Natal nas trincheiras

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A única coisa que separava os dois exércitos, naquela noite fria de Dezembro de 1914, era um pedaço de terra lamacenta chamado Terra de Ninguém. De repente, um cântico rompeu o ar gelado, celebrando o Natal em alemão, e logo um outro
se lhe seguiu, em inglês.
Durante algum tempo, os inimigos deixaram de se guerrear e comportaram-se como amigos. Estima-se que, nesta trégua de Natal não oficial,
participaram cerca de cem mil soldados.
Foi um momento único na história da humanidade. Continuar a ler

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O clarão de Hiroshima

Hiroshima no Pika
(O clarão de Hiroshima)

Naquela manhã, o céu de Hiroshima estava azul e sem nuvens. O sol brilhava. Os eléctricos tinham começado o seu giro, apanhando as pessoas a caminho do trabalho. Os sete rios de Hiroshima deslizavam serenamente pela cidade. Os raios do sol estival cintilavam na superfície dos rios.
Tinha havido ataques aéreos em Tóquio, Osaka, Nagoya e em muitas outras cidades japonesas. A população de Hiroshima perguntava-se por que motivo a sua cidade fora poupada. Haviam feito o que podiam para se prepararem para um eventual ataque. A fim de evitar que o fogo se propagasse, tinham demolido os edifícios antigos e alargado as ruas. Tinham armazenado água e decidido onde deviam refugiar-se para escapar às bombas. Todos traziam consigo estojos de primeiros-socorros e, sempre que saíam de casa, usavam chapéus e capuzes para protegerem a cabeça dos ataques aéreos.

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Mii tinha sete anos e vivia em Hiroshima com a mãe e o pai. Ela e os pais estavam a tomar o pequeno-almoço: batatas-doces, trazidas no dia anterior por uns primos que moravam no campo. Nessa manhã, Mii estava com muita fome e comentava como lhe sabiam bem as batatas-doces. O pai concordava que era um delicioso pequeno-almoço, embora não se tratasse de arroz, o seu alimento preferido.
Foi então que aconteceu. Um clarão terrível e repentino iluminou tudo à volta. A luz era de um cor-de-laranja claro, depois ficou branca, como se milhares de raios estivessem a cair todos ao mesmo tempo. Seguiram-se violentas ondas de choque, os edifícios estremeceram e começaram a desabar.
Momentos antes do Clarão, o bombardeiro Enola Gay, da força aérea norte-americana, sobrevoara a cidade e lançara um explosivo ultra-secreto. O explosivo era uma bomba atómica, que a tripulação do B-29 baptizara de “Little Boy” [Rapazinho]. .
O “Little Boy” caiu em Hiroshima às 8:15 da manhã do dia 6 de Agosto de 1945.

Mii caiu por terra, inconsciente, devido ao impacto do Clarão. Quando acordou, tudo à sua volta permanecia silencioso e escuro. A princípio não conseguia mexer-se e ouvia barulhos de crepitação que a assustaram. Ao longe, na escuridão, via um reluzir vermelho. A voz da mãe penetrou na escuridão, chamando-a. Mii lutou para sair de debaixo das pesadas tábuas que lhe tinham caído por cima. A mãe precipitou-se para ela, puxou-a e abraçou-a.
― Temos de nos despachar ― disse. ― O fogo… o teu pai ficou preso nas chamas!
Mii e a mãe olharam para as chamas e começaram a rezar. Em seguida, a mãe saltou para as chamas e arrastou o marido até este ficar a salvo. Mii viu a mãe a examinar o pai.
― Está gravemente ferido ― disse.
Desapertou a faixa do quimono e enrolou-a em volta do corpo do marido como uma ligadura. Em seguida, fez algo de espantoso. Pô-lo às costas e desatou a correr, levando Mii pela mão.
― O rio. Temos de chegar ao rio ― disse de forma determinada.
Desceram os três aos tombos pela margem do rio até à água. Mii largou a mão da mãe.
― Mii-chan! Agarra-te a mim! ― gritou a mãe.
Havia uma multidão de pessoas a fugir do fogo. Mii viu crianças com a roupa queimada, os lábios e as pálpebras inchados. Pareciam fantasmas, vagueando por ali, a chorar com voz fraca. Algumas pessoas, já sem forças, caíam de bruços e outras caíam-lhes por cima. Havia corpos empilhados por todo o lado. Mii, a mãe e o pai continuaram a fuga e atravessaram outro rio. Quando alcançaram a margem, a mãe pousou o marido e caiu por terra, ao lado dele. Mii sentiu uma coisa a passar-lhe aos pés. Hop… hop… Era uma andorinha. Tinha as asas queimadas e não podia voar. Viu um homem a boiar rio abaixo. Atrás dele, flutuava o corpo de um gato.
Mii virou-se e viu uma mulher jovem a chorar, segurando um bebé.
― Conseguimos fugir até aqui e então parei para lhe dar de comer ― disse ela. ― Mas ele não bebeu o leite. Está morto.
Continuando a segurar o bebé, a mulher entrou pelo rio dentro. Avançou cada vez mais até que Mii deixou de a ver. O céu foi ficando escuro e ouviu-se o ribombar de um trovão. Começou a chover. Embora se estivesse em pleno Verão, o ar tornara-se muito frio e a chuva era negra e viscosa. Em seguida, apareceu no céu um arco-íris, afastando a escuridão. Resplandecia, brilhante, por sobre os mortos e os feridos.
A mãe de Mii voltou a pôr o pai às costas. Tomou Mii pela mão e recomeçaram a correr. O fogo vinha na direcção deles, a grande velocidade. Correram por entre montes de telhas partidas, por sobre postes e fios de telefone caídos. Havia casas a arder de ambos os lados. Chegaram a outro rio e, já dentro de água, Mii sentiu-se de repente cheia de sono. Antes mesmo de se dar conta, tinha engolido imensas goladas de água. A mãe puxou-lhe a cabeça e manteve-a fora de água. Chegaram à margem e continuaram a correr. Continuar a ler

Tensões étnico-políticas – A Europa no Rescaldo da Segunda Guerra Mundial

Tensões étnico-políticas
A Europa no Rescaldo da Segunda Guerra Mundial

Nas suas memórias do final dos anos 40 e dos anos 50 do século XX, publicadas depois da sua morte na sequência do famoso «assassinato do chapéu-de-chuva», em Londres, no ano de 1978, o escritor dissidente búlgaro Georgi Markov contava uma história emblemática do período do pós‑guerra – não só do seu país mas da Europa como um todo. Envolvia uma conversa entre um dos seus amigos, que tinha sido preso por confrontar um funcionário comunista que tinha passado à frente na fila do pão e um oficial da milícia comunista búlgara:

«E agora diz-me quem são os teus inimigos?», perguntou o chefe da milícia.

K. pensou durante algum tempo e respondeu: «Não sei, acho que não tenho inimigos.»

«Não tens inimigos!» O chefe levantou a voz. «Estás a querer dizer que não odeias ninguém e que ninguém te odeia?»

«Tanto quanto sei, ninguém.»

«Estás a mentir!», gritou, de súbito, o tenente-coronel, levantando-se da sua cadeira. «Que tipo de homem és tu, se não tens inimigos? Claramente não pertences à nossa juventude, não podes ser um dos nossos cidadãos, se não tens inimigos!… E se, de facto, não sabes como odiar, ensinar-te-emos! Ensinar-te-emos muito depressa!»

Em certo sentido, o chefe da milícia desta história tem razão – era praticamente impossível emergir da Segunda Guerra Mundial sem Continuar a ler

Limpeza Étnica – A Europa no Rescaldo da Segunda Guerra Mundial

Limpeza Étnica

A Europa no Rescaldo da Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial nunca foi um mero conflito por território. Foi também uma guerra de raça e etnicidade. Alguns dos acontecimentos que definiram a guerra em nada se relacionavam com a conquista e a manutenção de terrenos físicos, mas com a imposição de um determinado selo étnico num terreno já detido. O Holocausto judeu, a limpeza étnica do Oeste da Ucrânia, a tentativa de genocídio dos sérvios croatas: tais acontecimentos foram levados a cabo com um vigor tão ardente quanto o da guerra militar. Um grande número de pessoas – talvez 10 milhões ou mais – foram deliberadamente exterminadas sem outro motivo que não o facto de pertencerem ao grupo étnico ou racial errado.

O problema para os que procuram esta guerra racial reside no facto de nem sempre ser fácil definir a raça ou etnicidade de uma pessoa, em especial na Europa de Leste, onde diferentes comunidades estavam, muitas vezes, inextricavelmente entrelaçadas. Os judeus que, por acaso, tinham cabelo louro e olhos azuis podiam escapar porque não se enquadravam no preconceituoso estereótipo racial nazi. Os ciganos podiam disfarçar-se como membros de outros grupos étnicos, e faziam-no, bastando mudar a roupa e os comportamentos – o mesmo acontecendo com os eslovacos na Hungria, os bósnios na Sérvia, os romenos na Ucrânia e por aí fora. A forma mais comum de identificar os amigos ou inimigos étnicos – a língua por eles falada nem sempre se mostrava um indicador seguro. Aqueles que tinham crescido em comunidades mistas falavam várias línguas e podiam saltar entre uma e outra, dependendo da pessoa com quem estavam a falar – uma habilidade que terá salvo muitas vidas durante os dias mais sombrios da guerra e do seu rescaldo. Continuar a ler

lman Ahmad Jamas, lutando pela paz no Iraque

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 IMAN AHMAD JAMAS, lutando pela paz no Iraque

“Serão precisos muitos anos para reconstruir o Iraque.

Será muito difícil.”

Jornalista, tradutora e escritora, Iman Ahmad Jamas criou e dirigiu, em junho de 2003, o Observatório da Ocupação no Iraque, uma iniciativa de organizações internacionais e iraquianas para informar sobre a ocupação dos Estados Unidos e seus efeitos políticos, económicos e sociais, dando conta dos abusos e violações contra a população civil levada a cabo pelas tropas estrangeiras.

Apesar do importante trabalho de documentação e denúncia, o Observatório viu-se obrigado a encerrar em junho de 2004 devido à falta de segurança reinante no país. Refugiada en Espanha, recolheu centenas de testemunhos de torturas e crimes durante a ocupação dos Estados Unidos no seu  livro Crónicas do Iraque, publicado en 2006. Em abril de 2007 recebeu em Córdova o Prémio Internacional de Jornalismo, “Julio Anguita Parrado” em reconhecimento pelo seu trabalho.

Povoação a povoação, família a família, Iman Ahmad Jamas percorreu um Iraque em guerra para recolher os testemunhos das vítimas dos desmandos das tropas dos Estados Unidos, durante os primeiros anos da ocupação do país árabe. Mulheres Continuar a ler

Amira Hass

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AMIRA HASS, PERITA EM OCUPAÇÃO

O meu trabalho é vigiar o poder.

Oficialmente, é a correspondente para os assuntos palestinianos do diário israelita Aaretz, mas prefere ser conhecida como perita em ocupação. Amira Hass, jornalista israelita nascida em Jerusalém, dá a conhecer aos seus compatriotas o que se passa a poucos quilómetros de suas casas, o que muitos não querem ver. Com residência habitual na cidade da Cisjordânia, em Ramala, mantém na realidade “um romance com Gaza”, segundo as suas próprias palavras. Há já alguns anos que passa temporadas na faixa de Gaza e conta como é viver em estado de sítio.

O meu desejo de viver em Gaza não se deveu à sede de aventuras ou à loucura, mas ao medo de ser uma observadora passiva, à minha necessidade de compreender até ao último pormenor um mundo que, de acordo com os meus conhecimentos políticos e históricos, é uma criação profundamente israelita. Gaza encarna para mim toda a saga do conflito israelo-palestiniano, representa a principal contradição do Estado de Israel: democracia para alguns, privação para outros”, explica Hass.

Foi pela primeira vez à Faixa de Gaza como voluntária da organização Workers Hotline (Linha Direta de Trabalhadores), que se ocupava em defender os direitos dos trabalhadores palestinianos face aos abusos dos seus empregadores israelitas. E lá regressou, como jornalista, em muitas ocasiões.

A última vez foi Continuar a ler

Tarte para inimigos

Devia ter sido um Verão perfeito. O meu pai ajudara-me a construir uma cabana numa árvore do nosso jardim. A minha irmã tinha ido três semanas para um acampamento. E eu estava na melhor equipa de basebol da cidade. Devia ter sido um Verão perfeito. Mas não foi.

Estava a correr tudo bem até o Cláudio Garcia se ter mudado para o meu bairro, para a casa mesmo ao lado da do Filipe, o meu melhor amigo. Eu não gostava do Cláudio Garcia. Ria-se de mim quando eu perdia no basebol. Deu uma festa em sua casa para saltar na cama elástica, mas não me convidou. Mas ao Filipe, o meu melhor amigo, sim.

O Cláudio Garcia era o único que constava da minha lista de inimigos. Nunca tive sequer uma lista de inimigos até ele ter vindo para cá mas, mal chegou, precisei de uma. Preguei-a na minha cabana, onde ele não podia entrar.

O meu pai era um especialista em inimigos. Contou-me que, na minha idade, também tinha tido inimigos. Mas que conhecia uma forma de nos livrarmos deles. Pedi-lhe que me contasse o segredo.

— Contar-te? Vou mostrar-te — disse o meu pai.

Tirou da estante um livro de receitas muito, muito antigo. Continuar a ler