O autocarro fantasma

O autocarro-fantasma

De todos os mortos daquele cemitério aquele que mais se aborrecia era Tomás Bondi. O guarda encontrava frequentemente terra removida à beira da sua campa e a lápide de mármore, onde se lia “Tomás Bondi (1939-2004) Prémio Volante de Ouro para o melhor motorista de autocarro”, deslocada um metro ou dois.

O falecido Tomás Bondi sentia muita falta do seu autocarro. Os outros mortos lembravam-se, quando muito, de sair a dar uma volta convertidos em fantasmas, mas ele, pelo contrário, precisava mesmo de conduzir o autocarro durante algum tempo.

Saía da campa, passava pelo guarda do cemitério, que não o via porque os fantasmas são invisíveis, e andava umas trinta ruas até chegar à empresa de transportes onde em vida tinha trabalhado.

Metia-se no hangar onde estavam estacionados os veículos e, quando via o seu autocarro, o 121, quase chorava de emoção.

Daí a nada estava ele a passar-lhe uma flanela. Limpava os espelhos, dava lustro aos faróis e brilho aos vidros. O problema era o guarda-noturno. Ao ver um trapo sozinho a limpar o autocarro, sem que ninguém o segurasse, desatava a fugir, abandonando o posto de trabalho.

De seguida, Tomás Bondi punha o 121 a andar e ia dar uma volta. Continuar a ler

Anúncios

O gosto das bruxas

Era uma vez uma menina que estava presa na torre mais alta de um castelo.
Ela era um princesa, mas não lhe valia de nada, porque perdera os seus pais e o reino, numa guerra que o dono do castelo, já se vê, é que ganhara.
Ainda era o tempo das fadas. Por isso a menina disse, para que as paredes ouvissem:
— Se uma fada me salvasse, fosse boa, má ou assim-assim, eu repartia a meias com ela o tesouro do meu perdido reino, que só eu sei onde está enterrado.
As paredes toda a gente diz que têm ouvidos. Estas ouviram, passaram palavra e daí a nada uma velha fada apareceu na sala.
— Vou dar volta à tua vida — disse a fada.
— És uma fada boa? — perguntou a menina.
— Nem por isso — respondeu a fada.
Era uma fada assim-assim e para provar que não era das melhores, mas também não era das piores, impôs, à partida, uma condição. Salvava a menina, mas, antes, ela tinha de adivinhar-lhe o nome. E avisou logo que não tinha um nome muito mimoso.
— Serafina — disse a menina.
Nem pensar. Não era Serafina nem Leopoldina nem Marcolina. Nem Eufrásia nem Tomásia. Nem Quitéria nem Pulquéria. Nem Aniceta nem Eustáquia nem Teodósia nem Venância nem Bonifácia nem Gregória. Nem sequer Capitolina.
A princesa esgotou os nomes mais esquisitos que conhecia. E a fada sempre com a cabeça a dizer que não. Até que propôs o seguinte negócio:
— Salvo-te, mesmo que não descubras o meu nome, mas fico com o tesouro só para mim. Todinho!
A menina concordou. Não tinha outro remédio. Vai daí a fada pronunciou umas palavras mágicas e ela e a princesa atravessaram as paredes da prisão.
Uma vez em liberdade, a princesa ensinou o local onde estava escondido o tesouro e pronto, a história acaba aqui.
E o nome da fada-bruxa?
Também a menina quis saber.
— Chamo-me Joaninha — respondeu a fada-bruxa, baixando os olhos, envergonhada.
— Mas Joaninha é um nome bonito — estranhou a princesa.
— Eu não acho — disse ela. — Gostava mais de ser Virgolina Zebedeia.
Vá lá a gente entender o gosto das bruxas.

António Torrado

http://www.historiadodia.pt

Júlia e as luzes da vida

Júlia e as luzes da vida

— Avó?

Júlia abre devagarinho a porta do quarto da avó. Já é meio-dia e a avó ainda está na cama. Nem sequer abriu as cortinas. Júlia entra no quarto em bicos de pés. A avó está com os olhos fechados. A cabeça escorregou um pouco para o lado como se tivesse torcido o pescoço. Júlia nunca tinha vindo da escola e encontrado a avó a dormir!

— Avó, porque é que não dizes nada?

Júlia assusta-se com a sua voz no quarto silencioso e mergulhado na penumbra.

— Avó, não estás doente, pois não?

Mas a avó não responde.

De repente, Júlia sente medo, medo de que alguma coisa horrível tenha acontecido à avó. Corre para a sala e disca o número de telefone da mãe.

— Júlia? Já sabes que não deves telefonar-me para o escritório!

A voz da mãe soa impaciente e irritada.

— Sim — Júlia engole em seco. — É por causa da avó — diz muito baixinho. — Ela está na cama e não responde.

— A avó ainda está na cama? E não responde?

A mãe respira rápido e com força.

— Espera, eu vou para casa! — diz, e desliga.

Júlia fica sentada na sala. Não se atreve a ir outra vez junto da avó adormecida, que está tão diferente, tão estranha. E sente uma saudade muito grande da avó, com os olhos a piscar afavelmente por detrás dos óculos, e com a barriga redonda, contra a qual Júlia tanto gostava de se encostar.

Assim que ouve os passos da mãe, levanta-se de um salto, mais aliviada.

— Mamã!

Júlia quer abraçá-la mas a mãe afasta-a e corre para o quarto da avó. Depois é tudo muito rápido, como num sonho mau. A mãe telefona para o hospital, uma ambulância chega e dois homens vestidos de branco levam a avó. A mãe também vai e Júlia fica sozinha.

Quando a mãe regressa, já está escuro lá fora. Pendura o casaco no bengaleiro e senta-se à mesa da cozinha. Parece estar com a cara pálida e cansada.

— Agora tens de ser muito forte, Júlia — diz ela.

Júlia não percebe o que ela está a dizer.

— E a avó? — pergunta. — O que se passa com ela?

— A avó adormeceu para sempre — responde a mãe.

— Não é verdade! — exclama Júlia.

— É, Júlia — diz a mãe. — A avó nunca mais vai poder regressar.

— Não acredito! — grita Júlia.

— A avó já era velha — diz a mãe. — No próximo ano ia fazer setenta anos.

— A avó não era velha… para mim, não.

Saltam-lhe lágrimas dos olhos e rolam-lhe pela face.

— E o coração da avó também já estava velho — continua a mãe. — Já não trabalhava muito bem e agora parou. Como um relógio que parou.

— Não, não, não!

Júlia tapa os ouvidos.

Não é possível que a avó esteja morta! A avó não pode estar morta. Olha por entre as lágrimas para a mãe. Porque é que ela está tão calma? Porque é que não está a chorar? Não gostava da avó?

— Júlia! — diz-lhe a mãe. — A vida continua. E acredita no que te digo: não vais ficar sempre triste.

— Vou! — grita ela. — Sempre!

A mãe suspira.

— Júlia, tudo isto também não é nada fácil para mim. Não piores ainda mais as coisas.

Levanta-se e deixa a cozinha.

Júlia ouve a porta do quarto de banho bater atrás da mãe, depois a água corre durante muito tempo. Quando sai do quarto de banho, a mãe tem o mesmo aspecto de sempre. Escovou os cabelos, a pele brilha, rosada e até sorri um pouco.

— Vou fazer agora alguma coisa para comermos — diz. — De certeza que estás com fome.

— Fome? — Júlia abana com a cabeça. — Não!

A mãe tira farinha e ovos do armário e começa a fazer uma massa. Já não estará a pensar no que aconteceu à avó?

Os olhos de Júlia voltam a encher-se de lágrimas.

“Avó!”, soluça ela e corre para o quarto. Atira-se a chorar para cima da cama e esconde a cara na almofada. A mãe devia vir agora consolá-la, como a avó sempre costumava fazer! Mas a mãe não vem e Júlia acaba por adormecer.

Dois dias mais tarde, tem lugar o enterro da avó. Júlia queria ir ao cemitério. Gostava de ver o caixão e a sepultura onde a avó vai ser enterrada ao lado do avô, mas a mãe não deixa.

— Um enterro é uma coisa muito, muito triste — diz. — Demasiado triste para uma criança.

“Mas o que é que ela percebe de estar triste?”, pensa Júlia. Nem no enterro a mãe chora. Parece só muito pálida e magra com o fato preto, as meias de vidro e os sapatos pretos. E está cansada, muito mais cansada do que de costume. Deita-se imediatamente no sofá e sacode as perguntas de Júlia com um seco “Agora não, Júlia, por favor!”

Na manhã seguinte, a mãe não tem tempo nenhum para Júlia. Tem de estar no escritório mais cedo do que o costume, porque a espera um trabalho urgente.

— O teu pequeno-almoço está em cima da mesa. Promete-me que comes alguma coisa! — diz ela da porta.

Júlia promete. Mas quando se vê sozinha em frente do prato com as sandes, não consegue comer nada. Vai ao quarto da avó. Tudo parece triste e abandonado: a cama por usar, a cadeira vazia, o robe da avó no armário, dependurado numa cruzeta.

— Avó! — diz baixinho.

Se a avó aqui estivesse…

Mas Júlia podia ir visitar a campa da avó!

Apressa-se a ir buscar o casaco e põe-se a caminho.

A porta do cemitério não está trancada. Júlia abre-a e entra. Como tudo, de repente, ficou silencioso! E ninguém está ali, só ela. Sente-se um pouco perdida.

Além, junto do salgueiro grande, está a lápide do avô. Júlia pára em frente do pequeno monte ao lado da lápide do avô. É por debaixo daquele monte, por debaixo de todas aquelas flores e coroas que a avó está agora?

Júlia não acredita. Mas lá está o nome da avó na fita presa à coroa.

PARA A QUERIDA AVÓ, COMO ÚLTIMA LEMBRANÇA DA JÚLIA, lê ela num dos laços.

Foi a mãe que fez isto? Para a avó como última lembrança…

As lágrimas vêm-lhe aos olhos.

— Avó, porque estás tão longe? — soluça ela. — Volta! Eu gosto tanto de ti!

As folhas do salgueiro sussurram levemente. Júlia levanta a cabeça. Um sopro de vento acaricia-lhe a face – muito suavemente. A avó acariciava-a sempre assim!

— Avó, estás aqui? — pergunta.

As folhas voltam a sussurrar, baixinho e misteriosamente, como se tivessem uma mensagem para Júlia.

Em seguida, os ramos afastam-se e aparece uma figura. É uma criança com uma cara pálida, quase transparente.

— Quem és tu? — pergunta Júlia.

A criança sorri e começa a sussurrar uma melodia. É a melodia da caixa de música da avó!

— Conheces a minha avó? — a voz de Júlia treme.

— Sim — responde ela. — E vim até aqui porque quero ajudar-te.

— Ajudar-me? — pergunta Júlia.

— Eu sei que perdeste a tua avó — responde a criança. — Mas se quiseres muito, posso mostrar-te que, apesar disso, ela ainda está contigo.

— Oh, sim! — exclama Júlia.

— Então fecha os olhos!

Júlia fecha os olhos e ouve uma música suave: a melodia da avó.

— Abre agora os olhos — diz a criança.

Júlia pestaneja. Tudo ficou diferente. O céu tornou-se negro e, à sua frente, está um lago onde ardem inúmeras velas. As velas bóiam na água como ilhas de cera branca.

— Onde é que eu estou? — pergunta.

— Estás no Lago das Luzes da Vida — responde a criança.

— E a avó? Onde é que está a avó?

— Aqui só está a sua luz da vida — diz a criança.

Entra para um barco que está na margem do lago e faz sinal a Júlia.

— Anda!

Júlia segue-a, hesitante.

O barco desliza pelo lago, junto às velas, sem lhes tocar. Júlia olha em volta admirada. Algumas das velas bóiam na água sozinhas, outras estão todas juntas. E todas têm tamanhos diferentes: algumas parecem acabadas de acender, outras já arderam muito e outras já estão apagadas.

— Cada luz é a vida de uma pessoa — diz a criança. — Quando uma pessoa morre, a sua luz também morre.

— Então, todas as velas que já não estão a arder são… pessoas que morreram? — pergunta Júlia.

— Sim — responde a criança.

— E a luz da avó?

— Também já não está a arder.

O barco continua a vogar.

Júlia quase não se atreve a respirar com medo de apagar uma das luzes da vida.

— As chamas não se apagam — diz a criança suavemente.

— Apagam! — exclama Júlia. — Uma acabou agora mesmo de se apagar!

— Sim, mas não foi por nossa causa.

— Então ela não se apagou porque… a pessoa morreu?

— Sim.

— E as outras luzes que estão a tremer… Essas pessoas também vão morrer?

— Talvez sim, talvez não — responde a criança. — Quando uma pessoa adoece gravemente ou quando tem muitas aflições… então a sua luz começa a tremer.

— A luz da avó também tremeu?

— Sim. E até a tua!

— A minha luz também?

— Sim, ora olha: ainda está a tremer!

O barco pára.

— Como é que tu sabes qual é a minha luz? — pergunta Júlia.

— É a minha tarefa — responde a criança.

Aponta para uma ilha com quatro velas.

— Aquela ilha além é a tua ilha da vida. E a luz que está a tremer é a tua luz da vida.
Júlia sente um calafrio.

Na ilha, só há uma vela a arder calmamente e com força. Duas já se apagaram e a maior, a luz da vida de Júlia, tremula como numa corrente de ar.

— Está a tremer desde que a luz da vida da tua avó se extinguiu — diz a criança.

— É porque estou tão triste! — responde Júlia com a voz a tremer. — Porque tenho tantas saudades da avó!

— Mas a tua avó ainda está à tua beira — diz a criança. — A luz da vida dela ainda está ao lado da tua na ilha da vida.

— Avó! — murmura Júlia.

— Enquanto a amares, a sua luz da vida nunca se vai afundar — diz a criança.

— Afundar? — pergunta Júlia, assustada.

— Sim. Quando não houver ninguém que ame a tua avó… a luz da vida dela vai para o fundo do lago.

— Mas eu continuo a gostar da avó! — exclama Júlia.

— Eu sei — diz a criança. — Só porque gostas dela de todo o coração é que tive autorização para trazer-te até aqui e mostrar-te a ilha da vida e as luzes da vida.

— E a avó? — diz Júlia. — Levas-me até ela?

— Ainda não — responde a criança.

— Porque não?

— Só posso fazer isso quando a tua luz da vida também se tiver apagado.

— Então tu és… a morte? — pergunta Júlia.

— Tenho muitos nomes — diz a criança.

— Mas és uma criança!

— Apareço aos homens sob muitas formas.

Olha para Júlia e sorri.

— Não preciso de ter nenhum medo de ti! — diz Júlia.

Calam-se as duas por um momento.

— Ora olha! — diz a criança. — A tua luz da vida já não está a tremer!

E é verdade: a luz de Júlia arde calma e claramente como a da mãe. Júlia olha para as chamas.

De repente, começa a soar uma música. É a música da caixinha da avó.

— Agora fecha os olhos — disse a criança.

Júlia fecha os olhos. A música vai soando cada vez mais baixinho até que pára.

Volta a abrir os olhos. Está sozinha.

As flores e as coroas na campa cheiram bem – um cheiro doce e pesado, como o perfume da avó.

— Agora sei que continuas ao meu lado — diz Júlia baixinho.

Depois volta-se e vai embora.

Angela Sommer-Bodenburg
Julia bei den Lebenslichtern
München, C. Bertelsmann, 1989
Tradução e adaptação

Não é assustador? – Teatro

Não é assustador?

Podes prolongar as cenas.

Os diálogos foram pensados como deixas. Inventa mais algumas situações com os teus irmãos ou amigos antes de representares a cena final.

Personagens:

Tia Lençol Enrugado ( Fantasma de idade madura.)

Fantasminha (B isneto.)

Telechico ( Alguém que está sempre a ver televisão.)

Mal-Cheiroso e Rico ( Vendedores de automóveis.)

Ele e Ela (Um tímido casal de namorados.)

Outras personagens que tu inventares.

CENA I

Fantasminha ( Queixando-se.) Hiiii, hiiiii, tia Lençol Enrugado, hoje tenho um teste horrível à minha espera! Um exercício prático muito difícil, hiii! Escreva-me uma justificação por humidade nocturna com perda de voz, ou por nódoas contagiosas! Por favoooooor!

Tia Lençol Enrugado É um exercício de que género?

F. Vou ter de andar por fora durante duas horas, de preferência em zona habitada e em pleno anoitecer! Eu não consigo! E tenho de conseguir assustar pelo menos seis pessoas!

Tia L. E. Anda lá, não chores tanto. Assim gastas as tuas forças ainda antes de começares. Só se chora assim diante do público. Então, de que é que tens medo, Fantasminha? De não acertares logo com a dose certa para assustares? Que as pessoas desmaiem imediatamente? Bem, começa devagarinho. Primeiro só com uns suspiros…

F. ( Começa a suspirar baixinho para treinar.) Ui, ui, ai, ai… Assim, tia Lençol Enrugado?

L.E. Óptimo, Fantasminha, muito bem! Cabeça erguida, que tu consegues! Coragem! Eu acompanho-te um bocadinho até perto da cidade. A minha teia 230 GTI está à porta.

F. A tia podia ficar por perto?

L.E. Se isso te sossega, meu amorzinho…

CENA II

Telechico (Olhos fixos na televisão a mordiscar bolachas. Vai exprimindo a sua opinião sobre o que está a ver com resmungos, bufos e grunhidos.) Hum!, Rrr! Pfff! Humpf!

F. ( Esgueirando-se para dentro) A minha primeira vítima! Está sozinha, que maravilha! E a luz agradável daquela caixa, ali, aquele azul medonho, é a iluminação ideal para um fantasma ao entardecer. Bem, ao trabalho! (suspira baixo em vários tons de voz.)

T. ( Não se distrai uma única vez. Os humpf continuam mas para a televisão.)

F. Ele é surdo? (Assombra mais alto, faz mais ruídos, puxa a manga de Telechico, passa-lhe as mãos em frente da cara.)

T. O que é isto? Problemas com a imagem? ( roda o botão).

F. Uuui, uuuu… Não fez nada…  Uuuu, uuuu! Que esquisito! Eu a esforçar-me tanto e ele nem mexe uma orelha! Estou a sentir-me esquisito. Estou a… exacto, como é que estou a sentir-me? Será que ele está mesmo vivo? (Toma o pulso de T.) Sim, vivo está. Mas é um vivo esquisito. Se olhar mais tempo para ele, até fico com pele de galinha. Sinto-me a enfraquecer… deve ser assim que um humano se sente quando está aterrorizado…

T. ( Grita de repente.) Até que enfim! Dá-lhe! Outra! Zás!

F. ( A tremer.) Tia Lençol, estou com tanto medo!

(A tia entra com um rodopio e leva o sobrinho com ela.)

F. Eu já adivinhava! Não sou capaz!

L. E Ora, quem é que desiste logo à primeira?

CENA III

Os comerciantes Mal-Cheiroso e Rico estão a examinar os seus livros de contabilidade e murmuram números. Fantasminha luta pela sua atenção.

Mal-Cheiroso …Só subiram mais 0,9%…

Rico 3000, 4000, 5000…

M.C. – Precisamos de melhores frases publicitárias. Por exemplo: “Um terceiro automóvel para os seus tempos livres!”

Rico l milhão, 2 milhões…

F. – Eles não me sentem! Se nem um fantasma verdadeiro sentem… Uuuu, uuuu, uuuu!

Rico ( Apontando para o livro.) A concorrência anda aqui pelo meio a assombrar-nos…

M. C. Os Japoneses, com o seu novo modelo de mini-carro para a pré-escola… uma coisa de meter medo… (Olham os dois fixamente para o tecto como se estivessem a ver um fantasma.)

F. Está aí alguém? Por favor, está aí mais alguém? Colega, mostre-se, por favor… Ui… estou a sentir-me como há pouco… não aguento isto… não consigo mais… Tia Lençol… ( A boa tia lá aparece.) Outra vez! Eu sou um caso perdido!

L.E. ( Leva o pequeno com ela.) Não, claro que não és! Um fantasma nunca deve perder a esperança!

CENA IV

Conforme imaginares. Que tal duas senhoras chamadas Corta e Casaca, que indicam diligentemente o caminho às pessoas, ou que falam uma com a outra, ou então, que tal a Dreamy, a rapariga nova e bonita que, a cantar e a dançar, dedica toda a sua atenção ao walkman?

CENA V

(Num banco de jardim, um tímido casal de namorados. Fantasminha desliza até eles.)

F. São a minha última esperança! ( Suspira baixinho.)

Ele Disse alguma coisa, menina Carlota?

Ela Nnnão… pensei. No máximo, pensei…

Ele Por favor, volte a pensar!

F. ( Suspira alto. )

Ela Suspira assim porque está triste, Sr. Silva?

Ele Só suspiro por dentro, menina Carlota! (Fantasminha suspira.)

Ele e Ela: Ai! (Aproximam-se um do outro)

(Fantasminha geme e suspira alto.)

Ela Está aqui… o que é isto… aqui à nossa beira? Sente como estou a tremer?

F. ( Aliviado.) Bem, até que enfim! Uuuu!

Ela Joaquim, está aqui um fantasma!

Ele ( Puxa-a para si de forma que ela não ouve nem vê.) Eu tomo conta de ti, Carlota, para que não te aconteça nada… Estou aqui… estou aqui…

F. ( Tenta continuar a assustá-los mas os dois estão demasiado absorvidos.) Mesmo assim… para um começo não estive nada mal!… Ui, como eles estão com medo!… (quase carinhoso .) Estão tão embrenhados no seu medo… Oh, estão tão vivos… continuam com medo. Posso deixá-los à vontade. A tia Lençol vai elogiar-me!

(Dirigindo-se ao público.) Então, e vocês, se um dia vos fizer uma visita? Vou conseguir assustar-vos? Ao menos um bocadinho? Até estou com curiosidade. Adeus! Uuuu!

(Se o público for simpático, responde ao cumprimento com uuuu!)

Tradução e adaptação

Lene Mayer-Skumanz (org.)

Hoffentlich bald

Wien, Herder Verlag, 1986

O pequeno vampiro apaixonado

O pequeno vampiro apaixonado

Numa noite de lua cheia, ao sair para o escuro, como sempre fazia para não ser visto, o pequeno vampiro encontrou uma menina vestida de cor-de-rosa a sair de uma casa. Era noite de Natal. A menina tinha os olhos radiantes de felicidade como todas as crianças naquela noite. Trazia o seu mais belo vestido, cor-de-rosa com folhos, e estava a dançar no passeio. O pequeno vampiro tinha os dentes pontiagudos, a pele macilenta e um rosto triste, e ali ficou, de olhos arregalados, a admirar a alegria dela.

Desde o primeiro momento em que a vira, o pequeno vampiro não parava de suspirar. Era uma dor de alma. Queria voltar a vê-la. Não para lhe fazer mal. Apenas para lhe dar um beijinho no pescoço, um beijinho muito, muito pequenino. Mas o que pode esperar um vampiro negro de uma menina cor-de-rosa?

À noite, aproximava-se da casa de Rosina, assim se chamava ela, tentando voltar a vê-la. Mas só conseguia avistar uma menina a lavar os dentes, uns lindos dentinhos brancos como pérolas de nácar, a pentear-se ou a passar uma luva pela sua linda pele. Ou a dormir sorrindo, na sua cama cor-de-rosa. E o vampiro lembrava-se dos seus dentes compridos, da sua pele macilenta, das mãos recurvadas, e pensava: “Um pouco de cor-de-rosa no meu coração cinzento faria um rosa acinzentado que seria muito bonito.”

E escondia-se dentro da sua caixa escura, que é uma forma de os vampiros exprimirem a sua tristeza. As faces pareciam papel enrugado, os olhos reflectiam a tristeza que lhe ia na alma. Colocou um letreiro na caixa: “Desgosto de amor”.

A mãe dizia-lhe:

— Não te preocupes, meu bichaninho. Isto já sucedeu a outros: o príncipe e a pastora, o guardador de ovelhas e a princesa, o gato e a ratinha. Porque não um vampiro e uma menina?

— Oh! — suspirava ele. Como é triste estar-se apaixonado! Naquela noite, mais valia ter partido uma perna! Mexe com tudo cá dentro e não se pensa noutra coisa! Gostava tanto de estar com ela, de lhe falar, de lhe pegar nas mãozinhas rosadas, de a ouvir rir, de lhe ver o brilho dos olhos…

E ficava encostado às paredes do prédio, à noite, a espreitar pela janela, só para ver uma pontinha do tule rosa, o esboço de um sorriso, um pouco de céu azul.

E o pequeno vampiro sonhava, no seu cantinho de céu escuro. Um dia haviam de casar, ela vestida de branco, a menina cor-de-rosa, com os cabelos cheios de flores. Ele levaria um lindo fato creme, e os seus dentes seriam como pérolas. Mas, quando acordava, a vida era como antes. E dentro da sua caixa, dava largas à tristeza.

Tentou diferentes tácticas. Um dia pintou a cara de cor-de-rosa, outro dia escondeu os dedos em forma de garra numas luvas de pele de cordeiro. Fechou a boca a sete chaves para tapar os dois grandes caninos. Uma outra vez, pôs um nariz de palhaço no rosto macilento, mas ficava com um ar tão triste que até fazia chorar. Outro dia ainda, o pequeno vampiro aproximou-se um pouco mais da janela de Rosina. Foi terrível. Ela estava a ter um sonho mau. Chorava enquanto dormia, e gritava. Ele pensou: “É o momento de eu entrar em cena. De qualquer modo, nunca serei pior do que o pesadelo que está a ter”.

O pequeno vampiro entrou no quarto no preciso momento em que ela ia gritar “Mamã!”. Ao vê-lo, arregalou os olhos.

— O que estás aqui a fazer? — exclamou ela. — Como conseguiste entrar no meu quarto?

— Não tenhas medo — disse o pequeno vampiro a tremer. — Eu não faço mal a ninguém. Sou um vampiro simpático. Estou aqui para te ajudar. Não tires nem o dente de alho nem o crucifixo.

A menina desatou a rir às gargalhadas. Ria-se e de que maneira! Até as lágrimas lhe vieram aos olhos.

— O teu disfarce não serve de nada. Não és nenhum vampiro, és um rapaz!

O pequeno vampiro estava mesmo admirado. Em vez de gritar, ela ria-se e dizia que ele era como os outros!

— Eu conheço-te. Às vezes cruzo-me contigo na rua, ou então foi em sonhos, já te vi nalgum sítio — diz a menina. — Quando dizes que és um vampiro, estás enganado. Os vampiros são feios e tristes. Não têm olhos brilhantes como tu.

O pequeno vampiro sentiu que estava a ficar corado, uma mistura de rosa e cinzento. A menina fez uma careta quando ele lhe disse que tinha a cara cinzenta como papel enrugado, e fê-lo aproximar-se do espelho!

— Tens de te bronzear um bocadinho, meu caro, para ficares mais corado. Deve ser de estares fechado em casa, longe dos outros. Volta amanhã, que vamos brincar no jardim, ao sol.

O rapazinho viu, com grande espanto, a sua imagem no espelho.

Era a primeira vez.

— Julgava que os vampiros não podiam ver-se ao espelho.

— Às vezes — disse a menina — julgamos que somos vampiros, feios e cinzentos, mas é só impressão nossa.

E deu-lhe um beijo no nariz.

No dia seguinte, o rapazinho e a menina brincaram juntos no jardim. O pequeno vampiro adquiriu uma linda cor de pele, olhos brilhantes e cheios de luz. E os dentes, curiosamente, começaram a encolher, a encolher… Pareciam pérolas!

— Vês, eu bem te disse. Vês como tinha razão!

E riram-se juntos.

Assim acaba a história do menino que se julgava um vampiro feio. Ou, talvez, a de um vampiro verdadeiro, que se transformou num rapazinho só porque gostava de uma linda menina rosadinha.