A árvore da chuva

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Era uma vez uma aldeia, situada num terreno árido no meio do deserto. O sol tinha secado os seus campos e a areia invadira por completo os caminhos, as casas e as bocas dos aldeões.
Apesar do calor sufocante, os homens tentavam lavrar os campos, retirando água de um poço… cada vez mais vazio. Mas parecia que a terra não tinha mais para dar e se mantinha surda às súplicas dos habitantes da região…
Num pátio próximo das cubatas feitas de argamassa, as mulheres teciam tapetes com folhas de tamareira para vender no mercado da cidade vizinha. Partiam cedo de manhã, a pé, e um burro carregava a mercadoria. Chegavam lá apenas ao meio-dia, exaustas da longa caminhada sob o sol. Quando regressavam à aldeia era já noite, e tanto homens como crianças há muito que dormiam.
Os pés estavam gretados de percorrer tantos quilómetros, mas os sacos de arroz e os bidões de água que tinham trazido consigo, comprados com o dinheiro do seu trabalho, eram um bálsamo para as suas feridas.
Quanto às crianças, frequentavam a escola todas as manhãs, embora tivessem dificuldade de aprender com o estômago vazio.
Todos os dias os aldeões perscrutavam o céu, na esperança de que uma nuvem a anunciar chuva aparecesse. E todos os dias o poço secava cada vez mais e as colheitas de arroz diminuíam, o que aumentava o medo do que traria o dia seguinte.

Certa manhã, na pequena praça de terra vermelha, situada entre a árvore dos debates e a cubata do chefe, um Continuar a ler

O autocarro fantasma

O autocarro-fantasma

De todos os mortos daquele cemitério aquele que mais se aborrecia era Tomás Bondi. O guarda encontrava frequentemente terra removida à beira da sua campa e a lápide de mármore, onde se lia “Tomás Bondi (1939-2004) Prémio Volante de Ouro para o melhor motorista de autocarro”, deslocada um metro ou dois.

O falecido Tomás Bondi sentia muita falta do seu autocarro. Os outros mortos lembravam-se, quando muito, de sair a dar uma volta convertidos em fantasmas, mas ele, pelo contrário, precisava mesmo de conduzir o autocarro durante algum tempo.

Saía da campa, passava pelo guarda do cemitério, que não o via porque os fantasmas são invisíveis, e andava umas trinta ruas até chegar à empresa de transportes onde em vida tinha trabalhado.

Metia-se no hangar onde estavam estacionados os veículos e, quando via o seu autocarro, o 121, quase chorava de emoção.

Daí a nada estava ele a passar-lhe uma flanela. Limpava os espelhos, dava lustro aos faróis e brilho aos vidros. O problema era o guarda-noturno. Ao ver um trapo sozinho a limpar o autocarro, sem que ninguém o segurasse, desatava a fugir, abandonando o posto de trabalho.

De seguida, Tomás Bondi punha o 121 a andar e ia dar uma volta. Continuar a ler

A partida de xadrez – conto oriental

A partida de xadrez

 

Pena-de-Águia-Flutuante, filho e neto de índios maias, contou-me esta história, aprendida de um monge budista da Tailândia.

Um guerreiro de rosto tenso, cansado de vaguear sem destino, de festins para derrotas e destas para triunfos ilusórios, foi um dia visitar, no fundo de uma floresta, um ere­mita bastante afamado pelas suas bondade e sabedoria imperturbável. Na cabana de ramos onde foi recebido, depois de ter contado ao santo homem as penosas aventuras e de ter confessado o seu cansaço perante as maldades humanas, disse:

― Só te quero a ti como mestre. Ensina-me o saber que ilu­mina o teu rosto e que torna a vida bela.

O eremita aconselhou-o a que meditasse, procurasse para além das aparências, se esforçasse por descobrir, nas nocivas ninharias do mundo, o fruto saboroso da paz. Ensinou-o a dominar a respiração e a conduzir os pensamentos. Conversaram durante três dias intei­ros, após os quais o guerreiro prometeu ao mestre observar aqueles mandamentos.

Decorrido um ano, límpido para um, amargo para o outro, o guerreiro, que tinha decidido atingir a sabedoria, envolvera-se corajosamente no caminho traçado, mas perdera-se nos labirintos da alma. E assim, numa manhã de Verão, tendo chegado ao fim das suas forças, veio queixar-se ao santo homem:

― Apesar dos meus esforços ― disse ―, não fiz quaisquer pro­gressos. É claro que sei agora respirar como me ensinastes, mas con­tinuo ávido, infeliz e incapaz de amar. Como poderei amar a vida que me rodeia? Como poderei amar os outros se não me amo a mim mesmo?

Com infinita paciência, o eremita deu-lhe novas pistas. Ensinou-lhe a arte de conter os excessos dos sentidos e a de alcançar as calmas profundezas do coração, para lá de toda e qualquer tempestade. Três dias depois, o guerreiro partiu, revigorado, cheio de novas esperanças. Fatigou‑se ainda um ano inteiro a livrar o espírito dos fardos que o cobriam, observou rigorosamente a disciplina que lhe tinha sido aconse­lhada, tentou compreender e saborear a vida, mas nada conseguiu.

Então, sentiu-se mais infeliz do que nunca, e acabou por se perguntar se a vida que levava antes de ter tido a ideia peregrina de alcançar a sabedoria não era melhor do que a insuportável impotência em que mergu­lhara. Dirigiu-se uma vez mais à cabana do eremita e repreendeu-o pela sua incompetência.

― Não soubestes ensinar-me a amar ― disse-lhe. ― Acho que não passas de um impostor!

O eremita não se ofendeu, muito pelo contrário. Ouviu as queixas com uma atenção quase infantil e, depois, foi a um canto escuro da cabana buscar um jogo de xadrez.

― Joguemos uma partida ― disse-lhe, a sorrir ―, mas que seja definitiva e impiedosa. Aquele que perder deve morrer, o que vencer cortar-lhe-á a cabeça. Estás de acordo?

O guerreiro, surpreendido, olhou para o mestre; depois, vendo bri­lhar nos seus olhos uma luz de desafio, respondeu:

― Está bem.

Colocaram, à frente da cabana, o tabuleiro sobre uma laje e, à sombra de uma grande árvore, sentaram-se frente a frente, debru­çando as testas enrugadas sobre as figurinhas de madeira. E a partida começou.

Pouco tempo depois já o guerreiro estava em má posição. Ao fim de seis jogadas já tinha perdido três peças importantes e o rei estava perigosamente a descoberto. Sentiu medo. Transtornado pela mão fria da morte, que já sentia pesar sobre a nuca, começou a jogar cada vez pior. Doze jogadas depois estava à beira da derrota. Olhou para o adversário e viu-o completamente impassível. Decerto que não hesita­ria um momento em matá-lo, se acaso perdesse.

Nesse momento pensou que era altura de reflectir sem erros. Lembrou-se de que costumava ser bom no xadrez e tornou-se-lhe claro que só o espectro da morte o impedia de mostrar o que valia. «Em primeiro lugar, tenho de me desembaraçar do medo, se quero uma oportuni­dade de sobreviver; tenho de me desembaraçar dele imediatamente!» Esforçou-se por respirar como aprendera e pensou: «Aconteça o que acontecer, tenho de dar o meu melhor. Só isso importa.»

Então, con­templou o tabuleiro com atenção redobrada. Viu como salvar o rei, em risco de ser comido. Foi invadido por uma alegria súbita. Recuperou a espe­rança e esqueceu o pânico. Dezoito jogadas depois a sua situação restabelecera-se a ponto de encarar confiantemente uma longa batalha. Ao fim de vinte e quatro jogadas descobriu uma falha no jogo do adversário. Exaltou-se e deu um grito de triunfo.

― Perdeste ― disse.

Estendeu vivamente a mão para devorar a rainha na brecha ofe­recida, mas deixou-a suspensa sobre o jogo. Olhou o eremita. Viu-o ainda e sempre impassível. Nesse momento interrogou-se: «Por que razão mataria eu este homem corajoso? Estou certo de que poderia ter ganho facilmente a partida quando o medo me atormentava. Mas não o fez. Que bárbaro seria se abatesse o meu sabre sobre o seu pescoço?»

A exaltação abandonou-o subitamente. Fungou, baixou a cabeça e empurrou um peão inútil. Então, só então, o eremita voltou o tabuleiro ao contrário na relva com um gesto desajeitado.

― Por fim compreendeste… Primeiro, é preciso vencer o medo. Só depois pode vir o amor ­― disse.

O guerreiro sorriu. Só agora tinha descoberto como poderia viver em plenitude!

 

 

 

 

 

 

 

Henri Gougaud

A Árvore dos Tesouros

Lisboa, Gradiva, 1988

(adaptação)

A tecedeira de cabelos negros – conto japonês

 

Noite de Outono.

Sem um grito

Um corvo passa.

Kishi

 

 

Há muito, muito tempo, na cidade de Quioto, vivia um samurai que estava casado com uma mulher bela, de bom coração, que era, além disso, uma excelente tecedeira.

Quis o destino que o samurai perdesse o lugar que ocupava: o seu senhor morreu e ele ficou a ser um guerreiro sem emprego, um ronin[i]. Embora a mulher vendesse os tecidos, o dinheiro não chegava. Não viviam na pobreza, mas já não podiam manter o mesmo estatuto. Cheio de vergonha, o samurai desesperava-se.

Um belo dia embalou os seus haveres e pôs os sabres à cintura.

— Vou-me embora — disse ele à mulher. — Isto não é vida para um homem como eu! Não suporto esta desonra. Arranja outro marido, que eu vou procurar a sorte noutras paragens.

Lavada em lágrimas a mulher suplicou:

— Peço-te que não me abandones. Hei-de tecer ainda mais e vender cada vez mais!

Mas o samurai tinha o coração fechado. A mulher chorava, com os longos cabelos negros a flutuar sobre os ombros, mas ele apertou as sandálias, montou o cavalo e partiu sem olhar para trás.

Foi até uma cidade longínqua, onde por fim entrou ao serviço de um novo senhor. Graças às suas qualidades, rapidamente se fez notado e em pouco tempo passou a ser um dos mais próximos servidores do amo. Ora, este tinha uma filha, mimada e egoísta. “Se casar com ela, pensou o samurai, está feita a minha fortuna”. Assim, levado pelo interesse, fez-lhe a corte e soube cair-lhe em graça. O casamento foi motivo de grandes festas. Depois tudo voltou ao normal, como dantes.

A nova mulher passava o tempo diante do espelho, a depilar as sobrancelhas e a provar inúmeros vestidos de alto preço, enquanto o samurai servia o senhor e se cobria de glória nos campos de batalha, graças ao sabre, à lança e ao arco. Também acompanhava a esposa quando esta se fazia levar de liteira de loja em loja para comprar tecidos, vestidos, enfeites e jóias. De pé, na rua, ao lado dos carregadores, irritava-se com a vaidade e a futilidade das suas ocupações. E não encontrava alegria naquela vida de rico com que tanto sonhara.

Vinha-lhe cada vez mais à lembrança a sua primeira mulher. De noite, via o seu lindo rosto, os olhos meigos a brilhar de afecto por ele, os seus longos cabelos pretos caídos sobre os ombros. Ouvia o bater do tear onde ela tecia os maravilhosos tecidos. Estendia para ela os braços e acordava destroçado, sentindo um enorme tédio por tudo aquilo que o rodeava.

Ao fim de algum tempo, os sonhos passaram a assaltá-lo durante o dia. Enquanto esperava que a esposa terminasse as suas eternas compras, o rosto da primeira esposa aparecia diante dele, com o seu sorriso, os traços finos, as mãos delicadas, a cabeleira preta. Aquelas imagens voltavam e perturbavam-no cada vez com mais frequência, ressuscitando-lhe o amor e o desejo. Durante a noite, lágrimas amargas cobriam-lhe os olhos. Agora sabia que, obcecado pelo sucesso, tinha cometido uma loucura. Rejeitara quem o amava e que ele amava também, sacrificara-a à busca de riqueza e de poder. Totalmente consciente desse facto, decidiu abandonar aquela existência artificial, voltar para a verdadeira mulher e pedir-lhe perdão.

Uma noite, montou o cavalo e tomou o caminho de Quioto.

Após vários dias de viagem, chegou à cidade um pouco antes da meia-noite. Meteu por ruas escuras, desertas como túmulos e, com o coração a palpitar, dirigiu-se para a sua antiga morada. Entrou no pátio. As ervas estavam altas. À luz do luar, verificou que o papel de parede estava rasgado nalguns sítios. “Sim, disse a si mesmo, a vida não foi fácil para ela, mas agora que regressei, vou remediar tudo. Sim, tudo irá correr bem”.

Prendeu o cavalo, subiu os degraus, descalçou as sandálias, empurrou a porta e entrou. Percorreu as divisões da casa, e depois ouviu o bater regular do tear. O coração do samurai deu um pulo. Abriu uma última porta. A sua mulher estava sentada diante do grande tear, vestida com um vestido remendado, os belos cabelos negros caídos em cascata sobre os ombros e as costas. Voltou-se e viu-o. Um sorriso luminoso iluminou o seu belo rosto pálido. Correu para o marido que a tomou logo nos seus braços.

— Perdoa-me, — disse ele a chorar — perdoa-me, fui um tolo. Mas vou recuperar o tempo perdido, juro-te!

— Chiiiuuu! — murmurou ela, também em lágrimas, — chiiiuuu! Isso agora já não importa. As minhas orações foram ouvidas. Voltaste. Anda, vem!

Passaram a noite a conversar, a rir e a chorar, abraçados, enquanto as velas ardiam e se iam extinguindo. Até que o samurai acabou por adormecer, vencido pelo sono. De manhã, os raios do sol despertaram-no. Abriu os olhos. O astro brilhava mesmo em frente, através dos buracos do telhado: uma grande parte, apodrecida, tinha caído. Esfregou os olhos, mas não estava a sonhar. O sol batia-lhe em cheio. Estupefacto, olhou em volta.

Havia bolor em tudo, no papel rasgado das paredes e nas traves caídas. No chão de madeira carcomida cresciam ervas. Via-se no meio da sala um tear partido. Ao lado estava a mulher deitada, de costas para ele, os seus finos ombros envoltos num quimono remendado, os longos cabelos caídos pelas costas até ao chão. Segurando-a pelos ombros, virou-a para si e… foi apenas um esqueleto o que viu. Há muito, muito tempo que a sua querida mulher tinha morrido de desgosto, de solidão e de saudade.

1 – Ser ronin consistia em viver peregrinando, ocupando-se de pequenos serviços, normalmente em troca da refeição do dia e da prática das artes samurai.

 

Rafe Martin

« Les cheveux noirs » in 10 contes du Japon

Paris, Castor poche Flammarion, 2000

(Tradução e adaptação)

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As roupas novas do imperador – conto com sugestão de actividades

As roupas novas do imperador

Há muitos anos havia um imperador que achava que roupas finas e novas eram tão importantes que nelas gastava todo o seu dinheiro. Não se preocupava com o seu exército, ou em ir ao teatro, ou em caçar na floresta, a não ser que isso representasse uma oportunidade para exibir as suas vestimentas novas. Tinha um fato diferente para cada hora do dia, e em vez de se dizer, em relação ao imperador, “Ele está reunido em conselho”, dizia-se, “Ele está no quarto de vestir”.
A grande cidade onde vivia era muito próspera e visitada diariamente por muitas pessoas. Um dia, contudo, chegaram à cidade dois aldrabões que se diziam tecelões e afirmavam fazer o tecido mais bonito que se podia imaginar. Não só eram as cores e o padrão do tecido invulgarmente bonitos, afirmavam, mas também as roupas com ele feitas tinham a maravilhosa propriedade de ficarem invisíveis aos olhos de quem não fosse competente no seu ofício ou de quem fosse particularmente estúpido.
— Essas roupas devem ser realmente maravilhosas! — pensou o imperador. — Se eu tivesse uma vestimenta assim, poderia saber quem é que nas minhas terras não é competente para a posição que ocupa. Poderia distinguir quem é esperto e quem é estúpido! Tenho de encomendar imediatamente esse tecido para mim!
E deu imenso dinheiro aos dois aldrabões para que começassem a trabalhar. Assim, eles montaram dois teares e fizeram de conta que estavam a trabalhar, mas na realidade não estavam a fazer nada. Disseram que precisavam da seda mais fina e do fio de ouro mais precioso, mas guardaram tudo para eles e continuaram a trabalhar nos teares vazios, até de madrugada.
— Como é que estará o meu tecido? — interrogou-se o imperador.
Contudo, sentiu-se ligeiramente receoso quando se lembrou de que todos os que fossem estúpidos ou incompetentes no seu trabalho não conseguiriam vê-lo; ele achava que, pela sua parte, não precisava de ter medo. Em todo o caso, resolveu mandar alguém ver como é que o trabalho estava a decorrer.
Todos os habitantes da cidade foram informados do maravilhoso poder do tecido e estavam ansiosos por descobrir se os seus vizinhos eram espertos ou estúpidos.
— Vou mandar o meu velho e honrado ministro fazer uma visita aos tecelões — pensou o imperador. — É a pessoa mais adequada para ver como está o tecido, pois é muito esperto e ninguém é melhor do que ele no seu trabalho.
E o velho e honrado ministro lá se dirigiu à sala onde os dois aldrabões estavam sentados a trabalhar nos seus teares vazios.
— Deus me valha! — pensou o velho ministro, arregalando os olhos. — Não consigo ver absolutamente nada! — mas calou-se.
Os dois aldrabões convidaram-no a aproximar-se. O padrão não era muito requintado? — perguntaram eles. E as cores não eram bonitas? À medida que falavam, iam apontando para o tear vazio, e o pobre do velho ministro continuava perplexo, não conseguindo ver nada, pois não havia nada para ver.
— Meu Deus! — pensou ele. — Será que sou estúpido? Nunca tinha pensado nisso. Bom, o que é certo é que ninguém pode ficar a saber disto! Será que não sou competente no meu trabalho? Nunca poderei dizer que não consigo ver o tecido!
— O senhor não diz nada? — perguntou um dos aldrabões, ao mesmo tempo que fingia continuar a tecer.
— Oh, sim! É fabuloso! Uma maravilha! — retorquiu o velho ministro, espreitando através dos óculos. — Que padrão! E as cores! Claro que vou dizer ao imperador que gostei imenso, de verdade!
— Estamos muito contentes por o ouvir dizer isso! — disseram os dois tecelões, e então puseram-se a falar das cores e a descrever o invulgar padrão. O velho ministro escutou com muita atenção, de modo a poder contar tudo, mais tarde, ao imperador, e assim aconteceu.
Os dois aldrabões pediram então mais dinheiro e mais seda e fio de ouro, dizendo que precisavam de mais materiais para a tecelagem. Claro que guardaram tudo para eles e continuaram a tecer nos seus teares tão vazios como anteriormente.
Pouco tempo depois, o imperador enviou outro honrado funcionário. Este olhou, olhou, mas como não havia nada nos teares, também ele não conseguiu ver nada.
— É ou não um belo tecido? — perguntaram ambos os aldrabões e, fazendo de conta que estavam a mostrar-lho, descreveram o belo padrão que, evidentemente, não existia.
— Tenho a certeza, eu não sou estúpido! — pensou o funcionário. — Por isso, devo ser incompetente no meu ofício! Isto é de facto estranho, mas não posso deixar que alguém saiba!
E assim, elogiou o tecido que não conseguia ver e referiu o quanto gostava das lindas cores e do bonito padrão.
— Na realidade, é de um gosto requintado! — confirmou ao imperador.
Todas as pessoas da cidade falavam daquele maravilhoso tecido e o imperador quis vê-lo com os seus próprios olhos enquanto ainda estava no tear. Fez então uma visita aos aldrabões, levando uma selecta comitiva, na qual se incluíam os dois honrados cavalheiros que já antes lá tinham ido. Os dois malandros teciam com toda a energia, apesar de não haver um único fio no tear.
— Não acha soberbo? — perguntaram o ministro e o funcionário. — Vossa Majestade repare só naquele padrão e naquelas cores!
E apontavam para o tear vazio, como se acreditassem que todos os outros conseguiam realmente ver o tecido.
— Meu Deus! — pensou o imperador. — Não consigo ver absolutamente nada! Isto é terrível! Serei estúpido? Não valho nada como imperador? Era a pior coisa que me podia acontecer!
No entanto, em voz alta, apenas disse:
— Oh, sim, é muito bonito! Gosto mesmo muito dele! — e abanou a cabeça em sinal de aprovação, olhando na direcção do tear vazio. Não queria, de modo nenhum, admitir que não conseguia ver absolutamente nada. Toda a comitiva que viera com ele olhou e tornou a olhar, mas não conseguia ver mais do que o ministro e o funcionário tinham visto, ou seja, nada. Contudo, imitaram o imperador e disseram:
— Na realidade, é lindíssimo!
E aconselharam-no a fazer um fato com aquele tecido, para vestir na grande procissão que iria realizar-se em breve. E todos exclamavam, uns a seguir aos outros:
— Soberbo! Requintado! Magnífico!
Ninguém deixou de comentar como o tecido era bonito, e o imperador deu então aos dois aldrabões medalhas para pendurarem na lapela e ordenou-os Cavaleiros do Tear.
Os dois astutos aldrabões estiveram a pé toda a noite na véspera da procissão, com dezasseis lâmpadas acesas, e toda a gente podia ver como eles estavam a trabalhar arduamente para conseguirem acabar a tempo as roupas novas do imperador. Fingiram que estavam a tirar o tecido do tear, agitaram a tesoura no ar como se estivessem a cortar e coseram atarefadamente com agulhas sem linha. Por fim, disseram:
— Vejam, as roupas estão prontas!
Chegou então o próprio imperador, com os seus mais distintos cortesãos, e os dois aldrabões levantaram os braços como se estivessem a segurar em alguma coisa.
— Aqui estão as calças! — disseram eles. — E aqui está o casaco! E o manto! E acrescentaram: — É tão leve como uma pena! Chega-se mesmo a pensar que não se traz nada vestido, mas aí é que está a beleza destas roupas!
— Sem dúvida nenhuma! — concordaram todos os cortesãos, apesar de não conseguirem ver nada, pois não havia nada para ver.
— Quer vossa Majestade fazer a fineza de despir as suas roupas? — pediram os aldrabões. — Assim, podemos vestir-lhe a roupa nova ali à frente daquele espelho grande!
E assim, o imperador despiu tudo e os dois aldrabões fingiram que estavam a vestir-lhe a roupa nova que supostamente teriam feito, puxando daqui, puxando dali, endireitando a cauda do manto, enquanto o imperador se virava e pavoneava em frente do espelho.
— Mas que roupas tão bonitas! — exclamaram todos. — Como assentam bem! E que padrão! Que cores! Na realidade, é um fato sumptuoso!
— O pálio sob o qual Vossa Majestade caminhará na procissão, já está lá fora —disse o mestre de cerimónias.
— Já estou pronto! — afirmou o imperador. — Assentam-me mesmo bem as roupas!
E mais uma vez deu uma volta em frente do espelho, fingindo que estava a admirar as belas roupas.
Os camareiros que iriam segurar na cauda tactearam desajeitadamente o chão como se estivessem a levantá-la e depois fizeram de conta que seguravam nela. Também eles estavam com medo que alguém reparasse que eles não conseguiam ver nada.
E assim caminhou o imperador, em procissão debaixo do majestoso pálio. Todas as pessoas que estavam na rua e à janela exclamavam:
— Oh! Como são maravilhosas as roupas novas do imperador! Que belo manto ele leva sobre o casaco! Como lhe fica bem!
Ninguém queria que pensassem que não conseguiam ver nada, pois isso significaria que ou eram estúpidos ou incompetentes no seu trabalho. Nenhuma outra roupa do imperador tinha alguma vez sido tão gabada como esta.
— Ah! O imperador vai nu! — exclamou uma criança.
— É apenas a voz da inocência! — desculpou-se o pai da criança.
Mas as pessoas começaram a passar palavra umas às outras, acerca do que a criança tinha dito.
— O imperador vai nu! Aquela criança ali afirma que o imperador vai nu!
Par fim, já todas as pessoas gritavam:
— O imperador vai nu!
O imperador sentiu-se embaraçado, pois no fundo pensava que eles tinham razão, mas disse para si próprio:
— Tenho de manter-me firme até ao fim da procissão.
E assim prosseguiu, ainda mais emproado do que antes, e os camareiros continuaram a segurar na cauda que não existia.

Contos de Andersen
Porto, Ed. AMBAR, 2002

  • O imperador é um homem vaidoso, que acaba por cair no ridículo. O que lhe acontece?
  • Por que motivo achas que ninguém, excepto a criança, teve a coragem de dizer a verdade? E tu, Também terias tido essa coragem?

O rouxinol do imperador – conto com sugestão de actividades

O rouxinol do imperador

Na China de outros tempos, certo imperador vivia no palácio mais extraordinário, todo de porcelana fina, de magnificência sem igual. O jardim circundante exibia as flores mais raras, e as que se distinguiam pela sua beleza tinham campainhas de prata que, tocando, chamavam a atenção de quem passava.
Tudo era maravilhoso no jardim do imperador. Estendia-se para longe, até à floresta de grandes árvores e lagos azuis que, por sua vez, descia até ao mar, de tal modo profundo que os grandes barcos ali passavam. Nos ramos das árvores habitava um rouxinol. Cantava tão bem que os pescadores, ao ouvi-lo, quase esqueciam o trabalho.
De toda a parte acorria gente a visitar a cidade, o palácio e os jardins do imperador. Achavam tudo maravilhoso, mas depois de ouvirem a extraordinária ave, diziam:
—O melhor de tudo é o rouxinol!
De regresso às suas terras, essa gente falava da cidade, do palácio e dos jardins. Os escritores e os poetas escreviam livros sobre tais maravilhas, dando sempre especial relevo ao rouxinol.
Estes livros correram mundo e alguns chegaram às mãos do imperador. Vestido de seda, sentado em belos cochins, lia com agrado o que se dizia dos seus domínios, mas, chegado ao fim, lá estava o remate:
— Entre tantas maravilhas, o rouxinol é a maior.
Um dia, o imperador mandou chamar o primeiro-ministro e disse-lhe:
— O que vem a ser isto? Como é possível existir, sem que eu o saiba, essa ave chamada rouxinol, que estes livros consideram o que há de melhor no meu império? Por que razão ainda não a vi?
— Nunca ouvi falar nela — respondeu o primeiro-ministro.
— Quero-a aqui esta noite, a cantar para mim. Só isto me faltava! O mundo inteiro sabe o que tenho, menos eu!
— Será cumprido o vosso desejo, real senhor — respondeu o primeiro-ministro, curvando-se. — Vou …
No palácio, ninguém conhecia o rouxinol. Por mais que perguntasse, nada conseguiu saber.
Voltou o primeiro-ministro ao imperador:
— Saiba Vossa Majestade que tal ave não existe. Deve ser invenção de quem escreveu esses livros!
— Não pode ser falso o que se diz nos livros enviados pelo meu amigo, o imperador do Japão. Portanto, quero aqui o pássaro esta noite, sob pena de toda a corte ser castigada!
De novo o primeiro-ministro subiu e desceu escadas, correu por aqui e por ali à procura de notícias do rouxinol, conhecido no mundo inteiro mas ignorado no palácio.
Por fim, encontraram na cozinha uma rapariga que exclamou:
— Oh, meu Deus! O rouxinol? Conheço-o muito bem! Quando, à noite, me dirijo para junto da costa, para levar a minha mãe os restos de comida que aqui me dão, oiço sempre essa maravilhosa ave, cujo doce cantar me traz lágrimas aos olhos.
— Pequena ajudante de cozinha — disse o primeiro-ministro — obterás o título de cozinheira, se me levares junto dele. Tenho de o trazer aqui esta noite!
Metade da corte (com medo do castigo, é claro) foi para a floresta à procura do rouxinol. No caminho ouviram uma vaca mugir. Certo cortesão, já radiante, exclamou:
— Ei-lo!
— Não, é uma vaca! — disse a rapariga. — Ainda estamos longe.
Daí a pouco ouviu-se o coaxar das rãs, nos pântanos.
— Encantador! — disse o capelão do palácio.
— Não, são as rãs a coaxar! — explicou a ajudante de cozinha. — Mas não tarda que o ouçamos.
Agora é ele! — disse a rapariga, daí a pouco. — Escutai, por favor!
De facto, o rouxinol cantava e todos viram um passarinho de cores discretas que, aos rogos da rapariga, cantou ainda melhor. E foi muito admirado.
Tendo consentido de boa vontade em mostrar a sua voz para deleite do imperador, foi recebido com grandes honras no palácio de porcelana, ao brilho de milhares de velas. Na grande sala onde o imperador se encontrava, colocaram um poleiro de ouro. Todos admiraram o seu canto mavioso.
O imperador tinha lágrimas nos olhos, de comovido, e foi esta a melhor recompensa para a ave. Nunca o esqueceria.
O êxito do rouxinol na corte foi extraordinário. E ficou decidido que o rouxinol ficaria na corte e teria uma gaiola só para ele. Tinha licença de dar um passeio duas vezes por dia e uma vez à noite, acompanhado de doze criados. Cada criado segurava uma fita de seda cuja ponta estava atada a uma das patas do passarinho. Passear nessas condições não devia ter mesmo graça nenhuma.
Certo dia chegou, endereçada ao imperador, urna grande caixa onde estava escrito: Rouxinol.
— Eis certamente outro livro sobre o célebre pássaro — disse o imperador.
Mas não era um livro. Dentro, vinha um rouxinol mecânico semelhante ao verdadeiro, coberto de diamantes, de rubis e de safiras. Quando lhe davam corda, cantava, movia a cauda e lançava chispas de luz. Trazia em volta do pescoço uma fita onde se lia: O rouxinol do imperador do Japão não passa de uma modesta imitação do rouxinol do imperador da China.
— Que lindo é! — exclamavam todos, entusiasmados, ao vê-lo e ouvi-lo.
— Ponham ambos a cantar ao mesmo tempo! — mandou o imperador.
Mas o pássaro verdadeiro cantava à sua maneira e o rouxinol mecânico cantava valsas.
Foi então resolvido que o rouxinol mecânico cantasse sozinho. Obteve grande sucesso, e repetiu, repetiu.
— Agora o rouxinol verdadeiro também tem de cantar — sugeriu o imperador.
Mas… onde estava ele? Ninguém se apercebeu de que voara pela grande janela aberta, em direcção à floresta.
Todos os cortesãos o censuraram:
— Que feia acção! Que ingrato! Não importa! Temos este que é bem melhor e mais bonito. Ao menos, com ele, sabemos o que vai seguir-se e podemos acompanhar a sua música. Com o outro era impossível, sempre diferente, inesperado.
O rouxinol cantava, cantava sem fadiga. Permitiu-se ao povo ver e ouvir aquela maravilha. Os pobres pescadores diziam:
— É lindo e canta bem, mas falta-lhe qualquer coisa …
Do verdadeiro rouxinol nunca mais houve notícias; já ninguém pensava nele.
Certa noite, estando o imperador deitado a deliciar-se com o canto do rouxinol mecânico, colocado em cima da mesa-de-cabeceira, ouviu-se um ruído “Tíup”! Partiu-se a corda do mecanismo; depois “Brrrr… ” e a música parou. O imperador saltou da cama, mandou vir o médico da corte, mas este não soube resolver a situação. Chamou-se então o relojoeiro, que consertou a corda e recomendou muita cautela, porque, com os parafusos gastos, podia quebrar- se novamente.
Foi grande o desgosto. O pássaro não podia agora cantar com frequência.
Cinco anos passaram.
Entre outros os cortesãos reinava a desolação, porque o seu amado imperador estava doente e não parecia ter hipóteses de
cura. O sucessor fora já eleito.
Muitos choravam, enquanto outros ansiavam por aclamar aquele que viria.
O velho imperador, estendido na cama, pálido e frio, lutava com a morte. À sua volta, uma quantidade de caras estranhas parecia esperar espreitar por entre as dobras da cortina de veludo; umas tinham expressões de maldade, outras aparentavam simpatia. Representavam as boas e más acções que o imperador praticara. Este, no meio da aflição, só pedia:
— Música! Música! Quero música!
Mas ninguém dava corda ao pássaro mecânico, porque o imperador estava sozinho. Consideravam-no já morto, e os cortesãos preparavam o palácio para receber o sucessor.
— Canta, ave preciosa, canta! — pedia o imperador moribundo.
A ave continuava muda, e o imperador sentia-se morrer, esmagado pelo silêncio confrangedor.
De repente, eleva-se no ar, junto da janela aberta, uma voz deliciosa. Era o rouxinol que, num ramo lá fora, tinha ouvido os gritos de aflição do seu imperador e viera confortá-lo.
A medida que ele cantava, o imperador sentia-se mais leve, melhorava, voltavam-lhe as forças, regressava à vida.
— Obrigado! Obrigado, pássaro celestial! Reconheço a tua voz! Esqueci-te inteiramente, e tu vieste livrar-me da morte com as suas negras visões que me afligiam. Como poderei recompensar-te?
— Já fui recompensado, quando em tempos vi lágrimas nos teus olhos enquanto me escutavas — replicou delicadamente o rouxinol.
— Fica sempre junto de mim. Cantarás quando quiseres e quebrarei em mil bocados o pássaro mecânico!
— Não faças isso! — replicou o rouxinol verdadeiro. — Ele fez o que podia. Conser-
va-o. Eu não posso instalar-me no palácio, mas virei, quando sentir desejos disso, e cantarei para ti, à noite, empoleirado neste ramo, junto da janela aberta, para te tornar feliz.
— Sim, farás como quiseres. O meu coração esperar-te-á sempre, para te receber com alegria e gratidão!
E quando os criados entraram, supondo encontrar o imperador já morto, viram-no, porém, sorrir e dizer calmamente:
— Bom dia!…

Hans Christian Handersen
O rouxinol do imperador
Porto, Ed. MAJORA, s/d
Adaptação

  • Reparaste que quase todas as pessoas que vivem no palácio se mostram muito distanciadas da natureza? Escolhe passagens da história que o comprovem.
  • O rouxinol veio libertar o imperador da doença.
    Que sentimentos lhe terá transmitido com o seu canto?
  • E, a propósito, já ouviste alguma vez um rouxinol cantar?

Branca de Neve e os sete anões – conto com sugestão de actividades

Branca de Neve e os sete anões

Era Inverno, e a neve caía como se fosse uma leve penugem… Uma jovem rainha bordava, sentada defronte da janela enquadrada de madeira de ébano. Quando olhou para os flocos brancos que esvoaçavam, picou-se num dedo e três gotas de sangue vermelho caíram na neve. A rainha formulou então um desejo:
— Ah! Como eu gostava de ter uma filha, linda, com a tez branca como a neve, uns lábios vermelhos como o sangue e uns cabelos negros como o ébano.
Algum tempo depois, a rainha teve uma filha. A tez era branca como a neve, os lábios eram vermelhos como o sangue e os cabelos negros como o ébano… Chamaram-lhe Branca de Neve.
Mas a rainha morreu quando ela nasceu.
Passou um ano, e o rei voltou a casar. A sua segunda mulher era muito bonita, mas era também muito orgulhosa e vaidosa. Não suportava a ideia de qualquer mulher poder ser mais bonita do que ela…
Todos os dias a rainha ia mirar-se no seu espelho mágico e perguntava-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondia-lhe sempre:
Senhora rainha, vós sois a mais bela de todo o reino.
A rainha ficava muito contente com essa resposta; sabia que o espelho nunca mentia. Mas, entretanto, Branca de Neve foi crescendo e cada dia ficava mais bonita…
Um dia, a rainha interrogou o espelho, que lhe respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza de Branca de Neve não podeis igualar!
Então a rainha ficou verde de medo e inveja. Começou a detestar Branca de Neve. A inveja ia crescendo no seu coração, como a erva má cresce nos campos, envenenando-lhe a vida, tirando-lhe o sono. E cada vez que via Branca de Neve, odiava-a um pouco mais.
Já não suportando mais, mandou vir um caçador e disse-lhe:
— Leva Branca de Neve para a floresta, não quero voltar a vê-la! Mata-a e traz-me o coração e o fígado como prova.
O caçador levou Branca de Neve para a floresta, mas, quando desembainhou o punhal para a matar, ela disse-lhe:
— Gentil caçador, não me mates! Eu vou para o interior da floresta e nunca mais volto!
Como ela era muito bonita, o caçador teve pena dela.
— Foge, menina! — disse-lhe, convencido de que os animais da floresta iriam devorá-la.
Levou à rainha o coração e o fígado de um pequeno javali como prova da morte de Branca de Neve. A rainha mandou o seu cozinheiro prepará-los e comeu-os, julgando estar a comer Branca de Neve…
A pobre rapariga, sozinha no meio do bosque, ficou cheia de medo. Correu pela floresta até cair a noite. Os animais selvagens rondavam, mas não lhe fizeram mal.
Correu, correu, enquanto as suas pernas permitiram. Viu então uma casinha e entrou para descansar.
Nessa casinha, todas as coisas eram muito pequeninas; era tudo muito bonito e muito limpo. Viu uma mesinha coberta com uma toalha branca, com sete pratinhos, sete colherinhas, sete faquinhas e sete copinhos. Muito arrumadas, encostadas à parede, viu sete caminhas cobertas com colchas muito brancas.
Branca de Neve tinha muita fome e muita sede, e então tirou um bocadinho de legumes e de pão de cada pratinho, e bebeu uma gota de vinho de cada copinho, pois não queria tirar tudo à mesma pessoa!
Depois, porque estava muito cansada, quis deitar-se numa cama. Mas a primeira cama era muito grande, a segunda muito pequena… e foi experimentando todas. A sétima tinha bom tamanho. Deitou-se e adormeceu.
Quando caiu a noite, os sete anões que habitavam naquela casa regressaram do trabalho na montanha. Acenderam as sete lanterninhas e viram que estava lá alguém…
Disse o primeiro:
— Quem é que se sentou na minha cadeira?
O segundo disse:
— Quem é que tirou comida do meu prato?
O terceiro disse:
— Quem é que tirou um bocado do meu pão?
O quarto disse:
— Quem é que tirou legumes do meu prato?
O quinto disse:
— Quem é que usou o meu garfo?
O sexto disse:
— Quem é que usou a minha faca?
O sétimo disse:
— Quem é que bebeu do meu copo?
Depois, o primeiro viu que a sua cama estava desarrumada.
— Quem é que esteve a dormir na minha cama? — disse ele.
Os outros aproximaram-se a correr e todos gritaram:
— Na minha cama também se deitou alguém!
O sétimo, quando olhou para a sua cama, viu Branca de Neve a dormir. Pegaram nas lanterninhas para iluminarem o rosto da menina.
— Que linda que ela é! — disseram os sete.
Deitaram-se sem a acordarem. Chegaram-se todos um bocadinho para o lado para arranjarem espaço para o sétimo anão, e assim se passou a noite.
De manhã, quando Branca de Neve acordou, teve medo. Mas os anões olhavam para ela com simpatia. Perguntaram-lhe como se chamava.
— Chamo-me Branca de Neve — disse ela.
E contou-lhes que a madrasta tentara matá-la.
— Fica connosco — propuseram-lhe os anões. — Se quiseres arrumar a casa, cozinhar, fazer as camas… não te faltará nada. Mas cuidado com a tua madrasta, ela pode descobrir que estás cá. Não deixes ninguém entrar!
Branca de Neve aceitou de bom grado e arrumou a casa toda. De manhã, os sete anões foram para a montanha, onde procuravam ouro, e quando à noite regressaram, a refeição estava pronta.
A rainha julgava que Branca de Neve estava morta, pois comera o seu fígado e o seu coração. No entanto, um dia interrogou o seu espelho mágico e ele respondeu-lhe:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

A rainha sabia que o espelho nunca mentia, e percebeu que o caçador a tinha enganado: Branca de Neve ainda estava viva! A inveja invadiu o seu coração, e ela deixou de ter sossego. Inventou então nova maneira de matar Branca de Neve…
Disfarçada de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas por detrás das quais viviam os sete anões, e bateu à porta da casa:
— Tenho coisas muito boas para vender! — disse ela. — Tenho cordões de todas as cores!
«É uma velhinha simpática, vou deixá-la entrar», pensou Branca de Neve. Abriu a porta e comprou-lhe um lindo cordão de seda.
— Minha menina — disse a velha — deixe-me pôr-lhe o cordão como deve ser.
A mulher passou o cordão pelo corpete de Branca de Neve, e depois apertou-o tanto que ela deixou de poder respirar e caiu como morta.
— Agora, já não és a mais bela! — gritou a velha, que se afastou da casa rapidamente.
À noite, os sete anões regressaram. Ficaram apavorados quando viram a sua querida Branca de Neve estendida no chão, sem vida. Notaram que o seu corpete estava demasiado apertado, e cortaram o cordão. Branca de Neve recuperou os sentidos.
— Foi a rainha má que quis matar-te… — disseram eles a Branca de Neve. — Tememos que ela regresse, por isso não deixes entrar ninguém enquanto cá não estamos.
Quando voltou ao castelo, a rainha interrogou o espelho:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha sentiu o coração estoirar de fúria e tentou encontrar outro modo de matar Branca de Neve. Por meio de feitiçaria, fabricou um pente envenenado, disfarçou-se novamente de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas e bateu à porta da casa dos sete anões.
Branca de Neve viu pela janela que ela se aproximava e disse-lhe:
— Continue o seu caminho, não posso abrir a porta a ninguém.
— Mas podes ver o que aqui trago… — disse a velha e mostrou-lhe o pente. — Deixa- me entrar, que eu penteio-te.
Então Branca de Neve deixou a velha entrar para a pentear, mas mal o pente tocou nos seus cabelos, o veneno fez efeito e a menina caiu no chão sem sentidos.
— És um prodígio de beleza, mas agora acabou-se! — disse a madrasta que se afastou rapidamente. Por sorte, estava quase na hora de os anões regressarem… Quando viram Branca de Neve inanimada, desconfiaram da rainha má; procuraram e logo encontraram o pente envenenado. Mal o tiraram dos cabelos de Branca de Neve, ela recobrou os sentidos e contou- lhes o que se tinha passado. Eles recomendaram-lhe novamente que não abrisse a porta a ninguém.
Quando chegou ao palácio, a rainha interrogou novamente o seu espelho mágico:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha tremeu de fúria e raiva.
— Branca de Neve tem de morrer — gritou ela — nem que para isso também eu tenha de morrer!
E num local sombrio, que ninguém conhecia, preparou uma maçã envenenada; depois disfarçou-se de camponesa, atravessou as sete montanhas, bateu à porta da casa dos sete anões…
Branca de Neve debruçou-se à janela e disse:
— Não posso abrir a porta a ninguém! Os sete anões proibiram-me!
— Pior para ti — disse a camponesa. — Vou vender as minhas maçãs a outra pessoa. Mas ao menos deixa-me oferecer-te uma…
— Não — disse Branca de Neve. — Não posso aceitar nada.
— Tens medo de ser envenenada? — perguntou a camponesa. — Olha, vou partir a maçã em duas partes; eu fico com a metade branca e tu com a metade vermelha!
Branca de Neve olhava para a maçã e estava tentada.
Quando viu a camponesa a comer a metade da maçã, estendeu a mão e pegou na outra metade.
Mal trincou a maçã, caiu morta no chão.
A rainha olhou para ela com olhos maliciosos, riu e troçou:
— Branca como a neve, vermelha como o sangue, negra como o ébano… Desta vez nem os anões te podem reanimar!
Ao chegar ao palácio, a malvada mulher interrogou o seu espelho, e ele finalmente respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela do reino.
Então, o invejoso coração da rainha repousou um pouco, mas um coração invejoso nunca tem verdadeiro repouso…
À noite, quando os anões regressaram a casa, viram Branca de Neve estendida no chão, sem respirar. Procuraram descobrir alguma coisa envenenada, mas não encontraram nada. A sua querida Branca de Neve estava morta!
Sentaram-se todos em volta dela e choraram durante três dias; depois, prepararam-se para a enterrar. Mas ela continuava fresca como se estivesse viva, com as faces rosadas como sempre.
— Não podemos enterrá-la na terra negra! — disseram. Fizeram um caixão de vidro, deitaram-na lá dentro e escreveram por cima o nome dela com letras de ouro, acrescentando que era filha de um rei. Depois levaram o caixão para o cimo da montanha e, revezando-se, fizeram guarda junto dela. Também os animais vinham chorar Branca de Neve… Branca de Neve ficou muito tempo, muito tempo, no seu caixão, sempre muito bonita, sempre como se estivesse apenas a dormir.
Ora aconteceu passar por ali o filho de um rei, que parou na casa dos anões, para lá pernoitar. Viu o caixão no cimo da montanha e lá dentro a bela Branca de Neve. E leu o que estava escrito a letras de ouro.
— Dêem-me esse caixão, e eu dou-vos tudo o que quiserem! — disse ele aos anões.
— Nem que nos desse todo o ouro do mundo! — responderam os anões.
— Então, ofereçam-mo, porque não poderei viver sem Branca de Neve. Quero venerá-la como a minha bem-amada.
Ao ouvi-lo dizer estas palavras, os bons anões tiveram piedade dele e ofereceram-lhe o caixão. Mas os servidores do príncipe, que o transportavam aos ombros, tropeçaram num tronco de árvore e a sacudidela fez saltar da boca de Branca de Neve o pedaço de maçã que ela trincara. Abriu os olhos, levantou a tampa do caixão e levantou-se. Estava novamente viva!
— Onde estou? — perguntou.
— Junto de mim — disse o príncipe. — Amo-te mais do que tudo neste mundo. Vem comigo para o castelo do meu pai. Serás a minha mulher.
Então Branca de Neve sentiu que o amava e foi com ele. As núpcias foram preparadas com grande pompa e magnificência. A rainha má também foi convidada.
Adornada com os seus mais belos atavios, olhou para o espelho e perguntou-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
O espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza da jovem soberana não podeis igualar!

A perversa mulher, mergulhada em ódio, teve tanto medo que perdeu a cabeça: levada pela curiosidade, não resistiu a ir ao casamento para ver a jovem rainha.
Ao reconhecer Branca de Neve, ficou pregada ao chão. Então, o castigo que a madrasta tantas vezes merecera por ter querido matar Branca de Neve abateu-se sobre ela.
Dando meia volta, saiu a correr do castelo, e consta que caiu num precipício, morrendo da queda, pois nunca mais foi vista por aquelas paragens.
E Branca de Neve e o príncipe viveram muitos e muitos anos de um feliz casamento.

O meu livro de contos
Marie Tenaille (org)
Porto, Asa Editores, 2001

  • A madrasta de Branca de Neve é uma mulher invejosa, que acaba por ser vítima da própria inveja.
    Já te aconteceu sentires inveja de alguém?
  • E já te apercebeste do quanto uma pessoa invejosa pode ser injusta com os outros?
  • Branca de Neve, apesar de simpática, não é prudente, pois cai por três vezes no mesmo tipo de armadilha. E tu, costumas ser prudente?
  • A madrasta de Branca de Neve dava excessivo valor a um atributo físico. Qual era? Concordas com o seu procedimento?
    Certamente que o seu carácter traiçoeiro e cruel também te impressionou. Por quê?