Os anjos vêm sempre ao nosso encontro

Os anjos vêm sempre ao nosso encontro

Tu fazes a primeira voz

e eu, a segunda.

Vai ser um verdadeiro duo.

Quem diria que ia acabar os meus dias no lugar onde os comecei?

A velha senhora nem acredita. Conta a quem a quiser ouvir que, em Outubro, aquela faia púrpura resplandecia diante da janela do seu quarto de adolescente; e que, com os irmãos, ela construíra uma cabana no tronco do salgueiro podado, à beira do lago hoje a transbordar, e que…

— Já me contou isso ontem, Sr.ª Kain — murmura delicadamente o velho de boné com quem acaba de se cruzar ao fundo do jardim, hoje dividido e invadido por casas pré-fabricadas.

Seria preciso uma nova fornada de pensionistas para ter a oportunidade de contar, perante uma nova plateia, as maravilhas de tempos passados e a coincidência espantosa de hoje. “As pessoas já não têm paciência,” suspira a Sr.ª Kain. “Quantas vezes não escutei eu com um sorriso nos lábios as histórias do meu pai: a sua guerra de 1914-18? Às vezes ria à socapa, mas nunca seria capaz de o interromper. As pessoas têm o costume de fazer zapping. (Olha, uma palavra que aprendeu com os netos). Já não tentam ler as entrelinhas.

A Sr.ª Kain vê, sem qualquer nostalgia, bailar a sua infância no seio de uma tribo governada por um pai médico de campanha. Viúvo aos quarenta anos, cimentara a educação dos seus dez filhos na confiança e cada qual tomou a peito nunca o decepcionar. Não é tanto o esplendor da faia púrpura que ela acaricia na sua memória, mas antes a sensação de segurança que sentia quando brincava no seu poleiro a tentar identificar as vozes familiares.

Espiava o regresso do pai. Observava a forma como ele se atrasava, sentado ao volante do carro, com as portas abertas, a reflectir, meditação essa que ela nunca ousara perturbar.

Dir-se-ia que foi ontem e, no entanto, o espelho, que ela de tempos a tempos consulta, convence-a de que tem oitenta anos. Dentro de nós não se envelhece: a menina e a mulher idosa andam de mãos dadas.

Os seus esquecimentos, de consequências cada vez mais graves, tinham começado a pô-la alerta. Alimentava a ideia de deixar a sua casa e ir instalar-se numa casa de repouso, quando soube a notícia: a casa do papá fora comprada pela administração local para ser transformada num lar. Tomada a decisão, teve de esperar pelo fim das obras para entrar, e aquele tempo de espera tinha transformado a dor da partida numa impaciência infantil:

— Volto para a minha casa. Vou para casa!

— Já sabemos, vovó — dissera um dos netos a rir quando corria para junto dos amigos.

Primeira pensionista daquele lugar, ajudou muitos dos que chegavam a adaptar-se à mudança de casa, muitas vezes forçada; deu alento a muitas mulheres mais novas do que ela, desesperadas por abandonarem o seu bairro; a homens desorientados após a morte da esposa e colocados demasiado depressa naquele local, sem quaisquer referências, por filhos com pressa de resolver os seus pretensos problemas de solidão, de acalmar, sobretudo, as suas próprias preocupações. Guiou pessoas desorientadas pelas salas que ela própria seria ainda capaz de percorrer de olhos fechados, apesar das alterações obrigatórias – todos aqueles quartos de banho construídos nas esquinas dos quartos enormes onde outrora ecoavam os seus gritos e os seus cantos. (Lá estou eu outra vez!)

Isso era na Primavera. Agora, o Inverno traz o seu lote de resfriados, tosses teimosas, rigidez nas articulações. Já não se pode andar nas alamedas que se tornaram escorregadias por causa da chuva e do gelo nas folhas caídas. A senhora Kain aceita com dificuldade ter de ficar fechada em casa. Gostaria que uma das suas filhas, que mora não longe dali, viesse buscá-la ao domingo, mas são os exames do final do trimestre e Sofia receia que as suas incessantes conversas perturbem a concentração dos filhos. As outras duas filhas vivem para lá da fronteira, e só aparecem no Verão para a levarem de férias com elas no meio de grandes manifestações de ternura.

Então! Elas sentem-se bem onde estão! e a Sr.ª Kain vai sentar-se à mesa do lanche, ao lado da Sr.ª Braga que entrou para o lar após a morte acidental da filha e do genro, com quem partilhava o apartamento na cidade. Não tem família nem aqui nem em Portugal, seu país de origem. É uma solidão que faz estremecer a Sr.ª Kain.

— E que tal se fizéssemos umas palavras cruzadas?

— Sabe, tenho pouco vocabulário francês.

— Então… e uma batalha?

Ficam de pé uns momentos, apoiadas no vão da janela, a contemplar os ramos atormentados pelo vento.

— Gostava de saber como está o tempo no Porto — murmura a Sr.ª Braga.

— Logo vemos o tempo, depois das notícias.

A senhora Kain dá-se conta de que a aproximação do Natal suscita ansiedade na comunidade. O aparecimento da árvore de Natal, depois as iluminações da fachada, suscitaram apenas comentários de desencanto, comparações dolorosas:

— Em minha casa nós é que fazíamos os arranjos com massa salgada e íamos em procissão colocá-los na árvore.

— Em nossa casa sentíamos o cheiro do bolo-rei oito dias antes.

— Do bolo-rei, tem a certeza? Não está a confundir com o Ano Novo?

Quase se insultavam. A animadora sugere que cada um conte como é que se festejava o Natal em casa. A Sr.ª Kain sorri para dentro: parece que estamos no infantário, mas brinca de boa vontade e até acha interessante. Não imaginava tanta diversidade no seio de uma população que a idade e o regulamento da casa, apesar de leve, tendem a nivelar.

— Quem for passar a Consoada fora, tenha a amabilidade de me prevenir — insiste a directora durante o jantar.

— Vai a casa da sua filha, Sr.ª Kain? — pergunta a Srª Blandain, a quem filhos e netos vêm buscar todos os fins de semana.

Faz de conta que não ouve. Dá jeito passar por ser um pouco surda. O certo é que ela não sabe! Da última vez que a filha veio trazer-lhe roupa lavada, estavam a pensar fazer férias na neve. A Sr.ª Kain sempre foi, por natureza, conciliadora, o que a fazia não esperar nada, mas aceitar tudo, e, a maior parte das vezes, a vida gratificara-a. Encantava-a acabar a vida no sítio onde a começou.

Chega-lhe uma carta pelo correio, correio esse que todos os pensionistas esperam. Os cortinados das janelas da frente mexem-se imperceptivelmente, as portas entreabrem-se. Já chegou! Quase que se empurram nas escadas e nos elevadores. A Sr.ª Kain traz o seu troféu. No quarto, que outrora ocupou com o irmão mais velho, abre cuidadosamente a missiva: um postal de uma embarcação no Escaut e uma fotografia. É o Jó, o mais original dos seus sobrinhos-netos, cabeça rapada e brinco brilhante na orelha. Está abraçado a uma rapariga ruiva um pouco mais alta do que ele, com um bebé careca todo sorridente. O Jó! Sabia que vivia há dois anos em Londres e ei-lo a anunciar que se instalou pertinho dali, num barco atracado no braço morto do rio.

Vamos buscar-te de véspera para passares o Natal connosco e levamos-te no dia seguinte. Acho que te autorizam a dormir fora. Dormir fora? A Sr.ª Kain ri-se sozinha. Ao meio-dia, vai avisar discretamente a directora. Não gosta de magoar aqueles que nunca ninguém convidada. Relê o postal e assinala uma frase acrescentada na perpendicular: Se tiveres uma companheira de lar, não hesites em trazê-la, o barco é grande. Uma companheira… como Jó é amável. No fundo, a Sr.ª Braga é uma companheira, ainda não é bem uma amiga, mas uma companheira. Vai transmitir-lhe o convite. Contra toda as expectativas, a Sr.ª Braga diz que sim sem hesitar. Desde então, anda a cantarolar pelo corredor que dá para a sala de jantar. Autênticas meninas de colégio, seremos sempre catraias, colegas. A Sr.ª Kain pôs-se também ela a brincar com tudo.

Na véspera de Natal, Jó aparece às dez horas. O bebé, sentado na cadeira dá gritos de alegria. Jó depõe os mesmos beijos calorosos nas quatro faces e faz as apresentações:

— Este é Jesus.

— Jesus? — estremecem as velhas senhoras.

— Ele foi feito durante uma escapadela a Espanha. Vão ter de aguentar uma pequena demora na mercearia da esquina…

A Sr.ª Kain e a Sr.ª Braga ficam sós na carrinha com o petiz, que olha para elas calmamente, de ursinho na boca. A Sr.ª Kain evita dizer que os tecidos que andam pelo chão devem estar cheios de micróbios. Uma nora explicou-lhe a importância do brinquedo, do cheiro da mãe. Ela, por sua vez, ensina a Sr.ª Braga. Um casal idoso passa ao lado do carro. A Sr.ª Kain reconhece-os: antigos vizinhos, que têm a sorte de envelhecer juntos em casa. Enquanto procura a forma de abrir a janela, eles afastam-se e já vão longe. Seria deselegante chamá-los aos gritos, mas bem gostaria de lhes dar dois dedos de conversa.

Quando a carrinha aos solavancos pára na beira do rio, avistam um barco pintado de preto e verde, lâmpadas coloridas, um passadiço. Ao entrar, a Sr.ª Kain vê as letras do nome escrito na proa: MARIA, o meu nome! Fica encantada. Na cozinha, ao nível da água, uma jovem mulher despenteada levanta as mãos enfarinhadas e abraça-as sem cerimónia.

— Sejam bem-vindas!

Há sofás um pouco baixos donde custa sair, mas isso não importa, pois assim ficam ao nível do menino que não se cansa de atirar ao chão um peluche ( Made in Portugal, notou a Sr.ª Braga) que elas lhe devolvem com prazer.

— Esta noite, se não estiverem muito cansadas, podemos ir à missa do galo, como antigamente. É um amigo, o Ben (lembras-te dele, tia Marie?) quem toca o órgão. Eu vou cantar.

— Tu vais cantar?

— O Jó tem uma voz magnífica — intervém a companheira ruiva.

Admiro mesmo estes jovens, pensa a Srª Kain. Será que já se esqueceu de que gostava de cantar no coro da paróquia?

Logo se verá. Por agora, a Sr.ª Kain mostra à criança cada uma das imagens do presépio, as antigas e as de hoje. Jesus estende as mãos a tagarelar. Um suave calor reina no barco, que a água faz balançar de forma quase imperceptível, como um berço. Pela vigia, a Sr.ª Braga vê cair a primeira neve, lentas plumas de anjo. Natal, um verdadeiro Natal.

 

Colette Nys-Mazure

Contes d’Esperance

Paris, Desclée de Brouwer, 1998

Tradução e adaptação

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