Rosa Branca – uma história do Holocausto

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Assinalando o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, uma leitura diferente em

Uma história de dor e perda, mas também de bondade e compaixão, passada durante a Segunda Guerra Mundial.

Esperemos que goste!

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O autocarro fantasma

O autocarro-fantasma

De todos os mortos daquele cemitério aquele que mais se aborrecia era Tomás Bondi. O guarda encontrava frequentemente terra removida à beira da sua campa e a lápide de mármore, onde se lia “Tomás Bondi (1939-2004) Prémio Volante de Ouro para o melhor motorista de autocarro”, deslocada um metro ou dois.

O falecido Tomás Bondi sentia muita falta do seu autocarro. Os outros mortos lembravam-se, quando muito, de sair a dar uma volta convertidos em fantasmas, mas ele, pelo contrário, precisava mesmo de conduzir o autocarro durante algum tempo.

Saía da campa, passava pelo guarda do cemitério, que não o via porque os fantasmas são invisíveis, e andava umas trinta ruas até chegar à empresa de transportes onde em vida tinha trabalhado.

Metia-se no hangar onde estavam estacionados os veículos e, quando via o seu autocarro, o 121, quase chorava de emoção.

Daí a nada estava ele a passar-lhe uma flanela. Limpava os espelhos, dava lustro aos faróis e brilho aos vidros. O problema era o guarda-noturno. Ao ver um trapo sozinho a limpar o autocarro, sem que ninguém o segurasse, desatava a fugir, abandonando o posto de trabalho.

De seguida, Tomás Bondi punha o 121 a andar e ia dar uma volta. Continuar a ler

O pão dos outros

Remi está a conversar com a avó. Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.
— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.
Remi lança palpites:
— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?
A avó riu-se:
— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.
— Então, faziam as prendas?
— Não propriamente!
— Mas como é que faziam?
— Era muito simples. Ora ouve…

Antigamente, cada família cozia o seu pão. Continuar a ler

A canção da avó – história do México

No  coração do México, os falcões sobrevoam as altas montanhas, mergulhando em  direção às encostas suaves, semeadas de milho. Debaixo do sol tropical, as  iguanas descansam sobre rochedos brilhantes, e os tucanos conversam com os  guaxinins empoleirados em árvores verde-esmeralda. Por entre as colinas, os  pumas correm, as raposas cinzentas procuram galinhas, e os lobos uivam entre si,  à noite.

Numa  aldeia situada no sopé das montanhas, vivia uma avó com a neta. Plantavam milho,  tomates e girassóis na Primavera e juntas viam os rebentos verdes despontar da  terra. No Verão, colhiam lírios brancos como leite, punham-nos em cestos às  costas, e levavam-nos para vender no mercado. Pelo Outono, decoravam caules  esguios de milho para a festa das colheitas, a fim de agradecer os cereais de um  ano inteiro. No Dia dos Mortos, costumavam erigir um altar e acender velas,  relembrando os entes queridos. E no Natal, pegavam em cola e papel e faziam  pinhatas, que enchiam com frutas e doces.

A  avó era alta e imponente. Tinha as faces macias e as maçãs do rosto bem  marcadas. Os olhos eram profundos, castanhos e doces. Embora tristes, eram  bondosos. Tinha o peito largo e as ancas redondas. Pernas e pés robustos  ligavam-na à terra, como se fosse uma árvore antiga. Os braços eram fortes e as  mãos graciosas, com dedos longos e finos. Era uma mulher tão delicada como os  rebentos de um jacarandá.

A  neta gostava de explorar e de sonhar. Costumava brincar sozinha, nos campos e  nas florestas, mas tinha medo das sombras escuras, dos barulhos dos animais, e  de tudo o que fosse novo e diferente. Continuar a ler

As rosas dos meus tapetes – a vida num campo de refugiados

As rosas dos meus tapetes

Para um jovem refugiado que vive com recordações de perda e de terror, o tempo é medido em termos do próximo balde de água, do próximo pedaço de pão, e da próxima chamada para a oração. Aqui, onde tudo — paredes, chão, pátio —  é feito de lama, o coração de um rapazinho ainda consegue ansiar por liberdade, independência e segurança. E aqui, onde a vida é extremamente frágil, é a necessidade que cria a força para resistir. Mas a força para sonhar vem do interior.

 

 

 É sempre o mesmo. Os jactos já me viram. Estou a correr demasiado devagar, porque tenho de puxar pela minha mãe e pela minha irmã. O terreno é traiçoeiro, cheio de crateras de bombas, e a minha mãe e a minha irmã impedem-me de avançar. Fui atingido em cheio. Quando estou prestes a morrer, ou pouco depois de ter morrido, acordo.

Abençoada escuridão. Demoro algum tempo a aperceber-me de que estou na nossa casa de lama, no campo de refugiados. A salvo. Ouço a respiração suave da minha mãe e da minha irmã perto de mim.

Um galo canta. É madrugada. Talvez seja melhor levantar-me e ir buscar água antes que se forme uma fila junto ao poço.

Quando regresso com o balde pesado, vejo que a minha respiração forma nuvens. A asa de plástico crava-se na palma da minha mão e isso faz-me parar e descansar várias vezes.

Quando chego a casa, lavo a cara. Um hábito inútil, já que aqui as paredes são de lama, o chão é de lama e até o pátio é de lama. É impossível mantermo-nos limpos.

Acordo a minha mãe antes de ir rezar à mesquita. Quando regresso, o pequeno-almoço está pronto. Como a minha irmã Maha ainda está a dormir, como o meu pedaço de pão e bebo o meu chá sossegado. Depois, dou-lhe um beijo na cara e vou para a escola.

Quando regresso a casa para almoçar, a cabana já está varrida. Como devagar, cortando o pão em pedaços, para o fazer durar mais. A Maha engole a porção dela e olha fixamente para a minha.

— Não — diz a minha mãe com severidade.

Mas, quando ela vira costas, dou uns bocadinhos à minha irmã. Terei de apertar a minha faixa um pouco mais.

O muezzin volta a chamar para a oração. Saio para a rua estreita, esquecendo-me de ter cuidado. Um carro passa rente a mim e buzina com força.

Neste lugar, as pessoas conduzem como se os demónios as perseguissem, sem prestar atenção a quem cruzam no caminho. Penso na Maha. Ainda bem que está a salvo em casa.

Depois das orações vem a minha parte favorita do dia. Vou aprender a arte de tecer tapetes. Quando teço, posso fugir dos jactos, dos pesadelos, de tudo. Como se, com as minhas mãos, criasse um mundo que a guerra não pode atingir. Um paraíso como aquele em que o meu pai está.

O meu pai era um agricultor, sempre à mercê do tempo ou de alguém que lhe viesse roubar a terra e as culturas. Mas eu hei-de ter uma arte que ninguém poderá roubar. Enquanto for forte e válido, a minha família nunca passará fome.

Primeiro, tenho de praticar. Alguém longe daqui possibilita a minha formação. Sou uma criança apadrinhada. Um filho adoptivo. Até me tiraram uma fotografia.

Em breve serei um mestre artesão e o dinheiro do meu padrinho já não será necessário.

Cada cor que uso tem um significado especial.

Os fios que cercam a moldura na qual todos os outros fios são entrelaçados são brancos, como a mortalha em que embrulhámos o corpo do meu pai. O preto é para a noite que nos esconde dos olhos inimigos. O verde é a cor da vida. O azul é para o céu, que estará, um dia, livre de jactos.

Como tudo no campo é de um castanho sujo, nunca uso o castanho nos meus tapetes.

A minha cor favorita é o vermelho. É a cor das rosas. Nunca cultivei flores. Cada pedaço de terra tem de produzir comida. Por isso, faço com que haja muitas rosas nos meus tapetes.

Teço padrões intrincados de rosas, todos ligados entre si. Um jardim de beleza rodeado por uma fronteira, uma parede. Uma parede em torno de um pequeno pedaço de paraíso.

Estou tão concentrado  a tecer que não ouço a respiração ofegante do rapaz que entrou na sala. É o silêncio que me desperta. Ergo os olhos e vejo toda a gente a olhar para mim. Aconteceu algo de terrível.

— É a tua irmã.  Foi atropelada por um camião.

Ponho-me em pé de um salto e espalho mil fios pelo chão. Um amigo diz que os apanhará por mim. Agradeço-lhe com um aceno e corro pela porta fora.

O rapaz diz-me que a Maha está na clínica e que a minha mãe está com ela. Estão a operá-la para tentar salvar-lhe as pernas.

Quando chego à clínica,  a minha mãe está histérica, porque quer ir ter com a filha. Há pessoas que a impedem e oiço gritos. São os meus gritos.

A minha mãe vira a cabeça e o seu olhar é quase desumano. Como quando o meu pai morreu.

Tenho de ser forte. Não posso chorar. Com gentileza, afasto-a um pouco, dizendo-lhe que pode atrapalhar. As minhas palavras surtem efeito. Coloca a cabeça no meu ombro e dou-me conta do quanto cresci. É uma altura estranha para reparar em coisas como esta. Peço à minha mãe que vá para casa e que reze pela segurança da Maha. Quando houver notícias, irei dar-lhas.

Como não consigo ficar quieto, ando de um lado para o outro. Depois rezo, lembrando-me do conselho que dei à minha mãe. Rezo pela Maha e pela minha mãe. Depois rezo pelo meu padrinho que paga a operação da minha irmã e nem sequer o sabe. Sinto-me melhor depois de rezar.

O médico aparece finalmente, com um olhar cansado. As notícias são boas: a minha irmã vai ficar bem. Tem as pernas partidas, mas vai conseguir andar de novo. Não em breve, mas um dia. Um sentimento de alívio inunda-me a face como chuva bem-vinda. Corro para casa para contar as novidades à minha mãe, que chora de alegria.

Jantamos pão e água. A minha mãe corta o pão em três pedaços antes de se lembrar de que hoje somos só dois. Dá-me a parte da Maha e eu devolvo-lhe metade. Comemos em silêncio. Cada bocadinho de pão se atravessa na minha garganta e não há água que chegue para ajudar-me a engolir.

Exausto, deito-me no tapete de palha que faz de cama. Sem a Maha, a casa está demasiado silenciosa. Tenho muitas saudades dela e fico acordado durante muito tempo.

À noite, quando sonho, sonho novamente com jactos a rasgar o tecido do céu.

Mas, desta vez, a minha mãe e a minha irmã correm comigo e não me detêm.

Porque, ao correr, encontramos um espaço, do tamanho de um tapete, onde as bombas não nos podem atingir.

E dentro desse espaço há rosas.

Rukhsana Khan
The Roses in my Carpets
Ontario, Fitzhenry & Whiteside, 2004
(Tradução e adaptação)

O papagaio que dizia “amo-te”

O papagaio que dizia “amo-te”

Talvez por ser órfã de mãe e por o seu pai estar sempre fora de casa, Beatriz crescera triste e solitária. Na escola, chamavam-lhe “Beatriste”, porque se sentava sempre sozinha e não queria brincar com os colegas.

Em casa, depois de feitos os deveres, metia-se no quarto e lia até adormecer.

Beatriz tinha um pesadelo frequente: estava numa ilha deserta e não avistava nenhum barco. À noite, tinha frio e, de dia, fome e sede, pois o único alimento que havia na ilha era o coco. Ao acordar, Beatriz dizia para consigo: “Afinal, a minha vida é igual à do meu pesadelo”.

Não tinha amigos e os dias sucediam-se sem sentido, uns atrás dos outros, como cocos a cair de palmeiras.

Como dormia mal de noite, Beatriz acordava com sono e com poucas forças para falar com o pai. Este via o noticiário e saía logo a correr para o escritório, onde ficava a trabalhar até muito tarde. Quando voltava, já Beatriz estava a dormir, ou melhor, acordada, na sua ilha deserta cheia de coqueiros.

A menina interrogava-se se o pai gostaria mesmo dela ou se viera a este mundo por acaso, já que ele nunca a abraçava, beijava ou dirigia palavras de carinho. As conversas com ele eram sempre do género:

— Beatriz, não te esqueças, como ontem, do caderno dos deveres.

— Sim, papá.

— Já puseste o lanche na pasta?

— Sim, papá.

— Não atravesses a rua com o sinal vermelho ou amarelo!

— Sim, papá.

As trocas de palavras entre ambos não passavam disto, porque o pai, se calhar, era tão tímido como ela. Talvez ele também vivesse numa ilha, que barco algum jamais visitava…

******

Contudo, numa segunda-feira de manhã, aconteceu algo extraordinário que mudaria para sempre a vida de Beatriz.

Ainda não bem desperta, a menina teve a impressão de estar a ser observada. Todavia, ao abrir os olhos, viu que não havia ninguém no quarto. Nem se ouvia sequer o barulho da televisão, sinal de que o pai já tinha saído e lhe deixara o pequeno-almoço em cima da mesa.

Mas, quando olhou para a janela, Beatriz viu um papagaio grande e verde, pousado nas cordas do estendal. A ave olhava para ela de esguelha. Recuperada do susto, a menina perguntou-se de onde teria vindo aquele papagaio e o que faria ali, a espiá-la. Cheia de curiosidade, saltou da cama e abriu a janela para o ver melhor.

— Papagaio, pequenino, vem cá! — chamou-o em voz baixa, para não o assustar.

Tinha certamente escapado da casa de algum vizinho, pois logo respondeu ao convite de Beatriz, acercando-se dela.

— Perdeste-te? — perguntou a menina. — Vens de alguma ilha longínqua, cheia de palmeiras?

A ave pousou no braço de Beatriz, que a princípio se assustou. Porém, quando viu que o papagaio não a picava e que queria ser seu amigo, pô-lo no seu quarto, onde colocou um copo de água e um prato com migalhas de pão. Em seguida, saiu para a escola, muito feliz.

******

Ao meio-dia, telefonou ao pai para lhe contar o que se tinha passado e para lhe pedir que a deixasse ficar com o papagaio. Ia chamar-lhe Tequilha porque imaginava que ele tinha vindo de um país longínquo onde bebiam esse licor.

O pai falava pouco mas era muito atento. Por isso, quando Beatriz voltou da escola, já encontrou Tequilha instalado numa gaiola dourada, com o comedouro cheio de sementes de girassol.

— Olá! — cumprimentou-a, na sua voz estridente.

— Sabes falar! — exclamou a menina, admirada. — Ora vê se consegues dizer o meu nome: Beatriz, Beatriz, Beatriz…

Tequilha seguia atentamente a lição e movia o bico, mas não conseguia repetir o nome. Beatriz, que lera que os papagaios e os periquitos têm muita facilidade em pronunciar o “t”, disse-      -lhe:

— Chama-me então Beatriste, como fazem na escola. Beatriste, Beatriste…

Nem precisou de o repetir pela terceira vez, porque o papagaio logo exclamou:

— Beatriste!

A dona, orgulhosa, pulou de alegria. Depois de um dia tão bonito e emocionante, e logo após a empregada lhe ter servido o jantar, Beatriz deitou-se e adormeceu, cansada. Quando a luz da manhã a acordou, Tequilha estava a descascar uma semente, que segurava com uma pata.

— Bom dia, Tequilha! Não cumprimentas a tua Beatriste?

O papagaio acabou de descascar a semente, comeu-a com prazer e bradou:

— Amo-te!

Quando ouviu isto, Beatriz não conteve um grito de emoção. Depois, pensou que não era normal que o papagaio tivesse dito uma expressão típica de um galã de telenovelas. Será que vira muitas ou teria pertencido a algum par de recém-casados?

Podia ser apenas uma casualidade. Os papagaios brincam com as palavras que vão ouvindo e, por vezes, dizem coisas com sentido.

“Deve ser isso”, pensou Beatriz.

Contudo, na manhã do dia seguinte, Tequilha acordou-a com uma saudação igual:

— Amo-te!

— Quem te ensinou isso? — disse Beatriz. — Só os adultos usam essa palavra.

Como os papagaios falam, mas não conversam, Tequilha continuou a olhar para a sua dona e amiga com grande interesse, sem, contudo, dizer mais nada. Depois descascou outra semente.

Quando na quinta-feira, logo de manhã, o papagaio voltou a exclamar “Amo-te”, Beatriz resolveu investigar. Era estranho que as declarações de amor do papagaio só ocorressem de manhã. Quer de tarde quer à noite, Tequilha só dizia “Olá!”, “Beatriste” ou “Caramba!”.

******

Sabendo que o pai ainda estava a tomar o pequeno-almoço, Beatriz correu a expor-lhe o mistério. Mas o pai, muito vermelho e quase a engasgar-se, nada respondeu. Levantou-se, apressado, despediu-se da filha com um beijo e saiu de casa com a pasta.

De repente, Beatriz compreendeu o que acontecera e teve vontade de chorar. Só que de felicidade, desta vez! É que Tequilha repetia, cada manhã, o que o pai de Beatriz lhe dizia à noite, quando ela já dormia.

 

Agora reflecte…

O Afecto

“O amor é a cura de todos os males”.

Leonard Cohen

Os sábios da Índia dizem que, quando olhamos para o mundo, o colorimos com as nossas próprias cores. Por isso, se olharmos os outros com ódio ou desconfiança, iremos receber ódio e desconfiança. Pelo contrário, se os virmos com amor, viveremos sempre rodeados de carinho.

E tu, como preferes viver?

Há quem tenha vergonha de expressar os seus sentimentos, mas isso não significa que não gostem de nós. Muitas vezes basta que lhes mostremos o nosso amor (com palavras amáveis, com um beijo, com um presente inesperado…) para nos abrirem o coração.

Se te custa dar carinho a alguém de quem gostas, imagina que o mundo vai acabar amanhã. O que farias hoje? Certamente correrias a abraçar os teus pais, irmãos e amigos. Dir-lhes-ias o quanto gostas deles, e falarias dos bons momentos que passaram juntos… Para fazeres isso, não é preciso esperar pelo fim do mundo! Podes começar hoje mesmo a dar-lhes afecto… mesmo que seja à tua maneira!

Mostra o teu carinho

 

Há muitas maneiras engraçadas e originais de demonstrar amor a quem te rodeia. Eis algumas:

a) Escrever um lindo poema no frigorífico com letras magnéticas.

b) Colocar um desenho muito alegre e bem colorido no seu quarto.

c) Compor uma canção para ele/a.

d) Oferecer-lhe um trabalho manual feito por ti.

Etc., etc.,…

Dr. Eduard Estivill; Montse Domènech
Cuentos para crecer: Historias mágicas para educar con valores
Barcelona: Editorial Planeta, 2006
(Tradução e adaptação)

A nascente no deserto

A nascente no deserto

 

Descontrai-te, mantém-te imóvel e ouve – ouve com atenção esta história sobre uma pobre família que estava a viajar para ir ao casamento de uma prima rica, num bonito templo, lá longe. Queres saber o que aconteceu durante a viagem? Vamos lá ver se conseguimos descobrir!

Então… a família tinha avançado bastante até ali, passando por muitas cidades e vilas na sua pequena carroça, mas de repente chegou à orla de um deserto enorme e terrivelmente quente. Preocupados, pediram conselho às pessoas que ali moravam sobre a melhor maneira de o atravessarem. Todos disseram a mesma coisa – para não se aproximarem dele durante o dia e, em vez disso, para o atravessarem durante a noite, quando o Sol escaldante descansava, indefeso, na sua cama. «Mas como poderemos saber por onde ir no meio da escuridão?», perguntou o chefe da família.

«Orientem-se pelas estrelas», responderam os habitantes da região.

«Parece-me tudo muito bem», pensou ele. «Mas pouco sei sobre as estrelas, temos de encontrar alguém que conheça o assunto para nos guiar.»

Por isso perguntou por toda a vila e rapidamente encontrou um jovem que se dizia ser um dos melhores guias da região.

Nessa noite, depois de a escuridão ter caído sobre a terra e a areia ter ficado mais fresca, a família deu início à viagem. O guia tomou nas suas mãos as rédeas do boi e sentou-se direito e orgulhoso na carroça. Olhando fixamente para o céu noturno brilhante, leu as estrelas e conduziu-os em direção a leste.

Contudo, o rapaz desfrutara de um grande jantar, para não mencionar de um grande copo de chocolate quente, antes de partir, e tudo isso lhe dava uma certa sonolência. Dentro de pouco tempo, o doce embalar da carroça fê-lo cair num sono profundo, sem que nenhum dos passageiros, que também dormiam, desse conta do que acontecia. Naturalmente que o boi que puxava a carroça não sabia ler as estrelas, por isso, com o guia a dormir, vagueou sem destino – numa direcção totalmente errada. Quando o chefe da família acordou com a primeira luz da manhã, compreendeu que estavam completamente perdidos!

«Onde estamos nós?», indagou a mulher quando acordou. «Certamente que a esta hora já devemos ter praticamente atravessado o deserto. Vamos chegar atrasados ao casamento!»

Quando viram que o guia estava a dormir profundamente, ficaram muito zangados com ele, mas esse sentimento depressa se transformou em medo. «Um dia completo no deserto!», lamentaram-se as crianças. «Iremos ficar sem água! Que vamos nós fazer?», disseram elas a chorar.

O pai tomou o comando e tentou acalmá-las. «Não se preocupem», disse ele, «encontraremos uma maneira de sairmos desta situação.»

Andando para a frente e para trás, pensou e voltou a pensar. Em seguida, sentou-se na areia e fixou os olhos na distância. Devia haver alguma coisa que ele pudesse fazer… De repente viu uma pequena planta que crescia na areia junto a uma rocha. «Ah! Afinal alguma coisa cresce aqui nestas areias quentes e secas! E onde há plantas tem pelo menos de haver um pouco de água!», concluiu ele.

Chamou o jovem guia e mostrou-lhe a planta. «Quero que caves neste local, porque acredito que deve haver água aqui perto», disse-lhe ele. O guia olhou-o duvidoso, mas, como os metera naquela embrulhada, não se encontrava em posição de discutir. Por isso, retirou uma pá da carroça e começou a cavar.

Cavou e voltou a cavar, mas continuava a não encontrar água. Estava agora cheio de calor e de sede. De repente bateu em qualquer coisa: «Bati numa rocha!», gritou ele. «Tudo o que encontrei foi uma pedra grande e seca. Que perda de tempo!»

O resto da família olhou-o muito desanimada. Mas o pai não era homem de desistir facilmente, por isso incitou-os a não perderem a esperança. «Não desistam agora. Não podemos desistir! Se o fizermos agora, estaremos todos perdidos! Enquanto ainda nos restam forças, e antes que fique mais calor, temos de continuar a tentar. Pensem no que a nossa prima irá sentir se não aparecermos para o casamento!»

O silêncio caiu sobre eles. Estavam todos tão cansados e tinham tanta sede que nem tinham força para protestar! O chefe da família sentou-se na rocha e olhou em redor. Depois, no silêncio, ouviu, ou pelo menos pensou ter ouvido, um ténue som de água a correr. «Estarei a ouvir coisas?», interrogou-se ele.

«Prestem atenção! Tenho a certeza de que ouço água! Conseguem ouvir também?», perguntou.

«O que estás tu a dizer? Apanhaste demasiado sol e ficaste louco?», disse a mulher.

«Não, escutem, tenho a certeza de que consigo ouvir água», disse ele excitado, «e parece vir da pedra. Bate na rocha!», ordenou ele.

O guia pegou numa marreta e começou a bater na rocha. Inicialmente nada aconteceu, mas então, de repente, a rocha abriu-se e, para surpresa e alívio de todos, a água começou a jorrar, formando uma fonte refrescante.

Ouviu-se um grande grito de alegria enquanto todos se precipitavam para beber um pouco de água fresca e cristalina. A família dançou de alegria, abraçando-se uns aos outros, a rir. Agora tinham água que chegasse! Deram de beber ao boi e encheram os recipientes para o resto da viagem.

Aliviados e refrescados, a festa recomeçou depois de o Sol se pôr. Quando a Lua subiu no céu estrelado, o guia conduziu-os em segurança através do deserto, e finalmente chegaram ao templo depois da aurora, ainda a tempo para o casamento da prima.

Umas horas mais tarde, vestidos com a sua melhor roupa, estavam confortavelmente a participar num delicioso banquete em honra da sua bela prima e do seu jovem marido. Observando a família a divertir-se, o pai sorriu contente consigo próprio ao mesmo tempo que, silenciosamente, brindava com eles com o seu copo de água cristalina. Como estava feliz por não ter desistido no deserto!

A vida apresenta-nos todo o tipo de dificuldades e coloca com frequência obstáculos no nosso caminho. Nessas ocasiões, é demasiado fácil desistir. Uma pessoa sensata sabe que, se continuar a tentar, acabará por conseguir ter êxito.

 

Dharmachari Nagaraja
Buda para Ler ao Deitar
Lisboa, Editorial Estampa, 2011
(Adaptação)