A árvore da chuva

arvore1

Era uma vez uma aldeia, situada num terreno árido no meio do deserto. O sol tinha secado os seus campos e a areia invadira por completo os caminhos, as casas e as bocas dos aldeões.
Apesar do calor sufocante, os homens tentavam lavrar os campos, retirando água de um poço… cada vez mais vazio. Mas parecia que a terra não tinha mais para dar e se mantinha surda às súplicas dos habitantes da região…
Num pátio próximo das cubatas feitas de argamassa, as mulheres teciam tapetes com folhas de tamareira para vender no mercado da cidade vizinha. Partiam cedo de manhã, a pé, e um burro carregava a mercadoria. Chegavam lá apenas ao meio-dia, exaustas da longa caminhada sob o sol. Quando regressavam à aldeia era já noite, e tanto homens como crianças há muito que dormiam.
Os pés estavam gretados de percorrer tantos quilómetros, mas os sacos de arroz e os bidões de água que tinham trazido consigo, comprados com o dinheiro do seu trabalho, eram um bálsamo para as suas feridas.
Quanto às crianças, frequentavam a escola todas as manhãs, embora tivessem dificuldade de aprender com o estômago vazio.
Todos os dias os aldeões perscrutavam o céu, na esperança de que uma nuvem a anunciar chuva aparecesse. E todos os dias o poço secava cada vez mais e as colheitas de arroz diminuíam, o que aumentava o medo do que traria o dia seguinte.

Certa manhã, na pequena praça de terra vermelha, situada entre a árvore dos debates e a cubata do chefe, um Continuar a ler

O autocarro fantasma

O autocarro-fantasma

De todos os mortos daquele cemitério aquele que mais se aborrecia era Tomás Bondi. O guarda encontrava frequentemente terra removida à beira da sua campa e a lápide de mármore, onde se lia “Tomás Bondi (1939-2004) Prémio Volante de Ouro para o melhor motorista de autocarro”, deslocada um metro ou dois.

O falecido Tomás Bondi sentia muita falta do seu autocarro. Os outros mortos lembravam-se, quando muito, de sair a dar uma volta convertidos em fantasmas, mas ele, pelo contrário, precisava mesmo de conduzir o autocarro durante algum tempo.

Saía da campa, passava pelo guarda do cemitério, que não o via porque os fantasmas são invisíveis, e andava umas trinta ruas até chegar à empresa de transportes onde em vida tinha trabalhado.

Metia-se no hangar onde estavam estacionados os veículos e, quando via o seu autocarro, o 121, quase chorava de emoção.

Daí a nada estava ele a passar-lhe uma flanela. Limpava os espelhos, dava lustro aos faróis e brilho aos vidros. O problema era o guarda-noturno. Ao ver um trapo sozinho a limpar o autocarro, sem que ninguém o segurasse, desatava a fugir, abandonando o posto de trabalho.

De seguida, Tomás Bondi punha o 121 a andar e ia dar uma volta. Continuar a ler

A partida de xadrez – conto oriental

A partida de xadrez

 

Pena-de-Águia-Flutuante, filho e neto de índios maias, contou-me esta história, aprendida de um monge budista da Tailândia.

Um guerreiro de rosto tenso, cansado de vaguear sem destino, de festins para derrotas e destas para triunfos ilusórios, foi um dia visitar, no fundo de uma floresta, um ere­mita bastante afamado pelas suas bondade e sabedoria imperturbável. Na cabana de ramos onde foi recebido, depois de ter contado ao santo homem as penosas aventuras e de ter confessado o seu cansaço perante as maldades humanas, disse:

― Só te quero a ti como mestre. Ensina-me o saber que ilu­mina o teu rosto e que torna a vida bela.

O eremita aconselhou-o a que meditasse, procurasse para além das aparências, se esforçasse por descobrir, nas nocivas ninharias do mundo, o fruto saboroso da paz. Ensinou-o a dominar a respiração e a conduzir os pensamentos. Conversaram durante três dias intei­ros, após os quais o guerreiro prometeu ao mestre observar aqueles mandamentos.

Decorrido um ano, límpido para um, amargo para o outro, o guerreiro, que tinha decidido atingir a sabedoria, envolvera-se corajosamente no caminho traçado, mas perdera-se nos labirintos da alma. E assim, numa manhã de Verão, tendo chegado ao fim das suas forças, veio queixar-se ao santo homem:

― Apesar dos meus esforços ― disse ―, não fiz quaisquer pro­gressos. É claro que sei agora respirar como me ensinastes, mas con­tinuo ávido, infeliz e incapaz de amar. Como poderei amar a vida que me rodeia? Como poderei amar os outros se não me amo a mim mesmo?

Com infinita paciência, o eremita deu-lhe novas pistas. Ensinou-lhe a arte de conter os excessos dos sentidos e a de alcançar as calmas profundezas do coração, para lá de toda e qualquer tempestade. Três dias depois, o guerreiro partiu, revigorado, cheio de novas esperanças. Fatigou‑se ainda um ano inteiro a livrar o espírito dos fardos que o cobriam, observou rigorosamente a disciplina que lhe tinha sido aconse­lhada, tentou compreender e saborear a vida, mas nada conseguiu.

Então, sentiu-se mais infeliz do que nunca, e acabou por se perguntar se a vida que levava antes de ter tido a ideia peregrina de alcançar a sabedoria não era melhor do que a insuportável impotência em que mergu­lhara. Dirigiu-se uma vez mais à cabana do eremita e repreendeu-o pela sua incompetência.

― Não soubestes ensinar-me a amar ― disse-lhe. ― Acho que não passas de um impostor!

O eremita não se ofendeu, muito pelo contrário. Ouviu as queixas com uma atenção quase infantil e, depois, foi a um canto escuro da cabana buscar um jogo de xadrez.

― Joguemos uma partida ― disse-lhe, a sorrir ―, mas que seja definitiva e impiedosa. Aquele que perder deve morrer, o que vencer cortar-lhe-á a cabeça. Estás de acordo?

O guerreiro, surpreendido, olhou para o mestre; depois, vendo bri­lhar nos seus olhos uma luz de desafio, respondeu:

― Está bem.

Colocaram, à frente da cabana, o tabuleiro sobre uma laje e, à sombra de uma grande árvore, sentaram-se frente a frente, debru­çando as testas enrugadas sobre as figurinhas de madeira. E a partida começou.

Pouco tempo depois já o guerreiro estava em má posição. Ao fim de seis jogadas já tinha perdido três peças importantes e o rei estava perigosamente a descoberto. Sentiu medo. Transtornado pela mão fria da morte, que já sentia pesar sobre a nuca, começou a jogar cada vez pior. Doze jogadas depois estava à beira da derrota. Olhou para o adversário e viu-o completamente impassível. Decerto que não hesita­ria um momento em matá-lo, se acaso perdesse.

Nesse momento pensou que era altura de reflectir sem erros. Lembrou-se de que costumava ser bom no xadrez e tornou-se-lhe claro que só o espectro da morte o impedia de mostrar o que valia. «Em primeiro lugar, tenho de me desembaraçar do medo, se quero uma oportuni­dade de sobreviver; tenho de me desembaraçar dele imediatamente!» Esforçou-se por respirar como aprendera e pensou: «Aconteça o que acontecer, tenho de dar o meu melhor. Só isso importa.»

Então, con­templou o tabuleiro com atenção redobrada. Viu como salvar o rei, em risco de ser comido. Foi invadido por uma alegria súbita. Recuperou a espe­rança e esqueceu o pânico. Dezoito jogadas depois a sua situação restabelecera-se a ponto de encarar confiantemente uma longa batalha. Ao fim de vinte e quatro jogadas descobriu uma falha no jogo do adversário. Exaltou-se e deu um grito de triunfo.

― Perdeste ― disse.

Estendeu vivamente a mão para devorar a rainha na brecha ofe­recida, mas deixou-a suspensa sobre o jogo. Olhou o eremita. Viu-o ainda e sempre impassível. Nesse momento interrogou-se: «Por que razão mataria eu este homem corajoso? Estou certo de que poderia ter ganho facilmente a partida quando o medo me atormentava. Mas não o fez. Que bárbaro seria se abatesse o meu sabre sobre o seu pescoço?»

A exaltação abandonou-o subitamente. Fungou, baixou a cabeça e empurrou um peão inútil. Então, só então, o eremita voltou o tabuleiro ao contrário na relva com um gesto desajeitado.

― Por fim compreendeste… Primeiro, é preciso vencer o medo. Só depois pode vir o amor ­― disse.

O guerreiro sorriu. Só agora tinha descoberto como poderia viver em plenitude!

 

 

 

 

 

 

 

Henri Gougaud

A Árvore dos Tesouros

Lisboa, Gradiva, 1988

(adaptação)

A tecedeira de cabelos negros – conto japonês

 

Noite de Outono.

Sem um grito

Um corvo passa.

Kishi

 

 

Há muito, muito tempo, na cidade de Quioto, vivia um samurai que estava casado com uma mulher bela, de bom coração, que era, além disso, uma excelente tecedeira.

Quis o destino que o samurai perdesse o lugar que ocupava: o seu senhor morreu e ele ficou a ser um guerreiro sem emprego, um ronin[i]. Embora a mulher vendesse os tecidos, o dinheiro não chegava. Não viviam na pobreza, mas já não podiam manter o mesmo estatuto. Cheio de vergonha, o samurai desesperava-se.

Um belo dia embalou os seus haveres e pôs os sabres à cintura.

— Vou-me embora — disse ele à mulher. — Isto não é vida para um homem como eu! Não suporto esta desonra. Arranja outro marido, que eu vou procurar a sorte noutras paragens.

Lavada em lágrimas a mulher suplicou:

— Peço-te que não me abandones. Hei-de tecer ainda mais e vender cada vez mais!

Mas o samurai tinha o coração fechado. A mulher chorava, com os longos cabelos negros a flutuar sobre os ombros, mas ele apertou as sandálias, montou o cavalo e partiu sem olhar para trás.

Foi até uma cidade longínqua, onde por fim entrou ao serviço de um novo senhor. Graças às suas qualidades, rapidamente se fez notado e em pouco tempo passou a ser um dos mais próximos servidores do amo. Ora, este tinha uma filha, mimada e egoísta. “Se casar com ela, pensou o samurai, está feita a minha fortuna”. Assim, levado pelo interesse, fez-lhe a corte e soube cair-lhe em graça. O casamento foi motivo de grandes festas. Depois tudo voltou ao normal, como dantes.

A nova mulher passava o tempo diante do espelho, a depilar as sobrancelhas e a provar inúmeros vestidos de alto preço, enquanto o samurai servia o senhor e se cobria de glória nos campos de batalha, graças ao sabre, à lança e ao arco. Também acompanhava a esposa quando esta se fazia levar de liteira de loja em loja para comprar tecidos, vestidos, enfeites e jóias. De pé, na rua, ao lado dos carregadores, irritava-se com a vaidade e a futilidade das suas ocupações. E não encontrava alegria naquela vida de rico com que tanto sonhara.

Vinha-lhe cada vez mais à lembrança a sua primeira mulher. De noite, via o seu lindo rosto, os olhos meigos a brilhar de afecto por ele, os seus longos cabelos pretos caídos sobre os ombros. Ouvia o bater do tear onde ela tecia os maravilhosos tecidos. Estendia para ela os braços e acordava destroçado, sentindo um enorme tédio por tudo aquilo que o rodeava.

Ao fim de algum tempo, os sonhos passaram a assaltá-lo durante o dia. Enquanto esperava que a esposa terminasse as suas eternas compras, o rosto da primeira esposa aparecia diante dele, com o seu sorriso, os traços finos, as mãos delicadas, a cabeleira preta. Aquelas imagens voltavam e perturbavam-no cada vez com mais frequência, ressuscitando-lhe o amor e o desejo. Durante a noite, lágrimas amargas cobriam-lhe os olhos. Agora sabia que, obcecado pelo sucesso, tinha cometido uma loucura. Rejeitara quem o amava e que ele amava também, sacrificara-a à busca de riqueza e de poder. Totalmente consciente desse facto, decidiu abandonar aquela existência artificial, voltar para a verdadeira mulher e pedir-lhe perdão.

Uma noite, montou o cavalo e tomou o caminho de Quioto.

Após vários dias de viagem, chegou à cidade um pouco antes da meia-noite. Meteu por ruas escuras, desertas como túmulos e, com o coração a palpitar, dirigiu-se para a sua antiga morada. Entrou no pátio. As ervas estavam altas. À luz do luar, verificou que o papel de parede estava rasgado nalguns sítios. “Sim, disse a si mesmo, a vida não foi fácil para ela, mas agora que regressei, vou remediar tudo. Sim, tudo irá correr bem”.

Prendeu o cavalo, subiu os degraus, descalçou as sandálias, empurrou a porta e entrou. Percorreu as divisões da casa, e depois ouviu o bater regular do tear. O coração do samurai deu um pulo. Abriu uma última porta. A sua mulher estava sentada diante do grande tear, vestida com um vestido remendado, os belos cabelos negros caídos em cascata sobre os ombros e as costas. Voltou-se e viu-o. Um sorriso luminoso iluminou o seu belo rosto pálido. Correu para o marido que a tomou logo nos seus braços.

— Perdoa-me, — disse ele a chorar — perdoa-me, fui um tolo. Mas vou recuperar o tempo perdido, juro-te!

— Chiiiuuu! — murmurou ela, também em lágrimas, — chiiiuuu! Isso agora já não importa. As minhas orações foram ouvidas. Voltaste. Anda, vem!

Passaram a noite a conversar, a rir e a chorar, abraçados, enquanto as velas ardiam e se iam extinguindo. Até que o samurai acabou por adormecer, vencido pelo sono. De manhã, os raios do sol despertaram-no. Abriu os olhos. O astro brilhava mesmo em frente, através dos buracos do telhado: uma grande parte, apodrecida, tinha caído. Esfregou os olhos, mas não estava a sonhar. O sol batia-lhe em cheio. Estupefacto, olhou em volta.

Havia bolor em tudo, no papel rasgado das paredes e nas traves caídas. No chão de madeira carcomida cresciam ervas. Via-se no meio da sala um tear partido. Ao lado estava a mulher deitada, de costas para ele, os seus finos ombros envoltos num quimono remendado, os longos cabelos caídos pelas costas até ao chão. Segurando-a pelos ombros, virou-a para si e… foi apenas um esqueleto o que viu. Há muito, muito tempo que a sua querida mulher tinha morrido de desgosto, de solidão e de saudade.

1 – Ser ronin consistia em viver peregrinando, ocupando-se de pequenos serviços, normalmente em troca da refeição do dia e da prática das artes samurai.

 

Rafe Martin

« Les cheveux noirs » in 10 contes du Japon

Paris, Castor poche Flammarion, 2000

(Tradução e adaptação)

Publicado em Sem categoria | Etiquetas

As roupas novas do imperador – conto com sugestão de actividades

As roupas novas do imperador

Há muitos anos havia um imperador que achava que roupas finas e novas eram tão importantes que nelas gastava todo o seu dinheiro. Não se preocupava com o seu exército, ou em ir ao teatro, ou em caçar na floresta, a não ser que isso representasse uma oportunidade para exibir as suas vestimentas novas. Tinha um fato diferente para cada hora do dia, e em vez de se dizer, em relação ao imperador, “Ele está reunido em conselho”, dizia-se, “Ele está no quarto de vestir”.

Continuar a ler

O rouxinol do imperador – conto com sugestão de actividades

O rouxinol do imperador

Na China de outros tempos, certo imperador vivia no palácio mais extraordinário, todo de porcelana fina, de magnificência sem igual. O jardim circundante exibia as flores mais raras, e as que se distinguiam pela sua beleza tinham campainhas de prata que, tocando, chamavam a atenção de quem passava.
Tudo era maravilhoso no jardim do imperador. Estendia-se para longe, até à floresta de grandes árvores e lagos azuis que, por sua vez, descia até ao mar, de tal modo profundo que os grandes barcos ali passavam. Nos ramos das árvores habitava um rouxinol. Cantava tão bem que os pescadores, ao ouvi-lo, quase esqueciam o trabalho.
De toda a parte acorria gente a visitar a cidade, o palácio e os jardins do imperador. Achavam tudo maravilhoso, mas depois de ouvirem a extraordinária ave, diziam:
—O melhor de tudo é o rouxinol!
De regresso às suas terras, essa gente falava da cidade, do palácio e dos jardins. Os escritores e os poetas escreviam livros sobre tais maravilhas, dando sempre especial relevo ao rouxinol.
Estes livros correram mundo e alguns chegaram às mãos do imperador. Vestido de seda, sentado em belos cochins, lia com agrado o que se dizia dos seus domínios, mas, chegado ao fim, lá estava o remate:
— Entre tantas maravilhas, o rouxinol é a maior.
Um dia, o imperador mandou chamar o primeiro-ministro e disse-lhe:
— O que vem a ser isto? Como é possível existir, sem que eu o saiba, essa ave chamada rouxinol, que estes livros consideram o que há de melhor no meu império? Por que razão ainda não a vi?
— Nunca ouvi falar nela — respondeu o primeiro-ministro.
— Quero-a aqui esta noite, a cantar para mim. Só isto me faltava! O mundo inteiro sabe o que tenho, menos eu!
— Será cumprido o vosso desejo, real senhor — respondeu o primeiro-ministro, curvando-se. — Vou …
No palácio, ninguém conhecia o rouxinol. Por mais que perguntasse, nada conseguiu saber.
Voltou o primeiro-ministro ao imperador:
— Saiba Vossa Majestade que tal ave não existe. Deve ser invenção de quem escreveu esses livros!
— Não pode ser falso o que se diz nos livros enviados pelo meu amigo, o imperador do Japão. Portanto, quero aqui o pássaro esta noite, sob pena de toda a corte ser castigada!
De novo o primeiro-ministro subiu e desceu escadas, correu por aqui e por ali à procura de notícias do rouxinol, conhecido no mundo inteiro mas ignorado no palácio.
Por fim, encontraram na cozinha uma rapariga que exclamou:
— Oh, meu Deus! O rouxinol? Conheço-o muito bem! Quando, à noite, me dirijo para junto da costa, para levar a minha mãe os restos de comida que aqui me dão, oiço sempre essa maravilhosa ave, cujo doce cantar me traz lágrimas aos olhos.
— Pequena ajudante de cozinha — disse o primeiro-ministro — obterás o título de cozinheira, se me levares junto dele. Tenho de o trazer aqui esta noite!
Metade da corte (com medo do castigo, é claro) foi para a floresta à procura do rouxinol. No caminho ouviram uma vaca mugir. Certo cortesão, já radiante, exclamou:
— Ei-lo!
— Não, é uma vaca! — disse a rapariga. — Ainda estamos longe.
Daí a pouco ouviu-se o coaxar das rãs, nos pântanos.
— Encantador! — disse o capelão do palácio.
— Não, são as rãs a coaxar! — explicou a ajudante de cozinha. — Mas não tarda que o ouçamos.
Agora é ele! — disse a rapariga, daí a pouco. — Escutai, por favor!
De facto, o rouxinol cantava e todos viram um passarinho de cores discretas que, aos rogos da rapariga, cantou ainda melhor. E foi muito admirado.
Tendo consentido de boa vontade em mostrar a sua voz para deleite do imperador, foi recebido com grandes honras no palácio de porcelana, ao brilho de milhares de velas. Na grande sala onde o imperador se encontrava, colocaram um poleiro de ouro. Todos admiraram o seu canto mavioso.
O imperador tinha lágrimas nos olhos, de comovido, e foi esta a melhor recompensa para a ave. Nunca o esqueceria.
O êxito do rouxinol na corte foi extraordinário. E ficou decidido que o rouxinol ficaria na corte e teria uma gaiola só para ele. Tinha licença de dar um passeio duas vezes por dia e uma vez à noite, acompanhado de doze criados. Cada criado segurava uma fita de seda cuja ponta estava atada a uma das patas do passarinho. Passear nessas condições não devia ter mesmo graça nenhuma.
Certo dia chegou, endereçada ao imperador, urna grande caixa onde estava escrito: Rouxinol.
— Eis certamente outro livro sobre o célebre pássaro — disse o imperador.
Mas não era um livro. Dentro, vinha um rouxinol mecânico semelhante ao verdadeiro, coberto de diamantes, de rubis e de safiras. Quando lhe davam corda, cantava, movia a cauda e lançava chispas de luz. Trazia em volta do pescoço uma fita onde se lia: O rouxinol do imperador do Japão não passa de uma modesta imitação do rouxinol do imperador da China.
— Que lindo é! — exclamavam todos, entusiasmados, ao vê-lo e ouvi-lo.
— Ponham ambos a cantar ao mesmo tempo! — mandou o imperador.
Mas o pássaro verdadeiro cantava à sua maneira e o rouxinol mecânico cantava valsas.
Foi então resolvido que o rouxinol mecânico cantasse sozinho. Obteve grande sucesso, e repetiu, repetiu.
— Agora o rouxinol verdadeiro também tem de cantar — sugeriu o imperador.
Mas… onde estava ele? Ninguém se apercebeu de que voara pela grande janela aberta, em direcção à floresta.
Todos os cortesãos o censuraram:
— Que feia acção! Que ingrato! Não importa! Temos este que é bem melhor e mais bonito. Ao menos, com ele, sabemos o que vai seguir-se e podemos acompanhar a sua música. Com o outro era impossível, sempre diferente, inesperado.
O rouxinol cantava, cantava sem fadiga. Permitiu-se ao povo ver e ouvir aquela maravilha. Os pobres pescadores diziam:
— É lindo e canta bem, mas falta-lhe qualquer coisa …
Do verdadeiro rouxinol nunca mais houve notícias; já ninguém pensava nele.
Certa noite, estando o imperador deitado a deliciar-se com o canto do rouxinol mecânico, colocado em cima da mesa-de-cabeceira, ouviu-se um ruído “Tíup”! Partiu-se a corda do mecanismo; depois “Brrrr… ” e a música parou. O imperador saltou da cama, mandou vir o médico da corte, mas este não soube resolver a situação. Chamou-se então o relojoeiro, que consertou a corda e recomendou muita cautela, porque, com os parafusos gastos, podia quebrar- se novamente.
Foi grande o desgosto. O pássaro não podia agora cantar com frequência.
Cinco anos passaram.
Entre outros os cortesãos reinava a desolação, porque o seu amado imperador estava doente e não parecia ter hipóteses de
cura. O sucessor fora já eleito.
Muitos choravam, enquanto outros ansiavam por aclamar aquele que viria.
O velho imperador, estendido na cama, pálido e frio, lutava com a morte. À sua volta, uma quantidade de caras estranhas parecia esperar espreitar por entre as dobras da cortina de veludo; umas tinham expressões de maldade, outras aparentavam simpatia. Representavam as boas e más acções que o imperador praticara. Este, no meio da aflição, só pedia:
— Música! Música! Quero música!
Mas ninguém dava corda ao pássaro mecânico, porque o imperador estava sozinho. Consideravam-no já morto, e os cortesãos preparavam o palácio para receber o sucessor.
— Canta, ave preciosa, canta! — pedia o imperador moribundo.
A ave continuava muda, e o imperador sentia-se morrer, esmagado pelo silêncio confrangedor.
De repente, eleva-se no ar, junto da janela aberta, uma voz deliciosa. Era o rouxinol que, num ramo lá fora, tinha ouvido os gritos de aflição do seu imperador e viera confortá-lo.
A medida que ele cantava, o imperador sentia-se mais leve, melhorava, voltavam-lhe as forças, regressava à vida.
— Obrigado! Obrigado, pássaro celestial! Reconheço a tua voz! Esqueci-te inteiramente, e tu vieste livrar-me da morte com as suas negras visões que me afligiam. Como poderei recompensar-te?
— Já fui recompensado, quando em tempos vi lágrimas nos teus olhos enquanto me escutavas — replicou delicadamente o rouxinol.
— Fica sempre junto de mim. Cantarás quando quiseres e quebrarei em mil bocados o pássaro mecânico!
— Não faças isso! — replicou o rouxinol verdadeiro. — Ele fez o que podia. Conser-
va-o. Eu não posso instalar-me no palácio, mas virei, quando sentir desejos disso, e cantarei para ti, à noite, empoleirado neste ramo, junto da janela aberta, para te tornar feliz.
— Sim, farás como quiseres. O meu coração esperar-te-á sempre, para te receber com alegria e gratidão!
E quando os criados entraram, supondo encontrar o imperador já morto, viram-no, porém, sorrir e dizer calmamente:
— Bom dia!…

Hans Christian Handersen
O rouxinol do imperador
Porto, Ed. MAJORA, s/d
Adaptação

  • Reparaste que quase todas as pessoas que vivem no palácio se mostram muito distanciadas da natureza? Escolhe passagens da história que o comprovem.
  • O rouxinol veio libertar o imperador da doença.
    Que sentimentos lhe terá transmitido com o seu canto?
  • E, a propósito, já ouviste alguma vez um rouxinol cantar?

Branca de Neve e os sete anões – conto com sugestão de actividades

Branca de Neve e os sete anões

Era Inverno, e a neve caía como se fosse uma leve penugem… Uma jovem rainha bordava, sentada defronte da janela enquadrada de madeira de ébano. Quando olhou para os flocos brancos que esvoaçavam, picou-se num dedo e três gotas de sangue vermelho caíram na neve. A rainha formulou então um desejo:
— Ah! Como eu gostava de ter uma filha, linda, com a tez branca como a neve, uns lábios vermelhos como o sangue e uns cabelos negros como o ébano.
Algum tempo depois, a rainha teve uma filha. A tez era branca como a neve, os lábios eram vermelhos como o sangue e os cabelos negros como o ébano… Chamaram-lhe Branca de Neve.
Mas a rainha morreu quando ela nasceu.
Passou um ano, e o rei voltou a casar. A sua segunda mulher era muito bonita, mas era também muito orgulhosa e vaidosa. Não suportava a ideia de qualquer mulher poder ser mais bonita do que ela…
Todos os dias a rainha ia mirar-se no seu espelho mágico e perguntava-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondia-lhe sempre:
Senhora rainha, vós sois a mais bela de todo o reino.
A rainha ficava muito contente com essa resposta; sabia que o espelho nunca mentia. Mas, entretanto, Branca de Neve foi crescendo e cada dia ficava mais bonita…
Um dia, a rainha interrogou o espelho, que lhe respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza de Branca de Neve não podeis igualar!
Então a rainha ficou verde de medo e inveja. Começou a detestar Branca de Neve. A inveja ia crescendo no seu coração, como a erva má cresce nos campos, envenenando-lhe a vida, tirando-lhe o sono. E cada vez que via Branca de Neve, odiava-a um pouco mais.
Já não suportando mais, mandou vir um caçador e disse-lhe:
— Leva Branca de Neve para a floresta, não quero voltar a vê-la! Mata-a e traz-me o coração e o fígado como prova.
O caçador levou Branca de Neve para a floresta, mas, quando desembainhou o punhal para a matar, ela disse-lhe:
— Gentil caçador, não me mates! Eu vou para o interior da floresta e nunca mais volto!
Como ela era muito bonita, o caçador teve pena dela.
— Foge, menina! — disse-lhe, convencido de que os animais da floresta iriam devorá-la.
Levou à rainha o coração e o fígado de um pequeno javali como prova da morte de Branca de Neve. A rainha mandou o seu cozinheiro prepará-los e comeu-os, julgando estar a comer Branca de Neve…
A pobre rapariga, sozinha no meio do bosque, ficou cheia de medo. Correu pela floresta até cair a noite. Os animais selvagens rondavam, mas não lhe fizeram mal.
Correu, correu, enquanto as suas pernas permitiram. Viu então uma casinha e entrou para descansar.
Nessa casinha, todas as coisas eram muito pequeninas; era tudo muito bonito e muito limpo. Viu uma mesinha coberta com uma toalha branca, com sete pratinhos, sete colherinhas, sete faquinhas e sete copinhos. Muito arrumadas, encostadas à parede, viu sete caminhas cobertas com colchas muito brancas.
Branca de Neve tinha muita fome e muita sede, e então tirou um bocadinho de legumes e de pão de cada pratinho, e bebeu uma gota de vinho de cada copinho, pois não queria tirar tudo à mesma pessoa!
Depois, porque estava muito cansada, quis deitar-se numa cama. Mas a primeira cama era muito grande, a segunda muito pequena… e foi experimentando todas. A sétima tinha bom tamanho. Deitou-se e adormeceu.
Quando caiu a noite, os sete anões que habitavam naquela casa regressaram do trabalho na montanha. Acenderam as sete lanterninhas e viram que estava lá alguém…
Disse o primeiro:
— Quem é que se sentou na minha cadeira?
O segundo disse:
— Quem é que tirou comida do meu prato?
O terceiro disse:
— Quem é que tirou um bocado do meu pão?
O quarto disse:
— Quem é que tirou legumes do meu prato?
O quinto disse:
— Quem é que usou o meu garfo?
O sexto disse:
— Quem é que usou a minha faca?
O sétimo disse:
— Quem é que bebeu do meu copo?
Depois, o primeiro viu que a sua cama estava desarrumada.
— Quem é que esteve a dormir na minha cama? — disse ele.
Os outros aproximaram-se a correr e todos gritaram:
— Na minha cama também se deitou alguém!
O sétimo, quando olhou para a sua cama, viu Branca de Neve a dormir. Pegaram nas lanterninhas para iluminarem o rosto da menina.
— Que linda que ela é! — disseram os sete.
Deitaram-se sem a acordarem. Chegaram-se todos um bocadinho para o lado para arranjarem espaço para o sétimo anão, e assim se passou a noite.
De manhã, quando Branca de Neve acordou, teve medo. Mas os anões olhavam para ela com simpatia. Perguntaram-lhe como se chamava.
— Chamo-me Branca de Neve — disse ela.
E contou-lhes que a madrasta tentara matá-la.
— Fica connosco — propuseram-lhe os anões. — Se quiseres arrumar a casa, cozinhar, fazer as camas… não te faltará nada. Mas cuidado com a tua madrasta, ela pode descobrir que estás cá. Não deixes ninguém entrar!
Branca de Neve aceitou de bom grado e arrumou a casa toda. De manhã, os sete anões foram para a montanha, onde procuravam ouro, e quando à noite regressaram, a refeição estava pronta.
A rainha julgava que Branca de Neve estava morta, pois comera o seu fígado e o seu coração. No entanto, um dia interrogou o seu espelho mágico e ele respondeu-lhe:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

A rainha sabia que o espelho nunca mentia, e percebeu que o caçador a tinha enganado: Branca de Neve ainda estava viva! A inveja invadiu o seu coração, e ela deixou de ter sossego. Inventou então nova maneira de matar Branca de Neve…
Disfarçada de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas por detrás das quais viviam os sete anões, e bateu à porta da casa:
— Tenho coisas muito boas para vender! — disse ela. — Tenho cordões de todas as cores!
«É uma velhinha simpática, vou deixá-la entrar», pensou Branca de Neve. Abriu a porta e comprou-lhe um lindo cordão de seda.
— Minha menina — disse a velha — deixe-me pôr-lhe o cordão como deve ser.
A mulher passou o cordão pelo corpete de Branca de Neve, e depois apertou-o tanto que ela deixou de poder respirar e caiu como morta.
— Agora, já não és a mais bela! — gritou a velha, que se afastou da casa rapidamente.
À noite, os sete anões regressaram. Ficaram apavorados quando viram a sua querida Branca de Neve estendida no chão, sem vida. Notaram que o seu corpete estava demasiado apertado, e cortaram o cordão. Branca de Neve recuperou os sentidos.
— Foi a rainha má que quis matar-te… — disseram eles a Branca de Neve. — Tememos que ela regresse, por isso não deixes entrar ninguém enquanto cá não estamos.
Quando voltou ao castelo, a rainha interrogou o espelho:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha sentiu o coração estoirar de fúria e tentou encontrar outro modo de matar Branca de Neve. Por meio de feitiçaria, fabricou um pente envenenado, disfarçou-se novamente de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas e bateu à porta da casa dos sete anões.
Branca de Neve viu pela janela que ela se aproximava e disse-lhe:
— Continue o seu caminho, não posso abrir a porta a ninguém.
— Mas podes ver o que aqui trago… — disse a velha e mostrou-lhe o pente. — Deixa- me entrar, que eu penteio-te.
Então Branca de Neve deixou a velha entrar para a pentear, mas mal o pente tocou nos seus cabelos, o veneno fez efeito e a menina caiu no chão sem sentidos.
— És um prodígio de beleza, mas agora acabou-se! — disse a madrasta que se afastou rapidamente. Por sorte, estava quase na hora de os anões regressarem… Quando viram Branca de Neve inanimada, desconfiaram da rainha má; procuraram e logo encontraram o pente envenenado. Mal o tiraram dos cabelos de Branca de Neve, ela recobrou os sentidos e contou- lhes o que se tinha passado. Eles recomendaram-lhe novamente que não abrisse a porta a ninguém.
Quando chegou ao palácio, a rainha interrogou novamente o seu espelho mágico:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha tremeu de fúria e raiva.
— Branca de Neve tem de morrer — gritou ela — nem que para isso também eu tenha de morrer!
E num local sombrio, que ninguém conhecia, preparou uma maçã envenenada; depois disfarçou-se de camponesa, atravessou as sete montanhas, bateu à porta da casa dos sete anões…
Branca de Neve debruçou-se à janela e disse:
— Não posso abrir a porta a ninguém! Os sete anões proibiram-me!
— Pior para ti — disse a camponesa. — Vou vender as minhas maçãs a outra pessoa. Mas ao menos deixa-me oferecer-te uma…
— Não — disse Branca de Neve. — Não posso aceitar nada.
— Tens medo de ser envenenada? — perguntou a camponesa. — Olha, vou partir a maçã em duas partes; eu fico com a metade branca e tu com a metade vermelha!
Branca de Neve olhava para a maçã e estava tentada.
Quando viu a camponesa a comer a metade da maçã, estendeu a mão e pegou na outra metade.
Mal trincou a maçã, caiu morta no chão.
A rainha olhou para ela com olhos maliciosos, riu e troçou:
— Branca como a neve, vermelha como o sangue, negra como o ébano… Desta vez nem os anões te podem reanimar!
Ao chegar ao palácio, a malvada mulher interrogou o seu espelho, e ele finalmente respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela do reino.
Então, o invejoso coração da rainha repousou um pouco, mas um coração invejoso nunca tem verdadeiro repouso…
À noite, quando os anões regressaram a casa, viram Branca de Neve estendida no chão, sem respirar. Procuraram descobrir alguma coisa envenenada, mas não encontraram nada. A sua querida Branca de Neve estava morta!
Sentaram-se todos em volta dela e choraram durante três dias; depois, prepararam-se para a enterrar. Mas ela continuava fresca como se estivesse viva, com as faces rosadas como sempre.
— Não podemos enterrá-la na terra negra! — disseram. Fizeram um caixão de vidro, deitaram-na lá dentro e escreveram por cima o nome dela com letras de ouro, acrescentando que era filha de um rei. Depois levaram o caixão para o cimo da montanha e, revezando-se, fizeram guarda junto dela. Também os animais vinham chorar Branca de Neve… Branca de Neve ficou muito tempo, muito tempo, no seu caixão, sempre muito bonita, sempre como se estivesse apenas a dormir.
Ora aconteceu passar por ali o filho de um rei, que parou na casa dos anões, para lá pernoitar. Viu o caixão no cimo da montanha e lá dentro a bela Branca de Neve. E leu o que estava escrito a letras de ouro.
— Dêem-me esse caixão, e eu dou-vos tudo o que quiserem! — disse ele aos anões.
— Nem que nos desse todo o ouro do mundo! — responderam os anões.
— Então, ofereçam-mo, porque não poderei viver sem Branca de Neve. Quero venerá-la como a minha bem-amada.
Ao ouvi-lo dizer estas palavras, os bons anões tiveram piedade dele e ofereceram-lhe o caixão. Mas os servidores do príncipe, que o transportavam aos ombros, tropeçaram num tronco de árvore e a sacudidela fez saltar da boca de Branca de Neve o pedaço de maçã que ela trincara. Abriu os olhos, levantou a tampa do caixão e levantou-se. Estava novamente viva!
— Onde estou? — perguntou.
— Junto de mim — disse o príncipe. — Amo-te mais do que tudo neste mundo. Vem comigo para o castelo do meu pai. Serás a minha mulher.
Então Branca de Neve sentiu que o amava e foi com ele. As núpcias foram preparadas com grande pompa e magnificência. A rainha má também foi convidada.
Adornada com os seus mais belos atavios, olhou para o espelho e perguntou-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
O espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza da jovem soberana não podeis igualar!

A perversa mulher, mergulhada em ódio, teve tanto medo que perdeu a cabeça: levada pela curiosidade, não resistiu a ir ao casamento para ver a jovem rainha.
Ao reconhecer Branca de Neve, ficou pregada ao chão. Então, o castigo que a madrasta tantas vezes merecera por ter querido matar Branca de Neve abateu-se sobre ela.
Dando meia volta, saiu a correr do castelo, e consta que caiu num precipício, morrendo da queda, pois nunca mais foi vista por aquelas paragens.
E Branca de Neve e o príncipe viveram muitos e muitos anos de um feliz casamento.

O meu livro de contos
Marie Tenaille (org)
Porto, Asa Editores, 2001

  • A madrasta de Branca de Neve é uma mulher invejosa, que acaba por ser vítima da própria inveja.
    Já te aconteceu sentires inveja de alguém?
  • E já te apercebeste do quanto uma pessoa invejosa pode ser injusta com os outros?
  • Branca de Neve, apesar de simpática, não é prudente, pois cai por três vezes no mesmo tipo de armadilha. E tu, costumas ser prudente?
  • A madrasta de Branca de Neve dava excessivo valor a um atributo físico. Qual era? Concordas com o seu procedimento?
    Certamente que o seu carácter traiçoeiro e cruel também te impressionou. Por quê?

A Bela Adormecida – conto com sugestão de actividades

A Bela Adormecida

Certo dia de Verão, uma rainha, sentada a bordar na margem de um rio, chorava. Um sapo, que estava sentado numa folha de lírio, viu-lhe as lágrimas e perguntou:
— Porque choras, rainha?
— Porque envelheci e ainda não tenho filhos — disse a rainha.
Então o sapo disse: — Limpa as tuas lágrimas. Antes que o ano acabe, vais ter uma filha.
Tal como o sapo havia prometido, assim aconteceu. Na Primavera, a rainha deu à luz uma menina.
O rei estava cheio de alegria. Ordenou que se fizesse uma festa de baptizado e enviou mensagens para toda a gente do reino. Cavaleiros, barões, condes, duques e duquesas foram convidados. Então a rainha lembrou-se: — Não podemos esquecer-nos de convidar as fadas.
Havia treze fadas no reino. Doze delas eram bondosas, mas a última usava a sua magia para fazer o mal. O rei decidiu não a convidar.
No dia do baptizado, todo o reino celebrava. Os sinos tocaram, foram içadas bandeiras e a festa e as danças duraram horas. Os convidados trouxeram presentes para o bebé: ouro, esmeraldas, veludo, rendas – tudo o que uma princesa podia desejar.
Quando todos os senhores e senhoras acabaram de dar os presentes, as fadas avançaram com os seus. Uma deu à menina beleza; outra deu-lhe graça; as outras, uma voz angelical, um passo leve para a dança, habilidade para tocar todos os instrumentos musicais.
Já onze fadas tinham dado os seus presentes, quando uma sombra cobriu o berço. A décima terceira fada encontrava-se ali e estava zangada.
— Não fui convidada para o baptizado — disse ela — mas eu tenho um presente para a criança.
Debruçando-se sobre o berço, disse: — Quando a princesa tiver quinze anos, vai picar-se no dedo com um fuso e morrer.
A sala encheu-se de terror. A rainha desmaiou. O rei implorou perdão e rogou à fada que anulasse o feitiço, mas ela enrolou-se no manto e desapareceu.
— Ninguém pode ajudar-nos? — perguntou o rei. A décima segunda fada avançou.
— Eu ainda não dei o meu presente — disse ela.
O rei virou-se para ela cheio de esperança. — Podes quebrar este feitiço?
— Não — disse a fada. — Isso não está nas minhas mãos.
Mas ela debruçou-se sobre o berço e disse: — Quando a princesa se picar no fuso, não vai morrer, mas dormir durante cem anos. Crescerá uma floresta de espinhos à volta do palácio, e tudo o que for vivo dentro dele vai estar adormecido, até ao dia em que um príncipe encontre o caminho pela floresta encantada e acorde a princesa com um beijo.
Cem anos! Para o rei, isso parecia-lhe a morte. Ordenou que toda a fiação fosse proibida e todos os fusos queimados. Se a sua filha nunca visse um fuso, pensou ele, o feitiço da fada não podia tornar-se realidade.
A princesa cresceu tão bonita e inteligente quanto as fadas tinham prometido e toda a gente no palácio gostava muito dela.
Quando fez quinze anos, foi preparada uma festa. Na cozinha, os cozinheiros fizeram molhos e assaram carne; os criados trouxeram flores e verduras para decorar o salão.
Havia uma sala cheia de presentes para a princesa e cartas de príncipes que esperavam obter a mão da princesa em casamento.
No entanto, em vez de excitada, a princesa encontrava-se calma. Ela sentia que alguma coisa estranha ia acontecer-lhe.
Quando já estava vestida, desceu em direcção à galeria e espreitou para o salão onde estavam os convidados e onde os músicos começaram a tocar.
— Deixem-me!— disse ela às criadas. — Eu desço sozinha.
Quando as criadas foram embora, a princesa afastou-se do salão e dirigiu-se à parte velha do palácio onde já não vivia ninguém.
Não conhecia o caminho; no entanto, caminhou com um passo firme, como se uma vontade exterior a ela a impelisse. Chegou ao fundo de uma escada íngreme e estreita.
As escadas estavam cobertas de pó acumulado durante muitos anos. Ela subiu, deixando as suas pegadas nas escadas.
No cimo, havia uma porta. A princesa abriu-a e entrou.
Encontrou-se num pequeno quarto onde estava uma velha a fiar numa roca.
— Entra, minha querida — disse a velha. — Estava à tua espera.
A princesa não sabia que a velha era a fada má, disfarçada.
— O que é que estás a fazer? — perguntou ela. — Estou a fiar — disse a velha.
— Gostavas de experimentar?
A princesa ansiosa, pegou no fuso. Mas, assim que o fez, picou-se no dedo e gritou.
A fada deu uma gargalhada de triunfo, mas a princesa já não a ouviu; tinha caído num sono profundo.
Imediatamente o palácio se transformou. As criadas bocejaram e recostaram-se à parede. O rei e a rainha adormeceram nos seus tronos. O rabequista largou o seu arco e o flautista tocou uma nota gemida, enquanto caía no chão. Um gato, que andava a perseguir um rato, mudou de ideias, espreguiçou-se e adormeceu. O rato adormeceu; os cavalos nos estábulos, adormeceram; os pombos no pombal adormeceram.
Não havia mais movimento; não soprava nenhuma brisa.
Então, uma floresta começou a crescer à volta do castelo. Os rebentos abriram e surgiram os espinhos; ramos espessos alongaram-se. Numa hora, as paredes estavam escondidas; num dia, a bandeira que estava na torre deixou de se ver. Mês a mês e ano a ano, a floresta cresceu e os espinhos uniram-se de tal maneira que ninguém podia entrar.
Mas as pessoas lembravam-se. Contavam histórias de um castelo escondido e de uma princesa adormecida que só podia ser acordada pelo filho de um rei. A história correu mundo e muitos príncipes foram lá e tentaram entrar na floresta; mas ficavam presos nos espinhos e morriam.
Tinham passado cem anos. No último dia do feitiço da fada, chegou um príncipe na companhia de alguns caçadores. Tinham vindo a perseguir um veado que os guiou para longe de casa por florestas e bosques, noites e dias, e que, por fim, os levou à floresta de espinhos onde acabou por desaparecer.
O príncipe já tinha ouvido a história da bela adormecida. Imediatamente percebeu que o veado tinha sido mandado para o encontrar e que era ele quem tinha de acordar a princesa.
— Deixa este sítio, volta para casa — imploraram as pessoas. Mostraram-lhe os ossos de outros príncipes que tinham ficado presos nos espinhos. Mas o príncipe não tinha medo. Levantando a sua espada, preparou-se para entrar.
Mal a espada tocou na primeira folha, toda a floresta se transformou em flores. Os espinhos quebraram-se, abrindo um caminho onde o aroma a rosas estava por todo o lado. O príncipe guardou a sua espada, entrou pela floresta e os espinhos foram-se fechando atrás dele.
Andou pelo meio da floresta florida, até que chegou às escadas do castelo. Os guardas estavam adormecidos e as suas espadas deixadas contra a parede. Atravessou o pátio e chegou a uma porta de carvalho com uma trave de ferro. Abriu-a e entrou no salão.
À sua frente, sentados em dois tronos de ouro, estavam o rei e a rainha, profundamente adormecidos. À sua volta, convidados, criados e músicos dormiam deitados no chão. O príncipe passou por eles e subiu as escadas para a galeria, onde encontrou as criadas a dormir. Dirigiu-se então para a parte velha do palácio.
Quarto após quarto, foi seguindo o mesmo caminho que a princesa seguiu há muito tempo atrás. Finalmente chegou à escadaria onde encontrou as pegadas dela. Seguiu-as.
A porta, em cima, não estava trancada. Ele abriu-a e entrou.
No chão estava a bela princesa.
O seu cabelo estava tão brilhante, a sua cara tão fresca, como no seu décimo quinto aniversário, há cem anos atrás.
O príncipe, encantado com tal beleza, ajoelhou-se e beijou-a.
A princesa acordou logo. Sorriu e levantou-se. Em baixo, no salão, a rainha e o rei espreguiçaram-se e abriram os olhos. Os convidados começaram a mover-se. O gato acordou; o rato escondeu-se atrás de uma cadeira.
O príncipe pegou na mão da princesa e desceram juntos, através dos quartos vazios, em direcção ao salão. À medida que se aproximavam, ouviam música e vozes; passaram pelas criadas que conversavam atrás da galeria; o salão estava impregnado de um aroma a flores, e a luz entrava pelas janelas.
Lá fora, a floresta encantada tinha desaparecido e, com ela, a última magia da fada. O rei e a rainha cumprimentaram o príncipe, e ele declarou o seu amor pela princesa e pediu a sua mão em casamento. Eles aceitaram imediatamente. Assim, a festa de aniversário, que tinha sido começada cem anos antes, tornou-se um casamento. Os músicos tocaram uma melodia muito viva, a dança começou, e todos os sinos repicaram em celebração.

Clássicos dos Contos de Fadas
Porto, Ed. AMBAR, 1996

  • A princesinha, vítima de um malefício, é salva graças à coragem de um príncipe.
    Este conseguiu transformar um espaço fechado sobre si mesmo num local cheio de alegria e de luz. Como?
    Em tua opinião, por que motivo terá sido o príncipe o único a conseguir penetrar no castelo?

A Bela e o Monstro – conto com sugestão de actividades

A Bela e o Monstro

Era uma vez um mercador que tinha três filhas. As duas filhas mais velhas eram egoístas, vaidosas e profundamente antipáticas. Mas a filha mais nova era muito diferente. Era bondosa e simpática e — como irão ouvir — muito corajosa. Era tão bonita que as pessoas lhe chamavam, simplesmente, Bela.
As suas irmãs detestavam-na.
Um dia, o mercador ouviu dizer que, num porto longínquo, se estava à espera de um navio com um carregamento precioso para ele. Preparou-se imediatamente para partir numa longa viagem em busca da sua fortuna. As suas duas filhas mais velhas obrigaram-no a prometer que, quando voltasse, traria presentes valiosos para lhes dar. Bela, no entanto, apenas pediu uma rosa.
O mercador partiu no seu cavalo. Mas, ao chegar ao fim da sua longa viagem, ficou amargamente desapontado: não havia nenhum navio à sua espera com um carregamento valioso. A notícia era falsa. Iniciou tristemente a viagem de volta a casa. Afinal, não tinha dinheiro para comprar presentes caros para as suas filhas mais velhas. Já nem sequer conseguiria encontrar uma rosa para Bela, pois a estação já estava demasiado avançada para que ainda houvesse rosas.
Foi com tempo de Inverno que o mercador iniciou a cavalgada para casa. O caminho que tomou levou-o a uma enorme floresta e, por essa altura, já começara uma tempestade de neve. O mercador podia ouvir o distante uivar dos lobos, que se sobrepunha ao uivo do vento. Ele e o seu cavalo continuaram a esforçar-se. Estava ansioso, enregelado e – o pior de tudo – perdido.
Por fim, chegaram a um lugar onde as árvores formavam uma alameda, como se indicassem o caminho para alguma mansão. Foi por aí que o mercador guiou o cavalo. À medida que cavalgava pela alameda, a neve parou de cair e o vento cortante deixou de soprar. O sol apareceu, os pássaros começaram a cantar e as flores a abrir. Para sua surpresa, o mercador passou do Inverno para o pico do Verão.
Ao chegar ao fim da alameda, deparou com uma mansão tão magnífica que parecia um palácio. Cavalgou até ao princípio dos degraus de ágata que subiam até altas portas incrustadas a ouro. Desmontou, subiu os degraus e bateu nas portas. Ninguém o veio receber, mas as grandes portas abriram-se de par em par, como se lhe dessem as boas-vindas. No interior, viu um enorme vestíbulo, com chão e paredes de mármore, esplendidamente mobilado, mas sem sinais de vida.
— Não está ninguém em casa? — perguntou o mercador. Mas apenas lhe respondeu um eco: “Ninguém em casa… ninguém em casa…”
— Posso entrar? — perguntou ele, e mais uma vez o eco lhe respondeu: “Entrar… entrar…”
O mercador olhou para trás, para o seu cavalo: já estava a afastar-se em direcção aos estábulos, para encontrar comida e água e para descansar. Assim, o mercador passou arrojadamente pelas portas abertas e entrou no grande e esplêndido vestíbulo vazio, onde apenas existia o eco. Havia portas a toda a volta e, à medida que se aproximava de cada uma, esta abria- se. Entrou numa sala com uma excelente mesa posta para uma pessoa. Sentou-se e, imediatamente, apareceram à sua frente deliciosos manjares e bebidas. Esticou-se para pegar no garfo e na faca e logo estes saltaram para as suas mãos.
Depois de ter terminado o jantar, o mercador foi deitar-se na cama confortável e limpa que o esperava. De manhã, descobriu que as suas velhas e manchadas roupas de viagem tinham desaparecido e, no seu lugar, esperavam-no roupas novas da melhor qualidade. Vestiu-as e assentavam-lhe como uma luva.
Nessa altura, fez o caminho inverso através do grande vestíbulo que ecoava, passou através das portas incrustadas a ouro e desceu os degraus de ágata. Lá estava o seu cavalo à espera.
O mercador estava prestes a montar e a ir-se embora, quando se lembrou de que não tinha visto os jardins deste lugar encantado. Então, começou a passear nos jardins – atravessando veredas e relvados, passando através de arcos frondosos, até que, finalmente, chegou a uma vereda no fim da qual havia uma fonte com um grande repuxo de água brilhante. Para lá da fonte, havia um caramanchão de rosas, cujo odor enchia o ar.
A visão e o odor das rosas lembraram ao mercador a promessa que tinha feito a Bela. Esticou-se para apanhar uma rosa e, ao fazê-lo, ouviu-se um estremecer e um restolhar e, de entre os canteiros de rosas, surgiu um enorme Monstro, como o mercador jamais havia visto. Tinha olhos coruscantes, presas ferozes, garras ameaçadoras e pêlo áspero. E rugiu-lhe assim:
— Malvada criatura, quem te deu autorização para apanhares as minhas rosas?
O mercador estava mudo de temor.
O Monstro disse: — Ontem à noite foste meu convidado e concedi-te todos os teus desejos. Agora, esta manhã, roubas-me a única coisa que amo: as minhas rosas?
O mercador conseguiu murmurar: — Senhor, queria apenas levar uma rosa para uma das minhas filhas.
O Monstro disse: — Então tens filhas – filhas que te amam? Muito bem. Podes levar a rosa para casa. Tens de a dar àquela das tuas filhas que te amar o suficiente para voltar para aqui e viver comigo. E, se nenhuma delas gostar de ti o suficiente e não tiver coragem de vir para aqui, podes ter a certeza de que não irás escapar-me: morrerás. Agora vai!
Ainda com a rosa na mão, o mercador fugiu a correr para o cavalo que o esperava e, atirando-se para cima dele, começou a cavalgar apressadamente, cheio de medo. Não fazia ideia de qual era o caminho para casa, mas o cavalo, de sua livre vontade, levou-o até lá.
Quando chegou a casa, o mercador contou às suas filhas o que tinha acontecido à carga desaparecida e à fortuna perdida, e falou-lhes também do palácio encantado, do Monstro e das rosas do Monstro. As suas filhas mais velhas ficaram furiosas, porque o único presente que tinha trazido com ele era uma rosa para Bela. Começaram a discutir sobre qual das duas deveria ficar com ela. Mas, quando perceberam que quem ficasse com a rosa teria de voltar para ao pé do Monstro, nenhuma quis ficar com ela, nem mesmo para salvar a vida do pai.
Então, Bela pegou na rosa e disse que iria. Mas o pai não consentiu que o fizesse, embora temesse pela sua própria vida. Bela não discutiu, mas, a meio da noite, quando todos os outros dormiam, foi silenciosamente até aos estábulos, até junto do cavalo de seu pai. Montou-o e sussurrou-lhe ao ouvido: — Tenho a certeza de que és um cavalo esperto, que percebe tudo e que não se esquece de nada. Por favor, leva-me até ao palácio do Monstro.
O cavalo partiu imediatamente com ela.
Bela chegou ao palácio encantado antes do nascer do dia. Todas as janelas do palácio estavam brilhantemente iluminadas, como para celebrar a sua chegada. Subiu os degraus de ágata, passou pelas portas incrustadas a ouro e entrou no grande vestíbulo. Tal como o pai tinha contado, todas as portas se abriram à sua frente. Numa das salas encontrou uma mesa posta. Sentou-se à mesa, e deliciosos manjares e bebidas apareceram à sua frente; o garfo e a faca saltaram-lhe para as mãos.
Enquanto ainda estava a comer, todo o palácio começou a tremer, como se fosse atingido por trovões: o Monstro estava a chegar. Bela não fugiu nem se escondeu, mas estava com tanto medo que, quando a porta se abriu, fez uma vénia até ao chão para evitar ver o Monstro à sua frente.
O Monstro falou com uma forte voz de trovão, mas não foi indelicado. — Bela — disse ele — não tens de me fazer vénias, pois aqui és rainha e senhora. Este palácio e estes jardins, e todos os encantos que encerram, estão às tuas ordens. O meu único desejo é que sejas feliz neste sítio.
Ao ouvir isto, Bela levantou os olhos para ele. Embora o Monstro fosse exactamente como o seu pai tinha descrito, percebeu que ele já não estava zangado.
O Monstro disse: — Tenho uma pergunta para te fazer, Bela. É a única coisa que te perguntarei: Poderás amar-me?
— Infelizmente, pobre Monstro! — disse Bela, pois já estava com pena dele.
— Como poderei algum dia amar alguém como tu?
Ao ouvi-la, o Monstro deu um enorme suspiro e afastou-se tristemente. No dia seguinte, veio ter com Bela à mesma hora e com a mesma pergunta e Bela deu-lhe a mesma resposta; e todos os dias seguintes aconteceu o mesmo.
Entretanto, a vida de Bela no palácio encantado e nos seus jardins era plena de encantos, tal como o Monstro havia prometido. Adorava música, e instrumentos invisíveis tocavam aquilo de que mais gostava. Adorava animais, e pequenos gatinhos persas com pêlo sedoso brincavam aos seus pés, e pequenos cãezinhos corriam à sua frente para onde quer que fosse. Nos jardins, o odor das flores invadia o ar dos sítios por onde passeava, sobretudo o odor das rosas. O canto das cotovias junto da sua janela acordava-a todas as manhãs e, à noite, adormecia ao som do canto do rouxinol.
Bela poderia ter sido feliz, mas estava sempre a pensar no pai. Sabia que ele devia estar a sofrer por ela, pensando que estava morta. E, assim, pediu ao Monstro se podia ir a casa.
— Apenas por três noites — disse ela. — Apenas o tempo suficiente para tranquilizar o meu pai. Depois voltarei para junto de ti.
O Monstro deu um grande suspiro. — Podes ir, Bela — disse ele. — Mas lembra-te de que me sentirei sozinho sem ti. Se ficares longe de mim mais do que três noites, começarei a morrer de solidão.
Depois, deu-lhe um anel mágico e disse-lhe para o pôr ao lado da sua cama antes de adormecer. De manhã, acordaria no lugar em que quisesse estar.
Bela fez o que o Monstro lhe tinha dito e, na manhã seguinte, acordou no seu próprio quarto, em casa do seu pai.
O mercador ficou louco de felicidade ao ver novamente a filha, viva e com saúde, e com bonitas histórias do palácio encantado do Monstro e dos seus encantos. As duas irmãs mais velhas ficaram cheias de inveja e maldade. Conseguiram convencer Bela a ficar mais uma noite do que tinha prometido, dizendo-lhe que o pai precisava muito dela.
Nessa quarta noite, Bela adormeceu e começou imediatamente a sonhar com o Monstro. Ouviu a sua voz, cheia de tristeza: — Não voltaste para junto de mim, Bela, e estou a morrer de solidão.
Imediatamente, e ainda meio adormecida, Bela levantou-se da cama e pegou no anel mágico, colocou-o ao lado da cama e voltou novamente a dormir. Desta vez, acordou no palácio do Monstro, tal como tinha desejado.
Começou logo a procurar o Monstro, chamando-o pelo nome onde quer que fosse. Não o encontrou em lado nenhum. Correu do palácio para os jardins, entre as veredas e os relvados, continuando a chamá-lo. Por fim, chegou a uma vereda no fim da qual havia uma fonte com um grande repuxo de água brilhante e, para lá dela, havia um caramanchão de rosas.
Neste caramanchão, viu o Monstro deitado. Correu e ajoelhou-se ao seu lado. Ele apenas conseguiu murmurar: — Bela, estou a morrer…
— Não! — gritou ela. — Querido Monstro, não podes morrer, pois agora sei que te amo.
Ao ouvir as suas palavras, o Monstro começou a transformar-se num belo e jovem Príncipe.
O Príncipe pegou na mão de Bela e falou-lhe. Tinha uma voz gentil e terna, mas grave, como a voz do próprio Monstro ouvida no sonho. Contou-lhe que, há muito tempo, uma fada má o tinha transformado de Príncipe em Monstro, condenando-o a ficar assim até que alguém o amasse apenas por aquilo que era.
— E tu vieste, Bela — disse o Príncipe — e quebraste o feitiço malvado. Agora amas- me, Bela, e eu amo-te desde que te vi pela primeira vez. Vamos casar-nos imediatamente.
E assim o fizeram, festejando com as mais maravilhosas cerimónias. As irmãs mais velhas de Bela não foram convidadas para o casamento. No entanto, o pai esteve presente e chorou de alegria ao ver a felicidade da filha. E Bela e o Príncipe viveram felizes para sempre.

Clássicos dos Contos de Fadas
Porto, Ed. AMBAR, 1996

 

  • Bela é uma jovem de coração sincero. As irmãs são muito diferentes. Invejosas e mesquinhas, ficam irritadas com a felicidade da Bela e procuram prejudicá-la. O que pensas da atitude dela?
  • Imagina como se terão sentido ao saberem do casamento da irmã com o príncipe, e escreve um pequeno diálogo entre ambas a esse respeito.
  • Conheces um outro conto em que a heroína também tenha sido vítima da inveja de duas irmãs? Queres resumi-lo?

O Flautista de Hamelin – conto com sugestão de actividades

O Flautista de Hamelin

Nunca ouviram, certamente, falar de Hamelin. Não admira. Este nome, de facto, só é conhecido por aqueles que já sabem a lenda do flautista mágico. E como só agora iniciaste a leitura desta história, suponho que o nome «Hamelin» não te diga nada. Por isso, escuta com atenção.
Hamelin é uma cidade. Não tão grande como a vizinha Hanôver. No entanto, é um pouco maior do que uma aldeia. Possui uma bela muralha sobre a qual trepa a hera viçosa, uma catedral com altos pináculos de pedra trabalhada com grande pormenor, e um magnífico palácio municipal, também chamado «o palácio do relógio», porque, bem no centro da sua fachada, se pode admirar um enorme relógio redondo, cujos ponteiros e números são de ouro puro.
A sul da cidade, passa um rio com uma corrente serena e majestosa: o Veser, nas margens do qual os cidadãos costumam passear nos dias de festa, entre altíssimos choupos.
Querem um sítio mais agradável do que este para viver?
No entanto, quando esta história começa – há mais de seis séculos – os habitantes de Hamelin estavam desesperados. E porquê? A resposta é esta: porque a cidade tinha sido invadida pelos ratos.
Os ratos desde sempre lá tinham estado e sempre lá haveriam de estar. Enchiam as caves, os esgotos e os subterrâneos. Mas, como tinham o bom gosto de se manter escondidos, não se dava pela sua presença. E que diriam vocês se, de repente, os ratos – ratos grandes, ratos de esgoto e ratos do campo, ratos cinzentos e ratos de água, em suma, todos os ratos possíveis e imaginários – se fartassem de estar escondidos e, esfomeados, viessem ao ataque? Foi o que aconteceu em Hamelin. Os ratos encheram-se de ousadia, saíram dos seus escuros esconderijos e invadiram tudo. Assaltavam os cães e matavam os gatos, entravam nos berços e mordiam as crianças, comiam o queijo dos caldeirões onde estava o coalho, lambiam a sopa nas conchas das cozinhas, abriam os barris dos arenques salgados e faziam ninhos nos chapéus. A cidade fora invadida por um estranho ruído que cobria qualquer outro som. As paredes das casas vibravam desde os alicerces e, em toda a sua área, tremiam. Era uma mistura de apitos agudos, de guinchos, de chamamentos. Um roçar, um espernear, um ranger contínuo que fazia dores de cabeça.
Ao fim de uma semana, as pessoas já não podiam mais. Os valentes habitantes de Hamelin, impacientes, começaram a dizer:
— Mas, afinal, por que é que a Câmara Municipal não intervém? Eh! Bonito serviço! Temos um presidente da Câmara preguiçoso, uma assembleia que dá vontade de rir. E pensar que viajam com fatos forrados de arminho, que comem e bebem à nossa conta. Agora basta!
E dirigiram-se em conjunto ao palácio do município. Sim, aquele mesmo, o do relógio.
Era dia de sessão. Na sala do Conselho não faltava ninguém: nem o presidente da Câmara – um tipo pequeno mas gordíssimo, com a pele de tal forma esticada que parecia poder rebentar de um momento para o outro, e com uns grandes olhos de carneiro mal morto, sobre os quais as pálpebras caíam como os estores de uma loja à hora de fechar – nem os membros da assembleia. Estes últimos tinham o mesmo aspecto bem alimentado do presidente, o mesmo ar meio adormecido de quem engana, de quem vê as moscas a voar, de quem coça a barriga das pernas, de quem faz desenhos na acta da assembleia. Em suma, um triste espectáculo.
— Parece que estou a ouvir qualquer coisa… um ruído… um barulho na praça…
— disse o presidente.
Levantou-se pesadamente do seu cadeirão e abriu uma das janelas da sala. Melhor seria que o não tivesse feito. Mal assomou à janela, vieram da multidão, não apenas assobios, vaias, ofensas e pragas, como também uma intensa chuvada de frutos, de ovos estragados, de hortaliças. Um verdadeiro dilúvio!
— Basta, velhos gordalhaços! — ouvia-se gritar. — Têm de encontrar uma solução. Pensam que os elegemos para mandriarem de manhã à noite? Arranjem uma solução ou, então, expulsá-los-emos daí!
Aterrado com aquela espécie de revolução, o presidente fechou a porta o mais rápido que lhe foi possível, mas não o suficiente para evitar que um chorrilho de maçãs podres se fosse esborrachar nos bancos dos conselheiros.
— Ai de mim, senhores! — exclamou, então, o gordo homenzinho. — Era capaz de vender este uniforme por dez tostões, acreditem! Ah! Se eu pudesse estar a milhas daqui! «Digam, façam…» É fácil ordenar a uma pessoa que puxe pela cabeça. Mas o que havemos de inventar agora? Tenho uma enorme dor de cabeça… E depois… E depois é quase meio-dia, já estou a sentir um bocadinho de fome. E agora, senhores?
Naquele preciso instante ouviu-se um estranho rumor, proveniente da porta da entrada. Parecia um esfregar contínuo e abafado.
— Quem é? Serão os ratos? Quem quer que seja, entre!
A porta entreabriu-se e, na sala do Conselho, entrou a personagem mais extraordinária que já se viu em Hamelin desde o ano da sua fundação. Vestia um manto longuíssimo, dividido em dois, metade amarelo e metade vermelho. A sua estatura era alta, magra e seca. Tinha os olhos azuis e penetrantes como alfinetes, a cabeleira longa e fina, vermelho-escura. No seu rosto, sem barba nem bigode, exibia um estranho sorriso.
— Por Deus! — exclamou um conselheiro. — Mas quem é este? Um bobo que escapou da feira de Hanôver?
— A mim — acrescentou um outro — lembra-me a figura que fará o meu bisavô João Joaquim quando, no dia do juízo, ressuscitar do seu túmulo frio.
O homem dirigiu-se lentamente para as cadeiras do Conselho e disse:
— Que vossas Excelências se dignem escutar-me. O acaso quis que eu fosse dotado de um poder mágico. Por esse meio posso atrair todas as criaturas que existem na terra. E quando digo «todas», são mesmo todas: todos os seres que rastejam, que voam, que nadam e que correm, das toupeiras aos sapos, dos leitões às víboras. As pessoas chamam-me «o Flautista Mágico»…
Chegado a este ponto, o estranho indivíduo deteve-se por um instante, virando o seu olhar para os conselheiros. Sentindo mal-estar sob aquele olhar penetrante, que parecia atravessar-lhes os corpos maciços, os conselheiros baixaram as cabeças para verem o que o flautista trazia pendurado numa faixa amarela e vermelha, tal como o manto: uma flauta, longa e fina. As mãos do dono, também elas longas e finas, acariciavam-na com gestos ágeis e nervosos. Enquanto percorriam os furos do instrumento, os dedos pareciam impacientes por lhe arrebatarem, quem sabe, uma melodia extraordinária…
O flautista continuou:
— Neste mês de Junho, na Tartária, libertei o Grande Khan do enorme enxame de moscas que incomodava a população. Libertei a região de Nizam, na Índia, de um terrível bando de vampiros. E no ano passado, o califa de Bagdade, vendo o seu reino devastado por uma praga de gafanhotos, mandou-me chamar. Agora, se quiserem, vão até lá e vejam se encontram um gafanhoto, num raio de cem milhas! Naturalmente — recomeçou depois de uma breve pausa — cada coisa tem o seu preço. Se eu libertar a vossa cidade dos ratos dão-me, digamos, mil florins de ouro?
— Só mil? Mas cinquenta mil é quanto te daremos, sim, cinquenta mil! — exclamou o presidente com entusiasmo.
— Cinquenta mil, cinquenta mil! — disseram também os conselheiros.
Sem acrescentar palavra, o flautista deu meia volta e saiu para a praça. Erguendo a flauta, franziu os lábios, como fazem os músicos virtuosos. No seu olhar penetrante brilhava uma chama, ora esverdeada, ora azulada, da cor do fogo quando se lhe deita um punhado de sal. E, antes que o instrumento tivesse entoado três notas, ao longe começou a ouvir-se um murmúrio, como se um exército marchasse a grande distância. Depois, o ribombar transformou-se num estrondo poderoso, que sacudia as casas e as estradas.
Os ratos! Os ratos saíam! Ratos grandes, ratinhos minúsculos, ratos magros como anchovas, ratos robustos como porcos, ratos castanhos, ratos pretos, ratos cinzentos, ratos ruivos, ratos pomposos marchando compassadamente… ratos jovens e vivos, pais, mães, tios, primos… abanavam os rabos, endireitavam os bigodes e marchavam. Vinham em famílias, em grupos, em pelotões, em multidões, em exércitos.
E todos seguiam o flautista.
O homem avançava de rua em rua sem se voltar para trás, absorto na sua música. E os ratos, atrás, correndo, dançando, arrastando-se uns aos outros. Quando, enfim, o flautista saiu pela porta sul, estava a poucos passos do rio Veser, e aí ficou parado, mas a enorme multidão que o seguia, não. Era um espectáculo extraordinário ver aquela quantidade enorme de ratos a precipitar-se, de mergulho, no rio. A corrente do Veser fervilhava de patas, de rabos, de bigodes, de dorsos. Em poucos minutos, em Hamelin não havia nem um daqueles invasores!
O que é que tinha acontecido exactamente? Parecia que o único a escapar daquela matança, um gordo rato de água, contou, mais tarde, a alguns amigos seus de Hanôver, onde se tinha refugiado:
— As primeiras notas da flauta pareciam o rumor de um saboroso osso de porco a ser raspado. Logo de seguida, o de maçãs maduras, postas sobre a prensa para se fazer sidra; depois, um chiar como o das tinas de picles a abrirem-se, como um armário cheio de marmelada a entreabrir-se ou como o de rolhas de garrafões de óleo quando são destapados. Parecia que uma voz celestial me dizia: «Regozijem-se, bons ratos! Ruminem, trinquem, roam, devorem! Eis tudo junto e de uma só vez: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar!» E quando estava a ver-me diante de um barril de açúcar branco, cujo conteúdo brilhava como a lua cheia, dei comigo, de repente, nas profundas águas do Veser a fazer tudo para não me afogar.
Mas voltemos a Hamelin. Os habitantes da cidade pareciam loucos: riam, dançavam, saltavam. Alguns precipitaram-se para o campanário e começaram a tocar o sino para a festa, outros abriram pipas da melhor cerveja e brindaram com canecas que, de tão grandes, pareciam baldes. Enfim, uma alegria nunca antes vista! E o presidente? Ora, o gordalhão preguiçoso comandava e fazia alarido:
— Vamos! — gritava. — Ponham tábuas a tapar os ninhos! Fechem até o buraco mais pequeno. Que dos ratos não fique nem o rasto!
De repente, eis que o flautista aparece na praça do mercado. Aproximou-se do presidente e dos seus conselheiros e disse:
— Sim, sim, está tudo bem, mas primeiro, por favor, eu queria os meus mil florins…
— Mil florins?
O presidente perdeu as boas cores que tinha, empalideceu, e os conselheiros, de repente silenciosos, olhavam fixamente para ele, como se o flautista não existisse. Haviam de pagar mil florins àquele vagabundo do manto vermelho e amarelo, quando o vinho do Reno custava esse dinheiro? Que restaria para os senhores da assembleia poderem festejar condignamente o acontecimento?
— Bom homem — disse, por fim, o presidente — a praga dos ratos é agora só uma recordação. Os ratos nunca mais hão-de voltar. Claro que queremos recompensar-te. Mas, mil florins! Repara que era uma brincadeira. Portanto, toma estes cinquenta florins, bebe à nossa saúde e vai com Deus!
A cara do flautista ficou negra como o carvão. E disse:
— Não foi brincadeira nenhuma, caros senhores! À hora das refeições sou hóspede do califa de Bagdade. Ele sim, é uma pessoa reconhecida, e não tenho um minuto a perder. Avarentos e ingratos como são, não esperem que lhes faça um desconto. E lembrem-se: quem se comporta comigo deste modo, arrisca-se a que eu comece a tocar a flauta com intenções bem diferentes.
— Como!? — gritou o presidente. — Como te atreves, seu vadio horroroso? Quem és tu? Pensas que impressionas alguém, com essa flauta inútil e esse fato de bobo? Vá, vá, toca a tua bela flauta até ela se partir .
Sem acrescentar uma palavra, o flautista voltou-se, colocando, de novo, a sua flauta nos lábios. Começou a caminhar e, antes que tivesse entoado três notas, três notas apenas, um alegre murmúrio percorreu a cidade de Hamelin. Eram pezinhos que avançavam velozes, tamancos que ressoavam no empedrado, mãos que aplaudiam, vozes de crianças que falavam alegremente. Todos os meninos e meninas da cidade, de faces rosadas, olhos cintilantes e dentes brancos como pérolas, seguiam em bando, rindo alegremente, a música do flautista.
Ao ver isto, o presidente emudeceu e os membros da assembleia ficaram quietos de espanto, imóveis como pedras. Entretanto, o flautista percorreu a rua principal e encaminhou-se para o Weser, levando atrás de si todas as crianças de Hamelin. E já as pessoas choravam e arrancavam os cabelos, acreditando que os filhos teriam o mesmo fim que os ratos encantados, quando o homem vestido de amarelo e vermelho mudou de rumo, para oeste, em direcção à colina de Koppelberg, que domina a cidade.
Então, todos soltaram um suspiro de alívio:
— Vai parar, vão ver! — diziam. — Não pode escalar o Koppelberg…
Mas eis que, chegado ao sopé do monte, o alegre cortejo parou um instante. Um enorme portal se abriu de par em par, na base da colina, engolindo o flautista e o seu séquito e fechando- se quando a última criança o atravessou.
Dissemos «a última»? Não, desculpem, enganámo-nos. Uma daquelas crianças ficou para trás. Regressou à cidade a chorar e disse à mãe que a abraçava:
— Ah! O que eu perdi! Olha, o flautista estava a levar-nos para o País da Felicidade. Lá as águas jorram límpidas, as flores têm cores maravilhosas, os pardais são mais sarapintados do que os pavões, as abelhas não têm ferrão, os cavalos têm asas. Ai de mim! Como sou infeliz!
Ouvindo aquelas palavras, muitos se lembraram das palavras de Jesus: É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos Céus. Todos se arrependeram da avareza que tinham mostrado. O presidente enviou mensageiros para Norte e para Sul, para Oriente e para Ocidente, mas em vão. Nunca mais se encontrou o rasto, nem do flautista, nem das crianças de Hamelin. E, a partir daquele dia, em memória do terrível acontecimento, nos documentos oficiais de Hamelin, depois da data, pôde ler-se: Mas recordamos tudo o que aconteceu no dia vinte e dois de Julho de 1376. E não só. Em frente ao local onde se abrira o portal mágico, o município mandou erigir uma coluna, e quem hoje visita a catedral de Hamelin pode ver nos seus vitrais a história do flautista mágico.
Mas, afinal, o que é que aconteceu às crianças encantadas? Não se sabe. Porém, não podemos deixar de dizer que, nos montes da Transilvânia, existe uma aldeia de estrangeiros. São altos, louros e corados. Os seus vizinhos contam que os seus antepassados eram provenientes de uma cidade longínqua chamada Hamelin, perto de Hanôver. Mas não sabem explicar como e por que é que chegaram ali, à remota Transilvânia…
Talvez haja, nesta história, qualquer coisa para aprender. A minha opinião é que devemos pagar as nossas dívidas a todos, especialmente ao flautista. E, se alguém tocar flauta para nos libertar dos ratos, depois de lhe termos prometido alguma coisa, é conveniente mantermos a palavra dada.

Robert Browning
Os mais belos contos do mundo
Porto, Livraria Civilização, 1994

 

  • Os dirigentes da cidade achavam-se pessoas muito importantes. No entanto, não sabiam governar nem se preocupavam com os cidadãos; além disso, tinham vários defeitos. Queres indicá-los?
  • E tu, achas que tens algum desses defeitos?
  • Recordas-te de teres, alguma vez, faltado à tua palavra?
  • Por momentos, fecha os olhos… e tenta descrever o que vês no País da Felicidade.

Nuvem Azul – Conto do povo Kwakiutl (índio América do norte americano)

Nuvem Azul

Conto do povo Kwakiutl (ou Kwakwaka’wakw)

Foi no Inverno. A rapariga tinha quinze invernos de idade e a mãe disse-lhe:

— Em breve serás uma mulher. Diz-me, quando sentires alguma coisa fora do normal.

A mãe construiu, afastada da aldeia, uma pequena cabana para a filha que tinha de ficar ali sozinha. Durante dois dias e duas noites não deveria comer nem beber, e nem sequer poderia derreter neve para beber a água.

Ao fim do segundo dia, a mãe veio à cabana e verificou que a rapariga tinha feito tudo o que lhe dissera. A mãe não trouxera comida nem água e disse:

— Minha filha, tu és a única filha que me restou. Os teus irmãos, há muito que estão a viver no País das Almas e só tu estás ainda comigo. Faz tudo para que o Grande Espírito seja misericordioso para connosco. Tens de jejuar ainda alguns dias. Mais dois sóis, e estarei de volta para ver se seguiste as minhas ordens.

A mãe deixou a rapariga, que obedeceu às suas ordens. Nada comeu nem derreteu neve para acalmar a sede, mas saiu para a floresta, tirou a casca das árvores e com elas fez uma manta para afastar o frio.

Passados os dois dias, a mãe regressou. Trazia um vaso onde derreteu neve. A rapariga bebeu até à última gota e pediu mais, mas a mãe recusou, dizendo-lhe:

— Filha, seguiste as minhas ordens. Os espíritos vão falar contigo. Terás sonhos que hão-de mostrar-te o caminho.

A mãe saiu, deixando, uma vez mais, a jovem sozinha. Durante a noite, esta ouviu uma voz que gritou:
— Segue-me!

A rapariga deixou o seu duro leito e saiu da cabana para a noite luminosa. À sua frente estendia-se um caminho brilhante como prata, que conduzia ao céu, e seguiu por ele. De um lado encontrava-se a lua, clara e resplandecente, do outro, o sol com o seu brilho flamejante. A rapariga viu a imagem da Mulher Eterna enquanto alguém lhe declarava:

— Vais ter uma longa vida. Terás a força de prolongar a vida dos outros.

A rapariga prosseguiu e chegou junto de um homem que tinha uns cornos na cabeça.

— Eu sou Manitu Wininis — disse. — Dá este nome ao teu primeiro filho.

A jovem continuou a subir o caminho resplandecente e chegou à abertura do céu. Aí estava um ser com a cabeça envolta de raios de sol e o peito enfeitado com jóias extraordinárias.

— Não tenhas medo — disse. — Eu sou Nuvem Azul, o véu que está às portas do céu. Chegaste até aqui e quero tornar-te sábia e forte, mas com a condição de passares a minha prova.

Mal tinha acabado de falar, começaram a chover do céu agulhas afiadas de cor azul, que passavam pelo corpo da rapariga e caíam ao chão, sem que ela sentisse qualquer dor. Seguiram-se pequenos picos aguçados, mas voltou a não sentir dor alguma.

— Está bem! — exclamou Nuvem Azul. — Vou conceder-te uma vida longa. Regressa à tua cabana e ganha forças. Sobe para as costas deste peixe, que te levará a casa sã e salva.

Um peixe imponente apareceu a voar pelo céu. A rapariga sentou-se nas suas costas fortes e ele levou-a de volta à terra.

Na manhã seguinte, a mãe veio à cabana. Trazia um peixe mas a rapariga não quis comer. Durante todo o dia ficou deitada no seu leito, fraca e cansada, revivendo o que acontecera na noite anterior. Quando, no dia seguinte, a mãe regressou, a rapariga contou-lhe o que lhe tinha sucedido. A mãe ficou feliz.

— Os deuses falaram contigo — disse.

A rapariga permaneceu mais três dias na cabana sem comer nem beber coisa alguma. A certa altura, viu uma figura pequena descer do céu, que lhe comunicou:

— Tu vais ter força, vais poder ver o que os outros não vêem, e, com isso, ajudar a tua tribo — e a figura transformou-se num pássaro que voou para o céu.

A jovem tornou-se vidente. Tinha terminado o jejum. A mãe foi buscá-la e deu uma grande festa na aldeia.

A jovem passou a ver e a saber coisas que os outros não viam e desconheciam. Quando, de uma vez, a sua tribo, desesperada e com fome porque não aparecia nenhum animal, acampou num grande lago e o chefe lhe pediu que indicasse o caminho a seguir, ela soube aconselhá-lo. Mandou os homens erguerem uma grande cabana e enfeitá-la. Todos se reuniram na sua tenda e ela bateu no tambor, cantou canções e deitou-se no chão. Escutou o interior da terra e ouviu os espíritos. Perguntou-lhes em que direcção a tribo devia seguir para encontrar animais selvagens.

Os espíritos responderam-lhe e indicaram o caminho. Mandaram-na seguir para oeste e, de facto, encontraram animais em abundância.

A rapariga tornou-se curandeira e teve uma longa vida, tal como Mulher-Eterna e Nuvem-Azul haviam profetizado.

Gabriele Dietz (org.)
Sternenmädchen
Berlin, Elefanten Press, 1995
Tradução e adaptação

Tentando alcançar a lua – conto tibetano

Tentando alcançar a lua

(conto tibetano)

Uma noite, o Rei dos Macacos reparou numa gloriosa lua dourada que repousava no fundo de uma lagoa. Não se apercebendo de que se tratava apenas de um reflexo, o Rei chamou os seus súbditos para que lhe fossem buscar aquele tesouro não reclamado.

— O nosso macaco mais forte agarra-se a esta árvore — ordenou o Rei. — E o nosso segundo macaco mais forte agarra-se à mão dele, tenta alcançar a água e pega na lua dourada.

Assim fizeram. Mas o segundo macaco não conseguia alcançar a lua.

— Quem é o nosso terceiro macaco mais forte? Agarra-te à mão do teu irmão e vai buscar a lua.

Mas a lua continuava fora do alcance deles.

— Tragam o quarto macaco mais forte. Que desça até junto da lagoa e tente a sua sorte.

Os macacos formavam agora uma cadeia, cada um pendurado no braço do outro. O quarto macaco usou os braços deles como escada e ficou pendurado na mão do terceiro macaco… mas a lua continuava fora do seu alcance. E assim continuaram… cinco… seis… sete… oito… macaco após macaco, até que o último conseguia tocar já na superfície da água.

— Estamos quase a conseguir! — gritaram os macacos.

— Deixem-me ser o primeiro a agarrá-la! — gritou o Rei, que se lançou cadeia abaixo.

Mas o peso de toda esta loucura tinha-se tornado demasiado para as forças do macaco mais forte, que continuava agarrado ao topo da árvore. Quando o Rei ia a tocar a água para pegar na lua, o macaco mais forte largou o tronco. Um a um, caíram todos na lagoa e afogaram-se, juntamente com o Rei.

Aquele que segue um líder insensato é ele próprio um tolo.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Um homem sem cabeça – conto argelino

Um homem sem cabeça

(conto argelino)

Esta é a aventura do famoso Jouha. Na Argélia chamam-lhe Jha, ou então, Ben Sakrane. Mais a leste, conhecem-no como Nasredin Hodja. Na realidade, trata-se de Till Eulenspiegel ou de Jean le Sot; o louco que vende a sua sabedoria, aquele que zurra como um burro para ser ouvido, e que às vezes é dono de uma esperteza imbatível.

Um dia, Jha encontrou alguns amigos prontos para combater. Tinham escudos, lanças, arcos e aljavas cheias de setas.

— Onde vão nesses preparos? — perguntou-lhes.

— Não sabes que somos soldados profissionais? Vamos tomar parte numa batalha, que promete ser dura!

— Óptimo, eis uma oportunidade para ver o que acontece nessas coisas de que ouvi falar mas que nunca vi com os meus próprios olhos. Deixem-me ir convosco, só desta vez!

— Está bem! És bem-vindo!

E lá foi ele com o pelotão que se ia juntar ao exército no campo de batalha.

A primeira seta acertou-lhe em cheio na testa!

Depressa! Um cirurgião! O médico chegou, examinou o ferido, meneou a cabeça e declarou:

— A ferida é profunda. Vai ser fácil remover a seta. Mas, se tiver a mais ínfima parte de cérebro agarrada, está perdido!

O ferido agarrou na mão do médico e beijou-a, exprimindo a sua “profunda gratidão para com o Mestre”, e declarou:

— Doutor, pode remover a seta sem medo; não vai encontrar nela a mais ínfima parte de cérebro.

— Esteja calado! — disse o médico. — Deixe os especialistas tratarem de si! Como sabe que a seta não atingiu o seu cérebro?

— Sei-o bem demais — disse Jha. — Se eu tivesse a mais pequena partícula de cérebro, nunca teria vindo com os meus amigos.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Força – conto da África Ocidental

Força

(conto da África Ocidental)

Os animais decidiram fazer um concurso para ver qual deles era o mais forte. A ideia do concurso foi do Elefante.

— Encontramo-nos todos na quarta-feira. Veremos quem tem FORÇA.

O primeiro a chegar foi o Chimpanzé, que chegou aos saltos.

— Força! Eu tenho força. Vejam só estes BRAÇOS! Esperem só até verem a minha força!

O Chimpanzé sentou-se. Chegou o Veado.

— Força! Olhem para estas PERNAS! Tenho tanta força!

O Veado sentou-se. A seguir veio o Leopardo. Mostrava as garras e rugia.

— Força! Olhem para estas GARRAS! Eu tenho força!

O Leopardo sentou-se. Depois veio o Bode, que baixou os seus chifres fortes.

— Força! Vejam estes CHIFRES! Isto é força.

O Bode sentou-se. Chegou o Elefante. Caminhava muito devagar.

— El…e…fante…significa força.

O Elefante sentou-se. Esperaram e voltaram a esperar. Faltava mais um animal. Finalmente o Homem chegou, a correr.

— Força! Força!

O Homem exibia os seus músculos.

— Eis-me aqui! Podemos começar!

O Homem tinha trazido a sua espingarda para a floresta e tinha-a escondido nos arbustos. Era por isso que estava atrasado. O Elefante encarregou-se de dar início ao concurso.

— Agora que o Homem chegou, podemos começar. Chimpanzé, mostra-nos a tua força!

O Chimpanzé deu um pulo. Correu para uma pequena árvore e trepou-a. Dobrou-a e deu-lhe um nó. Desceu da árvore e disse:

— Então? Isto não é força?

Os animais exultaram.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

Depois acalmaram.

— Bem…Chimpanzé. Senta-te. O próximo!

O Veado pôs-se de pé com um salto. Correu três quilómetros em direcção à floresta. Correu outros três quilómetros de volta. Nem sequer estava ofegante. Vangloriou-se:

— Vejam só! Se isto não é força…

Os animais concordaram.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem…Veado. Senta-te. O próximo!

O Leopardo pôs-se de pé e esticou as garras enormes. Começou a esgravatar a terra. Scrung…scrung…scrung…scrung… Como o pó voava! Os animais saltaram para trás. Estavam assustados. O Leopardo perguntou:

— Aaaah! Isto é força ou não é?

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem… Leopardo. Senta-te. O próximo!

O Bode era o seguinte. Baixou os chifres enormes. Havia por ali um campo de canas e o Bode começou a escavar o campo. Shuuu…shuuu…shuuu…shuuu… Os chifres fizeram uma estrada através do campo. O Bode voltou-se. E escavou outra estrada até ao lugar onde estavam os animais. Depois perguntou:

— Não é força, isto?

Os animais ficaram impressionados.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem… Bode. Senta-te. A seguir?

A seguir vinha o Elefante. Havia muitas árvores em redor que cresciam bem juntas. O Elefante encostou o seu ombro enorme de encontro às árvores. E eennhh…eeennhh… eeennhh…kangplong! As árvores caíram todas. O Elefante exclamou:

— Que tal? Isto não é força?

Os animais ficaram impressionados.

— Força! Força! Força! Força! Isso é que é força!

— Bem… Elefante. Senta-te. O próximo!

Era a vez do Homem. O Homem correu para o meio do círculo. Começou a rodopiar. Deu saltos mortais. Fez a roda. Fez o pino. Volteou em redor deles sem cessar. Depois parou e perguntou:

— Força! Força! Isto não é força?

Os animais entreolharam-se.

— Bem… foi excitante.

— Mas era força, aquilo?

— Nem por isso…

— Só sabes fazer isso?

O Homem sentiu-se insultado.

— Muito bem, então vejam isto!

O Homem subiu a uma palmeira. Tão depressa! Tão depressa! Atirou cocos da palmeira. Desceu da árvore. Perguntou de novo:

— Força! Força! Isto não é força?

Os animais olharam para ele.

— Chamarias àquilo força?

— Só subiu a uma árvore.

— Isso não é bem força.

— Há mais alguma coisa…?

O Homem estava zangado.

— Força? Eu mostro-vos o que é FORÇA!

O Homem correu para o arbusto. Agarrou na arma. Correu de novo para junto deles. O Homem apontou a arma ao Elefante. Ting… Puxou o gatilho. Kangalang! O Elefante tombou. Estava morto. Morto. O Homem dava pulos e gabava-se:

— Força! Força! Isto não é FORÇA?

O Homem olhou em redor. Os animais tinham ido embora. Tinham fugido para a floresta.

— Força!…

Não havia ninguém para o ouvir gabar-se. O Homem estava sozinho. Na floresta, os animais juntaram-se a um canto para trocar impressões.

— Viste aquilo?

— Era força aquilo?

— Chamarias àquilo força?

— Não. Aquilo era MORTE.

— Aquilo era MORTE.

A partir desse dia, os animais não voltaram a caminhar com o Homem. Quando o Homem entra na floresta, tem de caminhar sozinho. Os animais ainda falam do Homem… Da criatura Homem… O Homem é aquele que não conhece a diferença entre força e morte.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Quem luta perde sempre – conto indiano

Quem luta perde sempre

(conto indiano)

Um chacal recém-casado vivia perto da margem de um rio. Um dia, a esposa pediu-lhe uma refeição de peixe. O chacal prometeu trazer-lha, embora não soubesse nadar. Aproximou-se do rio com todas as cautelas e viu duas lontras a lutarem com um peixe enorme que tinham apanhado. Depois de matarem o peixe, começaram a lutar para dividir o peixe entre ambas.

— Eu vi-o primeiro, por isso a parte maior pertence-me! — disse uma delas.

— Mas ias-te afogando a pescá-lo e eu salvei-te — contrapôs a outra.

Continuaram a lutar até que o chacal se aproximou delas e se ofereceu para ajudar a regular a disputa. As lontras concordaram em acatar a decisão que ele tomasse. O animal cortou o peixe em três pedaços. A uma das lontras deu a cabeça e à outra deu a cauda.

— A parte do meio é para o juiz — declarou.

Afastou-se dali todo contente e disse para consigo:

— Quem luta perde sempre.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Duas cabras numa ponte – conto russo

Duas cabras numa ponte

(conto russo)

Uma ponte estreita ligava duas montanhas. Em cada uma das montanhas vivia uma cabra. Dias havia em que a cabra da montanha ocidental atravessava a ponte para ir pastar na montanha oriental. Dias havia em que a cabra da montanha oriental atravessava a ponte para ir pastar na montanha ocidental. Mas, um dia, as cabras começaram a atravessar a ponte ao mesmo tempo.

Encontraram-se no meio da ponte. Nenhuma queria ceder passagem à outra.

— Sai da frente! — gritou a Cabra Ocidental. — Estou a atravessar a ponte.

— Sai tu da frente! — berrou a Cabra Oriental. — Quem está a atravessar sou eu!

Como nenhuma delas queria recuar e nenhuma delas podia avançar, ali ficaram, enfurecidas, durante algum tempo. Finalmente, entrelaçaram os chifres e começaram a empurrar. Eram tão semelhantes em força que apenas conseguiram empurrar-se uma à outra da ponte abaixo. Molhadas e furiosas, saíram do rio e subiram a encosta, a caminho de casa, cada uma murmurando para si: “Vejam só o que a teimosia dela provocou.”

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 200

O cão preto – conto indiano

O cão preto

(conto indiano)

Shakra, rei dos deuses, ergueu-se do seu trono dourado e observou a Terra com atenção. Havia oceanos reluzentes e nuvens como pérolas, montanhas com cumes de neve e continentes de muitas cores. Embora tudo fosse belo, Shakra sentiu uma certa apreensão.

Os seus sentidos luminosos expandiram-se pelos céus. Sentiu o calor da guerra. Ouviu o balir dos vitelos, o ladrar dos cães, o grasnar dos corvos. Ouviu crianças a chorarem e vozes a gritarem de raiva. Ouviu o choro dos esfomeados, dos sós, dos pobres. As lágrimas rolaram-lhe pela cara abaixo e caíram sobre a terra como aguaceiros de meteoros.

— É preciso fazer alguma coisa! — disse Shakra.

Metamorfoseou-se num guarda-florestal e levou consigo um grande arco em osso. A seu lado caminhava um grande cão preto. O pelo do cão era emaranhado, os olhos brilhavam como fogo incandescente, os dentes mais pareciam presas, e a boca e língua pendente eram da cor do sangue.

Shakra e o cão deram um salto e mergulharam em direcção à Terra por entre as estrelas brilhantes. Por fim, aterraram mesmo ao lado de uma cidade esplêndida.

— Quem és tu, forasteiro? — perguntou, admirado, um soldado, do alto das muralhas da cidade.

— Sou estrangeiro nestas paragens e este — disse, apontando o animal com um gesto — é o meu cão.

O cão preto abriu as mandíbulas. O soldado que estava de guarda às muralhas ficou aterrado. Foi como se estivesse a olhar para um enorme caldeirão de fogo e de sangue. A garganta do cão emanava fumo. As mandíbulas do cão abriram-se ainda mais e mais…

— Fechem os portões! — ordenou o soldado. — Fechem-nos imediatamente!

Mas Shakra e o cão conseguiram saltar os portões cerrados. Os habitantes da cidade fugiram em todas as direcções, como se fossem marés a subir ao longo de uma praia. O cão foi no seu encalço, juntando as pessoas como se fossem um rebanho de ovelhas. Homens, mulheres e crianças gritavam, aterrorizados.

— Parem! — gritou Shakra. — Não se mexam!

As pessoas imobilizaram-se.

— O meu cão tem fome. O meu cão tem de ser alimentado.

O rei da cidade, a tremer de medo, ordenou:

— Rápido! Tragam comida para o cão! Imediatamente!

Em breve, carroças chegavam ao mercado carregadas de carne, pão, milho, frutos e cereais. O cão engoliu tudo de uma só vez.

— O meu cão precisa de mais comida! — exclamou Shakra.

As carroças voltaram de novo, carregadas. E o cão voltou a devorar tudo de uma assentada. Depois soltou um grito de angústia, um grito que parecia emanar das profundezas do Inferno.

As pessoas caíram por terra e taparam os ouvidos, aterradas. Shakra, o forasteiro, fez soar a corda do seu arco, que fez um ruído semelhante ao ribombar do trovão numa noite de tempestade.

— O meu cão ainda tem fome! — Dêem-lhe de comer!

O rei contorceu as mãos e pôs-se a chorar.

— Já lhe demos tudo o que tínhamos. Não temos mais!

— Sendo assim, o meu cão alimentar-se-á de pastos e montanhas, de pássaros e animais ferozes. Devorará as rochas e mastigará o sol e a lua. O meu cão alimentar-se-á de vós!

— Não! — gritaram as pessoas. — Tem misericórdia de nós! Rogamos-te que nos poupes! Poupa o nosso mundo!

— Então acabem com a guerra — disse Shakra. Alimentem os pobres. Cuidem dos doentes, dos sem-abrigo, dos órfãos, dos velhos. Ensinem a bondade e a coragem às vossas crianças. Respeitem a terra e todas as suas criaturas. Só assim açaimarei o meu cão.

Shakra transformou-se num gigante, resplandecente de luz. Ele e o cão deram um salto e, numa espiral de fumo, subiram cada vez mais alto.

Lá em baixo, nas ruas da cidade, homens e mulheres olhavam o céu consternados. Estenderam as mãos uns para os outros e prometeram mudar as suas vidas, fazer o que o forasteiro lhes tinha ordenado que fizessem.

Bem lá de cima, Shakra sorriu no seu trono dourado, ao olhar para a terra. Limpou a testa com um braço resplandecente. As inúmeras estrelas cintilavam, fulgentes, e a escuridão dormitava entre elas, tal como um cão junto de uma fogueira.

Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

A Árvore – Sophia de Mello Breyner

A Árvore

Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.

Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.

Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.

E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.

Assim foi durante várias gerações.

Mas, com o passar do tempo, surgiu um problema terrível, e por mais que todos meditassem e discutissem, ninguém era capaz de arranjar uma boa solução.

Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, durante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra.

De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol.

E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar húmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada.

E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação.

As pessoas gemiam:

— Que havemos de fazer? Que havemos de fazer?

* * *

Até que foi decidido a população reunir-se toda em conselho para examinar bem o problema e decidir o remédio que devia dar-lhe.

Discutiram durante muitos dias e, depois de todos terem falado, chegou-se à triste conclusão de que era preciso cortar a árvore.

Houve choros, lamentações, gemidos.

A árvore era bela, antiga e venerável. Fazê-la desaparecer era um acto que não só entristecia os habitantes da ilha mas que também os assustava.

Mas não havia outro remédio e quase todos acabaram por concordar com o corte.

No lugar onde antes ela se erguia, plantaram um pequeno bosque de cerejeiras, pois as cerejeiras nunca crescem muito.

* * *

Abater a árvore foi difícil e toda a gente teve de ajudar.

Mas, depois de cortada, ela ocupava tanto espaço que a ilha ficou quase sem lugar para mais nada. Por isso começaram a desfazê-la: primeiro cortaram os ramos e as pernadas e a sua madeira foi distribuída entre todos, para que cada um pudesse fabricar alguma coisa que lhe lembrasse a árvore tão amada.

Alguns fabricaram pequenas mesas, outros, varandas para as suas casas, outros, caixilhos para os biombos, outros, caixas, tabuleiros, tigelas, colheres, pentes e ganchos para as mulheres espetarem no cabelo.

No fim ficou só o enorme e grosso tronco nu, deitado através da ilha.

Então começaram a chegar viajantes e armadores que queriam aquela óptima madeira para fabricar barcos.

Mas a população não quis. Reuniram todos outra vez em conselho e decretaram:

— Os habitantes desta ilha não querem separar-se da sua árvore que, antes de crescer demais, lhes deu tanta alegria. Vamos nós próprios construir o nosso barco.

E assim foi. Depois da chuva do Outono, deixaram o tronco secar durante longos meses e, logo que viram que a madeira já estava bem seca, meteram mãos à obra.

E, como são um povo muito inteligente, os japoneses, que trabalham muito bem, muito depressa, com muito esmero e são óptimos carpinteiros, construíram rapidamente uma grande e linda barca toda esculpida e pintada de muitas cores.

Então houve uma grande festa e a barca foi lançada ao mar.

À noite houve fogo de vista e em todas as ruas e praças se acenderam balões de papel, azuis, amarelos e vermelhos.

* * *

D’aí em diante a vida do povo daquela terra passou a ter uma vida muito mais animada e variada e quase todos se tornaram muito mais ricos.

Antes, como a ilha era tão pequena, os seus habitantes só possuíam pequenos barcos de pesca e só podiam navegar até às ilhas vizinhas.

Quando alguém precisava de ir mais longe tinha que arranjar um lugar em certos barcos maiores que de vez em quando por ali passavam.

Agora tudo tinha mudado. Agora, graças à grande barca, navegavam constantemente de ilha em ilha davam grandes passeios pelo mar e faziam óptimos negócios.

Às vezes nas noites calmas de Verão ou de Outono grupos de pessoas embarcavam e iam até ao largo ver a lua cheia sobre o mar. Ou então rondavam a ilha junto à costa, até ao extremo sul, para irem ali admirar os recortes negros dos rochedos sobre a claridade clara e azulada do luar.

Depois, no Inverno seguinte comentavam estes passeios, comparavam tudo o que tinham visto, discutiam qual fora a mais bela noite, a mais bela paisagem.

* * *

Entretanto, à medida que o tempo ia passando, as cerejeiras que tinham plantado iam crescendo e embelezando.

Por isso a gente da ilha passou a celebrar, todos os anos, a festa da cerejeira em flor.

Quando acabava o Inverno e começava a surgir a Primavera tudo se animava.

Os pedreiros, os tanoeiros e os carpinteiros vinham trabalhar para o ar livre e riam e cantavam enquanto esculpiam, serravam, martelavam.

Havia grande azáfama e pelas ruas passavam pessoas muito apressadas: iam a correr às lojas de tecidos comprar kimonos de Primavera para vestirem quando chegasse o dia em que já pudessem ir admirar o primeiro desabrochar das flores.

E nas ruas, nos jardins, nos campos, os marmeleiros, as macieiras, as cerejeiras já estavam carregadas de botões fechados.

No centro da povoação aparecia então o macaco amestrado, vestido com um casaquinho azul e acompanhado pelo seu dono. E em redor juntavam-se as crianças e adultos para admirarem as habilidades do animal sábio.

E as crianças ficavam mudas de espanto quando aparecia um grande leão de papel que vinha pela rua fora num andar baloiçado, acompanhado por dois homens vestidos com kimonos amarelos. Passavam por todas as ruas e por fim paravam debaixo dos ramos das cerejeiras.

Então os homens do kimono amarelo começavam a rufar os tambores e o leão começava a dançar. E um dos homens cantava:

Já dança o leão
Debaixo da cerejeira
Ao som dos tambores
O seu bailar faz abrir
Mais depressa as flores

E, no dia seguinte, nos ramos das cerejeiras, as pequenas flores cor de rosa estavam todas abertas.

* * *

Assim, durante muitos anos, a vida naquela ilha correu com muita alegria e animação.

Mas apesar dessa alegria, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios, todos se lembravam com saudade da velha árvore.

— Como era alta e bela! — diziam.

— Como a sua sombra era perfumada!

— Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas!

— Como a sua copa era redonda e bem formada!

— Como as suas folhas eram verdes e bem desenhadas!

— Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos, nas manhãs de Verão!

E, assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida.

* * *

E os anos foram passando.

Até que os marinheiros e os calafates descobriram que estava a acontecer uma grande desgraça:

A madeira da quilha da grande barca tinha começado a apodrecer.

— Ai de nós! — choravam os habitantes. — Não vamos dar mais passeios pelo mar. Nas noites de lua cheia, não vamos visitar mais as outras ilhas, não vamos fazer mais negócios.

Mas os comerciantes sossegaram-nos.

— Durante estes anos — disseram eles — graças à nossa grande barca, andámos a navegar de ilha em ilha, de porto em porto, a comprar e a vender, e fizemos negócios tão bons que juntamos muito dinheiro. Por isso, como aqui não há outra árvore enorme, e as árvores que agora temos fazem muita falta se forem cortadas, estamos dispostos a ir às outras ilhas comprar boa madeira. E todos juntos podemos construir outra grande barca.

A população aplaudiu o discurso e concordou com o projecto e daí a poucos meses a barca nova ficou pronta e logo a puseram a flutuar.

Então, a barca velha foi arrastada para a praia. O povo cercou-a em silêncio com grande tristeza, e os carpinteiros e os calafates examinaram-na tábua por tábua.

A madeira do casco, do convés e dos bancos estava quase toda semi-apodrecida e só servia para queimar. Mas o mastro grande, que tinha sido tirado do cerne da velha árvore, continuava são e bem conservado.

— Temos que fazer com este mastro alguma coisa que nos lembre a nossa árvore antiga e a nossa barca — disse o chefe da ilha.

Depois de muito pensar resolveram fazer uma biwa, que é uma espécie de guitarra japonesa.

Quando a obra ficou pronta, a população reuniu-se na praça principal e sentaram-se em silêncio em redor do melhor músico da ilha para ouvirem o som da biwa.

Mas, mal os dedos do músico fizeram soar as cordas, de dentro da biwa ergueu-se uma voz que cantou:

A árvore antiga
Que cantou na brisa
Tornou-se cantiga

Então, todos compreenderam que a memória da árvore nunca mais se perderia, nunca mais deixaria de os proteger, porque os poemas passam de geração em geração e são fiéis ao seu povo.

Sophia de Mello Breyner Andresen
A Árvore
Porto, Liv. Figueirinhas, 1987

As asas são para voar – Jorge Bucay

As asas são para voar

Naquele dia, o Jorge esperava-me com um conto na ponta da língua.

 

Quando se tornou maior de idade, o pai disse-lhe:

— Meu filho: nem todos nascemos com asas. Embora seja verdade que não tens obrigação de voar, creio que seria uma pena limitares-te a caminhar, tendo as asas que o bom Deus te concedeu.

— Mas eu não sei voar — respondeu o filho.

— É verdade… — disse o pai. E, caminhando, levou-o até à beira de um precipício.

— Vês, filho? Este é o vazio. Quando quiseres voar, vens até aqui, apanhas ar, saltas para o abismo e, abrindo as asas, voarás.

O filho hesitou.

— E se cair?

— Se caíres, não morrerás. Ficarás apenas com algumas nódoas negras, que te tornarão mais forte para a tentativa seguinte — replicou o pai.

O filho voltou para a aldeia, para junto dos seus amigos e companheiros, com os quais caminhara toda a sua vida. Os de vistas mais estreitas, disseram:

— Estás louco? Para quê? O teu pai enlouqueceu… Para que é que precisas de voar? Deixa-te de disparates! Quem é que precisa de voar?

Os melhores amigos aconselharam:

— E se for verdade? Não será perigoso? Porque não começas aos pouquinhos? Experimenta atirar-te do alto de uma escadaria ou da copa de uma árvore. Mas… do cimo de um precipício?

O jovem escutou o conselho dos seus amigos queridos. Subiu à copa de uma árvore e, enchendo-se de coragem, saltou. Abriu as asas, adejou-as em pleno ar, com todas as suas forças, mas infelizmente despenhou-se.

Com um grande galo na testa, cruzou-se com o seu pai.

— Mentiste-me! Não consigo voar. Experimentei e olha para o galo com que fiquei! Não sou como tu. As minhas asas só servem para decoração.

— Meu filho — disse o pai —, para voar é preciso criar espaço livre para que as asas se possam abrir. É como atirar-se de pára-quedas: precisas de uma certa altura antes de saltar.

 

 

«Para voar, é preciso começar por correr riscos.» Se não quiseres, será porventura melhor resignares-te e continuares a caminhar para sempre.

Jorge Bucay
Deixa-me que te conte
Cascais, Ed. Pergaminho, 2004

Publicado em Sem categoria | Etiquetas

A resiliência infantil

 

Já todos nos questionámos como é possível que existam crianças que apesar de terem passado pelas maiores dificuldades ao longo da vida se transformam em adultos equilibrados e saudáveis, enquanto outros qualquer acontecimento um pouco menos vulgar os destrói emocionalmente. A essa capacidade chama-se resiliência. A palavra surge do latim resilientia e é habitualmente utilizada em Física de Materiais, para designar a “resistência do material a choques elevados e a capacidade de uma estrutura para absorver a energia cinética do meio sem se modificar”.

O termo foi adoptado pelas Ciências Sociais para caracterizar as pessoas que conseguem resistir e ultrapassar as adversidades apesar de estarem expostas a ambientes adversos. Ser resiliente implica ter conseguido desenvolver capacidades físicas ou fisiológicas que conduziram aparentemente a uma certa imunidade às adversidades.

 Diversos estudos mostram que existe uma estreita relação entre a resiliência e dois outros aspectos: a criatividade e o ambiente familiar, principalmente em pessoas com uma infância marcada pelo sofrimento.

Parece ser nesta infância dolorosa que mais tarde descobrem a inspiração que os leva a dedicarem-se às artes e à escrita de romances ou de relatos autobiográficos. Toda essa criatividade tem por base as feridas da infância já saradas.

De facto, há uma marcada necessidade, por parte de crianças que foram maltratadas pela vida, de divulgarem a sua história em obras autobiográficas e em muitas outras formas de arte, transformando o sofrimento no seu oposto, como se quisessem mostrar ao mundo que foram suficientemente fortes para o ultrapassar.

Não existe uma fórmula mágica para nos transformarmos em resilientes. No entanto, ao longo dos últimos anos, os investigadores têm-se desdobrado em esforços para tentar chegar a conclusões acerca dos factores que devem ser desenvolvidos em cada um de nós. Destaca-se, desde logo, o aumento da auto-estima e do auto-conceito. Termos plena consciência das nossas capacidades e acreditarmos nelas será uma importante base para o sucesso, seja em que área for.

Outro aspecto diz respeito à rede social que nos rodeia. Uma criança, ou mesmo um adulto, que vivam socialmente isolados não terão tantas possibilidades de enfrentar positivamente as dificuldades que lhes surjam.

Por fim, outro dos factores fundamentais diz respeito à capacidade de se descobrir o sentido da própria vida. Saber para onde caminhamos dá-nos um rumo e ajuda-nos a desenvolver a criatividade, de forma a encontrarmos meios de lá chegarmos.

 

Características

As pessoas que possuem uma maior capacidade para a resiliência têm características comuns: inteligência, capacidade de reflexão, autonomia, capacidade de relacionamento e de iniciativa, humor, criatividade, sentido ético, entre outras. No entanto, para que uma criança cresça e se desenvolva como resiliente necessita de ter figuras parentais que sejam modelos valorizados de identidade.

A expressão ARTÍSTICA foi usada por muitos ao longo da História corno forma de encarar os dramas é dificuldades da vida. A arte favorece a resiliência. A pintora mexicana Frida Kahlo é disso um exemplo.

 

Um exemplo de resiliência

O clássico conto do Polegarzinho Polegarzinho pode ser considerado uma metáfora da resiliência infantil, já que põe em acção uma criança que, por detrás de uma aparente fragilidade, consegue ultrapassar com êxito as dificuldades da vida. A história conta que um casal de lenhadores tinha sete filhos e um deles, por ser muito pequeno, era conhecido como Polegarzinho. Muito pobres, os lenhadores deixaram deter possibilidades de alimentar os filhos e resolveram abandoná-los na floresta. É a partir daqui que começa a ser posta à prova a capacidade desta criança de superar as adversidades, e após várias peripécias, que incluem vencer um ogre, o Polegarzinho acaba por se transformar num grande mensageiro, o que lhe permite, enriquecer e ajudar a sua família e as pessoas mais pobres da sua região.

Os contos infantis mostram à criança como ultrapassar dificuldades e incutem-lhe esperança e coragem, na medida em que mostram exemplos de outras crianças que estiveram igualmente em situações difíceis e conseguiram superá-las.

Chama-se resiliência à capacidade para vencer na vida apesar das adversidades.

 

Texto: Teresa Paula Marques, psicóloga clínica/psicoterapeuta
In Certa – nº 135; 4-16 de Novembro 2008
excertos adaptados

Júlia e as luzes da vida

Júlia e as luzes da vida

— Avó?

Júlia abre devagarinho a porta do quarto da avó. Já é meio-dia e a avó ainda está na cama. Nem sequer abriu as cortinas. Júlia entra no quarto em bicos de pés. A avó está com os olhos fechados. A cabeça escorregou um pouco para o lado como se tivesse torcido o pescoço. Júlia nunca tinha vindo da escola e encontrado a avó a dormir!

— Avó, porque é que não dizes nada?

Júlia assusta-se com a sua voz no quarto silencioso e mergulhado na penumbra.

— Avó, não estás doente, pois não?

Mas a avó não responde.

De repente, Júlia sente medo, medo de que alguma coisa horrível tenha acontecido à avó. Corre para a sala e disca o número de telefone da mãe.

— Júlia? Já sabes que não deves telefonar-me para o escritório!

A voz da mãe soa impaciente e irritada.

— Sim — Júlia engole em seco. — É por causa da avó — diz muito baixinho. — Ela está na cama e não responde.

— A avó ainda está na cama? E não responde?

A mãe respira rápido e com força.

— Espera, eu vou para casa! — diz, e desliga.

Júlia fica sentada na sala. Não se atreve a ir outra vez junto da avó adormecida, que está tão diferente, tão estranha. E sente uma saudade muito grande da avó, com os olhos a piscar afavelmente por detrás dos óculos, e com a barriga redonda, contra a qual Júlia tanto gostava de se encostar.

Assim que ouve os passos da mãe, levanta-se de um salto, mais aliviada.

— Mamã!

Júlia quer abraçá-la mas a mãe afasta-a e corre para o quarto da avó. Depois é tudo muito rápido, como num sonho mau. A mãe telefona para o hospital, uma ambulância chega e dois homens vestidos de branco levam a avó. A mãe também vai e Júlia fica sozinha.

Quando a mãe regressa, já está escuro lá fora. Pendura o casaco no bengaleiro e senta-se à mesa da cozinha. Parece estar com a cara pálida e cansada.

— Agora tens de ser muito forte, Júlia — diz ela.

Júlia não percebe o que ela está a dizer.

— E a avó? — pergunta. — O que se passa com ela?

— A avó adormeceu para sempre — responde a mãe.

— Não é verdade! — exclama Júlia.

— É, Júlia — diz a mãe. — A avó nunca mais vai poder regressar.

— Não acredito! — grita Júlia.

— A avó já era velha — diz a mãe. — No próximo ano ia fazer setenta anos.

— A avó não era velha… para mim, não.

Saltam-lhe lágrimas dos olhos e rolam-lhe pela face.

— E o coração da avó também já estava velho — continua a mãe. — Já não trabalhava muito bem e agora parou. Como um relógio que parou.

— Não, não, não!

Júlia tapa os ouvidos.

Não é possível que a avó esteja morta! A avó não pode estar morta. Olha por entre as lágrimas para a mãe. Porque é que ela está tão calma? Porque é que não está a chorar? Não gostava da avó?

— Júlia! — diz-lhe a mãe. — A vida continua. E acredita no que te digo: não vais ficar sempre triste.

— Vou! — grita ela. — Sempre!

A mãe suspira.

— Júlia, tudo isto também não é nada fácil para mim. Não piores ainda mais as coisas.

Levanta-se e deixa a cozinha.

Júlia ouve a porta do quarto de banho bater atrás da mãe, depois a água corre durante muito tempo. Quando sai do quarto de banho, a mãe tem o mesmo aspecto de sempre. Escovou os cabelos, a pele brilha, rosada e até sorri um pouco.

— Vou fazer agora alguma coisa para comermos — diz. — De certeza que estás com fome.

— Fome? — Júlia abana com a cabeça. — Não!

A mãe tira farinha e ovos do armário e começa a fazer uma massa. Já não estará a pensar no que aconteceu à avó?

Os olhos de Júlia voltam a encher-se de lágrimas.

“Avó!”, soluça ela e corre para o quarto. Atira-se a chorar para cima da cama e esconde a cara na almofada. A mãe devia vir agora consolá-la, como a avó sempre costumava fazer! Mas a mãe não vem e Júlia acaba por adormecer.

Dois dias mais tarde, tem lugar o enterro da avó. Júlia queria ir ao cemitério. Gostava de ver o caixão e a sepultura onde a avó vai ser enterrada ao lado do avô, mas a mãe não deixa.

— Um enterro é uma coisa muito, muito triste — diz. — Demasiado triste para uma criança.

“Mas o que é que ela percebe de estar triste?”, pensa Júlia. Nem no enterro a mãe chora. Parece só muito pálida e magra com o fato preto, as meias de vidro e os sapatos pretos. E está cansada, muito mais cansada do que de costume. Deita-se imediatamente no sofá e sacode as perguntas de Júlia com um seco “Agora não, Júlia, por favor!”

Na manhã seguinte, a mãe não tem tempo nenhum para Júlia. Tem de estar no escritório mais cedo do que o costume, porque a espera um trabalho urgente.

— O teu pequeno-almoço está em cima da mesa. Promete-me que comes alguma coisa! — diz ela da porta.

Júlia promete. Mas quando se vê sozinha em frente do prato com as sandes, não consegue comer nada. Vai ao quarto da avó. Tudo parece triste e abandonado: a cama por usar, a cadeira vazia, o robe da avó no armário, dependurado numa cruzeta.

— Avó! — diz baixinho.

Se a avó aqui estivesse…

Mas Júlia podia ir visitar a campa da avó!

Apressa-se a ir buscar o casaco e põe-se a caminho.

A porta do cemitério não está trancada. Júlia abre-a e entra. Como tudo, de repente, ficou silencioso! E ninguém está ali, só ela. Sente-se um pouco perdida.

Além, junto do salgueiro grande, está a lápide do avô. Júlia pára em frente do pequeno monte ao lado da lápide do avô. É por debaixo daquele monte, por debaixo de todas aquelas flores e coroas que a avó está agora?

Júlia não acredita. Mas lá está o nome da avó na fita presa à coroa.

PARA A QUERIDA AVÓ, COMO ÚLTIMA LEMBRANÇA DA JÚLIA, lê ela num dos laços.

Foi a mãe que fez isto? Para a avó como última lembrança…

As lágrimas vêm-lhe aos olhos.

— Avó, porque estás tão longe? — soluça ela. — Volta! Eu gosto tanto de ti!

As folhas do salgueiro sussurram levemente. Júlia levanta a cabeça. Um sopro de vento acaricia-lhe a face – muito suavemente. A avó acariciava-a sempre assim!

— Avó, estás aqui? — pergunta.

As folhas voltam a sussurrar, baixinho e misteriosamente, como se tivessem uma mensagem para Júlia.

Em seguida, os ramos afastam-se e aparece uma figura. É uma criança com uma cara pálida, quase transparente.

— Quem és tu? — pergunta Júlia.

A criança sorri e começa a sussurrar uma melodia. É a melodia da caixa de música da avó!

— Conheces a minha avó? — a voz de Júlia treme.

— Sim — responde ela. — E vim até aqui porque quero ajudar-te.

— Ajudar-me? — pergunta Júlia.

— Eu sei que perdeste a tua avó — responde a criança. — Mas se quiseres muito, posso mostrar-te que, apesar disso, ela ainda está contigo.

— Oh, sim! — exclama Júlia.

— Então fecha os olhos!

Júlia fecha os olhos e ouve uma música suave: a melodia da avó.

— Abre agora os olhos — diz a criança.

Júlia pestaneja. Tudo ficou diferente. O céu tornou-se negro e, à sua frente, está um lago onde ardem inúmeras velas. As velas bóiam na água como ilhas de cera branca.

— Onde é que eu estou? — pergunta.

— Estás no Lago das Luzes da Vida — responde a criança.

— E a avó? Onde é que está a avó?

— Aqui só está a sua luz da vida — diz a criança.

Entra para um barco que está na margem do lago e faz sinal a Júlia.

— Anda!

Júlia segue-a, hesitante.

O barco desliza pelo lago, junto às velas, sem lhes tocar. Júlia olha em volta admirada. Algumas das velas bóiam na água sozinhas, outras estão todas juntas. E todas têm tamanhos diferentes: algumas parecem acabadas de acender, outras já arderam muito e outras já estão apagadas.

— Cada luz é a vida de uma pessoa — diz a criança. — Quando uma pessoa morre, a sua luz também morre.

— Então, todas as velas que já não estão a arder são… pessoas que morreram? — pergunta Júlia.

— Sim — responde a criança.

— E a luz da avó?

— Também já não está a arder.

O barco continua a vogar.

Júlia quase não se atreve a respirar com medo de apagar uma das luzes da vida.

— As chamas não se apagam — diz a criança suavemente.

— Apagam! — exclama Júlia. — Uma acabou agora mesmo de se apagar!

— Sim, mas não foi por nossa causa.

— Então ela não se apagou porque… a pessoa morreu?

— Sim.

— E as outras luzes que estão a tremer… Essas pessoas também vão morrer?

— Talvez sim, talvez não — responde a criança. — Quando uma pessoa adoece gravemente ou quando tem muitas aflições… então a sua luz começa a tremer.

— A luz da avó também tremeu?

— Sim. E até a tua!

— A minha luz também?

— Sim, ora olha: ainda está a tremer!

O barco pára.

— Como é que tu sabes qual é a minha luz? — pergunta Júlia.

— É a minha tarefa — responde a criança.

Aponta para uma ilha com quatro velas.

— Aquela ilha além é a tua ilha da vida. E a luz que está a tremer é a tua luz da vida.
Júlia sente um calafrio.

Na ilha, só há uma vela a arder calmamente e com força. Duas já se apagaram e a maior, a luz da vida de Júlia, tremula como numa corrente de ar.

— Está a tremer desde que a luz da vida da tua avó se extinguiu — diz a criança.

— É porque estou tão triste! — responde Júlia com a voz a tremer. — Porque tenho tantas saudades da avó!

— Mas a tua avó ainda está à tua beira — diz a criança. — A luz da vida dela ainda está ao lado da tua na ilha da vida.

— Avó! — murmura Júlia.

— Enquanto a amares, a sua luz da vida nunca se vai afundar — diz a criança.

— Afundar? — pergunta Júlia, assustada.

— Sim. Quando não houver ninguém que ame a tua avó… a luz da vida dela vai para o fundo do lago.

— Mas eu continuo a gostar da avó! — exclama Júlia.

— Eu sei — diz a criança. — Só porque gostas dela de todo o coração é que tive autorização para trazer-te até aqui e mostrar-te a ilha da vida e as luzes da vida.

— E a avó? — diz Júlia. — Levas-me até ela?

— Ainda não — responde a criança.

— Porque não?

— Só posso fazer isso quando a tua luz da vida também se tiver apagado.

— Então tu és… a morte? — pergunta Júlia.

— Tenho muitos nomes — diz a criança.

— Mas és uma criança!

— Apareço aos homens sob muitas formas.

Olha para Júlia e sorri.

— Não preciso de ter nenhum medo de ti! — diz Júlia.

Calam-se as duas por um momento.

— Ora olha! — diz a criança. — A tua luz da vida já não está a tremer!

E é verdade: a luz de Júlia arde calma e claramente como a da mãe. Júlia olha para as chamas.

De repente, começa a soar uma música. É a música da caixinha da avó.

— Agora fecha os olhos — disse a criança.

Júlia fecha os olhos. A música vai soando cada vez mais baixinho até que pára.

Volta a abrir os olhos. Está sozinha.

As flores e as coroas na campa cheiram bem – um cheiro doce e pesado, como o perfume da avó.

— Agora sei que continuas ao meu lado — diz Júlia baixinho.

Depois volta-se e vai embora.

Angela Sommer-Bodenburg
Julia bei den Lebenslichtern
München, C. Bertelsmann, 1989
Tradução e adaptação

A história da árvore do Paraíso

A história da árvore do Paraíso

No início do mundo, o Grande Criador plantou um jardim.

Inúmeras plantas formosas cresciam em cada um dos seus diferentes campos.

Havia jardins de florestas, completamente cobertos de musgo verde e campainhas ondulantes, que acenavam timidamente ao vento. Pequenos seres povoavam estes jardins, farejando e sussurrando a toda a hora.

Havia jardins de pradarias cheios de ervas oscilantes, que os animais percorriam com passadas graciosas.

Havia também jardins subaquáticos, para os seres do mar profundo. Tinham folhas roçagantes, arrastadas pelas correntes, e misteriosas flores de pétalas trémulas.

Os mais belos de todos eram os jardins de árvores. Eram tão altas que tocavam o céu. Nessas árvores, os pássaros todos faziam os seus ninhos. Os ramos, cheios de folhas, enchiam-se de trilos e chilreios, de gorjeios e assobios, de melodias trinadas, que caíam em sonora cascata para deleite do mundo.

O Grande Criador pediu aos homens que tomassem conta do mundo e construíssem para si próprios casas simples e seguras, num dos jardins de que gostassem.

Mas o tempo foi passando e as pessoas tornaram-se cada vez mais ambiciosas…

— Vamos construir CASAS MAIORES! — disseram. — Há materiais de construção em abundância para usarmos como quisermos.

Em breve começaram a construir palácios.

Cada novo edifício era mais alto do que o anterior e os palácios eram feitos cada vez com mais magnificência.

As suas salas às centenas estavam cheias de todo o tipo de luxos… mas a ambição das pessoas não conhecia limites.

Os jardins do mundo foram caindo em ruínas, cada um deles imagem da mais desoladora devastação.

Todas as árvores tinham sido abatidas.

Os pássaros agitavam-se tristemente no chão frio, tentando, com desespero, construir novos ninhos.

As suas canções foram silenciadas.

Então, do alto do seu palácio, uma criança olhou para o mundo devastado e chorou.

— Desce à terra — sussurrou-lhe, por entre o vento, a voz do Criador. — Lá encontrarás uma semente, que deves semear num local onde possa crescer em segurança.

A correr, a criança desceu as escadas em caracol da torre do palácio.

Pousada na terra, estava uma semente castanha, enrugada, feia.

A criança pegou na semente com delicadeza.

— Onde poderei semeá-la em segurança? — perguntou-se.

Foi caminhando, caminhando, até que chegou a uma vala na qual uma lama escura corria lentamente e alguns juncos baloiçavam no vento frio.

— Coloca-a aqui, onde nunca ninguém vem! — parecia sussurrar o vento.

E foi ali que a menina enterrou a semente.

Devagar, em silêncio e completamente invisível, a semente começou a germinar.

Cresceu e fez-se uma árvore forte. Sob os seus ramos, outros jardins começaram a florescer. Em breve, as criaturas reuniram-se à sua volta.

A árvore cresceu mais alto do que todos os palácios. Os pássaros voavam por entre os seus ramos e aí construíam os ninhos.

Cresceu tanto, que chegou ao Paraíso. E quem assim o desejasse, poderia subir pelos seus ramos até ao Jardim do Paraíso do Grande Criador.

Tradução e adaptação

Mary Joslin
The tale of the heaven tree
Oxford, Lion Publishing, 2001

A Bomba e o General

A Bomba e o General

Era uma vez um átomo.

E era uma vez um general mau com uma farda cheia de galardões.

O mundo está cheio de átomos.

Tudo é feito de átomos: os átomos são pequeníssimos e, quando se juntam, formam moléculas que, por sua vez, formam todas as coisas que conhecemos.

A mãe e o pai são feitos de átomos. O leite é feito de átomos. A mulher é feita de átomos. O ar é feito de átomos. O fogo é feito de átomos. Nós somos feitos de átomos. – Oh, se não tivéssemos deixado que os generais construíssem bombas! – diziam.

Só que era demasiado tarde. Todos fugiam das cidades. Mas onde podiam refugiar-se?

Entretanto, o general tinha carregado as suas bombas num avião e estava a lançá-las uma a uma sobre todas as cidades. Mas, quando as bombas caíram, como estavam todas vazias, não rebentaram!

E toda a gente, feliz por ter passado o perigo (até parecia mentira!), as usou como vasos de flores.

Descobriram assim que a vida era mais bela sem bombas. E decidiram nunca mais fazer guerras.

Os átomos encerrados nas bombas estavam muito tristes. Por causa deles, ia haver uma enorme catástrofe: iam morrer tantos meninos, tantas mães, tantos gatinhos, tantas cabrinhas, tantos passarinhos, todos, afinal. Seriam destruídos países inteiros: onde antes havia casinhas brancas de telhados vermelhos e verdes árvores à volta… só ficaria um horrível buraco negro. E assim resolveram revoltar-se contra o general.

E uma noite, sem fazer barulho, saíram todos das bombas e esconderam-se na cave.

Na manhã seguinte, o general foi ao sótão com outros senhores.

Estes senhores disseram:

– Já gastámos um dinheirão para fazer estas bombas todas. Quer deixá-las aqui a ganhar bolor? O que pretende fazer, afinal?

– É verdade – respondeu o general. – Temos mesmo de começar esta guerra. Se não, nunca mais consigo fazer carreira.

E declarou guerra.

Quando se espalhou a notícia de que ia rebentar a guerra atómica, todos ficaram loucos de medo:

Quando os átomos estão juntos harmoniosamente, tudo funciona na perfeição. A vida assenta nesta harmonia.

Mas quando se consegue quebrar um átomo… e as suas partes vão bater noutros átomos, que vão bater noutros átomos ainda, e assim por aí fora… dá-se uma explosão terrível! É a morte atómica.

Pois bem, o nosso átomo estava triste, porque estava metido dentro de uma bomba atómica. Junto com outros átomos, aguardava o dia em que a bomba seria lançada e eles se quebrariam, destruindo todas as coisas.

Ora, devem saber que o mundo também está cheio de generais que passam a vida a coleccionar bombas. E o nosso general enchia o sótão de bombas.

– Quando tiver muitas – dizia ele – vou fazer uma linda guerra!

E ria-se.

Todos os dias, o general subia ao sótão e punha lá uma bomba novinha.

– Quando o sótão estiver cheio – dizia ele – vou fazer uma linda guerra!

Como se pode não ser mau, quando se tem tantas bombas assim à mão?

As mães estavam mais contentes. Mas também os pais. Todos, aliás. E o general?

Agora que já não havia guerras, foi despedido.

E, para utilizar a farda cheia de galardões, foi para porteiro num hotel. E como agora todos viviam em paz, vinham muitos turistas ao hotel. Até os inimigos de outrora. Até os soldados que antes o general tivera sob as suas ordens.

O general, quando entravam e saíam do hotel, abria a grande porta de vidro, fazia uma vénia ridícula e dizia:

– Bom dia, meu senhor!

E eles, que o reconheciam, diziam-lhe de muito má cara:

– Não tem vergonha? O serviço é péssimo neste hotel!

E o general ficava corado, corado, e calava-se.

Porque, agora, já não valia nada.

Umberto Eco
A bomba e o general
Lisboa, Quetzal Editores, 1989

 

De salientar, na história em questão, a avidez do general, que colecciona bombas, e a sua indiferença perante as consequências da utilização das mesmas.

Será interessante convidar as criaças a referir exemplos concretos dos estragos que a explosão de uma bomba poderia provocar, com particular atenção para a perda de vidas humanas e não só.

Sendo o conto uma apologia da não-violência, poderão também ser apresentadas pelas crianças outras medidas impeditivas da concretização do propósito do general.

Como leitura complementar, sugerem-se os contos:

O Violoncelo do Senhor O 

Os três astronautas

A Gazela de Olhos de Ouro – Jean Siccardi

A Gazela de Olhos de Ouro

Há muito tempo, em pleno coração do deserto, Khemma, um velho tuaregue que já não tinha forças para viajar, instalou-se num desfiladeiro povoado de frágeis acácias e de tamarindos. A sua esposa Aicha e o filho Krim acharam aquele lugar terrivelmente hostil. Preferiam viver num oásis ou num povoado acolhedor, mas não contrariavam Khemma; a palavra do chefe de família era sagrada.

O pai construiu um abrigo redondo, de adobe, com telhado de juncos, e fez, com o auxílio de ramos, uma cerca para abrigar a camela e a cabra, e arrumar as alfaias. Com fibras secas, ergueu um depósito sobre troncos para que, deste modo, os alimentos ficassem protegidos dos chacais, das hienas e dos abutres. Colocou armadilhas para afastar as raposas do deserto e as víboras de cabeça dura.

Nunca o seu filho Krim o ajudou. Preferia dormir à sombra de uma palmeira e regalar‑se com leite de camela bem fresquinho.

― Sou fraco, pai adorado, tão fraco que mal me tenho nas pernas… ― repetia ele ao longo do dia.

E Khemma, muitas vezes já sem forças, trabalhava, trabalhava sempre sem nada dizer, fazendo o seu dever, enquanto o filho se lamentava uma e outra vez…

Às vezes, o velho tuaregue consultava os amuletos e os talismãs pendurados à cintura e perguntava ao céu:

― Que destino reservas a este preguiçoso?

Mas da constelação sagrada da Lebre não vinha resposta. Então murmurava:

In cha’ Allah, se é assim, é porque Deus assim o quer.

Um dia, Khemma descobriu “o olho de água”. Com as mãos escavou uma cova, encontrou lama, de seguida um fio brilhante, e abriu um poço. Brotou um caudal claro e cristalino, formando no areal um lago que transbordava para o canal ressequido. Cresceram tufos de arbustos verdes. A cabra pôde, assim, roer arbustos tenros e doces.

Levantou um muro de seixos redondos e lisos para o protegerem das borrascas. Espantou o argali e os lagartos, apanhou gafanhotos, foi buscar lenha, carregou à cabeça pesados cavacos para fazer o fogo.

E Khemma, muitas vezes já sem poder mais, trabalhava, trabalhava, sem nada dizer, cumprindo o seu dever, enquanto o filho se lamentava uma e outra vez…

― Sou fraco, querido pai, tão fraquinho…

Aicha mantinha o acampamento, preparava as papas de leite e o chá verde, cozia os pães e os crepes de farinha de trigo. À noite, exausto, sentado numa esteira diante das brasas escarlates, o velho tuaregue adormecia sem acabar a refeição e sem olhar para as estrelas. No entanto, gostava muito daquelas luzinhas que piscavam por cima das dunas. Aicha defendia ferozmente o filho das críticas paternas e repetia sem cessar ao marido, a fim de o acalmar das suas impaciências:

― Alá deu-nos o tempo, mas nada disse da pressa… Qualquer dia, vais ver que Krim vai pôr mãos à obra. É um bom rapaz. Vais ter orgulho no teu filho!

E Khemma respondia-lhe:

― As luas passam e as pedras não se mexem!

As noites e os dias iam decorrendo. Uma bela manhã, Aicha, aborrecida e desanimada, lamentou-se:

― Não temos trigo, nem cevada, nem milho-miúdo, e a aldeia fica tão longe, pelo menos a quatro dias de camela…

Krim, como não queria sair da sombra da palmeira, acrescentou com voz arrastada:

― Estou tão fraco, pai e mãe adorados, tão fraco que as pernas mal podem comigo…

― Seria uma tortura infligires ao teu único filho o sol e a longa caminhada até à povoação! ― exclamou Aicha.

Krim, tranquilizado, virou-se para o outro lado e adormeceu imediatamente.

In cha’ Allah, se assim é, é porque Deus assim o quer… Mas precisamos de uma terra para cultivar, custe o que custar”, pensou o velho tuaregue. Sem dizer uma palavra, Khemma levantou-se, envolveu um turbante na cabeça, pegou no cajado, na espingarda, no cutelo, encheu o saco de pães e de tâmaras, cuspiu no fogo, apertou os amuletos e os talismãs, e partiu em busca de terra. Deixou a camela no acampamento para não a cansar, perdeu-se nos planaltos rochosos, entrou pelas areias dentro, enfrentou a tempestade, enfrentou os relâmpagos, a trovoada e os raios. A travessia era perigosa, mas o velho tuaregue tinha coragem.

E Khemma, muitas vezes já sem forças, caminhava, caminhava sempre, sem dizer nada, enquanto o filho dormia e continuava a dormir… Cheio de sede, apertava o odre e bebia a água límpida do poço, que tanto o reconfortava. Quando a lua ficava avermelhada, montava o bivaque no recôncavo de um rochedo, acendia um fogo com lenha de acácia, enrolava-se na sua comprida túnica e adormecia, abatido de cansaço.

Uma noite, quando o firmamento iluminava como em pleno dia, ouviu durante o sono uma vozinha:

― Khemma, Khemma…

Primeiro julgou que era um sonho, mas a vozinha insistia:

― Khemma, Khemma, acorda…

O tuaregue esfregou os olhos, guardou o cutelo e examinou o céu. No meio daquela extensão de areal e rochedos, quem poderia saber o seu nome?

Empoleirada numa laje lisa, ao alcance do seu braço, uma gazela de olhos de ouro, de hastes verdes e brilhantes, deixando atrás de si uma suave claridade, fixava o olhar nele. Khemma, surpreso e desconcertado, ficou sem fala. Notou que a haste direita, escamosa, estava incrustada de esmeraldas.

― Tenho sede, muita sede… ― diz ela. ― Posso beber uma gota da tua água fresca?

Khemma não recusou e deitou na palma da mão a água pura do seu poço. A gazela, tal como prometera, bebeu uma gota apenas.

― Quem és tu? ― ousou perguntar Khemma.

― Sou a djenniya* de olhos de ouro.

― Como pudeste encontrar-me neste local?

― Sigo-te desde a noite dos tempos.

― Falas?

― Falo e protejo-te. Só tu podes ouvir-me e ver-me, porque és um ser justo e bom. E diz-me, por que te esfalfas neste deserto a seguir trilhos onde apenas se pode encontrar velhas carcaças e ladrões de rapina?

― Procuro um recanto abrigado das tempestades para cultivar o trigo, a cevada, o milho-miúdo, e alimentar a minha família.

A gazela ficou um instante em silêncio. Não tirava os olhos de Khemma.

― Enrola a tua esteira, pega no cajado, na espingarda, no saco, e segue atrás do meu rasto de luz.

Levou Khemma até um terreno estaladiço, ao lado de uma falésia desconhecida.

― Tira uma escama de uma das minhas hastes, mas cuidado, escolhe bem… Entra no meu rasto de luz e planta a escama aos teus pés!

Khemma, a quem o ouro, as jóias, as pedras preciosas nada interessavam, e queria apenas encontrar um terreno de cultivo, retirou delicadamente uma simples escama da haste esquerda e mergulhou-a na areia.

Levantou-se então um vento suave. As ervas ficaram como que envoltas num véu… Khemma, arrastado por um agradável torvelinho, acordou num campo de terra negra, muito fértil, não longe do acampamento.

― Se te convém, ofereço-to ― diz ela.

E, sem o mais pequeno ruído, a gazela desapareceu na noite.

Quando Khemma contou a sua aventura à mulher e ao filho, apenas ouviu troça e tolices.

― Não estás bom da cabeça… ― gracejou o filho.

― Só nas lendas é que existem deusas! ― rebentou de riso a mulher.

― Viste e falaste com uma gazela invisível? ― troçou de novo Krim.

― Pobre marido! Apanhas sol demais na cabeça…

Saturado das pilhérias da mulher e do filho, Khemma dirigiu-se de novo para o seu pedaço de terra, em busca de calma e serenidade.

Quando estava a retirar pedras, uma a uma, sentiu atrás de si o bafo quente da sua amiga, a djenniya de olhos de ouro.

― O que fazes aqui? ― perguntou-lhe ela.

― Separo as pedras grandes, para poder abrir regos direitos ― respondeu Khemma.

A gazela ficou calada por uns instantes.

― Tira uma escama de uma das minhas hastes mas tem cuidado, escolhe bem… Entra no meu rasto de luz e põe-na em cima da primeira pedra que vires.

Khemma, que só se preocupava com a terra negra e fértil, retirou uma escama da haste esquerda e colocou-a em cima da primeira pedra, aos seus pés.

Levantou-se então um vento suave. As ervas ficaram como que envoltas num véu…

Khemma foi arrebatado por um suave torvelinho e acordou num quintal rodeado de muros altos que desafiavam todas as correntes de ar do deserto. Não restava nem uma só pedra.

― Se te convém, ofereço-to ― diz ela.

E, sem o mais pequeno ruído, desapareceu na luz do sol.

O tuaregue regressou tão cedo ao acampamento que a mulher estranhou. Ele não lhe deu nenhuma explicação. Foi deitar-se à sombra da palmeira, descansou finalmente diante das estrelas e rezou às escondidas.

No dia seguinte, Khemma voltou com uma picareta e começou a escavar.

― Que fazes tu aí? ― perguntou-lhe a gazela.

― Procuro água para regar as minhas futuras plantações e estou a abrir regos.

A gazela ficou um instante em silêncio.

― Tira uma escama de uma das minhas hastes, mas tem cuidado, escolhe bem… Entra no meu rasto de luz e molha essa escama na água límpida do teu odre.

Khemma, que só se preocupava com a irrigação do quintal, retirou-lhe uma escama da haste esquerda e molhou-a. Levantou-se então um vento suave. As ervas ficaram como que envoltas num véu… Khemma foi arrebatado num doce torvelinho e acordou a ouvir o canto milagroso da água nos regos.

― Se te convém, ofereço-to ― diz ela.

E, sem ruído, desapareceu no brilho das rochas.

Nos dias seguintes, quando o velho tuaregue chegava, a gazela estava à sua espera e fazia-lhe sempre a mesma pergunta:

― Que fazes aí?

― Vou lavrar e plantar depois.

E ajudava-o a lavrar, a semear, a regar. Quando chegou o tempo das longas caravanas que atravessam o deserto, Khemma ceifou o trigo, a cevada, o milho, colheu legumes maravilhosos e deu a provar à gazela de olhos de ouro os seus primeiros frutos.

Khemma já não podia passar sem a djenniya. Juntos conversavam, e dialogavam longamente com os astros. Mas, no acampamento, Aicha e o filho não acreditavam no encontro do velho tuaregue e riam-se dele.

― Ele fala sozinho e até muito tarde durante a noite! Ainda bem que trabalha como um danado ― diziam eles.

Na época das promessas e dos amores amontoavam-se cestos de legumes e sacos de cereais no acampamento.

― Que vamos fazer de tudo isto? ― perguntou Aicha, preocupada.

O pai chamou o filho e pediu-lhe que fosse ao mercado trocar os seus produtos por novas alfaias, especiarias, rolos de tecido, e tabaco, e que trouxesse mais uma cabra.

― Segues ao lado da camela, porque vai muito carregada! Tem cuidado, não a canses e não a montes!

― Estou tão fraco que as minhas pernas…

Não chegou a acabar a frase, tal foi a ira que se apoderou de Khemma. Cheio de medo, Krim, que nunca tinha visto o pai naquele estado, tomou imediatamente o caminho da aldeia.

Krim ia à frente, a guiar a camela. Depois, pouco a pouco, pôs-se a andar ao seu lado, a aproveitar a sombra da bossa e, mais tarde, começou a segurar-se na cauda e era ela que o puxava. Assim passou a primeira duna e, com muita dificuldade, a segunda. Arrastava-se em vez de avançar, sempre a beber da cabaça e a gemer. Nos cimos que o separavam da terceira duna, a garganta ardia-lhe e a língua estava seca. De um só trago, bebeu toda a reserva de água.

À hora em que o sol está mais alto e tudo o que vive no deserto se esconde, Krim fez uma paragem. Encolheu-se na sombra de uma fenda. “Se a camela me transportasse, quem é que viria a saber?” pensou ele. “E se…”

Saltou de alegria, ante a ideia sublime que o assaltou. Descarregou um saco de trigo e enterrou-o. “Direi ao meu pai que os comerciantes eram avarentos e não me deram quase nada em troca.”

Saltou para cima da sela.

A camela deu um passo e parou.

Krim, teimoso e decidido a não caminhar, enterrou um segundo saco de milho. “Direi ao meu pai que os comerciantes eram ladrões da pior espécie…”

Saltou para cima da sela.

A camela deu um passo e parou.

Krim enterrou um terceiro e um quarto saco. “Direi ao pai que é preciso enforcar os ladrões dos comerciantes, para que os abutres lhes arranquem os olhos!”

Saltou para cima da sela.

A camela deu quatro passos e voltou a parar.

Decidido a fazer-se transportar até ao mercado custasse o que custasse, espalhou todo o carregamento e escondeu os sacos debaixo de pedras. A fêmea, livre de todo o fardo, leve como um antílope, nem esperou que ele lhe subisse para o lombo. Farejou ao longe o gorgolejar de uma fonte, o cheiro das silvas adocicadas, e desatou a correr. Krim foi incapaz de a agarrar.

De repente, levantou-se uma tempestade de areia. As dunas deslocaram-se como ondas movediças, apagando, para o infeliz viajante, todas as marcas e todas as referências. Perdido no areal e sem montada, Krim conseguiu mesmo assim arrepiar caminho até ao acampamento.

Khemma, ao ver o filho regressar despojado, envergonhado e a chorar, pensou logo que fora atacado por um bando de ladrões. Consolou-o como pôde, com palavras que o sossegaram. Mas Krim confessou a sua malvadez. Khemma foi acometido por uma onda de ira louca, pegou no cajado, volteou-o no ar e bateu, bateu, bateu no pobre rapaz.

― O que estás a fazer? ― perguntou a gazela.

― Estou a castigar o meu filho que me desobedeceu. Perdeu todas as colheitas e arruinou o fruto do meu trabalho.

― Isso de nada serve. É melhor encheres-lhe o saco de provisões, dares-lhe reservas de água para uma semana e mandá-lo procurar a camela e as mercadorias. Esse castigo ser-lhe-á realmente útil. Compreenderá assim a sua negligência! Lembra-te de que a cólera é a mãe de todas as loucuras!

Khemma, perante tais palavras, parou imediatamente de bater em Krim.

Aicha, como não queria deixar partir o filho sozinho, foi com ele. Passado o acampamento, Krim começa a lamentar-se:

― Sou tão fraco, mãe adorada, tão fraco, que as pernas…

E Aicha aliviou-o das reservas de água. Antes de chegar ao trilho grande, recomeçou com os seus lamentos:

― Sou tão fraco, mãe adorada…

E Aicha aliviou-o do saco das provisões. À terceira duna, depararam com os cestos de legumes e frutos roídos pela bicharada e, mais adiante, os sacos de trigo e de milho vazios, que tinham sido o regalo dos escorpiões e das raposas do deserto. Quanto aos géneros alimentícios, estavam todos espalhados no meio dos grãos de areia. O desânimo invadiu Aicha e o filho.

― É preciso encontrarmos a camela, custe o que custar. Se a levarmos para casa, talvez se acalme a cólera do teu pai e ele nos perdoe…

― Mas onde é que poderá estar esse maldito animal? ― vociferou Krim, completamente desesperado.

Foi então que apareceu diante deles a gazela de olhos de ouro. Viram que Khemma não estava louco, que a sua história não era uma miragem distante.

― Tenho sede, muita sede… ― diz ela. ― Posso beber só uma gota da vossa água fresca?

Aicha espremeu o odre de pele todo, mas nem uma só gota caiu.

― Vês ― murmurou Krim ― nem sequer lágrimas temos nos olhos para chorar!

― Conheces-nos? ― perguntou a mãe.

― Sigo-vos e protejo-vos desde a noite dos tempos. Agora podeis ver-me e ouvir-me, porque julgo que sois bravos nómadas. Sei o que procurais e posso ajudar-vos, se quiserdes.

Perante uma tal oferta, nem foi preciso que a gazela de olhos de ouro repetisse o que acabara de dizer.

A djenniya ficou por um instante em silêncio, depois dirigiu-se a Krim:

― Tira uma escama de um das minhas hastes, mas cuidado, escolhe bem… Entra no meu rasto de luz, atira-a de seguida na direcção da Constelação de Lebre e encontrarás a camela.

Mas Krim só tinha olhos para a haste da direita, onde as esmeraldas brilhavam. Sem hesitar nem reflectir, arranca com toda a força a escama engastada na maior pedra preciosa. O castigo não se fez esperar.

Surgiram todos os ventos do deserto num furacão que varreu os dois infelizes de cima dos elevados planaltos e os arrastou até um grande rio, lançando-os no oceano. Durante esse tempo, Khemma esperava o regresso da mulher e do filho. Passavam os dias e a tristeza apoderava-se do velho tuaregue. Às vezes, subia ao cimo da falésia e passava horas a olhar as infinitas extensões de areia. Mas nenhuma poeira surgia no horizonte. Dirigiu-se às estrelas; os astros não lhe responderam. Em vão apertou os amuletos e os talismãs. Não obteve nenhuma resposta.

Então sentou-se no meio do quintal e esperou. Viu as aves debicarem os últimos grãos de trigo.

― Se perdi tudo, a família, os bens, é porque Alá assim o quis ― lamentou-se ele.

Permaneceu assim todo o Inverno. Depois, nos primeiros dias do regresso das longas caravanas em direcção ao Sul, viu uma estranha luz penetrar no seu corpo e sentiu o bafo quente da gazela de olhos de ouro.

― Não fiques triste, Khemma ― diz-lhe ela baixinho. ― Em cada respiração, em cada instante, é preciso começar de novo, recomeçar tudo. Estou aqui e protejo-te. Dou-te esta escama da minha haste direita. Tem uma esmeralda. Coloca-a na tua face e formula um desejo. Serás logo atendido.

Delicadamente, Khemma pôs a esmeralda na face e fechou os olhos.

Levantou-se então um vento leve e suave. As ervas ficaram como que envoltas num véu… Sentiu-se arrebatado num longo sonho e o seu desejo foi atendido.

Khemma acordou na esteira do seu acampamento, diante de brasas escarlates. Aicha tinha preparado um maravilhoso chá com bolos de festa. O filho Krim sorria-lhe sem gemer nem se lamentar. A camela e a cabra pastavam calmamente.

― Se gostas desta vida, ofereço-ta ― diz a djenniya de olhos de ouro.

Khemma respondeu que sim e, sem ruído, a gazela desapareceu na lua de Abril.

O velho tuaregue resplandecia de felicidade.

Sobre os planaltos, uma última tempestade rugiu e o sol brilhou para sempre.

 

* Para os tuaregues, a djenniya, ou gazela de olhos de ouro, é um génio bom e protector.

Jean Siccardi
La gazelle aux yeux d’or
Paris, Albin Michel Jeunesse, 2002

Publicado em Sem categoria | Etiquetas

A nogueira

A nogueira

Um senhor já idoso estava a cavar no seu jardim quando passou por ali um rapaz novo que lhe perguntou:

– O que está a fazer, avozinho?

– Estou a plantar uma nogueira – disse. – No Verão dará sombra e no Outono dará nozes. Haverá algo melhor e mais bonito do que uma nogueira?

O rapaz riu-se.

– E sabe de quanto tempo vai precisar, até que a sua nogueira dê sombra e nozes?

Já não vai poder assistir a isso.

– Eu não – disse o idoso com um aceno de cabeça – mas os meus netos, vão.

Conto tradicional chinês

Tradução e adaptação
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986

O que faz o medo

O que faz o medo

Ao sul da cidade de Xiashou vivia um homem de nome Shuliang. Era conhecido por ser medroso e por entrar em pânico, mal presenciava qualquer coisa que não tivesse uma explicação simples e imediata. Porém, aquilo que mais temia eram os fantasmas, embora nunca tivesse visto nenhum.

Certo dia, sempre receoso com aquilo que pudesse surgir-lhe no caminho, dirigiu-se ao povoado mais próximo para visitar amigos. Era uma noite de lua cheia e ele, olhando para o chão de terra batida à sua frente, viu uma sombra esguia que não parava de se alongar e que seguia sempre alguns passos à sua frente.

— Que horror, um fantasma! — gritou ele, aterrorizado.

Ao dar-se conta da presença do fantasma, decidiu voltar a casa, mas sem virar as costas à terrível e misteriosa criatura. Por isso, palmilhou alguns quilómetros às arrecuas, para nunca perder de vista aquela ameaçadora sombra, não fosse ela atacá-lo.

Quando chegou a casa, estava de tal maneira exausto que caiu no chão e sentiu que ia morrer.

Lá no alto, a lua cheia riu a bom rir com o triste espectáculo dado pelo medroso, que fugiu, em marcha-atrás, da sua própria sombra, acabando por ser vítima dos seus medos e não de qualquer fantasma.

J. J. Letria
Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002

A roupa é quem a veste

A roupa é quem a veste

Um homem de poucas posses, mas estimado e respeitado na aldeia, foi convidado para jantar em casa de pessoas ricas que queriam dá-lo como exemplo de trabalho esforçado e de humildade, mas também da sua tolerância para com os desfavorecidos.

Apresentou-se o homem na casa dos anfitriões com as roupas que costumava usar todos os dias, pobres e esfiapadas, verificando que todos evitavam cumprimentá-lo, por serem tão visíveis os sinais das suas parcas posses.

Tomou então uma decisão. Foi a casa e vestiu a única peça de roupa de qualidade que possuía e que mantinha guardada para uma ocasião especial.

Deu-se então conta, ao regressar a casa dos ricos anfitriões, de que o tratamento que lhe estava reservado mudara radicalmente. Agora, desde os criados aos senhores da casa, todos se lhe dirigiam com deferência e respeito.

Quando o jantar foi servido, despiu a túnica que levava vestida sobre as roupas andrajosas e atirou-a para cima da mesa.

Encolerizado, o anfitrião perguntou-lhe na presença dos outros convidados:

— Por que ages desse modo?

— Porque percebi que a minha roupa é que recebeu as vossas atenções e cumprimentos e não eu.

Dizendo isto, dirigiu-se à porta e saiu, deixando os convivas num embaraçado silêncio.

J. J. Letria
Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002

Publicado em Sem categoria | Etiquetas

Uma Páscoa atribulada

Uma Páscoa atribulada

Nova Iorque, Lower East Side, 1912. A área sudeste de Nova Iorque acolheu milhares de emigrantes durante as grandes ondas de emigração para a América. Esta zona pobre da cidade tornou-se na área com maior densidade populacional do mundo. Aqui viviam pobremente muitas comunidades estrangeiras, entre elas a de Judeus e era na Lower East Side que se encontrava a maior comunidade Judaica do mundo. Num modesto apartamento, vivem Ella, de doze anos, Henny, de dez, Sarah, de oito, Charlotte, de seis e Gertie, de quatro anos, com a mãe e o pai, um comerciante de coisas usadas. O dinheiro não abunda, mas a mãe dirige a casa habilmente. Uma casa onde reina a alegria e a harmonia e onde se comemora com seriedade todas as festas religiosas do calendário judaico.

– Então, não te levantas? – perguntou Ella.
Era um dia normal de escola e Sarah costumava ser sempre a primeira a levantar-se.
– Não me sinto bem.
– O que é que tens? Dói-te outra vez a garganta?
– Sim, quando engulo. Também me dói a cabeça e sinto o nariz a arder por dentro.
– Pareces estar muito quente. É melhor chamar a mãe.
A mãe não se mostrou muito preocupada. Já estava habituada a que as filhas ocupassem a “cama dos doentes”, como chamavam ao sofá que estava na cozinha. Das cinco irmãs, era Sarah a que lá passava mais tempo. Nessas alturas, e com a ajuda de uns lençóis, a mãe transformava o sofá em cama, e ia ao quarto buscar as doentes. Henny olhava para Sarah com inveja. Detestava ir à escola e estava sempre à espera de que acontecesse alguma coisa que a impedisse de ir.
– Mãe – disse – enquanto a Sarah estiver doente não vais precisar de ajuda?
– Acho que serias mais um estorvo do que uma ajuda, Henny.
Henny foi para junto de Sarah, no sofá.
– Que sorte! Eu também gostava de ficar doente.
– Só dizes isso porque não sabes como é horrível.
A mãe estava atenta a Sarah. Veio junto dela, pôs-lhe a mão na testa e sentiu-a a escaldar.
– Ella – disse – corre à loja do pai ainda antes de ires para a escola e diz-lhe que chame o Dr. Fuchs.
Mergulhou um pano em água fria, torceu-o, dobrou-o em quatro e pô-lo na testa de Sarah.
Quando as outras saíram, Gertie tentou distrair Sarah, mas ela não reagia.
– Deixa-a dormir – disse a mãe. – É o melhor que pode fazer. Anda, podes ajudar-me a tratar das loiças para o Pesach (refeição ritual da Páscoa hebraica e que celebra a fuga do Egipto.) – É já daqui a uma semana.
Só uma semana e havia ainda tanto que fazer!
Durante a festa da Páscoa, que dura oito dias, não se pode comer pão ou outros alimentos feitos com massa levedada. Nos dias anteriores à Páscoa, as famílias judaicas limpam tudo para eliminar qualquer resto de massa fermentada: até as panelas, sertãs e pratos têm de ser substituídos. Cada família judaica crente tem tanta loiça, que mais parece possuir uma loja de loiças. A família tem de ter dois serviços para uso diário, um para o leite e derivados, e outro para os pratos de carne, e ainda mais dois serviços para o Pesach. Isto para não falar da loiça bonita para os dias de visitas.
Quando as meninas voltaram da escola, o Dr. Fuchs estava em casa. Com a sua voz sonora mas simpática, ordenou a Sarah que deitasse a língua de fora e dissesse “aa”. As irmãs e a mãe estavam à sua volta a ver. Quando acabou o exame, o Dr. Fuchs voltou-se para a mãe:
– Parece escarlatina. O melhor é examinar também as outras meninas.
– Escarlatina! – exclamou a mãe.
Escarlatina significava quarentena e isolamento. Significava também que tinha de cozinhar dietas, provavelmente pratos fermentados, e a Páscoa estava à porta. Como iria conseguir conciliar tudo? Mas não deixou transparecer a sua preocupação na presença das filhas, que já estavam em fila diante do médico para serem examinadas.
Henny foi a primeira. Parecia estar bem de saúde. Gertie e Charlotte não aparentavam ter nada. O médico examinou Ella durante mais tempo e, no final, meneou a cabeça.
– Lamento, mas a pequena também tem escarlatina.
– Já era de esperar – respondeu a mãe calmamente. – Dormem juntas na mesma cama.
– Tem de deitar as duas num quarto separado – disse o Dr. Fuchs à mãe. – E tente manter as outras afastadas. Eu torno a passar amanhã e vejo como é que elas estão. Não tenha medo, que vai conseguir ultrapassar tudo isto. Pense que tem um bom médico!
O Dr. Fuchs riu da sua piada para animar a mãe, pegou na mala e saiu, rindo ainda.
Henny tinha agora uma boa desculpa para ficar afastada da escola, mas não estava nada contente com isso. “Quarentena”, pensava. “Nenhuma das minhas amigas pode aproximar-se de mim.” Também não podia chegar perto das duas irmãs nem passar o dia inteiro a brincar com bebés como Charlotte e Gertie!
Embora exteriormente se mostrasse calma e andasse de um lado para o outro como se nada fosse, a mãe estava preocupada. “Mantenha as doentes afastadas das que estão saudáveis”, ordenara o Dr. Fuchs. O melhor era deixar Ella e Sarah dormir no seu quarto e ficar junto delas. As crianças doentes precisam muitas vezes da mãe durante a noite.
Podiam usar a cama desdobrável que tinham para as emergências. O pai podia dormir no sofá da cozinha ou, se não quisesse, dormia na cama de Ella e de Sarah, no quarto das meninas.
A mãe preparou o quarto que ia ser o das doentes por muitas semanas. Depois, vestiu outra roupa, levou as doentes para a cama e tornou-lhes tudo tão confortável quanto podia. Em seguida, voltou a mudar-se e foi para a cozinha.
– Ouviram todas o que o médico disse – explicou então às filhas que não estavam doentes. – Não podem ir nunca ao quarto onde Ella e Sarah estão. Não quero que fiquem também doentes. Henny, leva esta receita à farmácia, por favor. Tens de esperar até que o remédio esteja pronto para depois o trazeres. Dá um salto ao pai, e diz-lhe que as meninas estão com a febre escarlatina. Charlotte e Gertie, vocês vão ajudar-me a arrumar outra vez os pratos. Por ora, não precisamos deles.
– Mãe – perguntou Charlotte – vamos, mesmo assim, festejar a noite de Seder (Seder (hebreu “Ordem”) Refeição de festa da festa das duas primeiras noites da Páscoa)?
– Claro que sim! – respondeu a mãe.
– A Ella e a Sarah já vão estar boas? – perguntou Gertie.
– Não, acho que não. É claro que já vão estar melhor – acrescentou rapidamente – mas vão ter de continuar de cama.
Nessa noite, a mãe foi acordada por um choro abafado. Despertou imediatamente, como sempre acontecia quando uma das filhas precisava dela, e reconheceu a voz de Sarah.
– Não chores – acalmava-a a mãe – que eu estou à tua beira.
– Enxota-o! Enxota-o! – chorava Sarah.
– Sim – respondeu a mãe. – Já o enxotei.
Não fazia nenhum sentido dizer a uma criança a arder de febre que não havia nada para enxotar.
Ella sentou-se na cama e perguntou:
– Está a delirar, mamã?
– Está. Se calhar teve sonhos maus. Daqui a pouco já se acalma.
– Tive um sonho tão mau! – soluçou Sarah. – Uma coisa estava a crescer cada vez mais e eu não conseguia pará-la. Os meus dedos iam ficando cada vez mais inchados, e a cara também. Pensei que ia rebentar. Fiquei tão assustada que chamei por ti!
– Eu estou aqui, não tenhas medo. Volta a adormecer. Eu sento-me à tua beira e mando tudo embora.
Dito isto, a mãe sentou-se na cama de Sarah, no silêncio da noite, segurando-lhe as mãos, até as duas crianças adormecerem. Depois, pousou cuidadosamente a mão de Sarah e voltou para a sua cama.
De manhã, as duas meninas pareciam melhor, embora a cara de Sarah estivesse cheia de manchas vermelhas. Ella achou muita graça à figura da irmã, até ao momento em que se deu conta de que ela própria também tinha manchas na testa e à volta das orelhas.
Mais tarde, veio um funcionário do Ministério da Saúde e afixou na porta da cozinha um selo de quarentena. Charlotte e Gertie iam constantemente lá fora e ficavam a olhá-lo, cheias de respeito.
Nessa tarde bateram à porta.
– Quem é? – gritou a mãe.
– Sou eu, o Charlie. Não tenha medo, que não quero entrar. Só venho para conversar um bocadinho.
A mãe saiu para falar com Charlie, o empregado do marido.
– Como estão a Ella e a Sarah? – perguntou.
– A Sara não passou nada bem esta noite.
– Isto é muito difícil para si – disse Charlie com simpatia. – Há alguma coisa em que possa ajudá-la? Quer que vá comprar alguma coisa?
– Obrigada, Charlie, mas o meu marido já foi hoje às compras.
– Eu trouxe uma coisinha para as doentes, para elas se irem entretendo um pouco. Está a ver o embrulho aí ao canto, ao pé da porta? Sim, é esse – disse, quando a mãe pegou no embrulho. – E não se preocupe demasiado, mãe!
As doentes alegraram-se com o presente. Dentro do embrulho havia duas ardósias pequenas com esponja e uma caixa com giz de cor.
– O Charlie é amoroso. Pensa em tudo – disse Ella.
Os três dias seguintes passaram depressa. O doutor vinha de manhã, examinava as doentes, brincava com as outras, e voltava a sair. Durante o dia, Sarah estava alegre e cheia de vivacidade, e ela e a irmã conversavam muito uma com a outra. Durante a noite, a febre subia e chamavam então pela mãe, que passou mais três noites sem dormir.
Ao pequeno-almoço do quarto dia, esta anunciou:
– Hoje à noite começa o Pesach.
A mãe tinha concluído todos os preparativos. A casa estava a brilhar e os pratos para o Pesach estavam limpos. O Sr. Basch, o merceeiro, tinha amontoado diante da porta uma quantidade de embrulhos com comida especial para o Pesach.
As doentes estavam melhor. As erupções na cara e no corpo estavam a diminuir.
Nessa tarde, Charlotte e Gertie estavam sentadas no sofá da cozinha a fazer desenhos engraçados. As duas meninas tinham estado o dia todo estranhamente sossegadas. Se a mãe não tivesse tanto que fazer, de certeza que teria notado e estranhado mas, como não se dera conta, foi apanhada de surpresa pelas palavras de Charlotte:
– Mãe, sinto-me esquisita. Dói-me tanto a garganta!
E, como se isto não bastasse, Gertie disse também:
– A mim não me dói a garganta, mas sinto-me tão cansada!
– Era engraçado se também apanhássemos a escarlatina – disse Charlotte. – Assim, a nossa casa tornava-se um hospital a sério!
A mãe não achou graça e disse apenas:
– Vamos pedir ao Dr. Fuchs que vos examine também. Ele já deve estar a chegar.
O Dr. Fuchs veio e examinou-as. Não havia dúvida: a mãe tinha mais dois casos de escarlatina para tratar.
Henny foi informar o pai. Quando regressou, já havia quatro camas no quarto das doentes, e Charlotte e Gertie tinham sido metidas na cama. Ella e Sarah deram-lhes as boas vindas efusivamente. Henny, pelo contrário, andava na cozinha de um lado para o outro. Porque é que era a única que não estava doente? Agora é que não tinha mesmo mais ninguém com quem brincar.
A primeira noite de Seder tinha chegado. Que vazia parecia a mesa, só com três talheres! Nos anos anteriores, tinham sido convidados pobres, amigos e parentes! Os copos de cristal brilhantes foram enchidos de vinho: um grande para o pai, um médio para a mãe, e um pequeno para Henny. Um guardanapo imaculado cobria o tabuleiro de Seder que o pai tinha previamente preparado. Na bandeja estavam três pedaços de pão matzo (mão israelita feito sem fermento), símbolo da união, pois todos os Judeus deviam ser irmãos. No canto superior direito da bandeja, o pai tinha posto os ossos do cordeiro da Páscoa, e no canto superior esquerdo, um ovo cozido com casca, ambos símbolo das oferendas que nos tempos antigos eram feitas pelos Judeus e sacrificadas nesse dia sagrado. No centro da bandeja havia rábano picante e ervas amargas. No canto inferior direito, um pequeno recipiente com uma mistura de amendoins, maçãs descascadas e vinho, que representavam a argamassa e os tijolos que os Judeus tinham feito para o faraó do Egipto, há muitos milhares de anos. No canto inferior esquerdo havia um raminho de salsa, símbolo da Primavera e da esperança.
A cadeira do pai e o sofá de couro foram chegados à frente para perto da mesa e forrados com almofadas. Enquanto tomavam a refeição, o pai e a mãe iriam recostar-se neles como se fossem rei e rainha.
Nessa noite, não precisavam de ter medo de que não houvesse Haggadahs que chegassem para todos. Haggadahs são pequenos livros muito finos que remontam a mais de dois mil anos e onde está registada a história do Pesach. Os Haggadahs da família estavam escritos em inglês e em hebraico para as crianças poderem seguir a leitura do pai.
Neste Pesach, a mais antiga e a maior das festas judaicas, que começava com um bonito e colorido festejo, havia quatro meninas doentes, de cama, a chorar, porque não podiam participar totalmente.
O pai vestiu a bata de linho branco, pois desde os tempos antigos que as vestes de festa dos Judeus eram brancas, e parou por um momento em frente da porta do quarto, aberta para as crianças poderem ver o seu aspecto solene.
– Não chorem – pediu-lhes. – Vamos deixar a porta aberta e eu vou ler em voz alta para poderem ouvir-me. Se escutarem com atenção, também estarão a participar.
As doentes enxugaram os olhos e passaram a escutar atentamente, embora nada pudessem ver da celebração.
Lavadas as mãos, fez-se a bênção do vinho, que em seguida foi bebido. O pai voltou a encher os copos e distribuiu pequenos ramos de salsa que todos mergulharam em água salgada e em seguida comeram. A água salgada simbolizava as lágrimas que os Judeus haviam vertido quando eram escravos no Egipto. O pai partiu o segundo matzo e escondeu um pedaço grande entre as almofadas da cadeira. Em todas as noites anteriores de Seder, as filhas tinham-lhe seguido os movimentos com atenção, pois aquela que conseguisse tirar o pedaço de pão sem o pai dar conta recebia deste, como recompensa, o que quisesse. O pai tinha sempre dificuldade de saber quem tinha sido o ladrão, mas esta noite não ia haver dúvidas.
Os Haggadahs estavam abertos e o pai começou a cantar em hebraico: Todos vós, que tendes fome, vinde e festejai, todos vós, que não podeis festejar o Seder, vinde e festejai connosco.
Em breve chegaram à parte da cerimónia em que o filho mais novo da família ou, na ausência deste, a filha mais nova, pedia uma explicação sobre a festa. Gertie ensaiara o seu papel durante semanas, e agora não estava à mesa para poder desempenhá-lo. O pai esperou e, em breve soou, vinda do quarto, a vozinha infantil a cantar, hesitante:
Pai, porque é que esta noite é diferente das outras?
Quando a menina acabou, o pai começou a ler com rapidez. Hoje soava apenas a sua voz mas, nas outras noites de Sedar, cantavam todos os convidados.
A celebração continuava e, enquanto o pai cantava, as páginas eram viradas umas atrás das outras, até que os Haggadahs foram finalmente postos de parte.
Teve início a refeição. Bebeu-se o segundo copo de vinho e voltaram a lavar as mãos. O pai estendeu um matzo e os três deram graças. Comeram as ervas amargas. A mãe trouxe para a mesa uma terrina cheia de ovos cozidos, pois os ovos simbolizavam vida e saúde. Foram mergulhados na água salgada e comidos. Após o primeiro prato, seguia-se sopa de galinha com almôndegas pequenas, feitas de farinha de matzo, depois havia galinha, legumes e fruta cozida a vapor.
Quando a refeição acabou, o pai procurou o pedaço de matzo escondido. Tinha desaparecido. Gertie gritou do quarto:
– Mas vocês prometeram-me que hoje eu podia roubar o afikomen (nome dado ao pedaço de pão matzo que é escondido propositadamente.)! Era a minha vez! E ele agora desapareceu e eu não vou receber nenhuma prenda!
– Não te zangues, Gertie – gritou Henny. – Tenho-o eu! E só o dou ao pai se ele nos oferecer às duas uma coisa!
Os olhos do pai piscavam, divertidos.
– Mas isto é uma violência! – disse. – O que posso oferecer-vos em troca do afikomen?
– Eu quero um tanque de roupa pequenino e uma tábua para poder lavar a roupa das minhas bonecas! – gritou Gertie imediatamente.
– Muito bem. E tu, Henny?
– Oh, eu queria uma moeda de cinco cêntimos. Mas jura-nos que vamos receber as prendas!
O pai prometeu e Henny entregou-lhe o afikomen. O pai partiu um pedaço para cada, como sobremesa, da mesma forma que nos tempos antigos era dado um pedaço do cordeiro da Páscoa a quem entrava no templo.
E era agora altura de abrir a porta ao profeta Elias, que um dia viria anunciar a chegada do Messias. Foi-lhe enchido um copo com vinho, pois dizia-se que na noite de Seder ele ia a todas as casas. Abria-se a porta para que entrasse e bebesse o vinho. As crianças não tiravam os olhos da porta e esperavam vê-lo, ou pelo menos ouvir o barulho das asas ao entrar.
As meninas nunca o viam nem ouviam, mas, de todas as vezes, estavam certas de que havia um pouquinho menos de vinho no copo do que antes de abrirem a porta.
– Pai! – gritaram. – O vinho não diminuiu?
– Sim – respondeu o pai. – Vejo que o profeta Elias esteve aqui!
Henny confirmou:
– De certeza absoluta que esteve aqui.
Já era tarde, as doentes estavam cansadas, por isso todos dispensaram as canções tradicionais. Henny e a mãe arrumaram tudo rapidamente e assim se passou a primeira noite de Seder.
A família tinha-se habituado à ideia de estar completamente só. Para a mãe, os dias haviam sido tão cheios de trabalho, que nem lhe sobrara tempo para pensar. Também tinha desistido de proteger Henny da febre escarlatina. Era esforço em vão, porque mal a mãe virava costas, Henny já estava no quarto das doentes. Além disso, o Dr. Fuchs tinha a impressão de que Henny não era atreita a esta doença, caso contrário já a teria contraído há muito tempo.
O único contacto que a mãe tinha para com o exterior era através da janela. Todos os dias, por volta do meio-dia, tocavam à campainha da porta. A mãe corria à janela da sala para cumprimentar os familiares que nesse dia vinham perguntar como iam as pequenas.
Charlie também batia à porta, dia sim, dia não, perguntava pelas crianças e deixava-lhes qualquer objecto pequeno: algumas folhas de papel de cor, ou uma carta engraçada, que fazia rir as meninas. Uma vez, Charlie trouxe cerejas cristalizadas, que elas adoraram. Outras vezes o pacote-surpresa trazia um brinquedo qualquer ou um jogo de tabuleiro.
– Charlie – dizia a mãe – nunca conheci ninguém que gostasse tanto de crianças! As meninas ficam felizes com os seus embrulhos, agradecem e mandam-lhe cumprimentos. Como podemos agradecer-lhe?
– São coisas sem importância – respondia Charlie embaraçado. – Só quero que as meninas fiquem contentes! – E desapareceu imediatamente pelas escadas abaixo.
Uma vez, o carteiro deixou um grosso envelope castanho que vinha dirigido às crianças. Nunca ninguém lhes tinha mandado nada pelo correio, e mal podiam acreditar que fosse para elas.
Ella abriu-o e retirou um exemplar novinho de uma revista infantil. Trazia presa uma carta, que Ella leu em voz alta. Era de Miss Allen, a bibliotecária, a pedir às crianças que se curassem depressa. Estava com saudades das suas carinhas alegres.
– É tão querida! – disse Sarah. – Gosto tanto dela!
– Todas nós gostamos dela – disse Ella, e a opinião era unânime.
O Pesach chegou ao fim e as meninas curaram-se. Tinha chegado o dia em que a casa iria ser desinfectada e, quando finalmente chegou, o funcionário do Ministério da Saúde foi recebido com vivas e aplausos.

tradução e adaptação

Sydney Taylor
Die Mädchenfamilie
München, DTV Junior, 1988
Excertos adaptados

Fábula da Fábula – Miguel Torga

A cigarra e a formiga – La Fontaine 

Era uma vez
uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.
E, realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga
Diário VIII,1956

A Gata e o Sábio

gato janela 3m

O sábio de Bechmezzinn (aldeia situada no norte do Líbano) era muito rico. Dedicava o melhor do seu tempo ao estudo e a tratar os doentes que o procuravam. A sua fortuna permitia-lhe socorrer os infelizes e toda a gente dizia que ele era a dedicação em pessoa.

Homem piedoso e recto, a injustiça revoltava-o. Muitas pessoas vinham consultá-lo quando tinham alguma divergência com vizinhos ou parentes. O sábio dava os melhores conselhos e desempenhava frequentemente o papel de mediador.

Continuar a ler

Bemol Saltitante, um ratinho ao piano

Bemol Saltitante, um ratinho ao piano

O ratinho Bemol Saltitante adorava música. Por isso, vivia dentro de um piano. Era um lugar amplo, elegante e quentinho, mas o que mais lhe agradava era que todos os dias podia ouvir música durante horas.

O dono do piano era um pianista que adorava a sua profissão, pelo que passava dias inteiros a tocar e tocar. Sonatas, rapsódias, partituras e outras peças de música ecoavam na enorme sala, e escapavam pelas janelas.

Continuar a ler

A cambalhota do macaco

A cambalhota do macaco

Numa montanha a Oriente, lá muito em cima, onde já nenhum pássaro quer fazer o ninho, havia um ovo de pedra. O vento soprava-lhe e o sol batia-lhe, ninguém sabia há quanto tempo. Um dia, a montanha moveu-se, moveram-se as pedras até ao cume mais alto, o ovo rachou e abriu-se. Saltou um macaco. O corpo era de pedra brilhante, onde a luz do sol se reflectia.

Continuar a ler

A noite em branco de Raimundo

A noite em branco de Raimundo

Raimundo é um menino de sete anos. Anda na escola primária e está a aprender a ler e a contar. Aprende também a escrever e a escutar sem falar, quando a professora explica. Raimundo gosta muito de jogar futebol, de brincar às caçadinhas e de pegar no tabuleiro quando come na cantina. Não gosta que os grandes o empurrem no recreio nem de ir com a mãe às compras depois da escola. Quando for grande, quer ser fabricante de jogos de vídeo. Mas isso, só mais tarde. De momento, o que Raimundo mais quer é passar uma noite em branco. Uma noite em branco a sério, como fazem os adultos.

Um dia ouviu os pais falarem disso e, a partir daí, Raimundo não quer outra coisa. Hoje está mesmo decidido: vai viver a sua primeira noite em branco.

Raimundo sabe muito bem que não vai ser fácil. Se não, não era proibido às crianças. Deve ser perigoso. Mas como amanhã não há escola, Raimundo sente-se capaz de enfrentar todos os perigos. Já tem tudo preparado: um anoraque para o caso de a noite ser branca como a neve, um copo grande para o caso de ser branca como o leite, e até molas da roupa. É que um dia a mãe disse-lhe: “Raimundo, estás branco como um lençol!” Não percebeu lá muito bem o que é que aquilo queria dizer, mas não faz mal. Se a noite for branca como um lençol, ele terá de a dependurar. Raimundo pensou em tudo e não está a ver o que ainda possa fazer-lhe falta.

Durante o jantar, não pensa noutra coisa. E pensa de tal maneira, que até se esquece de comer. E como Raimundo costuma comer à glutão, a mãe fica preocupada:

— Está tudo bem, meu amor? Estás com um aspecto esquisito!

— Está tudo bem, mamã, só me sinto um bocadinho cansado.

— Terás febre? Ora chega aqui — diz ela, pegando nele ao colo.

Ai! Ai! Ai! Raimundo conhece bem aquele ar preocupado da mãe. Ela não pode pensar que ele está doente. Da última vez que teve febre, a mãe ficou ao pé dele até Raimundo adormecer, e veio várias vezes durante a noite ajeitar-lhe a roupa.

Para a sossegar, Raimundo começa a cantar e a dançar em redor da mesa.

— Não, mamã. Estão a ver? Não estou doente.

— Está bem, está bem — intervém o pai. — Parece que estás em forma. Vá, acaba lá de comer e vai para a cama!

Para não levantar suspeitas, Raimundo faz um pouco de teatro, como costuma fazer quando chega a hora de ir para a cama.

— Vamos lá, cavalheiro, fecha os olhos. Sonhos cor-de-rosa!

Depois o pai dá-lhe um beijo na testa e sai muito devagarinho.

Debaixo dos cobertores, Raimundo procura não se mexer. E não se mexe mesmo nada. Raimundo espera… espera… Boceja e espera. Tem a impressão de esperar horas. Em baixo, os pais discutem. “Mas então os adultos nunca mais vão para a cama?”, interroga-se ele. Ao fim de muito tempo, ouve-os subir as escadas. Desta vez, sim! Estava a ver que nunca mais chegava a hora. Oh, não, os pais ainda continuam a falar! Raimundo tem vontade de se levantar e de lhes dizer que se vão deitar. Pergunta-se como é que o pai e a mãe, que se vêem todos os dias, ainda têm tanta coisa a dizer um ao outro. Certamente é mais um dos segredos das pessoas crescidas!

Até que enfim: tudo parece calmo.

Raimundo levanta-se devagarinho. Fecha a porta do quarto e tira de debaixo da cama o copo, o anoraque e as molas da roupa. Agora está pronto: a noite em branco pode começar!

Em pijama, senta-se na cama e cruza os braços. Começa a ficar cansado e com os olhos a fecharem-se, mas não pode deixar-se adormecer. Então, põe-se a saltitar no quarto. Não muito alto para não acordar a casa toda.

Para passar o tempo, arruma no álbum os postais de animais e, de seguida, coloca os dinossauros por ordem de tamanho. Depois… começa a aborrecer-se.

Como ainda não sabe ler as horas, não sabe há quanto tempo está à espera. Uma hora? Duas horas? Seja como for, parece-lhe que já espera há mais de um ano. Mas Raimundo não é daquele tipo de rapazinhos que perdem logo a coragem. A noite em branco tem de ser merecida.

Primeiro, é preciso pensar. Uma vez que a noite em branco é para os adultos, não pode fazer brincadeiras de criança. Claro! Devia ter pensado nisso antes! É preciso arranjar uma actividade de gente grande.

É fácil! É… mas ao certo, ao certo, o que é que fazem os adultos quando passam uma noite em claro? Raimundo tenta recordar o que os pais lhe contaram.

Na verdade, eles não lhe contaram absolutamente nada. Nunca lhe disseram o que faziam.

Da última vez que os pais saíram, lembra-se de ter visto a mãe preparar-se. Vestiu uma saia vermelha muito bonita, muito comprida, mas, em vez de calçar sapatos, decidira calçar umas sapatilhas. Ficavam esquisitas com a saia; a mãe explicou-lhe que assim estava mais à vontade para dançar a noite toda. Pois bem, aqui está o que fazem os adultos para passar uma noite em branco: dançam! O problema é que Raimundo não sabe dançar. Às vezes, quando ainda era pequeno, andava à roda com a mãe, mas agora que já tem sete anos, não gosta muito disso. Na escola, as suas amigas dançam muitas vezes no recreio e cantam as canções que estão na moda; e para se armar em grande, Raimundo e os amigos fazem troça delas.

Esta noite, Raimundo lamenta não ter dançado também. Ajudava agora a passar a noite em branco. Mas isso também não deve ser um problema. Com um pouco de vontade, ele vai conseguir.

Raimundo liga o leitor de cassetes que lhe deram quando fez cinco anos. Põe-se a carregar nos botões todos, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, quando, de repente …reineta e maçã francesa; framboesa, framboesa vermelha… ecoou no quarto.

Raimundo até deu um salto para trás. A cassete pôs-se a tocar com o volume no máximo. Atira-se ao aparelho e desliga-o. Com coração aos saltos e o aparelho apertado contra o peito, fica à espera, mas, além do bater do coração, não se ouve mais nenhum barulho na casa.

“Isto das cassetes não é lá muito boa ideia”, diz Raimundo para consigo. Só há canções para bebés. Tem de encontrar canções como as que os pais ouvem no rádio. O rádio! É isso mesmo! No rádio passa música para os adultos!

Raimundo sai do quarto, atravessa o corredor em bicos de pés e entra no quarto de banho sem fazer barulho. A mãe adora ouvir música quando está a tomar banho. Desta vez, Raimundo tem cuidado para não pôr o som muito alto, e liga o rádio pequenino que está em cima do móvel, ao lado do lavatório.

Uma rapariga canta: A minha viiida é para te amar… nunca esquecerei os beijos apaixonados. “Não, esta não é lá grande coisa…”

De orelha colada ao rádio, Raimundo espera por outra canção. Desta vez começa forte. Um cantor grita qualquer coisa que Raimundo não entende. Deve ser inglês. Bem, pelo menos é diferente!

Raimundo serra os punhos – viu os primos grandes fazer assim – balança-se sobre um pé e sobre o outro e abana o rabo. A música vai um pouco mais rápido, mas Raimundo acha engraçado. Vira-se para o espelho, sorri, acha que não está nada mal. Depois, inclina-se para o lado e zás! Uma voltinha… Zás! Pega na escova dos dentes e põe-se a cantar. Vaze sclo flich tav… Não está a sair-se nada mal! Um jeitinho de cabeça para o lado, um saracoteio para a direita e zás! Uma voltinha! Aamo-teee , e a canção chega ao fim. Olha, afinal era francês. A seguinte é do mesmo estilo e Raimundo sente-se cada vez mais à vontade. Mas, de repente… ouve o ranger de uma porta. Lança-se sobre o rádio e desliga-o. Mas tarde demais. Ouve passos a aproximar-se e esconde-se a toda a pressa atrás do cortinado do duche.

De repente, a grande imagem do pai aparece no espelho por cima do lavatório. Raimundo tem vontade de rir ao ver-lhe a cabeça. Com os cabelos desgrenhados, o pai apoia-se na beira do lavatório, boceja ao esfregar a testa e olha para o rádio. Aproxima a cara do espelho e passa as mão pelos pêlos da barba! Como se acabasse de descobrir que tinha pêlos! Na sua idade, já devia estar habituado! Parece não só admirado mas até aborrecido com isso! Raimundo, pelo contrário gostava muito de ter pêlos, porque todos os heróis têm pêlos, toda a gente sabe disso! Se amanhã Raimundo chegasse à escola com barba grossa e preta, a Clementina já não se metia mais com ele!

Raimundo fica com vontade de rir ao imaginar a cara dos seus colegas.

Pronto. Finalmente, o pai sai do quarto de banho. Raimundo corre para o quarto e fecha a porta.

Uau! Talvez ainda não tenha visto a noite em branco mas, para já, está a ser mesmo muito engraçado! Tem pressa de voltar à escola na segunda-feira para contar tudo aos colegas.

A noite ainda não acabou… Bem, a dança foi um fracasso, e agora é preciso encontrar outra coisa. Raimundo dá uma volta pelo quarto. Os dinossauros: estão arrumados! O álbum de animais: está tudo pronto!

Sentado em pijama em cima  da cama, Raimundo pensa, pensa… Quase que adormeceu! Ora deixa cá ver, pensa ele, o que é que os adultos podem fazer mais para passar uma noite em branco, além de dançarem?

Bebem champanhe, pois claro! Na última passagem de ano, os pais foram festejar e levaram uma garrafa de champanhe! Mas é evidente que Raimundo não vai beber champanhe! Um copo de leite, isso sim! Pega no copo que tinha preparado para a sua noite em branco e sai do quarto.

É a primeira vez que se aventura sozinho pela casa, durante a noite. Tem de descer as escadas às escuras, se não quer acordar os pais. Vá, coragem, Raimundo, a casa é a mesma quer esteja iluminada pela lua ou pelo sol.

Mas, ao fundo do corredor, Raimundo fica estarrecido de medo. Dá de caras com uma espécie de gigante com tentáculos, pronto a deitar-lhe as mãos ao pescoço!

Desta vez acabou tudo, nunca mais vai ter uma noite em branco, nunca mais vai ver o novo desenho animado do seu herói preferido, o Musculator Hypertronique, o regresso; nunca chegará a conhecer a irmã grande de Antonino que, segundo dizem, é super-bonita, nunca mais vai ganhar ao pai no xadrez… Vai acabar comido por um monstro. E aos sete anos, não tem graça nenhuma!

O monstro continua imóvel. De tal forma imóvel, que parece morto. Sim, morto, morto de medo, se calhar. Aos poucos, os olhos de Raimundo vão-se habituando à escuridão, e o monstro, visto mais de perto, parece cada vez mais um… um… candeeiro.

Não é um monstro. É aquele horrível candeeiro de pé alto que o tio ofereceu aos pais no ano passado. Com três grandes braços que saem de uma plataforma oval e, na extremidade de cada um, um grande globo prateado.

É a terceira vez, desde o início da noite, que Raimundo tem a impressão de que o coração lhe vai parar. E diz-se mesmo “ficar branco de medo”! É que a noite em branco pode ser isto: ter medo a noite toda. E assim seria muito menos divertido do que o previsto.

Passado o susto — afinal ainda tem possibilidade de vir a conhecer a irmã grande do Antonino — Raimundo desce as escadas e senta-se na cozinha para ganhar fôlego.

Afinal, é giro ser grande e não ter medo de passear pela casa fora, a altas horas da noite!

Abre o frigorífico e pega na garrafa do leite. Enche um copo grande, bebe, volta a encher, bebe de novo, e pergunta o que é que pode ir fazer a seguir.

Raimundo não sabe que horas são. Mas de uma coisa tem ele a certeza: nunca foi tão tarde para a cama. Pergunta-se o que mais poderá reservar-lhe ainda uma noite em branco!

De regresso ao quarto, Raimundo põe-se à janela. Trouxe um copo de leite e bebe-o a olhar para o jardim iluminado pela lua. Tudo parece tão calmo, tão tranquilo.

De repente, um grito na noite fá-lo arrepiar-se. É uma coruja! Mas o grito era tão lancinante que Raimundo entornou o leite todo pelo pijama abaixo! Não haja dúvida, passar uma noite em branco dá que fazer.

Como vai ele explicar à mãe o facto de o pijama estar todo molhado? Ela vai de certeza pensar que ele fez chichi na cama. Mas isso está fora de questão! Raimundo corre para o quarto de banho — agora já não tem medo nenhum de passear no escuro — e leva o secador de cabelo para o quarto.

Despe-se num ápice e, com as molas, prende o pijama na barra da cama e põe-se a secá-lo.

Ainda bem que ninguém o vê! Tem ar de malandro, no quarto, com o secador de cabelo na mão! Se a isso se chamasse “uma noite em vermelho” ainda poderia entender, porque naquele momento estava vermelho de vergonha.

Raimundo continua sem saber o que é uma noite em branco. E pior ainda, começa a sentir frio. Enfia o anoraque e senta-se aos pés da cama. O pijama continua húmido. Raimundo já começa a ficar farto! Toda aquela trabalheira para nada!

Um pouco desiludido, volta para a janela. Lá fora, a lua brilha e, ao fundo da rua, Raimundo vê uma luz branca…muito longe, pequenina. Repara melhor e concentra-se.

Sim, não está a sonhar, há de facto, ao longe, uma luzinha branca. Doido de alegria, Raimundo fixa-se no ponto luminoso. Fixa-o até lhe doerem os olhos, mas a luz não se mexe. Está lá, distante.

Se calhar é um candeeiro de rua. E daí, talvez não!

E se afinal fosse aquilo a noite em branco? Se fosse aquela luzinha que se vê quando está noite escura lá fora?

E porque é que não há-de ser? Raimundo não tem bem a certeza, mas parece-lhe que começa a ter sono. Estende-se na cama, com os braços cruzados debaixo  da cabeça, como vê o pai fazer muitas vezes, e põe-se a pensar. E se ele decidisse, sozinho, como um adulto, que aquela luzinha era a sua noite em branco?

Para poder descobri-la passou por muitas provas. Aprendeu a dançar, a passear no escuro sem ter medo, a desenvencilhar-se sozinho, ficou um pouco mais crescido nesta noite, na sua noite em branco, que foi bem merecida!

E como uma noite em branco é uma espécie de segredo, aquela noite vai ser o seu segredo!

Ao adormecer, Raimundo decide que, quando for mais crescido, há-de voltar a fazer o mesmo, mas desta vez com um amigo, para partilhar um segredo a sério, e talvez para crescerem juntos!

Barnier Armelle

La Nuit Blanche de Raymond

Arles, Actes Sud Junior, 2004

Tradução e adaptação

A menina e o pássaro encantado

A menina e o pássaro encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
Tenho de ir dizia.
Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
Eu também terei saudades dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
Que bom pensava ela o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

* * *

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

Lídia – Nuno Higino

Lídia

Lídia era bonita porque tinha um nome bonito e porque a uma história de Natal convém uma menina bonita. Vivia num apartamento muito alto, voltado para o mar. Tinha um quarto onde dormia, um quarto onde estudava e um quarto onde brincava. Este era o mais bonito de todos. Tinha imensos brinquedos vindos das mais diversas partes do mundo. Tinha brinquedos com música dentro, daquela música duma melodia finíssima e límpida, como uma filigrana. Tinha brinquedos de onde saía uma música que parecia vir de dentro da terra, espessa, distante, quase triste. Tinha brinquedos que exalavam música como se nascesse nas altas montanhas, rarefeita e leve, trazida em asas de condor.

Todos estes brinquedos alegravam Lídia que, muitas vezes, chamava os seus amigos e, no fim da escola, ficavam ali a brincar, a olhar o mar e a ouvir aquelas músicas que saíam de dentro dos brinquedos.

Os pais de Lídia eram viajantes e raramente estavam em casa. Aliás, a sua casa era o avião, tantas as vezes que voavam de cidade para cidade, de continente para continente. Mas quase todos os dias telefonavam a Lídia, perguntando se estava bem e prometendo mais um presente para o regresso. Lídia ficava feliz com os telefonemas, mas quando desligava o telefone, pensava: “Eu gostava tanto de ter os meus pais sempre à minha beira. Gostava tanto que os meus amigos os conhecessem melhor. Gostava tanto de adormecer a seu lado ou acordar com os seus beijos…”

E assim ficava muito tempo suspensa na recordação dos pais. Uma vez ou outra não conseguia evitar uma lágrima mais atrevida. Mas tudo passava e quando os pais regressavam, Lídia matava as saudades, abraçava-os muito, ia com eles jantar fora ou a casa de algum amigo. Só não gostava quando esses encontros eram com pessoas que chegavam sempre atrasadas, passavam a refeição a falar pelo telemóvel e não lhe ligavam importância nenhuma. Se calhar não tinham filhos nem podiam perder tempo com as crianças. Eram homens de negócios.

Regressavam a casa e, logo de seguida, novamente tinham de partir.

— Amanhã sairemos cedo para um país distante…

— Que país é esse? — perguntava Lídia.

— É um país onde há muitas crianças pelas ruas: umas a trabalhar, outras a mendigar, outras a olhar para quem passa. É um país muito grande e muito pobre. Os meninos não têm casa como a nossa, nem escola, nem brinquedos.

— E pais, têm pais? — perguntou Lídia.

— Muitos têm pais, mas são tão pobres, tão desprezados pela vida, que é como se não tivessem.

— Mas eu pensei que vocês só faziam negócios com países ricos, que com os pobres não se negoceia…

— Também fazemos negócios com os ricos, mas, negociando com os pobres, podemos ganhar mais dinheiro, e assim tu terás sempre mais e mais brinquedos.

No meio das conversas, Lídia acabava por adormecer e de manhã, quando acordava, já estava a casa novamente vazia. O que lhe valia é que tinha muitos amigos, com os quais ia tornando menos duras as prolongadas ausências dos pais. Mas o pior foi quando, ao aproximar-se o Natal, Lídia soube pela mãe que tinham uma viagem importantíssima. Por isso não podiam passá-lo em casa.

— Mas nesse país, as pessoas fazem negócios no dia de Natal? — perguntou Lídia.

— Sabes — respondeu-lhe o pai — nesse país o Natal é um dia como outro qualquer. As pessoas têm outros costumes, outra cultura, outra religião.

— Eu pensei que o Natal era Natal em todo o mundo… — disse Lídia com desencanto.

A conversa ficou por ali. Mas Lídia, apesar da tristeza, começou a sonhar com a noite de Natal em casa dos avós. Viriam os primos: a Teresa, a Helena, o Miguel, a Ana e o Luís. Lídia queria fazer-lhes uma surpresa.

Pensou durante alguns dias e, uma noite, teve uma ideia: “Já sei. Vou fazer um teatro em verso.”Lídia gostava de escrever versos e foi escrevendo no seu caderno os versos para o presépio. Mas não os mostrou a ninguém para poder fazer uma surpresa.

Quando chegou a noite de Natal, toda a família se juntou em casa dos avós. Era uma casa muito grande com um terreiro cheio de árvores, umas que tinham folhas todo o ano, outras que no Inverno ficavam todas despidas e à noite pareciam fantasmas gigantes com uma só perna e muitos braços. Entre as árvores havia canteiros de arbustos e plantas. A noite estava de tempestade: a chuva e o vento pareciam dançar uma dança violenta e desconcertada. Os ciprestes que estavam nos cantos do terreiro vergavam-se tanto que pareciam bailarinos em fúria. Mas, na alegria daquela noite, ninguém ligava nada à tempestade.

A consoada era na sala maior: uma sala cheia de brilhos que, reflectidos no espelho ao fundo, a tornavam ainda mais brilhante. Quando a porta de vai-e-vem que dava para a copa se abria, vinham os aromas do Natal e via-se a azáfama das pessoas que estavam na copa e na cozinha e andavam de lado para lado.

Quando todos já tinham consoado, Lídia chamou os primos ao andar de cima e explicou-lhes o seu teatro de verso.

— Todos têm de decorar o seu verso — disse.

Seguiu-se um grande alvoroço com cada um a disputar o seu verso preferido. Quando chegaram a acordo, ensaiaram durante algum tempo e, por fim, desceram, cada um muito senhor do seu papel.

Puseram-se por detrás de um biombo que havia na sala e Lídia pediu silêncio.

— Senhoras e senhores, vamos apresentar: Versos para o Presépio. Ouviram-se palmas, muita excitação e depois fez-se silêncio.

No rosto de todos havia um sorriso de felicidade e curiosidade. Cada um foi saindo na sua vez e dizendo o verso que lhe competia:

Vejo no céu uma estrela
Muito bela.
Navega num mar de prata
Vou com ela.
O seu destino é Belém
Vou também.
Levo flores neste raminho
Para o Menino.
Eu levo um brinquedinho
Para o Menino.
Eu não tenho que levar
Mas vou e oferecerei
Estes versos de cantar.

E todos remataram em coro:

Com as flores e o brinquedo
E estes versos de cantar;
Com a estrela sobre a gruta
E os pastores a dançar,
Meu Menino de Belém
Dança connosco também.

As palmas encheram a sala e parece que os seus brilhos se multiplicavam, dançando nas paredes, no ar, em todos os sítios. Se não fosse a ventania que atirava a chuva contra as portas e as janelas, todos pensariam que, lá fora, o céu era realmente um mar de prata, cheio de estrelas e calmaria.
Ana, que era a mais pequena, não se cansava de saltar, enquanto repetia o seu verso: vou com ela…vou com ela…vou com ela…

Durante um tempo manteve-se este ambiente de excitação e alegria. Tanto mais que, de seguida, foi a distribuição das prendas. Da árvore de Natal cada um foi recebendo os seus presentes: jogos, bonecas, livros de histórias, puzzles, carros telecomandados e até um computador. De todos os presentes que recebeu, Lídia gostou sobretudo do que lhe foi deixado pelos pais: um presépio esculpido em madeira com um Menino negro, sorridente e acariciando o focinho do burro que lhe estava ao pé. Lídia sempre vira o Menino Jesus, branco, deitado nas palhas. Aquela imagem trouxe-lhe à lembrança os meninos negros que tantas vezes via na televisão, esqueléticos, de grandes ventres e um olhar raso de resignação, um olhar de quem foi vencido pela humilhação da fome e do desprezo. Lídia como que ficou ausente da sala, alheia à excitação geral.

Entretanto, veio uma ordem para os meninos se irem deitar. Contrafeitos, lá foram subindo com os seus presentes. Aos poucos, o silêncio foi tomando toda a casa.

Lídia não tinha sono. Quando entrou no seu quarto, sentou-se junto à janela, abriu as portadas, puxou a cortina, colocou o presépio no peitoril e ficou a olhar a tempestade. O vento continuava a agitar as árvores com violência, soltando gemidos tremendos e esmagando a chuva contra as paredes, os muros, as janelas. Mais ao longe, o mar rosnava feroz. Mas, mesmo assim, a sua voz tinha beleza, uma beleza inexplicável.

Lídia encostou o rosto na vidraça para sentir a fúria da tempestade. E pensou nos pais. E pensou nos meninos a quem a miséria roubou o Natal. E pensou que também na sua cidade havia meninos pobres. Mas moravam do outro lado da cidade. E teve vontade de fazer como a menina que conhecia de uma história. Chamava-se Joana e, na noite de Natal, foi levar os brinquedos que recebera ao seu amigo Manuel, que morava do outro lado do pinhal e não ia ter prendas na noite de Natal [A Noite de Natal, Sophia de Mello Breyner Andresen]. Mas Lídia não tinha nenhum amigo pobre. Na sua escola não havia meninos pobres. No seu prédio não havia meninos pobres. No seu bairro não havia meninos pobres. Lídia só conhecia os meninos pobres de que lhe falavam os pais, ou os que via na televisão, ou os que moravam do outro lado da cidade, junto ao rio, ou os que, no Verão, vinham arrumar automóveis na praia que havia em frente à sua casa.

Lídia estava muito triste por não poder vencer esta distância entre si e os meninos pobres e por nada poder fazer para alterar a ordem do mundo. E perguntou-se: “Será que os pobres hão-de ser sempre pobres…?” Desencostou o rosto da vidraça e pegou no presépio. Aconchegou-o no colo e acariciou o Menino. Do andar de baixo vinha um ruído distante de talheres e cristais e vozes indistintas. Mas novamente se encostou à janela a ver, ouvir e sentir a tempestade. E, embalada na música da tempestade, Lídia começou a sentir sono. Levantou-se da cadeira, correu a cortina, fechou as portadas, beijou o seu Menino negro, deitou-se e adormeceu.

Natal de 1996

Nuno Higino
A mais alta estrela – Sete histórias de Natal
CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000
Adaptação

Viver com as fadas. Entrevista com Vítor Quelhas

Sofia Barrocas
in: Notícias Magazine
11 de Abril de 2004

Texto adaptado

Viver com as fadas

Entrevista com Vítor Quelhas*

Os contos de fadas abrem-nos as portas para o mundo dos sonhos, mas não só. São importantes para manter acesa a chama do inconformismo, da inquietação, no fundo para formar cidadãos capazes de perceber que a realidade nem sempre é aquilo que parece. E que está nas nossas mãos a possibilidade de transformar essa mesma realidade. Vítor Quelhas tem dedicado parte da sua vida a garantir que a tradição dos contos não se perca.

 

O que são contos de fadas?

Foram os franceses, no século XVII, a criar o termo conte de fée, ou conto de fadas, que depois vem a dar em inglês o fairy tale. Antes disso, o conto de fadas não existia propriamente. Havia contos de tradição oral, sobretudo no Centro da Europa, que iam buscar, de forma muito dispersa, elementos ao mito, às grandes tradições religiosas, a simbólicas de vários tipos, à literatura antiga, à medieval. São contos que evoluem de uma série de elementos sincréticos, que se vão desenvolvendo e constituindo em narrativas. A partir do século XVII emergiu uma tradição erudita do conto de fadas, que ganha força com contadores de histórias como Charles Perrault, que a recolhem a partir da tradição oral e a reescrevem. O conto de fadas moderno, tal como o conhecemos, tem origem nessa tradição erudita, promovida por pessoas como Perrault, os Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen. Deste modo, passou a ser uma forma de cultura elaborada e deixou de ser uma mera literatura oral cultivada e transmitida sobretudo pelas populações rurais, tornando-se uma cultura de salão.

E eram lidos ou contados?

Nessa altura passam também a ser escritos, o que se deve à invenção da imprensa, no século XV, e à crescente alfabetização. As classes elevadas aprendem a ler e tornam-se capazes de reproduzir, porque se tornou moda, as narrativas orais por escrito.

Como caracteriza o conto?

Nos contos de tradição oral europeia há dois tipos de componentes: um, puramente oral, que tem a ver com eventos locais que são fantasiados e contados como histórias fabulosas, de pasmar. E outro, com as narrativas populares, que aglutinaram imaginários religiosos e simbólicos, cristãos e pré-cristãos, mitos provenientes da Antiguidade, enraizados na mitologia céltica e greco-romana, que se constituem como narrativas autónomas, não necessariamente ligadas ao que acontece, ao que se conta de forma efabulada. Interessante na tradição estritamente popular do conto é a falta do elemento feérico, encantatório. A tradição oral popular portuguesa, por exemplo, é constituída por narrativas curtas, muitas vezes cruas, pragmáticas, despojadas do elemento feérico, profundamente mágico.

Sem fadas, duendes, magias?

Nada como nos contos de Grimm ou de Andersen. Têm personagens de tipo diferente, quase prosaico, que têm muito a ver com o universo do conto português. Coisas espantosas, como as almas penadas, a bruxa, a moira, o lobisomem, o olharapo, típicas do imaginário popular português, mas que não são exactamente a bruxa, a fada, os animais de que falam os contos feéricos. São mais personificações das fantasias e medos da aldeia.

Isso é específico de cada cultura ou há elementos comuns nas diversas culturas?

A Índia, a China, assim como as culturas africanas e latino-americanas, têm contos populares espantosos. Aí, o conteúdo simbólico, arquetípico, é muito forte, porque esses contos normalmente são versões populares de problemáticas de carácter religioso, iniciático e filosófico que em parte se encontram também nos Grimm.

As que sempre ocuparam a cabeça dos homens…

De onde viemos, quem somos, para onde vamos. Há toda uma tradição popular que veicula esse questionamento universal. E depois há a que veicula apenas os fantasmas e as fantasias pessoais, os medos e superstições de uma comunidade local. São coisas diferentes. Esta última é feita de efabulações, que tendem a gerir tabus, interditos, morais estreitas, o que a aproxima muito da fábula.

Há diferença entre a fábula e o conto de fadas?

A fábula tem uma «moral da história», o conto de fadas não. Os contos de fadas propõem uma descoberta ética, e por isso não aparece a problemática da formiga e da cigarra…

A fábula também vem da tradição oral?

Vem. A tradição oral tipicamente portuguesa tem muito de fábula: quer ser educativa, dizer às pessoas o que elas devem ou não fazer, tende a veicular uma moral, um comportamento social. Ao passo que o conto de fadas não, subverte aquilo que se chama não somente a cultura estabelecida mas a ordem racional estabelecida. Quando se começa por «Era uma vez» coloca-se a criança no domínio do intemporal, do não- tempo, onde tudo é possível, a Terra do Nunca onde Peter Pan gostava de levar os amigos e mostrar-lhes uma nova dimensão das coisas, outra ordem de possibilidades…

De onde ele nunca queria sair…

Porque é tão mágica, tão fabulosa, tão maravilhosa, encanta tanto, que remete para uma realidade paralela. Essa realidade paralela é, no fundo, o outro lado das coisas, a realidade criativa e paradoxal dos nossos sonhos – por isso é que a psicanálise se interessou pelo conto…

Os contos são para crianças ou para adultos?

As narrativas populares não são especificamente para crianças, embora tenham um elemento de sedução muito forte para elas – que estão muito mais próximas deste imaginário, do inconsciente arquetípico, da imaginação activa. E os adultos também adoram essas narrativas precisamente porque os introduzem nesse elemento que tende a ser esquecido pelo adulto com a socialização, a aprendizagem excessivamente dirigida e a extrema especialização social – no fundo, a racionalização do significado das suas relações sociais, de uma imagem do mundo unívoca, da forma como sente, como pensa. Por isso, o acesso ao arquetípico só se faz através do sonho ou da experiência psicótica – o que neste caso é uma patologia.

Precisamos de magia?

O feérico dos contos tem a ver com a imaginação e a criatividade. Não basta imaginar que uma coisa pode ser diferente. Tenho de ter a convicção de que posso introduzir nos acontecimentos essa diferença. É isso que o conto de fadas nos traz. Mais, nestes contos existe uma dimensão ética, um entendimento em liberdade. Impedem que sejamos transformados apenas em instrumentos institucionais, preserva o espaço do indivíduo. São importantes para mantermos a chama do inconformismo, da inquietação, e isso é fundamental para uma cidadania sadia que, creio eu, começa com os contos de fadas, com o maravilhoso, com a capacidade de dizer que as coisas podem ser diferentes e que nem sempre são o que parecem.

Bettelheim, na Psicanálise dos Contos de Fadas, fala da função estruturante do conto, da noção de bem e de mal em relação às crianças. O Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau, a conotação sexual que as personagens podem ter…

No caso da psicanálise dos contos de fadas existem duas tendências: a de tipo Bruno Bettelheim, que faz a análise dos contos pelo seu lado melhor – psicológico, antropológico, sociológico –, e que vai buscar a psicanálise não freudiana clássica do género «o Capuchinho Vermelho tinha um capuchinho vermelho porque representa a primeira menstruação da menina, e o lobo come-a». E a chamada psicanálise tradicional dos contos de fadas que é fortemente freudiana, altamente redutora, onde tudo é remetido para uma simbólica libidinal. Para esta, os contos de fadas são metamorfoses do imaginário da libido. Já Bettelheim vai mais longe. Ele abre a análise dos contos à dimensão do sonho, ao inconsciente, ao símbolo, no sentido antropológico das várias escolas de psicanálise, nomeadamente junguianas. É um universo respirável. Quando se lê a análise dos contos de fadas de Bettelheim aprendemos bastante sobre nós. Mas se apenas se lê as análises redutoras do conto de fadas em termos excessivamente freudianos (de matrizes redutoras) não se vai longe no auto-conhecimento.

E matamos o conto…

Completamente. Perdemos o direito à magia, no sentido imaginativo e criativo do termo. Há um elemento importante no conto: a relação entre emoções positivas e negativas. A criança, quando se conta um conto de fadas – esses onde ainda existe emoção primordial e crueldade primitiva, como é o caso dos de Perrault ou dos dos Irmãos Grimm –, identifica-se com o herói ou com a heroína, seja rapaz ou rapariga. Isso joga com a ambivalência sexual da criança, com a capacidade de lidar com o feminino e o masculino dentro de si. E há outro aspecto: o conto cria um cenário, a história, em que o herói se movimenta, e a criança, ao identificar-se com o herói, evolui nessa proposta de viagem, nessa demanda…

É uma viagem iniciática…

É. O herói vai passar por determinadas aventuras, onde se confronta com o seu próprio eu e não com a moral pré-estabelecida. Quando a criança pergunta «O lobo é mau?», o contador deve sempre dizer: «O que é que tu achas?», deixando-lhe a liberdade de descobrir. Muitas vezes a criança identifica-se com o lobo e quer saber por si própria como é e porque motivo mataram o lobo.

Houve tentativas de os tornar «politicamente correctos»

Isso destrói o conto de fadas, porque o importante é que o herói – o eu da criança – se movimente numa determinada realidade que lhe é dada pelo conto, e que tem semelhanças com a realização dos nossos sonhos. Quando sonhamos somos heróis do mundo onírico, fazemos um determinado percurso e é aí que o risco e o inconfessável vêm à superfície – e temos de lidar com ele. Quando se conta um conto de fadas, a narrativa provoca efeitos na criança. A tensão aumenta, e depois segue-se uma solução e a criança experimenta o alívio, por exemplo. Quando uma criança ouve com atenção o verdadeiro conto de fadas, tudo nela acompanha o conto: a acuidade neuro-sensorial, o ritmo cardíaco, a respiração. Nesse sentido, o conto desempenha uma função muito estimulante e integradora. As narrativas confrontam a criança com dualidades: o ódio e a compaixão, a culpa e o perdão, a tristeza e a alegria, o medo e a coragem, a confusão e a lucidez, a mentira e a verdade. Mas o conto de fadas não diz o que é mentira ou verdade, é a criança que tem de lidar livremente com esse material.

É preciso saber contar

Os adultos não têm histórias relevantes para contar às crianças, não sabem contos que as seduzam, que lidem com o imaginário delas. Um conto de fadas nunca deveria ser lido. O adulto deve aprender o conto e depois contá-lo, de viva voz.

O que os torna tão importantes?

É saber que dentro de mim estão todas as personagens dos contos de fadas e que eu próprio sou um herói de mil faces, sempre em demanda de significado, superação, maturidade. É este herói em nós que está por detrás das nossas decisões, afectos, sonhos. A criança começa muito cedo a lidar com as fantasias e as emoções ligadas ao desejo. A força estruturante de um conto de fadas é o desejo de o herói levar um certo percurso até ao fim. Passar por desafios que tem de superar, como o medo – veja João e o Pé de Feijão: o gigante que está nas nuvens, o João vai lá e rouba ao gigante uma série de objectos simbólicos. A força do gigante representa essa força primordial do desejo, muitas vezes de uma tremenda crueldade, a força do instinto de posse.

A Bela e o Monstro… é quase óbvio

Exactamente. Mas a criança é convidada a lidar com isso. E com o universo das metamorfoses, quando a criança é levada a tratar com afecto e compaixão uma criatura disforme. Em A Bela e o Monstro, ela nunca supôs que por baixo do monstro de aparência terrível havia um príncipe encantado. E percebe que se eu não conheço o outro, se não dou tempo a que o outro se transforme perante mim, então não posso ter uma relação correcta com ele. Não posso julgar as coisas pela sua aparência. Lidamos com uma coisa que depois se revela como sendo outra. E há, sobretudo, a capacidade de amar e de respeitar a diferença, a compreensão de que o afecto e a compaixão provocam metamorfoses na relação com o outro.

Os contos podem ser violentos para uma criança

Claro que sim. Há coisa mais violenta do que o caçador apanhar o lobo, abrir-lhe a barriga, enchê-la de pedras e depois atirá-lo para o rio? Mas não se deve caramelizar os contos: omitir a crueldade, o amor, a morte. São experiências fundamentais para a criança. Aprender a lidar com a morte como impermanência, com o fim das coisas, perceber que a realidade muda continuamente e que é possível lidar com isso.

Há também a sereiazinha, que troca a voz pelas pernas e cada passo que dá em direcção ao príncipe é extremamente doloroso

Esse é o preço a pagar. O crescimento, a aquisição das faculdades de inteligência, de emoção, de actuação, de acção pressupõem transformações. Alguma coisa tem de ser deixada para trás, é o crescimento dialéctico no conto de fadas. Não podemos continuar a ser Peter Pans e há coisas que temos mesmo de rejeitar para crescer. Os contos de fadas têm a ver com todos esses desafios, tratam arquétipos do crescimento: o medo, o confronto, a superação. O herói da história tem de arranjar soluções para tudo e a criança descobre possibilidades de enfrentar o seu medo como uma coisa natural.

Está a perder-se a tradição dos contos de fadas?

Hoje prefere pôr-se a criança em frente à televisão do que contar- lhe uma história. E os adultos também têm uma relação estranha com o tempo. Acho que a maior parte dos adultos tem um problema complicado que é não saber lidar com o seu próprio crescimento. Eu, como toda a gente, faço montes de coisas. Mas uma coisa é certa: tenho tempo para contar contos de fadas ou para escutar alguém que diga que precisa de falar comigo. Sou capaz de rupturas para isso. Quando abdicamos de imprevistos, de espaços novos na nossa vida, começamos a caminhar para a morte. Porque não conseguimos introduzir vectores de criatividade, de novidade nas nossas vidas. O conto de fadas convence-nos de que somos capazes de criar essas rupturas.

Temos mesmo de ter tempo para os contos

Bettelheim fala muito nisso: a disponibilidade do adulto para contar uma história a uma criança é também uma disponibilidade para si próprio, ou seja, há uma interacção de disponibilidade entre a disponibilidade da criança e a do adulto e isso é muito importante. Habituarmo-nos a que há momentos mágicos em que toda a disponibilidade pode ser restabelecida, a interacção do contar em que a criança e o adulto podem encontrar ao mesmo nível essa disponibilidade primordial de cada um de nós. É esse momento feérico em que tudo é possível, em que as coisas mais abstrusas, mais medonhas, mais terríveis, podem encontrar solução. Numa época em que estamos a ser submersos pelo pessimismo face à tragédia do mundo, isso ainda é mais relevante.

Essa tragédia sempre existiu…

Mas hoje entra-nos pela casa dentro. Devemos conduzir a criança para esse mundo de disponibilidade e dizer-lhe: «Será que a história do mundo pode ser contada de outra maneira? Será que a realidade pode ser reinventada?» Não tanto do ponto de vista da economia do problema, mas das soluções. O conto de fadas remete para soluções e não para problemas sem saída. Às crianças não lhes interessa o problema, mas a solução.

O que sugere aos pais?

É mais interessante fazer com que a criança recrie a narrativa do que darmos-lhe isso como uma coisa materialmente estática – caso do livro que está ilustrado. As crianças devem imaginar a sua bruxa, o seu gigante, o seu lobo, a sua noite, o seu dia, a sua lua, os seus medos, a sua coragem – cada criança viverá isso de maneira específica. Mostrar a um grupo «estão a ver como é?» é empobrecer essas crianças, é contribuir para as tornar cidadãos obtusos, porque foram habituadas a ter apenas uma imagem das coisas dadas, tornam-se seres conformados. Deste modo não são capazes de ter a sua versão dos acontecimentos, não são habituados a essa diversidade de reacções perante a mesma coisa, e ao respeito que as pessoas merecem por sentirem de maneira diferente e assim potenciarem soluções diferentes para a mesma coisa.

Acredita em fadas?

Daquelas fadinhas tipo Sininho, claro que não. Mas acredito que os nossos sonhos são povoados por seres fantásticos – pois há em nós elementos de carácter psicológico e emocional inconsciente e arquetípico, toda uma simbólica que acaba por se reflectir, de forma viva, nas nossas relações com o mundo. Atrás de cada objecto experimentado por nós, por mais inanimado que seja, há, de certa forma, uma consciência viva. O universo em que se vive somos nós que o fazemos, metamorfoseamos uma realidade que aparentemente é estática e animamo-la com o nosso imaginário. E o que é que acontece? Uma coisa é eu olhar para uma porta que é um objecto inanimado. Outra é sonhar com uma porta que se abre e dá acesso a um elemento irracional e simbólico: a porta que me leva para um outro mundo, para uma realidade diferente. Há elementos de carácter mágico-religioso nos nossos sonhos, que correspondem um pouco a essas portas que se abrem no conto de fadas, a esses seres pequeninos que servem de guias nas nossas aventuras.

*Vítor Quelhas, 58 anos, nasceu e cresceu num universo de contos de fadas. A mãe, Maria José Martini, que nunca deixava os filhos adormecerem sem lhes ler um conto, foi a primeira ilustradora de contos para crianças em Portugal, criando as Historinhas da Dona Dunga da Lello Editora. Jornalista há 35 anos, Vítor Quelhas interessou-se sempre pelo universo destes contos, conviveu durante a infância com as contadoras de histórias da Beira Alta, fez diversas recolhas da tradição oral pelo pais. Aos 20 anos foi para o Brasil, esteve depois em França e Inglaterra, onde fez um curso de Educação pela Arte. Explica que o conto de fadas é uma espécie de continha da minha actividade. Sempre que posso, contribuo para a sua divulgação, com narrativa directa junto de escolas, de educadores, de comunidades de adultos, de crianças. Participou num teatro de fantoches que ilustrava contos de Grimm. Há 12 anos fundou com outras pessoas a Associação Hermes para promoção dos contos de fadas.

Retirado de: Sonhar o Passado: a importância do conto de fadas

A menina dos fósforos

A menina dos fósforos

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.

Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.

Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.

Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.

«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»

Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!

— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.

Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.

Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.

Hans Christian Andersen
Os melhores contos de Andersen
Editora Verbo, s/d

Adaptação

Retirado de: Preparando o Natal

A árvore que cantava

A árvore que cantava

Era Janeiro, uma daquelas manhãs claras e secas que fazem lembrar velhos montanheses de bigodes gelados e olhos piscos do sol. Nevara. Grandes e densos flocos tinham caído durante toda a noite. Depois, com a chegada do dia, um forte sopro de vento norte limpou o céu.

A floresta, que começa atrás da casa e se estende pela montanha, estava completamente adormecida, envolta num grande silêncio gelado. Por entre as árvores estendiam-se sombras azuis. Os pinheiros vergavam sob a carga da neve, pois o vento da madrugada soprara apenas o suficiente para afastar as nuvens.

Isabel e Gerardo viviam ali, junto do bosque, em casa dos avós. Era uma casinha cinzenta de portadas verdes. Lá longe, na margem gelada da ribeira, ficava a aldeia, que mal se via naquela manhã, bem como o caminho que seguia ao longo dos campos e atravessava a pradaria.

Da janela, as duas crianças esforçavam-se por segui-lo com o olhar. Viam-no bem até à primeira curva, junto do grande ácer morto há dois anos, e que o avô ainda não tinha decidido cortar, mas, para lá dele, tudo se confundia.

Enquanto estavam assim, de nariz colado ao vidro, Isabel e Gerardo viram passar um pássaro, depois outro e depois um bando que se empoleirou na ramada fazendo cair montinhos de neve.

— Estão com frio — disse Isabel. — É preciso dar-lhes sementes ou pão para eles comerem.

Arranjou alguns grãos e Gerardo abriu a janela.

— Fecha depressa — gritou o avô — que o Inverno vai entrar-nos pela casa dentro!

As crianças puseram-se a rir. Como se o Inverno pudesse entrar numa casa!

Isabel atirou os grãos para a vereda que o avô tinha varrido para poder ir buscar lenha. A avó pôs-se a tossir e levantou as tampas redondas do fogão para lá meter um enorme cavaco. Depois de fechada a janela, dois pássaros desceram da latada. Os outros pareciam inquietos mas, ao verem que nada se mexia, voaram também, enquanto outros desciam do telhado, direitinhos, quase sem baterem as asas.

— A comida não vai chegar para todos — disse Isabel. — Estão a vir cada vez mais.

— Chega! Já chega! — gritou a avó. — Se lhes deres tudo, as minhas galinhas é que vão ficar sem nada!

— E se continuas, vais atrair todos os pássaros da floresta — disse o avô exagerando.
Isabel lá se conformou e voltou para a janela. Ficou bastante tempo ao lado do irmão, limpando o vidro embaciado quando deixava de conseguir ver. De repente, agarrou no braço do irmão e disse, apontando:

— Olha para o caminho!

Gerardo levantou os olhos. Ao fundo, para lá do ácer morto, um curioso animal avançava sobre a neve. Parecia o coelhinho de corda mecânico que o Pai Natal tinha trazido a Gerardo, alguns anos atrás. Saltitava, vacilava da direita para a esquerda e parava a todo o momento, exactamente como o brinquedo. Estava vestido de pêlo cinzento e tinha orelhas compridas, que se tocavam no cimo da cabeça, tal e qual o coelho.

Esta aparição era tão surpreendente que as crianças esqueceram as aves e ficaram de boca aberta a observar aquele estranho animal cujos olhos, por vezes, reflectiam luz.

Quando o coelho, que caminhava apenas com as patas de trás, chegou junto da sebe que circundava o jardim, as crianças só lhe viram a cabeça.

— Parece que vem para aqui! — murmurou Gerardo.

— É verdade! Está a contornar o jardim.

O coelho desapareceu e seguiu-se um longo silêncio angustiante. As crianças sustinham a respiração, à escuta. Em breve ouviram-se passos no degrau de pedra, e os pássaros voaram tão rápido que as crianças se assustaram.

— Não ouviram nada? — perguntou o avô.

Os dois pequenos abanaram a cabeça.

— O que poderá ser? — disse a avó. Àquela hora o carteiro ainda estava longe. Os avós não tinham visto nada da estranha figura e os pequenos não ousavam responder. Não podiam dizer: “É um coelho mecânico, grande como um homem, que vem sozinho e está a bater as botas na soleira da porta!”

Sentiu-se ainda um roçar na parede, depois ouviu-se bater à porta. Os avós olharam um para o outro e depois para a porta. Como voltaram a bater com mais força, o avô gritou por fim:

— Entre!

A porta abriu-se lentamente e uma baforada gelada entrou na cozinha. Desta vez era o coelho quem trazia o Inverno no pêlo cinzento. Porque era mesmo ele que se encontrava ali, de pé, na soleira da porta, surpreendido com o calor e o cheiro do lume onde se cozinhava carne de coelho verdadeiro.

A avó correu a fechar a porta. E não é que o coelho se põe a falar!…

— Bom dia, bom dia — disse ele. — Venho muito cedo, desculpem, mas…

Os pêlos cinzentos afastam-se à altura do rosto, aparecem uns grandes óculos, depois um nariz muito vermelho, depois uns bigodes espetados como uma vassoura de crinas de cavalo e a seguir uma cara de barba branca, parecida com a do avô.

— Mas, é o Vicente! — disse o avô, admirado. — É o Vicente!

E era verdade! Era mesmo o Vicente. E só quando tirou o boné de orelhas levantadas e despiu a peliça cuja gola lhe tapava os olhos é que as crianças tiveram a certeza de que o coelho mecânico era um homem. Nunca o tinham visto, mas o avô já lhes tinha falado muitas vezes daquele velho amigo.

O tio Vicente limpava os óculos, limpava as lágrimas que lhe corriam dos olhos e repetia:

— Quase nem vos vejo. O calor, depois do frio, faz-me sempre chorar. E os óculos ficam embaciados.

Não via, mas podia falar e ouvir. Rapidamente se sentou ao canto da lareira junto do avô e pôs-se a contar histórias do seu tempo de rapaz. O avô também contava as suas. Falavam ao mesmo tempo, não ouviam o que cada um dizia, mas ambos pareciam felizes.

As crianças tinham voltado para a janela. Já não havia grãos, mas algumas aves teimavam em procurá-los. Uma sombra passou sobre a neve, um pássaro grande, preto, baixou para ir pousar em cima da árvore morta. Gerardo voltou-se e disse:

— Avô, está uma águia em cima da árvore morta! Anda depressa! Anda ver depressa, avô!

O avô nem se mexeu, mas Vicente levantou-se e juntou-se às crianças. Com os óculos redondos, e agora já limpos, em cima do nariz, disse:

— Não é uma águia, é um corvo. E a árvore é um ácer, mas não está morta.

Do seu sofá, o avô gritou:

— Já está morta há dois anos. E, mal possa, vou arrancá-la.

— Asseguro-te que não está morta — afirmou Vicente. — As árvores nunca morrem…

— Não me digas uma coisa dessas! — disse o avô admirado. — Garanto-te que já passaram duas primaveras sem ela dar rebentos. Digo-te que está morta e pronta para ser queimada.

Vicente olhou-os a todos mas dir-se-ia que não estava a vê-los, que fixava outra coisa distante, para lá do fim da planície.

— Repito que as árvores nunca morrem — disse. — E vou provar-vos. Hei-de prová-lo, fazendo cantar o vosso velho ácer.

O avô pareceu não acreditar, mas calou-se. Vicente era seu amigo, por isso não queria contrariá-lo.

As crianças entreolharam-se. Será que tinham ouvido bem?

Vicente voltara a sentar-se no cadeirão e retomara já o fio das suas histórias. Vai ficar por ali até ao anoitecer e partilhar com eles a refeição do meio-dia.

Quando Vicente se vai embora, o avô acompanha-o até ao ácer. Andam em volta da árvore como se jogassem às escondidas, e parecem minúsculos à luz do crepúsculo que afasta tudo e confere à paisagem o aspecto de um postal de boas-festas.

Mal o avô regressa, as crianças correm para ele e perguntam:

— Então, o que é que ele disse?

— O Vicente teima que o ácer não está morto. E até me prometeu que ia fazê-lo cantar.

— Mas como, avô? Como é que ele irá fazer?

— Esse é o segredo dele. Mais tarde verão. Não posso dizer-vos nada porque ele nada me explicou. É preciso esperar.

As crianças bem insistem, mas o avô não diz mais.

O tempo passou. A neve derreteu e as chuvas da Primavera limparam as últimas marcas do Inverno no flanco da colina. As crianças nunca mais pensaram no tio Vicente. Porém uma tarde, ao regressarem da escola, aperceberam-se de que faltava qualquer coisa na paisagem. Era o ácer. No seu lugar havia apenas um cepo enorme, alguns ramitos, pedaços de casca e serradura semelhante a um montinho de neve que tivesse ficado ali esquecido pelo sol.

— Deve ter sido o avô que cortou a árvore — disse Gerardo. — Não devia ter feito isso. O senhor Vicente tinha prometido que ia fazê-la cantar.

— E tu acreditas nisso? — perguntou Isabel.

— Claro, porque foi o senhor Vicente que prometeu.

— Mas o avô acha que uma árvore morta só pode cantar no lume!

— Não quero que a queimem — disse o rapaz. — Anda, vem depressa!

Desataram a correr para casa. Pousaram as pastas ao fundo das escadas e escaparam-se para a casa da lenha, uma pequena cabana de madeira que o avô construíra ao fundo do quintal.

A porta estava escancarada e a carroça de mão parada diante da entrada. As crianças correram a toda a velocidade e chegaram coradas e ofegantes. O avô e Vicente saíam da casinha da lenha. Um troço do ácer ainda estava em cima da carroça. As crianças olharam para Vicente com ares de reprovação nos seus olhos claros, mas o velhote sorriu-lhes por baixo do bigode. Aproximou-se do carro e pôs-se a acariciar o tronco do ácer como se fosse um cão.

As mãos do senhor Vicente são grandes, com dedos compridos e grossos e unhas levantadas na ponta, com uma forma esquisita. Quando Vicente acaricia a madeira parece que está lixá-la, de tão ásperas que são as suas mãos. Quando cumprimenta, dir-se-ia que traz calçadas luvas de ferro, como as que usavam os cavaleiros na Idade Média.

Acariciou a madeira e piscou o olho, dizendo:

— Não se preocupem, ele cantará. Prometi e cumpro sempre as minhas promessas.

— Há-de cantar no fogão — resmungou o avô. — Como todas as árvores que morrem. Fazê-lo cantar assim é fácil.

O avô devia estar a brincar! Mas Vicente deu ares de se zangar.

— Cala-te! — gritou ele. — Tu não percebes nada. Eu cá digo-te que vai cantar melhor do que quando estava vivo, com os pés enterrados e a cabeça ao sol. Melhor do que nos dias em que estava carregado de pássaros e era sacudido pelo vento.

As crianças escutavam aquela linguagem curiosa. Como pareciam duvidar, Vicente agarrou cada uma pelo braço e apertou-as com as suas mãos duras. Apertava muito, quase magoava, mas aquela força dele dava muita segurança. Virou-se para a carroça e continuou a apalpar o grande tronco deitado em cima das tábuas.

Inclinava-se, batia com os nós dos dedos, escutava, levantava-se meneando a cabeça, exactamente como faz o médico quando estamos doentes na cama, com muita febre. Mas Vicente não parecia preocupado. Continuou a auscultar a árvore, repetindo de vez em quando:

— Está boa… está muito boa… Está saudável… Há-de cantar… Hão-de ver que é verdade o que lhes digo. Há-de cantar, melhor do que quando estava carregadinha de pássaros.

No dia seguinte, tinha desaparecido tudo. Na cabana já só restavam alguns ramos e um monte de serradura. As crianças puseram-se à procura e lá acabaram por encontrar o ácer no sótão. Mas, desta vez, ficaram muito decepcionadas. A árvore estava irreconhecível, toda transformada em grandes tábuas. Tinha mesmo o aspecto de uma árvore morta.

— O senhor Vicente estava a brincar connosco — disse Isabel. — Ele nunca vai fazer cantar esta árvore. Só se fosse feiticeiro. E o senhor Vicente não é nenhum feiticeiro.

— Sabes lá?

Isabel olhou para o irmão muito espantada.

— Achas que ele é feiticeiro!? — perguntou.

Gerardo deu-se ares de importante:

— Não seria impossível. Eu sei cá umas coisas… umas coisas.

De facto, gabava-se de que estava mais bem informado do que a irmã, mas o certo é que não sabia mais acerca do tio Vicente do que vocês e eu. Mas a Primavera está cheia de vida e as crianças depressa esqueceram a velha árvore. Antes da seiva começar a subir, o avô tinha ido à floresta e trouxera dois áceres pequenos que plantara à beira do caminho, de cada lado do velho cepo. Agora, aquelas árvores pequenas já tinham folhas e começavam a cantar com o vento que vinha do horizonte distante, empurrando enormes nuvens brancas no céu azul.

Passou a Primavera e depois, um dia, no mês de Julho, o avô tirou o carro de mão da casa da lenha e foi ao sótão buscar as tábuas maiores que tinha feito com o ácer.

— Vamos lá então à oficina do Vicente — disse.

Isabel trepou para a carroça. O avô puxava pelo timão, enquanto Gerardo empurrava atrás. Andaram mais de uma hora até chegarem à aldeia. Uma hora debaixo de um sol escaldante.

Vicente vivia mesmo no fim da aldeia, numa casa cujas janelas viam correr a água do ribeiro. Mal ouviu ranger as rodas de ferro na calçada do pátio, Vicente apareceu à soleira da porta. Levantou os braços num gesto cómico e exclamou.

— Diacho! Aqui estão clientes sérios! Há quanto tempo vos esperava!

Vestia uma camisa clara e um avental de lona azul que lhe chegava aos pés. As mangas arregaçadas deixavam ver os antebraços magros e por isso as mãos pareciam ainda mais gordas.

Ajudou o avô a transportar as tábuas até ao fundo de um grande barracão sombrio onde as crianças não se atreveram a entrar. Lá de dentro vinha um cheiro esquisito, por isso deixaram-se ficar ali de mãos dadas.

Contudo, Vicente mandou-as entrar para um outro compartimento mais claro. O sol, reflectido pela água do ribeiro, dançava no tecto.

— A madeira — dizia ele — é um material nobre.

O reflexo da água do ribeiro brincava por cima das suas cabeças, assemelhando-se a ondas agitadas.

— Dêem-me licença de que acabe o que estava a fazer — disse Vicente.

O avô aprovou e o velhote lançou-se ao trabalho. As suas mãos enormes, que pareciam tão desajeitadas, podiam manipular os objectos mais minúsculos e mais frágeis. Vicente explicou que estava a polir o mecanismo da fechadura de um cofre de segredo. Fazia tudo em madeira, até as fechaduras e as dobradiças.

Para ele, o metal estava ao serviço da madeira.

— A madeira — dizia — é um material nobre. Vivo? Sempre vivo. O metal é bom para fabricar os instrumentos que permitem trabalhar a madeira. Mas a madeira… a madeira…

Quando pronunciava esta palavra, os olhos nem pareciam os mesmos.

Vicente não era um homem como os outros: era um apaixonado pela madeira.

Falava dela como de um ser vivo, como de uma pessoa da sua família com quem vivesse há anos. Com a madeira podia fazer tudo. Caixinhas pequeninas incrustadas de marfim e de embutidos complicados. Pequenas mesinhas, cujos pés eram tão finos que as crianças até sustinham a respiração com receio de as fazer cair.

As paredes da sua oficina estavam guarnecidas de instrumentos colocados em prateleiras ou suspensos em ganchos. Havia plainas de todos os tamanhos e de todas as formas, serras, goivas, tesouras, galopas, caixas com formas, compassos e muitos outros instrumentos cujos nomes as crianças estavam a ouvir pela primeira vez. E depois, havia frascos de cola, garrafas de verniz, bolas de cera e madeira por todo o lado. Madeira de todas as qualidades, de todas as formas e de todas as cores.

Quando Isabel, que era muito curiosa, se dirigia para uma pequena porta e já tinha a mão pousada no puxador, Vicente correu até junto dela:

— Não, não — disse ele — não entres aí… É nesse quarto que está o meu segredo.

Isabel imaginou o quarto do Barba-Azul, mas riu-se. Há muito tempo que não acreditava nessas coisas.

— É o meu segredo — repetiu Vicente. — Hás-de conhecê-lo quando ouvires a tua árvore cantar.

O Verão passou demasiado depressa, com as férias e as maravilhosas correrias pelo campo e pela floresta. As duas árvores plantadas pelo avô cresciam bem. Os pássaros já lá pousavam. No início das aulas, as suas folhas começaram a ficar amarelas e os fortes ventos de Outono levaram-nas para longe. Os dois pequenos áceres pareciam mortos, mas Gerardo e Isabel sabiam que acabavam de adormecer para o Inverno. Por causa dos trabalhos de casa, sempre difíceis, e das lições a estudar, as duas crianças não pensaram mais nos áceres nem na promessa do tio Vicente.

Numa quinta-feira de manhã, uns dias antes do Natal, os pequenos aperceberam-se, ao acordar, de que a neve tinha chegado.

Havia um grande silêncio em volta da casa, e a luz filtrada pelas frinchas das persianas era mais branca do que a das outras manhãs. Levantaram-se muito depressa, apesar do frio.

— Os pássaros! — disse Isabel. — Temos de pensar nos pássaros!

Ia abrir a janela para deitar comida, quando avistou, a cambalear pela vereda branca, o coelho mecânico.

— Vicente, é o tio Vicente!

Era mesmo ele, vestido com a peliça cinzenta e o boné de orelhas, mas trazia debaixo do braço um grande volume, comprido, embrulhado num papel castanho. O velho homem aproximava-se lentamente, acertando com dificuldade no traçado do caminho. Passou pelos dois áceres que mal se viam no meio daquela brancura, o boné dançou por uns momentos acima da sebe e depois desapareceu.

— É ele! — repetiam. — É mesmo ele!

Não sabiam o que trazia o tio Vicente, mas o coração pôs-se-lhes a bater muito depressa. Mal os pés do velho bateram na soleira de pedra, Gerardo correu a abrir a porta.O ar que entrou ao mesmo tempo que Vicente vinha salpicado de flocos brancos. O fogo crepitou mais forte e depois fez-se silêncio. Estavam ali os quatro a olhar para o tio Vicente e para o seu embrulho muito bem atado.

Vicente pousou o embrulho em cima da mesa, tirou os óculos, limpou-os devagarinho, assoou-se, voltou a pôr os óculos e aproximou-se do fogo, a esfregar as mãos, que faziam um ruído como se fossem de lixa.

— Está-se melhor aqui do que lá fora — disse ele.

As crianças estavam impacientes. Uma de cada lado da mesa, miravam o embrulho sem ousarem tocar-lhe. O velho homem parecia que sentia prazer em fazê-las esperar. Observava-as pelo canto do olho e deitava uns sorrisos cúmplices aos avós.

Por fim, virou-se e disse:

— Então, por que esperam para o abrir? Não sou eu que vou desmanchar o embrulho!

Quatro mãozinhas voaram ao mesmo tempo. Eram muitos nós e estavam muito apertados.

— Avó, empresta-nos a tesoura…

— Não — disse Vicente. — É preciso aprender a paciência e a economia. Desfaçam os nós e não estraguem nada, quero recuperar o fio e o papel.

Foi preciso ter paciência, magoar as unhas, aborrecer-se um bocadinho. O tio Vicente ria-se.

Os avós, tão impacientes como as crianças, esperavam, seguindo com os olhos todos os seus gestos. Finalmente o papel foi retirado, e surgiu uma caixa comprida de madeira avermelhada e luzidia. Era mais larga num lado do que no outro. Vicente aproximou-se lentamente e abriu-a.

No interior, numa cama de veludo verde, dormia um violino.

— Aqui está, e tudo isto feito com a vossa árvore — disse o Vicente.

— Meu Deus — repetia a avó, que juntara as mãos em sinal de admiração. — Meu Deus, que lindo que é!

— Ora, uma destas!… com que então!… — gaguejava o avô. — Sabia que eras habilidoso, mas não tanto!

O velho artesão sorria. Passou várias vezes a mão pelo bigode antes de dizer:

— Percebem agora por que é que não queria deixar-vos entrar na estufa? É que veriam lá violinos, guitarras, bandolins e muitos outros instrumentos. E vocês teriam adivinhado tudo. É verdade! Sou luthier. Faço violinos… E o ácer, sabem, é a madeira que melhor canta.

A sua mão avançou lentamente para acariciar o instrumento, depois retirou-a a tremer.

— Então? — disse ele a Gerardo. — Não queres experimentar? Não queres fazer cantar a tua árvore? Anda lá, podes pegar nele. Olha que não morde, fica tranquilo.

O rapaz retirou o violino da caixa e pegou nele como via fazer aos músicos. Pousou o arco em cima das cordas e fez sair uma chiadeira horrorosa. A avó tapou os ouvidos, enquanto o gato, acordado em sobressalto, desaparecia debaixo do guarda-loiça. Todos se riram.

— Está bem! — disse o avô. — Se é a isto que chamas cantar!

— Tem de aprender — disse Vicente pegando no instrumento, que colocou debaixo do queixo.

E o velho luthier de mãos enormes pôs-se a tocar. Tocava e caminhava devagarinho em direcção à janela. Imóveis, as crianças olhavam e escutavam.

Era uma música muito suave, que parecia contar uma história semelhante às velhas lendas vindas do fundo do horizonte.

Vicente tocava, e era mesmo a alma da velha árvore que cantava naquele violino.

Bernard Clavel
L’arbre qui chante
Paris, Pocket Jeunesse, 2002
Tradução e adaptação

A Doçura

O prazer da leitura
Edição conjunta de FNAC/Teorema publicado por ocasião do Dia Mundial do Livro
23 de Abril 2007
(excerto)

A Doçura  

 

Anita vende a doçura em frascos. Enche-os de compota de fruta, tapa-os e cola-lhes uma etiqueta, mas, em vez de escrever compota disto ou compota daquilo, de mirtilos ou de pêssego, de marmelo ou de morango, arredonda a letra e escreve apenas Doçura. Senta-se no passeio com os frascos defronte, expostos no asfalto, junto aos pés, e não lhe faltam clientes. A compota vende-se muito bem e ninguém regressa para reclamar: quem compra julga que a doçura está toda nos olhos de Anita.

Anita vende, pois, a doçura que tem no olhar e a doçura que embala nos frascos de vidro. É isso o que faz, sentada no passeio defronte do Mercado Sucupira, pelo menos desde que desistiu de escrever poemas.

Na escola, a professora de Anita não se cansava de lhe gabar a delicadeza das composições que escrevia. A mestra ordenava às crianças que escrevessem uma composição sobre isto ou aquilo, sobre a Primavera ou sobre o ilhéu defronte da baía da Gamboa, e o que Anita fazia era sempre igual: escrevia no topo da folha pautada a palavra Composição com essa mesma letra indecisa e pequena que hoje lhe serve para escrever Doçura nas etiquetas dos frascos de doce — e depois deixava que a cabeça a levasse para longe, para o mundo impalpável das coisas que estão escritas nas páginas dos livros. Escrevia sobre bosques impenetráveis e montanhas verdejantes, sobre belos guerreiros medievais e cidades de prédios muito altos, ainda que não houvesse na ilha nenhuma das coisas que descrevia e, por isso, ela nunca tivesse visto bosque algum, nenhuma paisagem alpina ou um príncipe que fosse.

E um dia, mais do que gabar-lhe a composição e afagar-lhe a carapinha, a professora disse:

— Um dia ainda vais ser poeta, Anita.

E Anita conseguiu imaginar que era poeta, que escrevia livros iguais aos que gostava de ler à noite, quando a luz faltava na Praia e a cidade voltava a ser um sítio apenas iluminado por candeias e velas. Cresceu, por isso, julgando que, um dia, escreveria poemas e frases bonitas sobre a sua ilha e que as crianças das outras partes do mundo leriam o que escrevesse e sonhariam com a baía morna onde, às vezes, a lua cheia vem namorar o mar — do mesmo modo que eu, estando longe, vejo Anita sem sequer a ver. Estou num sítio ao Norte do mundo, no Inverno, longe do mar, num prédio alto e cinzento, igual aos que Anita imagina quando tem que escrever uma composição sobre A Cidade. Não vejo, de onde estou, o Mercado Sucupira, nem essa Avenida de Lisboa em cujo passeio Anita se senta para vender a Doçura. Nesta janela, tendo defronte apenas as janelas gémeas de um prédio igual, encosto a face ao vidro da varanda e adivinho o frio que faz lá fora (todo o frio me parece muito desde o dia perverso em que o Verão termina). Invento o frio e encolho ainda mais dentro do corpo. É aqui, porém, que, encostado ao vidro que me separa do Inverno, espero que venha o raio morno que o sol derrama quando se eleva acima da massa sombria dos prédios da cidade. Então, e por um instante, fecho os olhos, esqueço o Inverno e imagino que ainda é Verão, que a cidade lá fora é a Praia e que Anita está sentada no passeio a vender Doçura desde o dia em que soube que não seria poeta.

Ora a invejo, ora me enterneço com a doçura que guarda e com o modo que tem de a entregar ao mundo, ali sentada no passeio escalavrado da Avenida de Lisboa: agita uma revista velha diante do peito para se refrescar e põe a mão em pala diante dos olhos (para que o sol não derreta o açúcar que neles há). As outras pessoas passam e vêem Anita vendendo a Doçura em frascos. Muitas param para comprar: uns levam apenas a compota, outros vêm pela imensa doçura que há nos olhos da menina-moça, pelo sorriso imenso que o rosto dela desenha.

Eu, que não vejo Anita, vejo claramente o riso dela, o lenço branco que Anita tem enrolado na cabeça, a camisa cor-de-rosa, as argolas douradas que tem nas orelhas, a saia de chita, o chinelo de plástico que abriga os pés dela. Imagino até que, às vezes, Anita lance no ar um pregão tímido

— Nha leba doçura pa casa

que o barulho do trânsito o abafa. Que, quando regressar a casa depois de ter vendido todos os frascos, Anita levará o dinheiro apertado na mão, firmemente, feliz por ter vendido toda a compota — e triste por não ter podido ser poeta. Vai caminhando de cabeça erguida, devagar, como se o seu andar fosse uma pausa entre a ida veloz dos passos de uns e a vinda apressada dos passos dos outros. Não escuta os piropos dos rapazes, não ouve o barulho da cidade: vai inventando poemas que não escreverá jamais, pois cedo a mãe lhe explicou que

— Não é poeta quem quer, é poeta quem a vida deixa. Poesia de pobre é comida na mesa para encher barriga.

Quando a noite vem e não há luz na Praia, quando o zumbido das coisas eléctricas cessa e se pode escutar o murmúrio da terra e os sussurros da vizinhança, Anita debruça-se na janela da casa e fica a contemplar o corisco breve das estrelas. Imagina poemas que não escreve e inventa paisagens nevadas, belos príncipes crioulos montados em alazões, cidades de altíssimos prédios onde todos se conhecem pelo nome próprio e se cumprimentam à tardinha quando regressam a casa — tudo pode ser visto nas estrelas diante da janela do quarto de Anita.

Quando aí está, esperando que os pontos luminosos da noite se ordenem e inventem mundos, Anita pensa que ainda é poeta, que são poemas as frases com que imagina príncipes crioulos e cidades imensas de vidro e aço. Sonha os livros que escreveria se não fosse menina pobre e a vida tivesse permitido que o vaticínio da velha mestra se concretizasse.

(— Um dia ainda vais ser poeta, Anita)

Às vezes, pensando nisto, Anita ainda se entristece. Olhando-a a partir da minha janela do país onde é quase sempre Inverno, vejo que as estrelas se lhe reflectem no orvalho dos olhos. Vejo isto e enterneço-me. Daqui longe fecho os meus olhos e sussurro bem baixinho a única verdade que existe — para que ela a oiça: que não há no mundo todo maior poema do que vê-la, sentada no passeio, a vender a Doçura que tem nos frascos. E nos olhos.

(excerto)
Manuel Jorge Marmelo

Sugestão de Actividades

A leitura do conto acima transcrito poderá suscitar uma reflexão sobre as inúmeras crianças que, no mundo, sofrem de privações de todo o género e se vêem impossibilitadas de ir à escola.

Os alunos serão, em seguida, questionados sobre as medidas que tomariam, se isso lhes fosse possível, a fim de minimizar tais situações de injustiça.

A leitura de outros contos e textos complementares, poderão contribuir para uma visão mais aprofundada sobre as questões acima referidas.

A vida de Vincent no Ruanda

O tesouro de Clara

Shégué, príncipe da rua 

A liberdade é isto?

A voz da terra

A Voz da Terra

Um rei que vivia solitário, certo dia, lembrou-se de mandar construir um palácio que fosse uma grande maravilha. E para que essa construção ficasse de facto grandiosa, pensou que só poderia erguê-la sobre uma alta coluna cujo alicerce infinitamente forte pudesse, em verdade, sustê-la. Chamando o seu íntimo ajudante, deu-lhe esta ordem:

Desejo que mandes alguns homens a todas as florestas e bosques do universo a fim de encontrarem a árvore mais ampla e mais alta que houver debaixo do sol. Não te surpreendas, vai.

E trinta rachadores de madeira partiram à procura da árvore gigantesca. Semanas depois, regressaram:

— Encontramos a árvore, mas é impossível transportá-la.

Levem cavalos para a trazer! – exclamou o rei.

Não poderiam com ela.

Algumas centenas de bois?

Não poderiam com ela.

Todos os meus elefantes?

Também não será bastante.

Pois seja como for; dentro de um prazo de oito dias, quero a árvore aqui! – disse, por fim, com azedume.

E os trinta leais servidores, de cabeça baixa, e em silêncio, partiram para a floresta. Porém uma outra árvore surgiu ainda mais bela. Era uma árvore venerada por todos os habitantes desse pequeno lugar e arredores, porque viviam na ilusão – ou na certeza! – de que um deus nela habitava e que a essa presença divina é que a árvore devia a sua exuberante formosura e o seu aspecto tão alto, tão forte, maravilhoso! Entretanto, o rei ordenou que a derrubassem porque só ela poderia ser a coluna do seu desejado palácio. Descantes e danças, abraços e beijos, à roda do velho tronco, misturavam-se na voz de alguém que a cantar dizia:

Deus, oculto e generoso,

Procura outra morada,

Que esta árvore frondosa,

À ordem de El-rei senhor,

Vai, por nós, ser derrubada.

 

A folhagem estremeceu; as ramarias mais altas inclinaram-se, chorosas, e um vago lamento se ouviu:

Se o vosso rei teimar nesse propósito, todas estas árvores de fruto e todas estas plantações que crescem à minha volta ficarão também destruídas. Digam, pois, ao vosso rei, que esse desejo é cruel. Contudo, se ele teimar, humildemente me entrego…

Nessa noite, enquanto o soberano dormia, o Deus da árvore venerada apareceu-lhe e ao ouvido assim falou tristemente:

Sei eu que mandaste derrubar a árvore maior e mais alta da floresta. Venho pedir-te que não pratiques esse monstruoso crime.

Mas onde vou eu encontrar a coluna para o palácio que quero mandar construir?

Raciocina, Rei sabedor: durante quatro mil anos recebi a adoração de todos os habitantes destas povoações vizinhas e, em troca, só benefícios saíram das minhas mãos. As aves adormecem, cantam e vivem nos meus ramos. Espalho sombra e bem-estar ao caminhante fatigado pelas ardências solares. Estão comigo a paz e o bem .

É verdade quanto dizes, ó alma dessa árvore formosa. Mas mantenho o que desejo.

Está bem; não devo contrariar-te. Só uma coisa ainda te peço. Manda-a cortar por três vezes. Primeiro, a cabeça coroada de folhagem verde; depois, o tronco com os seus braços abertos ao amor e ao infortúnio; e, por fim, as raízes que são tantas e tão profundas que hão-de abalar a terra inteira.

O que me pedes surpreende-me pela originalidade. Até hoje ninguém me pediu que lhe tirasse a vida por três vezes! Porque não queres suportar a morte num golpe certeiro?

Eu te respondo, rei inteligente: à volta de mim cresce e vive a minha família. Variadíssimas árvores prosperam à minha sombra generosa. Se eu tombar de um arranco, o meu corpo pesado e enorme, vai, certamente, mutilar essas vidas florescentes; mas, se cair por três vezes e em três bocados, será mais suave o desastre, por elas e não por mim!

No dia seguinte a ordem do rei era esta:

— Não quero que derrubem essa árvore! Nela mora um espírito de tanta beleza moral que é necessário respeitar e ouvir. As árvores são sagradas. Para edificar a minha casa outra coluna se arranjará; talvez de bronze ou de prata, ou, talvez, unicamente deste infeliz coração que bate aqui no meu peito.

Os Contos de António Botto

Marginália Editora, s/d

A mão da mãe

A mão da mãe

Tão pequena que era ainda aquela mão de criança e tão fácil de esconder numa mão de mulher!

Era a mão de uma criança, do seu filho, mas era uma parte dela. E os dedos da mãe, dedos suaves e confiantes de mãe, estavam fechados em volta do seu bem mais querido.

— Se não acontecer um milagre… — dissera o médico com um encolher de ombros. E abandonara o quarto.

Os olhos da mãe deslizavam da face exausta e em agonia do rapazinho pousada na almofada para os objectos que a rodeavam, como se tivesse de pedir socorro a estes brinquedos mudos que faziam parte do seu círculo solitário.

No calendário junto à janela brilhava uma fotografia a cores: um esquimó, de cara castanha-dourada, sentado no seu trenó, segurava as rédeas das renas de olhos inteligentes e dos cães polares. Todos pareciam ter uma saúde que a morte nunca viria colher. Ao lado do avião de alumínio reluzente pousado em cima da cómoda, estava o búzio cor-de-rosa onde a criança gostava de encostar o ouvido e escutar o som do mar.

As recordações daquele quarto não eram iguais às que se instalam num quarto de adulto. Neste quarto de criança, não eram memórias. Eram o próprio futuro e o símbolo de mil e uma promessas.

O soldadinho de corda, cuidadosamente pousado na prateleira por cima da cama, já só marchava quando algum amigo de brincadeiras trazia consigo um irmão mais novo.

O menino de oito anos, que já não tinha pai, conseguia ser de uma atenção comovente para com os mais pequenos.

E também o era para com a mãe, tão comovedoramente preocupado. Como se quisesse dizer: nós mantemo-nos unidos e fortes contra o mundo inteiro.

Porém, agora, alguém mais forte do que o próprio mundo vinha exigir os seus direitos.

Mãe!

— Sim, filho.

— Vou morrer?

— Eu estou ao teu lado.

— Mãe, o que é que acontece quando se morre? Vem a morte?

— Quando se morre, a alma dos homens vai para Deus.

— Não. Quero dizer, vem a morte a sério, como está desenhada nos livros? Uma pessoa horrível, só com ossos?

— Não, não, filho! Essa morte não existe, é inventada.

— Mãe, mãe!

— O que é?

— Ali, no armário!

— O quê?

— O lobo, o lobo!

— Calma, calma, filho. És tu a sonhar!

— Mas olha, mãe, que olhos tão vermelhos e selvagens que ele tem!

— Não tenhas medo, filho! Eu seguro a tua mão com força e não te acontece nada.

— O lobo está a aproximar-se cada vez mais! Já está à tua beira!

— Vou fazer festas ao lobo. Vês? Ele não é mau. Quando a mãe lhe faz festas, ele porta-se bem. E agora está a ficar cada vez mais pequeno. Já só está do tamanho de um gatinho. Transformou-se num gatinho amoroso e tem três cores: branco, castanho e preto. Os gatos de três cores são gatos da sorte, sabias. Não ficas contente por termos um gatinho da sorte?

— Sim, mãe. Olha como ele está a levantar as patas. Vá lá, mãe, põe-no à minha beira na cama.

— Olha, filho, o gatinho já está em cima da cama à tua beira. Estou a passar a tua mão pela cabeça dele. Sentes como é macio?

— É! É macio e quente!… Mãe, mãe, ali, no tecto!

— O que é que há no tecto?

— Morcegos! E do tamanho de corvos! São muitos, muitos!

— Não tenhas medo, filho. A mãe sabe a palavra mágica. Mutantur! Mutantur! Agora os morcegos transformaram-se em lindíssimas aves-do-paraíso de longas penas coloridas.

— Mãe, já estamos no Paraíso?

— Sim, filho, estamos no Paraíso e eu vou levar-te pela mão porque quero mostrar-te tudo. Como é verde e aveludado o prado por onde vamos! As árvores estão totalmente brancas e cor-de-rosa com tantas flores. Vêm pousar-nos no braço muitas borboletas grandes e bonitas. À nossa frente uma lebre levantou-se nas patas traseiras e os veados e as gazelas passam a saltar. No Paraíso, sabes, o medo não existe. E tudo o que é bonito existe no Paraíso. Quando queremos voar, só temos de dizer ao cisne do lago. Então ele leva-nos até uma montanha que é um rubi reluzente. E se…

— Mãe, mãe!

— Sim!

— Não podes nunca… nunca… largar… a… minha… mão…!

— Não, filho, nunca, nunca!

— Mãe!

— Filho! Pelo amor de Deus, o que é?… Estás a ouvir-me? Filho! Filho! Foste para o Paraíso… Porque me deixaste com os lobos e com os morcegos?

Josef Guggenmos

SOS-Kinderdorf Caderno Anual, 1996

Texto adaptado

A mesa dos ricos

A Mesa dos Ricos

 

 

Se nos vissem sentados na nossa mesa de cozinha, feita à mão e toda arranhada, saberiam logo que não somos ricos.

Mas o meu pai está a tentar fazer-nos ver que somos.

Será que não vê os meus sapatos gastos? Ou que o meu irmãozinho tem remendos nas calças que leva para a escola?

E como explicará ele aquela carrinha a desfazer-se, estacionada à nossa porta?

Não consegues enganar-me digo-lhe. Somos pobres. Será que os ricos se sentariam a uma mesa como esta?

A minha mãe, como que acariciando a mesa, diz:

Bem, nós somos ricos e sentamo-nos aqui todos os dias.

Às vezes, penso que sou a única pessoa sensata na família. Diga-se de passagem que os meus pais fizeram esta mesa com madeira que outras pessoas deitaram fora. Até festejaram quando a terminaram.

Não me interpretem mal: eu gosto desta mesa. Só digo que se vê logo que não veio de uma loja de mobílias. Não tem ar de ser uma mesa à qual os ricos se sentariam.

Mas a minha mãe pensa que, se todos os governantes do mundo se sentassem em redor de uma amigável mesa de madeira na cozinha de alguém, resolveriam os seus diferendos em metade do tempo.

E o meu pai diz que não fazia mal se houvesse um lindo prato azul com muitos bolinhos empilhados, que todos pudessem tirar, mesmo sem ter de pedir.

Hoje, porém, trata-se da nossa cozinha, da nossa discussão, da nossa reunião familiar, dos nossos bolinhos de gengibre com especiarias, empilhados no melhor prato de flores azuis da minha mãe, colocado exactamente no centro da mesa.

Fui eu que convoquei a reunião, cujo tema é dinheiro; o meu ponto de vista é que não temos dinheiro que chegue.

Digo aos meus pais que devem ambos arranjar empregos melhores, para podermos comprar muitas coisas novas e boas. Digo-lhes que faço má figura na escola diante dos outros.

Não gosto de ter de falar disto, mas era bom que fossem ambos mais ambiciosos.

Ficam surpreendidos. Vê-se bem que nunca pensam nas coisas de que necessitamos.

Devo dizer desde já que os meus pais têm umas ideias estranhas acerca do trabalho.

Pensam que os únicos empregos que interessam são empregos ao ar livre. Querem ter rochedos, desfiladeiros, desertos ou montanhas em redor deles, onde quer que estejam a trabalhar. Até querem ver bem o céu.

Trabalham sempre juntos e a sua ocupação favorita é procurar ouro. Enfiam-nos naquela carripana e lá vamos nós em direcção às montanhas rochosas e desertas ou em direcção a alguma ravina estreita, onde todas as estradas se assemelham a trilhos de coiotes.

Adoram caminhar pelas amplas margens de rios agora secos, onde se podem encontrar pequenos salpicos de ouro. Costumavam dizer-nos que a carrinha sabia exactamente que tipos de estrada bater, e que os coiotes lhes indicavam onde procurar ouro, mas eu nunca acreditei neles.

Depois de passarem lá um mês ou dois, traziam sempre um pouco de minério para vender, mas vê-se bem que nunca enriqueceram. Pelo que me é dado ver, tratava-se apenas de um pretexto para acampar de novo num lugar selvagem e belo.

Não se importam de plantar campos de milho doce ou de alfafa. Gostam de apanhar pimentão-de-cheiro, abóbora e tomate. Conseguem construir vedações fortes ou domar potros selvagens.

Mas dizem que não aguentam ficar engaiolados em casa.

Por isso, o meu pai pergunta:

Quantas pessoas há que sejam tão afortunadas como nós?

Mas como fui eu quem convocou esta reunião, respondo:

Aposto que fariam mais dinheiro se trabalhassem num escritório na cidade.

Lembra-te da nossa regra número um insiste o meu pai.

Temos de poder ver o céu.

Podiam vê-lo através de uma janela sugiro.

Mas eles nem querem ouvir falar disso.

Já percebem porque digo que sou o único membro sensato da família?

Finalmente, a minha mãe diz:

Está bem, Filha da Montanha. Vamos explicar-te como fazemos contas. Hoje, vais ser a nossa contabilista.

Distribui um lápis e uma folha de papel amarelo por cada um de nós, o meu irmão incluído, embora ele só finja que escreve enquanto nós escrevemos, ou desenhe pessoas a dançar no céu.

Já agora, o meu nome não é Filha da Montanha. Chamam-me assim porque nasci numa cabana na encosta de uma montanha, no Arizona, num Verão em que os meus pais tinham ido em busca de ouro.

Dizem que era um lugar mágico, a mais bela montanha que alguma vez escalaram. Talvez fosse, mas sabemos bem o quanto eles gostam de exagerar.

Como queriam que a primeira coisa que eu visse fosse aquela encosta, quando tinha apenas oito minutos de vida levaram-me a ver o nascer do sol.

A verdade é que ainda gosto muito do nascer do sol.

Quanto ao meu irmão, chamam-lhe Filho do Oceano. Como eu tinha tido a melhor montanha como primeira paisagem da minha vida, acharam que deviam encontrar o oceano mais belo para quando ele nascesse. Penso que percorreram o México inteiro para encontrar um lugar onde o oceano e a selva se encontrassem. Queriam que o céu estrelado fosse azul-púrpura e que as ondas do mar fossem da cor verde que eles preferem.

 Ergueram-no bem alto, para que aquelas ondas fossem a primeira paisagem da sua vida.

Havemos de voltar um dia àquele oceano verde e à minha montanha alta. Por ora (embora os meus pais digam que são ricos), não há dinheiro para irmos a lado algum.

Por isso, não admira que eu tenha tido de convocar esta reunião.

Acreditam que o meu pai me olha bem nos olhos e me diz:

Mas, Filha da Montanha, eu estava persuadido de que sabias o quanto somos ricos.

Respondo-lhe:

Esta conversa só vai resultar se admitirmos que somos pobres.

O meu pai continua:

Vou provar-te agora mesmo o que disse. Façamos uma lista do dinheiro que ganhamos por ano.

Quanto é? pergunto. Preciso de anotar.

Calma aí adverte o meu pai. Temos de pensar em montes de coisas antes de somarmos tudo.

Que coisas?

A minha mãe contribui:

Sabes que não recebemos o nosso salário apenas em papel-moeda. Temos um plano especial que nos permite ser pagos em pores do sol, em tempo para escalar desfiladeiros e procurar ninhos de águia.

Não desarmo:

Não podem dar-me uma quantia só para que eu possa anotar?

Começamos com vinte mil dólares.

É quanto o meu pai diz que vale poder trabalhar ao ar livre, ver o sol durante todo o dia, sentir o vento e cheirar a chuva, uma hora antes de ela cair realmente.

Diz que é quanto vale estar num sítio onde pode cantar alto quando lhe apetece, sem incomodar ninguém.

Mal escrevo vinte mil, a minha mãe acrescenta:

É melhor escreveres trinta mil, porque poder ouvir coiotes a uivar nas colinas vale, pelo menos, mais dez mil dólares.

Escrevo trinta mil.

A mãe lembra-se de que também gostam de viagens longas e de montanhas distantes que mudam de cor dez vezes ao dia.

Para mim, isso vale mais cinco mil dólares.

O que não me surpreende, já que a minha mãe afirma ser uma especialista em sombras de montanha no deserto. Diz que consegue saber as horas pela forma como as cores das sombras variam do nascer ao pôr do sol.

Apago o que escrevi antes e escrevo trinta e cinco mil dólares.

O meu pai lembra-se, então, de outra coisa.

Quando um cacto floresce, temos de lá estar porque podemos não voltar a ver aquela cor em mais dia algum da nossa vida. Quanto pensas que vale essa cor?

— Cinquenta cêntimos? pergunta o meu irmão.

Decidem-se por acrescentar cinco mil à lista.

Já vamos em quarenta mil dólares.

Mas eu tinha-me esquecido do quanto o meu pai gosta de imitar os sons dos pássaros. Consegue imitar qualquer um, mas a sua melhor imitação são as pombas de asas brancas, os corvos, os falcões de cauda ruiva e as codornizes. Também é bom a imitar águias e corujas de grandes   bicos. Por isso, lá temos  nós de  acrescentar  mais   dez mil  por termos a sorte de conviver com aves diurnas e nocturnas.

Risco a soma que tinha escrito e assento cinquenta mil dólares.

— Agora vejamos quanto vale a nossa Filha da Montanha.

Decido entrar no jogo e sugiro que valho dez mil dólares, embora o meu irmão tenha começado a rir-se.

— Não te subestimes diz o meu pai. Lembra-te daquelas listas fabulosas que nos fazes.

Tem razão. Faço listas dos melhores livros que cada um de nós leu, e dos que cada um de nós quer ler de novo. Também fiz uma lista de todos os animais que cada um de nós viu e daqueles que mais queremos ver: ao ar livre, não num jardim zoológico.

O animal que eu mais gostava de ver é o leão da montanha. Já sonhei com ele quatro vezes e também já lhe vi o rasto. O meu pai escolheu o urso-pardo da América. A minha mãe quer ver um lobo e ouvi-lo uivar. O meu irmão hesita entre um golfinho e uma baleia. Lembro-me de todos porque sou eu que faço as listas.

Acabam por achar que valho um milhão de dólares.

Protesto, mas anoto a soma.

Acabamos por decidir que cada um de nós vale um milhão de dólares.

A soma de toda a nossa riqueza totaliza agora quatro milhões e quinhentos mil dólares.

Dou-me conta de que quero adicionar cinco mil dólares pelo prazer que me causa vaguear pelo campo, sozinha, livre com um lagarto, sem ter de seguir trilhos, sem ter um plano, apenas pelo prazer de andar ao sabor do vento.

A minha família acha que isso vale cinco mil.

O que totaliza quatro milhões e cinquenta e cinco mil dólares.

Por fim, o meu irmão quer ainda juntar sete dólares por todas as noites em que adormecemos ao ar livre, sob as estrelas.

Pensamos que sete dólares são insuficientes e convencemo-lo a arredondar para cinco mil.

A minha folha regista agora quatro milhões e sessenta mil dólares e ainda nem sequer começámos a contar o nosso dinheiro em papel-moeda.

Para ser franca, esse tipo de riqueza já não conta muito neste momento.

Sugiro que nem faça parte da nossa lista de riquezas.

E, assim, a reunião chega ao fim.

A família foi até lá fora ver o novo quarto de lua. Mas eu fiquei sentada à nossa querida mesa feita à mão, sobre a qual o prato de flores azuis da minha mãe conserva ainda um bolinho, e escrevo este livro sobre nós. Acaricio a mesa e fico contente por a termos.

Acho que o título deste livro vai ser A Mesa dos Ricos.

 

 

 

Byrd Baylor

The Table Where Rich People Sit

New York , Aladdin Paperbacks, 1998

Tradução e adaptação

Inês

uma história da América Central

A cidade chama-se Marcala. Mar-ca-la, um nome tão bonito como os gladíolos que aqui nascem espontaneamente nos prados.

Mas a casa onde me encontro sentada é cinzenta por fora e cinzenta por dentro porque é feita de adobe que não foi rebocado. Tem uma porta de tábuas e taipais de madeira. Quando se fecham, fica tudo completamente às escuras. Inclino a cabeça para trás e vejo brilhar o céu, através do telhado, em tiras azuis claras.

Continuar a ler

O Sr. Palha – conto japonês

O Senhor Palha

Conto japonês

Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.

Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:

— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há-de trazer-te uma grande fortuna.

O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha.

“Bom”, pensou  ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu a apanhasse, é melhor guardá-la.”

E lá foi ele, com a palha na mão.

Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.

— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!

“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que pode ficar mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha.

— É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita?

O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que havia acontecido.

— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.

— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor, mas se quiser dar-lhe esta rosa, é sua.

O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.

— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca.

O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante puxando uma pequena carroça.

— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água.

— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.

O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:

— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.

E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço.

Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.

— Onde arranjou  essa  seda? — gritou ela. — É  justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.

— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha.

A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.

— O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca.

A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.

“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.”

Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.

Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?

William J. Bennett

O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral

Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996

O Soldado João – Luísa Ducla Soares

O Soldado João

Era uma vez um soldado chamado João. Vinha de sachar milho, de regar cravos, de semear couves e manjericos.

Agora, toca a marchar, de espingarda ao ombro, mochila às costas, botas de cano, farda a rigor.

Pelos campos fora, o soldado João era a vergonha dos batalhões. Trazia uma flor ao peito, punha as mãos nas algibeiras, coçava o nariz, não acertava o passo. E, para cúmulo, assobiava ou cantava modinhas da sua aldeia.

Bem lhe ralhava o sargento, o ameaçava o capitão, o castigava o general.

O soldado João continuava a marchar, feliz e desengonçado, como se fosse à feira comprar gado ou ao mercado vender feijão.

Mas tanto, tanto marchou o soldado João, que chegou à terra da guerra.

Todos os soldados carregaram as espingardas e fizeram pontaria. Mas o soldado João achou indelicado não ir cumprimentar os colegas da outra banda. Pousou a arma, saltou a trincheira, avançou estendendo a mão.

Então, os outros soldados, espantados, estenderam também a mão.

— Fogo! — gritava o sargento.

— Disparem! — mandava o capitão.

— Atirem! — ordenava o general.

Mas os soldados eram tantos que demorava muito tempo a cumprimentá-los. Foi o sargento buscar o soldado João, dizendo:

— Rapaz, não te lembras de que te ensinei que a guerra é para matar? Vou pôr-te a corneteiro, já que não tens jeito para atirador.

O soldado João pegou na corneta, ei-lo a soprar, e logo o fandango ecoou pelos campos fora, convidando à dança.

Sapateava a tropa, rodopiava, batia palmas.

— Alto! — gritava o sargento.

— Basta! — mandava o capitão.

— Parem! — ordenava o general.

Arrancou o sargento a corneta ao soldado João e, zangado, explodiu:

— Vais para cozinheiro do exército. Ao menos aí não empatarás a guerra.

Mal chegou à cozinha, foi buscar café. Arrastava pelas fileiras, fumegando, o enorme panelão, apetitoso, perfumado.

Aproximava-se de cada soldado, tirava-lhe o capacete para fazer de malga, despejava-lhe uma concha de café. Amigos e inimigos, todos se deliciavam com tão inesperado pequeno-almoço.

— Ao vosso lugar! — gritava o sargento.

— A postos! — mandava o capitão.

— Perfilar! — ordenava o general.

Tiraram a panela ao soldado João, enrolaram-no numa bandeira da cruz vermelha, dizendo:

— Já não és atirador, nem corneteiro, nem cozinheiro. Daqui por diante, és enfermeiro militar.

Mal se viu na nova função, ei-lo a correr à procura de feridos.

Viu um tenente com um olho negro e foi tratá-lo.

Viu um furriel com uma picada de abelha e, num instante, lhe arrancou o ferrão.

Notou que os dois generais inimigos coxeavam ligeiramente, descalçou-lhes as botas e pôs-se a tirar-lhes os calos.

Então, o incrível aconteceu.

Os dois generais levantaram-se ao mesmo tempo e condecoraram-no com duas luzentes medalhas de ouro.

Como era noite, acharam que já passara o tempo da guerra, apertaram as mãos e partiram em paz.

O soldado João sete dias andou até chegar à sua aldeola, onde de novo sacha milho, rega cravos, semeia couves e manjericos.

Luísa Ducla Soares
O soldado João
Porto, Editora Civilização, 2002

 

Sugere-se que seja solicitada às crianças uma referência a algumas das qualidades morais do soldado João: a generosidade, a atenção em relação aos outros, a simpatia, a capacidade de se adaptar às circunstâncias, a atitude construtiva e conciliadora, a alegria, o espírito de iniciativa, a recusa de comportamentos agressivos.

Se salientar também como as referidas qualidades da personagem se tornam um meio eficaz de promover a reconciliação entre as partes inimigas.

Poder-se-á finalmente propor às crianças que imaginem, à semelhança do conto estudado, formas de superar conflitos, quer na escola, quer no meio familiar, por exemplo.

Aconselha-se, como leitura complementar, os contos:

  • A ponte
  • O Baile das Flores
  • A ladeira – José Fanha
  • A esperança brilha como um diamante

    A esperança brilha como um diamante

    A menina escreve a giz no passeio:

    Aqui é o inferno e lá o paraíso.

    — Já não se vê a Sr.ª Bravoure ir comprar o jornal.

    — A Sr.ª Bravoure tem um ar triste. Compreende-se. Depois do que passou nestes seis meses.

    — A Sr.ª Bravoure não anda bem. Já não liga ao jardim.

    Junto da casa tapada pela sebe, o coro da vizinhança aumenta o seu murmúrio de amizade. Mas a Sr.ª Bravoure não tem cura. Para falar a verdade: não se preocupa com nada. Juntamente com o seu velho, com o seu companheiro, enterrou o prazer de existir no dia-a-dia: a primeira chávena de café tomada lado a lado na varanda com a janela escancarada sobre o jardim, o jornal longamente comentado na cozinha iluminada por um ramo de chagas cor-de-laranja, as compras feitas em amena cavaqueira na mercearia, os serviços prestados a este e àquele, a expedição mensal à cidade próxima para se encontrarem com a neta recém-casada, o cheiro dos crepes à quarta-feira – um hábito herdado das merendas de antigamente, quando o pequeno (que tem agora cinquenta anos) partilhava da vida deles – a missa das seis da tarde na igreja matriz, o telejornal…

    Já não tem gosto em nada. Ela, que atravessou com tanta valentia a doença prolongada de Paulo, o seu esposo – “Ainda tem mais três meses, no máximo” prevenira o médico do hospital. À força de cuidados, ela prolongou-os por seis meses – ela, que lhe deu a mão até ao último instante com um sorriso corajoso, não para lhe mentir, mas para ele se não sentir demasiado culpado por lhe tornar os dias pesados, por a deixar pelo caminho. E eis que agora se vai abaixo.

    A Sr.ª Bravoure já nem se reconhece e preocupa-se em saber onde estará a energia, a sua diligência por todos conhecida. Um grande buraco negro. De noite, ela sonha: as suas mãos escorregam na parede a que tenta agarrar-se para subir. Não há nada a fazer. Nem as visitas calorosas, nem as cartas de encorajamento, nem as atenções com que uns e outros a rodeavam. Ouve as palavras deles, sim, mas como um murmúrio longínquo. Mordisca com a ponta dos lábios a tarte ainda quente, lê cada vez com mais dificuldade os postais enviados de Itália pelo filho. Tudo fica de fora sem a atingir.

    “Desta vez desço um degrau da escada.”

    Nunca esqueceu a representação da vida, observada no museu das artes populares por altura de uma visita com o marido (Há quanto tempo isso foi?)

    — Sr.ª Bravoure, porque não se anima? Não devia ficar assim sozinha. Venha tomar o café a minha casa, é descafeinado.

    — Muito obrigada, D.ª Lara, agora não. Ainda não acabei de separar os fatos do meu Paulo.

    A Sr.ª Bravoure sabe muito bem que ainda não é hoje que vai realizar aquela tarefa superior às suas forças. Vai ficar sentada na penumbra e esperar, nem ela sabe bem o quê, e, com certeza, amanhã será igual.

    Quem estará a tocar à campainha a esta hora?

    “Depois das onze horas, não abra a porta a ninguém”, recomenda-lhe o filho em todas as cartas. “Há por aí pessoas mal-intencionadas”. Mas a campainha continua a tocar e a Sr.ª Bravoure não resiste. Pega no casaco à entrada, acende a luz do pátio e corre até à grade de madeira que já devia ter sido pintada. Uma silhueta um pouco volumosa… uma mulher.

    — Maria!

    Caíram nos braços uma da outra. Ao apertar Maria contra si, a Sr.ª Bravoure sentiu-lhe o ventre redondo de grávida.

    — Maria! Bons olhos te vejam! Não contava contigo a esta hora… Vá, entra!

    A Sr.ª Bravoure retomou a sua natural vivacidade para tirar o casaco da jovem, aquecer água, acender as luzes.

    — Não tens frio? Posso aumentar o aquecimento.

    Segura as perguntas impacientes.

    — Comes uma sopinha de ervilhas?

    — Dá-me licença que me deite um bocadinho?

    — Estás em tua casa, Maria.

    Paulo não suportava que nenhuma criança ou Maria se deitasse no canapé da sala de visitas.

    — Isso não se faz — protestava ele.

    — Mas, Paulo, não faz mal a ninguém e bem vês que ela está cansada!

    A Sr.ª Bravoure dirigiu-se mentalmente ao ausente, como faz cada vez com mais frequência. Uma recordação de infância: a avó — que resmungava sozinha na cozinha. “Tenho de estar atenta. Vou acabar por ficar meio maluca.”

    Deitada, Maria recompõe-se. Terá sido pela sopa com que se deleitava durante os meses em que partilhara a vida do casal?

    O director da escola tinha anunciado, pouco à vontade:

    — O Sr. e a Sr.ª Bravoure podiam prestar-me um serviço? Acolher por seis meses uma professora provisória, assegurar-lhe estadia e alimentação. Como sabem, não há hotel na aldeia e eu ficava tranquilo se ela ficasse em vossa casa. É muito jovem.

    Disseram sim sem hesitar: o quarto do filho continuava vazio.

    Assim surgira Maria: as suas saias floridas, o seu entusiasmo, as buzinadelas, as pilhas de cadernos para corrigir.

    — Sr. Paulo, o senhor, que tem uma boa caligrafia, será que podia dar uma olhadela a estes ditados? Ainda tenho uma aula para acabar de preparar para amanhã.

    Enquanto preparava a refeição da noite, a Sr.ª Bravoure regozijava-se ao ver Paulo pôr os óculos, munir-se de uma caneta Bic vermelha e consultar o dicionário. Ela sorria quando o ouvia indignar-se:

    — Não é possível! Eles estão a fazer de propósito! No meu tempo…

    — Ainda têm de aprender, Sr. Paulo. É para isso que vêm à escola. E depois gostam mais de ver a telenovela do que estudar a gramática.

    Seis meses, tinha dito o director. Os Bravoure desejavam que a substituição se prolongasse, mas o professor, já curado, retomara o seu posto e Maria, sem trabalho, tinha aceite um compromisso em África.

    Tinham-na acompanhado à estação. Riam, mas nenhum dos três se sentia à vontade.

    — Escrevo-lhes já amanhã, prometo! — gritava Maria pela janela, enquanto o comboio ia ganhando velocidade.

    Cumprira o que prometera durante um ano. Envelopes aéreos chegaram à caixa do correio e mantiveram-nos ao corrente das actividades de Maria. De facto, ela quase não tinha outra família a não ser eles, visto que, depois da morte da mãe, o pai se afastara lentamente dela para se dedicar aos filhos pequenos nascidos de um segundo casamento.

    Depois, o correio começou a rarear. Uma breve mensagem pelo Natal “Tenho-vos presentes no meu pensamento”. Talvez tenha uma paixão, sugerira Paulo, com os olhos postos no mapa detalhado da região onde Maria exercia os seus talentos.

    — Está sempre ao fogão! — exclamou Maria, ao vê-la na cozinha. — Tinham-me dito numa carta que iam seguindo os locais por onde eu andava, mas eu não…

    A Sr.ª Bravoure lembra-se daquela rapariga, de cabeleira loura a esvoaçar quando corria “Vou chegar atrasada! Até ao meio-dia…” e o portão já estava a bater.

    Estes jovens são incapazes de acordar a horas – dizia Paulo mal-humorado.

    — É porque esteve a trabalhar até à meia-noite com os preparativos para o dia da mãe, Paulo.

    A Sr.ª Bravoure pergunta:

    — Quando é que a criança vai nascer?

    — No princípio de Janeiro. Estou com medo…

    É a mesma Maria ousada e sem medo que disse aquilo? A Sr.ª Bravoure  observa o rosto marcado  pelas manchas da gravidez sob o tufo de cabelos macios, presos por um elástico.

    — De que tens medo, Maria?

    E é o dilúvio, as lágrimas tanto tempo contidas. Vem tudo arrastado pela corrente: em África, o enfermeiro admirado, amado, desaparecido, o período atrasado, a suspeita de gravidez, o diálogo com esta criança que já mexe e que nada pedira, a anemia e o regresso forçado ao país, a desorientação e, de repente, a esperança “O Sr. e a Sr.ª Paulo”. Na estação, o empregado reconhecera-a e informara-a da morte do Sr. Bravoure. Demasiado tarde para recuar caminho.

    — Está-se bem em sua casa.

    A Sr.ª Bravoure olha para a sala de visitas aquecida pelas três lâmpadas. Amanhã tenho de substituir o ramo das flores secas. Não, vou ao mercado comprar ásteres.

    — Queres crepes para a noite?

    — Como é que adivinhou? — Maria admira-se. — A criança vai sentir o cheirinho. É um rapaz. A ecografia é nítida. Posso voltar a ocupar o meu quarto?

    *

    — A Sr.ª Bravoure recuperou o ânimo desde que a filha — bem, é como se fosse — regressou. Já voltou ao que era.

    — Eu reparei. Maria está quase no fim do tempo, não?

    — Estou a tricotar um casaquinho para o menino.

    *

    Murmúrios. Vozes conhecidas. Fadas à volta de um berço.

    Na noite de Natal, quando começava com os preparativos para a ceia a duas, Maria perdeu as águas. A Senhora Bravoure acompanhou-a na ambulância até à maternidade da cidade.

    — O seu companheiro não está presente para a acompanhar na sala de parto? — perguntou a parteira de serviço.

    — É a minha avó que vai ficar ao meu lado — soprou Maria entre duas contracções.

    À meia-noite, a Sr.ª Bravoure, extenuada, tem nos braços um minúsculo Paulo aos berros.

    Natal. Nasceu-nos um menino.

    Colette Nys-Mazure

    Contes d’Esperance

    Paris, Desclée de Brouwer, 1998

    Tradução e adaptação

    Os anjos vêm sempre ao nosso encontro

    Os anjos vêm sempre ao nosso encontro

    Tu fazes a primeira voz

    e eu, a segunda.

    Vai ser um verdadeiro duo.

    Quem diria que ia acabar os meus dias no lugar onde os comecei?

    A velha senhora nem acredita. Conta a quem a quiser ouvir que, em Outubro, aquela faia púrpura resplandecia diante da janela do seu quarto de adolescente; e que, com os irmãos, ela construíra uma cabana no tronco do salgueiro podado, à beira do lago hoje a transbordar, e que…

    — Já me contou isso ontem, Sr.ª Kain — murmura delicadamente o velho de boné com quem acaba de se cruzar ao fundo do jardim, hoje dividido e invadido por casas pré-fabricadas.

    Seria preciso uma nova fornada de pensionistas para ter a oportunidade de contar, perante uma nova plateia, as maravilhas de tempos passados e a coincidência espantosa de hoje. “As pessoas já não têm paciência,” suspira a Sr.ª Kain. “Quantas vezes não escutei eu com um sorriso nos lábios as histórias do meu pai: a sua guerra de 1914-18? Às vezes ria à socapa, mas nunca seria capaz de o interromper. As pessoas têm o costume de fazer zapping. (Olha, uma palavra que aprendeu com os netos). Já não tentam ler as entrelinhas.

    A Sr.ª Kain vê, sem qualquer nostalgia, bailar a sua infância no seio de uma tribo governada por um pai médico de campanha. Viúvo aos quarenta anos, cimentara a educação dos seus dez filhos na confiança e cada qual tomou a peito nunca o decepcionar. Não é tanto o esplendor da faia púrpura que ela acaricia na sua memória, mas antes a sensação de segurança que sentia quando brincava no seu poleiro a tentar identificar as vozes familiares.

    Espiava o regresso do pai. Observava a forma como ele se atrasava, sentado ao volante do carro, com as portas abertas, a reflectir, meditação essa que ela nunca ousara perturbar.

    Dir-se-ia que foi ontem e, no entanto, o espelho, que ela de tempos a tempos consulta, convence-a de que tem oitenta anos. Dentro de nós não se envelhece: a menina e a mulher idosa andam de mãos dadas.

    Os seus esquecimentos, de consequências cada vez mais graves, tinham começado a pô-la alerta. Alimentava a ideia de deixar a sua casa e ir instalar-se numa casa de repouso, quando soube a notícia: a casa do papá fora comprada pela administração local para ser transformada num lar. Tomada a decisão, teve de esperar pelo fim das obras para entrar, e aquele tempo de espera tinha transformado a dor da partida numa impaciência infantil:

    — Volto para a minha casa. Vou para casa!

    — Já sabemos, vovó — dissera um dos netos a rir quando corria para junto dos amigos.

    Primeira pensionista daquele lugar, ajudou muitos dos que chegavam a adaptar-se à mudança de casa, muitas vezes forçada; deu alento a muitas mulheres mais novas do que ela, desesperadas por abandonarem o seu bairro; a homens desorientados após a morte da esposa e colocados demasiado depressa naquele local, sem quaisquer referências, por filhos com pressa de resolver os seus pretensos problemas de solidão, de acalmar, sobretudo, as suas próprias preocupações. Guiou pessoas desorientadas pelas salas que ela própria seria ainda capaz de percorrer de olhos fechados, apesar das alterações obrigatórias – todos aqueles quartos de banho construídos nas esquinas dos quartos enormes onde outrora ecoavam os seus gritos e os seus cantos. (Lá estou eu outra vez!)

    Isso era na Primavera. Agora, o Inverno traz o seu lote de resfriados, tosses teimosas, rigidez nas articulações. Já não se pode andar nas alamedas que se tornaram escorregadias por causa da chuva e do gelo nas folhas caídas. A senhora Kain aceita com dificuldade ter de ficar fechada em casa. Gostaria que uma das suas filhas, que mora não longe dali, viesse buscá-la ao domingo, mas são os exames do final do trimestre e Sofia receia que as suas incessantes conversas perturbem a concentração dos filhos. As outras duas filhas vivem para lá da fronteira, e só aparecem no Verão para a levarem de férias com elas no meio de grandes manifestações de ternura.

    Então! Elas sentem-se bem onde estão! e a Sr.ª Kain vai sentar-se à mesa do lanche, ao lado da Sr.ª Braga que entrou para o lar após a morte acidental da filha e do genro, com quem partilhava o apartamento na cidade. Não tem família nem aqui nem em Portugal, seu país de origem. É uma solidão que faz estremecer a Sr.ª Kain.

    — E que tal se fizéssemos umas palavras cruzadas?

    — Sabe, tenho pouco vocabulário francês.

    — Então… e uma batalha?

    Ficam de pé uns momentos, apoiadas no vão da janela, a contemplar os ramos atormentados pelo vento.

    — Gostava de saber como está o tempo no Porto — murmura a Sr.ª Braga.

    — Logo vemos o tempo, depois das notícias.

    A senhora Kain dá-se conta de que a aproximação do Natal suscita ansiedade na comunidade. O aparecimento da árvore de Natal, depois as iluminações da fachada, suscitaram apenas comentários de desencanto, comparações dolorosas:

    — Em minha casa nós é que fazíamos os arranjos com massa salgada e íamos em procissão colocá-los na árvore.

    — Em nossa casa sentíamos o cheiro do bolo-rei oito dias antes.

    — Do bolo-rei, tem a certeza? Não está a confundir com o Ano Novo?

    Quase se insultavam. A animadora sugere que cada um conte como é que se festejava o Natal em casa. A Sr.ª Kain sorri para dentro: parece que estamos no infantário, mas brinca de boa vontade e até acha interessante. Não imaginava tanta diversidade no seio de uma população que a idade e o regulamento da casa, apesar de leve, tendem a nivelar.

    — Quem for passar a Consoada fora, tenha a amabilidade de me prevenir — insiste a directora durante o jantar.

    — Vai a casa da sua filha, Sr.ª Kain? — pergunta a Srª Blandain, a quem filhos e netos vêm buscar todos os fins de semana.

    Faz de conta que não ouve. Dá jeito passar por ser um pouco surda. O certo é que ela não sabe! Da última vez que a filha veio trazer-lhe roupa lavada, estavam a pensar fazer férias na neve. A Sr.ª Kain sempre foi, por natureza, conciliadora, o que a fazia não esperar nada, mas aceitar tudo, e, a maior parte das vezes, a vida gratificara-a. Encantava-a acabar a vida no sítio onde a começou.

    Chega-lhe uma carta pelo correio, correio esse que todos os pensionistas esperam. Os cortinados das janelas da frente mexem-se imperceptivelmente, as portas entreabrem-se. Já chegou! Quase que se empurram nas escadas e nos elevadores. A Sr.ª Kain traz o seu troféu. No quarto, que outrora ocupou com o irmão mais velho, abre cuidadosamente a missiva: um postal de uma embarcação no Escaut e uma fotografia. É o Jó, o mais original dos seus sobrinhos-netos, cabeça rapada e brinco brilhante na orelha. Está abraçado a uma rapariga ruiva um pouco mais alta do que ele, com um bebé careca todo sorridente. O Jó! Sabia que vivia há dois anos em Londres e ei-lo a anunciar que se instalou pertinho dali, num barco atracado no braço morto do rio.

    Vamos buscar-te de véspera para passares o Natal connosco e levamos-te no dia seguinte. Acho que te autorizam a dormir fora. Dormir fora? A Sr.ª Kain ri-se sozinha. Ao meio-dia, vai avisar discretamente a directora. Não gosta de magoar aqueles que nunca ninguém convidada. Relê o postal e assinala uma frase acrescentada na perpendicular: Se tiveres uma companheira de lar, não hesites em trazê-la, o barco é grande. Uma companheira… como Jó é amável. No fundo, a Sr.ª Braga é uma companheira, ainda não é bem uma amiga, mas uma companheira. Vai transmitir-lhe o convite. Contra toda as expectativas, a Sr.ª Braga diz que sim sem hesitar. Desde então, anda a cantarolar pelo corredor que dá para a sala de jantar. Autênticas meninas de colégio, seremos sempre catraias, colegas. A Sr.ª Kain pôs-se também ela a brincar com tudo.

    Na véspera de Natal, Jó aparece às dez horas. O bebé, sentado na cadeira dá gritos de alegria. Jó depõe os mesmos beijos calorosos nas quatro faces e faz as apresentações:

    — Este é Jesus.

    — Jesus? — estremecem as velhas senhoras.

    — Ele foi feito durante uma escapadela a Espanha. Vão ter de aguentar uma pequena demora na mercearia da esquina…

    A Sr.ª Kain e a Sr.ª Braga ficam sós na carrinha com o petiz, que olha para elas calmamente, de ursinho na boca. A Sr.ª Kain evita dizer que os tecidos que andam pelo chão devem estar cheios de micróbios. Uma nora explicou-lhe a importância do brinquedo, do cheiro da mãe. Ela, por sua vez, ensina a Sr.ª Braga. Um casal idoso passa ao lado do carro. A Sr.ª Kain reconhece-os: antigos vizinhos, que têm a sorte de envelhecer juntos em casa. Enquanto procura a forma de abrir a janela, eles afastam-se e já vão longe. Seria deselegante chamá-los aos gritos, mas bem gostaria de lhes dar dois dedos de conversa.

    Quando a carrinha aos solavancos pára na beira do rio, avistam um barco pintado de preto e verde, lâmpadas coloridas, um passadiço. Ao entrar, a Sr.ª Kain vê as letras do nome escrito na proa: MARIA, o meu nome! Fica encantada. Na cozinha, ao nível da água, uma jovem mulher despenteada levanta as mãos enfarinhadas e abraça-as sem cerimónia.

    — Sejam bem-vindas!

    Há sofás um pouco baixos donde custa sair, mas isso não importa, pois assim ficam ao nível do menino que não se cansa de atirar ao chão um peluche ( Made in Portugal, notou a Sr.ª Braga) que elas lhe devolvem com prazer.

    — Esta noite, se não estiverem muito cansadas, podemos ir à missa do galo, como antigamente. É um amigo, o Ben (lembras-te dele, tia Marie?) quem toca o órgão. Eu vou cantar.

    — Tu vais cantar?

    — O Jó tem uma voz magnífica — intervém a companheira ruiva.

    Admiro mesmo estes jovens, pensa a Srª Kain. Será que já se esqueceu de que gostava de cantar no coro da paróquia?

    Logo se verá. Por agora, a Sr.ª Kain mostra à criança cada uma das imagens do presépio, as antigas e as de hoje. Jesus estende as mãos a tagarelar. Um suave calor reina no barco, que a água faz balançar de forma quase imperceptível, como um berço. Pela vigia, a Sr.ª Braga vê cair a primeira neve, lentas plumas de anjo. Natal, um verdadeiro Natal.

     

    Colette Nys-Mazure

    Contes d’Esperance

    Paris, Desclée de Brouwer, 1998

    Tradução e adaptação

    Um relógio diferente dos outros

    Um relógio diferente dos outros

    Começa esta história no Parque das Folhas Caídas. E começa quando o senhor Miguel Varredor, que tinha muitas folhas caídas para vassourar, encontrou, junto a um grosso carvalho com séculos de vida, um objecto a luzir no meio das folhas. Parecia um relógio. O senhor Miguel baixou-se e examinou o achado. Era, efectivamente, um relógio.

    Desde que entrara ao serviço naquele parque, muitas coisas perdidas, algumas de valor, já achara: luvas, livros, chapéus, óculos, lenços, bolsas… – nem lhes tinha a conta.

    E também um relógio, uma vez por outra.

    O senhor Miguel pegava no objecto, achado por ele e perdido por alguém, que ele não conhecia, e entregava-o ao porteiro do parque, para que ele se encarregasse de o devolver «a quem provasse pertencer-lhe». Era assim tal e qual que vinha escrito no regulamento do Parque das Folhas Caídas.

    Só uma vez não procedeu desta maneira.

    Foi quando achou, no meio do parque, um menino que se perdera. Não o entregou ao porteiro, como estava escrito no regulamento. Ele próprio levou o achado pela mão até à casa dos pais do tal menino.

    Ali estava mais um objecto perdido: um relógio. Era de ouro e tinha um lindo mostrador desenhado, com os números em relevo. O senhor Miguel observou melhor e reparou que tinha nas mãos um relógio invulgar, um relógio como nunca vira outro assim. Não se limitava a ser um relógio de bolso bonito, mesmo muito bonito. Era, realmente, um relógio extraordinário.

    Um raio de sol, suspenso da rede de folhas, incidiu sobre o mostrador, como para apontar ao senhor Miguel as maravilhas de que aquele relógio se compunha.

    — Tantos ponteiros! E para quê? – perguntava o senhor Miguel de si para si.

    Então começou a reparar: um ponteiro para os segundos, outro para os minutos, outro para as horas. Até aqui era um relógio vulgar. Mas havia mais ponteiros… Um que indicava os dias da semana, outro que indicava os meses e outro que indicava as estações do ano. Numa fresta, numa pequena janela aberta no mostrador, distinguia-se um número de dois algarismos – era o dia do mês, e num buraquinho redondo, que quase se não via, lá estava também um número de quatro algarismos, a indicar o ano. Relógio mais completo seria impossível inventar!

    O relógio trabalhava num tic-tac leve, que mal se ouvia. O senhor Miguel procurou a corda. Não tinha. «Talvez trabalhe com o calor do sol, como sucede às plantas… Talvez trabalhe como o próprio Sol, que também não precisa de corda…», pensou o senhor Miguel, mal acreditando em tanta perfeição.

    Foi a correr entregar o seu achado ao porteiro do parque. O dono do relógio devia estar em cuidado. De certeza que, àquela hora, corria, aflito, toda a cidade à procura do seu maravilhoso relógio. Daí a pouco passaria pelo parque e perguntaria se tinham encontrado um relógio com seis ponteiros, um relógio de mostrador desenhado, um relógio de ouro, um relógio muito valioso, muito antigo, um relógio extraordinário. Não podia fazê-lo esperar.

    Mas o dono não apareceu nesse dia, nem nos dias seguintes. Nunca apareceu. Entretanto, o relógio continuava a trabalhar no seu tic-tac leve e a indicar com toda a precisão o segundo, o minuto, a hora, o dia, o mês, a estação do ano, o ano. Por duas vezes rodou o ponteiro dos meses no mostrador desenhado. Ao fim de dois anos, o relógio foi entregue ao senhor Miguel, porque ninguém o reclamara até então.

    O relógio maravilhoso passava a pertencer ao senhor Miguel.

    Ele ainda quis opor-se:

    — Não mereço. Sou um homem tão simples… – queria ele dizer, mas a felicidade que sentia não o deixou falar.

    O relógio de ouro passou a ser a sua única preocupação.

    — Se ele pára?

    Mas o relógio não parava. Corria o ponteiro dos segundos, arrastava-se o ponteiro dos minutos, nem se via andar o ponteiro das horas. Os outros ponteiros pareciam parados, mas, quando vinha a chuva e o frio, o ponteiro das estações marcava, pontualmente, o Inverno.

    O primeiro pensamento do senhor Miguel, ao acordar, era para o seu relógio. Teria o ponteiro dos dias ficado preso?

    Ter-se-ia esquecido de andar? Nunca tal sucedia. O relógio maravilhoso nunca se atrasava.

    Muitos algarismos passaram pelo buraquinho redondo que marcava os anos. Era um relógio incansável. Não podia dizer o mesmo o senhor Miguel. Envelheceu. Reformara-se. Já lhe faltava a vista para saber as horas e anos que o mostrador indicava. Umas vezes os filhos, outras os netos, outras os bisnetos, é que lhe diziam as horas, quando ele pedia.

    Para que lhe servia saber as horas, se já perdera a conta dos anos que tinha? Ora, para quê? Só para ter a certeza de que o relógio que ele achara, o seu relógio, estava ali, continuava a trabalhar.

    Quando, sentado numa cadeira de baloiço, com um cobertor pelos joelhos, acordava da sesta, perguntava logo ao bisneto mais novo:

    — Que horas são?

    — Sete horas, bisavô – respondia o garoto.

    — De que dia?

    — Terça-feira.

    — E de que estação?

    — Primavera, bisavô.

    O senhor Miguel descansava. Mas esquecera qualquer coisa:

    — Olha… e de que ano?

    O bisneto dizia.

    — Tão tarde – comentava o senhor Miguel, e voltava a adormecer.

    António Torrado

    O mercador de coisa nenhuma

    Livraria Civilização Editora, 1994

    O rei Canuto à beira-mar – William J. Bennett

    O rei Canuto à beira-mar

    Há muito tempo, a Inglaterra era governada por um rei chamado Canuto. Como costuma acontecer com muitos líderes e homens de poder, Canuto estava sempre cercado de pessoas a enaltecê-lo. Bastava entrar num aposento qualquer e já começavam os elogios.

    — Vossa Excelência é o homem mais glorioso que já surgiu na face da terra — dizia um.

    — Jamais haverá alguém tão poderoso quanto Vossa Majestade — reforçava outro.

    — Nada há que Vossa Alteza não seja capaz de fazer — comentava entre sorrisos um terceiro.

    — Grande Canuto, monarca de todos! Nada neste mundo ousa desobedecer a vossas ordens — alguém mais dizia em seu louvor.

    O rei era uma pessoa bastante sensata e estava a ficar cansado de todas aquelas tolices.

    Um dia, caminhava pela beira-mar, e os seus reais dignitários e fidalgos acompanhavam-no, tecendo-lhe elogios como de costume. Canuto decidiu ensinar-lhes uma lição.

    — Pois então, dizeis que sou o maior do mundo? — perguntou a todos os presentes.

    — Ó rei — responderam — nunca houve alguém tão poderoso, nem jamais existirá quem tenha tanto valor!

    — E dizeis também que tudo me obedece?

    — Perfeitamente! O mundo curva-se diante de vós e honra-vos.

    — Entendo — disse o rei. — Então, trazei a minha liteira, e vamos para a água.

    — Imediatamente, Alteza! — E desceram todos, carregando o assento real pelas areias da praia.

    — Vamos mais para perto — ordenou Canuto. — Colocai a liteira aqui mesmo, na beira da água. O rei então sentou-se e ficou a observar o oceano à sua frente. — Vejo que a maré está subir. Deter-se-á, se eu assim ordenar?

    Os conselheiros ficaram perplexos, mas não ousaram dizer que não. — Ordenai, ó Grande Rei, e o oceano obedecer-vos-á — garantiu-lhe um deles.

    — Pois bem! Oceano — gritou Canuto — ordeno que te detenhas. Maré, interrompe o teu fluxo. Ondas, deixai de rebentar na praia. Não ouseis tocar-me.

    Esperou em silêncio alguns instantes, até que uma pequena onda veio espraiar-se aos seus pés.

    — Como ousas! — gritou Canuto. — Oceano, afasta-te já. Ordenei que te recolhas diante de mim, e deves obedecer-me. Afasta-te.

    E a resposta foi outra onda que veio rebentar ali, bem junto dos pés do rei. A maré subia, tal como sempre fizera. A água aproximava-se cada vez mais. Atingiu a liteira, e molhou não somente os pés do rei, mas também o seu manto. Os conselheiros estavam todos ao seu redor, alarmados, e desejosos de saber se ele não se irritaria.

    — Ora, meus amigos — disse Canuto — parece que não tenho tanto poder quanto me fazeis acreditar. Talvez tenhais aprendido algo no dia de hoje. Talvez agora fiqueis a saber que só há um Rei todo-poderoso, que governa o mar e detém o oceano na palma da mão. Sugiro que guardeis as vossas expressões de louvor para Ele.

    Os conselheiros e dignitários do rei baixaram a cabeça e sentiram-se ridículos. E dizem por aí que, pouco depois, Canuto tirou da cabeça a coroa e jamais voltou a usá-la.

    William J. Bennett

    O Livro das Virtudes

    Editora Nova Fronteira, 1995

    adaptado

    Cedido por VERTICALIZAR