Uma estrela

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Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava em dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um bolo, era bom sentir as grandes fatias despregarem-se da areia, dos muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da ameixieira. Continuar a ler

A manjedoura vazia

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— Já não há mais nenhuma — disse Michael, empilhando a última caixa no átrio da minha casa.

Inspecionei as embalagens poeirentas com alguma expectativa. Estas decorações de Natal, que tinham sido guardadas depois da morte da mãe de Michael, simbolizavam, de alguma forma, o nosso futuro como casal. Tínhamos, até agora, partilhado todo o tipo de atividades típicas da quadra: festas, compras, decorações. Mas, como íamos casar dentro de alguns meses, eu queria criar algumas tradições que fossem só nossas.

Algo de significativo e de único para ambos. Continuar a ler

O milagre

O milagre

A dificuldade que se tem no relacionamento com Don Crescenzo resulta do facto de ele ser surdo. Não ouve a mais pequena coisa, mas é demasiado orgulhoso para ler nos lábios. Além disso, não se pode iniciar uma conversa com ele escrevendo simplesmente qualquer coisa num papel. Não; tem de se fazer de conta que ele é ainda uma parte do nosso mundo barulhento e falador.
Quando perguntei a Don Crescenzo como passara o Natal, estava ele sentado numa cadeira de vime à entrada do seu hotel. Eram seis horas e o cortejo das caravanas tinha passado. O silêncio reinava e sentei-me na outra cadeirinha de vime, exatamente por baixo do barómetro com a imagem de publicidade da linha marítima, um barco branco no mar azul. Repeti a minha pergunta e Don Crescenzo levou as mãos às orelhas e abanou a cabeça com pesar. Em seguida, retirou um bloquinho e um lápis do bolso; eu escrevi a palavra Natale e olhei-o, na expectativa. Continuar a ler

As luzes de Natal

As luzes de Natal

Antes de o meu pai morrer, o Natal era uma época mágica nos longos e escuros invernos de Bathrurst, em New Brunswick. Os dias frios e tempestuosos começavam cedo, logo no fim de setembro. A dada altura, acendiam-se as luzes de Natal e a expectativa crescia. Por alturas da véspera de Natal, o vulgar pinheiro que o meu pai arrastara até nossa casa dez dias antes adquiria uma vida própria, plena de magia e de luz. O seu brilho era de tal forma maravilhoso que conseguia, sozinho, afastar toda  a escuridão do inverno.

Na véspera de Natal, pouco antes da meia noite, agasalhávamo-nos bem e íamos à missa do galo. A beleza do som do coro causava-me arrepios e, quando a minha irmã mais velha, que era solista, cantava Noite Feliz, a minha face corava de orgulho.

No dia de Natal de manhã, eu era o primeiro a levantar. Saía da cama atabalhoadamente e descia em direção ao brilho intenso da sala de estar. Embora tentasse manter-me direito, os olhos cheios de sono faziam-me cambalear. Quando entrava na sala, via-me diante do esplendor do Natal. Os meus olhos toldados e cheios de sono criavam uma auréola à volta de cada luz, amplificando-a e aquecendo-a. Após uns breves instantes, esfregava os olhos e via uma infinidade de fitas e laços e um amontoado de presentes coloridos. Nunca me esquecerei da sensação Continuar a ler

Eu sei tudo sobre o Pai Natal

Eu sei tudo sobre o Pai Natal

Os crescidos dizem
que o Pai Natal não existe.
Mas eu não acredito neles.
Então se o Pai Natal não existe,
quem é que traz os presentes todos os anos?

Os crescidos dizem
que ninguém consegue descer pela chaminé. Sobretudo com um saco tão grande às costas.
Mas eu sei que é possível.
O mais difícil é subir.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal não tem tempo
para ler as cartas de todos os meninos.
Dizem que são tantas que nem se consegue contá-las.
Mas eu sei que ele as lê,
porque nunca se engana nos presentes.

Os crescidos dizem
que os trenós não podem voar pelos céus, nem aterram nos telhados das casas.
Mas eu digo que eles estão enganados,
porque são as renas que voam e não os trenós.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal não pode estar em todas as lojas ao mesmo tempo.
Mas eu acho que isso é um disparate,
porque toda a gente sabe
que os Pais Natais das lojas são a fingir!

Os crescidos dizem
que o Pai Natal, se existisse,
nunca poderia entrar nas casas que não têm chaminé.
Mas eu acho que o importante não é a chaminé.
O que importa é a árvore de Natal.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal nunca teria tempo
para embrulhar os presentes de todos os meninos.
Mas eu tenho a certeza
de que a Mãe Natal e os duendes lhe dão uma ajuda.

Os crescidos dizem
que é muito estranho
o Pai Natal nunca envelhecer.
Mas eu sei a verdade.
Ele envelhece mas, como tem barba e cabelos brancos, não se nota.

Os crescidos dizem
que, se o Pai Natal entrasse mesmo nas casas, já alguém o teria visto.
Mas um dia eu fiquei à espera dele, escondido debaixo dos cobertores.
Ouvi os seus passos, mas tive medo de ir ver.

Os crescidos dizem
que o Pai Natal nunca aparece. E que isso é só uma história que os pais contam aos filhos.
Mas eu acho que eles não estão a pensar muito bem.
Se não é ele, quem é que leva as cenouras
que eu lhe deixo ao pé da árvore de Natal para ele dar às renas?

Os crescidos dizem
que, ao passar pelos países quentes, que o Pai Natal teria demasiado calor com o seu casaco vermelho.
Mas eu acho que eles não têm razão,
porque à noite, no céu, faz sempre um bocadinho de frio.

Os crescidos dizem
que só os meninos pequenos acreditam no Pai Natal.
Mas eu sei que eles estão enganados.

Se o Pai Natal não existe,
por que razão estão sempre a falar dele?

Nathalie Delebarre
Eu sei tudo sobre o Pai Natal
Lisboa, Editorial Presença, 2008

Retirado de “Preparando o Natal” : Eu sei tudo sobre o Pai Natal

Natal no hipermercado – Luísa Ducla Soares

Natal no hipermercado

Muito gostava o Rodrigo de ir à caixa de correio. Quando o Natal se aproximava, estava sempre tão cheia que alguns papéis coloridos ficavam entalados na fresta estreita e comprida. O rapaz puxava-os, mesmo antes de dar a volta à chave, no entusiasmo de descobrir coisas maravilhosas, que apetecia mesmo comprar.

Subia no elevador com meia dúzia de envelopes brancos, sem graça nenhuma, e uma resma de publicidade.

A mãe abria as cartas e punha de lado, com um gesto aborrecido, todos os folhetos.

— Lixo! — irritava-se ela.

Rodrigo nunca recebia correspondência. O pai, que passava a vida em viagens, dantes ainda lhe mandava postais com monumentos ou paisagens. Agora, que comprara um telemóvel de última geração, com máquina fotográfica incorporada, falava-lhe à noite e mostrava-lhe, de relance, um quarto de hotel, um restaurante, o trecho de uma cidade desconhecida.

Certa tarde, depois de ler a correspondência, a mãe perguntou-lhe:

— Então, já está pronta a tua cartinha para o Pai Natal? Espero que a tenhas escrito com uma letra bonita…

— Ainda não. Posso escolher o que eu quiser?

Estava habituado a que se metessem sempre nos seus pedidos. Que lhe sugerissem um blusão novo e umas calças de bombazina, que aconselhassem uma bicicleta para fazer mais exercício.

Mas desta vez a mãe estava ocupada. Tinha de acabar um relatório para apresentar numa reunião. Por isso sentou-se ao computador, despachando-o:

— Decide à tua vontade. Já estás crescido.

Foi o que Rodrigo quis ouvir. Pela primeira vez, era livre!

Sentou-se à secretária no seu quarto azul cheio de carrinhos de colecção.

Sentiu-se paralisado diante do papel intacto, com a esferográfica na mão.

Tinha a cabeça cheia de imagens e ninguém o ajudava a tomar uma decisão. Escreveu:

Um rádio
Um pião
Uma lanterna
Uma mochila nova
Uma caixa de chocolates

Havia várias marcas, tantos tamanhos… E se o Pai Natal se enganava? De repente, surgiu-lhe uma ideia fantástica. Foi ao saco onde enfiava os prospectos que a professora mandara guardar para recortes e tirou alguns.

Muitos dos hipermercados tinham pequenos catálogos só com brinquedos. Pegou numa caneta de feltro e fez um círculo à volta de tudo o que queria. Eram páginas, páginas, mais páginas. Jogos, puzzles, automóveis, patins, máscaras, castelos de armar, jardins zoológicos, escorregas, baloiços, um nunca mais acabar de bonecada.

Não tinha paciência para copiar tudo à mão. Não estava o pai sempre a dizer que é preciso saber utilizar o que os tempos modernos põem à nossa disposição? Amarfanhou a primeira folha e escreveu de novo:

Querido Pai Natal,

Para lhe facilitar o trabalho, este ano mando-lhe folhetos de publicidade dos hipermercados. Assim escusa de andar de loja em loja.
Aviso-o de que é melhor arranjar uma camioneta porque as suas renas não vão poder com o peso. Acho-as muito giras mas bem pode mandá-las para o jardim zoológico porque são animais muito fracos. Os meninos ficavam a ganhar se, em vez da camioneta, arranjasse mesmo um camião gigante.
A minha morada vai na parte de fora, onde diz remetente.
Muitas saudades e desejos de Boas Festas do
Rodrigo

Quando quis meter toda a papelada no sobrescrito normal, evidentemente não cabia.

— Mãe, preciso de um envelope maior.

Ela ficou admirada. Mas foi à gaveta buscar o que o filho pretendia.

Só que, entretanto, Rodrigo já começara a abrir outros folhetos.

— Ah, que belas caixas de chocolates! Não as posso perder!

Havia doces e bolos de todas as espécies, pacotes de batatas fritas, pipocas, queijos amanteigados, pizas estaladiças…

Retirou outro folheto.

E se aproveitasse também as mochilas de rodinhas, os ténis de marca, os fatos-de-treino, as bolas de futebol… Sem falar dos álbuns de banda desenhada, dos livros de aventuras, da enciclopédia do mundo animal…

Sentia a cabeça rodar num turbilhão.

Puxou por outro catálogo repleto de consolas de jogos, outro com computadores, um terceiro de telemóveis.

Podia escolher tudo! Tudo! Tudo! Era de enlouquecer!

Para enviar tanto papel, o envelope grande não chegava.

Num salto, foi até à mercearia e pediu à menina Maria uma caixa de cartão vazia. Logo por sorte, ela acabara de desempacotar o açúcar.

Mal chegou ao quarto, toca a atirar para dentro da caixa a sua enorme provisão de papéis de publicidade.

— Faltará alguma coisa? — disse para os seus botões, inquieto. Voltou a remexer na papelada.

Claro, faltavam os refrigerantes, as coca-colas, os sumos de laranja, os batidos de chocolate e de morango. Estava farto de beber água! Voltou a procurar nos cantos escondidos.

— Como é que eu podia esquecer-me dos gelados?! Que grande seca comer sempre fruta à sobremesa por causa das vitaminas!

Do catálogo da ourivesaria aproveitou só a página dos relógios que eram fantásticos: de ouro, para os dias de festa, de mergulhador, para as férias, com cronómetros, para as corridas. Embora não gostasse de se levantar cedo, aproveitou até um despertador que cantava uma melodia de pássaros.

Esgotado o fornecimento, fechou a embalagem com fita-cola e colocou por cima a cartinha.

Arrastou, a custo, a pesada caixa até à sala onde a mãe via televisão.

— Que vem a ser isto? — espantou-se ela.

— A minha lista para o Pai Natal. Não disse que eu podia pôr o que me apetecesse? Quero tudo, tudo, tudo! O que eu queria mesmo era um hipermercado só, só, só para mim!

Se existe o Pai Natal, é preciso aproveitar!

Poucos dias faltavam para as férias. No recreio, os colegas falavam dos seus sonhos.

— Quero um equipamento de mágico — dizia o Zé.

— Eu também! — atalhava logo o Rodrigo.

— Quero uma máquina de fazer pipocas — dizia a Rita.

— Eu também! — ripostava o rapaz.

— Quero um jogo de computador — dizia a Mafalda.

— Ora, ora, eu vou ter isso tudo e muito mais! — vangloriava-se o nosso herói.

A casa estava toda enfeitada. Na porta de entrada uma coroa de azevinho com bolas vermelhas e pinhas douradas dava as boas-vindas a quem aparecia e lembrava a data que se aproximava.

Junto à lareira acesa estava pendurada uma bota de pano bordada e, em cima da pedra de mármore, a mãe colocara todos os cartões de boas-festas.

A árvore verdadeira tinha sido substituída por uma de plástico, muito verde, farfalhuda, salpicada de estrelas e luzes coloridas, a piscar. Este ano até havia uma música de fundo para animar.

No dia 23, foram esperar o pai ao aeroporto. A avó Catarina veio no comboio de Coimbra e os tios do Porto, carregados de filhos, malas, sacos e embrulhos, chegaram quase à hora da consoada porque apanharam um engarrafamento na auto-estrada.

A mesa brilhava com a mais fina loiça de porcelana, copos de cristal e dois candelabros de prata onde ardiam chamas esguias, que ondulavam sempre que os primos faziam corridas à sua volta.

Rodrigo nem saboreou o jantar, apesar dos elogios que todos lhe faziam. Estava ansioso pelo momento decisivo de abrir as prendas.

— Sentes-te doente? Não comes nada… — alarmava-se a avó. — Prova o peru, está uma delícia.

Quando a rolha da garrafa do espumante acertou no candeeiro, ecoou uma gargalhada geral. Mas Rodrigo olhava para os ponteiros do relógio. Ah, se eles começassem a rodar, a rodar, a rodar a toda a pressa para a meia-noite não tardar…

Como o tempo custava a passar.

Mandaram as crianças brincar para o quarto, depois do jantar, certamente para não se encontrarem com o Pai Natal, pois o maroto prefere entrar pé ante pé, sem que ninguém o veja. Porque será?

Finalmente, no momento em que os dois ponteiros se juntaram em cima do mostrador, soaram ao longe as doze badaladas.

Os miúdos precipitaram-se para a sala. Quem os conseguia conter? Caíram sobre o monte de prendas, procurando decifrar o nome que indicava o feliz possuidor de cada uma dela.

— Ana! — exclamou o tio Alberto, entregando à prima mais pequenina um volume tão grande que ela mal conseguia segurá-lo.

Todos ajudaram a abrir. Era uma boneca.

— Pedro! É para mim! — entusiasmou-se o primo mais velho, rasgando o papel que envolvia uma pista de automóveis.

A mãe, o pai, a avó, a Inês, foram-se apoderando de todas as embalagens que havia no chão.

— E eu? — exasperou-se o Rodrigo, já com uma lágrima ao canto do olho. — Será que o Pai Natal não recebeu a minha carta?

O pai e a mãe olharam um para o outro, sorrindo.

— Parece que falta abrir um envelope.

O rapaz pôs-se de gatas à procura. Entre fitas, lacinhos, papéis rasgados, lá estava ele, tão insignificante que bem passava despercebido. Tinha escrito o seu nome.

— Será dinheiro? Um cheque? — pôs-se a adivinhar o garoto. — Hoje os Pais Natais também devem ser mais práticos… Mas não. Era mesmo uma carta. Dizia assim:

Amigo Rodrigo,

Tinhas razão ao achar que as minhas renas não conseguiam carregar todos os presentes que pedias. Não pude trazê-los no camião gigante porque não tenho carta de condução.
Como o teu sonho era um hipermercado só para ti, vais hoje passar a noite de Natal no maior de todos. Ao amanhecer poderás levar para casa o que quiseres. Desta noite maravilhosa nunca te irás esquecer.
Dentro de cinco minutos estarei aí para te ir buscar.

Pai Natal

— Que sorte! — exclamou o pai.

— Temos de ir também! — exigiam os primos. Mas o Pai Natal só fizera um convite. Paciência…

Rodrigo enfiou o anoraque, um gorro, calçou as luvas porque a aragem devia estar fria e a avó refilava com a saída por causa das constipações.

Trim, trim, trim! tocou a campainha.

Correram todos para a porta. Lá estava o senhor do Natal, vermelho, gordinho, bonacheirão, com longas barbas brancas.

— Já só falta o teu presente — disse ele. — Não consegui estacionar o meu trenó nesta rua porque está atravancada de carros. Queres voar comigo pelos ares até ao terraço onde as deixei?

Rodrigo sentiu um arrepio. Tinha medo das alturas…

— Não podemos ir a pé, pelo chão? Afinal há um hipermercado mesmo ali na esquina.

O Pai Natal acedeu, deu-lhe a mão e, apesar do seu passo pesado, cansado, em breve chegaram às grandes portas envidraçadas.

Como era estranho o hipermercado sem vivalma… O espaço parecia ainda maior, as luzes fluorescentes iluminavam com um branco frio as paredes brancas, o chão esbranquiçado. As prateleiras imensas alinhavam-se como carruagens paradas numa estação fantasma.

— O teu desejo cumpriu-se. Tens tudo isto só para ti durante uma noite. Venho buscar-te quando o Sol nascer.

Dito isto, como que por artes mágicas, o velhote das barbas desapareceu.

Rodrigo desatou a correr entre as filas de expositores atulhados. Ali estavam arrumados os objectos dos seus sonhos e muitos mais, em que nunca pensara.

Encavalitou-se numa mota eléctrica, desfilou pela rua dos detergentes, dos óleos, do papel higiénico.

Abriu três caixas de chocolates e devorou-os porque mal provara o jantar. Atafulhou as algibeiras de bombons. Atirou-se a um bolo de chantilly e não deixou pitada. Para rematar empanturrou-se com gelado de framboesa.

Foi à secção de televisões onde 50 aparelhos transmitiam o mesmo programa. Ligou as aparelhagens de som no máximo. Tentou pôr a funcionar uma consola de jogos mas não atinou com as instruções.

Construiu um castelo medieval, fez um puzzle, um boneco de plasticina e pintou figuras que moldara em gesso, experimentou ténis pretos, azuis, brancos, às riscas. Enfiou todos os fatos-de-treino. Quais lhe ficariam melhor?

Abriu o jogo do monopólio. Rodou os bonecos dos matraquilhos. Atirou ao ar as bolas de futebol. Pena não ter com quem jogar!

Sem gente, o hipermercado ia ficando gelado.

Começou a doer-lhe a barriga. Aquela refeição de gulodices não lhe tinha caído bem…

Enfiou uns patins e foi à procura de um abre-caricas para beber água das pedras. Não dizia a avó que uma dessas garrafinhas curava todas as indisposições de estômago?

Mas onde se esconderiam, no meio de tanta barafunda? Estava tonto de ler rótulos e mais rótulos.

A cabeça andava-lhe à roda, as pernas tremelicavam, desequilibrava-se nos patins. Zás! Estampou-se no mosaico e um fio de sangue começou a escorrer-lhe da testa.

— Quem me acode?!

Ninguém lhe respondia.

Cambaleou até uma cadeira giratória da secção dos computadores. Enfiou um jogo na ranhura da máquina. Era um combate contra monstros terríveis.

Tentou vencê-los mas o soldadinho que ele movia acabava sempre apanhado pelas garras dos inimigos.

Que frio! Que frio! Foi à procura de uma manta, que estava justamente no extremo oposto. Azar! Era preciso andar quilómetros para achar o que queria.

Se ao menos houvesse ali uma cama… Viu lençóis, edredons, toalhas. Mas, de camas, nem sinal.

Onde ficaria a secção dos relógios? Queria saber as horas. Quanto tempo faltaria para sair dali?

Experimentou mais de 20 telemóveis mas encontravam-se todos desactivados.

Afinal estava preso, preso, preso com milhares de coisas à volta. Bateu nos vidros grossíssimos. Nem estremeceram.

— Pai Natal! Pai Natal!

Ninguém lhe respondia.
Pingava-lhe o nariz. Estava a ficar constipado. Acendeu um radiador eléctrico e pôs-se, de cócoras, a aquecer-se. Meteu as mãos nas algibeiras para procurar um lenço. Vieram todas castanhas e peganhentas: os bombons que lá guardara tinham derretido com o calor. Limpou as mãos às calças. Que horror!

Assim, sujas de castanho, parecia que… parecia que não tinha chegado a tempo à casa de banho. Que vergonha! Que diriam os primos quando regressasse? Iam rir à gargalhada.

Para lavar as mãos foi até a peixaria, onde pairava um cheiro a bacalhau e a peixe congelado que dava a volta às tripas.

A cada minuto sentia-se mais maldisposto. Podia agarrar em milhões de objectos mas já nada o interessava.

Tinha de fugir daquele lugar. Deu a volta ao espaço comercial à procura de outra saída. Até as portas de emergência estavam trancadas. Foi buscar um escadote e trepou até uma alta janela das traseiras. Abriu-a a custo, enfiou-se pelo buraco, deixando-se escorregar para o desconhecido.

Caiu sobre um monte de papelões amarrotados junto aos contentores do lixo, que abarrotavam. Havia por ali caixas, plásticos, embalagens de comida fora de prazo.

Que porcaria, pensou o rapaz, ainda mais agoniado.

De repente ouviu um ruído rastejante. Seriam ratos? Baratas? Tinha pavor desses bicharocos. Ia já a fugir quando ouviu miar devagarinho. Era um som tão fraco que mal se ouvia.

Rodrigo deu meia volta, escutou de novo o som, cada vez mais débil como se estivesse quase a calar-se para sempre. Deu por si a levantar aquela tralha em busca do dono de tal voz.

Retirou as caixas amontoadas e dentro da última, no fundo de tudo, estava um gatinho tigrado, com olhos dourados, a luzir. Mal se viu liberto, encostou-se às pernas do salvador, tremendo. Seguia-lhe os passos como uma sombra. O rapaz pegou no animal, leve, leve, e meteu-o dentro do anoraque. Sentia um coraçãozinho assustado bater junto do seu.

Avançou até à entrada principal do hipermercado, sentou-se nos degraus.

No céu, sem Lua, as estrelas pareciam pequenos fósforos que mãos invisíveis acendiam. Entre elas havia uma estrada de luz. Seria a Via Láctea? Era essa a estrada por onde o Pai Natal viajava?

O gatinho ronronou, feliz, e começou a brincar com o fecho do blusão. Rodrigo não estava mais sozinho.

Uma estrela riscou o firmamento. Para onde se dirigia ela?

Uma claridade muito ténue espreitava do Nascente. Então surgiu, na penumbra, o Pai Natal, esfregando os olhos com sono.

— Acabou a noite de Natal. Vou levar-te a casa. Depois tenho um longo caminho a percorrer até poder deitar-me a dormir. Que queres levar contigo? Escolhe, de entre tudo o que viste, o teu presente.

— Está aqui, é meu amigo… — balbuciou o rapaz, mostrando o gatinho.

Seguiram os três, por entre os primeiros raios da madrugada, até casa, onde uma coroa de azevinho, à porta, dava as boas-vindas.

Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006

A tua véspera de Natal

A tua véspera de Natal

Impecável. Foi impecável a tua véspera de Natal. Não te poupaste a nenhum esforço, a nenhuma despesa. Trataste dos mínimos pormenores com a antecedência necessária. Pareceram realmente espontâneos os gestos que deviam ser, ou pelo menos parecer, realmente espontâneos. Houve alegria, houve calor e gratidão à tua volta. Houve também, é certo, uns súbitos abismos de silêncio, uns turvos remoinhos de silêncio. Mas não terás sido tu quem afinal os procurou?

E podes crer que ninguém deu por nada. Correu tudo bastante bem. Logo pela manhã, os teus empregados – embora não manifestassem a exultante gratidão com que sonharas — sempre se mostraram tepidamente reconhecidos com o inesperado aumento das gratificações. Foi uma bela decisão da tua parte: tanto mais bela quanto pareceu tomada à última hora, no preciso momento em que o pessoal à tua roda se reunia para a já tradicional apresentação das Boas Festas. Só o Azevedo se encontrava, há mais de um mês, ao corrente dos teus propósitos; só com ele examinaras, atentamente, ao longo de várias noites, a situação da firma neste último ano. Mas com o Azevedo podes tu contar. Podes contar sempre com aquela gaguejante discrição que toda se enrola nas curvaturas do Azevedo. E, no entanto, às vezes gostarias de lhe dizer que tão patente fidelidade lhe dobra excessivamente a espinha.

Mas fizeste muito bem em convidá-lo depois para almoçar contigo, no espaventoso grill desse hotel onde jamais ele pensara pôr os pés. O pior é que foi aí, durante o almoço, que julgaste sentir a primeira tontura — como se um abismo se tivesse cavado por debaixo da mesa ou como se a própria mesa, do lado onde estavas, se encontrasse em risco de ser tragada por um remoinho.

O Azevedo não se cansara de te louvar; e de informar-te, em doses iguais de muito zelo e algum exagero, das óptimas reacções que o teu gesto provocara em todo o pessoal. Por fim, com bagas de suor já nascidas do esforço de atacar uma laranja com garfo e faca, cometeu a imprudência de repetir-se — como se acaso o ignorasses — que sempre soubeste fazer bem as coisas. Mas de repente deve ter surpreendido qualquer sombra nos teus olhos: apressou-se imediatamente a inquirir se te sentias mal. Respondeste que não; que já passara; que tinha sido só uma tontura. Agora sabes que nem chegou a ser o que dizias; ou que foi mais do que disseste. Descobriras, simplesmente, nas palavras do Azevedo, uma grotesca e impiedosa caricatura de ti próprio: tão grosseiro era o traço com que elas te desenhavam que ficavas com beiços e queixo de quem julga, sob uma testa de dois centímetros, que fazer o bem e fazer bem as coisas serão afinal a mesmíssima coisa.

Aproveitaste a seguir os últimos minutos do almoço (tolo serias se o não fizesses) para cuidadosamente recapitular, com o Azevedo, alguns assuntos porventura pendentes e para o encarregares ainda de umas tantas tarefas. Retiraste do bolso a agenda (mais uma agenda quase no fim!) e lá foste conferindo o cumprimento de certas ordens, a exactidão de uns tantos endereços, por entre os goles de café e do conhaque, por entre o fumo das cigarrilhas de circunstância.

Podes estar tranquilo: seguiram, com certeza, a tempo e horas, todas as caixas de charutos, todos os caixotes de espumante, todos os isqueiros em que mandaste gravar o nome da firma. Amigos, conhecidos, fornece¬dores, clientes, agentes, intermediários, — todos seguramente receberam os teus brindes de Boas Festas. Duas das furgonetas da casa, incumbidas da distribuição, não terão feito outra coisa em todo o dia.

Entretanto (por iniciativa do Azevedo), já tinhas o porta-bagagens do Volvo conscienciosamente atulhado com os presentes para a família. Findo o almoço, foi só pegares no volante; e o Azevedo, depois de te fechar a porta, ainda ficou, fora do passeio, a dissolver-se em mesuras.

Nem te deste ao trabalho de verificar a cor dos vestidos ou a marca dos perfumes que tinhas mandado comprar para a tua mulher e para a tua filha; sequer o nome dos livros ou a qualidade dos brinquedos destinados aos dois gémeos; muito menos, ainda, quais seriam, este ano, as lembranças para a tua cunhada e para a governante. Felizmente para ti, até nisso podes contar com o Azevedo, que já se vai habituando a não ter mau-gosto.

Só em plena estrada, quando vinhas a caminho da quinta, reparaste que te esqueceras do teu genro: hás-de levar tempo a considerá-lo da família. Mas não é certo que ele entrou na família contra tua vontade? E não é certo que faz sempre tudo para se manter à margem, sempre a tirar da barba hirsuta diatribes e remoques de toda a espécie? De qualquer modo, não seria difícil remediar o esquecimento. Mal chegaste à quinta, mandaste apartar e embrulhar três garrafas daquele whisky de que não gostas (do que te enviaram o ano passado) e bem viste, depois, como ele ficou satisfeito (embora talvez contrafeito por estar satisfeito), quando à meia-noite lhas ofereceste.

Vês? Não foi nada má a ideia deste primeiro Natal na quinta. No entanto, assim que chegaste, às quatro e meia da tarde, sentiste de novo entreabrir-se, sob os teus pés, aquela voragem de silêncio. A tua mulher tivera ainda de voltar a Lisboa, com a irmã, para algumas compras de última hora; só retornariam, já noite fechada, na companhia da tua filha e do teu genro. A casa dividia-se, por enquanto, em largas zonas da mais desamparada solidão e em dois pequenos focos de morna actividade: a cozinha, onde parolavam as criadas com a mulher do caseiro, e a sala grande do primeiro andar, já com a lareira acesa e com os teus rapazes, moles e magros, iguais como dois círios, a darem os últimos retoques no presépio. Através das demais divisões, apenas deslizava, a espaços, como um fantasma, a sombra da governante.

Às seis da tarde já não sabias que fazer. Não falando no frio e na humidade, estava demasiado escuro para andar lá por fora. Tiveste de intervir, por duas vezes, em pequenas questões que entre os teus filhos se acenderam. Só por ser véspera de Natal é que não aplicaste um tabefe em cada um. Mostravam-se ambos, aliás, — eles que geralmente se dão tão bem! — implicativos, impacientes, morbidamente insubmissos. E um cão, ao longe, começara a uivar.

Àquela hora, em Lisboa, as ruas estariam cheias de gente… Haveria o calor das luzes, arabescos e serpentinas de luzes, uma ponta de febre a empolgar a multidão, a mágica euforia dos encontros inesperados, o bafo tépido das lojas a derramar-se nos passeios, a agitação de festa que precede a Festa, — tudo aquilo, enfim, a que pretenderas fugir com a solu¬ção do Natal na quinta. Pois seria possível que te apetecesse tamanho tumulto, semelhante balbúrdia? Por muito que te espantasse, parecia-te que sim. Deste contigo a fazer contas: ida e volta, uma hora; mais uma hora que por lá andasses… Era evidente que tinhas tempo.

Mas conseguiste resistir a essa absurda tentação, e foste procurar, ao lado da lareira, na estante cavada na parede, um livro ou uma revista que te ajudassem a passar o tempo.

Deparaste, porém, com um maço de jornais do ano passado, do Verão do ano passado. Grandes títulos a referirem acontecimentos que na altura pareciam grandes. Nem poderias dizer, ao certo, se bem chegaras a dar por eles. No entanto, de um ou outro, mais anódino, paradoxalmente conservavas tão fresca recordação como se fossem da véspera. E entanto já tinham rolado dezasseis meses! Mas que estariam ali a fazer aqueles jornais? De súbito, perante uma data, compreendeste: eram os jornais em que viera publicada a participação da morte da tua mãe, a notícia do enterro, o convite para a missa do sétimo dia. Ali tinham ficado aquele tempo todo, não por incúria ou esquecimento, mas porque o Azevedo organizara, no escritório, com recortes de outros exemplares, um dossier completo. De qualquer modo, trataste de recortar, pacientemente, os duplicados que vinham assim ao teu encontro; e por fim recolheste-os na carteira, ao lado do retrato da tua mãe. Só depois atiraste ao fogo o maço dos jornais — como se pretendesses, com esse gesto, para sempre queimar aqueles dias.

Saberias acaso explicar como de novo te encontraste ao volante do carro? Não tinhas, no entanto, a impressão de fugir; sequer a de buscar fosse o que fosse. Era apenas como se urgisse completar, para lá do nevoeiro, o ritual de guardar os recortes, a decisão de queimar os jornais. Os faróis do automóvel encaminhavam-te para Lisboa, a preceder-te, a orientar-te, como as mãos do sonâmbulo que vão à frente rasgando a escuridão. Confusamente compreendias que tinha sido já um aceno, embora falso, o das ruas cheias de gente, cheias de luzes e de bulício. Era afinal outra Lisboa que a tua alma te pedia. Evitaste, por isso mesmo, ao chegar à cidade, as avenidas que atravessam os novos bairros e conduzem ao centro, para seguires à beira-rio, por entre as docas, até subires, por fim, à rua onde nasceste, onde a infância te correu.

Deixaste o carro ao pé do arco: começavam ali os teus reinos de outrora. E principiaste a trepar a rua estreita, ziguezagueante, de casas pobres e sombrias que alternavam, agora, com prédios novos não menos lúgubres. Como o Natal continuava a chegar timidamente àquelas paragens! Havia apenas, nalgumas montras, um sortido de objectos mais faiscantes, votos de Boas Festas desenhados nos vidros com algodão, lampadazinhas de cor a iluminarem um ou outro modestíssimo presépio.

E, de repente, aquele abalo que sentiste. Já sabias que o prédio tinha sido demolido, pouco depois da morte da tua mãe; mas não esperavas encontrar de chofre, em lugar dele, esse imenso montão de escombros — e, por cima, um tão ostensivo cubo de nada no local exacto onde a vossa casa tinha existido. Surpreendeste-te a reconstituir, por alturas do primeiro andar, a caprichosa sucessão das quatro acanhadas divisões, a disposição dos móveis dentro de cada uma, até mesmo o volume, a forma, a cor, o tacto, o cheiro de alguns deles. E tudo aquilo te pareceu perfeito, milagrosamente certo à força de ser simples.

Então, compreendeste as razões da tua mãe para tão apegada se sentir àquelas coisas e para só consentir em passar curtíssimas temporadas em tua casa. Mas compreendeste também, pela primeira vez, como tu próprio, por comodismo, antes de haveres entendido o que entendias agora, te dispunhas sempre a aceitar essas mesmas razões; e como essas mesmas razões, no fim de contas, de premeditada desculpa te serviam para não insistires suficientemente com ela. O pior é que os dois factos te apareciam com idêntico peso, um e outro tão maciços e inamovíveis que não te davam espaço para teres remorsos nem para os não teres. E concluíste que não é fácil, em estado puro, poder sentir-se o quer que seja: muito menos alguma coisa que em bloco te pungisse, mas que de súbito, e em bloco, ao mesmo tempo te libertasse.

Desceste e subiste a rua, tornaste a descê-la, voltaste a subi-la. De cada vez que paravas diante dos escombros, animava-te ainda a esperança de te sentires totalmente ilibado ou de enfim experimentares um remorso a valer. Em certos momentos, quando mais próximo te julgavas de o atingir, mais aconchegado se recompunha, na tua memória o interior da casa desaparecida; e, depois, era como se a tua memória o projectasse sobre aquele écran de vácuo e de penumbra. Aliás, com os olhos fechados ou abertos, reconstituía-se tudo do mesmo modo: o quarto da tua mãe, o teu quarto; a cozinha onde a um canto se improvisara a minúscula casa de banho; a sala de estar, e de jantar, com a sacada sobre a rua; os vasos com begónias, a máquina de costura, o soalho encerado, os tectos baixos com florões de estuque; o armário enorme, que atravancava o corredor; e a talha de barro vidrado sobre o poial da cozinha; e a varanda, ao fundo, com a escada de ferro que dava para o quintal.

Vias tudo com tanta nitidez que se tornou praticamente um jogo, de certa altura em diante, ires sobrecarregando de pormenores, que há muito supunhas esquecidos, aquele cenário já não atulhado de móveis, de objectos, de utensílios, de bugigangas. Mas subitamente reparaste, quase aterrado, que só não conseguias imaginar, ali dentro (ali dentro?), a presença viva de quem quer que fosse. Nem o que mais te agradaria reevocar nesse instante: a atmosfera — que apenas abstractamente recordavas — de certas noites de Natal. E foste sensato em não ter insistido.

Mais tarde, de novo no automóvel, já fora de Lisboa, perguntaste a ti próprio se não teria sido um capricho de rico esse teu gesto de buscares, no passado, o cenário longínquo dos teus Natais de pobre. Melhor seria, de qualquer modo, não dizeres nada a ninguém. Quem saberia compreender-te? O teu genro deixaria escapar, de entre a barba agressiva, qualquer coisa como «complexo de culpa». O Azevedo, sim, haveria de louvar-te: tanto, porém, que ficarias enojado de ti mesmo. A tua mulher talvez sorrisse com amizade; ou talvez antes por distracção. E a tua filha evitaria, por todas as formas, dar a entender fosse o que fosse. Quanto aos rapazes — ainda não têm idade para entender. Mas sentias-te, apesar de tudo, inexplicavelmente mais completo: como se, pelo menos, tivesses tentado restaurar, dentro de ti, de ti para ti, um circuito que se encontrava interrompido.

E a reunião, à noite, correu o melhor possível. Nem te mantiveste, como é costume, em pé-de-guerra com o teu genro. Houve alegria, houve calor e gratidão à tua volta. Foram espontâneos os gestos que deviam ser espontâneos. Não há razão, agora, para teres ficado nesta espertina. Trata mas é de adormecer. Já é tarde. Ou cedo ainda, se preferes. Mais minuto, menos minuto, começarão os galos a cantar.

David Mourão-Ferreira
in «Natal»
(Arcádia)

João Alfacinha da Silva (Org.)
Textos para o Natal
Edição do F. A. O. J. Série C, Nº 11
Lisboa, 1979

A Árvore de Natal – Anselm Grün

A Árvore de Natal

Desde o século XVI que se tornou costume, na Alemanha, decorar, pelo Natal, os pinheiros. Ao conservar, em pleno Inverno, a sua folhagem verde, o pinheiro é um símbolo muito antigo do poder divino da vida que até mesmo o frio invernal não consegue vencer. A Árvore de Natal tem pois a sua origem numa antiga tradição germânica que consistia em pendurar nas casas, durante as “noites selvagens”, alguns ramos de verdura que afastavam os maus espíritos. Estes eram assim conjurados de duas formas: a árvore, sempre verde, transmitia a sua vitalidade aos homens e aos animais, e a sua luz, iluminando as trevas da noite universal, expulsava os demónios. Na tradição cristã, esta árvore sempre verdejante e, ainda por cima, iluminada, convida a que Cristo entre nas casas e delas elimine todos os espíritos do medo, da hostilidade e da inveja. Em pleno coração do Inverno escuro e frio, a árvore traz luz e calor ao nosso mundo.

Os cristãos viram no pinheiro de Natal a árvore do paraíso na qual se podem colher os “frutos da vida”. Estes são representados pelas maçãs e pelas nozes que, desde sempre, se penduraram nos ramos da árvore, ou então por bolas de vidro, imagens do paraíso na sua totalidade intacta. De acordo com uma lenda antiga, Adão, doente e moribundo, terá mandado ao paraíso o seu filho Seth para que lhe trouxesse um pouco da seiva da Árvore da Vida, com o fim de diminuir os seus sofrimentos. O Arcanjo Miguel teria então dito a Adão que, somente 5.500 anos depois é que o Filho de Deus viria à terra, para o levar até à Árvore da Vida, Árvore da Clemência e da Graça. No entanto, Miguel teria dado a Seth, no seguimento desta promessa solene, um rebento da árvore que deveria ser plantada na terra. É por isso que a Árvore de Natal é um rebento da Árvore da Graça até à qual Deus nos conduz pelo nascimento do seu Filho, para que a sua seiva apazigue os nossos sofrimentos.

A árvore é, para todos os povos, fonte de vida e símbolo importante de fertilidade. Na Antiguidade, cada árvore era atributo de um deus: o carvalho, o de Júpiter, o loureiro, o de Apolo, a murta, o de Vénus. O Antigo Testamento fala das Árvores do Jardim do Éden: a “Árvore da Vida”, e a “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”. O cristianismo pressentiu na Cruz a actualização da Árvore da Vida: a cruz é a árvore que traz até nós a verdadeira vida, a árvore que nunca seca, já que nela o próprio Cristo foi imolado. A árvore estabelece assim uma ligação entre a terra e o céu. Enraíza-se nas profundezas da Terra-Mãe, da qual tira a sua força; e, ao mesmo tempo, dirige-se para o céu e nele expande a sua copa. A árvore é pois a imagem do homem tal como este deveria ser: enraizado no solo e, no entanto, de pé, como um rei ostentando a coroa. E porque nos dá a sua sombra, a árvore é também um símbolo maternal. Pelo contrário, o seu tronco é visto muitas vezes como um símbolo fálico. É deste modo que o vegetal reúne os traços de virilidade e da feminilidade; não une apenas o céu à terra, mas ainda o homem à mulher.

A árvore de Natal acentua pois alguns dos aspectos relativos ao simbolismo geral da árvore. Em primeiro lugar, há a ligação entre o céu e a terra: no Natal, Deus faz desaparecer a fronteira entre os dois; é a partir da terra que podemos aceder ao céu. Em seguida, a imagem da Árvore de Natal foi certamente influenciada pela imagem da árvore que se abate mas que nasce de novo. Daí a promessa de Isaías relativa ao Advento: “Sairá um rebento da árvore de Jessé, um rebento surgirá das suas raízes” (Isaías, 11,1). É precisamente no momento em que falhamos, no momento em que somos amputados: quando o caminho nos conduz a um beco sem saída que, através do nascimento de Cristo, desponta em nós a certeza de uma vida nova, mais autêntica e bela do que a que conhecemos até então. A árvore de Natal é assim imagem de uma vida que, graças ao nascimento de Jesus, em nós desponta triunfante, vida essa que nenhum frio pode destruir; é também um sinal de que a guerra dos sexos está ultrapassada. Quando Deus vem ao mundo, deixa de fazer sentido a oposição entre o homem e a mulher, tornam-se os dois (todos nos tornamos) um com a sua natureza divina.

Eis pois a promessa que nos chega com a árvore de Natal, árvore continuamente verdejante, decorada com bolas, com velas e fitas cintilantes. Os ramos do pinheiro exalam um perfume único. Sempre que o respiro, sinto reviver em mim os sentimentos que eram os meus na infância. Tenho então a sensação de que a nossa casa, o meu quarto, foram transformados graças ao nascimento de Cristo, sinto que Deus se aproximou de mim e veio habitar o meu quarto, a minha casa, e que a Sua presença tão próxima difunde como que um perfume de ternura, de amor, ao mesmo tempo que uma sensação de segurança, idêntica à que sentimos quando estamos em casa. O que emana deste perfume de Natal não é a nostalgia mas antes a intuição de que o mistério, de que o próprio Deus, se encontra entre nós.

E é porque o mistério está entre nós que nos podemos sentir em casa, na nossa própria casa. Em casa, com o pinheiro, entra também a realidade da floresta, a própria realidade da natureza e de toda a criação; é então que desaparece a ruptura entre a natureza e a civilização, é então que temos a sensação de que, até mesmo no interior das nossas casas, partilhamos a força que emana da Terra Mãe. Ao tornar-se homem, Deus santificou toda a criação, e é enquanto seres humanos que nós participamos nessa criação santificada.

Que efeito produz, em ti que me lês, este perfume do pinheiro de Natal? Em tua casa, contempla a árvore de Natal e vê que imagens despertam em ti. A árvore decorada traduz um aspecto importante da Encarnação de Deus em Cristo. É toda a natureza que se transforma quando o próprio Deus desce sobre ela. O que se transforma não é apenas a tua vida passada, liberta dos seus males, nem a vitalidade da tua natureza animal; é também toda a tua componente vegetativa. Cristo quer penetrar no interior do teu corpo, penetrar no teu sistema nervoso vegetativo, para tudo poder transformar, para tudo curar. E quer encher-te com o perfume da divindade, para que possas, literalmente, sentir-te tu mesmo e para que te sintas bem na tua pele.

Anselm Grün
Curta Meditação sobre as festas de Natal

De: Preparando o Natal

Lídia – Nuno Higino

Lídia

Lídia era bonita porque tinha um nome bonito e porque a uma história de Natal convém uma menina bonita. Vivia num apartamento muito alto, voltado para o mar. Tinha um quarto onde dormia, um quarto onde estudava e um quarto onde brincava. Este era o mais bonito de todos. Tinha imensos brinquedos vindos das mais diversas partes do mundo. Tinha brinquedos com música dentro, daquela música duma melodia finíssima e límpida, como uma filigrana. Tinha brinquedos de onde saía uma música que parecia vir de dentro da terra, espessa, distante, quase triste. Tinha brinquedos que exalavam música como se nascesse nas altas montanhas, rarefeita e leve, trazida em asas de condor.

Todos estes brinquedos alegravam Lídia que, muitas vezes, chamava os seus amigos e, no fim da escola, ficavam ali a brincar, a olhar o mar e a ouvir aquelas músicas que saíam de dentro dos brinquedos.

Os pais de Lídia eram viajantes e raramente estavam em casa. Aliás, a sua casa era o avião, tantas as vezes que voavam de cidade para cidade, de continente para continente. Mas quase todos os dias telefonavam a Lídia, perguntando se estava bem e prometendo mais um presente para o regresso. Lídia ficava feliz com os telefonemas, mas quando desligava o telefone, pensava: “Eu gostava tanto de ter os meus pais sempre à minha beira. Gostava tanto que os meus amigos os conhecessem melhor. Gostava tanto de adormecer a seu lado ou acordar com os seus beijos…”

E assim ficava muito tempo suspensa na recordação dos pais. Uma vez ou outra não conseguia evitar uma lágrima mais atrevida. Mas tudo passava e quando os pais regressavam, Lídia matava as saudades, abraçava-os muito, ia com eles jantar fora ou a casa de algum amigo. Só não gostava quando esses encontros eram com pessoas que chegavam sempre atrasadas, passavam a refeição a falar pelo telemóvel e não lhe ligavam importância nenhuma. Se calhar não tinham filhos nem podiam perder tempo com as crianças. Eram homens de negócios.

Regressavam a casa e, logo de seguida, novamente tinham de partir.

— Amanhã sairemos cedo para um país distante…

— Que país é esse? — perguntava Lídia.

— É um país onde há muitas crianças pelas ruas: umas a trabalhar, outras a mendigar, outras a olhar para quem passa. É um país muito grande e muito pobre. Os meninos não têm casa como a nossa, nem escola, nem brinquedos.

— E pais, têm pais? — perguntou Lídia.

— Muitos têm pais, mas são tão pobres, tão desprezados pela vida, que é como se não tivessem.

— Mas eu pensei que vocês só faziam negócios com países ricos, que com os pobres não se negoceia…

— Também fazemos negócios com os ricos, mas, negociando com os pobres, podemos ganhar mais dinheiro, e assim tu terás sempre mais e mais brinquedos.

No meio das conversas, Lídia acabava por adormecer e de manhã, quando acordava, já estava a casa novamente vazia. O que lhe valia é que tinha muitos amigos, com os quais ia tornando menos duras as prolongadas ausências dos pais. Mas o pior foi quando, ao aproximar-se o Natal, Lídia soube pela mãe que tinham uma viagem importantíssima. Por isso não podiam passá-lo em casa.

— Mas nesse país, as pessoas fazem negócios no dia de Natal? — perguntou Lídia.

— Sabes — respondeu-lhe o pai — nesse país o Natal é um dia como outro qualquer. As pessoas têm outros costumes, outra cultura, outra religião.

— Eu pensei que o Natal era Natal em todo o mundo… — disse Lídia com desencanto.

A conversa ficou por ali. Mas Lídia, apesar da tristeza, começou a sonhar com a noite de Natal em casa dos avós. Viriam os primos: a Teresa, a Helena, o Miguel, a Ana e o Luís. Lídia queria fazer-lhes uma surpresa.

Pensou durante alguns dias e, uma noite, teve uma ideia: “Já sei. Vou fazer um teatro em verso.”Lídia gostava de escrever versos e foi escrevendo no seu caderno os versos para o presépio. Mas não os mostrou a ninguém para poder fazer uma surpresa.

Quando chegou a noite de Natal, toda a família se juntou em casa dos avós. Era uma casa muito grande com um terreiro cheio de árvores, umas que tinham folhas todo o ano, outras que no Inverno ficavam todas despidas e à noite pareciam fantasmas gigantes com uma só perna e muitos braços. Entre as árvores havia canteiros de arbustos e plantas. A noite estava de tempestade: a chuva e o vento pareciam dançar uma dança violenta e desconcertada. Os ciprestes que estavam nos cantos do terreiro vergavam-se tanto que pareciam bailarinos em fúria. Mas, na alegria daquela noite, ninguém ligava nada à tempestade.

A consoada era na sala maior: uma sala cheia de brilhos que, reflectidos no espelho ao fundo, a tornavam ainda mais brilhante. Quando a porta de vai-e-vem que dava para a copa se abria, vinham os aromas do Natal e via-se a azáfama das pessoas que estavam na copa e na cozinha e andavam de lado para lado.

Quando todos já tinham consoado, Lídia chamou os primos ao andar de cima e explicou-lhes o seu teatro de verso.

— Todos têm de decorar o seu verso — disse.

Seguiu-se um grande alvoroço com cada um a disputar o seu verso preferido. Quando chegaram a acordo, ensaiaram durante algum tempo e, por fim, desceram, cada um muito senhor do seu papel.

Puseram-se por detrás de um biombo que havia na sala e Lídia pediu silêncio.

— Senhoras e senhores, vamos apresentar: Versos para o Presépio. Ouviram-se palmas, muita excitação e depois fez-se silêncio.

No rosto de todos havia um sorriso de felicidade e curiosidade. Cada um foi saindo na sua vez e dizendo o verso que lhe competia:

Vejo no céu uma estrela
Muito bela.
Navega num mar de prata
Vou com ela.
O seu destino é Belém
Vou também.
Levo flores neste raminho
Para o Menino.
Eu levo um brinquedinho
Para o Menino.
Eu não tenho que levar
Mas vou e oferecerei
Estes versos de cantar.

E todos remataram em coro:

Com as flores e o brinquedo
E estes versos de cantar;
Com a estrela sobre a gruta
E os pastores a dançar,
Meu Menino de Belém
Dança connosco também.

As palmas encheram a sala e parece que os seus brilhos se multiplicavam, dançando nas paredes, no ar, em todos os sítios. Se não fosse a ventania que atirava a chuva contra as portas e as janelas, todos pensariam que, lá fora, o céu era realmente um mar de prata, cheio de estrelas e calmaria.
Ana, que era a mais pequena, não se cansava de saltar, enquanto repetia o seu verso: vou com ela…vou com ela…vou com ela…

Durante um tempo manteve-se este ambiente de excitação e alegria. Tanto mais que, de seguida, foi a distribuição das prendas. Da árvore de Natal cada um foi recebendo os seus presentes: jogos, bonecas, livros de histórias, puzzles, carros telecomandados e até um computador. De todos os presentes que recebeu, Lídia gostou sobretudo do que lhe foi deixado pelos pais: um presépio esculpido em madeira com um Menino negro, sorridente e acariciando o focinho do burro que lhe estava ao pé. Lídia sempre vira o Menino Jesus, branco, deitado nas palhas. Aquela imagem trouxe-lhe à lembrança os meninos negros que tantas vezes via na televisão, esqueléticos, de grandes ventres e um olhar raso de resignação, um olhar de quem foi vencido pela humilhação da fome e do desprezo. Lídia como que ficou ausente da sala, alheia à excitação geral.

Entretanto, veio uma ordem para os meninos se irem deitar. Contrafeitos, lá foram subindo com os seus presentes. Aos poucos, o silêncio foi tomando toda a casa.

Lídia não tinha sono. Quando entrou no seu quarto, sentou-se junto à janela, abriu as portadas, puxou a cortina, colocou o presépio no peitoril e ficou a olhar a tempestade. O vento continuava a agitar as árvores com violência, soltando gemidos tremendos e esmagando a chuva contra as paredes, os muros, as janelas. Mais ao longe, o mar rosnava feroz. Mas, mesmo assim, a sua voz tinha beleza, uma beleza inexplicável.

Lídia encostou o rosto na vidraça para sentir a fúria da tempestade. E pensou nos pais. E pensou nos meninos a quem a miséria roubou o Natal. E pensou que também na sua cidade havia meninos pobres. Mas moravam do outro lado da cidade. E teve vontade de fazer como a menina que conhecia de uma história. Chamava-se Joana e, na noite de Natal, foi levar os brinquedos que recebera ao seu amigo Manuel, que morava do outro lado do pinhal e não ia ter prendas na noite de Natal [A Noite de Natal, Sophia de Mello Breyner Andresen]. Mas Lídia não tinha nenhum amigo pobre. Na sua escola não havia meninos pobres. No seu prédio não havia meninos pobres. No seu bairro não havia meninos pobres. Lídia só conhecia os meninos pobres de que lhe falavam os pais, ou os que via na televisão, ou os que moravam do outro lado da cidade, junto ao rio, ou os que, no Verão, vinham arrumar automóveis na praia que havia em frente à sua casa.

Lídia estava muito triste por não poder vencer esta distância entre si e os meninos pobres e por nada poder fazer para alterar a ordem do mundo. E perguntou-se: “Será que os pobres hão-de ser sempre pobres…?” Desencostou o rosto da vidraça e pegou no presépio. Aconchegou-o no colo e acariciou o Menino. Do andar de baixo vinha um ruído distante de talheres e cristais e vozes indistintas. Mas novamente se encostou à janela a ver, ouvir e sentir a tempestade. E, embalada na música da tempestade, Lídia começou a sentir sono. Levantou-se da cadeira, correu a cortina, fechou as portadas, beijou o seu Menino negro, deitou-se e adormeceu.

Natal de 1996

Nuno Higino
A mais alta estrela – Sete histórias de Natal
CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000
Adaptação

O melhor presente de Natal do mundo – a trégua de Natal de 1914

O melhor presente de Natal do mundo

A todos quantos, de ambos os lados do conflito, tomaram parte na trégua de Natal de 1914

Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça em carvalho do início do século XIX. Há já anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa tinha várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e havia marcas de queimaduras por todo o lado.

Não era cara, e pensei que poderia tentar restaurá-la eu mesmo. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de ter uma escrivaninha de tampo corrediço. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que havia em casa. Faziam muito barulho e eu queria ter algum sossego.

Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas anunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude. Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito: “A última carta de Jim, recebida a 25 de Janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.”

Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre.

Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs Jim Macpherson, I2 Copper Beeches, Bridport, Dorset. Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de Dezembro de 1914.

Querida Connie

Escrevo-te, feliz, porque acaba de acontecer algo de maravilhoso que quero contar-te já. Ontem de manhã, estávamos todos nas trincheiras. Era Dia de Natal e estava uma das manhãs mais bonitas que vira até então, tranquila e gelada como uma manhã de Natal deve ser.
Gostava de poder dizer-te que fomos nós que tivemos a iniciativa. Mas a verdade, envergonho-me de to dizer, foi que os Alemães é que tomaram a iniciativa. Primeiro, alguém viu uma bandeira branca a ondular nas trincheiras do inimigo. Depois, alguém gritou:
— Feliz Natal! Feliz Natal!
Quando nos tínhamos recomposto da surpresa, alguns de nós retribuíram:
— Feliz Natal para vocês também!
Pensei que tudo ficaria por ali. Todos pensámos. Mas, de repente, vimos um deles, no seu sobretudo cinzento, a agitar uma bandeira branca.
— Não atirem, rapazes! — alguém gritou.
E logo vimos mais Alemães, uns a seguir aos outros, a aproximarem-se da nossa trincheira.
— Mantenham-se em baixo — ordenei aos meus homens. — É uma armadilha.
Mas não era tal.
Um dos Alemães agitava uma garrafa no ar.
— É Dia de Natal. Temos cerveja e salsichas. Querem encontra-se connosco?
Por esta altura, já dezenas deles se dirigiam até nós, atravessando a terra de ninguém que nos separava. Nenhum deles transportava armas.
O soldado Morris foi o primeiro a mexer-se.
— Vamos lá, rapazes! De que estamos à espera?
Ninguém os conseguiu impedir. Eu era o oficial e devia ter travado aquilo imediatamente. Mas nem me ocorreu. Homens de ambos os lados, vestidos com sobretudos cinzentos ou com uniformes caqui, caminhavam em direcção uns aos outros, e eu era um deles. Fazia parte daquilo. No meio da guerra, celebrávamos a paz.
Não podes imaginar, querida Connie, o que senti, quando olhei, nos olhos, o oficial alemão que se aproximava de mim, com a mão estendida.
— O meu nome é Hans Wolf — disse, segurando a minha mão com firmeza e afabilidade. — Sou de Dusseldorf e toco violoncelo na orquestra da cidade. Feliz Natal!
— Sou o Capitão Jim Macpherson — respondi. — Sou professor em Dorset, no leste de Inglaterra. Feliz Natal para si, também!
— Dorset — repetiu. — Conheço muito bem esse lugar.
Partilhámos a minha ração de aguardente e a excelente salsicha dele. E falámos, falámos sem parar. O inglês dele era excelente, mas acontece que nunca tinha posto os pés em Dorset. Tudo o que sabia sobre Inglaterra tinha-o aprendido na escola e nos livros que lia em inglês. O seu escritor favorito era Thomas Hardy,e o seu livro preferido Far from the Madding Crowd. Naquela terra de ninguém, conversámos sobre Bathsheba, Gabriel Oak, Sergeant Troy e Dorset. Tinha mulher e um filho, com seis meses de idade. Enquanto olhava à minha volta, só via manchas de cor cinzenta e caqui a fumar, a rir, a comer e a beber. Hans Wolf e eu partilhámos o que restava do teu óptimo bolo de Natal. Segundo ele, o teu maçapão era o melhor que alguma vez provara. Concordei. Concordávamos em tudo, Connie, e ele era meu inimigo. Nunca houvera uma festa de Natal assim.
Alguém trouxe uma bola de futebol. Os sobretudos foram despidos e transformados em postes de balizas. O jogo começou. Hans Wolf e eu assistimos e encorajámos os jogadores, batendo palmas e batendo com os pés no chão, para afastarmos o frio. Houve um momento em que vi a nossa respiração misturar-se. Ele viu o mesmo e sorriu.
— Jim Macpherson — disse, passado um bocado — penso que é assim que esta guerra devia ser resolvida. Como um jogo de futebol. Ninguém morre num jogo de futebol. Ninguém fica órfão. Nenhuma mulher fica viúva.
— Prefiro o críquete — disse-lhe. — Assim, os Ingleses ganhariam.
Rimo-nos da minha piada e assistimos ambos ao jogo. Pena-me dizer que os Alemães ganharam 2-1. Mas Hans Wolf comentou, com generosidade, que o nosso golo fora mais bem marcado do que o deles.
Quando o jogo acabou, já há muito tinham desaparecido a cerveja, o bolo, a aguardente e as salsichas. Desejei felicidades a Hans e fiz votos de que voltasse a ver a família em breve, de que a guerra acabasse depressa, e de que todos regressássemos a casa sãos e salvos. Respondeu-me:
— Penso que é o que todos os soldados querem, sejam Alemães ou Ingleses. Tome cuidado consigo, Jim Macpherson. Nunca o esquecerei nem esquecerei este momento.
Fez-me continência e afastou-se, devagar, como que involuntariamente. Virou-se para acenar, uma vez mais, e logo se transformou num mais entre as centenas de homens vestidos de cinzento, que regressavam às suas trincheiras.
Nessa noite, ouvimo-los entoar um belo cântico de Natal, “ Noite Feliz”. Os nossos rapazes responderam com “Enquanto os pastores observavam”. Trocámos cânticos durante mais algum tempo e depois calámo-nos. Foi um momento de paz e boa vontade, que recordarei com carinho enquanto viver.
Querida Connie, no Natal do ano que vem, esta guerra não será mais do que uma recordação vaga e terrível. Sei, por tudo o que aconteceu hoje aqui, o quanto ambos os exércitos desejam a paz. Em breve estaremos de novo juntos, tenho a certeza.

O teu querido Jim

Dobrei a carta e coloquei-a de novo no envelope. Não contei a ninguém o meu achado: guardei a vergonha da minha intrusão para mim mesmo. Penso que foi este sentimento de culpa que me manteve acordado toda a noite. Na manhã seguinte, já sabia o que devia fazer. Apresentei uma desculpa qualquer e não fui à igreja com o resto da família. Guiei até Bridport, que ficava apenas a uns quilómetros dali. Perguntei a um rapaz, que passeava o cão, onde ficava a casa.

O número 12 não passava de uma concha vazia, com um telhado em ruínas e as janelas entaipadas. Toquei na casa ao lado e perguntei se sabiam o paradeiro de Mrs Macpherson. Um homem de idade, em pantufas, respondeu afirmativamente. Disse que era uma senhora amorosa, um pouco confusa, o que era normal, dado que tinha 101 anos. Estava em casa quando esta se incendiou. Ninguém sabia como o incêndio começara, mas pensavam que deveriam ter sido as velas. A senhora usava velas em vez de electricidade, porque achava que a electricidade era demasiado cara. O bombeiro tinha-a salvo a tempo. Agora vivia num lar chamado Burlington House, na estrada de Dorchester, do outro lado da cidade.

Encontrei Burlington House facilmente havia serpentinas de papel no corredor e uma árvore de Natal iluminada estava montada num canto, com um anjinho no topo. Disse que era um amigo de Mrs Macpherson e que viera trazer-lhe um presente de Natal. Podia ver, através da porta envidraçada da sala que estavam todos com chapéus de papel e a cantar “Good King Wenceslas”. A Directora também tinha um chapéu e ficou contente por me ver. Até me ofereceu uma tarte de carne picada. Depois conduziu-me ao quarto de Mrs Macpherson.

— Mrs Macpherson não está na sala com os outros, porque hoje sente-se bastante.confusa. Não tem família e ninguém a visita. Tenho a certeza de que vai gostar muito de o ver.

Conduziu-me até uma estufa, cheia de cadeiras de palhinha e vasos com plantas, e deixou-me a sós com Mrs Macpherson. Esta estava sentada numa cadeira de rodas, com as mãos no regaço. O seu cabelo fino, branco e prateado, estava apanhado num rolo. Contemplava o jardim, absorta.

— Olá! — saudei.

Virou a cabeça e olhou-me com um olhar vago.

— Feliz Natal, Connie! — continuei. — Encontrei isto. Penso que é seu.

Enquanto eu falava, os olhos dela nunca se desviaram da minha cara. Abri a caixinha de folha e dei-lha. Os olhos dela iluminaram-se num reconhecimento do objecto e a sua face irradiou uma felicidade súbita. Falei-lhe da escrivaninha, de como a encontrara. Creio que não me ouviu. Ficou calada durante algum tempo, enquanto acariciava a carta gentilmente com os dedos

De repente, pegou na minha mão. Tinha os olhos marejados de lágrimas.

— Bem me disseste que vinhas pelo Natal, querido. E eis-te aqui, o melhor presente de Natal do mundo. Vem para perto de mim e senta-te, meu querido Jim.

Sentei-me ao lado dela e beijou-me a face.

— Estava sempre a ler a tua carta. Era como se ouvisse a tua voz dentro da minha cabeça. Era uma maneira de sentir que estavas comigo. E agora estás mesmo. Agora que voltaste, podes ler a carta tu próprio. Queres lê-la? Só quero ouvir a tua voz de novo, Jim. Depois podemos tomar chá. Fiz-te um belo bolo de Natal em maçapão. Sei o quanto adoras massapão.

tradução e adaptação

Michael Morpurgo
The best Christmas present in the world
London, Egmont Books, 2004

A menina dos fósforos

A menina dos fósforos

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.

Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.

Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.

Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.

«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»

Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!

— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.

Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.

Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… mor ta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.

Hans Christian Andersen
Os melhores contos de Andersen
Editora Verbo, s/d

Adaptação

Retirado de: Preparando o Natal

“Não é possível!”, pensou o Pai Natal

“Não é possível!”, pensou o Pai Natal

Noite feliz! – cantava o Pai Natal.
Atarefado, consultava listas de pedidos, embrulhava brinquedos e punha as respectivas etiquetas.
De repente, interrompeu o trabalho e lançou um olhar ao calendário.
— Deus do céu! — exclamou. — Já é altura de ir para a Terra. Já falta pouco para a festa de Natal!
Atou ainda um pequeno embrulho, compôs um laçarote e encheu o grande saco.
— O dever chama! — murmurou. Pegou num gorro e pôs-se a caminho da cidade.
Tinha nevado e o mundo resplandecia. As árvores estavam envolvidas em mantas brancas, colchões de plumas estendiam-se sobre os telhados e as ruas tinham-se coberto de algodão doce.
— Que beleza! — murmurou o Pai Natal a caminho da terra, ao passar por sobre os telhados, ofuscado pelo reflexo da neve.
Um raio de sol fez-lhe comichão no nariz. Soltou um grande espirro e aterrou de trambolhão no passeio.
— Ai! — disse uma voz. — Não podes prestar atenção onde cais?
O Pai Natal recompôs-se, esfregou os olhos. À sua frente estava alguém com roupas vermelhas, com uma barba branca e um gorro comprido.
— Desculpe — disse o Pai Natal. — Quem é o senhor? — perguntou perplexo.
— Mas isso vê-se logo — respondeu o outro. — Eu sou um Pai Natal. E tu estás no meu caminho. Aqui não há espaço para dois, por isso põe-te a andar.
O Pai Natal meneava a cabeça. Não devia ter ouvido bem. Se calhar o tombo tinha sido muito grande.
— O que tem dentro do saco para as crianças, se posso perguntar? — informou-se cautelosamente.
— Vales para pequenas prendas — sorriu o outro ironicamente. — Para as pessoas irem ali à loja.
Apontou para uma montra onde se viam peluches, bonecas e brinquedos.
Estendeu um papel a um rapazinho que passava e gritou:
— Venham, crianças, tenho aqui coisas para vocês!
Mas a voz não soava alegre.
O sol passeava sobre os telhados. O Pai Natal continuou o seu caminho, passando por lojas de brinquedos e centros comerciais.
Da porta da igreja saía uma luz, e uma canção pairava no ar. O Pai Natal sentiu-se contente mas, ao erguer os olhos, lá estava outro. Tinha botas pesadas, uma argola no nariz e a fivela do cinto brilhava.
É Natal, é Natal — cantava ele com voz rouca.
— Desculpe, quem é o senhor? — perguntou o Pai Natal, espantado.
— Acha que pareço o Coelhinho da Páscoa? — respondeu o outro, com indignação.
O Pai Natal assustou-se. Um segundo outro. Será que hoje estava a ver a dobrar?
— E o que oferece às crianças? — perguntou delicadamente.
O outro bateu com o indicador na testa.
— Oferecer? Mas tu acreditas no Pai Natal? Eles já têm tudo! Ando a distribuir rebuçados da tosse para as pessoas provarem. E comprarem. É assim que isto funciona. Queres um? — perguntou a uma menina que passava. — Tenho de continuar — disse depois, em tom apressado. — Ainda me faltam mais três ruas.
O Pai Natal meneou a cabeça.
— Incrível — disse.
O lusco-fusco empurrou o sol e deitou-se sobre a cidade. O Pai Natal prosseguiu o seu caminho cantarolando. A neve rangia sob os sapatos.
De repente, deu de caras com um novo outro. Era pequeno e franzino, e tremia tanto que metia dó.
— O que tem? — perguntou o Pai Natal atenciosamente. O outro assoou o nariz.
— Eu devia ser um Pai Natal — disse abatido — mas sou uma rapariga e a minha voz é demasiado aguda.
— Isso é mau? — perguntou o Pai Natal.
— As Raparigas Natais ainda não foram inventadas — respondeu. Ergueu o casaco, puxou o gorro para as orelhas e desapareceu ao dobrar da esquina.
O Pai Natal franziu o sobrolho. Alguma coisa ali não estava certa. Foi para o jardim e sentou-se num banco. Um véu perpassou em frente da lua e começou a nevar. O Pai Natal apoiou a cabeça nas mãos, pensativo. Tantos Pais Natais! O que é que estava ali a fazer? Teria embrulhado as prendas erradas? Estariam os homens a precisar de outras prendas diferentes? Um pardal poisou-lhe no gorro. O Pai Natal continuava a matutar e nem se deu conta.
— Já sei! — disse de repente. E fez-se novamente ao caminho.
Os flocos de neve dançavam no ar, as lanternas projectavam auréolas de luz sobre a rua, uma criança riu algures, uma bola de neve passou-lhe a sibilar rente à cara.
Na praça principal, um violinista de rua enregelava, bem como o seu violino. Tinha um som débil e ofegante, como se fosse morrer asfixiado a qualquer momento. O Pai Natal agarrou no saco e ofereceu ao violinista um som encantador. Este rejubilou.
Numa cozinha, um rapazinho estava sentado, às voltas com os trabalhos de casa de Matemática. O Pai Natal pensou um pouco e passou ao rapaz uma ideia por debaixo da porta. Ele pegou no lápis e começou a escrever com satisfação.
— Ora aí está! — murmurou o Pai Natal, atravessando a estrada.
Perto do cruzamento, estava um polícia. Tinha os pés frios e parecia encontrar-se de mau-humor.
O Pai Natal assobiou-lhe uma musiquinha.
Os carros passavam a apitar e pareciam empurrar-se uns aos outros. Os condutores vociferavam. A todos o Pai Natal deu um pouco de tempo e uma pitada de paciência. Os travões deixaram de chiar e de salpicar com lama de neve.
— Estão a ver? Assim também se consegue — disse o Pai Natal, satisfeito.
Na casa de espectáculos encontrou uma cantora com dores de garganta, que rouquejava desanimada. O Pai Natal tirou saúde do saco. Acrescentou-lhe alguns sons agudos. Bem ia precisar deles, e ela experimentou-os todos imediatamente.
Numa casa, viu uma menina deitada de bruços em cima da cama. À sua frente tinha uma lista de prendas, mas não sabia o que pedir. Roía a ponta do lápis e olhava com ar triste para o ar.
Se calhar, ela já tem tudo – pensou o Pai Natal – mas ainda lhe falta alguma coisa.
E a alegria de partilhar com os outros inundou o quarto.
Em seguida, começou a cantar Cai neve, cai neve… porque ela estava de facto a cair e encantava a cidade.
— É bom quando podemos ser úteis — concluiu o Pai Natal, esfregando as mãos.
Viu como os outros faziam o seu trabalho mal-humorados, distribuindo vales e oferecendo bombons, e a todos enviou boa disposição.
De regresso a casa, acendeu as luzes de uma árvore de Natal. Pôs o seu gorro num boneco de neve, depois deu aos pássaros das suas bolachinhas de Natal. O saco das prendas, tornou a levá-lo consigo.
— Noite feliz! Noite feliz! — cantarolava baixinho. — Talvez venham a ser precisas no próximo ano!
Então, brilhou no céu a Estrela de Natal.

Sigrid Laube
“Erstaunlich”, sagt der Weihnachtsmann
Wien, Annette Betz Verlag, 2003
Texto adaptado

Retirado de PREPARANDO O NATAL

A esperança brilha como um diamante

A esperança brilha como um diamante

A menina escreve a giz no passeio:

Aqui é o inferno e lá o paraíso.

— Já não se vê a Sr.ª Bravoure ir comprar o jornal.

— A Sr.ª Bravoure tem um ar triste. Compreende-se. Depois do que passou nestes seis meses.

— A Sr.ª Bravoure não anda bem. Já não liga ao jardim.

Junto da casa tapada pela sebe, o coro da vizinhança aumenta o seu murmúrio de amizade. Mas a Sr.ª Bravoure não tem cura. Para falar a verdade: não se preocupa com nada. Juntamente com o seu velho, com o seu companheiro, enterrou o prazer de existir no dia-a-dia: a primeira chávena de café tomada lado a lado na varanda com a janela escancarada sobre o jardim, o jornal longamente comentado na cozinha iluminada por um ramo de chagas cor-de-laranja, as compras feitas em amena cavaqueira na mercearia, os serviços prestados a este e àquele, a expedição mensal à cidade próxima para se encontrarem com a neta recém-casada, o cheiro dos crepes à quarta-feira – um hábito herdado das merendas de antigamente, quando o pequeno (que tem agora cinquenta anos) partilhava da vida deles – a missa das seis da tarde na igreja matriz, o telejornal…

Já não tem gosto em nada. Ela, que atravessou com tanta valentia a doença prolongada de Paulo, o seu esposo – “Ainda tem mais três meses, no máximo” prevenira o médico do hospital. À força de cuidados, ela prolongou-os por seis meses – ela, que lhe deu a mão até ao último instante com um sorriso corajoso, não para lhe mentir, mas para ele se não sentir demasiado culpado por lhe tornar os dias pesados, por a deixar pelo caminho. E eis que agora se vai abaixo.

A Sr.ª Bravoure já nem se reconhece e preocupa-se em saber onde estará a energia, a sua diligência por todos conhecida. Um grande buraco negro. De noite, ela sonha: as suas mãos escorregam na parede a que tenta agarrar-se para subir. Não há nada a fazer. Nem as visitas calorosas, nem as cartas de encorajamento, nem as atenções com que uns e outros a rodeavam. Ouve as palavras deles, sim, mas como um murmúrio longínquo. Mordisca com a ponta dos lábios a tarte ainda quente, lê cada vez com mais dificuldade os postais enviados de Itália pelo filho. Tudo fica de fora sem a atingir.

“Desta vez desço um degrau da escada.”

Nunca esqueceu a representação da vida, observada no museu das artes populares por altura de uma visita com o marido (Há quanto tempo isso foi?)

— Sr.ª Bravoure, porque não se anima? Não devia ficar assim sozinha. Venha tomar o café a minha casa, é descafeinado.

— Muito obrigada, D.ª Lara, agora não. Ainda não acabei de separar os fatos do meu Paulo.

A Sr.ª Bravoure sabe muito bem que ainda não é hoje que vai realizar aquela tarefa superior às suas forças. Vai ficar sentada na penumbra e esperar, nem ela sabe bem o quê, e, com certeza, amanhã será igual.

Quem estará a tocar à campainha a esta hora?

“Depois das onze horas, não abra a porta a ninguém”, recomenda-lhe o filho em todas as cartas. “Há por aí pessoas mal-intencionadas”. Mas a campainha continua a tocar e a Sr.ª Bravoure não resiste. Pega no casaco à entrada, acende a luz do pátio e corre até à grade de madeira que já devia ter sido pintada. Uma silhueta um pouco volumosa… uma mulher.

— Maria!

Caíram nos braços uma da outra. Ao apertar Maria contra si, a Sr.ª Bravoure sentiu-lhe o ventre redondo de grávida.

— Maria! Bons olhos te vejam! Não contava contigo a esta hora… Vá, entra!

A Sr.ª Bravoure retomou a sua natural vivacidade para tirar o casaco da jovem, aquecer água, acender as luzes.

— Não tens frio? Posso aumentar o aquecimento.

Segura as perguntas impacientes.

— Comes uma sopinha de ervilhas?

— Dá-me licença que me deite um bocadinho?

— Estás em tua casa, Maria.

Paulo não suportava que nenhuma criança ou Maria se deitasse no canapé da sala de visitas.

— Isso não se faz — protestava ele.

— Mas, Paulo, não faz mal a ninguém e bem vês que ela está cansada!

A Sr.ª Bravoure dirigiu-se mentalmente ao ausente, como faz cada vez com mais frequência. Uma recordação de infância: a avó — que resmungava sozinha na cozinha. “Tenho de estar atenta. Vou acabar por ficar meio maluca.”

Deitada, Maria recompõe-se. Terá sido pela sopa com que se deleitava durante os meses em que partilhara a vida do casal?

O director da escola tinha anunciado, pouco à vontade:

— O Sr. e a Sr.ª Bravoure podiam prestar-me um serviço? Acolher por seis meses uma professora provisória, assegurar-lhe estadia e alimentação. Como sabem, não há hotel na aldeia e eu ficava tranquilo se ela ficasse em vossa casa. É muito jovem.

Disseram sim sem hesitar: o quarto do filho continuava vazio.

Assim surgira Maria: as suas saias floridas, o seu entusiasmo, as buzinadelas, as pilhas de cadernos para corrigir.

— Sr. Paulo, o senhor, que tem uma boa caligrafia, será que podia dar uma olhadela a estes ditados? Ainda tenho uma aula para acabar de preparar para amanhã.

Enquanto preparava a refeição da noite, a Sr.ª Bravoure regozijava-se ao ver Paulo pôr os óculos, munir-se de uma caneta Bic vermelha e consultar o dicionário. Ela sorria quando o ouvia indignar-se:

— Não é possível! Eles estão a fazer de propósito! No meu tempo…

— Ainda têm de aprender, Sr. Paulo. É para isso que vêm à escola. E depois gostam mais de ver a telenovela do que estudar a gramática.

Seis meses, tinha dito o director. Os Bravoure desejavam que a substituição se prolongasse, mas o professor, já curado, retomara o seu posto e Maria, sem trabalho, tinha aceite um compromisso em África.

Tinham-na acompanhado à estação. Riam, mas nenhum dos três se sentia à vontade.

— Escrevo-lhes já amanhã, prometo! — gritava Maria pela janela, enquanto o comboio ia ganhando velocidade.

Cumprira o que prometera durante um ano. Envelopes aéreos chegaram à caixa do correio e mantiveram-nos ao corrente das actividades de Maria. De facto, ela quase não tinha outra família a não ser eles, visto que, depois da morte da mãe, o pai se afastara lentamente dela para se dedicar aos filhos pequenos nascidos de um segundo casamento.

Depois, o correio começou a rarear. Uma breve mensagem pelo Natal “Tenho-vos presentes no meu pensamento”. Talvez tenha uma paixão, sugerira Paulo, com os olhos postos no mapa detalhado da região onde Maria exercia os seus talentos.

— Está sempre ao fogão! — exclamou Maria, ao vê-la na cozinha. — Tinham-me dito numa carta que iam seguindo os locais por onde eu andava, mas eu não…

A Sr.ª Bravoure lembra-se daquela rapariga, de cabeleira loura a esvoaçar quando corria “Vou chegar atrasada! Até ao meio-dia…” e o portão já estava a bater.

Estes jovens são incapazes de acordar a horas – dizia Paulo mal-humorado.

— É porque esteve a trabalhar até à meia-noite com os preparativos para o dia da mãe, Paulo.

A Sr.ª Bravoure pergunta:

— Quando é que a criança vai nascer?

— No princípio de Janeiro. Estou com medo…

É a mesma Maria ousada e sem medo que disse aquilo? A Sr.ª Bravoure  observa o rosto marcado  pelas manchas da gravidez sob o tufo de cabelos macios, presos por um elástico.

— De que tens medo, Maria?

E é o dilúvio, as lágrimas tanto tempo contidas. Vem tudo arrastado pela corrente: em África, o enfermeiro admirado, amado, desaparecido, o período atrasado, a suspeita de gravidez, o diálogo com esta criança que já mexe e que nada pedira, a anemia e o regresso forçado ao país, a desorientação e, de repente, a esperança “O Sr. e a Sr.ª Paulo”. Na estação, o empregado reconhecera-a e informara-a da morte do Sr. Bravoure. Demasiado tarde para recuar caminho.

— Está-se bem em sua casa.

A Sr.ª Bravoure olha para a sala de visitas aquecida pelas três lâmpadas. Amanhã tenho de substituir o ramo das flores secas. Não, vou ao mercado comprar ásteres.

— Queres crepes para a noite?

— Como é que adivinhou? — Maria admira-se. — A criança vai sentir o cheirinho. É um rapaz. A ecografia é nítida. Posso voltar a ocupar o meu quarto?

*

— A Sr.ª Bravoure recuperou o ânimo desde que a filha — bem, é como se fosse — regressou. Já voltou ao que era.

— Eu reparei. Maria está quase no fim do tempo, não?

— Estou a tricotar um casaquinho para o menino.

*

Murmúrios. Vozes conhecidas. Fadas à volta de um berço.

Na noite de Natal, quando começava com os preparativos para a ceia a duas, Maria perdeu as águas. A Senhora Bravoure acompanhou-a na ambulância até à maternidade da cidade.

— O seu companheiro não está presente para a acompanhar na sala de parto? — perguntou a parteira de serviço.

— É a minha avó que vai ficar ao meu lado — soprou Maria entre duas contracções.

À meia-noite, a Sr.ª Bravoure, extenuada, tem nos braços um minúsculo Paulo aos berros.

Natal. Nasceu-nos um menino.

Colette Nys-Mazure

Contes d’Esperance

Paris, Desclée de Brouwer, 1998

Tradução e adaptação

Os anjos vêm sempre ao nosso encontro

Os anjos vêm sempre ao nosso encontro

Tu fazes a primeira voz

e eu, a segunda.

Vai ser um verdadeiro duo.

Quem diria que ia acabar os meus dias no lugar onde os comecei?

A velha senhora nem acredita. Conta a quem a quiser ouvir que, em Outubro, aquela faia púrpura resplandecia diante da janela do seu quarto de adolescente; e que, com os irmãos, ela construíra uma cabana no tronco do salgueiro podado, à beira do lago hoje a transbordar, e que…

— Já me contou isso ontem, Sr.ª Kain — murmura delicadamente o velho de boné com quem acaba de se cruzar ao fundo do jardim, hoje dividido e invadido por casas pré-fabricadas.

Seria preciso uma nova fornada de pensionistas para ter a oportunidade de contar, perante uma nova plateia, as maravilhas de tempos passados e a coincidência espantosa de hoje. “As pessoas já não têm paciência,” suspira a Sr.ª Kain. “Quantas vezes não escutei eu com um sorriso nos lábios as histórias do meu pai: a sua guerra de 1914-18? Às vezes ria à socapa, mas nunca seria capaz de o interromper. As pessoas têm o costume de fazer zapping. (Olha, uma palavra que aprendeu com os netos). Já não tentam ler as entrelinhas.

A Sr.ª Kain vê, sem qualquer nostalgia, bailar a sua infância no seio de uma tribo governada por um pai médico de campanha. Viúvo aos quarenta anos, cimentara a educação dos seus dez filhos na confiança e cada qual tomou a peito nunca o decepcionar. Não é tanto o esplendor da faia púrpura que ela acaricia na sua memória, mas antes a sensação de segurança que sentia quando brincava no seu poleiro a tentar identificar as vozes familiares.

Espiava o regresso do pai. Observava a forma como ele se atrasava, sentado ao volante do carro, com as portas abertas, a reflectir, meditação essa que ela nunca ousara perturbar.

Dir-se-ia que foi ontem e, no entanto, o espelho, que ela de tempos a tempos consulta, convence-a de que tem oitenta anos. Dentro de nós não se envelhece: a menina e a mulher idosa andam de mãos dadas.

Os seus esquecimentos, de consequências cada vez mais graves, tinham começado a pô-la alerta. Alimentava a ideia de deixar a sua casa e ir instalar-se numa casa de repouso, quando soube a notícia: a casa do papá fora comprada pela administração local para ser transformada num lar. Tomada a decisão, teve de esperar pelo fim das obras para entrar, e aquele tempo de espera tinha transformado a dor da partida numa impaciência infantil:

— Volto para a minha casa. Vou para casa!

— Já sabemos, vovó — dissera um dos netos a rir quando corria para junto dos amigos.

Primeira pensionista daquele lugar, ajudou muitos dos que chegavam a adaptar-se à mudança de casa, muitas vezes forçada; deu alento a muitas mulheres mais novas do que ela, desesperadas por abandonarem o seu bairro; a homens desorientados após a morte da esposa e colocados demasiado depressa naquele local, sem quaisquer referências, por filhos com pressa de resolver os seus pretensos problemas de solidão, de acalmar, sobretudo, as suas próprias preocupações. Guiou pessoas desorientadas pelas salas que ela própria seria ainda capaz de percorrer de olhos fechados, apesar das alterações obrigatórias – todos aqueles quartos de banho construídos nas esquinas dos quartos enormes onde outrora ecoavam os seus gritos e os seus cantos. (Lá estou eu outra vez!)

Isso era na Primavera. Agora, o Inverno traz o seu lote de resfriados, tosses teimosas, rigidez nas articulações. Já não se pode andar nas alamedas que se tornaram escorregadias por causa da chuva e do gelo nas folhas caídas. A senhora Kain aceita com dificuldade ter de ficar fechada em casa. Gostaria que uma das suas filhas, que mora não longe dali, viesse buscá-la ao domingo, mas são os exames do final do trimestre e Sofia receia que as suas incessantes conversas perturbem a concentração dos filhos. As outras duas filhas vivem para lá da fronteira, e só aparecem no Verão para a levarem de férias com elas no meio de grandes manifestações de ternura.

Então! Elas sentem-se bem onde estão! e a Sr.ª Kain vai sentar-se à mesa do lanche, ao lado da Sr.ª Braga que entrou para o lar após a morte acidental da filha e do genro, com quem partilhava o apartamento na cidade. Não tem família nem aqui nem em Portugal, seu país de origem. É uma solidão que faz estremecer a Sr.ª Kain.

— E que tal se fizéssemos umas palavras cruzadas?

— Sabe, tenho pouco vocabulário francês.

— Então… e uma batalha?

Ficam de pé uns momentos, apoiadas no vão da janela, a contemplar os ramos atormentados pelo vento.

— Gostava de saber como está o tempo no Porto — murmura a Sr.ª Braga.

— Logo vemos o tempo, depois das notícias.

A senhora Kain dá-se conta de que a aproximação do Natal suscita ansiedade na comunidade. O aparecimento da árvore de Natal, depois as iluminações da fachada, suscitaram apenas comentários de desencanto, comparações dolorosas:

— Em minha casa nós é que fazíamos os arranjos com massa salgada e íamos em procissão colocá-los na árvore.

— Em nossa casa sentíamos o cheiro do bolo-rei oito dias antes.

— Do bolo-rei, tem a certeza? Não está a confundir com o Ano Novo?

Quase se insultavam. A animadora sugere que cada um conte como é que se festejava o Natal em casa. A Sr.ª Kain sorri para dentro: parece que estamos no infantário, mas brinca de boa vontade e até acha interessante. Não imaginava tanta diversidade no seio de uma população que a idade e o regulamento da casa, apesar de leve, tendem a nivelar.

— Quem for passar a Consoada fora, tenha a amabilidade de me prevenir — insiste a directora durante o jantar.

— Vai a casa da sua filha, Sr.ª Kain? — pergunta a Srª Blandain, a quem filhos e netos vêm buscar todos os fins de semana.

Faz de conta que não ouve. Dá jeito passar por ser um pouco surda. O certo é que ela não sabe! Da última vez que a filha veio trazer-lhe roupa lavada, estavam a pensar fazer férias na neve. A Sr.ª Kain sempre foi, por natureza, conciliadora, o que a fazia não esperar nada, mas aceitar tudo, e, a maior parte das vezes, a vida gratificara-a. Encantava-a acabar a vida no sítio onde a começou.

Chega-lhe uma carta pelo correio, correio esse que todos os pensionistas esperam. Os cortinados das janelas da frente mexem-se imperceptivelmente, as portas entreabrem-se. Já chegou! Quase que se empurram nas escadas e nos elevadores. A Sr.ª Kain traz o seu troféu. No quarto, que outrora ocupou com o irmão mais velho, abre cuidadosamente a missiva: um postal de uma embarcação no Escaut e uma fotografia. É o Jó, o mais original dos seus sobrinhos-netos, cabeça rapada e brinco brilhante na orelha. Está abraçado a uma rapariga ruiva um pouco mais alta do que ele, com um bebé careca todo sorridente. O Jó! Sabia que vivia há dois anos em Londres e ei-lo a anunciar que se instalou pertinho dali, num barco atracado no braço morto do rio.

Vamos buscar-te de véspera para passares o Natal connosco e levamos-te no dia seguinte. Acho que te autorizam a dormir fora. Dormir fora? A Sr.ª Kain ri-se sozinha. Ao meio-dia, vai avisar discretamente a directora. Não gosta de magoar aqueles que nunca ninguém convidada. Relê o postal e assinala uma frase acrescentada na perpendicular: Se tiveres uma companheira de lar, não hesites em trazê-la, o barco é grande. Uma companheira… como Jó é amável. No fundo, a Sr.ª Braga é uma companheira, ainda não é bem uma amiga, mas uma companheira. Vai transmitir-lhe o convite. Contra toda as expectativas, a Sr.ª Braga diz que sim sem hesitar. Desde então, anda a cantarolar pelo corredor que dá para a sala de jantar. Autênticas meninas de colégio, seremos sempre catraias, colegas. A Sr.ª Kain pôs-se também ela a brincar com tudo.

Na véspera de Natal, Jó aparece às dez horas. O bebé, sentado na cadeira dá gritos de alegria. Jó depõe os mesmos beijos calorosos nas quatro faces e faz as apresentações:

— Este é Jesus.

— Jesus? — estremecem as velhas senhoras.

— Ele foi feito durante uma escapadela a Espanha. Vão ter de aguentar uma pequena demora na mercearia da esquina…

A Sr.ª Kain e a Sr.ª Braga ficam sós na carrinha com o petiz, que olha para elas calmamente, de ursinho na boca. A Sr.ª Kain evita dizer que os tecidos que andam pelo chão devem estar cheios de micróbios. Uma nora explicou-lhe a importância do brinquedo, do cheiro da mãe. Ela, por sua vez, ensina a Sr.ª Braga. Um casal idoso passa ao lado do carro. A Sr.ª Kain reconhece-os: antigos vizinhos, que têm a sorte de envelhecer juntos em casa. Enquanto procura a forma de abrir a janela, eles afastam-se e já vão longe. Seria deselegante chamá-los aos gritos, mas bem gostaria de lhes dar dois dedos de conversa.

Quando a carrinha aos solavancos pára na beira do rio, avistam um barco pintado de preto e verde, lâmpadas coloridas, um passadiço. Ao entrar, a Sr.ª Kain vê as letras do nome escrito na proa: MARIA, o meu nome! Fica encantada. Na cozinha, ao nível da água, uma jovem mulher despenteada levanta as mãos enfarinhadas e abraça-as sem cerimónia.

— Sejam bem-vindas!

Há sofás um pouco baixos donde custa sair, mas isso não importa, pois assim ficam ao nível do menino que não se cansa de atirar ao chão um peluche ( Made in Portugal, notou a Sr.ª Braga) que elas lhe devolvem com prazer.

— Esta noite, se não estiverem muito cansadas, podemos ir à missa do galo, como antigamente. É um amigo, o Ben (lembras-te dele, tia Marie?) quem toca o órgão. Eu vou cantar.

— Tu vais cantar?

— O Jó tem uma voz magnífica — intervém a companheira ruiva.

Admiro mesmo estes jovens, pensa a Srª Kain. Será que já se esqueceu de que gostava de cantar no coro da paróquia?

Logo se verá. Por agora, a Sr.ª Kain mostra à criança cada uma das imagens do presépio, as antigas e as de hoje. Jesus estende as mãos a tagarelar. Um suave calor reina no barco, que a água faz balançar de forma quase imperceptível, como um berço. Pela vigia, a Sr.ª Braga vê cair a primeira neve, lentas plumas de anjo. Natal, um verdadeiro Natal.

 

Colette Nys-Mazure

Contes d’Esperance

Paris, Desclée de Brouwer, 1998

Tradução e adaptação