O Minorca que queria ser igual aos outros

O Minorca

Igual aos outros

Queria tanto ser como os outros! Roubar compotas e biscoitos, ser comilão e travesso, intrépido e endiabrado. Esta ideia tornou-se uma obsessão para mim. Ao acentuar permanentemente as diferenças entre mim e os outros, os adultos só reforçavam o meu desgosto.
Um dia, quando íamos às compras, a minha mãe parou a falar com uma vizinha, no passeio estreito da padaria. Uma daquelas “cavaqueiras amenas” que eu detestava e que duravam horas.
Armado de toda a paciência, começava por admirar a montra. Mas uma pessoa cansa-se rapidamente dos croissants, dos pães com chocolate e dos palmiers. Se ao menos tivéssemos parado em frente da loja de brinquedos da rua da República! Puxei pela mão da minha mãe, que fez de conta que não era nada com ela, tão absorta na conversa que estava.
— O seu filho tem um ar tão bem-comportado! — admirou-se a vizinha, que recusava aperceber-se da minha impaciência. — Não é como o meu, um verdadeiro tornado! Não consegue estar quieto um segundo. Tem de estar sempre a correr e a saltar. Vê-se logo que é um rapaz!
“Também sou um rapaz”, pensei, enquanto olhava as nuvens a fazerem uma corrida no céu, para ver qual delas seria a primeira a tapar o sol. Tinha de me ocupar enquanto elas conversavam.
Finda a conversa, a minha mãe conduziu-me na direcção do talho, enquanto concluía:
— É verdade, o Éric é muito calmo.
O talhante, achando-se muito esperto, interpelou-me:
— Um bife para o nosso jovem? A carne vermelha é boa para os músculos e ajuda-te a ser homem.
Olhei para os meus pulsos magros e suspirei. Seria algum dia um homem? Tinha as minhas dúvidas. Quando tinha distribuído os músculos, a natureza esquecera-se de mim.
Alguns passos mais e, diante da mercearia, uma senhora fez-me uma festa na cara:
— É tão gentil este menino. Tão doce. O meu mais velho é terrível. Só aprecia os desportos violentos. Vai ser como o pai, forte e desportivo.
Detestava estas ternuras falsas. Não era um animal que se elogia. Às vezes, virava a cabeça para escapar à mão enluvada que aprisionava as minhas narinas num odor de perfume enjoativo ou recuava a cara para escapar à marca que uns lábios carmesins iriam deixar-lhe e que nem com saliva sairia.
Já devia estar habituado a estas situações. Era sempre a mesma coisa. A minha candura, a minha doçura e a minha pele aveludada atraíam as carícias.
— O Éric é muito dócil, é um sonhador. Nunca será um desportista — defendia-me a minha mãe, algumas lojas à frente, onde parara para conversar com alguém que não via há uma eternidade.
As mulheres são tão faladoras! Para comprar pão, carne, esparguete ou manteiga têm de estar sempre a falar: da ementa da véspera, das doenças dos filhos, das plantações do jardim ou das asneiras do cão.
— Que elegante que ele está, de calças e casaco. Nunca posso vestir o meu filho como deve ser, porque se enfia na lama mal sai de casa. É um lutador. Os rapazes são terríveis. Enfim, mostram que têm carácter.
O orgulho destas mães em relação aos seus rebentos insuportáveis exasperava-me. As suas reflexões insinuavam-se na minha mente e provocavam verdadeiros estragos. Para agradar às mães, era preciso gostar de andar à pancada! Eis uma conclusão catastrófica.
A minha mãe reiterou:
— O Éric não é endiabrado.
Acaso haveria uma certa pena na sua voz? Decepção? Estava farto de ser diferente. As mães davam-me como exemplo para fazerem boa figura, mas nas minhas costas chamavam-me medroso, ou pior, “um betinho”.
Mas que culpa tinha eu de gostar de jogos calmos? De estar quase sempre na lua? De não me divertir a sujar-me de propósito?
Até agora tinha vivido feliz no meu casulo de miúdo sonhador, mas, de repente, via-me obrigado a colocar-me certas questões desagradáveis. Será que devia comportar-me como os outros? Parecer-me com eles? Decalcar as minhas atitudes nas deles? Será que não tinha direito à diferença?
Era impossível forçar-me a ser o que não era ou a provocar uma luta. Mas, e se a mamã se sentisse decepcionada por não ter como filho um verdadeiro rapaz, um desportista? Ela tinha o direito de se sentir orgulhosa de mim. Se ter carácter era gostar de se sujar e andar à pancada, havia de lhes mostrar que também eu tinha carácter.
Da próxima vez que a minha mãe se cruzasse com uma vizinha, levantaria a cabeça com orgulho e diria:
— O Éric também tem uma personalidade forte. Ontem veio coberto de nódoas negras…
Durante alguns dias, dediquei-me à resolução deste dilema delicado: como obter um ar de “verdadeiro” rapaz. Não era fácil: é preciso ter nódoas, arranhões, canelas esfoladas, ossos partidos, cabelos hirsutos, ranho no nariz, dedos sujos, palavrões prontos a sair.
Um rapaz é um durão. Eu era um mole, conhecia os meus limites. Era inútil provocar um grandalhão sempre pronto para a bulha: deitava-me ao chão com uma estalada. Mas também estava fora de questão atacar um rapaz mais fraco: era ir contra o meu código de honra.
Eu tinha sentido moral. O sentido moral impede-nos de nos tornarmos uns crápulas, mesmo que isso signifique a nossa salvação. É uma barreira que quereríamos transpor, mas não o fazemos porque não é correcto. Bastava-me atacar o pequeno Marc para me sentir um fortalhaço. Porém, o meu sentido moral opunha-se a tal. Tinha de encontrar outra solução. Pela minha mãe.
Subitamente, tive uma ideia. Lutaria contra mim mesmo. Só tinha de pensar como o faria.
Era uma forma de me assegurar de que não faria mal a ninguém e de que não receberia muitos sopapos.
Delineei um plano.
Às quatro e meia, à saída das aulas, fiquei para trás. Dirigi-me, num passo decidido, para uma poça de lama que rodeava a caixa de areia. Saltei para dentro dela e depois, para tornar o resultado mais espectacular, atirei-me ao chão e chafurdei à vontade. Que horror! A lama colou-se-me ao blusão, penetrou-me nos sapatos, salpicou-me a cara e empastou-me os cabelos.
Quem diz luta diz golpe. Puxei pelo tecido dos calções. Com não conseguia rasgá-lo, agarrei numa pedra pontiaguda e rompi-os.
Faltava o mais difícil. Arranjar algumas mossas. Reflecti longamente neste problema, mas não havia soluções ideais. Era mesmo preciso levar pancada.
Escalei um muro de pedra e atirei-me para o chão. Que queda! Vieram-me as lágrimas aos olhos. Nada de choradeiras. Limpei a face com os dedos sujos de terra. Tinha dores. Um dos meus joelhos sangrava, o outro estava bem esfolado. Coxeava e apertava a ferida para tentar parar as fisgadas de dor que sentia.
Para compor o quadro, decidi roçar o pulover vermelho que a minha avó Marie me tinha oferecido no meu aniversário na roseira da entrada da escola. Arranhei as mãos e estraguei a camisola. Estava num lindo estado!
Será que devia aplaudir a minha transformação? Não sabia. Sentia-me infeliz. Mas não podia lamentar a minha sorte, já que outros faziam isto por prazer. Era, finalmente, um verdadeiro rapaz!
Saí a correr da escola: estava sujo, roto, pisado, ensanguentado, mas tinha o aspecto do macho, do herói, do justiceiro.
Quando entrei em casa, gritei:
— Olha, mamã, andei à pancada como os outros!
A minha mãe não me felicitou. Antes me agrediu com palavras:
— Quem te pôs nesse estado? É uma vergonha. Vou falar com a mãe desse brutamontes. Não precisas de provocar os grandalhões… O pulover da avó está bom para o lixo… E os calções também… Vem cá, vou tratar do teu joelho. Assoa-te e lava a cara.
Nem uma só palavra para dizer que apreciava o meu novo estado de arruaceiro. Fiquei decepcionado.
O que iria ela contar à vizinha quando nos cruzássemos no passeio? As mulheres são complicadas. Como lhes agradar? Desisto. Eu nunca seria um durão!

Anne-Marie Desplat-Duc
Le Minus
Toulouse, Éditions Milan, 2002

tradução e adaptação

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