A minha mãe está sempre cheia de pressa

A minha mãe está sempre cheia de pressa

Tudo começou no dia em que a mãe de Ivan retomou o trabalho e começou a olhar o seu relógio com paixão. Durante todo o dia não tirava os olhos dele e dizia:

— Meu Deus, já são cinco horas? Já são seis horas, trinta e sete minutos e vinte e quatro segundos? Já são oito horas e vinte e oito? Mas isso é terrível!

E corria, cabelos ao vento, do emprego para a escola, da escola para o emprego, do emprego para as aulas de violino de Ivan, das aulas de violino de Ivan para as suas aulas de canto, das aulas de canto para o dentista, do dentista para o talho, do talho para a mercearia…

A mãe de Ivan queria fazer tudo. Para ganhar tempo, tinha comprado, numa loja especializada, um par de sapatilhas supersónicas, que tinham um motor que se acciona através de um botãozinho vermelho. Estas sapatilhas chegavam a atingir quinze quilómetros por segundo. Parece muito divertido, não parece?

Só que não era nada divertido, porque a mãe de Ivan achava que o filho era demasiado lento para o seu gosto. Quanto mais pressa tinha, mais o achava indolente. Então, enervava-se e criticava-o. Ficava furiosa com aquilo que via como lentidão, mas que era, na realidade, um comportamento perfeitamente normal. Quando Ivan estava a desenhar, tinha de acabar o desenho em três segundos (tenta tu desenhar um carneiro ou um avião em três segundos e vê se é possível). Quando Ivan tocava violino, tinha de fazer os exercícios em três milésimas de segundo, caso contrário a mãe punha-se a suspirar e olhava para o relógio como se este fosse um comboio que ela tinha de apanhar.

— Despacha-te! — dizia.

Mas parecia dizer “Pacha-te!Pacha-te!”, como se fosse um comboio. À força de tanto correr, a mãe de Ivan pôs-se a fazer disparates. De manhã, em vez de beijar Ivan à despedida na escola, beijava o director. À noite, Ivan saía do banho cheio de sabonete seco, porque não havia tempo para o lavar com água. Em casa, só se comia peixe e carne crus porque não havia tempo para ligar o forno. Um dia, quando, depois de uma festa de aniversário, a mãe foi buscar Ivan a casa de um amigo, saiu com outra criança, porque esta tinha apertado os atacadores dos sapatos mais depressa do que Ivan.

E é claro que se esquecia das coisas essenciais: beijar, fazer mimos ou falar com o filho. Estas eram ocupações que, segundo ela, tomavam demasiado tempo. Não é pois de admirar que Ivan tenha pensado que a mãe já não gostava dele. Então, para tentar prender a sua atenção, como se tenta prender a água entre as mãos, começou a andar mais devagar. De manhã, demorava vinte minutos e quinze segundos para atar um cordão. Só de um sapato! Quando bocejava, demorava três minutos a abrir a boca. A mãe ficava louca de raiva, mas este comportamento era mais forte do que Ivan.

Quando mais ela se apressava, mais ele se atrasava. Ivan pensava que se andasse mais devagar, a mãe começaria também a andar mais devagar e poderia amá-lo e abraçá-lo como quando ele era pequenino. Claro que ele podia dizer isto à mãe mas, quando se tem cinco ou seis anos, já não se chora para ter o que se pretende. Então, exprimimo-nos de outra forma. Toma-se um caminho diferente do das lágrimas.

Certo dia, aconteceu o que tinha de acontecer: Ivan adoeceu de lentidão. Dormia o dia todo. Bocejava, fechava os olhos e não queria fazer nada, como se a mãe o tivesse cansado com tantas correrias. Já não podia ir à escola porque, quando acabava de se vestir, já tinha anoitecido. A mãe consultou inúmeros médicos que faziam urgências (daqueles que chegam de motorizada de quinze em quinze minutos).

O primeiro falou de uma gripe-relâmpago, o segundo de uma infecção cerebral, o terceiro de uma crise de crescimento. Ivan engoliu xaropes de alcaçuz, de framboesa e de banana. Mas continuava a dormir. Então, pela primeira vez em muito tempo, a mãe começou a reflectir. Deitou fora todos os xaropes e sentou-se à cabeceira do filho. Sem fazer barulho, desligou as sapatilhas supersónicas e pô-las aos pés da cama, como fazemos quando estamos à espera do Pai Natal.

Um dia, Ivan abriu os olhos muito devagarinho e viu a mãe a descalçar as sapatilhas. Saltou logo da cama, como se estivesse curado.

— És tu, mamã? Esperaste por mim? Amas-me um bocadinho?

— Claro que te amo. Mesmo quando andava sempre a correr de um lado para o outro amava-te na mesma. Nunca deixei de te amar. Como pudeste pensar, por duas milésimas de segundo, que eu tinha deixado de te amar?

A mãe de Ivan pensou que nunca se dizem vezes demais aos filhos que os amamos mais do que tudo, mais do que o trabalho, mais do que o nosso emprego, mais do que o tempo que passa, mais do que qualquer outra coisa! Abraçou o seu filho querido com muita força durante quinze minutos, e garanto-te que, naquele dia, nem sequer olhou para o relógio. Nem naquele nem nos que se lhe seguiram.

 

* De acordo com os números de uma sondagem Ipsos realizada em 1999, as mulheres, sobretudo as jovens mães – com idades compreendidas entre 24 e 25 anos – não sonham com uma viagem a Honolulu, nem com uma casa cheia de conforto, mas com tempo suplementar para dedicar à família.

* Entrar no universo das mães é entrar no universo da felicidade e da culpabilidade, dizem as mães que trabalham fora de casa. “Quando estou a trabalhar, penso que devia estar com os meus filhos. Quando estou com eles, lembro-me do trabalho que deixei no escritório.” Daí a corrida contra o relógio, para tentarem estar nos dois sítios ao mesmo tempo.

* A qualidade dos momentos que passa com os seus filhos é preferível à quantidade. As crianças preferem uma mãe bem-disposta que trabalha fora de casa a uma mãe deprimida em casa. Mas o tempo que passarem com os filhos deve ser-lhes totalmente consagrado. Quando chega a casa, a mãe não deve pôr-se ao telefone durante horas. Deve desligar o telemóvel e ligar o atendedor de chamadas. Telefone quando os seus filhos estiverem deitados.

Também não deve suprimir a história ao deitar. É um momento de partilha essencial. Tente também ouvir o seu filho, sentada no chão, sem fazer nada.

A criança tem o seu próprio ritmo. Talvez que o tempo que demora a vestir-se seja uma reacção à sua pressa constante. “Perca” tempo a dizer-lhe que gosta dele, a fazer-lhe mimos. Não deixe que o pudor, a falta de tempo ou a negligência a impeçam de lho dizer.

* Tens a sensação de que o teu pai ou a tua mãe estão sempre a apressar-te ? É normal que os pais que trabalham estejam sempre a fazer mil coisas de cada vez.

Ficas triste? É claro que se vivêssemos numa ilha deserta teríamos todo o tempo do mundo para estarmos juntos. Mas as mães têm muito que fazer: ocupar-se da casa e dos filhos, preparar as actividades… Às vezes, ficam muito excitadas, agitadas e enervadas.

Os avós têm mais tempo. Trabalham menos, ou nem sequer trabalham, e vivem mais de acordo com o ritmo das crianças.

Histórias para os mais pequeninos  

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