Emprego e desemprego no tempo do medo

O direito laboral está a reduzir-se ao direito de trabalhar pelo que quiserem pagar e nas condições que quiserem impor. Não existe no mundo mercadoria mais barata do que a mão de obra. Enquanto caem os salários e aumentam os horários, o mercado laboral vomita gente. É pegar ou largar, que a fila é comprida.  Continuar a ler

A Globalização da Pobreza

• Desde o início dos anos 80 que os programas de “estabilização macroeconómica” e de “ajustamento estrutural” impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial a países em vias de desenvolvimento (como condição para a renegociação da sua dívida externa) têm conduzido ao empobrecimento de centenas de milhões de pessoas. Ao contrário do espírito do acordo de Bretton Woods, que assentava na “reconstrução económica” e na estabilidade das principais taxas de câmbio, o programa de ajustamento estrutural tem contribuído em larga medida para a desestabilização das divisas nacionais e a ruína das economias dos países em vias de desenvolvimento. Continuar a ler

Globalização da política – Mitos, realidades e dilemas

Pablo Gentili (org.)
Globalização Excludente
Petrópolis, Ed. Vozes, 1999

Excertos adaptados

Globalização da política
Mitos, realidades e dilemas

José Maria Gómez

Basta um simples olhar sobre o discurso político e económico e sobre as notícias diárias das nossas sociedades para se constatar que o termo “globalização” se tornou a palavra-chave dos anos noventa: aplica-se aos mais diversos domínios de actividade e circunstâncias do mundo pós-Guerra Fria, aparentemente com uma assombrosa capacidade explicativa. Assim sendo, cabe perguntar se não se está perante mais uma moda intelectual do Ocidente neste final de século, de consumo rápido e descartável; ou, pelo contrário, se não se trata de algo revelador, para além do efeito de moda e de outros usos, da necessidade de empreender um esforço de conceptualização das múltiplas e profundas transformações em curso no mundo actual. Dada a visibilidade recente do tema e as controvérsias e antagonismos agudos que suscita (entre visões apologéticas e apocalípticas, por exemplo), a indagação de elementos de resposta a essa e outras interrogações pertinentes requer uma série de esclarecimentos preliminares.

De imediato, convém assinalar que o próprio termo “globalização” apresenta sérias dificuldades. De rara utilização nos círculos académicos antes de meados dos anos oitenta – embora McLuhan, nos anos sessenta, já tivesse anunciado a sua famosa metáfora da aldeia global como resultado das novas tecnologias de informação e comunicação – esse termo está marcado por uma ambivalência ou imprecisão constitutiva em função da variedade de fenómenos que abrange e dos impactos diferenciados que gera nas diversas áreas: financeira, comercial, produtiva, social, institucional, tecnológica, cultural, etc.

Além disso, evoca a falsa imagem dum mundo homogéneo e integrado, que pouco ou nada parece ter a ver com realidades de extrema fragmentação e desintegração. Porém, mais importante do que as imprecisões e as ambivalências é o facto de que o termo carrega um elevado índice de ideologização, como marca de origem.

Segue

  • Globalização da política – A globalização como ideologia
  • Globalização da política – Definindo a globalização
  • Globalização da política – A globalização como ideologia

    Pablo Gentili (org.)
    Globalização Excludente
    Petrópolis, Ed. Vozes, 1999

    Excertos adaptados

    José Maria Gómez

    Globalização da política – Mitos, realidades e dilemas

    1. A globalização como ideologia

    Em rigor, as expressões “global”, “tecnoglobal” ou “globalização” surgem no início dos anos oitenta em prestigiadas escolas americanas de administração de empresas, tornam-se populares através das obras de conhecidos consultores de estratégia e marketing internacional, expandem-se através da imprensa económica e financeira e, rapidamente, passam a ser assimiladas pelo discurso de hegemonia neoliberal. 

    As visões mais apologéticas da globalização – as que têm por destinatários as grandes multinacionais “triádicas” (originárias dos três centros do capitalismo mundial: Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão) – têm vindo a sublinhar a formidável possibilidade de lucro que se abre com a configuração definitiva duma economia mundial sem fronteiras, a oportunidade de multiplicar a capacidade de comunicação e controle em tempo real que a telemática permite e, consequentemente, a necessidade de que tais forças privadas económicas procedam à drástica reformulação das formas de gestão e da actuação estratégica à escala planetária.

    A premissa da qual partem é a de que, com a criação e expansão incessante de uma economia global dominada pelas forças do mercado mundial (fundamentalmente, os mercados financeiros internacionais e as multinacionais, forças mais poderosas do que os mais poderosos Estados) se chegou ao “fim do Estado-nação” como organização territorial eficaz para a governabilidade das actividades económicas nacionais. 

    Tendo em vista a extrema mobilidade dos capitais em busca de melhores vantagens, o carácter relativamente estático do trabalho e o carácter obsoleto tanto dos regimes extensivos de direitos sociais como das regulações económicas nacionais contrárias às expectativas dos mercados globais e das multinacionais, os estados nacionais tornam-se simples autoridades locais do sistema global, encarregadas da protecção, das infra-estruturas e dos bens públicos considerados essenciais pelo capital internacional. Desse modo, uma vez libertados das distorções das intervenções do Estado e dos constrangimentos da política, o livre comércio, as multinacionais e os mercados mundiais de capitais trarão consequências benéficas de prosperidade e bem-estar a todas as nações do planeta, através de investimentos, financiamento, comércio, inovação tecnológica e consumo de produtos baratos e de qualidade.

    Compreende-se, assim, por que motivo essa apologia da globalização é assumida de imediato como baluarte do ultraliberalismo conservador. Hegemónico no campo político- ideológico nos países do norte industrializado, este já vinha a lançar, desde a década de setenta, uma ofensiva total contra o Estado de bem-estar, esse símbolo máximo do “capitalismo organizado” posterior à Segunda Guerra Mundial, caracterizado pela regulação económica nacional, pelo pleno emprego e crescimento sustentado, pela produção de massa estandardizada e pelo compromisso de classes através de mecanismos neocorporativistas entre empresários, sindicatos e Estado. 

    Em função disto, no contexto histórico do fracasso evidente de estratégias de desenvolvimento económico centradas no intervencionismo estatal (reformismo social- democrata, desenvolvimentismo latino-americano e “socialismo real”), embora permaneçam sob silêncio, não por acaso, as estratégias bem sucedidas provenientes do Japão e de outros países asiáticos – o neoliberalismo passou a pregar, urbi et orbi, em nome da inevitabilidade dos sistemas e dos actores da globalização transnacional da economia, um conjunto de reformas económicas de “ajuste estrutural” (abertura das economias nacionais, desregulação dos mercados, flexibilização dos direitos laborais, privatização das empresas públicas, redução nos gastos sociais, controle do défice fiscal, etc.).

    Em suma, uma linguagem e um projecto dominante de globalização económica que termina por se identificar com uma receita de alcance universal – ou melhor, uma política económica das relações internacionais ou um “novo constitucionalismo” – correspondente a um capitalismo globalizado, que tem por espaço natural o próprio mundo e que pretende auto- regular-se sem interferências políticas nacionais, regionais ou internacionais, com o fim de gerar benefícios para todas as nações que nele se inserem competitivamente (…)

    Segue: Definindo a globalização