O menino que cresceu no jardim

Era nisso que o menino acreditava: se as flores crescem assim, por que razão não crescerei eu, também, com a ajuda da água? E o jardineiro lá lhe fazia a vontade: regava-o, com delicadeza, como regava as suas mais belas plantas.

Devido a esta mistura com o jardim ou talvez por causa de qualquer outra razão misteriosa este menino cheirava tão bem que as abelhas não o largavam. Porém, rodeavam-no com modos pacíficos. Que simpáticas eram as abelhas! Como se fossem animais domésticos, amestrados. As minhas abelhas, dizia o menino.

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A história da vaca Glória

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Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes, pelos grossos e duros e pés pesados.

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Saïd, o rapaz do lampião

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Toni estava saturado de andar às voltas no templo de Karnak, no meio do grupo de turistas.

As sandálias, cheias de areias e de pequenas pedras, feriam-lhe os pés, e a mãe tinha-o obrigado a vestir calções e a calçar peúgas. Para cúmulo, tinha ainda de usar um chapéu de palha de aba larga, para se proteger do sol. Tanto ele como a mãe eram os únicos na família que tinham aquela cor delicada, muito branca, herdada de um antepassado caucasiano longínquo. Toni sentia-se ridículo vestido daquela forma.

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Conto de Natal

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A década de sessenta iniciara-se há pouco.

Na aldeia, inclinada à inclemência dos gelos da Estrela, não se poupava na lenha. Em casa do Luís Pereira, o lume crepitava desde muito cedo, inundando a cozinha com um calor só visto nas grandes azáfamas.

Da horta, logo de manhã, tinham chegado as mais apetecíveis couves, que iriam fazer companhia, na Consoada, ao bacalhau já demolhado, comprado na mercearia da menina Amélia. Mas havia ainda muito que fazer: só de doces ainda faltavam as filhós, que seriam fritas a meio da tarde, as rabanadas, o arroz doce…

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No meu bolso

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Eu tinha sete anos e meio quando o meu visto foi carimbado,
a 26 de Julho de 1939.

Houve aproximadamente 10000 crianças como eu que, no início da Segunda Guerra Mundial, vieram para a Grã-Bretanha.
Algumas eram ainda bebés. A maioria de nós era judia.
Cada uma tinha um lugar num transporte para crianças que nos levava para
longe da Europa Nazi.

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A verdadeira e maravilhosa história do dragão Samuel

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Para lá das montanhas onde o dia acaba, por trás da noite e do escuro, num sítio escuro e muito perigoso, fica o terrível país dos dragões. Foi aí que nasceu o pequeno Samuel, que logo revelou ser um dragão muito especial, embora quem o visse pela primeira vez o achasse igualzinho a todos os outros dragões. Continuar a ler

O desejo de Ruby

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Se caminhar por uma certa rua de uma certa cidade na China, e passar pelo mercado de animais de estimação, com os papa-arroz amarelos e verdes a saltar nas gaiolas de bambu, os peixinhos dourados e as tartarugas de água doce nas taças de porcelana, há-de chegar a um quarteirão de casas. Nesses edifícios, agora castanhos devido à idade e à sujidade, moram muitas famílias. Porém, se olhar com atenção, verá que outrora essas casas eram uma só, uma magnífica casa que pertencia a uma única família. Continuar a ler

Uma estrela

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Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava em dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um bolo, era bom sentir as grandes fatias despregarem-se da areia, dos muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da ameixieira. Continuar a ler

Doçura

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Anita vende a doçura em frascos.

Enche-os de compota de fruta, tapa-os e cola-lhes uma etiqueta, mas, em vez de escrever compota disto ou compota daquilo, de mirtilos ou de pêssego, de marmelo ou de morango, arredonda a letra e escreve apenas Doçura. Senta-se no passeio com os frascos defronte, expostos no asfalto, junto aos pés, e não lhe faltam clientes. A compota vende-se muito bem e ninguém regressa para reclamar: quem compra julga que a doçura está toda nos olhos de Anita. Continuar a ler

O menino que cortou o fio da chuva

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Era pálido e loiro, e chamava-se Leopoldo…

As pessoas que o viam ao pé da mãe, que tinha a pele branca, os cabelos claros e os olhos castanhos, diziam que se parecia com ela; os que o encontravam com o pai, que era moreno, com a barba e os cabelos pretos, mas de olhos azuis, diziam que era o retrato dele. O menino herdara a cor da pele e dos cabelos da mãe e os olhos azuis do pai… Mas que importa isso agora? O menino cresceu há muito tempo já, e não sabemos para onde foi. Continuar a ler

Acredita

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Era uma vez uma senhora que tinha três cães. Um era já velhote. Outro, assim assim. O terceiro era um cachorro ladino, que nunca estava quieto.

Os três da mesma raça. Não me perguntem qual, porque nisso de marcas de cães e raças de automóveis – perdão! – de raças de cães e marcas de automóveis sou muito ignorante. Continuar a ler