também há um restaurante de uma organização holandesa que dá aulas de hotelaria…

— Muito obrigada, Aida. Eu vou ter com o meu irmão.

Miriam passou a fazer companhia ao irmão na oficina e, com o tempo, a dar-lhe uma ajuda. Enchia os pneus, mudava o óleo, afinava os travões. Os amigos de Aboubacar brincavam com ele e a princípio não viam com bons olhos que as suas motas fossem arranjadas por uma mulher. Chegou até a perder alguns clientes. Mas encolhia os ombros e continuava. E Miriam gostava cada vez mais do trabalho. Descobrira a sua vocação!

— Aboubacar — disse certo dia Salit, entrando com a motoreta pela mão. — Desculpa dizer-te isto, mas prefiro que sejas tu a compor a minha mota. Trouxe-ta cá ontem para arranjar, e hoje ia-me enfiando pela barbearia dentro porque me falharam os travões. O Aziz também trouxe a dele e está boa… Não sei o que se está a passar, se é que me percebes. Sabes que gosto do teu trabalho e não queria mudar…

Aboubacar observou a motoreta e coçou a cabeça, embaraçado.

— Peço imensa desculpa — Salit. — Sei muito bem o que se passou. Ontem tivemos muito trabalho e lembro-me que a minha irmã arranjou a do Aziz e eu a tua. Esqueci-me de ver se os travões estavam afinados. A minha irmã nunca se esquece… Lamento imenso. Vou já arranjá-la.

— Hum… foi a tua irmã que tratou a do Aziz? É que ele…

— Sim, sim — respondeu Aboubacar. — Deve ser de família. Ela tem imenso jeito e aprendeu em pouco tempo. Aconteceu alguma coisa à do Aziz? — perguntou preocupado. — Como ela não tem ainda muita experiência…

— Hum… Bem… não. É que… O Aziz disse que a mota dele tinha ficado como nova desde que saiu ontem daqui e anda a espalhar isso pelo mercado. Estou a ver que não vais precisar de nenhum empregado. Ou melhor… até vais, pela publicidade que ele anda a fazer. Fico contente por ti e pela Miriam. Tem outro ar e … outra postura, desde que trabalha contigo, não sei explicar. Soube ontem que a minha prima também está a passar mal com o marido. Ainda é muito nova, também casou à força e o marido trata-a brutalmente. Tenho imensa pena porque ela é muito jovem e bonita. Desde que te conheci que fiquei a pensar nestas coisas e já lhe dei a entender, da última vez que a vi, que podia vir para minha casa. A minha mulher até foi a primeira a falar-lhe. De cada vez que vejo a Miriam pergunto-me porque é que a minha prima não faz o mesmo.

— O que é que eu fiz, Salit? — pergunta Miriam, que vinha a entrar e ouvira a última parte da conversa.

— Mudaste a tua vida! Tenho uma prima que está a passar pelo mesmo que tu passaste e dei-lhe a entender que podia vir para minha casa.

— E fizeste muito bem, Salit. Tenho sabido no mercado que há imensas mulheres a quererem libertar-se. Nem é vir para a cidade, algumas até são de cá. É sair do inferno em que vivem e recomeçarem a viver. Tenho ouvido imensas histórias… Aboubacar, tenho uma proposta para te fazer: lembrei-me de abrirmos uma espécie de escola de mecânica só para mulheres. Conheci duas raparigas que me pediram muito que as ensinasse e se a tua prima quiser, Salit, já tem onde vir aprender. O que é que não falta em Ouagadougou? E no Burkina Faso? Motas, motocicletas e motorizadas. E os mecânicos são sempre precisos. Vais ver, irmão, que vamos poder ajudar imensa gente! E acredita que ainda vamos abrir mais escolas!

— Faz isso Aboubacar, faz! — insistiu Salit — Se for preciso dinheiro para alguma coisa, eu ajudo.

— Obrigado, Salit, mas é claro que a ideia me agrada. Já andava a pensar nisso há algum tempo, mas não tinha pensado em que fosse só para mulheres. Acho que quem não vai gostar da ideia vai ser o tio Suleiman — disse Aboubacar com uma gargalhada. — Não sei o que tem, mas desde domingo que não me fala, só cumprimenta com um ar estranho.

— A sério? — perguntou Salit. — O que é que lhe fizeste? Anda por aí a correr montado na mota como um rapaz! Realmente anda esquisito, nuca o vi conduzir tão rápido! Acreditas que ia virando uma bancada de mangas? Vi eu com os meus olhos!

— Olha, lá vem ele!

— Boa tarte, tio Suleiman! Quer uma cerveja? Já vamos fechar!

— Aa… hum… Aboubacar, Miriam, boa tarde. Não obrigado, tenho de ir para casa. — Tossicou antes de continuar: — E venho entregar-te este dinheiro para pagar o resto da reparação, Miriam. A mota está ótima! — acrescentou num tom entusiasmado, e seguiu.

— Realmente anda esquisito! Mas que dinheiro? Que reparação? Nem cá veio com a mota…

— Eu sei o que se passa — disse Miriam, satisfeita. — Na quarta-feira passada, naquela semana em que tiveste de sair da cidade e eu fiquei sozinha, apareceu aqui na oficina a velha tia Celine, a mulher dele, com a mota. Parece que ele não queria mandá-la arranjar porque tu não estavas. Mas ela precisava que ele lhe fizesse uns recados com urgência. Sabes como ele é teimoso. Insistia em que só tu é que lha podias compor. A tia Celine, que fala muito comigo, e até já chorou quando me contou umas coisas, fartou-se. Aproveitou quando ele estava a dormir e trouxe a mota. Pagou-me metade porque era dinheiro dela… bem sabes que as mulheres não têm muito… Quando ele saiu ao fim da tarde, notou que a mota estava diferente. Ela acabou por contar-lhe e ele zangou-se tanto que não lhe falou durante um dia inteiro. E disse-lhe que não pagava o resto da reparação nem lhe dava dinheiro. Só não estava à espera da coragem da mulher, que disse que não lhe cozinhava enquanto ele a tratasse assim! Como teve de comprar comida fora e tem bastante idade, apanhou uma tal diarreia…e lá acabou por fazer as pazes ao fim do segundo dia, e confessar que a mota nunca tinha andado tão bem, segundo me contou a tia Celine. Agora que está bom de saúde, passa o dia montado nela de um lado para o outro. E o facto de ter vindo pagar o que faltava, foi um bom sinal. Amanhã entrego o dinheiro à tia Celine, quando a encontrar. Não são ricos e de bom grado lho ofereço. Parabéns, tia Celine, temos sempre idade para exigir que nos respeitem!

 

 

In: DeutscheWelle

(Tradução e adaptação)

O rapaz que não desistiu do sonho

O rapaz que não desistiu do sonho

William Kamkwamba suspirou de alívio. Os três dias dos exames nacionais tinham chegado ao fim. Pensou, com orgulho e alegria que, se passasse, no próximo ano iria finalmente para a escola secundária. Deixaria de usar calções para passar a usar calças; e estudaria quanto fosse preciso para ser dos melhores alunos, e motivo de contentamento para os pais. A irmã mais velha não só a frequentava como já ia a meio do curso, e agora chegara a vez dele. Mas, até saírem os resultados e ser afixada a escola para onde iria em meados de Janeiro, ainda faltavam muitos meses.
— Então, Gilbert? — perguntou William ao amigo. — Agora que temos as manhãs por nossa conta, o que vamos fazer?
— Que tal começarmos por ir à caça? Há tanto tempo que não vamos…
Gilbert era filho do chefe da aldeia. Tal como William, tinha treze anos, e também queria continuar a estudar. Ambos viviam na aldeia de Wimbe, no Malawi, um país da África Oriental junto a Moçambique e ao grande lago Niassa.
No Malawi, a base da alimentação é o milho, por isso os dois rapazes tinham de ajudar os pais nas plantações. E para se frequentar a escola secundária também era preciso pagar, outra razão para desejarem que as colheitas daquele ano fossem abundantes.
No entanto, uma tragédia vinha aos poucos a abater-se sobre todo o Malawi. Naquele ano, as chuvas de Dezembro chegaram mais tarde e provocaram inundações no país inteiro, arruinando as plantações dos agricultores. Às inundações seguira-se a seca. Devido a uma má gestão do governo, a maior parte das reservas de milho tinha sido vendida para o estrangeiro e o que restava alcançou preços exorbitantes. A corrupção e a especulação fizeram com que nem toda a população, empobrecida, pudesse adquirir novas sementes. Nesse ano, na colheita de Maio, o pai de William conseguira apenas cinco sacos de milho. O rapazinho começou a preocupar-se. Como é que cinco sacos iam alimentar oito pessoas durante um ano inteiro? E será que o pai conseguiria o dinheiro para pagar a escola?
A partir de Outubro, a fome abateu-se sobre todo o Malawi e durou cinco meses. Foi o maior período de fome que o país alguma vez atravessara. Sem dinheiro para comprar milho nem farinha, que foram ficando cada vez mais caros até desaparecerem do mercado, as pessoas começaram por vender os seus bens e passaram a comer tudo o que encontravam: folhelho de milho, mangas verdes, peles de animais, ervas, até, não havendo absolutamente mais nada, começarem a definhar e a morrer de fome. Como se não bastasse, os mosquitos trouxeram depois uma epidemia de malária que vitimou muita gente. No dia em que a mãe de William moeu o último balde de milho, o pai reuniu os filhos na sala.
— Dada a situação, a única maneira de sobrevivermos é passarmos a fazer somente uma refeição por dia — disse. — Durante o dia é mais fácil não pensarmos na fome, mas de noite, não. Por isso, vamos comer à noite.
Nessa mesma noite, a família reuniu-se em volta de uma única tigela, de onde todos comeram.
Apesar da fome que piorava de dia para dia, William e o pai tinham, a todo o custo, de continuar a trabalhar nas plantações, para poderem ter uma colheita de milho e tabaco que fosse vendida no ano seguinte. Não era tarefa fácil. O corpo quase não sentia o pouco que comiam, e por vezes desmaiavam durante o trabalho.
As aulas começavam em meados de Janeiro e William ia finalmente entrar para a escola secundária. Não para a que desejara, porque as notas não o permitiram, mas para uma outra, a cinco quilómetros. No entanto, tal como a maioria dos alunos, teve de desistir por não poder pagar as propinas. De qualquer forma, em Fevereiro, todas as escolas acabaram por fechar devido à fome generalizada. Os professores e os alunos sentiam-se demasiado fracos e alguns acabaram por morrer. Em Março, assim que o milho e as abóboras amadureceram, o distrito começou lentamente a recuperar. Embora a colheita tivesse sido boa graças aos esforços sobre-humanos de pai e filho, depois de saldadas as dívidas, William continuou sem dinheiro para poder pagar a escola. Teria de passar o semestre em casa.
Certo dia, olhando para os pobres campos em volta da aldeia e pensando na vida que o pai levava, William decidiu que não desejava para si um futuro semelhante. E tomou uma resolução: iria estudar sozinho afincadamente para recuperar o atraso, antes de as aulas recomeçarem. Para ocupar o tempo, delineou um rigoroso plano de estudos e começou a frequentar a biblioteca da escola da aldeia, passando a tarde a ler os livros que requisitava pela manhã. Gilbert, cuja família conseguira dinheiro para que prosseguisse os estudos, punha-o todos os dias ao corrente das matérias estudadas e ajudava-o no que ele não percebia. Infelizmente, os livros eram em inglês, língua que não dominava, mas os gráficos e os desenhos ajudavam-no a compreender e, aos poucos, foi também percebendo melhor a língua.
William sempre fora curioso. Gostava de conhecer o funcionamento dos aparelhos e das máquinas e, alguns meses atrás, conseguira ligar um dínamo a um rádio e fazê-lo tocar enquanto pedalava na bicicleta. Com o seu primo Geoffrey, montara depois um pequeno negócio para compor aparelhos de rádio, mas, como eram precisas pilhas e estas eram caras, depressa tiveram de o abandonar. Por isso, ficou radiante ao encontrar na biblioteca livros, sobretudo de Física, que respondiam a muitas questões que lhe suscitavam interesse, tais como, por exemplo, de que forma um motor queimava gasolina, ou como funcionavam os travões de um carro ou uma televisão a cores. Até que um dia, ao procurar um dicionário de inglês-nianja, tropeçou num livro que lhe chamou a atenção. Na capa tinha a imagem de um moinho de vento e dentro vinha explicado o seu modo de funcionamento.
Ao lê-lo e ao ver os gráficos e as legendas, fez-se luz na mente de William. Da mesma forma que conseguira fazer o rádio tocar, descobria agora que, com a mesma técnica, também podia construir um moinho de vento de grandes dimensões, capaz de gerar energia eléctrica. “Podia instalar luz em casa e usar ainda o moinho para bombear água para regar os campos. E assim, em vez de uma, podíamos ter duas colheitas por ano. A mãe não precisava de se cansar a ir buscar água ao poço e acabava-se a fome na aldeia!”, pensou, esperançado. William imaginava já a horta onde a mãe poderia cultivar para casa e para vender no mercado.
Partindo do modo de funcionamento do dínamo como gerador de energia, bem como das ventoinhas que fazia em pequeno com o primo, e usando os conhecimentos aprendidos nos livros, William construiu uma ventoinha ligada a um dínamo, que gerou energia suficiente para pôr o velho rádio a tocar. Entusiasmou-se com aquele primeiro sucesso e pensou determinadamente em construir um moinho de vento de grandes dimensões.
— Se consegui um moinho pequeno, tenho de conseguir fabricar um grande! Mas sem dinheiro, como é que vou arranjar as peças de que preciso? E onde é que vou arranjá-las?
À primeira vista, o local mais indicado para procurar todo o tipo de materiais que pudessem ser usados na sua construção parecia ser a sucata de Kachokolo, ao lado da escola secundária. “Encontrei uma mina de ouro!”, pensou William quando olhou em volta. Vasculhou durante semanas e semanas, recolhendo todas as peças que pensava poderem vir a ser úteis para a sua nova máquina. A busca foi morosa, mas graças à sua persistência e determinação, foi aos poucos juntando todo o tipo de peças, que guardava no quarto, para desespero da mãe. Virou literalmente a sucata do avesso.
Chegou a levar três dias até encontrar as peças que pretendia. Passava horas a desmontá-las cuidadosamente para não as estragar e por vezes martelava horas a fio até conseguir a que pretendia. Acabava muitas vezes com as mãos cheias de bolhas, mas com uma agradável sensação de vitória.
No início do segundo período, William pensava voltar à escola. No entanto, após a venda das folhas de tabaco, o dinheiro continuou a não ser suficiente para pagar os dois semestres e permitir ao mesmo tempo que a família comprasse os bens essenciais. Para o pai de William, o momento em que teve de dizer ao filho que não podia pagar a escola foi-lhe dos mais custosos. No Malawi, uma mulher é sustentada pelo marido, e o pai não queria que William, como único filho homem na família, tivesse uma vida difícil como a sua. A educação escolar era a única saída para aquela lamentável vida de pobreza.
Decepcionado, William teve de se conformar com a ideia de não voltar à escola e de o seu destino estar previamente traçado da forma que mais temia: tornar-se um agricultor malawiano, como o pai, e passar o resto da vida a labutar para conseguir cultivar milho e, com sorte, algumas folhas de tabaco, para um dinheiro extra. Finda a colheita desse ano, abençoadamente abundante, William pôde regressar ao ferro-velho, e prosseguir com a busca de peças para o moinho de vento gigante. No entanto, não tinha a vida facilitada. Admirava o pai acima de tudo e, antes de lhe pedir a bicicleta velha encostada a um canto da sala, explicou-lhe detalhadamente a sua ideia, acabando a suplicar:
— Por favor, pai, deixe-me tentar! Podemos ter luz em casa durante a noite e bombear água do poço!
Depois de pensar um momento, o pai suspirou:
— Está bem, podes ficar com ela. Mas, William, não a partas, por favor. Já me queimaste tantos rádios… — e deu-lhe uma das maiores peças de que ele precisava: a única bicicleta que tinha, velha, sem guiador, só com uma roda, o quadro, e tudo cheio de imensa ferrugem.
Compreendeu que a ideia do filho de gerar electricidade era importante para ele, por isso dera-lhe também autorização para se dedicar inteiramente ao seu projecto. À medida que o monte de ferro-velho acumulado no quarto de William ia aumentando, o pai defendia-o perante as irmãs e a mãe, que não percebiam a razão de o irmão ter deixado de ajudar no campo e começado a ficar em casa. Esse apoio permitiu-lhe entregar-se com mais afinco ao seu novo projecto.
Mas não era apenas em casa que era criticado. Os rapazes da escola secundária que o viam remexer na sucata começaram a fazer troça dele, a chamar-lhe maluco e a dizer que fumava marijuana. De cada vez que a mãe ia ao mercado, tinha de ouvir todo o tipo de comentários sobre o filho mandrião e maluco, que passava o tempo a remexer no lixo e a fumar erva.
Todavia, William tinha também um grupo de apoiantes, embora muitíssimo reduzido. O primo Geoffrey tivera de ir trabalhar para um moinho do tio, de forma que só restava Gilbert. Foi com a ajuda deste que conseguiram arranjar o material que faltava. Por vezes, Gilbert oferecia o seu dinheiro para comprar peças em falta, como porcas e parafusos. Nessas alturas, William ficava sem palavras para agradecer. Quando tudo estava preparado para montar o moinho, continuava a faltar a peça mais importante: um dínamo. Todas as bicicletas dispunham de um, mas, infelizmente também, todas as bicicletas tinham dono… Ao fim de um mês de busca, William e Gilbert viram passar um rapaz desconhecido montado numa bicicleta.
— Olha, Gilbert, outro dínamo.
— Quanto queres pelo dínamo? — perguntou Gilbert, dirigindo-se ao rapaz.
— Não, Gilbert, não tenho…. — tentou dizer William.
O rapaz da bicicleta começou por recusar mas, naquela altura, o dinheiro fazia falta e só quem fosse tolo é que não o aceitava.
— O meu pai deu-me uns trocos — explicou Gilbert a William, enquanto entregava as duas notas pedidas. — Nós vamos construir o teu moinho de vento.
Emocionado, William conseguiu apenas balbuciar um agradecimento. Durante os meses de fome, o pai de Gilbert, chefe da aldeia, distribuíra toda a comida que havia guardado para a sua família pelas pessoas que iam bater-lhe à porta, e a falta de saúde não lhe permitia agora cultivar as terras. De certeza que havia muito pouco dinheiro em casa. Mesmo assim, Gilbert não hesitara em comprar as porcas e os parafusos, e agora comprava-lhe o dínamo.
Na cabeça de William, o moinho já estava a funcionar!
Quando, ao fim de horas, soldou manualmente o ventilador de um tractor, um amortecedor, tubos de plástico, fios, o quadro da bicicleta do pai, uma lâmpada de automóvel, e o dínamo comprado por Gilbert – tudo à mistura com muito talento, engenho, persistência e determinação – e, com a ajuda de Gilbert e Geoffrey, içou a engrenagem para o alto da armação de cinco metros de altura, uma multidão de curiosos começou a reunir-se em volta deles, cochichando e rindo. Vinham da aldeia e das aldeias vizinhas, onde a notícia da máquina tinha chegado. Quem passava de automóvel, parava na berma da estrada, admirado.
— Quem é aquele?
— É o doido do ferro-velho.
— O que é que o rapaz vai inventar agora? Queres ver que foi desta que ficou maluco de vez?
— Coitada da família! Já o deviam ter levado mais cedo ao feiticeiro.
No alto da torre, e no momento de soltar as pás, William sentiu-se nervoso. Mas, quando o vento, que acreditava no sonho daquele corajoso rapaz de catorze anos, fez girar as pás da hélice, a lâmpada que William segurava na mão começou a iluminar-se. William sentiu que o peito ia explodir de alegria. Conseguira! Em baixo, a multidão não queria acreditar no que via e, uma a uma, as pessoas começaram a aplaudir e a gritar entusiasticamente.
Ao fim de mais algumas experiências, em que quase pegava fogo à casa, conseguiu instalar luz eléctrica no interior, e uma tomada. A sua família já não era obrigada a deitar-se às sete horas, para além de passar a ter luz de forma gratuita. Os vizinhos que durante meses zombaram das suas idas à sucata e o tinham apelidado de maluco, faziam agora fila à sua porta, para carregarem as baterias dos telemóveis. E não era sem orgulho que explicavam aos forasteiros, cada vez mais numerosos, que aquela torre de cinco metros parecida com o pescoço de uma girafa fazia vento eléctrico.
A notícia espalhou-se rapidamente. O engenho de William foi objecto de notícia nos jornais e na rádio. O director de uma organização nacional de professores foi pessoalmente à aldeia, e não queria acreditar que um rapazinho, impedido de ir à escola por falta de recursos, montara uma torre eólica partindo simplesmente de uma fotografia encontrada num livro de Física na biblioteca local. Lamentando a situação do seu país e a burocracia que atrasava ainda mais o desenvolvimento deste, o Dr. Mchazime fez todos os possíveis para que William conseguisse regressar à escola e, desta vez, a uma melhor.
Entretanto, a notícia do seu moinho de vento chamou a atenção de um famoso bloguista e empresário nigeriano encarregado de organizar o programa de uma grande conferência anual, em que cientistas, inventores e inovadores se reuniam para troca de experiências. Pediu a William que se inscrevesse e, a partir do momento em que foi seleccionado para participar no evento, a sua vida mudou. Pela primeira vez, dormiu num hotel, numa cama de colchão, e viajou de avião até à Tanzânia. Aí viu também pela primeira vez um computador e tomou contacto com a internet. Nunca na vida estivera entre tantos brancos. Perante uma vasta assistência, o inglês básico de William desapareceu por completo e, se não fosse a ajuda do director da organização, nada teria conseguido dizer.
A apresentação de William terminou com um grande aplauso e muitos ouvintes comoveram-se até às lágrimas. Apesar de todos aqueles anos de dificuldades, da fome que passara, das mortes a que assistira, do medo de perder a família com as doenças que surgiam constantemente, tais como a malária, da desistência da escola, das críticas da aldeia e do meio supersticioso em que vivia, aquele rapaz lutara convictamente até ao fim pela concretização do seu sonho. Sensibilizados, vários presentes ajudaram William a aceder a um ensino mais qualificado, o que lhe permitiu realizar o seu grande sonho: construir um moinho para bombear água e irrigar toda a aldeia. O seu contributo para a luta contra a fome.
É fácil esquecer-se os sonhos quando se tem de lutar diariamente pela subsistência, enfrentar a doença e a morte. Porém, como conclui William, “se quiseres construir alguma coisa, só tens de tentar. Acredita em ti e acredita que vais conseguir.”

A. Vicente

Chico

Chico

Chico

Chico vive numa aldeia perdida num dos muitos países de África. Podia ser em Angola, no Senegal ou no Ruanda. Podia chamar-se Chico, Abuabar ou N’gouda. Há muitos Chicos em África. Chicos de olhos brilhantes e pés descalços, com a cabeça povoada de sonhos, com vontade de ter um futuro para viver.

Como quase todos os seus companheiros, Chico levanta-se bem cedinho pela manhã. Ajuda a mãe a tratar das duas cabrinhas, Flor e Kenchú, e só depois parte para a escola. Chico gosta particularmente de Flor. Foi ele quem lhe pôs o nome, no mesmo dia em que ela chegou à palhota, apertada nos braços fortes do pai, ainda mal se segurando nas patinhas frágeis, e a berrar pela mãe. Fora um vizinho que lha dera, como forma de pagar a ajuda no arranjo da cabana.

Na primeira noite, Flor berrou todo o tempo a chamar pela mãe e nem deixava que Kenchú a tentasse acalmar, lambendo-a. Deitado na sua esteira, Chico não conseguia adormecer. Entendia tão bem a cabrinha! O pai dele arranjara trabalho longe, lá na cidade, e só podia vir a casa de quinze em quinze dias. Às vezes, para fazer mais algum dinheiro, ficava fora mais tempo. Quando chegava a hora de regressar à cidade, o pai dizia-lhe que se portasse como o chefe da casa e que devia obedecer à mãe. Como se fosse preciso dizer-lho! Ele bem sabia que a mãe, com o trabalho na fazenda do Sr. Macedo, com os gémeos de três anos e Linita, de oito, não podia fazer tudo, e precisava da ajuda dele.

De todas as vezes que o pai partia, Chico ficava triste o resto do dia, mas depois passava. Quando a saudade lhe enchia o peito até cima e parecia querer saltar pelos olhos, apertava na mão com muita força o seixo que o pai lhe dera naquela tarde em que Chico pescara o maior peixe da sua vida. O pai explicara-lhe que tinha arranjado na cidade um bom trabalho, mas que ia deixar de poder vê-los todos os dias. Depois, metera a mão na água e tirara dois seixos, os mais bonitos que Chico alguma vez vira, e colocou-lhe um na palma da mão.

— Quando tiveres muitas saudades minhas, apertas com força esta pedrinha. A tua saudade vai passar para a minha pedra e eu vou recebê-la e tu vais sentir-te acompanhado.

Em certas ocasiões, as saudades eram tantas que acabavam por conseguir irromper para fora e duas lágrimas teimosas, quentes e grossas, deslizavam suavemente pela face castanha-escura de Chico. Ah, como ele compreendia a cabrinha malhada com a manchinha branca na testa! Esgueirou-se para fora da palhota sem acordar os pais e os irmãos que dormiam, saiu para a noite quente e húmida e entrou na cabana dos animais. Passou a noite inteira deitado ao lado de Flor, que se acalmou e acabou por adormecer com a cabeça poisada no peito de Chico. No dia seguinte, já aceitou de bom grado o leite que Kenchú lhe oferecia.

Os pais estranharam a mudança mas, durante algum tempo, a causa dessa transformação ficou um segredo entre Chico, Flor e Kenchú. Só depois de ordenhadas as cabras e de lhes ter deitado de comer, é que Chico saía para a escola. À saída da aldeia encontrava-se com Djimbu e Mkembé, os seus dois melhores amigos, e juntos faziam o caminho até à escola das Missões.

Ir à escola era o que Chico mais gostava. O seu maior sonho, já segredado para dentro das orelhas de Flor e contado ao pai, durante uma tarde de pesca, era, um dia, poder ensinar outros meninos como ele a ler e a escrever. E haveria de trabalhar tanto, que iria até conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta novinha para os irmãos, igual a uma que vira um dia. Bem, do que ele gostava mesmo, mesmo, era de um dia poder ter um carro como o do Sr. Macedo, o dono da fazenda onde a mãe às vezes ia trabalhar.

Mas esse era o seu maior segredo e ainda nem se atrevera a contar a ninguém, nem mesmo a Flor. Claro que, se o contasse a Djimbu ou a Mkembé, eles também iam querer, e deixava de ser um desejo só dele… De cada vez que o Sr. Macedo vinha à casa grande, somente de tempos a tempos, Chico ficava parado no caminho a observar o grande carro branco e brilhante, tão brilhante que, quando o sol cintilava nos vidros, até fazia doer os olhos, e assim ficava perdido no seu segredo.

Ao chegar à escola, Chico notou um alvoroço desacostumado. Alguns homens em manga de camisa transportavam caixas para dentro do edifício da escola. Pareciam todos muito bem dispostos, e até o Palhinhas, o cão acastanhado do professor, soltava latidos alegres e abanava a cauda, bem disposto. Chico, Djimbu e Mkembé estugaram o passo. Que confusão! Quando a velha furgoneta partiu, deixando a velha escola atafulhada de caixas, sentaram-se, de pernas cruzadas no chão e o professor deu início à abertura das caixas.

Era uma encomenda vinda da Europa com uma oferta de material para a escola. Perante o olhar fascinado das crianças, o professor foi retirando, com largos gestos teatrais mas sinceros, folhas soltas, restos de cadernos, cadernos e blocos novos e usados. Chico nem queria acreditar! Aquele material podia não ser novo, mas para eles isso não tinha a menor importância e era-lhes muitíssimo útil. Quem o enviara parecia adivinhar exactamente aquilo de que estavam a precisar!

O professor continuou a retirar lápis, lápis novos e usados, restos de lápis, lápis de cor – que bonitas as cores! – canetas – eram tão poucas as que lhes chegavam à escola! – borrachas que apagavam o que o lápis escrevia. Mas o melhor de tudo vinha no último caixote… Quando o professor o abriu, o rosto iluminou-se num sorriso. Muito lentamente, como um mágico que tira um coelho da cartola, o professor foi erguendo o braço. As crianças, mortas de curiosidade e com os olhos a brilhar, sustinham a respiração. O professor mostrou…

Livros!! Livros com imagens cheias de cor! Chico sentiu o coração a bater mais rápido. Parecia-lhe que estava a viver um sonho e só tinha medo de que a mãe o acordasse naquele momento.

Livros! Chico era capaz de ficar horas a fio mergulhado e perdido nas páginas de um livro. Ainda não tinha lido muitos. Só três dos meros vinte que constituíam a magra biblioteca da escola. Podia ser muito reduzida, mas os meninos achavam-se importantes por os terem e manuseavam-nos carinhosamente e com muito cuidado. Chico tinha lido os três mesmo até ao fim, e tantas, tantas vezes, até saber as histórias de cor e poder contá-las à noite, em volta do lume, à mãe, ao pai e aos irmãozinhos, que o escutavam com os grandes olhos castanhos muito abertos de espanto e com a respiração suspensa. Se Chico pudesse, levaria um daqueles para casa para lhos ler. Ficariam certamente ainda mais orgulhosos dele. Se algum dia conseguisse ganhar dinheiro, haveria de poupar até conseguir juntar o suficiente para comprar um grande livro de histórias ou de aventuras para ler aos irmãos. O maior e o mais grosso que houvesse à venda.

Os pensamentos de Chico foram interrompidos pela passagem do professor. Já tinha partido os lápis em pedaços mais pequeninos, que distribuía naquele momento pelos alunos. Cada um ia encaixar o seu pedacinho de lápis numa caninha ou num pau para conseguir aproveitá-lo até ao fim. Tinham autorização para levar o material para casa, mas ninguém o levava com medo de perder as preciosas folhas de papel ou os lápis.

Chico pegou no seu, como quem recebe em mãos uma relíquia ou um tesouro. Não, hoje ia ter muito cuidado. Da última vez que preparara o lápis, no preciso momento em que estava a cortar a cana, o Sr. Macedo apareceu no seu carro brilhante, a apitar a uma gazela que se atravessara no caminho. Por momentos, Chico esqueceu tudo o que estava a fazer, imaginando-se sentado nos bancos macios, por trás do volante, com o vento a acariciar-lhe a face, e a apitar a empalas, zebras e macacos. Zás! Deixou cair o braço e cortou o bico do lápis, que, se já era pequeno, ainda mais reduzido ficou.

Que tristeza! Até deu pontapés no velho baobá que se erguia à saída da cabana, de tão furioso que ficou. Porque é que o Sr. Macedo tinha de aparecer precisamente naquele momento? Por causa daquele carro enfeitiçado, já não teve lápis para escrever ao pai – o encarregado da fábrica lia as cartas aos empregados – por aquela altura em que esteve muito tempo sem vir a casa. Não, desta vez ia estar com mil olhos. Nem que passassem dois carros a apitar mesmo ao lado dele, ele ia ceder à tentação de olhar!

Ao regressar a casa, Chico apertava com força o seixinho do rio Tinha tantas novidades para contar em casa! E tanta coisa para escrever ao pai! Queria dizer-lhe que, da próxima vez que viesse a casa, ele, Chico, iria ter novas histórias para contar à noite, junto ao fogo.

I. Birnbaum