Simbo e o Rei Falador

Era uma vez um lindo camaleão que vivia numa ilha do Pacífico.

A pele do animal mudava de cor conforme o lugar onde se encontrasse: no alto de um ramo ficava castanho; se descansava entre as folhas de uma árvore, fazia-se verde; se quisesse caçar e subisse para cima de uma pedra, tornava-se da cor da pedra…

E assim podia enganar os insetos que pousavam à sua beira e eram comidos.

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A ovelhinha preta

jpEra uma vez um pastor que vivia muito longe nas montanhas. Tinha um cão-pastor chamado Piloto, que o ajudava a guardar as ovelhas.
Piloto guardava as ovelhas enquanto o pastor ficava sentado numa pedra a fazer malha. O pastor fazia meias, cachecóis, camisolas e cobertores, todos de pura lã, e vendia-os no mercado da aldeia.
Quando o pastor reparava que uma ovelha estava a afastar-se muito do rebanho, pegava num apito de madeira e dava uma curta apitadela. Era um sinal para o Piloto correr atrás da ovelha e trazê-la outra vez para junto das outras. Então o Piloto sentia-se muito importante.
Ao pôr do sol o pastor dava uma apitadela longa, e isto significava que o Piloto tinha de reunir as ovelhas e conduzi-las para o redil. À medida que as ovelhas iam saltando lá para dentro, o pastor contava-as para ter a certeza de que estavam todas.

Todas as ovelhas eram brancas, menos uma.
Havia uma ovelhinha preta. Continuar a ler

A fábula do velho cão

A fábula do velho cão

Uma velha senhora foi fazer um safari em África e levou consigo o seu velho cão. Um dia, enquanto caçava borboletas, o cão deu-se conta de que estava perdido. Enquanto vagueava em busca do caminho de regresso, reparou que um leopardo o vira e que caminhava na sua direção, com intenção, decerto, de o transformar em repasto.
O velho cão pensou “Estou metido em sarilhos!” Então, olhando em volta, viu que havia ossos espalhados pelo chão e pôs-se a roê-los, de costas voltadas para o predador. Quando o leopardo estava prestes a saltar sobre ele, o cão exclamou:
— Este leopardo estava delicioso! Haverá mais algum que se coma?
Ao ouvir isto, o leopardo desatou a fugir em direção às árvores, enquanto pensava Continuar a ler

A patinha e a doberman

Embora Jessie, a nossa Doberman preta de quase quarenta quilos, tivesse um ar ameaçador — rosnava sempre que via estranhos e atacava todas as criaturas que aparecessem no pátio das traseiras — era uma cadela extremamente leal e amorosa connosco. Apesar de querermos ter um outro cão, achávamos que a Jessie estava melhor sozinha, porque tínhamos medo de que a inveja a fizesse atacar um qualquer animal que trouxéssemos para casa.
Quando, um dia, o nosso filho Ricky trouxe um ovo da escola, pressentimos que ia haver sarilho. O ovo tinha a ver com um projeto que envolvia a incubação e o nascimento de patos. Como não o ovo não abrira na escola, o professor tinha deixado trazê-lo para casa. O meu marido e eu não pensávamos que o ovo abrisse fora da incubadora, mas deixámos que o Ricky ficasse com ele. O nosso filho colocou-o num pedaço de relva ao sol e ficou à espera.
Na manhã seguinte, acordámos com um guincho bizarro vindo do pátio das traseiras. Quando fomos ver o que se passava, a Jessie tinha o focinho colado ao bico de uma patinha cor de pêssego, acabada de nascer.
— A Jessie vai engoli-la viva! — gritei para o meu marido. — Agarra-a!
Mas o meu marido disse: Continuar a ler

Minha rica lã – Ant. Torrado

Minha rica lã

Esta ovelha está muito triste.

Veio o tosquiador e rape-rape-rape deixou-a sem pêlo.

Ela que tanto se orgulhava dos seus caracóis, ela tão cheia de si como uma senhora de casaco de peles, ela tão pesada e repolhuda, ficar assim por metade, nuazinha, envergonhada e tiritante, era caso de meter dó.

— Quero a minha lã — balia a ovelha tosquiada. Foi ter com o pastor.

— Eu não tenho culpa — disse-lhe ele. — Quem arrecadou a tua lã foi o cardador.

A ovelha foi ter com o cardador que se encarrega de limpar, separar e desfibrar a lã tosquiada.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não é da minha conta — disse o cardador. — A fiandeira levou toda a cardação.

A ovelha foi ter com a fiandeira que torce os fios, de maneira a que fiquem consistentes e de espessura uniforme.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não a tenho comigo — disse a fiandeira. — O tecelão levou o novelo todo.

A ovelha foi ter com o tecelão que cruza e entrelaça os fios no tear, para formar o tecido.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Já não está nas minhas mãos — disse o tecelão. — O dono da fábrica de confecções levou a peça de fazenda com ele.

A ovelha foi ter à fábrica de confecções, onde são cortadas, moldadas e cosidas as fazendas, vindas da fábrica de tecelagem.

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha ao capataz da fábrica de confecções.

— Já não é comigo — disse o capataz. — As costureiras fizeram casacos de lã, que os lojistas compraram.

A ovelha dera voltas e voltas. Estava cansada. Perdera muito tempo, à procura da sua rica lã. De um lado para outro demorara meses, na sua busca. O que uma ovelha passa, quando se lhe mete uma ideia na cabe-ça. Mas não era hora de desistir.

Foi ter a uma loja de roupas.

Atendeu-a um caixeiro muito delicado:

— Vossa Excelência o que deseja?

— Quero a minha lã — exigiu a ovelha.

— Vossa Excelência deseja a lã da mesma cor daquela que usa ou tem outra preferência? — perguntou o caixeiro.

Só então a ovelha, ao passar os olhos por um dos espelhos da loja, é que reparou em si. Estava toda coberta de lã, tal e qual como antes de ter sido tosquiada.

— Afinal já estou servida, obrigada — disse a ovelha, mais tranquila. E saiu da loja com o seu próprio carrego de lã.

António Torrado
Trinta por uma linha
Porto, Civilização Editora, 2008

Flor de Água – Marcelino Truong

Flor de Água

Havia outrora, na região vietnamita de Anam, um belo porto onde as embarcações vinham abrigar-se após as longas travessias do Mar da China.

Numa das ruelas do porto, situava-se a modesta loja de uma família de artesãos, na qual estes confeccionavam lampiões multicolores há já muitas gerações.

Nela viviam o jovem Oceano, a sua mulher, Reflexo da Lua, e a mãe desta, Dona Ameixa. Viviam os três em harmonia e apenas uma nuvem toldava o céu da sua felicidade.

Casados há bastante tempo, o jovem casal sonhava com um bebé de quem cuidar. E Dona Ameixa ansiava por conhecer as alegrias de ser avó. Porém, a criança tardava…

A afeição desta humilde gente recaía, então, num pássaro cor de fuligem, um animal quase mágico. Chamava-se Glu-Glu, porque imitava com perfeição o gorgolejar de Oceano quando este lavava os dentes.

Quando lhe apetecia, Glu-Glu falava. Ou seja, repetia palavras e ruídos que ouvia em seu redor. E diga-se de passagem que conhecia algumas palavras bastante desagradáveis: “Estúpida!”, “Palerma!”, “Gordo!” e “Cocó!”

Certa manhã, Reflexo de Lua pôs ao ombro uma canga carregada de lampiões que ia vender no mercado da aldeia vizinha. Glu-Glu, que gostava de passear, acompanhou-a, repetindo as suas palavras favoritas sempre que cruzava alguém na estrada. Todos se riam.

Durante a sua caminhada, Reflexo de Lua olhava as jovens mães com pena. À saída do porto, parou diante de um pequeno altar, dedicado a Quan Âm, a Deusa Celeste. Com pauzinhos de incenso entre as mãos unidas, murmurou esta oração: “Suplico-te, Deusa Celeste, concede-nos a alegria de acolher uma criança no nosso lar!” Enquanto murmurava estas palavras, o incenso ascendia ao céu em espirais perfumadas…

No mercado, havia muita gente. Os lampiões de Reflexo de Lua vendiam-se bem. Glu-Glu fazia o seu número e a bolsa da dona enchia-se depressa.

A dois passos de ali, dois malfeitores planeavam um golpe, sentados num banco da vendedeira de chá verde.

— Já viste a massa que ela juntou? E o que podemos ganhar com aquele pássaro esperto? — dizia um.

— Vamos preparar-lhe uma bela surpresa — sugeriu o outro.

Quando Reflexo de Lua empreendeu o caminho de regresso a casa, já a lua estendia o seu leque de lantejoulas sobre o mar.

— Vamos depressa! — disse a Glu-Glu, que repetiu “Vamos depressa, palerma!”

No meio do caminho deserto, duas sombras precipitaram-se sobre a mulher e atiraram-na ao chão. Um dos homens roubou-lhe a bolsa, enquanto o outro enfiava o pássaro num saco de juta. Uma voz metálica ergueu-se do fundo do saco bradando “Seu cocó!”

Os dois ladrões desapareceram na noite. Reflexo de Lua levantou-se e viu a gaiola vazia.

— Esperem! Levem ao menos a gaiola! O pássaro vai sentir-se mal dentro do saco!

Mas os bandidos fizeram ouvidos de mercador e mesmo a voz metálica de Glu-Glu deixou de ouvir-se.

A vida continuou o seu ritmo na loja. Oceano e Dona Ameixa ficaram felizes por ver que Reflexo de Lua não tinha sido ferida, mas a loja estava demasiado calma sem o incessante palrar de Glu-Glu…

Algumas semanas mais tarde, Oceano e Reflexo de Lua viajaram até à velha cidade imperial, Hué. Junto do Rio dos Perfumes, ficava o pagode da Deusa Celeste, que operava grandes milagres. Quem sabe se lhes concederia o desejo de um filho…

Enquanto isto, numa velha casa arruinada, no meio dos arrozais, os dois malfeitores estavam exasperados com o pássaro e gritavam insultos um ao outro, que Glu-Glu se encarregava de repetir, o que aumentava ainda mais a confusão.

Depois de uma viagem de vários dias, o jovem casal, envolto numa nuvem de incenso, pôde enfim suplicar:

— Deusa cheia de bondade, concede-nos a felicidade de acolher uma criança na nossa humilde casa.

E a Deusa pareceu sorrir para eles…

Deixaram o pagode, cheios da esperança que o sorriso da Deusa lhes transmitira. No caminho de regresso a casa, ouviram uma voz familiar que dizia:

— Cabeça de burro! Estúpido! Palerma! Gordo!

As exclamações vinham de dentro de uma loja de pássaros. Um velho barbudo gesticulava e ameaçava a ave:

— Ou te calas ou prego-te o bico!

O casal aproximou-se e Glu-Glu, cheio de alegria porque os reconhecera, saltou no poleiro.

Ao ver que o casal se interessava pelo pássaro, o velho exclamou:

— Como ele parece gostar de vós, levai-o convosco. É um favor que me fazeis…

O vendedor abriu a gaiola e deu o animal a Oceano. Tinha-o comprado a dois meliantes que tinham pressa em desembaraçar-se dele. Como os compreendia agora!

Os esposos agradeceram e libertaram Glu-Glu, que lhes fez uma festa.

Alguns meses após a peregrinação ao santuário, o ventre de Reflexo de Lua ficou redondinho como um lampião. O marido e a mãe cumularam-na de atenções. Até o pássaro se calava sempre que percebia que ela precisava de repousar.

Quando caiu a chuva das primeiras monções, nasceu uma menina na loja dos lampiões. A Dona Ameixa coube a honra de escolher um nome para a criança.

— Esta criança foi-nos dada pelo céu como se fosse uma flor das monções. Chamar-lhe-emos Flor de Água. Louvemos a Deusa Celeste pela sua infinita bondade!

— Flor de Água! Flor de Água! — repetiu Glu-Glu, encantado.

E desde esse dia que todos viveram felizes no meio dos lampiões e das lanternas.

Marcelino Truong
Fleur d’eau
Paris, Gautier-Languereau, 2003
(Tradução e adaptação)

O coelhinho de orelhas azuis

Era uma vaez um coelhinho que tinha orelhas azuis da cor do céu. Quando reparou que os outros coelhos não tinham as orelhas da mesma cor, ficou muito envergonhado. Deixou de brincar com eles e preferiu estar sozinho.
O único amigo que tinha era a lua que aparecia no céu, à noite. O coelhinho contava-lhe toda a sua tristeza, mas a lua nunca lhe respondia. Por isso, decidiu sair dali e procurar um sítio onde ninguém o conhecesse. Mas, para onde quer que fosse, todos ficavam admirados com as suas orelhas azuis e riam-se dele. “O meu lugar não é aqui, e a culpa é das minhas orelhas azuis.”
Um dia, ao passar em frente de uma casa, encontrou no chão o chapéu de um limpa-
-chaminés. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu. Aprendeu a subir às chaminés, a trabalhar com a vassoura e a limpar os fogões.
— Agora pertenço à corporação dos limpa-chaminés — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, o chapéu ficou-lhe preso na chaminé e os outros limpa-chaminés viram as suas orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
— Não és um limpa-chaminés a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Depois, encontrou um chapéu de cozinheiro em frente de um restaurante. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu de cozinheiro. Aprendeu a manusear uma frigideira, a cozinhar legumes e a assar carne.
— Agora faço parte da corporação dos cozinheiros — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, o chapéu voou-lhe para a sopa e os outros cozinheiros viram as suas orelhas azuis. Começaram então a rir e a gritar:
— Tu não és um cozinheiro a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Em frente de uma casa, encontrou então um chapéu de jardineiro. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu de jardineiro. Aprendeu a cavar, a plantar árvores e a cuidar de flores.
— Agora pertenço à corporação dos jardineiros — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, uma forte rajada de vento arrancou-lhe o chapéu da cabeça e os outros jardineiros viram-lhe as orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
— Tu não és um jardineiro a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Ao passar diante de um circo, encontrou o chapéu de um palhaço. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as suas orelhas debaixo do chapéu de palhaço. No circo, aprendeu a tropeçar nos próprios pés e a fazer caretas.
— Agora pertenço à corporação dos palhaços — disse o coelhinho.
Até que um dia, um macaco lhe roubou o chapéu da cabeça e os outros palhaços viram as suas orelhas azuis. Começaram a rir e a gritar:
— Tu não és um palhaço a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Certa vez encontrou, debaixo de uma ponte, o chapéu de um vagabundo. “É exatamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas debaixo do chapéu de vagabundo. Aprendeu a ser preguiçoso, a deitar-se à sombra, e a sonhar durante o dia.
— Agora faço parte da corporação dos vagabundos.
Mas, certo dia, o rio levou-lhe o chapéu e os outros vagabundos viram as suas orelhas azuis.
— Tu não és um vagabundo a sério!
Então o coelhinho não quis continuar a fugir nem usar mais nenhum chapéu. Sentou-se à beira de um regato no meio de um bosque.
— Não sou um limpa-chaminés a sério, nem um cozinheiro, nem um jardineiro, nem um palhaço, e também não sou um vagabundo. Afinal, quem sou eu?
Nesse momento, a lua apareceu no céu e transformou o regato num espelho. Aí, o coelhinho descobriu outro coelhinho, ele mesmo. E o coelho tinha orelhas azuis. Quanto mais olhava para si à luz da lua, mais gostava daquelas orelhas, das suas orelhas. Até que, de repente, descobriu: a culpa da sua infelicidade não eram as orelhas, mas sim o facto de ter sentido vergonha delas.
O coelhinho desatou a correr, e só a lua o acompanhava. Pelo caminho, encontrou os vagabundos, os palhaços, os jardineiros, os cozinheiros e os limpa-chaminés. A todos mostrou, com orgulho, as suas orelhas azuis e ninguém pensou em rir-se delas.
E o coelhinho ficou contente com tudo o que tinha aprendido: a subir à chaminé, a trabalhar com a vassoura, a limpar fogões, a segurar uma frigideira, a cozinhar legumes, a assar carne, a cavar a terra, a plantar árvores, a cuidar de flores, a tocar trompete, a tropeçar nos próprios pés, a fazer caretas, a preguiçar, a deitar-se à sombra e a sonhar. Continuar a ler

A história da gata Sapinha – Inácio Pignatelli

Inácio Pignatelli

O pastor de nuvens e outras histórias

Lisboa, Editorial Verbo, 1985

 

 

A ternura é assim como uma coisa que se sente quando olhamos para alguém ou nos olham de um modo muito carinhoso, quando dizemos ou nos dizem palavras amigas iguais às que esperávamos, quando nos fazem, por exemplo, uma festa no cabelo. A mãe que aperta o filho pequenino nos braços fá-lo com ternura. Ou, quando a um canto do recreio vemos um amigo com ar triste e o vamos buscar, lhe pomos a mão nos ombros e o trazemos para que não esteja sozinho nem triste, isso é ternura. Uma palavra muito bonita.

A ternura é assim como uma daquelas fadas das histórias que ouvimos contar e ficamos a pensar se existe. Daquelas que com um toque de varinha mágica tudo mudam. Mas a ternura existe mesmo, é uma fada real. Se quiséssemos desenhá-la, teríamos de desenhar uma rapariga pequena, porque a ternura dá muita importância às coisas pequeninas que só se vêem se uma pessoa estiver com muita atenção. Se não, não se vê nada. Por isso, ela tem os olhos muito abertos, os ouvidos à escuta e na boca um sorriso. Ternura.

Tudo isto para vos contar esta história. É que foi com certeza a pensar na ternura, nessa pequena fada tão importante na nossa vida, que o Miguel, um dia de manhã, no quarto dos pais (ele costumava todos os dias ir até lá um bocadinho), disse para a mãe:

— Sabes, mãe, eu gostava de ter era um bichinho de pêlo.

A mãe achou muita graça àquilo e ao mesmo tempo ficou admirada, e o pai que estava a dormitar ouviu também.

— Um bichinho de pêlo?! Para que é que tu queres um bichinho de pêlo?

Mas o Miguel não explicou logo.

— Sim — disse ele —, eu gostava tanto! Um bichinho de pêlo só para mim.

O Miguel morava no terceiro andar de um prédio alto, um desses prédios de cimento, e tinha mais cinco irmãos além de outros quatro que não moravam ali. Era muita gente, mas davam-se todos muito bem. O que é, é que o Miguel era o mais pequeno, tinha só nove anos, e fazia uma grande diferença dos outros que tinham 16… 17… 19… 21… E por isso, com essa gente de muitos mais anos, nem sempre era fácil conversar. Mas com um bichinho de pêlo, pequeno como ele…, pensava o Miguel.

A mãe contou aos outros irmãos o desejo do Miguel e todos acharam graça. E os dias passaram, até que o Acaso (o Acaso é assim um senhor que não se vê mas que intervém às vezes na nossa vida, sobretudo se desejamos muito uma coisa e pensamos nela) interveio.

Um dia, ao fim da tarde, estava a mãe do Miguel na cozinha a preparar o jantar e as irmãs no quarto a prepararem as lições para o dia seguinte, quando sorridente o Miguel entrou em casa seguido dos amigos, o To, o Paulo e o Paulito. Vinham todos afogueados de correr e ao mesmo tempo entusiasmados, pois traziam com eles um gato muito pequeno e magricela de pêlo castanho e olhinhos verdes.

— Mãe! Mãe! — chamou o Miguel.

— Que é? — disse a mãe, vindo à sala ter com ele.

— Olha o que nós encontrámos! — e mostrava a mão que segurava o gato. Ao princípio a mãe zangou-se:

— Não vais trazer isso aqui para casa, pois não? Já tenho muito que limpar e o gato ainda daria mais trabalho.

A mãe dava aulas e ainda tinha de arrumar a casa e fazer o comer. Mas o Miguel, todo contente com o seu achado, pediu, pediu: «Ele não suja! — disse. — Deixa lá, mãe» teimou, e até os amigos pela voz do Tó (o Tó tinha em tempos escrito um postal ao Miguel a dizer que ele era o seu melhor amigo, que a seguir vinham o Paulo e o Paulito, mas que não tinha últimos amigos) intercederam junto à mãe do Miguel:

— Nós ajudamos a tratar dele. Limpamos o que ele sujar.

E perante esta embaixada tão insistente, as sobrancelhas da mãe do Miguel ergueram-se e ela sorriu. E o Miguel sabia bem o significado daquele sorriso, isto é, foi logo arranjar um pratinho de leite para o gato. Um bichinho de pêlo.

E o gato ficou. «É uma gata — explicava o Miguel às irmãs — e chama-se Sapinha.» Elas riram-se «Sapinha! Ela que se livrasse de ir para o nosso quarto sujar!», ainda disse a irmã do meio. Mas o Miguel não ligou. Ele sabia que iria proteger o seu bichinho de pêlo. Ao princípio, a Sapinha tinha medo das pessoas e metia-se debaixo dos móveis. Não se atrevia a deitar a cabeça de fora e era preciso ir lá buscá-la. Estava num meio estranho, desconhecido. Foi preciso dar-lhe um banho para que o seu pêlo castanho ficasse limpo, cor de mel, e papo branco. Mas a pouco e pouco, com os mimos todos que lhe faziam, foi ganhando confiança e conhecendo os cantos à casa e os olhos às pessoas. Gostava de ir para a varanda, empoleirar-se ao sol no parapeito, a olhar para baixo para o pátio ou para as casa e campos em frente, a cheirar as sardinheiras dos vasos, a seguir o voo das moscas. Tudo o que mexia era para ela motivo de atenção. Punha-se logo em posição de ataque, de pernas duras a preparar o salto. À noite o Miguel levava-a para a sua cama que era no cimo de um beliche, fazia-lhe festas sem fim a que ela correspondia com lambidelas amigas e depois ficava enroscada aos pés da cama. A casa mergulhava então no silêncio, o irmão mais velho apagava a luz e o Miguel podia ver os olhos brilhantes da Sapinha no escuro.

Na zona onde morava o Miguel muitas vezes faltava a água. Horas e horas. E a água era muito precisa para lavar e cozinhar. Uma noite, alguém deixou uma torneira aberta e a água encheu a banheira, transbordou, e saindo do quarto de banho ameaçava inundar o resto da casa. Ora a Sapinha, com os seus olhinhos de ver no escuro, pressentiu o perigo e pôs-se a miar, a miar, e a esfregar as patas na cara do irmão mais velho, que dormia por baixo do Miguel no beliche, até que ele acordou. A Sapinha continuava a miar e a mexer-se.

«Que é que quer a gata?», pensou ele. Levantou-se e viu que a água, inundando o corredor, entrava já pela frincha da porta do quarto e correu a fechar a torneira. Foi o que valeu.

A Sapinha tinha evitado uma inundação e por isso ganhou fama de bichinho esperto. O Miguel contou aos seus amigos, o To, o Paulo e o Paulito e a toda a vizinhança o que a Sapinha tinha feito e o caso foi muito falado. A Sapinha era uma heroína.

Um dia, a senhora Graça, mulher-a-dias que ia às vezes fazer serviço de limpeza lá em casa, disse para a irmã mais velha:

— Sabe, menina?, a gata não é uma gata, é um gato.

Era verdade.

Quando o Miguel soube disto ficou muito triste. Ele acostumara-se a chamar-lhe Sapinha, o bichinho de pêlo só para si. Agora um gato! E durante algum tempo queria que as irmãs continuassem a chamar-lhe gata Sapinha, senão não deixava ninguém pegar-lhe. Mas depois pensou, pensou e disse para si: «Gato ou gata, que interessa se é um bichinho de pêlo?!»

Era de novo a ternura, aquela fada real de que vos falei no princípio desta história, aqui sob a forma dum gato cor de mel e papo branco e de um menino que queria ter um bichinho de pêlo só para si, mas que aparece muitas vezes na nossa vida, sob outras formas se nós quisermos. E ainda bem, porque a ternura faz muita falta.

Biscoito, o gato amigo de ratos

   Biscoito   š

Certo dia, o gato Biscoito regressou da sua corrida diária e sentou-se para tomar o pequeno-almoço. Abriu o jornal na página dos empregos.

— Hoje vou procurar emprego — decidiu ele.

PROCURA-SE: SEGURANÇA PARA ARMAZÉM. TEM DE SER GRANDE, FORTE E MAUZÃO.

 “Este parece interessante”, pensou o Biscoito. “Eu sou grande, para gato, e bastante forte; e, se quiser, posso ter um ar mesmo mauzão.”

Vestiu umas roupas para parecer ainda mais forte e foi para o armazém.

— Ofereço-te o emprego — disse o dono do armazém, um grande buldogue. — Um gato forte como tu é exactamente aquilo de que precisamos por aqui.

Tudo corria bem… até que o Biscoito deu alguns pedaços de madeira a um rato trabalhador que passou por ali.

O buldogue ficou muito zangado.

— Por que razão achas que contratei um gato? — gritou ele. — Tens de perseguir os ratos neste armazém, não fazer amizade com eles. Agora, fora daqui e não voltes cá!

Biscoito voltou para o seu jornal e encontrou outro anúncio.

PROCURA-SE: ASSISTENTE DE BARCOS DE ALUGUER PARA RECREIO, MARINA DO RIO AZUL. TEM DE SABER NADAR E REMAR. SE POSSÍVEL, COM EXPERIÊNCIA DE NADADOR-SALVADOR.

Biscoito era um bom nadador e já tinha trabalhado como nadador-salvador durante um mês. Vestiu umas roupas especiais para ter um ar mais desportivo e dirigiu-se para a marina de Riverside.

— Parabéns! Aceitamos-te para o emprego — disse o dono, que era um castor. Mostrou as docas ao Biscoito. — Um bom gato como tu, é exactamente o que precisamos.

Tudo correu bem… até o Biscoito deixar uma família de ratos pescar no pontão. As pessoas que alugavam os barcos de recreio não gostavam de ratos, e queixaram-se ao castor.

O Biscoito ouviu-o dizer:

— A culpa é daquele gato!

O Biscoito pôs-se a andar antes que o castor lhe ralhasse.

“Não tenho tido muita sorte” pensou o Biscoito. Depois, lembrou-se de outro anúncio do jornal.

PROCURA-SE: EMPREGADO PARA RESTAURANTE NOVO. TEM DE TER BOA APARÊNCIA E BOAS MANEIRAS. ESSENCIAL O CONHECIMENTO DE FRANCÊS.

Perfeito!”, pensou o Biscoito. Ele tinha tido Francês na escola. Vestiu outra roupa para ficar super-apresentável e foi para o restaurante.

— Parabéns! O emprego é teu — disse o chefe dos empregados, que era um pato. — Um gato como tu é perfeito para este restaurante.

Tudo correu bem… até que um casal de ratos entrou no restaurante. O Biscoito ofereceu-lhes logo um lugar na mesa do centro.

— RATOS! RATOS! — gritaram os patos, saltando dos seus lugares..

— RATOS NO RESTAURANTE! — cacarejou uma galinha, batendo as asas.

O Biscoito nem quis esperar para ouvir o que o chefe dos empregados tinha para dizer. Limitou-se a sair sorrateiramente pelas traseiras.

“Parece que as pessoas que contratam gatos só querem que eles persigam ratos”, pensou o Biscoito. “Mas eu não quero perseguir ratos – afinal, eles nunca me fizeram mal!”

Nesse momento, viu um anúncio numa montra.

LOJA DE QUEIJOS RATOS & COMPANHIA – PROCURA-SE ASSISTENTE.

“Gostava mesmo deste emprego”, pensou o Biscoito “mas eles não iam contratar um gato…”

Quando chegou a casa, o Biscoito não parava de pensar na loja de queijos. Se ele não tivesse um ar tão felino, talvez eles o contratassem para o emprego!

Experimentou todos os tipos de roupas, mas, por muito que se olhasse ao espelho, parecia sempre um gato.

Depois teve uma ideia.

“Talvez os ratos que eu conheci me ajudem!”

E dirigiu-se para o bairro dos ratos, o mais depressa possível.

Os ratos ficaram muito felizes por verem outra vez o Biscoito.

— Claro que te ajudamos, Biscoito — disseram eles. — Vamos contigo à loja dos queijos e temos uma conversa com o gerente.

E assim fizeram.

— Este gato deu-me alguns pedaços de madeira quando eu precisei — disse o rato trabalhador ao gerente da loja dos queijos.

— Deixou-nos pescar no pontão e pescámos um peixe enorme! — disseram os ratinhos-bebés.

— Deu-nos a melhor mesa do restaurante — disse o casal de ratos, radiante.

— Calem-se todos! – disse o gerente da Loja de queijos.

— Tudo bem — concordou ele finalmente, apertando a mão ao Biscoito. — Vou dar-te uma oportunidade.

O Biscoito depressa se tornou o gato mais famoso da cidade. Vinham ratos de muito longe só para lhe comprar queijo e para lhe apertar a mão.

O gerente da LOJA DE QUEIJOS RATOS & COMPANHIA não podia estar mais feliz.

E, melhor do que tudo: o Biscoito nunca mais foi despedido!

Becky Bloom

Biscoito

Porto, AMBAR, 2003

Didi dá que fazer – António Torrado

Quem me contou esta história foi o Rogério, um rapazinho meu amigo, que morava no 2º direito do prédio onde eu moro. Deixou de ser meu vizinho há coisa de um ano, pouco mais ou menos. O pai dele foi colocado em Estrasburgo, que fica em França, perto da Alemanha, e, como é bom de ver, a família mudou-se também.

Quando se foi embora, o Rogério passou por minha casa para se despedir. Prometeu que me escreveria muitas vezes, mas já se sabe: fora um postal com vistas da cidade e um cartão de Boas-Festas, não voltei a ter notícias dele.

E senti-lhe a falta! Sim, tive, sinceramente, saudades do Rogério e da Didi.

“Quem será esta Didi que aqui aparece de surpresa?”, perguntam vocês. Didi é nome de gato, ou melhor, de gata, da gatinha do Rogério, uma simpática e atrevida bichana que, quase todos os dias, eu tinha de ir levar ao 2º direito. Entrava-me pela janela e saía ao colo, a princesa de olhos azuis e rabinho alçado.

Moro no último andar de uma casa amansardada com vista para o telhado e para o rio. Os telhados, como sabes, são território exclusivo dos gatos. Por contrato antigo, os bichanos tomaram conta dos telhados das cidades e ali reinam e ditam leis. Que ninguém se atreva a contestar-lhes o direito, porque, se não, pode haver guerra entre gatos e homens, o que seria uma verdadeira desgraça, principalmente para os homens.

Pois a Didi subia ao telhado pela escada de ferro, em caracol, a escada das traseiras, mas, para descer, passava sempre por minha casa. Devia ter tonturas com a escada de caracol, nas curvas da descida, ou então simpatizava muito comigo. Nunca cheguei a saber.

Fosse porque fosse, de Verão ou de Inverno, tinha sempre a janela do meu quarto aberta, não se desse o caso de sua excelência querer entrar… Que frio eu apanhei em certos dias!

Todas as vezes que, com ela ao colo, tocava à campainha do 2º direito, Dona Didi agradecia-me com um ronrom muito expressivo.

— Aqui lhe trago a sua gatinha — dizia eu para a mãe do Rogério, que era quem abria a porta.

— Para que se esteve a incomodar… Deixasse-a no patamar da escada e ela que viesse pelo seu pé.

— Não, mãezinha, que ela podia fugir para a rua — dizia, lá de dentro, o Rogério. — Com a escada de salvação não há perigo, porque está trancada em baixo, mas, pela escada da frente, punha-se na rua num instante. E os carros?

Eu, pelo meu lado, aprovava as cautelas do Rogério. A mãe, embora não dissesse, também aprovava.

Ora, no outro dia, o Rogério voltou. Está de férias, em casa de uns tios, e demora-se um mês por cá, para matar saudades e rever amigos. Perguntei-lhe pela Didi, e neste ponto é que entra a aventura que ele me contou.

O prédio para onde foram viver, em Estrasburgo, pouco diferia do nosso: vários andares, vários inquilinos, escada principal, escada de serviço, etc. Quem, a princípio, estranhou mais foi a Didi, mas depressa achou meio de subir para o telhado, e aí estava ela onde e como queria…

Admito que tivesse sentido uma certa falta do vizinho do último andar… Lá se remediou à sua maneira. Talvez nem sequer já se lembrasse de mim, a ingrata!

Os hábitos dos gatos respeitam-se e não se discutem. No entanto, em certas ocasiões, é preciso pensar por eles, como vão ver.

Na cidade para onde o Rogério tinha ido, nevava e neva sempre, durante o Inverno. Para o meu amigo, o espectáculo da neve a cair, em flocos que parecem penas brancas, era uma maravilhosa novidade. Para a Didi não seria menos. Mas havia o problema do telhado, que ficava escorregadio e perigoso sempre que nevava. Por isso, a Didi foi proibida de saltar para o telhado, o que ela não conseguiu compreender.

Um dia, escapou-se. Quando o Rogério voltou da escola, deram-lhe a notícia. A Didi tinha fugido para o telhado e não conseguia descer.

— Chamamos os bombeiros — decidiu o pai.

E se a Didi se assustava? À vista de estranhos, podia desequilibrar-se e…

A tarde correu depressa, sem que se achasse uma solução.

A pobrezinha, no telhado, miava. Devia estar cheia de frio. O que fazer?

O meu amigo Rogério, sem dizer nada a ninguém, o que foi uma imprudência, subiu as escadas, abriu a muito custo uma clarabóia e pôs os pés no telhado, tentando não se desequilibrar. Deu um passo, dois passos… Estava escuro, muito escuro, e não havia meio de conseguir ver a Didi, que tinha o pêlo da cor da noite. O Rogério chamou, primeiro baixinho, depois mais alto:

— Didi, sou eu. Vem cá, Didi.

Nem um ronrom, nem um miado, e o céu cada vez mais escuro. Ele a dar mais um passo resvaladiço, e um peso inesperado a saltar-lhe para os ombros. Era a Didi, tiritante, que lhe dava marradinhas no pescoço e se queixava do frio, quase sem voz para um terno ronrom.

— Tivemos de a aquecer junto da lareira e de a cobrir com cobertores, porque a Didi não parava de espirrar — contou o Rogério.

E aqui acaba a aventura verdadeira, trazida pelo meu amigo, dos confins da Europa comunitária. A Didi, cidadã europeia, um dia que regresse a Portugal, já tem muito que contar aos outros gatos do nosso telhado…

António Torrado

 

 

 

Retirado de: http://www.historiadodia.pt

 

 

Táxi – António Torrado

Deram ao cachorrinho o nome de “Táxi”. Com tantos nomes disponíveis, logo foram escolher este! Mas ele não se importava.

— Táxi! — chamavam.

E ele vinha, a dar ao rabo, sempre contente.

Mas eram os donos de má qualidade. Gostavam de brincar com o cachorrinho, pois gostavam, mas quando o viram crescer e transformar-se num grande cão disseram:

— O Táxi só está a estorvar. Não podemos mantê-lo cá em casa.

Abandonaram-no. Há gente assim, sem coração.

O Táxi viu-se no meio de uma rua, com grande movimento, e desorientou-se.

Cheirou o ar e não deu com o caminho de casa. Nem valia a pena.

Supomos que o Táxi suspeitava que já o não queriam. Tinha de conformar-se. Ia ser um cão vadio, um cão de rua, um Táxi sem dono nem passageiro.

— Táxi — chamaram, perto.

Ele acorreu ao chamamento.

— Sai daqui, cão — enxotou-o uma senhora, que ia a apanhar um táxi.

— Táxi — chamaram, mais adiante.

O cão não se fez esperar, mas um senhor cheio de embrulhos, que ia a entrar num táxi, deu-lhe um pontapé.

Ele não percebia. Chamavam-no e logo o rejeitavam. Gente esquisita.

De desilusão em desilusão, foi ter a uma praça de táxis. Mero acaso. Um motorista, que estava à espera de freguês, partilhou com ele uma bucha com queijo.

— Como te chamas? — perguntou-lhe o motorista por perguntar.

Se ele pudesse responder… Fosse como fosse, talvez por afinidade, foi-se deixando ficar. Os motoristas acharam graça à alegre pressa com que ele se levantava dos quartos traseiros quando alguém pedia um táxi.

— É cá dos nossos — diziam.

E adoptaram-no. Continuava a ser um táxi livre, sem dono, mas protegido por uma quantidade de amigos.

Afinal, o nome Táxi sempre lhe valera para alguma coisa.

António Torrado

(adaptado)

http://www.historiadodia.pt

 

A gaivota que não queria ser – António Torrado


Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.

Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa.

— Levam cartas, mensagens, avisos de um lado para o outro — explicava ela às outras gaivotas. — São as pombas ou os pombos-correios.

— Também há quem as cozinhe com ervilhas — interrompeu-a uma gaivota trocista.

— Essa serventia a nós não nos interessa — arrepiaram-se as outras gaivotas, que voaram, alarmadas.

Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. Servir de cozinhado também não estava nas suas ambições, mas à falta de outro préstimo… E pensou: “Gaivota estufada”, “Gaivota de cabidela”, “Gaivota guisada com batatas”…

Realmente, não lhe soava bem. E menos bem devia saber, porque nunca lhe constara que os humanos, de boca aberta para todos os gostos, tivessem incluído tais receitas nos seus livros de cozinha.

A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar.

As outras gaivotas, que há pouco tinham debandado, regressavam à praia, apanhadas pelo mesmo entorpecimento que atingira a gaivota desta história.

Formaram um bando tiritante, rente ao mar. Umas, levantadas numa só pata, outras escondidas numa cova da areia, olhavam as águas esverdinhadas, espumosas, como turistas descontentes com a paisagem.

— Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o ar.

De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.

“Afinal, sempre tenho alguma utilidade”, pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota.

 

António Torrado

adaptado

http://www.historiadodia.pt