Que batom combina com as montanhas?

É no aconchego mútuo que as pessoas vivem.
Provérbio Irlandês

“Há apenas três coisas que me preocupam,” disse a minha mãe ao telefone.

Conseguia imaginá-la de pé, em frente à janela da cozinha, com o telefone preso entre a cara e o pescoço, enquanto cortava orégãos frescos para o jantar. “Ser atacada por ursos, precisar de ir à casa de banho… e ficar feia nas fotografias.”

Esforcei-me por fazer ouvir a minha voz mais confiante, suave e tranquilizadora…e disse-lhe: “Se tiver de ser, vou espantar os ursos para bem longe com um pau, mas provavelmente não veremos nenhum. Ter que fazer chichi de cócoras no meio do monte não é nada de especial; e prometo que não vamos publicar fotografias feias na revista. Se o fizermos, podemos sempre pôr uma daquelas tiras pretas por cima dos teus olhos….”

Estava combinado.

Iria levar a minha mãe de cinquenta e um anos, Priscilla, e a sua irmã gémea, Linda, numa viagem de três dias de mochila às costas — um trabalho para a revista Backpacker. Estava entusiasmada, mas também nervosa. A minha mãe e a tia Linda não são exatamente montanhistas… Para elas, passar um dia inteiro ao ar livre equivale a dezoito buracos de golfe e a um bife no churrasco. Mas cada uma delas tem três filhos que adoram o ar livre. E estavam ansiosas por ver o que aquilo era…

“Posso ao menos levar um batom?” suplicou a minha mãe já no trilho principal, enquanto eu verificava o conteúdo do seu saco. Continuar a ler

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Os pequenos cavalos de vento

Os pequenos cavalos de vento*

Nessa noite, por baixo da manta, Dolma tomara uma decisão. No dia seguinte, partiria ao alvorecer com o seu iaque e subiria o estreito que leva ao grande lago sagrado Zhara Yuntso. Ficava longe e muito alto na montanha, mas fá-lo-ia, pela sua mãe doente. Arranjara muitos pequenos cavalos de vento que lançaria do cume para levarem as suas orações.

Antes do amanhecer, Dolma encheu o alforge com comida para a viagem: carne seca, bolas de tsampa** e chá de manteiga. Abraçou a mãe e saiu para a manhã fria. O ar glacial apanhou-a de surpresa. Cerrou os dentes, pegou na corda do seu iaque e afastou-se do acampamento que ainda dormia. Após algumas horas de marcha, levantou-se uma tempestade, mas Dolma descobriu uma gruta entre as inclinadas rochas que a rodeavam.

— Vamos abrigar-nos!

No fundo da gruta, a menina encontrou uma estátua de Buda. Ajoelhou-se, murmurando uma súplica. Mas, de tão esgotada que estava devido à longa caminhada, adormeceu aos pés da estátua. E sonhou que estava na mão de Buda e sobrevoava imensas planícies verdes. Buda falava-lhe docemente, animava-a, tranquilizava-a. E apontou-lhe com o dedouma ermida perdida na montanha. Dolma acordou sobressaltada, com uma estranha frase a martelar-lhe na cabeça: “Desconfia do mel doce oferecido no gume da navalha.”

Estava sozinha com o seu iaque e segurava na mão uma pequena flauta. Quando a levou aos lábios, dela saiu uma doce melodia. Nesse instante sentiu a presença de alguém…uma sombra que logo desapareceu. A menina correu para a entrada da gruta e viu um enorme e belo bharal***.

— Espera! Não te vás embora! — gritou ela. — Tenho de ir até à pequena ermida no cimo da montanha. Ajuda-me!

— Porque é que te hei de ajudar? — perguntou a cabra azul.

— Porque, sozinha, nunca conseguirei lá chegar! E tu és a rainha desta montanha.

— O que fazes aqui sozinha?

— A minha mãe está doente e já não temos remédios que a curem. E o meu pai está na aldeia. Vou ao desfiladeiro de Zhara enviar as minhas preces aos deuses. É a única coisa que posso fazer.

— Anda comigo — disse a cabra a sorrir. — O som da tua flauta tocou-me.

Montada no seu iaque, Dolma seguiu obharal até ao pôr-do-sol. Outras cabras vieram-se-lhes juntar e, à chegada ao mosteiro, eram já um pequeno grupo. Dolma agradeceu a ajuda da cabra e quis oferecer-lhe a flauta. Mas aquela recusou:

— A flauta escolheu-te a ti. Adeus e boa sorte, pequena Dolma.

A divisão estava na penumbra. Dolma aproximou-se. Pela janela aberta viu um velho monge a rezar diante de um altar. Bateu suavemente à porta para não assustar o ermita.

— Boa tarde. Gostaria de passar aqui a noite. Prometo não incomodar.

— Entra, pequena, entra. Estava à tua espera! — disse o monge, retorcendo-se de um modo estranho.

Dolma viu que o seu olhar era maligno. Tossia e a cara desfigurava-se ao falar.

— Acomoda-te, grrr, fica à vontade. Trago-te já um pouco de chá e uns deliciosos bolinhos. Volto já, grrr

— Que esquisito! — pensou Dolma.

Foi então que viu um prato cheio de raízes. Apanhou algumas e guardou-as no gorro. Do quarto para onde o monge tinha desaparecido vinha um cheiro a chá, mas também uns sons nada tranquilizadores. Dolma lembrou-se do sonho e das palavras de Buda. Levantou-se para ver melhor o que se passava. E o que viu deixou-a sem fala: um demónio! Invadiu-a um cheiro a podre. Não havia um minuto a perder!

Fugiu dali. Pegou no alforge e no seu iaque e correu tanto quanto as suas pequenas pernas o permitiram. Deixou-se cair atrás de um chorten**** e acariciou o iaque, tranquilizando-o.

— Escapámos por um triz, meu bom amigo. Mais um pouco e estaríamos agora entre aquelas coisas que estavam dependuradas no teto.

Dolma olhou à sua volta. A noite estava clara. O iaque apontou então com a cabeça para o cume da montanha.

— Tens razão! — suspirou Dolma — Afastemo-nos mais desse demónio.

Caminharam a bom passo, mas o frio era tão intenso que a menina deixou de sentir os pés. Parou ao abrigo do vento e o iaque deitou-se, com ela entre as suas patas. Dolma pegou na flauta, e a melodia que saiu aqueceu-lhe o coração. Adormeceu sorrindo, embalada pela respiração do animal. Ao despertar, um pequeno cavalo fitava-a com curiosidade.

— Assustaste-me!

— Desculpa. O que fazes aqui?

— Vou para o desfiladeiro do lago sagrado. Vou oferecer as minhas orações.

— Posso acompanhar-te porque para mim é fácil. Mas, primeiro, tens de me deixar comer algumas dessas raízes para me darem força.

Dolma deu-lhe os pedaços que apanhara em casa do monge. O cavalo depressa os comeu. E logo saíram a galope. Parecia à menina que estavam a voar. Andaram muito e iam tão depressa que logo viram o resplendor do sol refletido na superfície do lago dominado pelo majestoso Zhara Lhatse.

— Oh, que fumo é aquele a sair da água?

— São as fontes quentes da montanha. Podes tomar banho lá, se quiseres.

Dolma entrou com prazer nas águas borbulhantes. Em seguida, continuaram o caminho e, após umas horas, chegaram ao desfiladeiro de Zhara. A menina pegou nos seus pequenos cavalos de vento, aproximou-os dos lábios e soprou com todo o amor e força que tinha dentro de si. Fechou os olhos e enviou-os em pensamento aos deuses.

A viagem de regresso durou muitos dias. Dolma orou todo o caminho até chegar à aldeia. Ao entrar na tenda, deparou com o pai, os irmãos… e a mãe sentados em volta do lume. Colocou a pequena flauta diante da estátua de Buda e atirou-se para os braços da mãe.

♦♦♦♦

Vocabulário:

*CAVALOS DE VENTO: pequenos papéis com a figura de um cavalo pintado que se lançam ao céu. O vento leva aos deuses as preces que se escrevem neles. Os cavalos de vento também podem ser de tecido, em forma de bandeirinhas de oração.

**TSAMPA: bolinhas muito nutritivas típicas do Tibete, confecionadas com feijão vermelho, grão-de-bico, lentilhas, milho, amendoim natural, mel puro, banana verde, soja em grão e trigo.

***BAHRAL: cabra de pelagem azul e cornos grandes que vive nas montanhas do Tibete.

****CHORTEN ou STUPA: monumento funerário que guarda as relíquias de um santo ou orações sagradas. Encontram-se por todo o lado, porque dão vida aos lugares à entrada das aldeias, ao lado dos mosteiros, nos desfiladeiros e nos vales.

Anne-Catherine de Boel
Los pequeños caballos del viento
Barcelona, Corimbo, 2009
(Tradução e adaptação)

 

Ah-nuld, o macaco

Durante os últimos dez anos tenho orientado passeios ecológicos e de vida selvagem na Costa Rica. Embora tenha tido inúmeros encontros hilariantes com macacos, preguiças, jaguares e outros animais exóticos da floresta tropical, há uma viagem que se destaca entre todas —quando o nosso grupo teve o privilégio de testemunhar um acontecimento verdadeiramente extraordinário.

Nessa viagem em particular, o nosso grupo de entusiastas da vida selvagem incluía Jim e o seu filho adolescente Andy. Pai e filho não eram o que podemos chamar de clientes típicos. Jim era um antigo militar de modos austeros, nos seus cinquenta e muitos anos, que não falava muito, mas que parecia entrar frequentemente em confronto com o filho. Eu tinha pena de Andy, cujo entusiasmo pela aventura chocava com a carapaça dura e modos controladores de Jim. Uma vez, Jim chegou mesmo a ser rude com ele, puxando-o asperamente pelo braço quando Andy se deixou ficar para trás tentando apanhar uma rã venenosa de cor vermelha e azul. Ninguém proferiu palavra, mas quase todos os do grupo passaram a evitar Jim depois desse episódio.

Tentei passar um tempo extra com Andy. Ele confessou-me que estava morto por ver um jaguar. Então esgueirávamo-nos, tarde na noite, já depois de todos terem ido para a cama, para ir procurar rãs e outros animais noturnos. Era o nosso pequeno segredo.

Mais ou menos a meio da viagem, numa área remota do Parque Nacional do Corcovado, o nosso grupo encontrou um bandode vinte macacos capuchinho de cara branca e parámos para observar. Os capuchinhos de cara branca são frequentemente usados em filmes, porque são extremamente espertos e têm um comportamento muito semelhante ao dos humanos. Mas embora estes macacos sejam, por norma, bastante amistosos e sociáveis, este bando incluía um macho alfa, que era invulgarmente agressivo. Era muito territorial e até ao final da tarde já tínhamos presenciado várias escaramuças violentas. Quando algum dos outros macacos se aproximava demasiado, ele corria em direção aos outros arreganhando os dentes, chegando mesmo a embater contra eles. Pusemos-lhe a alcunha de Ah-nuld, em homenagem a Arnold Schwarzenegger.

Mantendo uma distância respeitosa, seguimos o bando de macacos à medida que eles iam pilhando através da floresta, parando ocasionalmente para se regalar com figos maduros que pendiam de algumas árvores. Na retaguarda do bando encontrava-se um macaquinho bastante jovem, que não teria mais de 1 metro de altura, cuja mãe andava já a ensinar-lhe como trepar aos ramos e seguir os outros. De quando em quando, a mãe conseguia levá-lo do tronco de uma árvore mais larga até um ramo mais afastado. Isto era o mais difícil de fazer para o macaquinho. Parava, choramingava, recuava e avançava, analisando qualquer outra opção antes de finalmente dar o salto para além do tronco. O nosso grupo batia palmas entusiasticamente sempre que ele conseguia.

Depois de algum tempo, o macaquinho começou a ficar cansado e a deixar-se ficar para trás. Quanto mais afastado ficava, mais alto ele choramingava e gemia, para conseguir a atenção da mãe. Esta parava e esperava por ele, mas nunca voltou para trás. Finalmente, o macaquinho bebé chegou a uma árvore grande, que era demasiado larga para ele conseguir ultrapassar. O seu choro tornou-se cada vez mais alto até que, por fim, a mãe recuou uns passos e permitiu que ele usasse as suas costas como uma espécie de ponte. Uma vez a salvo o filhote, ela continuou na retaguarda do bando, com o pequeno macaco cansado, ainda a choramingar, agarrado fortemente às suas costas.

Mas o choro continuou, cada vez mais alto e irritante, até que despertou a atenção do macho alfa que liderava o bando —o terrífico Ah-nuld. Arreganhando os dentes e silvando furiosamente, o grande macho dirigiu-se para a mãe e a cria, deitando fogo pelos olhos. Aquela assumiu uma postura defensiva e emitiu um forte rosnado. Todos nós suspendemos a respiração, sem saber o que Ah-nuld iria fazer, mas esperando o pior.

Quando Ah-nuld se abeirou de mãe e do filhote, a sua face suavizou-se. Olhou diretamente para o macaquinho bebé, como se o visse pela primeira vez. De seguida, Ah-nuld acercou-se da cria aterrorizada, tomou delicadamente a minúscula cara do bebé entre as mãos e depositou-lhe um beijo na testa. O bebé parou de chorar imediatamente. Ah-nuld ficou ali, embalando suavemente a cabeça do macaquinho, e afagando-lhe amorosamente o pelo com os dentes.

O nosso grupo deixou escapar um suspiro coletivo de alívio. Estávamos tão rendidos à ternura do momento que quase não nos apercebemos de Jim, o nosso Ah-nuld, a soluçar discretamente. Ninguém disse uma palavra, talvez por delicadeza, embora eu suspeite que, lá no fundo, todos nós ficámos felizes ao vê-lo amolecer um pouco. Sussurrando com entusiasmo, fizemos o percurso de regresso à cabana. Depois do jantar, sentei-me com Jim e alguns outros na varanda, a balançar nas redes e a escutar os sons da floresta tropical, tão lindos e variados como se de uma sinfonia se tratasse.

A paz foi quebrada quando Andy se dirigiu para o alpendre e Jim se esticou para agarrá-lo, segurando bruscamente o braço do rapaz. Andy ficou tenso. O coração caiu-me aos pés, pois estava à espera de outra luta entre os dois. Todos os olhares se fixaram ansiosamente no pai e no filho. Então Jim puxou Andy até ele, deu-lhe um abraço e disse “Estou tão feliz por estarmos a fazer esta viagem juntos! Sempre quis que tivesses uma experiência deste tipo. Andy, eu sei que muitas vezes nem te dás conta, mas eu amo-te.” Chocado, Andy olhou para o pai, como se fosse a primeira vez que o tinha ouvido dizer “Eu amo-te”. Mais tarde, viemos a saber que efetivamente assim era.

Josh Cohen

Jack Canfield; Mark Victor Hansen; Steve Zikman

Chicken soup for the nature lover’s soul

Florida, HCI, 2004

(Tradução e adaptação)

Sugestões de leitura para adultos – edições brasileiras

A Garota Que Você Deixou Para Trás

Jojo Moyes
Intrínseca, 2014

Jojo Moyes apresenta a comovente história de duas jovens separadas por quase um século no tempo,mas juntas em sua determinação de lutar por aquilo que amam – custe o que custar.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem pintor francês Édouard Lefèvre é obrigado a se separar de sua esposa, Sophie, para lutar no front. Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, Sophie apega-se às lembranças do marido admirando um retrato seu pintado por Édouard. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca tudo – a família, a reputação e a vida – na esperança de rever Édouard, agora prisioneiro de guerra.

Quase um século depois, na Londres dos anos 2000, a jovem viúva Liv Halston mora sozinha numa moderna casa com paredes de vidro. Ocupando lugar de destaque, um retrato de uma bela jovem, presente do seu marido pouco antes de sua morte prematura, a mantém ligada ao passado. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar à vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura e sua tumultuada trajetória. Ao mergulhar na história da garota do quadro, Liv vê, mais uma vez, sua própria vida virar de cabeça para baixo. Tecido com habilidade, A garota que você deixou para trás alterna momentos tristes e alegres, sem descuidar dos meandros das grandes histórias de amor e da delicadeza dos finais felizes.


1A bibliotecária de Auschwitz

Antonio G. Iturbe
Nova Fronteira, 2013

Muitas histórias do horror e sofrimento testemunhados dentro dos campos de concentração nazistas são contadas e recontadas, já estão gravadas e arquivadas. É difícil, nesses relatos, encontrar atos de esperança e força diante de todo o mal registrado durante o Holocausto.

A Bibliotecária de Auschwitz é um livro diferente. É uma história verdadeira e cheia de detalhes a respeito de um professor judeu, Fredy Hirsh, que criou uma escola secreta dentro do bloco 31, no campo de concentração de Auschwitz, dedicando-se a lecionar para cerca de 500 crianças. Criou também uma biblioteca de poucos volumes com a ajuda de Dita Dorachova, uma menina judia de 14 anos que se arriscava para manter viva a esperança trazida pelo conhecimento e escondia os livros embaixo do vestido. É um registro de uma época sofrida da história, mas que também mostra a coragem de pessoas que não se renderam ao terror e se mantiveram firmes usando os livros como “arma”.


últimos-dias-de-nossos-pais-jOs últimos dias de nossos pais

Joël Dicker
Intrínseca, 2015

Após a frustração de ter tido o Exército britânico encurralado em Dunquerque, Winston Churchill tem uma ideia capaz de mudar o curso da guerra: a criação de uma nova seção do serviço secreto britânico, a SOE (Executiva de Operações Especiais), responsável por conduzir ações de sabotagem e se infiltrar nas linhas inimigas. Algo jamais feito na história. Na esperança de se juntar à Resistência, o jovem Paul-Émile deixa Paris e vai para Londres. Logo recrutado pela SOE, ele se integra a um grupo de franceses que se tornam seus companheiros de coração e de armas. Passando por formações e treinamentos intensos nos quatro cantos da Inglaterra, os selecionados voltarão para a França ocupada para contribuir na resistência. Mas a espionagem alemã está alerta… A existência da SOE por muito tempo foi mantida em segredo. Várias décadas após o fim das atrocidades da Segunda Guerra, Os últimos dias de nossos pais é um dos primeiros romances a abordar sua criação e a relembrar as verdadeiras relações entre a Resistência e a Inglaterra de Churchill. Dicker constrói um livro sobre amor, amizade e medo, com uma profunda reflexão sobre o ser humano e suas fraquezas.


Uma-Prova-do-CeuUma prova do céu

Dr. Eben Alexander

A jornada de um neurocirurgião à vida após a morte

Sextante, 2013

“Minha experiência mostrou que a morte não é o fim da consciência e que a existência humana continua no além-túmulo. E, mais importante ainda, ela se perpetua sob o olhar de um Deus que nos ama e que se importa com cada um de nós.

Cético, defensor da lógica científica e neurocirurgião há mais de 25 anos, o Dr. Eben Alexander viu sua vida virar do avesso quando passou por uma experiência que ele mesmo considerava impossível. Vítima de uma meningite bacteriana grave, ficou em coma por sete dias. Enquanto os médicos tentavam controlar a doença, algo extraordinário aconteceu.

Eben embarcou numa jornada por um mundo completamente estranho. Sem consciência da própria identidade, foi mergulhando cada vez mais fundo nessa realidade difusa, onde conheceu seres celestiais e fez descobertas transformadoras sobre a existência da vida após a morte e a profunda relação que todos nós temos com Deus.

Quando os médicos já pensavam em suspender seu tratamento, o inesperado aconteceu: seus olhos se abriram. Ele estava de volta. Mas nunca mais seria o mesmo. Aquela experiência o levou a questionar tudo em que acreditava até então. Afinal, como neurocirurgião, ele sabia que o que vivenciou não poderia ter sido uma mera fantasia produzida por seu cérebro, que estava praticamente destruído.

Analisando as evidências à luz dos conhecimentos científicos, o Dr. Eben decidiu compartilhar essa incrível história para mostrar que ciência e espiritualidade podem e devem andar juntas.

Narrado com o fascínio de um paciente que visitou o outro lado e com a objetividade de um médico que tenta comprovar a veracidade de sua experiência, este é um livro emocionante sobre a cura física e espiritual e a vida que se esconde nas diversas dimensões do Universo.”


Hereges

Leonardo Padura
Boitempo, 2015

O ponto de partida é um episódio real: a chegada ao porto de Havana do navio S.S. Saint Louis, em 1939, onde se escondiam 900 refugiados vindos da Alemanha. A embarcação passou vários dias à espera de uma autorização para o desembarque. No romance, o garoto Daniel Kaminsky e seu tio, aguardavam nas docas, trazendo um pequeno quadro de Rembrandt que pertencia à família desde o século XVII e que esperavam utilizar como moeda de troca para garantir o desembarque da família que estava no navio. No entanto, o plano fracassa, a autorização não é concedida, e o navio retorna à Alemanha, levando também a esperança do reencontro. Quase setenta anos depois, em 2007, o filho de Daniel, Elías, viaja dos Estados Unidos a Havana para esclarecer o que aconteceu com o quadro e sua família.


o homemO Homem que Amava os Cachorros

Leonardo Padura
Boitempo, 2013

A história é narrada, no ano de 2004, pelo personagem Iván, um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e, a partir de um encontro enigmático com um homem que passeava com seus cães, retoma os últimos anos da vida do revolucionário russo Leon Trotski, seu assassinato e a história de seu algoz, o catalão Ramón Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola e encarregado de executá-lo.

Esse ser obscuro, que Iván passa a denominar “o homem que amava os cachorros”, confia a ele histórias sobre Mercader, um amigo bastante próximo, de quem conhece detalhes íntimos. Diante das descobertas, o narrador reconstrói a trajetória de Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotski, teórico russo e comandante do Exército Vermelho durante a Revolução de Outubro, exilado por Joseph Stalin após este assumir o controle do Partido Comunista e da URSS, e a de Ramón Mercader, o homem que empunhou a picareta que o matou, um personagem sem voz na história e que recebeu, como militante comunista, uma única tarefa: eliminar Trotski. São descritas sua adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma história pouco conhecida e coberta, ao longo dos anos, por inúmeras mistificações.

As duas trajetórias ganham sentido pleno quando Iván projeta sobre elas sua própria experiência na Cuba moderna, seu desenvolvimento intelectual e seu relacionamento com “o homem que amava os cachorros”.


pintassilgoO pintassilgo

Donna Tartt
Companhia das Letras, 2014

Theo Decker, um nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe. Abandonado pelo pai, Theo é levado pela família de um amigo rico. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com quem não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma importante lembrança dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte.

Já adulto, Theo circula com desenvoltura entre os salões nobres e o empoeirado labirinto da loja de antiguidades onde trabalha. Apaixonado e em transe, ele será lançado ao centro de uma perigosa conspiração.
O Pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino.


homeroA odisseia de Homero

Gwen Cooper
Editora Sextante, 2010

Todo mundo que tem gatos sabe que eles são dotados de uma sensibilidade incrível e possuem uma forma peculiar de encarar a vida. Mas Homero tinha muito mais a ensinar.

Abandonado, cego e rejeitado, ele tinha tudo para ser amuado e medroso. Ninguém imaginaria que um gato sem os olhos – que precisaram ser retirados cirurgicamente para garantir sua sobrevivência – seria capaz de levar uma vida normal, com a alegria e a esperteza características dos felinos.

Contrariando todas as expectativas, Homero vivia como se seus olhos não lhe fizessem falta. Era bagunceiro, implicante, temperamental, divertido e dengoso como qualquer outro gato. Gwen Cooper fazia questão de afirmar que ele não era diferente. Mas ele era.

Diferente não por causa da falta de visão, mas por sua capacidade de fazer aflorar nas pessoas o que elas tinham de melhor. Parecia haver em seu espírito uma sabedoria oculta e uma energia latente que inspiravam todos à sua volta.

Homero se tornou o centro do mundo de sua dona. Foi se esforçando para garantir a segurança do seu gato que ela aprendeu a estabelecer a sua própria. Foi preocupando-se com a felicidade dele que Gwen percebeu quanto estava sozinha. E foi lhe oferecendo um amor incondicional que ela permitiu que esse sentimento entrasse em sua vida.

Mais do que um livro divertido e comovente sobre as aventuras de um gatinho, A odisseia de Homero é uma história de superação, de autoconhecimento, de transformação e de crescimento pessoal. Ela vai fazer você rir, se emocionar e compreender que, para conseguir o que queremos da vida, muitas vezes precisamos dar um salto no escuro, da mesma forma que Homero: confiando em nossos instintos e acreditando que sempre cairemos de pé.


O Jardim Secreto de Eliza

Kate Morton
Editora Rocco, 2009

O Jardim Secreto de Eliza – Em 1913, um navio chega à Austrália direto de Londres, trazendo com ele uma menina de quatro anos, absolutamente sozinha, sem um acompanhante adulto sequer. Com ela, apenas uma pequena mala com um livro de contos de fadas. O mistério de quem era a bela garota, que dizia não lembrar seu nome, e de como chegou ao porto, jamais foi desvendado. Em suas memórias ela trazia apenas a imagem de uma mulher que ela chamava de a dama ou a Autora e que dizia que viria buscá-la. Muitos anos depois, em 2005, na cidade australiana de Brisbane, a doce e reservada Cassandra herda de sua avó Nell uma casa na Inglaterra. Surpresa, ela descobre que a casa esconde as origens de sua avó, que foi uma vez a bela menina sem nome perdida no porto.

Enquanto acompanha a viagem de Cassandra para a Inglaterra em busca de suas origens, a autora revela uma trama paralela que se desenrola muitos anos antes do nascimento da menina, quando Nell vê seu mundo cair depois que seu pai revela, às vésperas de seu noivado, que ela não é sua filha verdadeira. A notícia a transforma numa mulher estranha, colecionadora de artigos antigos e raros e que vive numa casa em uma região afastada da Austrália. Seu exílio auto imposto, no entanto, é quebrado quando sua filha deixa a pequena Cassandra a seus cuidados. Revoltada com a filha por ter abandonado a menina, assim como aconteceu com ela quando criança, Nell acaba estreitando laços com a neta.

Um dia, porém, nos idos dos anos 1970, Nell, resolve finalmente reconstituir o caminho de volta a terra de onde veio: Londres. Lá, descobre muitas coisas sobre seu passado, incluindo as lembranças da moça que chamava de A Autora: Eliza Makepeace, uma travessa menina contadora de histórias que tinha sua própria cota de tragédias para viver na Inglaterra da virada do século XIX para o XX. Seria Eliza mãe de Nell? E por que ela a abandonou? Agora, é a vez de Cassandra revirar a pequena mala de segredos da avó e saber o que Nell conseguiu descobrir, se é que ela obteve sucesso em sua busca


Na terra da nuvem branca

Sarah Lark
Europa Editora , 2013

Governanta e professora de uma rica família em Londres, Helen Davenport anseia por um casamento, mas, sem pretendentes e já perto de completar 30 anos, sabe que suas possibilidades não são boas. Quando vê, na sua igreja, um anúncio de um fazendeiro na Nova Zelândia que procura uma mulher solteira e honrada para se casar, não pensa duas vezes. Após uma breve troca de correspondências com o pretendente, decide aceitar a proposta e emigrar.
Não muito longe, no País de Gales, Gwyneira Silkham, filha de um nobre e rico criador de ovelhas, está entediada com sua vida. Durante uma negociação de matrizes com um rico fazendeiro da Nova Zelândia, seu pai aceita o desafio para um jogo de cartas aparentemente inofensivo. Acaba apostando — e perdendo — a mão de sua filha em favor do filho do fazendeiro. Surpreendentemente, em vez de se revoltar, Gwyn vê na distante colônia a chance de uma vida vibrante e plena de aventuras.
Ambientado no século 19, durante o início da colonização inglesa na Nova Zelândia, o romance Na Terra da Nuvem Branca conta a história dessas duas corajosas mulheres que mudam radicalmente suas vidas e partem rumo ao desconhecido. Elas se encontram no navio, durante a longa e perigosa viagem, e começam a construir laços de uma duradoura amizade, que será decisiva na luta para a conquista de seus ideais.
Mesmo sendo uma história ficcional, a autora Sara Lark lança um olhar feminino sobre o momento histórico da colonização e a cultura dos nativos maoris. Destaca ainda a personalidade das mulheres e as dificuldades que enfrentam face às oportunidades que uma terra em formação oferece. E constrói uma saga envolvente e apaixonante.


A cidade do sol

Khaled Hosseini
Editora Nova Fronteira, 2013

Mariam tem 33 anos. Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos e Jalil, o homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rashid, um sapateiro de 45 anos. Ela sempre soube que seu destino era servir seu marido e dar-lhe muitos filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos.
Laila tem 14 anos. É filha de um professor que sempre lhe diz: “Você pode ser tudo o que quiser.” Ela vai à escola todos os dias, é considerada uma das melhores alunas do colégio e sempre soube que seu destino era muito maior do que casar e ter filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Confrontadas pela história, o que parecia impossível acontece: Mariam e Laila se encontram, absolutamente sós. E a partir desse momento, embora a história continue a decidir os destinos, uma outra história começa a ser contada, aquela que ensina que todos nós fazemos parte do “todo humano”, somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios.


Holocausto brasileiro
Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil

Daniela Arbex
Geração, 2014

Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.


A resposta

Kathryn Stockett
Bertrand Brasil, 2011

A Resposta – Uma história de otimismo ambientada no Mississippi em 1962, durante a gestação do movimento dos direitos civis nos EUA.

Eugenia Skeeter Phelan acabou de se graduar na faculdade e está ansiosa para tornar-se escritora, mas encontra a resistência da mãe, que quer vê-la casada. Porém, o único emprego que consegue é como colunista de dicas domésticas do jornal local. É assim que ela se aproxima de Aibellen, a empregada de uma de suas amigas. Em contanto com ela, Skeeter começa a se lembrar da negra que a criou e, aconselhada a escrever sobre o que a incomoda, tem uma ideia perigosa: escrever um livro em que empregadas domésticas negras relatam o seu relacionamento com patroas brancas.

Mesmo com receio de prováveis retaliações, ela consegue a ajuda de Aibileen, empregada que já ajudou a criar 17 crianças brancas, mas chora a perda do próprio filho, e Minny, cozinheira de mão cheia que, por não levar desaforo para casa, já esteve por diversas vezes desempregada após bater boca com suas patroas. Uma história emocionante e estarrecedora onde a cor da pele das pessoas determina toda a sua vida. Um livro que, devido ao seu tema, chegou a ser recusado por quase sessenta editoras antes de ser publicado.

Uma viagem espiritual – Nicholas Sparks (sugestão de leitura)

Billy Milles; Nicholas Sparks
Uma viagem espiritual
Lisboa, Editorial Presença

David nunca esqueceria aquele Verão. Era então um rapazinho, que acabara de perder a sua irmã. Depois da morte da mãe, anos antes, ela era a fonte da sua alegria de viver. E agora que a perdera, o jovem índio mergulhara num desespero sombrio, e o seu pai começara a inquietar-se. Tinham sido anos muito duros, aqueles… felizmente, àquela família índia, discriminada pelos novos americanos, restava ainda o legado das suas tradições ancestrais. O pai viu o pesar que consumia o filho e compreendeu. Entregou-lhe o rolo de pele pintado à mão, gasto pelos anos. Daquelas imagens e símbolos emanava um poder misterioso. Foi esse o ponto de partida para uma estranha viagem, que mudou para sempre a vida de David.

Uma viagem espiritual

Excerto

A lição de um homem sentado sob a copa de uma árvore

O significado do quarto desenho

A felicidade é algo que cada um de nós pode aprender a controlar. O segredo está em saber como. Depois de descobrirmos o significado do quarto desenho, ficaremos de posse do maior segredo do mundo: como ser feliz em cada dia da nossa vida.

 

Porque já era tarde, os dois decidiram descansar. David tinha aprendido mais do que jamais supusera e estava exausto. O Homem indicou-lhe o quarto, e o jovem adormeceu quase de imediato. Nessa noite teve um sonho:

Encontrava-se num grande deserto. Areias brancas, branqueadas há muito pelos raios ardentes do sol, estendendo-se até onde a vista podia alcançar. Era em direcção ao horizonte que David precisava de ir, mas sabia que não ia conseguir. Tinha a língua inchada e ressequida, empapada de pó, rebentada e sangrando. Os braços estavam inchados pelas queimaduras causadas pelo sol, os olhos doíam-lhe devido à luminosidade do deserto e as pernas vacilavam sob o seu peso. Sentia-se ressequido por dentro e por fora. O corpo dizia-lhe que descansasse, que esperasse pelo anoitecer para continuar a viagem. Mas, em consciência, sabia que não existiria um anoitecer.

Estava no Deserto da Solidão, um lugar onde o cair da noite nunca chega.

Era um local de desespero e de tristeza. O sol nunca deixava de brilhar, os ventos nunca sopravam a favor, as areias nunca endureciam e o horizonte jamais era alcançado. Era uma vida de inferno, uma vida em que a dor se tornava companhia habitual e em que a esperança no futuro não existia. David sabia que não podia lutar contra o deserto, tal como não podia lutar contra qualquer outro aspecto da Mãe Terra. No final, tragá-lo-ia como havia tragado outros antes dele. Em breve morreria, sabia disso, e tinha medo embora esse medo não se devesse à aproximação da morte.

David estava assustado por não se preocupar, de forma nenhuma, se morria ou vivia. A vida tinha tanto significado quanto a morte; não tinha quaisquer sentimentos de esperança para o futuro. Por que motivo não se importava de morrer? Por que motivo não já não ansiava viver? David sabia que estes pensamentos eram aquilo que o estava a destruir, porém não conseguia evitá-los. Era por isso que estava com medo. Já não tinha controlo sobre si; tinha desistido da vida, sucumbindo aos sentimentos de piedade por si próprio.

Os joelhos de David dobraram-se, e ele caiu por terra. Sabia que não se levantaria. Já não havia mais nada que o fizesse continuar. Tinha esgotado todas as suas forças e estava pronto para morrer ali mesmo.

À medida que o sol o ia esmagando, o Homem das Montanhas apareceu. Vigiava David de perto, com o seu cabelo branco esvoaçando no ar, e David sentiu, de imediato, que o Homem tinha vindo para o ajudar. Todavia, enquanto David o olhava, os seus sentimentos começaram a alterar-se. Os braços do Homem pendiam frouxamente ao longo do corpo como se estivesse muito cansado, os seus ombros já não pareciam tão largos como tinham sido no passado e o seu rosto estava curtido pelo tempo e pela idade. Já nada de extraordinário se manifestava no Homem; não passava de um índio velho ali no meio do deserto. Mas porquê? O que é que lhe tinha acontecido?

A resposta chegou alguns momentos depois. David compreendeu que havia tristeza nos olhos do Homem; a tristeza estava a matá-lo. A tristeza estava a esgotá-lo, transformando-o num velho fraco e, com toda a certeza, iria matá-lo dentro de poucas horas. Este pensamento fez com que David se sentisse ainda pior. Nem mesmo o Homem podia ser feliz neste deserto. David tossiu e cuspiu alguma areia que se tinha alojado na garganta. Depois perguntou num tom abrupto:

Por que veio?

Vim porque precisava de vir respondeu o Homem.

Está aqui para me ajudar?

O Homem assentiu. Não lhe estendeu a mão. David tossiu de novo. Desta vez a tosse feriu o mais fundo da sua garganta ressequida.

— Traz água comigo? Preciso de água. É a única coisa que me pode ajudar neste momento.

O Homem olhou, confuso, à sua volta. Suspirou e após breves instantes comentou:

Há agua por todo o lado. Não a consegues ver?

Não existe água nenhuma! David respirava com dificuldade.

— Se não a consegues ver, então nunca a encontrarás — afirmou o Homem abanando a Cabeça.

Durante mais alguns segundos ainda se manteve perto de David, depois voltou-se e começou a afastar-se. David não conseguiu proferir uma única palavra devido à sua garganta tão seca. Tudo quanto podia fazer era erguer a cabeça e observar o Homem que ia desaparecendo no ar escaldante do deserto.

David fechou os olhos. Tinha sentido a presença do Homem ao seu lado e agora encontrava-se sozinho. Não tinha sido ajudado. No entanto, a presença do Homem levou-o a reflectir na sua vida e no que ela significava. Haveria algo com sentido na sua vida?

Decerto. Havia uma coisa.

Os seus pensamentos voltaram-se para o seu cão. David tinha apenas três anos quando Korak chegara a casa. Tinham crescido juntos. Ao longo de muitos anos, Korak havia tomado conta dele. Conduzira-o com segurança em situações de perigo, ajudava David a encontrar o caminho de regresso a casa quando se perdia. Agora Korak estava a ficar velho. Sofria de artrite nas patas traseiras, e por vezes David tinha tido de o ajudar a subir as escadas. O seu cão precisava dele; David tinha de o proteger. Era uma coisa que só ele podia fazer, pois o cão pertencia-lhe a ele, e apenas a ele. Por um breve momento David sorriu. Daria tudo para voltar a vê-lo mais uma vez.

De repente, e sem qualquer aviso prévio, começou, a chover.

O pai de Andi

O pai de Andi

Não era normal! Os três amigos de Andi tinham pais famosos.

O pai de Alexandre era cirurgião. Um daqueles médicos a quem as pessoas ricas e importantes recorrem para tirar o apêndice.

O pai de Rafael tocava violino. Não apenas por prazer. Dava concertos pelo mundo inteiro e era sobejamente conhecido.

O pai de Gino era um realizador de cinema. Diz aos actores o que eles têm de fazer, foi como Gino, com certo orgulho, explicou a profissão do pai.

O pai de Andi era vendedor numa loja de roupa para homem. Um pouco baixo, usava óculos dourados e não era nada conhecido.

Andi só o via ao fim-de-semana, porque os pais tinham-se separado. Quando os colegas falavam dos pais, Andi ficava calado. O que é que ele havia de dizer? Na passada terça-feira, o meu pai vendeu um fato de flanela cinzenta?

Nas férias grandes, Alexandre foi para África, porque o pai queria fotografar leões. Rafael foi para Nova Iorque, onde o pai ia dar um concerto. E Gino foi para a Jugoslávia onde o pai estava a rodar um filme de cowboys.

O pai de Andi queria ir para a Toscânia. Pela bela paisagem e porque gostava de visitar igrejas antigas. Andi não tinha bem a certeza se queria ir, mas estava combinado passarem juntos umas férias por ano. Por isso, Andi foi com o pai para Itália. Para dizer a verdade, até gostou bastante. Ficaram numa terrinha entre vinhas, davam passeios e visitavam igrejas antigas, mas não em demasia.
Certo dia, que seria diferente dos outros, passeavam pelo mercado de uma pequena aldeia. Compraram tomates e alhos para o molho do esparguete, e ainda pêssegos e uvas para a sobremesa. Num pequeno bar, o pai de Andi tomou café e Andi bebeu um sumo de laranja, que em Itália se diz “aranciata”. Dirigiram-se depois, devagar, para o local onde o carro ficara estacionado.

Andi foi o primeiro a ver os pássaros. Parou, horrorizado. Numa parede batida pelo sol estavam dependuradas cerca de vinte minúsculas gaiolas, cada uma com um pássaro fechado dentro. Pardais, tentilhões, um melro. Num desespero evidente, arremessavam-se para cima e para baixo contra as grades das pequenas gaiolas.

— Que maldade! — disse Andi.

O pai de Andi olhou pensativamente e não proferiu palavra.

De resto, mais ninguém parecia incomodar-se com os pássaros encarcerados. As pessoas passavam, falavam, riam, e não prestavam a mínima atenção àquele arremeter e piar de desespero.

O pai de Andi aproximou-se de uma gaiola. O pardal, prisioneiro e em pânico, tentava bater as asas, mas a gaiola era tão pequena que as asas embatiam contra as grades de madeira. Num gesto rápido e resoluto, o pai de Andi abriu a porta da gaiola. Teve de retirar primeiro o recipiente da água e só depois é que pôde abrir a porta de arame. O pardal mais parecia dar cambalhotas do que voar. Pousou por um instante na rua, atordoado, mas depois voou e desapareceu. O pai de Andi abriu todas as gaiolas uma por uma.

— Estão a olhar para nós — disse Andi. — Despacha-te!

Mas só quando abriu a última gaiola, é que o pai pegou no saco de papel que tinha pousado no chão e deu a mão a Andi.

— Não vão deixar-nos passar — disse Andi com medo.

Um pouco mais à frente, havia pessoas paradas na rua, que falavam em voz baixa umas com as outras e olhavam para eles com um ar severo.

Agora íamos precisar de Renzo Romano, pensou Andi, deitando um olhar de soslaio ao pai. Que esquisito! Teria crescido em pouco tempo? Parecia muito maior do que de costume, muito decidido e fazia uma cara… Isso, exactamente como Renzo Romano antes de um duelo de vida ou de morte.

Contrariadas, mas sem nada fazerem, as pessoas da rua afastaram-se, deixando o caminho livre a Andi e ao pai.

Quando dobraram a esquina, estugaram o passo e, em poucas passadas, chegaram ao carro. Andi voltou a olhar para o pai para se certificar. Será que alguém na idade dele podia ainda crescer? E tão de repente? Devia ter sido uma ilusão.

Deixaram a pequena aldeia para trás, mas nenhum dos dois falava. Andi olhou mais do que uma vez discretamente pelo espelho. Nenhum perseguidor. À sua frente, estendiam-se montes raiados de cor-de-rosa, violeta e azul-claro. Ciprestes escuros erguiam-se contra o azul leitoso de um céu de Verão. Os dois continuavam ainda em silêncio.

Mais tarde, sentaram-se então debaixo de uma oliveira, a comer pêssegos sumarentos. Sobre as suas cabeças, pousado num ramo coberto de folhas prateadas, cantava um pássaro.

— Este é um dos do teu grupo de admiradores! — disse Andi.

Está ansioso por saber o que Alexandre, Rafael e Gino irão dizer desta acção de salvamento.

Edith Schreiber-Wicker

Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
Fernweh
Wien, Herder Verlag, 1980

A cerejeira da lua

A cerejeira da lua

A Lua fita-nos quando a fitamos? Não. Nunca. Se a chamarmos deste canto da Terra, a Dama Toda Branca embuça-se de mistério e faz de conta que é a Bela Adormecida. Presunçosa.

Como se toda a gente não soubesse que a Lua deixou de ser inacessível. Botas memoráveis pisaram-lhe a superfície desolada. Satélites zumbem à sua volta. Telescópios potentíssimos perscrutam-lhe todos os socalcos, rugas e verrugas.

A Lua é a nossa vizinha defronte. E, ao perto, nada bonita, por sinal.

Quem se atreve a dizer-lho? Não contem comigo.

Aliás, pouco importa. Ela que nos ignore. Que dirija a atenção para a distância azul da noite. Que recorde outros tempos, antigas glórias. Que sonhe. Deixem-na sonhar.

Entre muitas evocações mimosas, a Lua sonha com o imperador Meng Uóng, que dela se enamorou. Onde isso vai…

Numa das varandas do palácio imperial, ornamentada de gaiolas de ouro, Meng Uóng, tocado pela tristeza do crepúsculo, dá de comer às cotovias.

O sábio Tien-O-Tzê segue-o em silêncio como uma sombra protectora. Foi seu aio, depois seu mestre.

Introduziu-o no segredo dos cultos, interpretou, um por um, para ilustração do jovem imperador, todos os conselhos do Livro dos Veneráveis e pacientemente guiou-lhe a mão inábil de menino sobre o desenho das primeiras letras gravadas em tabuinhas de sândalo.

Brilha o esmalte das colunas à luz dos archotes. Criados de sandálias sussurrantes varrem com leques de penas de pavão o fumo do ar à roda do imperador. Um perfume adocicado de ervas preciosas evola-se dos turíbulos mansamente agitados pela brisa do princípio da noite.

Uma pena cinzenta de cotovia esvoaça e como que hesita entre a varanda e o escuro do jardim. Tocada por um raio do luar, parece de prata.

Isto mesmo diz o imperador, pensativo, enquanto acompanha o devanear da pena que, depois, se perde por entre a ramagem dos sicômoros.

— Tudo à nossa volta aspira à perfeição — comenta o sábio Tien-O-Tzê.

O imperador suspira:

— Até uma pena de cotovia…

— Até uma pena de cotovia — repete o sábio.

— Não será um sinal, um aviso da Lua? — pergunta o imperador, subitamente ansioso.

O sábio permite-se sorrir.

— Se Vossa Majestade assim o quer, será — diz, cofiando a barbicha branca e encerada que lhe escorrega até à cintura.

Descem da varanda ao jardim alumiado por grandes lanternas de pétalas roxas. Suspensas, rente ao chão, as lanternas tudo convertem à cor dos sonhos mais imprevisíveis. A relva, as ramagens baixas dos arbustos e os pés do imperador e do mestre ficam aureolados de roxo e lilás. Parece que caminham sobre nuvens.

Porque o sábio não desaproveita uma oportunidade sem retirar um ensinamento que sirva de alimento espiritual ao jovem imperador, logo acrescenta mais esta fala:

— Um vosso antepassado, o erudito e judicioso imperador La-Long, escreveu na base de uma estatueta de jade, que representava um monge de pálpebras descidas, um luminoso pensamento: O inatingível está à tua mercê. Queres que os teus desejos aconteçam? Fecha os olhos.

Proferidas estas palavras graves, o sábio Tien-o-Tzê, apoiado a um tronco nodoso de cerejeira que lhe serve de bordão, suspende os passos. Fecha os olhos.

Encara-o, surpreendido o imperador.

— Estás a desejar alguma coisa? — pergunta.

O sábio abre os olhos:

— Os meus desejos são os vossos, Majestade. Procurava apenas adivinhá-los.

— E descobriste-os?

Tien-O-Tzê, em resposta, ergue o bordão e aponta-o à Lua, redonda e enorme, que subia ao céu, logo por trás dos últimos sicômoros do jardim.

— Tens razão, genial amigo — exclama, entusiasmado, o imperador. — Quero ir à Lua.

— Pois irá — proclama o sábio. — Segure, Vossa Majestade, o arrocho de cerejeira a que me arrimo para as pequenas e grandes caminhadas da vida… Cerre os olhos.

O imperador, habituado a confiar no mestre, corresponde ao mandado.

— Este bordão, que ambos seguramos, há-de levar-nos à Lua — brada, num acesso de inesperada força, o sábio ou mago Tien-O-Tzê. — Não abra os olhos, Majestade, que eu vou lançar o bordão ao céu.

O imperador Meng Uóng, de pálpebras apertadas, sente, num arrepio, que os pés, calçados com finas babuchas escarlates debruadas a pérolas, se soltam do solo e divagam no vazio como se os tivesse suspensos de um baloiço.

— Não abra os olhos, Majestade — torna a recomendar-lhe Tien-O-Tzê.

A voz dele ressoa em eco, repercutida por toda a abóbada celeste:

— Não abra… não abra… não abra os olhos, Majestade…

Vão longe? Vão perto? Por onde voga o bordão a que sábio e imperador se fincam como náufragos que rodopiassem no turbilhão de uma tempestade silenciosa? O imperador pergunta e não quer achar resposta.

Um vento ciclónico e cada vez mais frio encortiça-lhe o rosto crispado. É insuportável. Manter os olhos fechados, agora, não custa. Mais custaria abri-los. O vento pacifica-se em aragem. O frio em amenidade.

Aos ouvidos do jovem imperador soam, primeiro indistintamente, depois mais nítidos, os acordes de guitarras e vozes femininas, numa fresca melopeia de boas-vindas. De súbito, os pés encontram chão.

— Pode abrir os olhos, Majestade — comanda o sábio numa entoação de riso.

Ah! eis a Lua! A seu lado, Tien-O-Tzê recupera só para ele a vara de cerejeira e enterra-a no musgo esbranquiçado do solo lunar, fofo e macio, que dá a cada passo uma cadência de dança.

Talvez por isso as jovens que acorrem a receber os visitantes, vestidas com túnicas de cores celestes, têm um andar precioso de dançarinas rituais. Agitam leques, cantam e riem como sinos de porcelana.

— Para onde nos levam? — pergunta, aturdido, o imperador, que pela primeira vez sente o peso da sua túnica de brocado azul onde fulgem dois dragões de oiro.

Elas rodeiam-nos e empurram-nos brandamente enquanto tangem alaúdes.

Levados pelo redemoinho da festa, o imperador e o sábio distanciam-se do lugar onde tinham poisado. Sobem agora uma escadaria de marfim onde, no alto, luminosa, os espera…

— Seong-Ngá, a castelã da Lua — exclama Tien-O-Tzê, reconhecendo-a ao primeiro relance.

O sábio não errara. Seong-Ngá reina sobre as selenitas. Ela, que se refugiara na Lua enquanto o seu esposo, Hau-Ngai, se exilara no palácio do Sol, ora toma a configuração de uma rã de três pernas, ora se ostenta em toda a sua beleza de imortal.

Felizmente que, para receber as visitas, não apareceu sob a forma de batráquio, o que seria deselegante. Sentada num trono de coral, rodeada de fadas dançarinas, Seong-Ngó não profere uma única palavra, mas eles percebem pelo brilho dos seus olhos maliciosos tudo o que ela tem para lhes contar.

Com um gesto insinuante, rodopiando o leque, Seong-Ngó aponta para o cimo de uma colina próxima, onde o coelho de jade, diante do almofariz, prepara incansavelmente o remédio contra todos os males. É o elixir da imortalidade. A guardiã da Lua parece dizer:

“Querem provar? Apressem-se…”

Sábio e imperador descem, em corrida, a escadaria e precipitam-se para a colina. Esquecidos das regras de reverência, nem agradeceram a generosidade do convite.

Antes de alcançarem o coelho, na sua oficina de alquimista, têm de passar por um desfiladeiro obscuro. Cessaram os cânticos de saudação. Sábio e imperador vão sós e estremecem quando lhes chega às narinas um odor áspero de animal feroz, no seu refúgio.
Logo em seguida um rugido e, após este, outro e outro ainda, todos assustadores. Um tigre cinzento e branco assoma ao outro extremo do desfiladeiro. Revira os olhos rancorosos e vai saltar sobre os dois viajantes.

— Fujamos — grita, apavorado, o imperador Meng Uóng. — O teu bordão, onde o deixaste?

— Longe — responde-lhe o sábio, que já corre à frente do príncipe.

Tien-O-tzê, pela primeira e única vez na vida olvidou, naquele transe, as precedências da etiqueta e o comedimento a que a sua provecta idade obrigaria.

Os pés afundam-se no musgo como na neve, o que lhes prejudica o despacho da corrida. Sentem sobre as costas o hálito em fogo do tigre implacável…

— Feche os olhos, Majestade. O sonho mau vai passar.

À voz entrecortada do sábio responde o imperador, aflito:

— E aonde me agarro desta vez?

O sábio, sem parar de correr, grita num assomo de impaciência:

— Agarre-se à minha mão — enquanto lha estende. — Acabo de descobrir a raiz de um raio de luar que nos levará até à Terra.

— Aguentará o nosso peso? — teme o imperador.

O sábio repete, soluçando de cansaço, a máxima de La-Long:

— Queres… que os teus desejos… aconteçam? Fecha… os olhos. Acredite… acredite, Majestade!

Mas o imperador duvida:

— E o tigre? O tigre não virá atrás de nós?

— O tigre não conhece a máxima e não fecha os olhos — exaspera-se Tien-O-Tzê. — O tigre tem medo de cair. Nós não!

De olhos fechados, escorregam pelo raio de luar que se arqueia e alarga até parecer uma estrada de descida suave.

Assim, sem sobressalto, chegam ao jardim imperial. A Lua escondeu-se. Os archotes da varanda ardem, inúteis, à luz da madrugada.

Desde essa noite inesquecível que o imperador Meng Uóng tange o alaúde, evocando as melodias que ouviu das selenitas.

E, entusiasmado pelos bailados e cânticos das fadas lunares, criou uma escola, num pavilhão, no meio de um pomar de pereiras.

Aí, os jovens do palácio foram industriados na arte de dançar e cantar como os habitantes da Lua.

Assim é justificada a origem do teatro chinês e o nome Lei-Un-Tchi-Tâl, “discípulos do pomar das peras”, como são designados os seus actores.

Quanto ao bordão de cerejeira que o sábio Tien-O-Tzê plantara na superfície musgosa da Lua, conta a lenda que ganhou ramos, folhas, flores…

Quem quiser ver a cerejeira, que olhe para a lua na noite que precede o décimo quinto dia do oitavo mês lunar, segundo o calendário chinês.

Se não conseguir ver, feche os olhos. No espelho da imaginação tudo acontece como queremos…

António Torrado
A cerejeira da Lua
Instituto cultural de Macau, Editorial Pública, Lda, 1990