A cambalhota do macaco

A cambalhota do macaco

Numa montanha a Oriente, lá muito em cima, onde já nenhum pássaro quer fazer o ninho, havia um ovo de pedra. O vento soprava-lhe e o sol batia-lhe, ninguém sabia há quanto tempo. Um dia, a montanha moveu-se, moveram-se as pedras até ao cume mais alto, o ovo rachou e abriu-se. Saltou um macaco. O corpo era de pedra brilhante, onde a luz do sol se reflectia.

O macaco desceu a montanha. Os outros macacos, de pêlo vulgar, onde nem um único raio de sol se reflectia, vieram ao seu encontro. Inclinavam-se perante o macaco de pedra e saudavam-no como seu chefe.

Quando se tornou chefe, o macaco saltou por todas as terras e países do mundo e mergulhou em todos os mares. As montanhas abriam-se perante ele e mostravam-lhe todos os seus tesouros. As flores abriam os seus cálices. O macaco juntou todo o saber e conheceu todos os segredos. Quando se tornou mais sábio do que qualquer outro ser à face da terra, treinou ainda a arte das cambalhotas. Treinou incansavelmente e, por fim, conseguiu, com uma só cambalhota, medir o ar, a terra e a água. Então, o macaco de pedra exclamou, orgulhoso:

— Nenhuma criatura da terra pode comparar-se a mim. Eu sou superior a todas elas. Agora quero ser o senhor dos céus.

Inspirou fundo e saltou. Deu uma cambalhota e aterrou no céu. Aterrou exactamente aos pés do Pai Buda. Buda – assim chamam os homens e os animais do Oriente ao criador do céu e da terra.

— Meu macaco — falou o Pai Buda — o que queres daqui?

O macaco respondeu:

— Quero tornar-me senhor do céu, já que sei mais do que todos os outros seres da terra. Até sei mais do que tu, Pai Buda. Ou será que consegues dar uma cambalhota e nesse mesmo instante aterrar do outro lado da terra? Aposto como não consegues.

O Pai Buda riu-se.

— Bem, meu macaco, vamos então fazer uma aposta. Se conseguires saltar para fora da minha mão, cedo-te o meu lugar no céu. Mas, se não conseguires, tens de te contentar com o lugar que te dei na terra.

O macaco de pedra riu-se para dentro, pois a aposta parecia-lhe fácil. Buda estendeu a mão e o macaco saltou para cima dela.

— Upa! — Deu uma cambalhota e voou, voou.

Voou sobre as alturas, larguras e profundidades da terra, até chegar ao fim do mundo. Aí, no silêncio infinito, havia cinco colunas. Para mostrar que tinha saltado até àquele lugar, o macaco de pedra mordeu uma das colunas com os seus dentes fortes. Depois, voltou a lançar-se pelo espaço até ao céu, e sentou-se na mão de Buda.

— Aqui estou eu — arfou o macaco exausto. Mas Buda perguntou:

— Então, quando é que saltas finalmente para fora da minha mão?

— Como? — gritou o macaco. — Então não fui até ao fim do mundo? Não deixei a minha marca numa das colunas?

Respondeu Buda:

— Meu macaco, acabaste agora mesmo de morder o meu dedo. É este o teu sinal? Fica a saber que, durante o teu salto, a minha mão esteve todo o tempo debaixo de ti.

O macaco reconheceu a sua marca. Ficara agora a saber que era impossível saltar para fora da mão de Buda, pois o mundo está nas suas mãos, e ele nunca deixa cair os seus filhos. O macaco de pedra começou a sentir-se atordoado.

— Para onde quer que salte, estarei sempre nas tuas mãos — disse.

Buda deixou o macaco escorregar docemente para a montanha, para o local de onde saíra do ovo.
Desde então, o macaco passou a viver modestamente no seu lugar.

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986
Tradução e adaptação

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