O menino que cresceu no jardim

Era nisso que o menino acreditava: se as flores crescem assim, por que razão não crescerei eu, também, com a ajuda da água? E o jardineiro lá lhe fazia a vontade: regava-o, com delicadeza, como regava as suas mais belas plantas.

Devido a esta mistura com o jardim ou talvez por causa de qualquer outra razão misteriosa este menino cheirava tão bem que as abelhas não o largavam. Porém, rodeavam-no com modos pacíficos. Que simpáticas eram as abelhas! Como se fossem animais domésticos, amestrados. As minhas abelhas, dizia o menino.

Continuar a ler

Conto de Natal

bebé 6 m

A década de sessenta iniciara-se há pouco.

Na aldeia, inclinada à inclemência dos gelos da Estrela, não se poupava na lenha. Em casa do Luís Pereira, o lume crepitava desde muito cedo, inundando a cozinha com um calor só visto nas grandes azáfamas.

Da horta, logo de manhã, tinham chegado as mais apetecíveis couves, que iriam fazer companhia, na Consoada, ao bacalhau já demolhado, comprado na mercearia da menina Amélia. Mas havia ainda muito que fazer: só de doces ainda faltavam as filhós, que seriam fritas a meio da tarde, as rabanadas, o arroz doce…

Continuar a ler

Mais bonito do que as sardas

montagem avó 1m

As rugas deviam simplesmente indicar o lugar onde os sorrisos estiveram.
Mark Twain

Aconteceu um ano no Zoo. Eu e a minha filha estávamos ao lado de uma avó e de uma menina com a cara toda pintalgada de sardas vermelhas e brilhantes. As crianças faziam fila, esperando que uma artista local lhes pintasse as caras, decorando-as com patinhas de tigre.

Continuar a ler

Memórias e malmequeres

ramo primaveril px

Já vi coelhinhos fofos bem cedo pela manhã e cheirei o perfume de doninhas através da janela do meu quarto à noite. Assisti, impotente, ao voo picado de um bando de pássaros sobre os meus legumes quase prontos a comer e tentei, vezes sem conta, criar uma horta. Dir-se-ia que, quando a colheita começa a ficar pronta e eu começo a antecipar o sabor dos frutos do meu trabalho, tudo acaba por desaparecer.

Contudo, não posso queixar-me, pois, quando era criança, estraguei alguns jardins…

Lembro-me do verão dos meus seis anos. Era o último verão de liberdade antes de entrar para a escola. Os meus amigos e eu passávamos dias ociosos na piscina ou a construir fortes, e costumávamos acabar por invadir o jardim de uma vizinha.

Continuar a ler

A Viagem de Chase

Quando o meu pai e a minha madrasta souberam que não podiam ter um bebé, decidiram tornar-se uma família de acolhimento. A ideia de dar uma família a uma criança e, ao mesmo tempo, permitir que a nossa crescesse era precisamente aquilo que procurávamos. Passados muitos meses, Chase, um menino de dois anos, entrou nas nossas vidas. Continuar a ler

Não sou um super-herói!

la

Tenho seis anos.
Estou no meu quarto.
As paredes são cor de laranja, gosto mesmo dessa cor.
Foi o meu pai que colocou o papel de parede.

A minha mãe costuma gritar muito alto. O meu pai também.
Os gritos fazem-me sempre medo, muito medo.
Ouço outros barulhos, acho que começaram a bater um no outro.
Nunca ouvi a minha mãe gritar assim.
Queria ir lá ver, queria que parassem, mas fico muito quieto na cama.

A minha mãe entra aos gritos no meu quarto, o meu pai veio atrás dela.
Ela quer que eu a proteja.
Ele agarra-a pelos cabelos e começa a puxá-la para fora do quarto.
Ela cai e ele dá-lhe pontapés. Até na cara.
Começo também a gritar.
Quero muito que ele pare, tem de Continuar a ler