Sugestões de leitura para adultos – edições brasileiras

A Garota Que Você Deixou Para Trás

Jojo Moyes
Intrínseca, 2014

Jojo Moyes apresenta a comovente história de duas jovens separadas por quase um século no tempo,mas juntas em sua determinação de lutar por aquilo que amam – custe o que custar.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem pintor francês Édouard Lefèvre é obrigado a se separar de sua esposa, Sophie, para lutar no front. Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, Sophie apega-se às lembranças do marido admirando um retrato seu pintado por Édouard. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca tudo – a família, a reputação e a vida – na esperança de rever Édouard, agora prisioneiro de guerra.

Quase um século depois, na Londres dos anos 2000, a jovem viúva Liv Halston mora sozinha numa moderna casa com paredes de vidro. Ocupando lugar de destaque, um retrato de uma bela jovem, presente do seu marido pouco antes de sua morte prematura, a mantém ligada ao passado. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar à vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura e sua tumultuada trajetória. Ao mergulhar na história da garota do quadro, Liv vê, mais uma vez, sua própria vida virar de cabeça para baixo. Tecido com habilidade, A garota que você deixou para trás alterna momentos tristes e alegres, sem descuidar dos meandros das grandes histórias de amor e da delicadeza dos finais felizes.


1A bibliotecária de Auschwitz

Antonio G. Iturbe
Nova Fronteira, 2013

Muitas histórias do horror e sofrimento testemunhados dentro dos campos de concentração nazistas são contadas e recontadas, já estão gravadas e arquivadas. É difícil, nesses relatos, encontrar atos de esperança e força diante de todo o mal registrado durante o Holocausto.

A Bibliotecária de Auschwitz é um livro diferente. É uma história verdadeira e cheia de detalhes a respeito de um professor judeu, Fredy Hirsh, que criou uma escola secreta dentro do bloco 31, no campo de concentração de Auschwitz, dedicando-se a lecionar para cerca de 500 crianças. Criou também uma biblioteca de poucos volumes com a ajuda de Dita Dorachova, uma menina judia de 14 anos que se arriscava para manter viva a esperança trazida pelo conhecimento e escondia os livros embaixo do vestido. É um registro de uma época sofrida da história, mas que também mostra a coragem de pessoas que não se renderam ao terror e se mantiveram firmes usando os livros como “arma”.


últimos-dias-de-nossos-pais-jOs últimos dias de nossos pais

Joël Dicker
Intrínseca, 2015

Após a frustração de ter tido o Exército britânico encurralado em Dunquerque, Winston Churchill tem uma ideia capaz de mudar o curso da guerra: a criação de uma nova seção do serviço secreto britânico, a SOE (Executiva de Operações Especiais), responsável por conduzir ações de sabotagem e se infiltrar nas linhas inimigas. Algo jamais feito na história. Na esperança de se juntar à Resistência, o jovem Paul-Émile deixa Paris e vai para Londres. Logo recrutado pela SOE, ele se integra a um grupo de franceses que se tornam seus companheiros de coração e de armas. Passando por formações e treinamentos intensos nos quatro cantos da Inglaterra, os selecionados voltarão para a França ocupada para contribuir na resistência. Mas a espionagem alemã está alerta… A existência da SOE por muito tempo foi mantida em segredo. Várias décadas após o fim das atrocidades da Segunda Guerra, Os últimos dias de nossos pais é um dos primeiros romances a abordar sua criação e a relembrar as verdadeiras relações entre a Resistência e a Inglaterra de Churchill. Dicker constrói um livro sobre amor, amizade e medo, com uma profunda reflexão sobre o ser humano e suas fraquezas.


Uma-Prova-do-CeuUma prova do céu

Dr. Eben Alexander

A jornada de um neurocirurgião à vida após a morte

Sextante, 2013

“Minha experiência mostrou que a morte não é o fim da consciência e que a existência humana continua no além-túmulo. E, mais importante ainda, ela se perpetua sob o olhar de um Deus que nos ama e que se importa com cada um de nós.

Cético, defensor da lógica científica e neurocirurgião há mais de 25 anos, o Dr. Eben Alexander viu sua vida virar do avesso quando passou por uma experiência que ele mesmo considerava impossível. Vítima de uma meningite bacteriana grave, ficou em coma por sete dias. Enquanto os médicos tentavam controlar a doença, algo extraordinário aconteceu.

Eben embarcou numa jornada por um mundo completamente estranho. Sem consciência da própria identidade, foi mergulhando cada vez mais fundo nessa realidade difusa, onde conheceu seres celestiais e fez descobertas transformadoras sobre a existência da vida após a morte e a profunda relação que todos nós temos com Deus.

Quando os médicos já pensavam em suspender seu tratamento, o inesperado aconteceu: seus olhos se abriram. Ele estava de volta. Mas nunca mais seria o mesmo. Aquela experiência o levou a questionar tudo em que acreditava até então. Afinal, como neurocirurgião, ele sabia que o que vivenciou não poderia ter sido uma mera fantasia produzida por seu cérebro, que estava praticamente destruído.

Analisando as evidências à luz dos conhecimentos científicos, o Dr. Eben decidiu compartilhar essa incrível história para mostrar que ciência e espiritualidade podem e devem andar juntas.

Narrado com o fascínio de um paciente que visitou o outro lado e com a objetividade de um médico que tenta comprovar a veracidade de sua experiência, este é um livro emocionante sobre a cura física e espiritual e a vida que se esconde nas diversas dimensões do Universo.”


Hereges

Leonardo Padura
Boitempo, 2015

O ponto de partida é um episódio real: a chegada ao porto de Havana do navio S.S. Saint Louis, em 1939, onde se escondiam 900 refugiados vindos da Alemanha. A embarcação passou vários dias à espera de uma autorização para o desembarque. No romance, o garoto Daniel Kaminsky e seu tio, aguardavam nas docas, trazendo um pequeno quadro de Rembrandt que pertencia à família desde o século XVII e que esperavam utilizar como moeda de troca para garantir o desembarque da família que estava no navio. No entanto, o plano fracassa, a autorização não é concedida, e o navio retorna à Alemanha, levando também a esperança do reencontro. Quase setenta anos depois, em 2007, o filho de Daniel, Elías, viaja dos Estados Unidos a Havana para esclarecer o que aconteceu com o quadro e sua família.


o homemO Homem que Amava os Cachorros

Leonardo Padura
Boitempo, 2013

A história é narrada, no ano de 2004, pelo personagem Iván, um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e, a partir de um encontro enigmático com um homem que passeava com seus cães, retoma os últimos anos da vida do revolucionário russo Leon Trotski, seu assassinato e a história de seu algoz, o catalão Ramón Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola e encarregado de executá-lo.

Esse ser obscuro, que Iván passa a denominar “o homem que amava os cachorros”, confia a ele histórias sobre Mercader, um amigo bastante próximo, de quem conhece detalhes íntimos. Diante das descobertas, o narrador reconstrói a trajetória de Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotski, teórico russo e comandante do Exército Vermelho durante a Revolução de Outubro, exilado por Joseph Stalin após este assumir o controle do Partido Comunista e da URSS, e a de Ramón Mercader, o homem que empunhou a picareta que o matou, um personagem sem voz na história e que recebeu, como militante comunista, uma única tarefa: eliminar Trotski. São descritas sua adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma história pouco conhecida e coberta, ao longo dos anos, por inúmeras mistificações.

As duas trajetórias ganham sentido pleno quando Iván projeta sobre elas sua própria experiência na Cuba moderna, seu desenvolvimento intelectual e seu relacionamento com “o homem que amava os cachorros”.


pintassilgoO pintassilgo

Donna Tartt
Companhia das Letras, 2014

Theo Decker, um nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe. Abandonado pelo pai, Theo é levado pela família de um amigo rico. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com quem não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma importante lembrança dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte.

Já adulto, Theo circula com desenvoltura entre os salões nobres e o empoeirado labirinto da loja de antiguidades onde trabalha. Apaixonado e em transe, ele será lançado ao centro de uma perigosa conspiração.
O Pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino.


homeroA odisseia de Homero

Gwen Cooper
Editora Sextante, 2010

Todo mundo que tem gatos sabe que eles são dotados de uma sensibilidade incrível e possuem uma forma peculiar de encarar a vida. Mas Homero tinha muito mais a ensinar.

Abandonado, cego e rejeitado, ele tinha tudo para ser amuado e medroso. Ninguém imaginaria que um gato sem os olhos – que precisaram ser retirados cirurgicamente para garantir sua sobrevivência – seria capaz de levar uma vida normal, com a alegria e a esperteza características dos felinos.

Contrariando todas as expectativas, Homero vivia como se seus olhos não lhe fizessem falta. Era bagunceiro, implicante, temperamental, divertido e dengoso como qualquer outro gato. Gwen Cooper fazia questão de afirmar que ele não era diferente. Mas ele era.

Diferente não por causa da falta de visão, mas por sua capacidade de fazer aflorar nas pessoas o que elas tinham de melhor. Parecia haver em seu espírito uma sabedoria oculta e uma energia latente que inspiravam todos à sua volta.

Homero se tornou o centro do mundo de sua dona. Foi se esforçando para garantir a segurança do seu gato que ela aprendeu a estabelecer a sua própria. Foi preocupando-se com a felicidade dele que Gwen percebeu quanto estava sozinha. E foi lhe oferecendo um amor incondicional que ela permitiu que esse sentimento entrasse em sua vida.

Mais do que um livro divertido e comovente sobre as aventuras de um gatinho, A odisseia de Homero é uma história de superação, de autoconhecimento, de transformação e de crescimento pessoal. Ela vai fazer você rir, se emocionar e compreender que, para conseguir o que queremos da vida, muitas vezes precisamos dar um salto no escuro, da mesma forma que Homero: confiando em nossos instintos e acreditando que sempre cairemos de pé.


O Jardim Secreto de Eliza

Kate Morton
Editora Rocco, 2009

O Jardim Secreto de Eliza – Em 1913, um navio chega à Austrália direto de Londres, trazendo com ele uma menina de quatro anos, absolutamente sozinha, sem um acompanhante adulto sequer. Com ela, apenas uma pequena mala com um livro de contos de fadas. O mistério de quem era a bela garota, que dizia não lembrar seu nome, e de como chegou ao porto, jamais foi desvendado. Em suas memórias ela trazia apenas a imagem de uma mulher que ela chamava de a dama ou a Autora e que dizia que viria buscá-la. Muitos anos depois, em 2005, na cidade australiana de Brisbane, a doce e reservada Cassandra herda de sua avó Nell uma casa na Inglaterra. Surpresa, ela descobre que a casa esconde as origens de sua avó, que foi uma vez a bela menina sem nome perdida no porto.

Enquanto acompanha a viagem de Cassandra para a Inglaterra em busca de suas origens, a autora revela uma trama paralela que se desenrola muitos anos antes do nascimento da menina, quando Nell vê seu mundo cair depois que seu pai revela, às vésperas de seu noivado, que ela não é sua filha verdadeira. A notícia a transforma numa mulher estranha, colecionadora de artigos antigos e raros e que vive numa casa em uma região afastada da Austrália. Seu exílio auto imposto, no entanto, é quebrado quando sua filha deixa a pequena Cassandra a seus cuidados. Revoltada com a filha por ter abandonado a menina, assim como aconteceu com ela quando criança, Nell acaba estreitando laços com a neta.

Um dia, porém, nos idos dos anos 1970, Nell, resolve finalmente reconstituir o caminho de volta a terra de onde veio: Londres. Lá, descobre muitas coisas sobre seu passado, incluindo as lembranças da moça que chamava de A Autora: Eliza Makepeace, uma travessa menina contadora de histórias que tinha sua própria cota de tragédias para viver na Inglaterra da virada do século XIX para o XX. Seria Eliza mãe de Nell? E por que ela a abandonou? Agora, é a vez de Cassandra revirar a pequena mala de segredos da avó e saber o que Nell conseguiu descobrir, se é que ela obteve sucesso em sua busca


Na terra da nuvem branca

Sarah Lark
Europa Editora , 2013

Governanta e professora de uma rica família em Londres, Helen Davenport anseia por um casamento, mas, sem pretendentes e já perto de completar 30 anos, sabe que suas possibilidades não são boas. Quando vê, na sua igreja, um anúncio de um fazendeiro na Nova Zelândia que procura uma mulher solteira e honrada para se casar, não pensa duas vezes. Após uma breve troca de correspondências com o pretendente, decide aceitar a proposta e emigrar.
Não muito longe, no País de Gales, Gwyneira Silkham, filha de um nobre e rico criador de ovelhas, está entediada com sua vida. Durante uma negociação de matrizes com um rico fazendeiro da Nova Zelândia, seu pai aceita o desafio para um jogo de cartas aparentemente inofensivo. Acaba apostando — e perdendo — a mão de sua filha em favor do filho do fazendeiro. Surpreendentemente, em vez de se revoltar, Gwyn vê na distante colônia a chance de uma vida vibrante e plena de aventuras.
Ambientado no século 19, durante o início da colonização inglesa na Nova Zelândia, o romance Na Terra da Nuvem Branca conta a história dessas duas corajosas mulheres que mudam radicalmente suas vidas e partem rumo ao desconhecido. Elas se encontram no navio, durante a longa e perigosa viagem, e começam a construir laços de uma duradoura amizade, que será decisiva na luta para a conquista de seus ideais.
Mesmo sendo uma história ficcional, a autora Sara Lark lança um olhar feminino sobre o momento histórico da colonização e a cultura dos nativos maoris. Destaca ainda a personalidade das mulheres e as dificuldades que enfrentam face às oportunidades que uma terra em formação oferece. E constrói uma saga envolvente e apaixonante.


A cidade do sol

Khaled Hosseini
Editora Nova Fronteira, 2013

Mariam tem 33 anos. Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos e Jalil, o homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rashid, um sapateiro de 45 anos. Ela sempre soube que seu destino era servir seu marido e dar-lhe muitos filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos.
Laila tem 14 anos. É filha de um professor que sempre lhe diz: “Você pode ser tudo o que quiser.” Ela vai à escola todos os dias, é considerada uma das melhores alunas do colégio e sempre soube que seu destino era muito maior do que casar e ter filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Confrontadas pela história, o que parecia impossível acontece: Mariam e Laila se encontram, absolutamente sós. E a partir desse momento, embora a história continue a decidir os destinos, uma outra história começa a ser contada, aquela que ensina que todos nós fazemos parte do “todo humano”, somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios.


Holocausto brasileiro
Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil

Daniela Arbex
Geração, 2014

Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.


A resposta

Kathryn Stockett
Bertrand Brasil, 2011

A Resposta – Uma história de otimismo ambientada no Mississippi em 1962, durante a gestação do movimento dos direitos civis nos EUA.

Eugenia Skeeter Phelan acabou de se graduar na faculdade e está ansiosa para tornar-se escritora, mas encontra a resistência da mãe, que quer vê-la casada. Porém, o único emprego que consegue é como colunista de dicas domésticas do jornal local. É assim que ela se aproxima de Aibellen, a empregada de uma de suas amigas. Em contanto com ela, Skeeter começa a se lembrar da negra que a criou e, aconselhada a escrever sobre o que a incomoda, tem uma ideia perigosa: escrever um livro em que empregadas domésticas negras relatam o seu relacionamento com patroas brancas.

Mesmo com receio de prováveis retaliações, ela consegue a ajuda de Aibileen, empregada que já ajudou a criar 17 crianças brancas, mas chora a perda do próprio filho, e Minny, cozinheira de mão cheia que, por não levar desaforo para casa, já esteve por diversas vezes desempregada após bater boca com suas patroas. Uma história emocionante e estarrecedora onde a cor da pele das pessoas determina toda a sua vida. Um livro que, devido ao seu tema, chegou a ser recusado por quase sessenta editoras antes de ser publicado.

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Tobias e o Anjo – Susanna Tamaro (sugestão de leitura)

Susanna Tamaro
Tobias e o Anjo
Lisboa, Editorial Presença

Marta é uma menina de oito anos que vive só… quer dizer, vive no quarto andar de um grande prédio, nuns subúrbios tristonhos com prédios todos iguais.
Também tem uma televisão, um papá e uma mamã. Só que qualquer destes três nunca parece disposto a escutá-la e muito menos a conversar com ela. Não tem irmãos, mas por sorte o avô vem sempre visitá-la e ensina-lhe muitas coisas.
Por exemplo, que existem por aí portas secretas que as pessoas não vêem porque andam sempre cheias de preocupações.
Marta imagina que há palavras-chave para abrir essas portas e encontrar os mundos maravilhosos de que fala o avô. Porém, para achar essas portas e descobrir as palavras, Marta tem de encontrar o seu próprio caminho…
Tudo começou naquele dia em que o avô não apareceu!

Tobias e o Anjo

Excerto

A voz das coisas

Quantas línguas existem no mundo?», perguntava-se Marta, naquela noite, a sós na cama. Há as línguas que as pessoas falam: francês, alemão, espanhol, chinês, italiano. Para indicar a mesma coisa, usa-se uma palavra diferente em cada país. Mas uma mesa continua a ser uma mesa, um relógio um relógio, uma maçã uma maçã. Apenas varia o som para chamar essas coisas.

Os cães também têm a sua língua. Quase todas as noites, Marta ouvia os seus uivos subir da rua e das varandas do prédio. O do segundo andar, por exemplo, zangava-se por tudo e por nada: bastava o eco de um latido para ele se atirar contra as grades, a rosnar. Era evidente que os cães se compreendiam entre si. Talvez até se compreendessem entre cães de países diferentes. Um cão francês podia conversar com um cão russo e um russo com um esquimó. Não precisavam de estudar línguas para falar uns com os outros.

O mesmo se passava entre gatos, pardais, condores, abutres, hienas, elefantes e láparos. Talvez que até as aranhas e os escorpiões estivessem em condições de se compreender.

Um dia, tinha visto na televisão um documentário sobre este assunto. Havia um aranho que estava apaixonado por uma aranha. A aranha era tão gorda e peluda que dava a impressão de ter uma peruca; dormitava no centro da teia e ele devia ir ter com ela. Às aranhas — explicava uma voz —, a boca só serve para comerem, não têm língua nem garganta, por isso «ele» não podia chamar a sua «ela». A única maneira de se fazer notar era transformar-se numa espécie de músico: com as patas anteriores, dedilhava os fios da teia como se fossem cordas de harpa. Pling plong, meu amor, pling plong, espera, aí vou eu.

Para os aranhos apaixonados, é muito importante ter o ritmo da música no sangue. Devem fazer pling plong e não, por exemplo, pling pling. De facto, basta um pequeníssimo sinal de vibração diferente para que a bela ara­nha, em vez de se voltar para o seu pretendente com um sorriso, lhe salte para cima e o devore num instante. Sim, porque pling pling, para uma aranha esfaimada, quer dizer precisamente isto: — Sou uma mosca e caí na armadilha, come-me, depressa.

No entanto, à parte estes tristes acidentes de percurso, também as aranhas conseguiam, de uma maneira ou de outra, comunicar entre si.

Uma vez, em pleno Inverno, Marta foi passear com o avô para um extenso parque, perto do seu bairro. A relva estava queimada pela geada e as árvores já tinham perdido as folhas. Soprava uma forte nortada e não havia ninguém por ali. A certa altura, o avô parou no meio de um pequeno grupo de carvalhos novos.

— Notas alguma coisa de estranho? — perguntou.

— Não. Ah, sim — respondeu ela —, conservam as folhas. Estão todas secas, mas ainda lá estão.

— Isso mesmo. Os carvalhos nunca deixam cair todas as folhas no Inverno. E sabes porquê?

Marta abanou a cabeça.

— Escuta — disse o avô.

Naquele momento, uma rajada de vento sacudiu os ramos, e dos ramos desceu um tinido seco e leve. Assemelhava-se muito ao barulho da cauda da cobra-cascavel, que tinha visto na TV.

— Ouviste? É a voz do carvalho, no Inverno. Se não fossem as folhas secas, seria muito fácil confundi-lo com um castanheiro-da-índia ou com um ácer. Cada árvore tem a sua própria voz. Só tens que aprender a escutá-la.

O Sol estava a pôr-se e eles encaminharam-se para a saída do parque. Devido ao frio, Marta já não sentia o nariz nem os pés: só a mão que dava ao avô se mantinha quente. De vez em quando, uma lata rolava diante deles, ao mesmo tempo que uns sacos de plástico rodopiavam no ar como medusas tontas.

— Avô! — gritou Marta. — As latas também falam?

— Sim, as latas e os sacos de plástico.

— E as flores?

— As flores também. As flores, as pedrinhas, as conchas…

— E os motores dos automóveis?

— Ah, esses vociferam. Já para não falar dos autocarros…

— E a roupa a secar?

— Também, Marta, também. Se ouvires os lençóis e as peúgas estendidas, podes aprender um poema completo…

Naquele dia, assim que voltaram para casa, Marta abraçou-se a uma perna do avô.

— Avô, mas tu sabes tudo!

O avô fez-lhe uma festa na cabeça.

— Talvez, meu pintainho, talvez.

Permaneceram assim algum tempo, em silêncio, enquanto o relógio de pêndulo da cozinha batia as cinco horas.

Agora, o relógio batia as três. Marta tinha experimentado contar carneiros, mas de nada lhe serviu. Em vez de carneiros prestes a saltar o tapume, via o avô. Apoiava os cotovelos à paliçada e sorria-lhe com doçura. Vestia o habitual casacão bege com gola de pele sintética e tinha os olhos um pouco tristes. Não trazia cachecol. O cachecol, tinha-o Marta nas mãos. O avô tinha-se esquecido dele da última vez que viera visitá-la.

Quanto tempo passara entretanto? Seis dias? Dez? Tinha tentado telefonar-lhe, mas ninguém respondia de casa dele. Não viera na terça-feira, nem na quinta. Eram os seus dias fixos. Semana sim, semana não, vinha também ao domingo.

Marta tinha pegado no cachecol e enrolara-o ao seu urso, como se fosse um sobretudo. Conservava o cheiro do avô. Cheiro a espuma de barbear, a autocarro e a fritos.

Pela janela aberta, entrava o uivo do cão do segundo andar. Ao uivo sobrepôs-se o alarme de um automóvel. Marta mudou de posição: por mais voltas que desse, a cama parecia-lhe feita de alfinetes.

Quatro horas, e o papá sem voltar. A mamã dormia com máscaras nos olhos. A senhora do andar de cima tinha posto a roupa a lavar. Levantou-se uma aragem e os lençóis inflavam como velas de um galeão. Flap flap strr, flap flap schee, sche. A voz do vento, a voz das ondas. Para onde ia partir aquele navio?

O avô tinha razão, cada coisa possui a sua própria voz. Mas também havia coisas sem voz, o futuro, por exemplo, ou as perguntas sem resposta. Havia tantas na sua cabeça! Ao adormecer, Marta viu-as: pareciam luzes a derramar-se numa margem distante. O galeão velejava em direcção oposta, rumo à grande noite silente de um mar sem faróis, de um céu sem estrelas.

Água – Bapsi Sidhwa (sugestão de leitura)

Bapsi Sidhwa
Água
Lisboa, Editorial Presença

Chuya, uma mulher-menina de oito anos, fica viúva de um homem de quarenta e seis, dois anos após o seu casamento e, por decisão da sogra, é deixada numa casa de viúvas, onde é obrigada a viver uma vida de penitência e de infelicidade. Essa casa é liderada por Madhumati, uma mulher sem escrúpulos que obriga as mais jovens a prostituir-se em troca de marijuana.
Este livro conta uma história passada em 1938, na Índia colonial, em pleno movimento de emancipação da mulher, liderado por Mahatma Gandhi.

 Água

Excerto

Madhumati alcançou a varanda a transpirar, respirando com dificuldade. Entrou pela porta das escadas e chamou Kalyani.

Kalyani apareceu à porta, a tremer de medo e deu de caras com Madhumati. O longo cabelo escuro caía-lhe húmido pelas costas.

Madhumati falou-lhe num tom baixo e enfurecido:

— A Chuyia diz que te vais casar…

Kalyani anuiu.

— Endoideceste? Ninguém se casará com uma viúva.

Kalyani falou com uma certeza serena.

— Ele vai fazê-lo..

Madhumati emitiu um sopro de desdém.

— Desavergonhada! Vais afundar-te e vais afundar-nos a todas! Seremos amaldiçoadas. Temos de viver em pureza, para morrer em pureza — explicou-lhe Madhumati, sem ter noção da hipocrisia de pregar tal coisa a uma jovem que era obrigada a prostituir-se contra a sua vontade.

Kalyani sofrera tempo demais, vivendo aquela vida dupla e agora, estava disposta a enfrentar Madhumati.

— Por que razão me enviaste então para a outra margem do rio? — perguntou, calmamente.

Madhumati sentia-se ultrajada por Kalyani contestar as suas atitudes.

— É pela nossa sobrevivência! É a nossa única forma de sobrevivência e ninguém tem o direito de a questionar! Nem mesmo Deus! — proferiu irada.

Antes que Kalyani se apercebesse do que lhe estava a acontecer, Madhumati agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a até ao barsati que servia de arrecadação junto ao seu quarto. Retirando uma tesoura do interior do sari, cortou-lhe uma mecha de cabelo num movimento surpreendentemente rápido. Kalyam caiu de joelhos aturdida, demasiado entorpecida para resistir. Madhumati prosseguiu retalhando-lhe o resto do cabelo até lhe deixar apenas uns escassos tufos. Kalyani permaneceu imóvel, como um pássaro jovem caído do ninho.

Tendo terminado a sua missão destrutiva, Madhumati fechou a porta à rapariga encolhida de medo girando a chave na imensa fechadura. Prendeu a chave ao sari e voltou a sua atenção para os rostos atentos das viúvas reunidas no pátio lá em baixo.

Madhumati manteve-se na balaustrada de olhar alucinado, com as órbitas vermelhas e inflamadas anormalmente dilatadas.

— Teríamos ardido no inferno por causa dela. Salvei-vos a todas! — disse, justificando a brutalidade da sua atitude. — Vamos ver se a puta agora se casa.

As viúvas estavam ofegantes e sem fala, Shakuntala voltou-se para Chuyia que perguntou:

É verdade?

Shakuntala repreendeu-a.

— Fala baixo!

E dirigiram-se ambas, abatidas, até ao quarto de Shakuntala, deixando as outras viúvas a olhar estupidamente para a figura gigantesca de Madhumati descendo as escadas. Chuyia agarrou-lhe no sari.

Didi, vais deixar Kalyani sair, não vais? — implorou.

— A simples ideia de voltar a casar já é um pecado — replicou Shakuntala com os pensamentos em tumulto. O seu amor por Kalya opunha-se às suas profundas crenças religiosas.

— Porquê? — perguntou Chuyia, inocentemente.

— Pergunta a Deus — retorquiu Shakuntala asperamente, impaciente consigo mesma por duvidar daquilo que acreditava estar escrito nas escrituras.

Profundamente magoada, Chuyia desapareceu a correr sem uma palavra.

Os ombros de Shakuntala cederam ao cansaço. Não conseguia reunir energia suficiente para a chamar e lhe explicar que estava zangada com ela.

Pouco tempo depois, sentou-se na sua mesinha, folheando alguns textos religiosos, tentando encontrar passagens que mencionasse as leis que governavam a conduta e o estatuto das viúvas. De acordo com o Manusmriti, o texto sânscrito mais importante nas tradições ortodoxas, a cabeça de uma viúva é rapada, os seus ornamente removidos e ela deve viver num luto perpétuo. Deve respeitar jejum, não comer coisas «picantes» para não estimular a sua energia sexual, evitar ocasiões de bom agoiro por ser considerada mau agoiro (por ter provocado a morte do marido), permanecer solteira, devotada e leal à memória do marido.

O Vriddha Hirata posterior era mais explícito. Devia abster-se de mastigar noz de bétele, usar perfume, flores, ornamentos e poupas coloridas, retirar comida de um recipiente de bronze, tomar duas refeições por dia e aplicar colírio nos olhos. Só podia vestir uma veste branca, dominar os seus sentidos e a ira, e dormir no chão.

Com os pensamentos num turbilhão, o olhar de Shakuntala projectou-se através da janela. As viúvas escandalizadas estavam novamente reunidas em redor de Madhumati. Esta estava sentada no seu takth, com o couro cabeludo a transpirar, de rosto vermelho do esforço por ter subido e descido as escadas até ao barsati. Kunti estava inclinada sobre ela, limpando solicitamente a transpiração do pescoço e do ombro exposto, e Snehlata estava agachada junto ao takth, abanando lentamente a folha de palmeira que servia de leque. A força da monção estava a desvanecer-se, mas a atmosfera ainda estava muito húmida.

O que tinha acabado de ler apenas afirmava aquilo que ela conhecia e aceitava – não encontrou em parte alguma nada que pudesse redimir Kalyani. Voltar a casar condenaria a alma do marido ao inferno e amaldiçoaria os karmas de toda a sua família. Apesar da sua aceitação incondicional do Dharma Shastras que advoga que a viuvez é um castigo por uma existência pecaminosa no passado, a situação difícil de Kalyani veio abalar a sua fé na lei.

Fechou a cortina e afastou-se da janela. Abriu a esteira junto da janela e deitou-se, era algo que nunca fazia àquela hora do dia. As memórias da sua vida de antigamente, que reprimira ao longo dos anos como uma parte terminada da sua vida porque era pecado recordar, afloraram-lhe a consciência, deixando inundar-se por elas.

O nascimento de Shakuntala tinha sido uma surpresa para os pais na sua meia-idade avançada. Já tinham quatro filhos robustos e a filha foi recebida como a Deusa Lakshmi, precursora da prosperidade e da felicidade. A sua família era proprietária de muitas terras e o pai era uma figura respeitada na aldeia. Os irmãos idolatravam-na, envolvendo-a em todo o tipo de actividades que geralmente as raparigas na aldeia não tinham permissão para fazer. Ensinaram-lhe a ler e ela conseguia recitar as multiplicações até 20. Tinha uma mente aguçada e rapidamente começou a ler os livros que eles traziam para casa.

Os pais estavam decididos a arranjar-lhe um bom casamento numa família que a tratasse bem e que lhe permitisse fazer as coisas às quais estava habituada. Shakuntala permaneceu junto dos pais muito mais tempo do que aquilo que muitas famílias teriam considerado prudente. Quando os pais começavam a desesperar por pensarem nunca iriam conseguir encontrar um marido apropriado antes de a filha atingir a puberdade, ouviram falar de um jovem viúvo numa aldeia vizinha que estava pronto a casar outra vez. Tal como todas as jovens na aldeia, Shakuntala estava ansiosa por se casar e, aos 14 anos, a sua cabeça estava repleta de fantasias românticas.

Os horóscopos deles coincidiam e o casamento rapidamente foi acertado. Como de costume, a família da noiva assumiu todas as despesas e o pai presenteou o noivo com um belo dote que excedeu as expectativas da família.

Shakuntala fechou os olhos e, tal como Bua, visualizou o banquete de casamento: grandes pratos atestados de puris fritos e inchados, legumes condimentados, montinhos de arroz de açafrão aromáticos e toda a espécie de picles, sumos de fruta e seiva fresca da palmeira. Tabuleiros de doce de amêndoa e caju recortado em forma de losango e thalis de aço apinhados de laddoos reluzentes, cobertos com uma folha prateada que se evaporava na língua. Tal como Bua, podia sentir o sabor dos laddoos e sentir a água a crescer na boca. Sorriu, fazendo uma pequena prece de agradecimento pelo facto de Bua ter comido o seu laddoo antes de morrer.

Que coisa mais mesquinha de se negar a uma idosa, pensou Shakuntala, e depois a sua mente centrou-se numa série de mesquinharias que eram negadas às viúvas para que estas conservassem a sua pureza.

Que Deus a preservasse da percepção distorcida que se tinha da pureza, pensou. Mas se não tivesse sido a caridade dos irmãos, ela teria sido obrigada a prostituir-se, tal como Kalyani.

Os pensamentos de Shakuntala regressaram ao passado. O seu noivo era jovem, tinha apenas mais 13 anos do que ela. Embora tivesse sofrido muito com a morte da primeira mulher, quando passou um ano, ele descobriu que o seu coração não se tinha endurecido com a perda e estava pronto a abrir-se a Shakuntala.

No primeiro ano de casamento, o marido mostrou-se bastante paciente, e ela desabrochou de menina para uma bela mulher. Com o passar dos anos, foram-se apaixonando profundamente. Na esperança de que Shakuntala fosse o instrumento através do qual o filho pagaria a dívida aos antepassados reproduzindo filhos, a sogra tratava-a com benevolência e carinho. No entanto, à medida que os anos iam passando, a sogra começou a culpá-la por não ser capaz de gerar filhos, tornando-se cada vez mais detestável para a sua nora estéril. Apesar de a sua relação ser muito apaixonada e ardente, Shakuntala ficava decepcionada todos os meses perante a deprimente evidência da sua fertilidade falhada, ansiando desesperadamente por um filho. Ela tinha apenas 30 anos quando o marido começou a cuspir sangue, definhando diante dos seus olhos. Perto do fim, nem Shakuntala nem a sogra saíam da sua cabeceira. Nos curtos períodos de lucidez, entre momentos de delírio, o marido pegava-lhe na mão e apertava-a contra a sua cara: os seus olhos imploravam à mãe que tomasse conta dela quando ele fosse embora. O rosto da mãe ia-se endurecendo cada vez mais.

A boa sorte, que até então lhe regera a vida como uma espécie de talismã mágico, chegou ao fim com a morte do marido. Foi obrigada a ficar com a família do marido, com a sogra amargurada e rancorosa e, durante o ano que permaneceu junto deles, viveu num inferno terreno. No princípio, Shakuntala pensou que morreria de tristeza e não sabia como poderia viver sem o amor e a protecção do marido. A dor era ainda maior graças ao tratamento doentio que recebia dos sogros. Passara da condição de adorada à de maltratada e era olhada como uma coisa imunda. A cabeça foi rapada de modo a retirar o pecado e a poluição que havia no seu cabelo e para a marcar como um ser assexual que uma viúva tinha de ser. Ainda conseguia vislumbrar a fúria nos olhos da sogra quando esta lhe partiu as pulseiras de vidro e lhe arrancou o mangal-sutra do pescoço, iniciando os rituais de passagem para a viuvez. Viu-se despojada de todas as suas jóias e bens e só podia cobrir o corpo com um tecido branco. No fundo, ia morrendo de fome aos poucos, já que estava limitada a uma refeição por dia – uma refeição frugal de arroz sem condimentos e daals para purificar o seu corpo da luxúria. Tinha de dormir no chão. A sua única função útil – a de esposa e reprodutora de filhos desaparecera para sempre. Não só era responsabilizada pela morte do marido, como também era considerada uma ameaça para a família dele e, sobretudo, ao espírito do marido morto, pela sua condição feminina vital e potencial sexualidade.

Sentia que a vigiavam constantemente, com medo de que cometesse algum pecado que lhes trouxesse maldições e enviasse o marido para o inferno.

Um ano depois, Shakuntala soube que tinha de partir. Os seus irmãos trataram de tudo para que ela fosse para o ashram, em Rawalpur, e para que recebesse regularmente um pequeno montante. Os seus pais já tinham falecido e ela abençoou os irmãos nas suas orações. O dinheiro que recebia e, o facto de poder ler e escrever com facilidade, proporcionaram-lhe um estatuto independente no ashram. A família do marido ficou contente por se ver livre dela e não tivera qualquer contacto com eles durante 12 anos. Shakuntala tinha encontrado um lar no ashram e jamais o poderia abandonar.

Cartas de uma mãe – Catherine Dunne (sugestão de leitura)

Catherine Dunne
Cartas de uma mãe
Lisboa, Editorial Presença

Um intenso conflito familiar, dominado pelos inevitáveis jogos de poder que tantas vezes condicionam as relações afectivas mais profundas.
Alice e Beth, mãe e filha, protagonizam uma ligação ensombrada pelo silêncio ruidoso e agreste que há muito se instalou entre alas, e que ambas desejam, intimamente quebrar. Cabe a Alice, condenada por uma série de acidentes vasculares cerebrais e ciente de poder perder a qualquer momento a lucidez, de dar o primeiro passo. Quando o agravamento da doença deixa Alice em come, Beth retorna à casa materna para se reconciliar com o seu passado, com a mãe, consigo própria.

 

Cartas de uma mãe

Excerto

Beth espreitava pela janela do quarto, cheia de ansiedade. Laura estava atrasada. Insistira que apanharia um táxi no aeroporto, mas agora Beth estava preocupada. Não devia ter dado ouvidos à filha, devia ter ido buscá-la. Olhou para o relógio. Nove e vinte. A missa fúnebre era daí a quarenta minutos.

Ela e James tinham passado a maior parte da noite acordados, dormindo apenas um pouco entre as seis e as oito. Tinham trocado recordações de bicicletas e baloiços, de gelados e copos de limonada com gasosa. Lembrado as suas tarefas a descascar ervilhas e a colher framboesas na agradável sombra do jardim murado. Tinham também partilhado algumas das várias Alices que cada um conhecera: a dona de casa eficiente, de olhar sempre atento a tarefas inacabadas e língua afiada quando as encontrava; a mãe trabalhadora, que corria de um emprego para o outro, mas insistia em ver todos os trabalhos de casa deles, todos os dias; a mãe orgulhosa, para quem nada era mais importante do que boas notas na escola. E, depois, a avó babada, cega aos defeitos dos netos. Uma geração parecia ter bastado para suavizar a exigência de Alice, para limar as arestas das suas palavras. E tinham rido muito, com grande surpresa de Beth. Nunca pensara que um dia de funeral pudesse ser altura para risos. A conversa encorajara-os, preparara-os para enfrentarem o troço final, que Beth agora receava. Precisava de ter Laura ao seu lado na missa, queria toda a família à sua volta, até mesmo Olive. Aquele era um dia de união, não de divisões.

Chovia, naturalmente. A carrinha fúnebre devia vir buscá-los daí a um quarto de hora. Onde estava Laura? Beth preparava-se para telefonar para o aeroporto quando um táxi irrompeu pelo portão e travou: ruidosamente no caminho de gravilha. Finalmente!

Precipitou-se para a porta da frente, pronta a abraçar a filha. Ficou surpreendida ao ver dois vultos no alpendre. Abriu a porta, intrigada, sem saber o que pensar.

Laura lá estava, lavada em lágrimas mal viu a mãe. E ao seu lado, envolvendo os ombros da filha com um braço protector, estava Tony.

— Espero que não fosse preciso convite! — disse ele.

*

Beth fechou a porta do quarto atrás de si. Olhou para a rua iluminada por trás dos muros baixos do jardim da frente. Chovera todo o dia, implacavelmente. Mas, de certo modo, ela preferia assim: havia algo de insensível na ideia de o sol brilhar no dia do funeral de Alice. Correu os cortinados, tapando a claridade do candeeiro de rua que confortara tantas longas noites dos Invernos da sua infância.

Sentia fortemente a presença de Alice à sua volta. Não acreditava em fantasmas, o que sentia naquele quarto não era uma qualquer arrepiante inquietação do espírito, mas sim o calor luminoso do afecto e da aceitação. Afinal, fora ali que a mãe escrevera as suas cartas, ali que Alice tacteara em busca de algo para além dos anos de amargura e desconfiança. Beth sentou-se à mesma escrivaninha, querendo concluir a conversa que as cartas da mãe tinham começado. Lembrou-se de quando, em criança, atirava seixos para o laguinho do jardim das traseiras e ficava a ver como os círculos se iam alargando na superfície da água, até chegarem às bordas. Sempre gostara de visualizar o mesmo processo ao contrário: imaginava os círculos a ficarem cada vez mais pequenos, até alcançarem a imobilidade no centro da perturbação. Sentia que ela e Alice tinham acabado de ultrapassar os círculos exteriores com êxito. Agora, queria aproximar-se do centro, concluir o que quer que fosse que continuava a puxar por ela, a reclamar a sua atenção. Partiria em breve, muito em breve, e certas coisas não podiam esperar, coisas a que queria dedicar-se sozinha.

Mandara Laura sair com Gemma, aliviada por ver que os rostos muito pálidos e abatidos se tinham distendido logo após o fim das formalidades fúnebres. Tinham começado as duas a rir de tudo e de nada, provocando o riso uma na outra, reagindo à sua maneira à terrível pressão dos últimos dias. James e Tony tinham compreendido rapidamente o estado de espírito de Beth e saído juntos para uma cerveja. Beth ficara por sua conta.

Pôs-se em pé, afastou-se da escrivaninha e abriu as portas do guarda-fatos, tentando ver tudo como Alice devia ter visto. Era como se a sua percepção se tivesse alterado, como se estivesse a ver pelos olhos de outra pessoa. Na prateleira de cima, do lado direito, repousavam meia dúzia de álbuns de fotografias antiquados. Pegou num deles e percorreu-o rapidamente com a vista. Rostos, nomes, lugares que nada significavam para ela, até que, de repente, deparou com uma mulher jovem que só podia ser Alice. Observou a fotografia mais de perto. Um grupo de raparigas, todas enluvadas e de chapéu na cabeça, sorria-lhe de 1945. Levaria aqueles álbuns consigo, se James não se importasse. Gostaria de localizar Arthur Boyd e tinha um forte pressentimento de que seria ali que poderia encontrá-lo. E queria dedicar-se a tudo isso com vagar.

Depois, havia o famoso cesto de costura, sozinho na prateleira de baixo. Beth ajoelhou-se e abriu-o. A tampa de verga envernizada rangeu, como sempre fizera. Muito bem arrumados em pequenos compartimentos viam-se botões de camisa, fechos, colchetes antiquados, alfinetes de segurança. Beth sorriu: Alice guardava sempre tudo, até os pequenos alfinetes de segurança que prendiam os rótulos da lavandaria. Por baixo do primeiro tabuleiro encontravam-se pedaços de pano grosso, giz de alfaiate, uma fita métrica. Também levaria aquilo. Nunca fora grande coisa com a agulha, nada que se assemelhasse a Alice, mas gostava da sensação de proximidade que aqueles objectos estranhamente íntimos lhe proporcionavam. Embalá-los-ia com as coisas de última hora, na manhã seguinte.

Esticou-se para chegar à prateleira de cima e encontrou os dois molhos de fotografias a que Alice se referira na última carta. E ali, exactamente onde ela dissera, estava a fotografia deles quatro, tirada por um transeunte no Phoenix Park, naquele dia mágico de Maio de 1957. Uma rapariguinha, com os olhos franzidos por causa da luz, sorria para a câmara. James, de oito anos, dava-lhe a mão. Ladeavam-nos os pais, Alice e Jack, com um aspecto estranhamente formal. Jack usava camisa e gravata sob a sua camisola nova e Alice vestia um vestido e casaco — dificilmente o que se podia considerar roupa própria para um piquenique. Beth tinha quase a certeza de se lembrar do vestido que a mãe trazia. Tinha um aspecto estranhamente familiar. Até que percebeu: lembrava-se sim, aquele vestido fora transformado num casaco de Inverno para ela, no ano em que fora para a escola primária. Beth sentiu que a fotografia continha uma censura. Como teriam todos aprendido a ser tão perdulários, no espaço de uma única geração? Sorriu, contra vontade. Até estava a começar a pensar como Alice. Guardou o seu molho de fotografias no cesto de costura. Vê-las-ia mais tarde, em casa, com toda a calma. Já não havia pressa.

Percorreu a prateleira de cima mais uma vez, com a mão em arco, e os seus dedos embateram em qualquer coisa mesmo no fim do movimento, num objecto que fora empurrado para trás, encostado ao fundo do armário. Alice devia ter tido de se empoleirar numa cadeira para fazer aquilo. Beth esticou-se toda, nas pontas dos pés, e conseguiu finalmente agarrar o canto de uma caixa de cartão com a ponta dos dedos. Puxou e a caixa deslizou facilmente para a borda da prateleira.

Era grande e bastante pesada. Pegou nela e transportou-a para a escrivaninha. Fora invadida por uma aguda sensação de nervosismo. Que outras surpresas teria Alice preparado para ela? Quanto auto-conhecimento teria uma filha voluntariosa de adquirir numa única semana? Levantou cautelosamente a tampa. Lá dentro, embrulhado em papel de seda, como Alice tinha prometido, repousava Dolph. Riu alto, aliviada, e afastou as finas camadas de papel, nas quais se viam estranhas marcas pretas. Olhou mais de perto: Alice usara velhos moldes de costureiro para embalar o ursinho. Beth ouvia nitidamente as palavras, em maiúsculas, como Alice as pronunciaria: O QUE NÃO DESPERDIÇARES HOJE, NÃO TE FALTARÁ AMANHÃ. Mas elas tinham desperdiçado, não tinham? Pelo menos treze anos, que só agora tinham começado a recuperar.

Ao lado do ursinho estavam três pequenos estojos de jóias. Beth abriu primeiro o estojo azul-noite. Colado à tampa via-se o nome «Gemma» e sobre o forro de veludo repousavam um medalhão e uma corrente de ouro, perfeitamente polidos. Pô-lo de lado. O estojo seguinte era cor de vinho e a dobradiça lassa não segurava bem a tampa no lugar. Continha um pequeno solitário, com «Laura» escrito em maiúsculas num cartãozinho encaixado na tampa. Beth reconheceu o anel de Margaret. Era a escolha perfeita para Laura, cujas mãos deviam ser tão delicadas como as da bisavó. O último estojo era maior e mais achatado do que os outros. Continha uma pulseira de ouro, delicadamente gravada. Também ali havia um envelope dobrado, com a palavra «James» escrita em grandes letras. Não havia nada para Olive. Beth ficou surpreendida. Não precisava de ler o conteúdo daquele envelope para saber que Alice deixara essa decisão a James. Astuta, a sua velha mãe! Era reconfortante saber que, por muito devastadora que tivesse sido a fase final da sua doença, ela conseguira manter toda a sua lucidez e capacidade de julgamento até ao último minuto. Havia que dar graças por isso. Um tal atar de todas as pontas soltas era justamente o que Beth desejava para si mesma.

O último pacote estava embrulhado em papel pardo. Abriu-o cuidadosamente, cheia de curiosidade. Lá dentro estavam três livros, muito usados. Uma colectânea dos Biggles, pertencente a James (amanhã havia de o arreliar por causa daquelas leituras politicamente incorrectas!), O Burrinho do Cortador de Relva, de Patrícia Lynch, que ela lera e relera na sua infância até quase o saber de cor, e um exemplar muito antigo e muito gasto de O Patinho Feio. Onde teria Alice encontrado aquilo?

Os seus olhos encheram-se de lágrimas ao folhear as páginas tão conhecidas. A capa estava a desfazer-se e, quando virou as últimas folhas, algo deslizou para o tampo da escrivaninha. Outro envelope, com o seu nome escrito em letras finas. O coração bateu-lhe dolorosamente. Pousou o livro em cima da cama e abriu o envelope. Porque estaria ali? Porque não estava junto das outras cartas? Por um instante, Beth encheu-se de maus pressentimentos: e se não passasse de um amontoado de palavras sem nexo? E se Alice tivesse escrito aquilo quando já não estava em si? Retendo o fôlego, desdobrou cuidadosamente as folhas de papel. Foi inundada por uma imensa sensação de alívio ao ver a caligrafia cuidada da mãe. Respirou outra vez. Era uma carta a sério. A data chocou-a: apenas um dia antes do primeiro ataque, que assinalara o princípio daquele fim que a privara de tudo o que tinha importância para ela.

«Woodvale

6 de Setembro de 1999

Minha muito querida Elizabeth,

Acabei de chegar do almoço de domingo em casa de James e Olive. Foi um dia maravilhoso. Eoin e Shea estavam cá de visita, com as suas namoradas, e seguem para o oeste da Irlanda amanhã de manhã. Devo confessar que fiquei muito admirada com eles. Shea tem um sotaque americano muito cerrado. Ao fim de um ano? Será que só eu é que acho isso um disparate pegado? É tão parecido com a mãe… Seja como for, ambos parecem estar a sair-se muito bem, a ganhar «pipas de massa», como Shea diz. Eoin é mais calado e cada vez se parece mais com James. Disse-me: «A bolsa é um jogo de gente nova, avó; a pressão é terrível. Daqui a cinco anos, no máximo, quero ver-me de lá para fora.» As namoradas deles eram razoavelmente simpáticas, mas não as achei nada de especial. Longas cabeleiras louras e unhas pintadas. E não paravam de fumar! Julgava que os americanos eram demasiado instruídos em termos de saúde para fumar. Além disso, mal comeram e Olive tinha tido um trabalhão com aquele jantar. Talvez se sentissem um pouco deslocadas, já que estávamos lá todos, até o Keith, que conseguiu entrar para o curso que queria, na universidade, e a Gemma, que regressou há dez dias de um emprego de Verão em Londres.

Enquanto lá estava, com eles todos, fiquei impressionada ao ver como os tempos mudaram. Claro que já sabia disso, mas hoje tive a sensação de que aquele almoço podia estar a realizar-se noutro tempo e noutro lugar. Sentia-me muito desligada de todos, como se já não houvesse lugar para mim na minha própria vida. Parece-me que Olive e James conseguem deixar os filhos irem e virem de uma forma que eu jamais fui capaz. Será porque sempre se tiveram um ao outro, ou porque são melhores pais do que eu? Não consigo compreender como me enganei tanto. Passo o tempo a lembrar-me de ti e James na primeira infância, no máximo até aos doze anos. Depois disso, é como se houvesse um grande fosso.

Mal James me trouxe a casa, vim a correr para o teu quarto, porque queria procurar fotografias, diplomas, cartas — qualquer coisa dos tempos em que vocês, e especialmente tu, eram mais velhos. Não tenho nada. No entanto, sei que te saíste bem na escola, que sempre foste boa aluna. Tiveste boas classificações no Ciclo Liceal, e notas ainda melhores no Complementar. Mas não fiquei com nenhuma recordação desses êxitos. Levaste os diplomas contigo?

Hoje, ao ver a Gemma, lembrei-me dolorosamente do teu próprio Verão, no ano em que concluíste a escola. Estavas resolvida a partir, a voar com as tuas próprias asas em Londres. Mas eu vi isso de forma completamente diferente. Fiquei magoada por quereres afastar-te de mim e, diga-se em abono da verdade, com medo de ficar só. James tinha vinte e três anos, nessa altura, estava quase a começar o mestrado e eu tinha muito orgulho nele. Já andava com a Olive e eu sabia que era a sério. Quando acabaste os teus exames, fiquei satisfeitíssima: queria para ti o mesmo que quisera para James. Aprendera à minha custa quão importante é uma pessoa ser capaz de ganhar a sua vida, independentemente de ser homem ou mulher.

Mas, em vez da universidade, vi com horror como querias desaparecer numa grande cidade, com um rapaz que mal conhecias. Nunca me ocorrera que ele pudesse fazer parte de qualquer plano teu. Na minha imaginação, via-te na mesma situação em que já vira tantas outras antes de ti: grávida, o que seria o fim de quaisquer ambições que pudesses ter. Não queria isso para ti; queria que tivesses uma vida melhor, mais fácil e com mais conforto do que a vida de uma mãe solteira.

Porque não consegui dizer-te isso? Será que não falávamos havia tanto tempo que se tornara impossível dizer alguma coisa a que a outra prestasse atenção? Lamento isso, Elizabeth. Nem consigo dizer-te quanto lamento. Tu eras a jovem, eu era a adulta e era a mim que cabia a responsabilidade de proceder melhor. Se o tivesse feito, provavelmente não teríamos perdido quase treze anos. Treze anos! Parece incrível que nos tenhamos castigado uma à outra durante tanto tempo. Sei que vinhas a casa de vez em quando e tínhamos um acordo tácito em não mencionar aquilo que não podia ser mencionado. Essas visitas eram difíceis para ambas, não eram? Mas adaptámo-nos mais ou menos a essa rotina. Ficarei sempre grata a James por ter sido quem manteve um verdadeiro contacto contigo. Disse-lhe isso, nas minhas cartas. Ele fez com que viesses a todos os baptizados, em 76, 80 e 82, e eu sei que ele e Olive têm imensas fotografias dos seus bebés com a tia babada. Hoje pedi-lhas e ele prometeu trazer-mas no fim-de-semana. Tenho muita vontade de as ver, para preencher algumas dessas lacunas por mim mesma. Sinto uma grande tristeza por todo esse desperdício e só posso culpar-me a mim própria por isso.

O verdadeiro raio de sol chegou em 85, quando casaste com o Tony e tiveste a Laura, nesse mesmo ano. Gostei muito do Tony, achava que ele era bom para ti. Aliás, continuo a pensar o mesmo. E o teu casamento foi encantador, tão íntimo, só connosco, os dez. Lembras-te de quando me telefonaste a dizer que estavas grávida? Fiquei felicíssima — e comecei a sentir que afinal ainda tínhamos tempo, que o teu bebé nos aproximaria de novo. E aproximou, não foi? Tinha tanto gosto nas tuas visitas! A Laura era uma rapariguinha tão encantadora, fazia-me lembrar tanto de quando tu eras pequena! Senti que tínhamos finalmente uma verdadeira ligação e queria tratar esse laço com muito cuidado, não fazer nada que pudesse enfraquecê-lo. O Natal e o Verão passaram a ser épocas que eu esperava com prazer e sentia que podia mostrar-te, através da Laura, o quanto sempre te amara. Ao longo dos anos, fui tendo a sensação de que já não precisávamos de falar sobre aquilo que nos afastara. Só agora, pressentindo que talvez nunca mais te veja, sou obrigada a reconhecer quão enganada estava.

Sei que, quando leres estas cartas, é muito pouco provável que eu ainda consiga falar contigo. Talvez nem sequer te reconheça. Mas isso agora já não tem tanta importância, porque sinto que estás a ouvir-me, sinto que me perdoarás.

Com muito amor da tua mãe,

Alice».

Beth dobrou as folhas e repô-las no envelope. Meteu a carta entre as últimas páginas do Patinho Feio e enfiou o livro debaixo da almofada. Pegou nas caixas de jóias e no livro de James e levou-os para baixo, para a sala. Deixou-os na prateleira ao lado da lareira, onde tinha a certeza de que ele os encontraria. Falaria com ele de manhã.

De momento, tinha a sensação de estar a nadar em câmara lenta, deslocando-se com dificuldade por águas pesadas. A última carta de Alice deixara-a demasiado calma, quase vazia de emoções. Sabia que os círculos da sua tempestuosa relação se tinham afastado e aproximado de novo, que ela e Alice estavam agora no centro das coisas, tal como o seixo no centro do lago do jardim murado do pai. Em breve regressaria à sua outra vida, e teria tempo para estar sossegada, em silêncio, tempo para procurar e descobrir a filha e a mãe em que estava a tornar-se.

A criança que não queria falar – Torey Hayden (sugestão de leitura)

Torey Hayden
A criança que não queria falar
Lisboa, Editorial Presença

Esta é a história verídica e comovente da relação entre uma professora que ensina crianças com dificuldades mentais e emocionais, e a sua aluna Sheila, de seis anos, abandonada por uma mãe adolescente e que até então apenas conhecera um mundo onde fora severamente maltratada.

Excerto

A criança que não queria falar

CAPÍTULO 5

No dia seguinte, decidi que chegara a altura de Sheila participar. O autocarro que a trazia deixava-a em frente do liceu a dois quarteirões e, portanto, Anton fora buscá-la para a trazer até à nossa escola. Quando chegaram, Sheila despiu o casaco e dirigiu-se logo à sua cadeira.

Aproximei-me e sentei-me, explicando que nesse dia lhe seria pedido que fizesse algumas coisas. Examinei o horário do dia com ela e disse-lhe que esperava que se nos juntasse para todas as actividades como no anterior e que esperava igualmente que resolvesse alguns exercícios de cálculo para mim na hora da matemática. Acrescentei que nas tardes de quarta-feira cozinhávamos sempre e, portanto, queria que ela nos ajudasse a fazer bananas com chocolate. Era suposto que fizesse estas duas coisas.

Observou-me enquanto eu falava, com os olhos reflectindo a mesma desconfiança do dia anterior. Perguntei-lhe se compreendia o que eu desejava. Não respondeu.

Durante a discussão da manhã, Sheila juntou-se-nos quando lhe fiz o pedido com um olhar severo. Sentou-se aos meus pés sem fazer nada. O cálculo foi outra história. Eu planeara fazer umas contas simples. Portanto, tirei os cubos da gaveta e disse-lhe para que se aproximasse. Permaneceu no sítio onde estivera para a discussão da manhã.

— Sheila, chega aqui, por favor — pedi indicando-lhe a cadeira de que ela tanto gostava. — Vá lá.

Ela não se mexeu. Anton começou a preparar-se cautelosamente para a apanhar, se ela se esquivasse ante a minha aproximação. Ela apercebeu-se logo do nosso plano e entrou em pânico. Esta criança tinha a fobia da perseguição. Com um grito selvagem, pôs-se a correr, derrubando os colegas e os seus trabalhos, naquela fuga. Contudo, Anton estava muito perto e apanhou-a quase de imediato. Arranquei-a aos braços dele.

— Quando te agarramos, não é para te fazer mal, querida. Não percebes? — Sentei-me com ela, abraçando-a com força, pois ela debatia-se. Escutava-lhe a respiração ofegante e receosa.

— Calma, gatinha.

— Eh, malta — gritou Peter, encantado. — Agora, temos de portar-nos todos bem. — Aquelas pequenas cabeças inclinaram-se sobre os cadernos e Tyler levantou-se, solícita, para inspeccionar o trabalho de Susannah e Max.

Sheila retomou a gritaria, com o rosto afogueado. Mas não chorava. Agarrando-a no colo, espalhei os cubos. Alinhei-os, cuidadosamente, enquanto esperava que ela se acalmasse. — Ouve. Quero que contes uns cubos.

Ela gritou ainda mais alto.

— Conta três para mim. — Ela continuava a tentar soltar-se.

— Vou ajudar-te — prossegui, dirigindo a mão renitente para os cubos. — Um, dois, três. Agora, tenta tu.

Ela agarrou inesperadamente num cubo e atirou-o, com toda a força, pela sala. Num abrir e fechar de olhos, pegou num outro, que atingiu Tyler na testa. Tyler soltou um gemido.

Imobilizei o braço de Sheila contra ela e levantei-me, arrastando-a para o canto.

— Aqui não fazemos essas coisas. Ninguém se magoa uns aos outros. Quero que te sentes nesta cadeira até acalmares e poderes voltar a trabalhar — disse, ao mesmo tempo que fazia sinal a Anton para que se aproximasse. — Ajuda-a a ficar na cadeira, se for preciso.

Voltei para junto das outras crianças, esfreguei a testa dorida de Tyler e elogiei todos por se terem mantido ocupados. Colocando uma marca no placard para indicar a nossa aproximação do gelado de sexta-feira, instalei-me junto de Freddie e ajudei-o a empilhar os cubos. No canto, o diabo andava à solta. Sheila gritava selvaticamente, dando pontapés na parede com os ténis e balançando a cadeira. Anton mantinha um silêncio sombrio, conservando-a firmemente no sítio.

Durante todo tempo reservado ao cálculo, Sheila continuou a armar confusão. Quando o recreio já começara há meia hora, estava cansada de dar pontapés e de lutar. Aproximei-me.

— Estás pronta para vires fazer os exercícios comigo? — perguntei. Ela fitou-me e emitiu um grito furioso e sem palavras. Anton deixara de a agarrar, segurando apenas a cadeira, e fiz-lhe sinal para que se ocupasse dos outros. — Quando estiveres disposta para fazer os exercícios, podes vir. Até lá, quero-te nessa cadeira. — Em seguida, virei costas e afastei-me.

O facto de ficar completamente só sobressaltou-a por um instante e deixou de gritar. Quando tomou consciência de que nem Anton nem eu estávamos por perto para a manter na cadeira, levantou-se.

— Estás pronta para o cálculo? — inquiri do outro lado da sala, onde estava a ajudar Peter a construir uma auto-estrada com os cubos.

— Não! Não! Não! — gritou com uma expressão furiosa.

— Nesse caso, volta a sentar-te.

Guinchou de raiva e a sua repentina mudança de volume fez com que todos parassem. Contudo, ela manteve-se ao lado da cadeira.

— Mandei-te sentar, Sheila. Não podes levantar-te até estares pronta para fazeres os exercícios.

Durante o que me pareceu uma eternidade, gritou com tanta força que senti a cabeça a latejar. Depois, repentina e surpreendentemente, reinou a calma e fulminou-me com o olhar. Um ódio tão visível retirou-me a pouca autoconfiança que tinha em relação ao que estava a fazer.

— Senta-te nessa cadeira, Sheila.

Ela obedeceu. Virou a cadeira de forma a poder observar-me, mas sentou-se. Depois, retomou a gritaria. Emiti um profundo e íntimo suspiro de alívio.

— Sabes, Torey, acho que desta vez devíamos ganhar dois pontos por bom comportamento — declarou Peter, fitando-me. — Ela é difícil de ignorar.

— Acho que tens razão, Peter — anuí com um leve sorriso. — Isto vale dois pontos.

Sheila gritou e berrou durante todo o tempo das actividades. Havia uma hora e meia que continuava aquela barulheira. Batia com os pés no chão e balançava a cadeira. Puxava pela roupa e agitava os pulsos. Contudo, manteve-se na cadeira.

Quando chegou a hora do recreio, estava rouca e tudo o que vinha do canto eram leves grasnidos abafados. No entanto, a sua raiva não diminuíra e os grasnidos de fúria continuaram. Permaneci na sala, enquanto Anton levou os outros para o recreio. Tal aumentou a agitação de Sheila durante uns momentos. Emitiu mais alguns gritos e fez girar a cadeira em todos os sentidos. Estava, porém, a ficar cansada. No final do recreio, tinham deixado de se ouvir quaisquer sons vindos do canto. Sentia a cabeça a latejar.

Não repeti as condições para ela sair do canto. Achava que era inteligente bastante para as saber e não queria dar-lhe mais atenção do que aos outros. As crianças entraram, geladas e de faces afogueadas do recreio, cheias de histórias sobre o jogo da cabra-cega na neve com Anton, que fora sempre apanhado. O período de leitura iniciou-se sem novidade, cada um de nós entregue às suas tarefas, como se o montinho de carne sentado na cadeira, ao canto, não existisse.

Quase no final do período de leitura, senti um leve toque no meu ombro, quando estava a trabalhar com Max. Virei-me e deparei com Sheila, de pé, atrás de mim, a pele manchada de ansiedade, o rosto franzido com aquela expressão desconfiada, que os seus olhos tantas vezes reflectiam.

— Estás disposta a fazer os exercícios?

Premiu os lábios durante um momento e depois assentiu devagar com a cabeça.

— Muito bem. Vou pedir à Sarah que ajude o Max. Vai apanhar os cubos que atiraste ao chão e tira os outros do armário junto ao lava-louças.

Falei-lhe num tom casual e desprendido, como se fosse normal esperar que ela obedecesse, embora sentisse um aperto no coração. Ela fitou-me atentamente, mas em seguida foi fazer o que lhe pedira.

Sentámo-nos juntas na alcatifa e espalhei os cubos.

— Mostra-me três cubos.

Ela pegou em três com gestos cautelosos.

— Mostra-me dez.

De novo, dez cubos foram alinhados na alcatifa na minha frente.

— Boa menina. Conheces bem os números, verdade?

Ela ergueu o rosto com uma expressão ansiosa.

— Vou dificultar a tarefa. Conta-me vinte e sete. — Segundos depois, surgiram vinte e sete cubos.

— Sabes somar?

Ela não respondeu.

— Mostra-me quantos cubos são dois mais dois. — Quatro cubos surgiram sem hesitação. Observei-a durante um momento. — Que tal três mais cinco? — Ela alinhou oito cubos.

Ignorava se ela sabia mesmo as soluções, ou se as ia encontrando. Mas compreendia, sem dúvida, a mecânica por trás da adição. Hesitava quanto a ir buscar uma folha e lápis, dado conhecer a sua tendência para destruir papel. Não queria estragar a nossa frágil e recém-conquistada relação. Mas queria saber como é que ela resolvia os problemas. Portanto, decidi mudar para a subtracção, o que me daria mais indicações.

— Mostra-me três menos um.

Sheila alinhou rapidamente dois cubos. Sorri. Era óbvio que conhecia este problema sem ter de colocar três cubos e tirar um.

— Mostra seis menos quatro.

De novo, dois cubos.

— Eh! És muito esperta. Mas tenho um problema para ti em que vou apanhar-te. Mostra-me doze menos sete.

Sheila ergueu o rosto na minha direcção e um leve vestígio de sorriso brilhou-lhe nos olhos, embora não lhe chegasse aos lábios. Colocou um, dois, três, quatro, cinco cubos em cima uns dos outros. Fê-lo, sem sequer olhar para os cubos. «A diabinha», pensei. Onde quer que tivesse estado nestes últimos anos e o que quer que tivesse feito, também aprendera. Tinha capacidades superiores às de uma criança normal da sua idade. Não hesitara uma fracção de segundo, antes de colocar os cubos. O coração pulou-me de alegria ante a hipótese de ter uma criança inteligente debaixo de toda aquela revolta e sujidade.

Resolveu mais alguns exercícios antes de eu lhe dizer que chegava e ela podia largar os cubos. Agora, era o período de leitura e dissera-lhe, de manhã, que ela não tinha de participar nesta activi­dade. Levantei-me para me ocupar das outras crianças e Sheila levantou-se também. Foi atrás de mim, sem largar a caixa dos cubos.

— Podes largá-los, se quiseres, querida — disse, virando-me para ela. — Não precisas de andar com eles atrás de ti.

Sheila tinha outras intenções. Quando voltei a erguer a cabeça, ela estava na sua cadeira favorita no canto oposto da mesa com os cubos espalhados na sua frente. Manipulava-os, muito ocupada, fazendo algo, mas eu não sabia o quê.

O almoço pareceu deprimi-la novamente e Sheila regressou ao seu posto na cadeira. No entanto, quando chegou a hora de cozinhar, convencia-a facilmente a aproximar-se, estendendo-lhe uma banana num pau de chupa-chupa.

Todas as quartas-feiras preparávamos algum prato. Organizara esta actividade por várias razões. Para as crianças mais evoluídas, era um bom exercício de cálculo e leitura. Para todos, encorajava a actividade social, a conversa e trabalho de conjunto. Além de que cozinhar era divertido. Uma vez por mês, pegávamos numa receita favorita das crianças e esta tarde era bananas com chocolate, uma receita que consistia em enfiar uma banana num pau, mergulhá-la em chocolate, enrolá-la numa cobertura e pô-la a congelar.

Para simplificar as coisas, resolvera não experimentar uma receita nova no primeiro dia de Sheila e as bananas com chocolate eram um bom recurso. Quase todas as crianças conseguiam manejar os ingredientes sem ajuda. Até mesmo Susannah conseguia fazer tudo, sob a supervisão atenta de Max e Freddie. Havia, obviamente, chocolate por tudo o que era sítio e uma boa parte das coberturas era devorada antes de encontrarem uma banana onde a colocarem, mas passávamos momentos maravilhosos.

Sheila hesitou em juntar-se-nos, agarrando a banana com firmeza e olhando de lado os outros, que tagarelavam alegremente. Contudo, não ofereceu resistência e Whitney atraiu-a até junto do molho de chocolate, quando todos já haviam acabado. Depois de começar, Sheila absorveu-se por completo na tarefa e começou a tentar enrolar quatro coberturas diferentes na sua pegajosa banana.

Eu observava-a do canto oposto da mesa. Nunca falou, mas tornou-se visível que ela tinha ideias muito claras quanto a fazer que as coberturas colassem, voltando a mergulhar a banana no chocolate depois de a envolver em cada cobertura. As outras crianças começaram a parar uma a uma para a observar enquanto ela experimentava a sua ideia. As vozes transformaram-se num sussurro, à medida que a curiosidade levava a melhor. Enrolando a grande e pegajosa massa no prato com a última cobertura, ergueu-a com cuidado. Os seus olhos encontraram os meus e um sorriso estampou-se-lhe devagar no rosto e atravessou-o de um lado ao outro, mostrando os espaços onde lhe faltavam os dentes de baixo.

No final de cada dia tínhamos actividades que, à semelhança do tópico da manhã, se destinavam a unir-nos e a preparar-nos para o tempo de separação. Uma delas era a Caixa do Duende.

Eu adorava inventar histórias para contar às crianças e dissera-lhes, uma vez, no início do ano, que os duendes eram como fadas, mas viviam nas casas das pessoas e cuidavam das coisas, enquanto elas dormiam. Peter sugerira que talvez houvesse um duende na nossa sala que cuidava das nossas coisas e fazia companhia durante a noite a Benny, Charles e Onions, o coelho irascível. Tal deu azo a uma série de histórias sobre o nosso duende.

Assim, um dia, eu trouxe uma grande caixa de madeira e expliquei às crianças que era este o sítio onde o duende passaria a deixar mensagens. Garanti que ele nos vira a trabalhar e ficara muito satisfeito ao verificar como todos na sala se iam tornando bons e ponderados. Por conseguinte, sempre que assistisse a uma boa acção, deixaria uma mensagem na caixa.

No final de cada dia, eu lia, portanto, os bilhetes da Caixa do Duende. Passados uns dias, disse-lhes que o duende estava a ficar com cãibras e precisava de uma ajuda, porque havia tantos a praticar boas acções. Pedi aos miúdos que estivessem de olho nas boas acções dos outros, escrevessem um bilhete e o metessem na caixa, ou, caso não soubessem escrever, viessem ter comigo e eu escreveria por eles.

Foi assim que começou a funcionar um dos nossos mais populares e eficazes exercícios. Todas as noites havia cerca de trinta bilhetes das crianças sobre boas acções que observavam nos companheiros. Tal não só encorajava as crianças a observarem comportamentos positivos nos outros, mas também rivalizavam em bondade com a esperança de verem o seu nome aparecer na caixa ao fim do dia.

Alguns bilhetes eram tradicionais, mas outros denotavam especial perspicácia no elogio de uma criança devido a pequenos mas significativos actos, às vezes por coisas que nem eu havia notado. Por exemplo, Sarah foi elogiada por não ter usado um seu palavrão favorito durante uma discussão e Freddie foi elogiado por procurar um lenço de papel, em vez de se assoar à camisa.

Eu adorava abrir a caixa todas as noites, pois raramente contribuía para ela, à excepção de me certificar de que todos recebiam, pelo menos, um bilhete. A emoção de ver o que as crianças haviam observado era algo excitante. E confesso que também me agradava encontrar um bilhete que me fosse dirigido.

A leitura das mensagens, depois de cozinharmos na quarta–feira, foi particularmente agradável, porque, pela primeira vez, apareceu o nome de Sheila escrito com uma caligrafia que não era a minha. Sheila, que se mantinha sentada longe de nós, conservou a cabeça baixa, enquanto as outras crianças batiam palmas de satisfação com as suas mensagens. Contudo, aceitou prontamente os bilhetes, quando lhos entreguei.

Anton acompanhou as outras crianças até aos autocarros quando as aulas acabaram. Sentei-me à mesa para classificar uns papéis e actualizar uns gráficos de comportamento que estava a elaborar sobre algumas crianças.

Sheila fora à casa de banho para limpar os restos de banana com chocolate da cara. Já se mantinha lá há algum tempo e eu embrenhara-me no meu trabalho. Ouvi o som do autoclismo e ela saiu. Não levantei a cara, porque estava a completar o traçado de uma curva com um marcador e não queria cometer um erro. Sheila aproximou-se da mesa e observou-me por um momento. Depois, chegou-se mais, apoiando os cotovelos em cima da mesa e inclinando-se de forma a ficarmos apenas uns centímetros separadas. Ergui os olhos e fitei-a. Ela examinou atentamente o meu rosto.

— Por que é que as outras crianças não vão à sanita?

— O quê? — retorqui, surpreendida.

— Disse por que é que os outros, embora sejam crescidos, fazem nas calças e não na sanita?

— Bom. É uma coisa que ainda não aprenderam.

— Como assim? São grandes. Mais crescidos que eu.

— Bom, ainda não aprenderam. Mas estamos a trabalhar nisso. Todos estão a tentar.

Sheila baixou os olhos para o gráfico que eu estava a traçar. — Mas já deviam ter aprendido — insistiu. — O meu pai dava-me uma grande tareia se eu fizesse isso.

— Toda a gente é diferente e aqui ninguém apanha.

Ficou pensativa durante um longo momento e traçou um pequeno círculo na mesa com o dedo.

— Isto é uma sala de malucos, não é?

— Não propriamente, Sheila.

— O meu pai diz que sim. Diz que sou maluca e que me puseam numa aula para crianças malucas. Diz que isto aqui é uma sala para crianças malucas.

— Não propriamente.

— Não me interessa muito — retorquiu, depois de uma pausa com a testa franzida. — Este sítio é tão bom como qualquer outro onde estive antes. Não me interessa que seja uma sala de malucos.

Fiquei um pouco à toa, sem saber como negar o óbvio. Não esperara ver-me envolvida com uma das minhas crianças neste tipo de discussão. A maioria não era coerente bastante para ter essa percepção nem suficientemente corajosa para o afirmar.

— Tu seres maluca? — perguntou Sheila, coçando a cabeça e olhando-me com um ar pensativo.

— Espero que não. — Ri-me.

— Como é que fazes isto?

— O quê? Trabalhar aqui? Porque gosto muito de meninos e meninas e acho que ensinar é divertido.

— Como é que estás com crianças malucas?

— Porque gosto. Ser louco não é mau. E apenas diferente, nada mais.

Sheila abanou a cabeça sem sorrir e endireitou-se.

— Acho que também seres maluca — concluiu.

Cada palavra é uma semente – Susanna Tamaro (sugestão de leitura)

Susanna Tamaro
Cada palavra é uma semente
Lisboa, Editorial Presença

Acreditando que a escrita deve propagar a semente da inquietação, Susanna Tamaro aborda neste livro, sempre numa atitude de espanto e de humildade, o grande mistério da vida humana. Uma viagem espiritual, embaladora, que nos confronta e nos inspira através do realismo e da sensibilidade da prosa envolvente a que Susanna Tamaro já nos habituou.

Cada palavra é uma semente

Excerto

O meu pai era uma pessoa bastante especial. Vivia num pequeno quarto com uma varanda que dava para a gravilha de uma linha férrea. Já estava reformado há alguns anos e sentia-se feliz. Não sei o que fazia o dia todo, não tinha amigos, não convivia com ninguém. Sentia-se vaidoso por poder comprar o passe social a preço reduzido. «Sabes — dizia-me ele —, por esta quantia, por esta modesta quantia, posso viajar dia e noite, nos meios de transporte que quiser.»

Acho que passava a maior parte do seu tempo a andar nos autocarros e nos comboios citadinos.

Por mais do que uma vez, fui encontrá-lo em lugares impensáveis, muito afastados da casa onde vivia. O passo era sempre o mesmo, mãos atrás das costas, ar absorto. E quando eu lhe perguntava: «O que é que andas a fazer por estes lados?», respondia invariavelmente: «Vim dar uma volta.»

Por vezes, eram os amigos que me diziam onde ele estava. «Vi-o perto do entroncamento… no túmulo de Nero… no fundo da Aurelia… no átrio da Stazione Tiburtina… «Estava sozinho?» «Claro.» «O que é que estava a fazer?» «A passear.»

À noite, voltava para casa e desligava o telefone, ou talvez, mais simplesmente, evitava atender. Penso que já só havia duas ou três pessoas que soubessem o seu número, mas isso não tinha importância. Não queria ser incomodado, não queria que ninguém fosse lá a casa, ser convidado, para lhe dar cabo do seu tempo.

Na varanda, tinha uma bicicleta já velha; não era um desportista, mas tinha problemas de coração. Por isso, à noite, pedalava. Pedalava e via passar os comboios. De vez em quando, telefonava para me dizer: «Sabes, já começam a aparecer os primeiros pirilampos, vejo-os reluzir entre dois comboios…» Ou então: «Há uma gata que teve gatinhos, dois ruivos e um cinzento. Quando volta da caça, vão a correr ao encontro dela, todos contentes, de cauda levantada.»

O meu pai chegava sempre a horas aos nossos encontros, mas não tinha o sentido do tempo. Olhava para os outros — aqueles a quem o Principezinho chama «os adultos» — com um espanto mal disfarçado. Para onde iam eles a correr? Porque têm tanta pressa? Não conseguia entender.

Já numa idade mais do que adulta, começou a estudar chinês. Descobrira no taoísmo a repercussão perfeita do seu ser. «Pratica o não agir. Tenta não fazer nada. Saboreia o que não tem sabor. Considera o pequeno como grande, o pouco como muito.»

O meu pai não tinha o sentido do tempo, mas, apesar disso, foi ele, juntamente com a minha mãe, quem me deu o meu tempo. Deu-me o tempo, o meu tempo, e deu-me o seu não-tempo, a indiferença total pelo desenrolar das coisas.

Também chego sempre a horas aos encontros, mas abro as cartas uns meses depois de as receber e respondo, se me lembrar, passados uns anos. Quando o telefone toca, nem o ouço. Se digo a alguém «telefono-te amanhã», é certo e sabido que telefonarei passado um mês, não por maldade, desleixo ou arrogância, mas porque também vivo numa espécie de presente eterno. No meu tempo interior, um mês, uma semana, um dia, valem o mesmo.

Quanto tempo demorei a reparar no tempo? Não muito. Devia ter uns sete anos. Lembro-me de uma tarde cinzenta e ventosa, o vento sul entrava por baixo da janela e esfriava o quarto. Eu estava a meter os livros na pasta, para o dia seguinte. De repente, pensei: este dia já passou e nunca mais voltará. Tudo o que vi, senti, sofri e ouvi desapareceu para sempre. Cada pôr do Sol é um pequeno passo para a morte.

Foi a partir de então que comecei a ver de uma forma diferente cada pessoa que encontrava. Havia a pessoa e, a seu lado, um pequeno poço. Esse poço ficava perto da cama e cada entardecer engolia o dia que tinha passado. Havia poços quase vazios, como o meu e o dos meus irmãos, e poços já cheios, como os dos avós. Os poços quase cheios faziam-me chorar.

A partir daí, a ansiedade foi a minha fiel companheira. Sentia-me como um ramo que a chuva atirara para a água de um rio lamacento que ia correndo lentamente para um sítio qualquer, a paisagem não era muito diferente da que vi muitas vezes do comboio, entre Trieste e Veneza. Neblina, casas, campos de milho, ca­nais, choupos e campanários. Neblina, casas e campos de milho. De vez em quando, uma figura escura, de bicicleta.

Nunca tinha pedido para descer aquele rio e não tinha qualquer possibilidade de sair dele, navegava como navegavam os outros todos, mas também com um sentimento de grande impotência.

O que era a vida? Levantar de manhã, ir à casa de banho, ir para a escola, comer, fazer os trabalhos de casa e ir para a cama, para recomeçar, no dia seguinte, a mesma série de sequências ridículas. Haveria de crescer e, em vez de ir para a escola, iria para o trabalho e essa seria a única diferença substancial. Depois, o trabalho também acabaria e os meus cabelos ficariam brancos, as pernas começariam a fraquejar e eu ficaria muito tempo parada diante das passadeiras para peões, antes de atravessar a rua. Depois, as pernas deixariam de aguentar com o meu peso e deitar-me-iam no caixão como, durante tantos anos, me tinha deitado na minha cama. Fim do tédio, fim da repetição, fim de tudo o resto.

Era para isso que as pessoas vinham ao mundo? E o que era a vida senão um monótono desperdício de tempo e de energia?

Nessa altura, como é natural, não sabia nada do Big Bang e do espaço, dos cem milhões de galáxias que giram connosco no cosmos, nem das relações que ligam o espaço ao tempo, a massa à energia Todavia, tinha percebido uma coisa absolutamente fundamental, isto é, que o tempo é como uma seta, sai do arco e vai parar no alvo e nunca pode fazer o percurso inverso. Pelo menos, não para nós, seres humanos e animais e plantas. Para nós que, de uma forma ou de outra, respiramos.

Para os eléctrodos e as partículas fundamentais, tudo muda, não têm relógios, nem encontros marcados, não se apaixonam, nem serão avós, e também não imaginam que a morte existe. Para eles, o passado e o futuro são a mesma coisa.

Para nós, não. Para as criaturas — para todas as criaturas — só há um caminho e uma única direcção. É daí que nasce o espanto, o horror vacui que senti na infância e hoje sente qualquer pessoa que pare, ao menos por um instante, para reflectir.

A pergunta acerca do tempo é, acima de tudo, uma pergunta acerca do sentido. Porquê? Para quem? Para quê?

Tenho um temperamento marcadamente terrestre. Entre olhar para as alturas e olhar para o chão, sempre preferi olhar para o chão. Compreendo mais coisas ao ver uma formiga a transportar uma semente do que ao estudar as fórmulas matemáticas que definem o trajecto das estrelas.

Na memória de todas as culturas, antes do mundo, havia o caos. A certa altura — que talvez ainda não fosse altura nenhuma porque o tempo não existia — houve uma coisa muito pequena que explodiu, gerando uma coisa grande.

Na língua chinesa, o que exprime o caos primogénito — um caos que, naturalmente, não é caos, mas apenas uma ordem diferente da que conhecemos — é o ideograma hun tun..

O meu pai tinha estudado chinês e, durante um certo tempo, eu estudei a caligrafia chinesa. Tinha uma professora minuciosa e silenciosa, mas que, diante das folhas brancas, se transformava e brandia o pincel com energia e graça, como uma dança. Gostava de repetir: «Céu, pai, terra mãe, nós muito pequenos, muito, muito pequenos.»

Os ideogramas não são gatafunhos incompreensíveis, são representações de microcosmos e do macrocosmo.

O Hun Tun, o caos que antecede a criação, é formado por dois ideogramas. O ideograma Hun que representa um homem e, por baixo dele, o Sol, um Sol abaixo do horizonte, ainda prisioneiro das trevas. Pelo contrário, o ideograma Tun representa uma pequena planta que tenta criar raízes. Em ambos os ideogramas, está presente o signo da água. A água é, portanto, a fonte da vida, foi aí que todo o mundo que conhecemos começou a criar raízes. E é também aí, na água do ventre materno, que a vida de cada criatura inicia o seu percurso de crescimento.

Existir no tempo é, acima de tudo, criar raízes.

Um dos livros que leio com maior paixão é o livro da evolução, a vida que houve antes de nós. A grande seta que permitiu o disparo da seta mais pequena, a da nossa existência individual. Uma seta lançada por uma criança e uma seta disparada por um gigante, ambas apontadas para o mesmo alvo.

Eu não posso transformar-me em lémure, tal como um carvalho não pode transformar-se em alga unicelular. No entanto, num determinado momento, a alga começou a imaginar dentro de si o carvalho.

Aconteceu há cerca de quatrocentos milhões de anos, no devónico [Quarto período do Paleozóico, em que apareceram os primeiros vertebrados terrestres e as primeiras plantas vasculares. (NT)] Até essa altura, as plantas tinham vivido e tinham-se propagado apenas horizontalmente.

Todavia, o sonho gera a inquietação e, de repente, tudo o que era cómodo e natural começa a ficar acanhado. Porque não explorar também outros espaços? Porque não tentar atingir a grande estrela que enche de luz o espaço circundante?

Para isso, não se pode estar parado, a flutuar. Necessita-se de um sistema diferente de transporte dos alimentos. É assim que se formam novas células, células muito compridas, capazes de transportar a água para o topo, e outras capazes de voltar a trazer a linfa elaborada para baixo. Assim se desenvolve uma espécie de tecido celular com uma estrutura semelhante à medula, no centro. No meio, há ar, e ar significa respiração. Células com clorofila rodeiam o tecido vascular e a planta cobre-se de pequenos botões, os estornas. Botões que se abrem e fecham para conterem ou libertarem vapor. O vapor sobe até ao céu e o céu restitui-o sob a forma de chuva.

E é nessa altura que a terra dá início ao grande processo da respiração.

Para falar verdade, até há poucos anos, não prestava grande atenção à vida das plantas. Privilegiava o estudo dos animais porque os animais têm um olhar. Só com o tempo, aprofundando alguns pensamentos, é que fui reparando na grande afinidade que existe entre o nosso destino e o destino do mundo vegetal.

Entre nós e uma planta, a diferença não é muito grande. Tanto nós como elas somos feitos de tecido vascular, temos uma medula que nos mantém direitos e nos faz ter, crescendo, uma posição erecta. Tanto nós como elas, para podermos continuar a viver, precisamos da dose de alimento adequada.

Criar raízes, alimentar-se, crescer.

Enquanto os animais crescem na horizontal, nós e as plantas somos seres verticais. Elas aguentam o peso da ramagem, nós, o embaraçoso peso da cabeça.

As plantas demoraram alguns milhares de anos a mudar de estado. Desenvolvendo-se em altura, tinham resolvido vários problemas, mas ainda havia muitos por resolver. O da propagação, por exemplo. Antes do nascimento das sementes, o ovo fecundado não tinha qualquer tipo de protecção, bastava uma mínima mudança de clima para gastar o seu potencial de crescimento.

Por conseguinte, as sementes foram a outra grande revolução silenciosa.

A semente tem tudo no seu interior, pode ficar protegida no ovário, ou transformar-se em fruto e ir parar à barriga de uma pessoa, pode cair ao chão e ficar adormecida durante meses, ou mesmo anos, à espera das condições propícias para crescer, ou pode agarrar-se ao pêlo de um animal e andar a vaguear pelo mundo.

Há sementes que explodem, como a da impatiens, ou voam ligeiras, como o dente-de-leão, e outras que ficam paradas no ar como máquinas de Leonardo.

As sementes são potencialidade, uma potencialidade em prudente espera. Primeiro, não agem, e, quando agem, têm um projecto. A margarida converte-se em margarida, a genciana converte-se em genciana.

As plantas crescem para a luz e nós também crescemos para a Luz, embora muitas vezes façamos tudo para o ignorar.

Olhando à minha volta, tenho muitas vezes a impressão de que, para muitas pessoas, o tempo da vida se parece com um grande armário cheio de gavetas que elas têm de encher o mais depressa possível.

O tempo, com a sua vacuidade, gera ansiedades dificilmente controláveis.

«Não, hoje, não, amanhã, também não. Talvez na semana que vem, mas não sei. É difícil conseguir arranjar tempo.»

Quantas vezes ouvimos conversas deste género?

Estamos no tempo, mas não temos tempo.

Temos de correr, andar, fazer coisas, ver pessoas, adquirir talentos cada vez mais novos para calar o rumor dos dias, dos meses, dos anos que vão passando e que não podemos deter de forma alguma.

Depois, um instante antes de morrermos, talvez vejamos num lampejo a nossa vida e, ao vê-la, aperceber-nos-emos de que os únicos instantes verdadeiramente nossos, verdadeiramente cheios, foram aqueles em que pudemos ter «perdido tempo» para contemplar uma flor, a forma de uma árvore, ou acariciar a cabeça de uma criança que ia a passar ao nosso lado.

Na língua chinesa, a ausência da acção é definida pelo ideograma Xu. Neste ideograma, não há um homem deitado numa rede, há sopros que se movem entre eles, sem gerarem conflitos, numa harmonia perfeita.

A ausência de acção é o movimento perfeito, o movimento do homem que acolheu dentro de si não a arrogância do saber, mas a humildade da sabedoria.

Não agir é estar-se sempre pronto. Pronto para a morte e para a vida. Pronto para a chamada.

«Aqui estou eu, envia-me a mim!», diz o profeta Isaías.

Não diz: «Irei amanhã» ou «Podias ter-me chamado ontem.»

Não, diz: «Aqui estou eu!»

Viver esta dimensão significa, antes de mais, perceber que o nosso tempo é como uma fatia de gelado. O seu destino é ser consumido, ou derreter-se.

Ao passo que o verdadeiro tempo, ou seja, o gelado inteiro, permanece no congelador.

Existia antes e continua a existir, depois de a nossa porção ter terminado.

Para se perceber o tempo, para se perceber o significado mais profundo, em vez de o interpretarmos, teríamos de nos despojar.

Despojarmo-nos do eu, mais do que de qualquer outra coisa.

Eu quero, eu faço, eu compreendo, eu sou.

Despojarmo-nos e esperar.

Esperar e ouvir.

Assim, a pouco e pouco, iremos reparando que este tempo, este tempo que nos torna ansiosos, este tempo em que vamos acumulando coisas a fazer e a dizer, é, na realidade, um tempo que não difere muito da corrida de uma formiga, um tempo ligeiro, breve, curto. O verdadeiro tempo não é esse.

É o tempo do mistério e da transcendência.

É o tempo em que a cada semente será revelado o seu projecto. Um tempo que nos envolve e nos ultrapassa. Um tempo sem tempo, sem madrugadas, nem crepúsculos, sem aniversários, nem funerais.

É um tempo que nos antecede e nos segue, mas é também um tempo que nos acompanha ao longo dos dias, ou melhor, que irrompe nos dias, salvando-nos da deriva.

É o tempo da humildade, da descida às raízes.

O tempo da escuta, da escuta que se transforma em diálogo.

É o tempo do acolhimento e do reconhecimento.

É o tempo da semente que se transforma em rebento e do rebento que se transforma em planta.

É o tempo da planta que transforma a energia do crescimento na beleza inútil da flor e que, um momento antes de murchar e deixar cair as sementes, repara com espanto que aquilo a que, até esse momento, chamara Luz, era, de facto, Amor.

Quando ando pelas ruas de Roma, de noite e de dia, tenho muitas vezes a impressão de que estou a ver o meu pai.

Não era ele, aquela figura de perfil, no autocarro meio vazio? Aquele casaco que acabava de dobrar a esquina não era o seu?

De tempos a tempos, paro e ouço-o suspirar. Suspirava muito. Suspirava como se sentisse sempre um peso no coração.

As suas longas e intermináveis caminhadas talvez fossem uma tentativa para se libertar desse peso.

Caminhando sem parar, talvez andasse à procura de uma coisa qualquer que, de repente, lhe tornasse tudo claro.

Caminhava para fugir, para fugir de si mesmo, do seu passado, da sua solidão.

E talvez caminhasse também com a esperança desesperada de que lhe aparecesse, de repente, o rosto do Outro.

Porque uma semente pode estar parada na terra durante meses, durante anos, mas, nessa obscura permanência, nunca deixa de desejar a água, de esperar por ela.

Espera pela água e pela força que lhe permita romper o tegumento e começar a subir para as alturas, para o universo da luz e da respiração. Para descobrir finalmente a forma que, desde o início, tinha sido chamada a assumir no mundo.

Pouco antes de morrer, o meu pai tentou escrever-me um bilhete. Não conseguiu.

Na folha, só ficou um ponto.

O que terá querido dizer?

Perdão? Medo?

Ou seria paz?

Nunca saberei, pelo menos neste tempo.

No mistério deste tempo-seta, lançado para as trevas do cosmos justamente pela explosão de um ponto.

Uma viagem espiritual – Nicholas Sparks (sugestão de leitura)

Billy Milles; Nicholas Sparks
Uma viagem espiritual
Lisboa, Editorial Presença

David nunca esqueceria aquele Verão. Era então um rapazinho, que acabara de perder a sua irmã. Depois da morte da mãe, anos antes, ela era a fonte da sua alegria de viver. E agora que a perdera, o jovem índio mergulhara num desespero sombrio, e o seu pai começara a inquietar-se. Tinham sido anos muito duros, aqueles… felizmente, àquela família índia, discriminada pelos novos americanos, restava ainda o legado das suas tradições ancestrais. O pai viu o pesar que consumia o filho e compreendeu. Entregou-lhe o rolo de pele pintado à mão, gasto pelos anos. Daquelas imagens e símbolos emanava um poder misterioso. Foi esse o ponto de partida para uma estranha viagem, que mudou para sempre a vida de David.

Uma viagem espiritual

Excerto

A lição de um homem sentado sob a copa de uma árvore

O significado do quarto desenho

A felicidade é algo que cada um de nós pode aprender a controlar. O segredo está em saber como. Depois de descobrirmos o significado do quarto desenho, ficaremos de posse do maior segredo do mundo: como ser feliz em cada dia da nossa vida.

 

Porque já era tarde, os dois decidiram descansar. David tinha aprendido mais do que jamais supusera e estava exausto. O Homem indicou-lhe o quarto, e o jovem adormeceu quase de imediato. Nessa noite teve um sonho:

Encontrava-se num grande deserto. Areias brancas, branqueadas há muito pelos raios ardentes do sol, estendendo-se até onde a vista podia alcançar. Era em direcção ao horizonte que David precisava de ir, mas sabia que não ia conseguir. Tinha a língua inchada e ressequida, empapada de pó, rebentada e sangrando. Os braços estavam inchados pelas queimaduras causadas pelo sol, os olhos doíam-lhe devido à luminosidade do deserto e as pernas vacilavam sob o seu peso. Sentia-se ressequido por dentro e por fora. O corpo dizia-lhe que descansasse, que esperasse pelo anoitecer para continuar a viagem. Mas, em consciência, sabia que não existiria um anoitecer.

Estava no Deserto da Solidão, um lugar onde o cair da noite nunca chega.

Era um local de desespero e de tristeza. O sol nunca deixava de brilhar, os ventos nunca sopravam a favor, as areias nunca endureciam e o horizonte jamais era alcançado. Era uma vida de inferno, uma vida em que a dor se tornava companhia habitual e em que a esperança no futuro não existia. David sabia que não podia lutar contra o deserto, tal como não podia lutar contra qualquer outro aspecto da Mãe Terra. No final, tragá-lo-ia como havia tragado outros antes dele. Em breve morreria, sabia disso, e tinha medo embora esse medo não se devesse à aproximação da morte.

David estava assustado por não se preocupar, de forma nenhuma, se morria ou vivia. A vida tinha tanto significado quanto a morte; não tinha quaisquer sentimentos de esperança para o futuro. Por que motivo não se importava de morrer? Por que motivo não já não ansiava viver? David sabia que estes pensamentos eram aquilo que o estava a destruir, porém não conseguia evitá-los. Era por isso que estava com medo. Já não tinha controlo sobre si; tinha desistido da vida, sucumbindo aos sentimentos de piedade por si próprio.

Os joelhos de David dobraram-se, e ele caiu por terra. Sabia que não se levantaria. Já não havia mais nada que o fizesse continuar. Tinha esgotado todas as suas forças e estava pronto para morrer ali mesmo.

À medida que o sol o ia esmagando, o Homem das Montanhas apareceu. Vigiava David de perto, com o seu cabelo branco esvoaçando no ar, e David sentiu, de imediato, que o Homem tinha vindo para o ajudar. Todavia, enquanto David o olhava, os seus sentimentos começaram a alterar-se. Os braços do Homem pendiam frouxamente ao longo do corpo como se estivesse muito cansado, os seus ombros já não pareciam tão largos como tinham sido no passado e o seu rosto estava curtido pelo tempo e pela idade. Já nada de extraordinário se manifestava no Homem; não passava de um índio velho ali no meio do deserto. Mas porquê? O que é que lhe tinha acontecido?

A resposta chegou alguns momentos depois. David compreendeu que havia tristeza nos olhos do Homem; a tristeza estava a matá-lo. A tristeza estava a esgotá-lo, transformando-o num velho fraco e, com toda a certeza, iria matá-lo dentro de poucas horas. Este pensamento fez com que David se sentisse ainda pior. Nem mesmo o Homem podia ser feliz neste deserto. David tossiu e cuspiu alguma areia que se tinha alojado na garganta. Depois perguntou num tom abrupto:

Por que veio?

Vim porque precisava de vir respondeu o Homem.

Está aqui para me ajudar?

O Homem assentiu. Não lhe estendeu a mão. David tossiu de novo. Desta vez a tosse feriu o mais fundo da sua garganta ressequida.

— Traz água comigo? Preciso de água. É a única coisa que me pode ajudar neste momento.

O Homem olhou, confuso, à sua volta. Suspirou e após breves instantes comentou:

Há agua por todo o lado. Não a consegues ver?

Não existe água nenhuma! David respirava com dificuldade.

— Se não a consegues ver, então nunca a encontrarás — afirmou o Homem abanando a Cabeça.

Durante mais alguns segundos ainda se manteve perto de David, depois voltou-se e começou a afastar-se. David não conseguiu proferir uma única palavra devido à sua garganta tão seca. Tudo quanto podia fazer era erguer a cabeça e observar o Homem que ia desaparecendo no ar escaldante do deserto.

David fechou os olhos. Tinha sentido a presença do Homem ao seu lado e agora encontrava-se sozinho. Não tinha sido ajudado. No entanto, a presença do Homem levou-o a reflectir na sua vida e no que ela significava. Haveria algo com sentido na sua vida?

Decerto. Havia uma coisa.

Os seus pensamentos voltaram-se para o seu cão. David tinha apenas três anos quando Korak chegara a casa. Tinham crescido juntos. Ao longo de muitos anos, Korak havia tomado conta dele. Conduzira-o com segurança em situações de perigo, ajudava David a encontrar o caminho de regresso a casa quando se perdia. Agora Korak estava a ficar velho. Sofria de artrite nas patas traseiras, e por vezes David tinha tido de o ajudar a subir as escadas. O seu cão precisava dele; David tinha de o proteger. Era uma coisa que só ele podia fazer, pois o cão pertencia-lhe a ele, e apenas a ele. Por um breve momento David sorriu. Daria tudo para voltar a vê-lo mais uma vez.

De repente, e sem qualquer aviso prévio, começou, a chover.