O homem que comia dinheiro

O homem que comia dinheiro

Okereke gostava de manusear dinheiro. Se tivesse preparação para isso, gostaria de ser empregado bancário. Não podia imaginar nada de mais agradável do que contar mancheias de notas, pondo de lado desdenhosamente as notas velhas e gastas, entregando pacotes de notas novas através do postigo aos clientes agradecidos. Seria um trabalho maravilhoso, mal se poderia considerar trabalho.

Mas era um camponês, não um empregado bancário, e tinha muito pouco dinheiro seu para manusear. Apesar do pai lhe ter deixado muitas terras, nunca parecia ganhar muito com a agricultura, e o que ganhava derretia-se bem depressa com as ruidosas exigências da mulher, filhos, despesas de todo o tipo e outros gastos não tão inocentes. Foi por isso que, quando a aldeia necessitou de alguém para o trabalho de cobrador de impostos, ele se ofereceu imediatamente. De facto, foi tão rápido que nem reparou que não havia ninguém que quisesse o emprego.

O cobrador anterior era um homem magro com um ar ansioso, que ia descansar para casa do filho em Umuahia.

Olhou, com um ar de dúvida, para o impaciente Okereke.

— É uma grande responsabilidade — lembrou-lhe — ser cobrador. As pessoas não pagam e é necessário persegui-las em nome do governo. Não te pagarão tudo de uma vez, mas dar-te-ão um xelim aqui, seis pence além e dirão sempre «amanhã», «amanhã». Tens que te lembrar bem daquilo que foi efectivamente pago e daquilo que só foi o prometido. O dinheiro que tiveres nas mãos tem que ser guardado cuidadosamente para que o tenhas à disposição quando o governo o reclamar.

— Sim, sim — disse Okereke, e começaram a falar alegremente de outros assuntos mais controversos, argumentando acaloradamente que lhes diziam muito mais respeito do que o pagamento de impostos.

O dinheiro já pago passou para as mãos de Okereke, que assinou o recibo. O ex-cobrador ficou com um ar tão feliz como se tivesse pousado um pesado fardo ao cabo de uma longa e penosa caminhada. Partiu para Umuahia quase com um sorriso.

Durante o resto do ano, Okereke tratou do negócio sensatamente, sem nunca se enganar. Os problemas começaram no ano seguinte.

Começou por tirar emprestado da caixa algum dinheiro, apressadamente, e restituiu-o. Depois tirou mais algum, não o devolveu, depois ainda mais, também sem o repor. Quando finalmente, após muitos meses, comparou minuciosamente a lista com o dinheiro que tinha na mão, viu que faltavam quinze libras.

Okereke sentou-se e suspirou consternado. Quinze libras! Era terrível. Como podia ele ter gasto tanto dinheiro? Onde o encontraria de novo? Teria a coragem de dizer à aldeia que tinha devorado o seu dinheiro? E, mesmo se o fizesse, alguém poderia salvá-lo? Via à sua frente a ignomínia e a prisão. Era um assunto doloroso.

Claro que havia algumas saídas. Podia ir à cidade e procurar um agiota. Mas sabia bem que o braço do agiota era tão longo como o da lei e era muito mais rápido. Procuraria o seu dinheiro ou os juros no fim do primeiro mês.

Outra saída seria vender alguma coisa. Saiu de casa, olhou pensativamente para a bicicleta encostada a uma árvore, e até tentou raspar-lhe a ferrugem. Mas o transporte de muitos fardos, durante anos, tinham-na deixado bem marcada. Parecia pronta a desfazer-se, os guarda-lamas abanavam, os travões não funcionavam, o fecho estava partido.

A mulher viu-lhe o olhar avaliador e reconheceu imediatamente os sinais de quem necessitava de dinheiro. Chamou a filha mais velha e entraram juntas em casa. Momentos mais tarde, a rapariga, sem fazer barulho, deixava a casa e penetrava no bosque atrás da casa, sem o pai a ver, levando à cabeça a máquina de costura.

— Ijeoma!

— Meu marido?

— Traz-me a máquina de costura.

— É pena — respondeu prazenteiramente. — Acabo de emprestá-la à minha mãe.

— Ah — disse Okereke. A mãe de Ijeoma era uma mulher alta, com grande força de vontade, com uma voz forte e eloquente, que com a idade se tinha tornado cada vez mais penetrante. Fora ela quem, antes do casamento, comprara a máquina de costura para a filha.

Decidiu ir ter com o seu amigo Okafor, cuja profissão era fabricar vinho de palma.

Quando chegou ao aldeamento do amigo, Okafor fazia descer, do alto de uma palmeira, uma cabaça cheia. Okereke mandou embora o miúdo que estava no fundo da escada e substituiu-o para receber o vinho, depois atou a cabaça nova a uma corda que Okafor fez subir. Quando estava bem segura, desceu pela escada e apertaram-se as mãos. Depois, foram sentar-se à sombra para beber vinho e conversar.

Por fim, Okafor disse:

— Tu tens mau aspecto hoje. Estás doente?

— Tenho um grande problema — disse Okereke. — Um amigo meu pediu-me para o ajudar e não sei o que hei-de fazer.

— Qual é o problema?

— Precisa de dinheiro… quinze libras… muito rapidamente… e não sabe onde encontrá-las.

Okafor suspirou.

— O dinheiro é escasso. Nunca tenho um xelim na mão. Sangro estas árvores todas, as minhas e as dos outros, e nunca fico com dinheiro.

Serviu mais vinho e beberam, enquanto a tarde quente ia lentamente arrefecendo e as pessoas começavam a aparecer na estrada. Uns raios trémulos faiscavam por entre as nuvens acompanhadas de trovões.

— No tempo dos nossos avós, um homem da minha profissão era um homem rico. Tinha dinheiro e poucos estavam ao seu nível. Agora, olha para mim. Todos os rapazes novos têm a sua bicicleta, rádio, sapatos de borracha, camisa de nylon. Onde vejo eu essas coisas? O dinheiro está escasso.

— O dinheiro está escasso — repetiu Okereke como um eco, e beberam, inclinando mais a cabaça.

Quando, finalmente, acabaram o vinho, Okereke agradeceu ao amigo e ergueu-se para se ir embora. Seguiram um bocado juntos pela estrada e de repente Okafor parou e bateu na coxa.

— Este homem que necessita de dinheiro… Tens confiança nele?

— Como em mim próprio.

— Não te aconselharia isto se ele não fosse de confiança, mas já sei o que podes fazer. Empresta-lhe tu o dinheiro e tira-o do dinheiro dos impostos. Como ele é digno de confiança, não te deixará ficar em apuros por sua causa e restituir-te-á o dinheiro rapidamente. — Olhou para o amigo, todo contente com a sua solução.

Okereke nem foi capaz de falar e limitou-se a apertar a mão do amigo e separaram-se.

Okereke regressou a casa, sombriamente. De manhã, levantou-se muito cedo e saiu do aldeamento antes da sua mulher poder recomeçar a fazer-lhe perguntas. Encontrou o homem mais velho da aldeia à porta de casa, olhando desconfiadamente para o novo dia.

Okereke parou para o saudar.

— Para onde vai tão cedo? — perguntou o ancião.

— Vou ter com um amigo. Tem grande necessidade de dinheiro e não sabe onde encontrá-lo.

— Ah — disse o velho. — O dinheiro está escasso.

Fê-lo entrar para a sala e sentaram-se. Okereke tirou a caixa de rapé que aspiraram, franzindo o rosto e limpando lágrimas de prazer.

— Recordo-me — disse o velho com ar meditativo — que, no tempo do meu pai, havia um homem que tinha muitas dívidas. Tinha demasiadas dívidas e os credores chegavam ao seu aldeamento antes do nascer do Sol, para apanhá-lo antes que pudesse fugir para a floresta e à noite, quando tinha de regressar a casa para dormir.

— Sim — incitou Okereke todo curioso.

— O homem ficou muito preocupado porque não podia pagar-lhes e, no entanto, eles não acreditavam e não lhe davam tréguas. Uma manhã, deixou-se dormir e, quando acordou, já o dia ia avançado. Pôs a tanga e saiu apressadamente de casa, mas muitos dos credores já estavam no aldeamento.

— Que fez ele? — perguntou Okereke. O velho tomou mais rapé e disse:

— Saltou para dentro do poço.

Houve um silêncio pensativo.

— Que aconteceu depois? — perguntou Okereke em voz baixa.

— Era a estação seca e não havia muita água no poço. Depois de todos os credores terem fugido, a mulher dele, com uma escada, ajudou-o a sair de lá.

— E quanto às suas dívidas?

— Oh… não sei. Mas teve sossego durante um dia.

Okereke deu voltas à cabeça com tal história. Era de certo interessante, até divertida. Se estivesse com disposição para isso, ter-se-ia rido francamente com a imagem de um homem desaparecer num poço e a multidão desaparecer em pânico. Mas, nesse momento, não lhe servia de nenhuma ajuda.

Quando se despediu e saiu do aldeamento, parou e deitou uma olhadela para o poço por cima dos troncos que o rodeavam. A superfície da água estava a dois metros do cimo, pois a estação das chuvas mal tinha acabado e o poço estava muito cheio. A água era escura como óleo e parecia tão espessa como sopa.

Okereke estremeceu.

Tentou esquecer-se da história do velho e continuou a andar um pouco ao acaso em direcção à aldeia. Quando sentiu um carro a aproximar-se por detrás, não olhou mas afastou-se com a cara virada para floresta, para o deixar passar, acompanhado de uma sufocante nuvem de pó.

Mas o carro parou e o condutor debruçou-se da janela para o saudar. Era o marido da irmã de Ijeoma, Chukuem, um mestre-de-obras que estava muito bem na vida. Passava a maior parte do tempo na cidade e só raramente ia a casa. Okereke desejou saber que é que o trazia a casa desta vez e Chukuem esclareceu-o rapidamente.

— Tentei comprar mais uma terra para cultivar, mas houve demasiadas discussões. Três dos donos anteriores discutiam os limites e um outro homem limpava a terra enquanto falavam. Por isso deixei de a comprar para não arranjar problemas.

Olhou de lado para Okereke.

— Sabes de algum pedaço de terra que alguém esteja disposto a vender?

Não foi a primeira vez que Okereke se admirou da velocidade com que as novidades se espalhavam. Como de costume, a explicação, uma vez conhecida, era simples. Mas o que ele não sabia era que a mãe de Ijeoma, tendo recebido a máquina de costura para guardar em segurança, comentara para quem a quisesse ouvir que o inútil do Okereke parecia estar necessitado de dinheiro. Chukuem, marido da outra filha, que acontecia estar de visita, ouviu o que ela disse. Alguns anos antes, quando tentara comprar terras, Okereke tinha respondido que ele não necessitava de vender as terras do seu pai, falando com mais orgulho do que o aconselhável, irritando a mãe de Ijeoma, cujo pai tinha arranjado má fama por tal comportamento … mas essa era uma outra história.

Agora aqui estava Chukuem a fazer a mesma abordagem, obviamente apoiado nalguma informação de que desta vez teria sucesso. Via-se claramente isso pela forma tranquila como se sentava ao volante, tirando um cigarro que acendeu, e pela sua expressão confiante.

Okereke não perdeu tempo em perguntas inúteis.

Sorriu.

— Ainda bem que me encontras. O dinheiro está escasso. Quero vender um pequeno bocado das minhas terras.

— O preço também é pequeno, espero — retorquiu o cunhado, sorrindo também, e foram juntos vê-lo.

Umas horas mais tarde, Okereke dirigiu-se lentamente para casa. Essa noite tinha de se encontrar com Chukuem, assinar o contrato e receber o dinheiro, exactamente quinze libras. Lembrou-se do cobrador anterior, com a cabeça curvada pela preocupação e o sorriso forçado, devido à falta de hábito. Ijeoma e a mãe dar-se-iam imediatamente conta de que se tinha apropriado do dinheiro dos impostos, quando não vissem um centavo do pagamento de Chukuem. Seria essa a única explicação possível para a venda apressada sem lucro. Então começariam as discussões, as perguntas sem resposta, as censuras inevitáveis. Entre esse momento e o momento presente teria que saborear a paz e a calma que sem dúvida não teria durante todo o próximo ano.

Sentiu-se muito cansado.

 

Rosina Umelo
O homem que comia dinheiro
Lisboa, Edições 70, 1980

 

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