A ovelhinha preta

jpEra uma vez um pastor que vivia muito longe nas montanhas. Tinha um cão-pastor chamado Piloto, que o ajudava a guardar as ovelhas.
Piloto guardava as ovelhas enquanto o pastor ficava sentado numa pedra a fazer malha. O pastor fazia meias, cachecóis, camisolas e cobertores, todos de pura lã, e vendia-os no mercado da aldeia.
Quando o pastor reparava que uma ovelha estava a afastar-se muito do rebanho, pegava num apito de madeira e dava uma curta apitadela. Era um sinal para o Piloto correr atrás da ovelha e trazê-la outra vez para junto das outras. Então o Piloto sentia-se muito importante.
Ao pôr do sol o pastor dava uma apitadela longa, e isto significava que o Piloto tinha de reunir as ovelhas e conduzi-las para o redil. À medida que as ovelhas iam saltando lá para dentro, o pastor contava-as para ter a certeza de que estavam todas.

Todas as ovelhas eram brancas, menos uma.
Havia uma ovelhinha preta. Continuar a ler

A caminho de Bombaim

 

A meio da noite, o macaco de Shoba, Patel, o Peludo, fez-lhe cócegas na face. Patel estava todo coberto de pelo, exceto num pedacinho da cauda, que Shoba utilizava como pega para o transportar.
— Temos de partir para Bombaim, hoje à noite — disse Patel. — A minha querida prima Poori casa-se amanhã.
— Adoro casamentos! — exclamou Shoba, que já tinha ido uma vez à Índia, com os pais, a bordo de um jumbo.
— Shh… — sussurrou Patel. — Este casamento é ultrassecreto. A presença de pessoas vulgares seria considerada extremamente inoportuna.
Shoba sabia que Patel era algo snobe. Contudo, antes que pudesse levantar objeções ao que ele dissera, já o macaco desenrolara um mapa da Índia. (…)

 

A fábula do velho cão

A fábula do velho cão

Uma velha senhora foi fazer um safari em África e levou consigo o seu velho cão. Um dia, enquanto caçava borboletas, o cão deu-se conta de que estava perdido. Enquanto vagueava em busca do caminho de regresso, reparou que um leopardo o vira e que caminhava na sua direção, com intenção, decerto, de o transformar em repasto.
O velho cão pensou “Estou metido em sarilhos!” Então, olhando em volta, viu que havia ossos espalhados pelo chão e pôs-se a roê-los, de costas voltadas para o predador. Quando o leopardo estava prestes a saltar sobre ele, o cão exclamou:
— Este leopardo estava delicioso! Haverá mais algum que se coma?
Ao ouvir isto, o leopardo desatou a fugir em direção às árvores, enquanto pensava Continuar a ler

A patinha e a doberman

Embora Jessie, a nossa Doberman preta de quase quarenta quilos, tivesse um ar ameaçador — rosnava sempre que via estranhos e atacava todas as criaturas que aparecessem no pátio das traseiras — era uma cadela extremamente leal e amorosa connosco. Apesar de querermos ter um outro cão, achávamos que a Jessie estava melhor sozinha, porque tínhamos medo de que a inveja a fizesse atacar um qualquer animal que trouxéssemos para casa.
Quando, um dia, o nosso filho Ricky trouxe um ovo da escola, pressentimos que ia haver sarilho. O ovo tinha a ver com um projeto que envolvia a incubação e o nascimento de patos. Como não o ovo não abrira na escola, o professor tinha deixado trazê-lo para casa. O meu marido e eu não pensávamos que o ovo abrisse fora da incubadora, mas deixámos que o Ricky ficasse com ele. O nosso filho colocou-o num pedaço de relva ao sol e ficou à espera.
Na manhã seguinte, acordámos com um guincho bizarro vindo do pátio das traseiras. Quando fomos ver o que se passava, a Jessie tinha o focinho colado ao bico de uma patinha cor de pêssego, acabada de nascer.
— A Jessie vai engoli-la viva! — gritei para o meu marido. — Agarra-a!
Mas o meu marido disse: Continuar a ler

Minha rica lã – Ant. Torrado

Minha rica lã

Esta ovelha está muito triste.

Veio o tosquiador e rape-rape-rape deixou-a sem pêlo.

Ela que tanto se orgulhava dos seus caracóis, ela tão cheia de si como uma senhora de casaco de peles, ela tão pesada e repolhuda, ficar assim por metade, nuazinha, envergonhada e tiritante, era caso de meter dó.

— Quero a minha lã — balia a ovelha tosquiada. Foi ter com o pastor.

— Eu não tenho culpa — disse-lhe ele. — Quem arrecadou a tua lã foi o cardador.

A ovelha foi ter com o cardador que se encarrega de limpar, separar e desfibrar a lã tosquiada.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não é da minha conta — disse o cardador. — A fiandeira levou toda a cardação.

A ovelha foi ter com a fiandeira que torce os fios, de maneira a que fiquem consistentes e de espessura uniforme.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não a tenho comigo — disse a fiandeira. — O tecelão levou o novelo todo.

A ovelha foi ter com o tecelão que cruza e entrelaça os fios no tear, para formar o tecido.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não está nas minhas mãos — disse o tecelão. — O dono da fábrica de confecções levou a peça de fazenda com ele.

A ovelha foi ter à fábrica de confecções, onde são cortadas, moldadas e cosidas as fazendas, vindas da fábrica de tecelagem.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha ao capataz da fábrica de confecções.

— Já não é comigo — disse o capataz. — As costureiras fizeram casacos de lã, que os lojistas compraram.

A ovelha dera voltas e voltas. Estava cansada. Perdera muito tempo, à procura da sua rica lã. De um lado para outro demorara meses, na sua busca. O que uma ovelha passa, quando se lhe mete uma ideia na cabe-ça. Mas não era hora de desistir.

Foi ter a uma loja de roupas.

Atendeu-a um caixeiro muito delicado:

— Vossa Excelência o que deseja?

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Vossa Excelência deseja a lã da mesma cor daquela que usa ou tem outra preferência? — perguntou o caixeiro.

Só então a ovelha, ao passar os olhos por um dos espelhos da loja, é que reparou em si. Estava toda coberta de lã, tal e qual como antes de ter sido tosquiada.

— Afinal já estou servida, obrigada — disse a ovelha, mais tranquila. E saiu da loja com o seu próprio carrego de lã.

António Torrado
Trinta por uma linha
Porto, Civilização Editora, 2008

Flor de Água – Marcelino Truong

Flor de Água

Havia outrora, na região vietnamita de Anam, um belo porto onde as embarcações vinham abrigar-se após as longas travessias do Mar da China.

Numa das ruelas do porto, situava-se a modesta loja de uma família de artesãos, na qual estes confeccionavam lampiões multicolores há já muitas gerações.

Nela viviam o jovem Oceano, a sua mulher, Reflexo da Lua, e a mãe desta, Dona Ameixa. Viviam os três em harmonia e apenas uma nuvem toldava o céu da sua felicidade.

Casados há bastante tempo, o jovem casal sonhava com um bebé de quem cuidar. E Dona Ameixa ansiava por conhecer as alegrias de ser avó. Porém, a criança tardava…

A afeição desta humilde gente recaía, então, num pássaro cor de fuligem, um animal quase mágico. Chamava-se Glu-Glu, porque imitava com perfeição o gorgolejar de Oceano quando este lavava os dentes.

Quando lhe apetecia, Glu-Glu falava. Ou seja, repetia palavras e ruídos que ouvia em seu redor. E diga-se de passagem que conhecia algumas palavras bastante desagradáveis: “Estúpida!”, “Palerma!”, “Gordo!” e “Cocó!”

Certa manhã, Reflexo de Lua pôs ao ombro uma canga carregada de lampiões que ia vender no mercado da aldeia vizinha. Glu-Glu, que gostava de passear, acompanhou-a, repetindo as suas palavras favoritas sempre que cruzava alguém na estrada. Todos se riam.

Durante a sua caminhada, Reflexo de Lua olhava as jovens mães com pena. À saída do porto, parou diante de um pequeno altar, dedicado a Quan Âm, a Deusa Celeste. Com pauzinhos de incenso entre as mãos unidas, murmurou esta oração: “Suplico-te, Deusa Celeste, concede-nos a alegria de acolher uma criança no nosso lar!” Enquanto murmurava estas palavras, o incenso ascendia ao céu em espirais perfumadas…

No mercado, havia muita gente. Os lampiões de Reflexo de Lua vendiam-se bem. Glu-Glu fazia o seu número e a bolsa da dona enchia-se depressa.

A dois passos de ali, dois malfeitores planeavam um golpe, sentados num banco da vendedeira de chá verde.

— Já viste a massa que ela juntou? E o que podemos ganhar com aquele pássaro esperto? — dizia um.

— Vamos preparar-lhe uma bela surpresa — sugeriu o outro.

Quando Reflexo de Lua empreendeu o caminho de regresso a casa, já a lua estendia o seu leque de lantejoulas sobre o mar.

— Vamos depressa! — disse a Glu-Glu, que repetiu “Vamos depressa, palerma!”

No meio do caminho deserto, duas sombras precipitaram-se sobre a mulher e atiraram-na ao chão. Um dos homens roubou-lhe a bolsa, enquanto o outro enfiava o pássaro num saco de juta. Uma voz metálica ergueu-se do fundo do saco bradando “Seu cocó!”

Os dois ladrões desapareceram na noite. Reflexo de Lua levantou-se e viu a gaiola vazia.

— Esperem! Levem ao menos a gaiola! O pássaro vai sentir-se mal dentro do saco!

Mas os bandidos fizeram ouvidos de mercador e mesmo a voz metálica de Glu-Glu deixou de ouvir-se.

A vida continuou o seu ritmo na loja. Oceano e Dona Ameixa ficaram felizes por ver que Reflexo de Lua não tinha sido ferida, mas a loja estava demasiado calma sem o incessante palrar de Glu-Glu…

Algumas semanas mais tarde, Oceano e Reflexo de Lua viajaram até à velha cidade imperial, Hué. Junto do Rio dos Perfumes, ficava o pagode da Deusa Celeste, que operava grandes milagres. Quem sabe se lhes concederia o desejo de um filho…

Enquanto isto, numa velha casa arruinada, no meio dos arrozais, os dois malfeitores estavam exasperados com o pássaro e gritavam insultos um ao outro, que Glu-Glu se encarregava de repetir, o que aumentava ainda mais a confusão.

Depois de uma viagem de vários dias, o jovem casal, envolto numa nuvem de incenso, pôde enfim suplicar:

— Deusa cheia de bondade, concede-nos a felicidade de acolher uma criança na nossa humilde casa.

E a Deusa pareceu sorrir para eles…

Deixaram o pagode, cheios da esperança que o sorriso da Deusa lhes transmitira. No caminho de regresso a casa, ouviram uma voz familiar que dizia:

— Cabeça de burro! Estúpido! Palerma! Gordo!

As exclamações vinham de dentro de uma loja de pássaros. Um velho barbudo gesticulava e ameaçava a ave:

— Ou te calas ou prego-te o bico!

O casal aproximou-se e Glu-Glu, cheio de alegria porque os reconhecera, saltou no poleiro.

Ao ver que o casal se interessava pelo pássaro, o velho exclamou:

— Como ele parece gostar de vós, levai-o convosco. É um favor que me fazeis…

O vendedor abriu a gaiola e deu o animal a Oceano. Tinha-o comprado a dois meliantes que tinham pressa em desembaraçar-se dele. Como os compreendia agora!

Os esposos agradeceram e libertaram Glu-Glu, que lhes fez uma festa.

Alguns meses após a peregrinação ao santuário, o ventre de Reflexo de Lua ficou redondinho como um lampião. O marido e a mãe cumularam-na de atenções. Até o pássaro se calava sempre que percebia que ela precisava de repousar.

Quando caiu a chuva das primeiras monções, nasceu uma menina na loja dos lampiões. A Dona Ameixa coube a honra de escolher um nome para a criança.

— Esta criança foi-nos dada pelo céu como se fosse uma flor das monções. Chamar-lhe-emos Flor de Água. Louvemos a Deusa Celeste pela sua infinita bondade!

— Flor de Água! Flor de Água! — repetiu Glu-Glu, encantado.

E desde esse dia que todos viveram felizes no meio dos lampiões e das lanternas.

Marcelino Truong
Fleur d’eau
Paris, Gautier-Languereau, 2003
(Tradução e adaptação)

O coelhinho de orelhas azuis

Era uma vaez um coelhinho que tinha orelhas azuis da cor do céu. Quando reparou que os outros coelhos não tinham as orelhas da mesma cor, ficou muito envergonhado. Deixou de brincar com eles e preferiu estar sozinho.
O único amigo que tinha era a lua que aparecia no céu, à noite. O coelhinho contava-lhe toda a sua tristeza, mas a lua nunca lhe respondia. Por isso, decidiu sair dali e procurar um sítio onde ninguém o conhecesse. Mas, para onde quer que fosse, todos ficavam admirados com as suas orelhas azuis e riam-se dele. “O meu lugar não é aqui, e a culpa é das minhas orelhas azuis.”
Um dia, ao passar em frente de uma casa, encontrou no chão o chapéu de um limpa-
-chaminés. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu. Aprendeu a subir às chaminés, a trabalhar com a vassoura e a limpar os fogões.
— Agora pertenço à corporação dos limpa-chaminés — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, o chapéu ficou-lhe preso na chaminé e os outros limpa-chaminés viram as suas orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
— Não és um limpa-chaminés a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Depois, encontrou um chapéu de cozinheiro em frente de um restaurante. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu de cozinheiro. Aprendeu a manusear uma frigideira, a cozinhar legumes e a assar carne.
— Agora faço parte da corporação dos cozinheiros — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, o chapéu voou-lhe para a sopa e os outros cozinheiros viram as suas orelhas azuis. Começaram então a rir e a gritar:
— Tu não és um cozinheiro a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Em frente de uma casa, encontrou então um chapéu de jardineiro. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu de jardineiro. Aprendeu a cavar, a plantar árvores e a cuidar de flores.
— Agora pertenço à corporação dos jardineiros — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, uma forte rajada de vento arrancou-lhe o chapéu da cabeça e os outros jardineiros viram-lhe as orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
— Tu não és um jardineiro a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Ao passar diante de um circo, encontrou o chapéu de um palhaço. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as suas orelhas debaixo do chapéu de palhaço. No circo, aprendeu a tropeçar nos próprios pés e a fazer caretas.
— Agora pertenço à corporação dos palhaços — disse o coelhinho.
Até que um dia, um macaco lhe roubou o chapéu da cabeça e os outros palhaços viram as suas orelhas azuis. Começaram a rir e a gritar:
— Tu não és um palhaço a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Certa vez encontrou, debaixo de uma ponte, o chapéu de um vagabundo. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu de vagabundo. Aprendeu a ser preguiçoso, a deitar-se à sombra, e a sonhar durante o dia.
— Agora faço parte da corporação dos vagabundos.
Mas, certo dia, o rio levou-lhe o chapéu e os outros vagabundos viram as suas orelhas azuis.
— Tu não és um vagabundo a sério!
Então o coelhinho não quis continuar a fugir nem usar mais nenhum chapéu. Sentou-se à beira de um regato no meio de um bosque.
— Não sou um limpa-chaminés a sério, nem um cozinheiro, nem um jardineiro, nem um palhaço, e também não sou um vagabundo. Afinal, quem sou eu?
Nesse momento, a lua apareceu no céu e transformou o regato num espelho. Aí, o coelhinho descobriu outro coelhinho, ele mesmo. E o coelho tinha orelhas azuis. Quanto mais olhava para si à luz da lua, mais gostava daquelas orelhas, das suas orelhas. Até que, de repente, descobriu: a culpa da sua infelicidade não eram as orelhas, mas sim o facto de ter sentido vergonha delas.
O coelhinho desatou a correr, e só a lua o acompanhava. Pelo caminho, encontrou os vagabundos, os palhaços, os jardineiros, os cozinheiros e os limpa-chaminés. A todos mostrou, com orgulho, as suas orelhas azuis e ninguém pensou em rir-se delas.
E o coelhinho ficou contente com tudo o que tinha aprendido: a subir à chaminé, a trabalhar com a vassoura, a limpar fogões, a segurar uma frigideira, a cozinhar legumes, a assar carne, a cavar a terra, a plantar árvores, a cuidar de flores, a tocar trompete, a tropeçar nos próprios pés, a fazer caretas, a preguiçar, a deitar-se à sombra e a sonhar. Continuar a ler