Pinóquio – António Mota

O nosso blogue completou este mês um ano. Os nossos agradecimentos a todos os leitores que nos têm escrito e incentivado.

História retirada de Páginas de Vida

Pinóquio

Em Montepó, terra de um Portugal remoto e esquecido, vive Abílio, um rapaz que, como todos os da sua idade, está a acordar para o mundo, para a vida, para o primeiro amor…
Calejado pelas agruras duma vida difícil vai aprendendo à sombra de decepções e mínguas; mas vai, também, crescendo, acalentado pela magia das histórias e dos sonhos que lhe dão ânsias de fugir em busca de outros destinos.

O padrinho Sebastião, contava-nos minha mãe, era da família dos bichos do mato. Sempre teve o comportamento dum lobo solitário, duma raposa astuta, duma lebre esquiva. Não deixava que nada o prendesse a qualquer cadeado.

Sempre curioso e insatisfeito, Sebastião experimentara imensas profissões. Foi moço de recados e trolha, caixeiro, pintor, electricista, canaliza dor, mecânico de motorizadas, pasteleiro, cauteleiro e vendedor de jornais, engraxador e tipógrafo. Frequentava bibliotecas públicas e devorava livros.

— É um regalo para os ouvidos ouvi-lo falar. Quando está a conversar, diz, sem querer, palavras que não entendo, mas que me parecem muito bonitas — dizia minha mãe, embevecida com o irmão que ajudara a criar. — Às vezes, eu pergunto-lhe o significado de certas palavras e ele pede desculpa e explica. Fala melhor que um padre pregador. Cem vezes melhor!

No ano em que terminei a quarta classe, o meu padrinho deu-me um livro. Chamava-se Pinóquio.

— Se o leres, aprendes a sonhar! — disse-me ele, com um sorriso cúmplice.

— Obrigado — disse eu, abraçando-o, sem entender muito bem o que me queria dizer.

Fiquei tão feliz.

Era o meu primeiro livro.

Era o primeiro livro de histórias que ia haver em minha casa.

Era a primeira vez que recebia uma prenda que não se comia, calçava ou vestia.

Agucei um lápis com a minha navalha de gume sempre bem afiado e escrevi na primeira página:

Este livro pertence a Abílio Ribeiro da Silva.
Oferecido pelo meu padrinho.

Para que não ficasse sujo, nem com olhos de gordura, encapei-o com uma folha de jornal.

As coisas nem sempre acontecem como desejamos. Temos de estar preparados para os pequeníssimos ou grandes desastres que nos batem à porta sem avisar.

A vida é feita de risos e de lágrimas, de sonhos e desencantos. E quem disser o contrário é parvo, ou mentiroso.

Ainda hoje me dói falar disto. Mas a verdade tem de ser dita: não li o livro oferecido pelo meu padrinho. Nem sequer a primeira página pude saborear.

Numa tarde de chuva, meus irmãos resolveram arrancar algumas folhas do Pinóquio para acenderem uma fogueira. Como as folhas ardiam bem, arrancaram-nas todas.

Confrontado com a tragédia, fiquei a olhar para os restos das folhas calcinadas que se tinham espalhado na lareira. Alguns pedacinhos, mais pequenos que a cabeça dum dedo mindinho, levantavam voo, subiam em direcção à chaminé e desapareciam.

Explodi.

Bati em mim próprio: na cabeça, no peito e na cara.

Bati nos meus irmãos, subitamente amedrontados e perplexos.

Berrei, arranquei cabelos aos meus irmãos e a mim próprio.

Desesperado, gritei e protestei até me doer a garganta.

A Rosa e o Toninho começaram a choramingar, tristes por me verem tão triste.

— Mas que conversa é essa, menino? — perguntou minha mãe, admirada.

— Estes inocentes queimaram-me o livro que o meu padrinho me deu. Estes patetas queimaram-me o Pinóquio.

— Quem é que queimaram?

— O meu Pinóquio.

— O teu Pinóquio? De que é que estás a falar, menino? Não te entendo…

— O livro que o meu padrinho me deu chamava-se Pinóquio. E os estúpidos dos meus irmãos fizeram uma fogueira com o livro.

— E estás a fazer esse escarcéu todo por causa dum livro?! Cala-te, menino, cala-te!

— Mas eu quero o meu Pinóquio!

— Cala a caixa, que é melhor para ti. O teu pai está aí a chegar. Meu filho, o que não tem remédio remediado está. Acabou a conversa. Olha que o teu pai está aí a chegar.

Meu pai entrou na cozinha e eu emudeci. Recusei-me a jantar. Inventei uma dor de barriga, deitei-me cedo e adormeci a imaginar vários significados para a palavra Pinóquio.

António Mota
Filhos de Montepó
Canelas, Edições Gailivro, 2003
Excertos adaptados

 

Retirado de Páginas de Vida

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