Os sapatos nos sapatos

Pé ante pé, já com a casa mergulhada em sono, o menino levantou-se e foi-se até aos sapatos para ver dos brinquedos do Pai Natal.

-—  Será um comboio elétrico…? — interrogava-se, a caminho da cozinha, as tábuas do soalho range que range.

-—  Será um pião que toca música…? — perguntava-se metro a metro, espiado pelo silêncio escuro das paredes.

— Será uma bola de futebol…? — movimentava-se, cauteloso, com formigueiros nos pés.

Passada a porta da cozinha, o menino sentiu um arrepio de contentamento: e, fechando os olhos, quase sem respiração, imaginou nos sapatos (tão velhos) milhares de brinquedos coloridos. Todas as montras, enfim, ali depositadas a dois passos…

Não pôde mais. Tateou o fogão, encontrou a caixa, riscou um fósforo — e à luz da pequena chama viu nos sapatos velhos um par de sapatos novos…

Só mais tarde, depois do choro daquela noite, e ao longo dos anos do seu caminho, é que o menino compreendeu que só com sapatos seguros, os pés bem assentes no chão, erra que não erra, se pode partir à conquista das coisas belas da terra.

Pedro Alvim