Uma outra forma de escutar

Uma outra forma de escutar

Escutar

Outrora conheci um homem que conseguia ouvir o milho cantar sempre que passava por um campo.

— Ensine-me — pedi-lhe um dia. — Explique-me como consegue ouvir o milho.

— É preciso muita paciência — respondeu ele. — Não podes ter pressa.

— Tenho muito tempo — disse eu.

Este homem ouvia tão bem! Certa vez, ouviu as sementes das flores campestres a germinar debaixo do solo. Quando lhe perguntei como o conseguira, disse-me que tinha tido a sorte de estar no desfiladeiro naquele dia, depois de uma boa chuvada. Segundo ele, aquele era o lugar mais sossegado que conhecia e ficara lá o tempo suficiente para escutar o silêncio.

Disse-lhe então:

— Aposto que ficou admirado quando ouviu as sementes!

— Não, não fiquei — respondeu. — Pareceu-me a coisa mais natural do mundo.

E sorriu, relembrando aquele momento.

Numa outra ocasião, quando estávamos juntos, vimos uma lagartixa a correr para junto de uma rocha. O homem, que tinha por hábito fazer perguntas difíceis que demoram a responder, disse:

— Pergunto-me o que a lagartixa e a rocha pensarão uma da outra.

Encostámo-nos durante algum tempo a uma outra rocha. Depois o homem perguntou-me:

— Estás a ouvir? Parecem gostar bastante um do outro.

E eu respondi:

— Não ouvi nada.

Então ele disse:

— Às vezes, quando as coisas se sentem bem, fazem um leve rumor. O que ouvi, agora mesmo, foi o som de satisfação que a rocha emitiu.

Perguntei-lhe, como sempre:

— Ficou admirado por ouvir esse som?

E ele respondeu:

— Nem por isso. Pareceu-me a coisa mais natural do mundo.

— Quem me dera ouvir também — disse eu, com pena.

— Talvez um dia ouças — animou-me o homem.

Depois, contou-me que uma amiga sua tinha ouvido, aos sete anos, o rumor de um céu cheio de estrelas. E que essa mesma amiga ouvira, aos oitenta e três anos, um cacto a florescer na escuridão. A princípio, não compreendera o que ouvia e tinha-se limitado a seguir o som. Quando deparou com o cacto, este tinha vinte flores brancas que reluziam ao luar.

— A maioria das pessoas nunca ouve estas coisas — comentou o homem.

— Porque será? — perguntei.

— Porque não usam o tempo para fazer uma coisa tão importante como esta.

— Eu vou usar bem o meu tempo, mas tem de me ensinar a escutar — prometi.

— Gostava de poder ensinar-te, mas tens de o aprender com as colinas, as formigas, as lagartixas, as sementes, e coisas desse género. São elas que nos ensinam.

— E não pode dar-me uma pista para eu saber como começar? — pedi.

— Esforça-te por conhecer uma coisa o melhor que puderes. Começa por uma coisa pequena. Não comeces por uma montanha. Não comeces pelo Oceano Pacífico. Começa por uma pocinha, uma semente seca, uma lagartixa, uma mão cheia de pó, ou uma onda de areia.

— Vou começar pela onda de areia — disse eu.

O homem disse-me que tinha começado por uma árvore. Quando era jovem, todas as manhãs trepava a um choupo, e ficava lá sentado a escutar. Valia sempre a pena. Segundo ele, as árvores são muito honestas e não gostam de pessoas complicadas. Não se recordava de ter feito algo mais importante na vida do que sentar-se naquela árvore.

— Conte-me tudo — pedi-lhe.

— Em primeiro lugar, tens de respeitar aquilo que pretendes ouvir. Se pensares que és superior a uma lagartixa, nunca a ouvirás, nem que, para isso, te sentes ao sol durante o resto da vida. Não deves ter vergonha de aprender com a areia, os insectos, ou seja o que for.

— Não terei — assegurei-lhe.

— É bom andar com pessoas, mas deves ir sozinha também. Assim, podes parar e escutar sempre que o momento seja apropriado.

— Vou lembrar-me do que me disse.

E lembrei-me. Mas não funcionou como pensava. Achei que devia ter algum problema porque só ouvia o que todas as pessoas podiam ouvir: o vento, os coiotes, as pombas, as codornizes. Quase desisti, embora continuasse a passear nas montanhas. Na verdade, costumava cantar-lhes canções. Já que elas não cantavam para mim, cantava eu para elas, embora a minha canção só tivesse um refrão: “Olá, montanhas!”

Certa vez, tive de me ausentar durante uma semana. Quando regressei, senti saudades das montanhas. Na manhã seguinte, levantei-me cedo e fui vê-las. E aquelas montanhas pareciam novas. Todos sabemos que as coisas têm um aspecto diferente ao amanhecer… Por onde quer que eu fosse, só pensava: “Eis-me aqui!” e tudo parecia estar bem. Subi a montanha pelo lado rochoso, em vez de tomar o trilho que leva ao topo.

Prefiro aquele caminho, embora seja mais íngreme. Encontrei três penas de falcão, peguei nelas e saudei de novo as montanhas. De repente, dei-me conta de que não era a única a cantar. As montanhas cantavam comigo. Parei e deixei-me estar ali durante mais de uma hora. Nunca escutei com tanta atenção em toda a minha vida.

Claro que as montanhas não cantam alto. Nem sequer cantam de forma a que possamos explicar o som que fazem. Não cantam com palavras. Não podemos transcrever a sua canção. Só posso afirmar que o som vinha das rochas cobertas de lava brilhante, e que era um murmúrio que se movia com o vento. Parecia o som mais antigo do mundo.

E eu estava no centro daquele som às sete horas da manhã e pensava apenas: “Eis-me aqui a escutar!” E nem sequer estava surpreendida. Parecia-me a coisa mais natural do mundo.

Byrd Baylor
The other way to listen
New York, Aladdin Paperbacks, 1997
(Tradução e adaptação)

Sugestão de actividades

O conto acima transcrito é um acto de reverência face à natureza e aos seus mistérios. A atenção silenciosa e expectante da narradora, bem como a sua persistência, acabaram por torná-la sensível aos sons mais subtis e à vida que palpita no interior das coisas.

Ensinar às crianças o sentido da contemplação da Natureza é importante para o desenvolvimento da sua sensibilidade e espírito criativo, que poderão em seguida manifestar através de desenhos ou de escrita de pequenos apontamentos poéticos.

Sugere-se ainda a leitura dos contos:

A mesa dos ricos

Um lugar tranquilo

Eu, sozinho, no Fim do Mundo

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