Mary Anning, investigadora de fósseis

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Mary Anning, investigadora de fósseis

O maior investigador de fósseis conhecido foi uma mulher inglesa chamada Mary Anning, cujas descobertas constituem alguns dos achados geológicos mais importantes de sempre, essenciais para conhecermos a história da Terra.

Aos 12 anos de idade, Mary descobriu o primeiro fóssil de ictiossauro. O fóssil media cinco metros de comprimento e estava incrustado num penhasco íngreme, na costa de Dorset. As suas descobertas incluem outros répteis marinhos antigos, hoje em exposição no Museu de História Natural de Londres, como o plesiossauro e um dos primeiros fósseis de pterodáctilo.

Os rochedos e a praia de Lyme eram ricos em belemnites e amonites, assim como em répteis e peixes, ali deixados 200 milhões de anos antes, durante a Era Jurássica. Anning procurava fósseis na área dos penhascos de Blue Lies, sobretudo durante os meses de inverno, altura em que os deslizamentos de terra expunham novos espécimes, que tinham de ser extraídos rapidamente, antes que fossem levados pelo mar. Era um trabalho perigoso, no qual ela quase morreu em 1833, e que lhe custou a perda do seu cão Tray.

Nascida em 1799, Mary Anning teve de lutar com dificuldades financeiras durante grande parte da sua vida. A família era Continuar a ler

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LYDIA CACHO e a luta pela liberdade

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 “O jornalismo está em liberdade condicional.”

Jornalista, feminista, escritora e defensora dos direitos humanos, Lydia Cacho é especialista em temas de género e violência na UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher). Cofundadora da Rede de Jornalistas do México, Centro-América e Caraíbas, é ainda, atualmente, fundadora e diretora do Centro de Atendimento Externo para Mulheres Maltratadas em Cancun, CIAM. Foi galardoada com os prémios Human Rights Watch 2007, o Prémio Mundial UNESCO para a Liberdade de Imprensa, Guillermo Cano – 2008 e, no mesmo ano de 2008, também recebeu o Prémio Liberdade de Expressão, da União de Jornalistas de Valência.

Em 2006, conheci Lydia, na Cidade Juárez, enquanto preparava a viagem ao México com a Plataforma das Mulheres Artistas, para denunciar os crimes contra as mulheres. Já antes dessa viagem, tinha estado em contacto com ela, e juntas planificámos todas as ações a levar a cabo no México. Recordo o primeiro encontro, na Casa de Espanha, e nunca esquecerei aqueles seus olhos cheios de vida e de doçura, nem aquela energia que me uniu a ela para sempre. Senti como se de minha irmã gémea se tratasse, como sei que sentem muitíssimas mulheres às quais foi devolvida a valentia e a força para seguirem em frente, particularmente as da Casa de Acolhimento que dirige, com uma metodologia baseada no amor e no Continuar a ler

Amira Hass

Aamira

AMIRA HASS, PERITA EM OCUPAÇÃO

O meu trabalho é vigiar o poder.

Oficialmente, é a correspondente para os assuntos palestinianos do diário israelita Aaretz, mas prefere ser conhecida como perita em ocupação. Amira Hass, jornalista israelita nascida em Jerusalém, dá a conhecer aos seus compatriotas o que se passa a poucos quilómetros de suas casas, o que muitos não querem ver. Com residência habitual na cidade da Cisjordânia, em Ramala, mantém na realidade “um romance com Gaza”, segundo as suas próprias palavras. Há já alguns anos que passa temporadas na faixa de Gaza e conta como é viver em estado de sítio.

O meu desejo de viver em Gaza não se deveu à sede de aventuras ou à loucura, mas ao medo de ser uma observadora passiva, à minha necessidade de compreender até ao último pormenor um mundo que, de acordo com os meus conhecimentos políticos e históricos, é uma criação profundamente israelita. Gaza encarna para mim toda a saga do conflito israelo-palestiniano, representa a principal contradição do Estado de Israel: democracia para alguns, privação para outros”, explica Hass.

Foi pela primeira vez à Faixa de Gaza como voluntária da organização Workers Hotline (Linha Direta de Trabalhadores), que se ocupava em defender os direitos dos trabalhadores palestinianos face aos abusos dos seus empregadores israelitas. E lá regressou, como jornalista, em muitas ocasiões.

A última vez foi Continuar a ler

Gandhi

Mohandas Karamchand Gandhi nasceu em Porbandar, na Índia, a 2 de Outubro de 1869. O pai era primeiro-ministro na corte do príncipe local. A mãe, mulher devota, deu aos filhos uma educação religiosa. A religião da família era uma combinação de Hinduísmo e de Jainismo.

Gandhi cresceu a acreditar na doutrina do karma, segundo a qual devemos rezar, ser disciplinados, honestos e parcimoniosos, a fim de conservarmos a alma pura.

Quando tinha treze anos, casou-se, segundo a tradição hindu, com Kasturbai Makanji, uma linda rapariga da mesma idade, dotada de grandes qualidades, como a paciência, a força e a coragem.

Quanto a Gandhi, era de baixa estatura, tímido, e tinha medo de várias coisas, entre as quais as serpentes, os fantasmas e a escuridão. Kasturbai ria-se com ternura do marido, por este ter de dormir com a luz acesa.

Gandhi sentia-se diferente das outras pessoas. Aluno fraco: terminou o liceu com dificuldade e teve más notas na faculdade. Em 1888, instado pelo tio, deixou a mulher na Índia e foi para Londres  estudar Direito. Durante  muito tempo, sentiu-se completamente só, um estrangeiro em terra alheia. A fim de se sentir mais confiante, decidiu transformar-se num autêntico cavalheiro inglês. Vivia num apartamento selecto e vestia roupas elegantes. Aprendeu a falar um inglês perfeito, teve aulas de violino e aprendeu até a dançar o fox-trot.

Mas não era feliz. Sentia que um fosso enorme separava o seu ser interior da sua aparência exterior. Tentou então recuperar a sua herança jainista: abandonou o apartamento selecto, passou a cozinhar as suas próprias refeições, a andar a pé em vez de tomar transportes, e aderiu à Sociedade Vegetariana de Londres. A sua nova independência fê-lo sentir-se mais feliz, embora continuasse desajeitado e tímido.

Tirou finalmente o curso e regressou à Índia, três anos depois de ter chegado a Londres.

De regresso a casa, soube que a mãe tinha morrido.

Gandhi abriu um escritório de advocacia em Bombaim, decidido a triunfar na vida profissional. Mas a sua timidez desajeitada impedia-o de falar em público e foi humilhado com frequência.

Como o irmão de Gandhi conhecia uma firma de advogados na África do Sul que precisava de um sócio, Gandhi, acompanhado pela mulher, deixou a Índia em 1893. De novo estrangeiro em terra alheia, experimentou o racismo na própria pele. A sua cor fazia dele um alvo de desprezo e de maus-tratos físicos por parte dos brancos sul-africanos. O trabalho no escritório era duro mas, em vez de desistir e de abandonar aquele país hostil, Gandhi decidiu mudar-se a SI MESMO, a fim de enfrentar os desafios que lhe eram colocados.

Através da auto-disciplina e da concentração, conseguiu atingir os seus objectivos e compreendeu que o verdadeiro exercício do Direito consiste em procurar o lado melhor da natureza humana e penetrar nos corações dos homens. Começou a encarar todas as dificuldades como formas de melhor servir os outros, atitude que viria a tornar-se o segredo do seu sucesso durante o resto da vida.

Numa noite de Inverno, Gandhi viajava de comboio, em negócios, numa carruagem de primeira classe. Um passageiro branco insistiu que Gandhi viajasse em terceira classe. Gandhi recusou, e o revisor atirou-o para fora do comboio. No meio de parte alguma, rodeado de escuridão e cheio de frio, Gandhi reflectiu sobre a profunda e dolorosa doença do preconceito.

Pouco depois da sua experiência no comboio, criou a teoria da satyagraha, que quer dizer “a força do amor”. Escreveu: A força do amor exercida através da paz triunfa sempre sobre a violência. Empenhou-se em extirpar a doença do preconceito, sem nunca ceder à violência e sem nunca exercer violência sobre os outros, e prometeu trazer a paz do Céu para a Terra.

No início do século XX, a África do Sul estava dividida em quatro colónias britânicas distintas: a Colónia do Cabo, o Natal, o Estado Livre de Orange e o Transval. A 22 de Agosto de 1906, o governo do Transval promulgou a Lei dos Negros, que privava os negros e os indianos dos seus direitos cívicos. Em resposta a esta lei, Gandhi formou o primeiro movimento não-violento de resistência de massas. Mais de quinhentas pessoas participaram neste movimento de desobediência civil.

Gandhi e os seus apoiantes lutaram pelos direitos de negros e indianos, bem como pelos direitos das mulheres. Prestou apoio jurídico gratuito e ajudou pessoas que viviam em condições desesperadas. Tratou de pessoas doentes, que tinham sido abandonadas durante uma epidemia, fez curativos a leprosos e reconfortou os moribundos. Costumava dizer:

— Estas pessoas são meus irmãos e irmãs. O seu sofrimento é o meu sofrimento. A minha família é o mundo inteiro.

Gandhi acreditava profundamente nos ensinamentos de um dos livros sagrados hindus, o Baghavad-Gita. Meditava várias vezes ao dia e tentava enfraquecer os seus desejos egoístas através do amor aos outros e do amor ao “Senhor do Amor”. Tentava não sentir raiva, para que esta não tolhesse o seu discernimento. Ao acreditar no poder do amor e ao tratar todas as pessoas como se fossem membros da sua própria família, Gandhi descobriu que deixara de sentir timidez e que não tinha medo de coisa alguma.

Tanto ele como os seus seguidores agiam no sentido de aceitar de igual maneira as coisas boas e más da vida, de receber os desafios com humildade e mansidão, e de trazer a harmonia ao mundo.

Gandhi regressou à Índia em 1915, acompanhado pela mulher e pelos quatro filhos. Começou a lutar para libertar a Índia do sistema preconceituoso de castas que dividia a sociedade em quatro classes. Os sacerdotes ocupavam o topo da pirâmide social, seguidos pelos príncipes e pelos militares que, por sua vez, se encontravam no patamar acima dos trabalhadores. Os pobres os “intocáveis” ocupavam o nível mais baixo da pirâmide. Gandhi chamava-lhes “filhos de Deus” e estava decidido a libertá-los do seu estigma.

Também se empenhou em libertar a Índia do domínio britânico. Durante trezentos anos, vários milhares de Britânicos tinham governado mais de trezentos milhões de Indianos. Gandhi dirigia-se às multidões e pedia-lhes que pusessem a satyagraha em prática, ou seja, o amor altruísta pelos outros. Os Indianos deixaram de colaborar com os Britânicos e muitos foram presos. Muitos outros começaram a confeccionar as suas próprias roupas, para não terem de comprar tecidos britânicos. A túnica branca de fiação caseira chamada khadi começou a ser usada por milhões de pessoas, tornando-se o símbolo da independência indiana.

O governo britânico ficou furioso com a não-cooperação da Índia e, em 1919, durante o massacre de Amritsar, soldados britânicos mataram 379 inocentes, tendo ferido mais de um milhar.

Gandhi liderou então um hartal, ou greve nacional, que paralisou a Índia inteira. A campanha não-violenta baseada na teoria da satyagraha continuou, encorajada pelas palavras do próprio Gandhi:

A não-violência actua de forma contínua, silenciosa e incessante, até transformar o mal em bem.

Em 1922, os Britânicos prenderam Gandhi por pregar a não-violência, por desafiar a autoridade britânica e por escrever panfletos anti-governo. Esteve preso durante dois anos, mas o movimento da não-violência manteve-se forte.

O imperialismo britânico na Índia estava sob ameaça e Gandhi sentia-se feliz. Não achava que o facto de estar preso fosse uma tribulação; pelo contrário, via-o como um motivo de orgulho. Considerava que sofrer corajosamente por um ideal era a força motriz que transformaria cada homem e cada mulher da Índia em seres livres.

Em países quentes e tropicais como a Índia, o sal é uma parte essencial da alimentação das pessoas. A lei britânica proibia os Indianos de fazerem o seu próprio sal e obrigava-os a pagar um pesado imposto sobre este produto.

Em 1930, Gandhi liderou os seus compatriotas na chamada Marcha do Sal. Acompanhado por setenta e oito pessoas, empreendeu a caminhada de Sabarmati até Dandi, uma cidade costeira que ficava a mais de 200 quilómetros. Quando Gandhi chegou a Dandi e pegou num punhado de sal, num gesto simbólico de desafio do domínio britânico, as pessoas que o acompanhavam excediam já as centenas de milhar. O governo britânico foi forçado a reconhecer que estava a perder o controlo da Índia.

Depois de liderar a Marcha do Sal e outras iniciativas igualmente desafiadoras, Gandhi sentiu que o jugo imperialista sobre os seus compatriotas estava a diminuir de intensidade, o que, para ele, constituía um motivo de grande júbilo. Os seus seguidores deram-lhe o cognome de “Mahatma”, que significa “alma grande”.

Mas o governo britânico não desistia facilmente da Índia e Gandhi foi preso depois da Marcha do Sal. Decidiu então jejuar, a fim de pressionar as autoridades. Foi uma forma poderosa e não-violenta de ameaçar o governo. Como este não queria ser responsável pela morte de Gandhi, após seis dias de greve de fome, acordou em proteger os direitos cívicos dos “intocáveis”. Conseguir mudanças sociais através de meios pacíficos foi o grande contributo de Gandhi para a humanidade.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os indianos de religião hindu e os indianos de religião muçulmana travaram uma guerra civil motivada pelas suas diferenças religiosas e culturais. Massacres e actos de destruição devastaram o país inteiro.

Durante todo este período de grande anarquia e sofrimento, Gandhi percorreu, descalço, aldeias remotas que tinham sido destruídas e continuou a pregar a sua mensagem de não-violência.

A 12 de Agosto de 1947, a Índia conseguiu, finalmente, libertar-se do domínio britânico. Mas o país estava separado em duas partes: a sul ficava a Índia, de maioria hindu, liderada pelo Primeiro-Ministro Jawaharlal Nehru e, a norte, o Paquistão muçulmano, liderado pelo Governador-Geral do Paquistão e Presidente da Liga Muçulmana, Muhammad Ali Jinnah.

Gandhi não comemorou a independência da Índia. Encetou um período de jejum para lembrar a Hindus e Muçulmanos a importância da paciência, da compreensão e do perdão, face à intransigência. Ansiava que o seu povo vencesse o ódio através do amor.

Como o movimento da satyagraha conseguira vencer o domínio britânico, Gandhi confiava que ele pudesse também unificar as facções que agora dividiam a Índia. Mas tal unificação nunca viria a consumar-se.

Embora extremamente debilitado devido ao jejum, Gandhi, agora com 78 anos, continuou a dirigir-se aos seus seguidores. Como ensinava e professava a irmandade de todas as pessoas e religiões, era odiado pelos Hindus e Muçulmanos, que acreditavam que a sua própria religião era a única verdadeira

No dia 30 de Janeiro de 1948, ao cair da tarde, quando Gandhi se dirigia para um encontro de oração, no qual era aguardado por milhares de pessoas, um Hindu, de nome Nathuram Godse, disparou sobre ele, atingindo-o mortalmente no coração. Gandhi caiu. As suas últimas palavras foram palavras de compaixão e amor:

Rama, rama, rama .

(Perdoo-te, amo-te, abençoo-te.)

Foi cremado em Nova Deli. Milhões de pessoas, vindas de toda a Índia e de todos os cantos do mundo, choraram a perda deste extraordinário mensageiro da paz.

Quando morreu, Gandhi tinha poucos bens: duas colheres, duas panelas, três macacos, três livros, um relógio de bolso, um par de óculos, uma tigela de alumínio (recordação da prisão), um conjunto de secretária, dois pares de sandálias, e a sua khadi.

As suas cinzas foram misturadas com pétalas de rosa e espalhadas pela família na confluência dos três grandes rios indianos: o Ganges, o Jumna e o Sarasvati.

O Bhagavad-Gītā diz que sermos unos com o Senhor do Amor é o estado supremo de ventura. Se conseguirmos atingir esse estado, passaremos da morte à imortalidade. O amor ilimitado de Mahatma Gandhi pela humanidade guiou a sua vida, mudou a vida de milhões de pessoas, e tornou-o imortal.

Demi

Gandhi

New York , Margaret K. McElderry Books, 2001

tradução e adaptação

De Solidariedades

Helen, a menina do silêncio e da noite – Anne Marchon

Helen, a menina do silêncio e da noite

Esta é uma história verdadeira.

Há cem anos, na América, nascia uma menina loira. O pai e a mãe estavam muito felizes.

Chamaram-lhe Helen Keller. Helen é um bonito nome.

Por volta dos dezoito meses, Helen adoeceu. E, quando ficou boa, os pais aperceberam-se de que ela já não via nem ouvia nada. Tinha-se tornado cega e surda.

Entretanto, crescia, brincava, comia e corria, como as outras crianças; só que não se lhe podia explicar, dizer ou mostrar nada.

Nós que vemos, sabemos que o céu é azul, vemos o sorriso da Mamã e do Papá, vemos os animais e tudo o que se passa em nossa casa, lá fora, na rua, nos campos e por todo o lado.

Helen não via nada.

Nós que ouvimos, ouvimos a voz dos nossos pais, ouvimos baterem à porta, ouvimos o ruído dos carros e ouvimos música.

Helen não ouvia nada.

Em todo o lado, ouvimos sempre qualquer coisa, mesmo à noite, quando dormimos.

Quando se é surdo, não se compreende o que dizem as pessoas, por que é que se riem, por que se zangam, por que falam.

Não podemos repetir as palavras, para aprender o nome das coisas.

Não podemos falar para perguntarmos o que queremos.

E, sobretudo, não temos palavras para pensar.

Os que são apenas cegos têm ouvidos para ouvir e perceber o que se passa à sua volta.

Os que são apenas surdos, têm olhos para ver e compreender o que se passa ao seu redor.

Mas ser ao mesmo tempo surdo e cego, é terrível! É como se estivéssemos sempre sós no silêncio e na noite.

Helen estava assim, completamente só no silêncio e na noite.

Os pais não sabiam o que fazer para lhe explicar as coisas. Muitas vezes Helen enfurecia-se e partia tudo o que encontrava, rasgava as roupas, comia com as mãos e atirava o prato ao chão; batia na irmã mais nova e gritava.

Então os pais choravam porque não sabiam o que fazer para lhe ensinar o que ela não sabia, e para lhe fazer compreender que a amavam muito.

Helen estava muito triste. Muitas vezes, ficava sentada no chão e chorava o dia inteiro. Helen estava só no silêncio e na noite e sentia-se muito infeliz.

Os pais deixavam-lhe fazer tudo o que ela queria. Nunca a castigavam, e Helen era ainda mais infeliz.

Quando fez sete anos, os pais tiveram uma boa ideia: pediram a uma professora para vir morar com eles. Chamava-se Ann Sullivan e tinha dezoito anos. Já tinha sido cega, mas fora operada e agora via.

Estava decidida a ajudar crianças cegas.

Conhecia muitos jogos para cegos. Mas Helen era cega e surda, e Ann não sabia se conseguiria vir a “falar” com Helen.

A princípio, Helen era muito mazinha com a sua professora e não queria aprender nada. Não gostava de ser mandada porque estava habituada a fazer tudo o que queria.

Mas Ann era muito paciente. Ensinou-lhe muitas coisas: enfiar pérolas, tricotar e coser. Separar os objectos redondos dos quadrados, e os duros dos moles. E, pouco a pouco, Helen tornou-se gentil e asseada. Não se podia servir dos olhos nem dos ouvidos, mas tentava compreender muitas coisas com as mãos. E foi com as suas mãos que Helen aprendeu a falar.

Um dia, Ann, tocando-lhe nas mãos, fê-la compreender, enfim, que lhe ensinava, deste modo, o nome das coisas. Percebeu, assim, que tudo tinha um nome: as coisas, os animais, as pessoas.

Aprendeu o seu nome, “Helen”, e “Papá” e “Mamã” e “Professora”. E quando Helen tocava com as suas mãos nas do pai, dizendo Papá, ele chorava de alegria. Era formidável.

Então, Helen aprendeu a ler seguindo com os dedos as letras para os cegos. E, mais tarde, conseguiu falar com a sua voz; mas era muito difícil, porque não ouvia o que dizia.

Helen era muito inteligente e aprendia depressa. Queria saber tudo. Foi à escola com Ann, que a acompanhava para todo o lado e lhe dizia, com as mãos, tudo o que diziam as professoras. E Helen fazia os trabalhos de casa na sua máquina de escrever. Tornou-se tão inteligente que passou num exame difícil em que nenhuma rapariga do seu país tinha conseguido passar.

Helen tornou-se célebre e todos queriam conhecê-la.

Viajou muito. Foi a todos os países explicar às pessoas que era preciso ocuparem-se das crianças surdas e cegas, porque elas também podiam compreender, aprender como ela, e serem felizes.

Helen sabia que tinha tido muita sorte: tinha uns pais que a amavam, e que haviam podido pagar uma professora só para ela. E, sobretudo, tinha Ann, que era muito inteligente e paciente.

Helen gostaria que todas as crianças cegas e surdas fossem ajudadas e amadas como ela foi.

Agora, graças a Helen Keller e a Ann Sullivan, sabemos ocupar-nos melhor de crianças que não vêem e que não ouvem.

Anne Marchon

Helen, a menina do silêncio e da noite

Desabrochar – Editorial, 1988

(Texto adaptado)