Pão e poesia

Na minha escola havia uma matéria chamada “Biblioteca”, adorada por todos os alunos.

O motivo de tanta adoração não é esse que a nossa esperança literária acalenta, o amor pela leitura. Era de outra ordem: o amor pelo ócio. Ou melhor, pela liberdade, para não soarmos tão vagabundos. Durante uma hora, não precisávamos copiar textos do quadro, nem fazer exercícios, nem decorar regras e sistemas, nem nada. Estávamos livres. Era assim, ao menos, que a maioria compreendia a matéria. Íamos para a biblioteca, e folheávamos revistas, e batíamos papo, e cantávamos baixinho, e dormíamos.

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Da devastação

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primeiro
negociaram o fim da agricultura
de subsistência; e os pequenos
agricultores como já não precisavam
do estrume
para adubar os campos (com as leiras
abandonadas ou em pousio)
venderam o gado
e o tojo que ano após ano era cortado
para a cama dos animais
começou a crescer abundantemente
nos matos e ao redor das casas;

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Aldeia

foto paisagem laranja m

recordo os abraços de mãe
nas noites de trovoada
e de lhe perguntar se aquela chuva toda
ia inundar o mundo.
recordo aquela manta que servia toda a família
quando chegava a hora da novela.
e aqueles passeios pelo campo
sem destino ou direcção.

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Podes?

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Podes vender-me o ar que passa entre os teus dedos,
te golpeia o rosto e desalinha os cabelos?
Acaso podes vender-me cinco moedas de vento?
Ou talvez uma tormenta?
Vender-me-ias ar puro – não todo –
o que percorre o teu jardim de flor em flor
e sustém o voo dos pássaros?
Dez moedas de ar puro, podes vender-me?

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