Uma viagem tranquila – Os sonhos e o simbolismo da passagem

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Eu tinha um medo de morte da morte. Creio que todos temos medo da morte de uma maneira ou de outra, mas eu evitava pensar nela a todo o custo. Quando a minha companheira decidiu que queria um cão, adorei a ideia. Contudo, como sabia que o cão haveria um dia de morrer, resisti ao desejo dela o mais que pude. Acabámos com dois cães. No dia em que o primeiro deles morreu, eu estava a milhares de quilómetros de distância, algo que muito me aliviou. Senti-me como se tivesse evitado uma bala. Quando a minha avó morreu, chorei dias a fio e decidi não assistir ao funeral. Era uma situação com a qual não poderia lidar. Continuar a ler

Pia vê tudo cinzento

Está novamente a chover.a

Como tantas vezes, Pia está sentada à janela com o olhar fixo na cidade molhada, lá em baixo. Nada mais do que casas e ruas! Pia só vê cinzento e também se sente assim: cinzenta, sombria e só. Não tem vontade de fazer nada. Há muito que já não consegue rir. Desde que o pai se mudou para casa da namorada. O que foi muito mau! A mãe limitava-se a ficar parada, a pensar e a chorar. Também Pia perguntava constantemente:

— Porque é que o papá fez isto?

— Temos de sair daqui — disse, certo dia, a mãe. — Para longe. Para esquecer! E tenho de voltar a trabalhar, assim fico sem tempo para pensar! Continuar a ler

O clarão de Hiroshima

Hiroshima no Pika
(O clarão de Hiroshima)

Naquela manhã, o céu de Hiroshima estava azul e sem nuvens. O sol brilhava. Os eléctricos tinham começado o seu giro, apanhando as pessoas a caminho do trabalho. Os sete rios de Hiroshima deslizavam serenamente pela cidade. Os raios do sol estival cintilavam na superfície dos rios.
Tinha havido ataques aéreos em Tóquio, Osaka, Nagoya e em muitas outras cidades japonesas. A população de Hiroshima perguntava-se por que motivo a sua cidade fora poupada. Haviam feito o que podiam para se prepararem para um eventual ataque. A fim de evitar que o fogo se propagasse, tinham demolido os edifícios antigos e alargado as ruas. Tinham armazenado água e decidido onde deviam refugiar-se para escapar às bombas. Todos traziam consigo estojos de primeiros-socorros e, sempre que saíam de casa, usavam chapéus e capuzes para protegerem a cabeça dos ataques aéreos.

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Mii tinha sete anos e vivia em Hiroshima com a mãe e o pai. Ela e os pais estavam a tomar o pequeno-almoço: batatas-doces, trazidas no dia anterior por uns primos que moravam no campo. Nessa manhã, Mii estava com muita fome e comentava como lhe sabiam bem as batatas-doces. O pai concordava que era um delicioso pequeno-almoço, embora não se tratasse de arroz, o seu alimento preferido.
Foi então que aconteceu. Um clarão terrível e repentino iluminou tudo à volta. A luz era de um cor-de-laranja claro, depois ficou branca, como se milhares de raios estivessem a cair todos ao mesmo tempo. Seguiram-se violentas ondas de choque, os edifícios estremeceram e começaram a desabar.
Momentos antes do Clarão, o bombardeiro Enola Gay, da força aérea norte-americana, sobrevoara a cidade e lançara um explosivo ultra-secreto. O explosivo era uma bomba atómica, que a tripulação do B-29 baptizara de “Little Boy” [Rapazinho]. .
O “Little Boy” caiu em Hiroshima às 8:15 da manhã do dia 6 de Agosto de 1945.

Mii caiu por terra, inconsciente, devido ao impacto do Clarão. Quando acordou, tudo à sua volta permanecia silencioso e escuro. A princípio não conseguia mexer-se e ouvia barulhos de crepitação que a assustaram. Ao longe, na escuridão, via um reluzir vermelho. A voz da mãe penetrou na escuridão, chamando-a. Mii lutou para sair de debaixo das pesadas tábuas que lhe tinham caído por cima. A mãe precipitou-se para ela, puxou-a e abraçou-a.
― Temos de nos despachar ― disse. ― O fogo… o teu pai ficou preso nas chamas!
Mii e a mãe olharam para as chamas e começaram a rezar. Em seguida, a mãe saltou para as chamas e arrastou o marido até este ficar a salvo. Mii viu a mãe a examinar o pai.
― Está gravemente ferido ― disse.
Desapertou a faixa do quimono e enrolou-a em volta do corpo do marido como uma ligadura. Em seguida, fez algo de espantoso. Pô-lo às costas e desatou a correr, levando Mii pela mão.
― O rio. Temos de chegar ao rio ― disse de forma determinada.
Desceram os três aos tombos pela margem do rio até à água. Mii largou a mão da mãe.
― Mii-chan! Agarra-te a mim! ― gritou a mãe.
Havia uma multidão de pessoas a fugir do fogo. Mii viu crianças com a roupa queimada, os lábios e as pálpebras inchados. Pareciam fantasmas, vagueando por ali, a chorar com voz fraca. Algumas pessoas, já sem forças, caíam de bruços e outras caíam-lhes por cima. Havia corpos empilhados por todo o lado. Mii, a mãe e o pai continuaram a fuga e atravessaram outro rio. Quando alcançaram a margem, a mãe pousou o marido e caiu por terra, ao lado dele. Mii sentiu uma coisa a passar-lhe aos pés. Hop… hop… Era uma andorinha. Tinha as asas queimadas e não podia voar. Viu um homem a boiar rio abaixo. Atrás dele, flutuava o corpo de um gato.
Mii virou-se e viu uma mulher jovem a chorar, segurando um bebé.
― Conseguimos fugir até aqui e então parei para lhe dar de comer ― disse ela. ― Mas ele não bebeu o leite. Está morto.
Continuando a segurar o bebé, a mulher entrou pelo rio dentro. Avançou cada vez mais até que Mii deixou de a ver. O céu foi ficando escuro e ouviu-se o ribombar de um trovão. Começou a chover. Embora se estivesse em pleno Verão, o ar tornara-se muito frio e a chuva era negra e viscosa. Em seguida, apareceu no céu um arco-íris, afastando a escuridão. Resplandecia, brilhante, por sobre os mortos e os feridos.
A mãe de Mii voltou a pôr o pai às costas. Tomou Mii pela mão e recomeçaram a correr. O fogo vinha na direcção deles, a grande velocidade. Correram por entre montes de telhas partidas, por sobre postes e fios de telefone caídos. Havia casas a arder de ambos os lados. Chegaram a outro rio e, já dentro de água, Mii sentiu-se de repente cheia de sono. Antes mesmo de se dar conta, tinha engolido imensas goladas de água. A mãe puxou-lhe a cabeça e manteve-a fora de água. Chegaram à margem e continuaram a correr. Continuar a ler

A morte, a televisão e as crianças

Notícias Magazine
25.FEV.2007

Sónia Morais Santos

Porque é que mataram o senhor, mamã?

Nos dias a seguir às imagens do enforcamento do ex-ditador iraquiano, que as televisões exibiram vezes sem conta, morreram sete crianças com a corda à volta do pescoço em distintos pontos do globo. De quem foi a culpa? Das televisões, que exibiram as imagens, esquecendo que à hora do jantar há crianças na sala? Dos pais, demasiado ocupados para serem «as legendas» do que os filhos vêem no pequeno ecrã? — A discussão está em aberto.

«Porque é que mataram o senhor, mamã? Meteram-lhe uma corda à volta do pescoço e depois ele estava morto, não estava? Ele era mau ou era bonzinho? Ele vai acordar ou vai ficar assim todo morto?» As perguntas, como rajadas, deixaram talheres a caminho da boca, naquela noite de Janeiro. Por uns momentos, o silêncio ocupou a sala. As luzes da árvore de Natal tremeluziam, dando corpo à brutalidade dos opostos: a paz do Natal recente a piscar na sala definitivamente não combinava com as imagens medievais de um enforcamento, verbalizadas por uma criança de cinco anos, incapaz de compreender.

Ana e Tiago, os pais, olharam-se, cada um à procura no olhar do outro de uma solução mágica – e sobretudo rápida – para o problema. O que dizer? Como dizer? Como se diz o indizível? Ana não sabia onde o filho António tinha visto as imagens da execução de Saddam Hussein, mas não teve dúvidas de que era a elas que se referia. «Onde viste isso?», perguntou, mais para ganhar tempo do que por genuíno interesse. «Em casa da avó enquanto ela fazia o jantar.» Ana e Tiago respiraram fundo, e foi Ana quem começou a explicação possível.

Ana Mendonça assustou-se nessa noite fria de Janeiro. Pelas notícias já tinha tido conhecimento de crianças enforcadas pelo mundo fora. Numa outra noite já havia comentado com o marido que coisa terrível, essa, de meninos e meninas a morrerem por simpatia para com o destino de um ditador. Mas nessa noite era o seu menino que perguntava. E, sobretudo, perguntava vários dias depois do sucedido, o que podia querer dizer que o assunto tinha tomado, dentro dele, proporções preocupantes. «O facto de não ter dito nada no dia a seguir, ou nos dias imediatamente depois, afligiu-me. Tinham passado duas semanas desde a exibição do enforcamento. E tinha ficado com aquele assunto mal resolvido na cabeça.»

Imitar a morte

Como lida uma criança de cinco anos com a morte? Como gere, dentro de si, o visionamento de uma morte violenta? Em todos os casos de crianças que se enforcaram, imitando a morte do ex-ditador iraquiano, nenhuma tinha a idade do António. O mais novo tinha nove anos, o mais velho quinze. Segundo o pediatra Mário Cordeiro, nestas idades, em princípio, já se sabe distinguir o bem do mal, a vida da morte: «A ideia da irreversibilidade da morte surge por voltados seis anos. Pode é ter havido algum caso em que a solidariedade com Saddam tenha sido tal (instigada eventualmente pelo seu martírio) que levasse alguns apensar que já não valia a pena viver e que o imitariam, com todo o simbolismo que isso traria.»

É justamente de empatia e de proximidade que o psiquiatra Álvaro Carvalho fala para encontrar uma justificação para esta morte por mimese: «A pré-adolescência costuma ser marcada pela adesão a grandes causas e afiguras relevantes. Nessa fase da vida, habitualmente faz-se um luto da infância e, paralelamente, uma tentativa de definir objectivos e ideais em relação ávida adulta. Ora, se estivermos a falar de adolescentes com famílias com grande carga ideológica, e se uma personagem marcante para eles é morta com este aparato, está pré-cozinhado um caldo que pode ser perigoso.» Com efeito, não será despiciendo recordar que quase todos os países onde estas mortes ocorreram são maioritariamente muçulmanos. A indiana Moon Moon, de 15 anos, poderá bem ser um desses casos. O pai, Manmohan Karmakar, contou aos jornalistas que a filha «não se alimentou durante dois dias, dizendo que estava em protesto pela morte de um patriota».

De qualquer modo, fica a ideia de que estas crianças ou pré-adolescentes tinham de estar envolvidas numa espécie de «caldo» emocional e cultural para que as imagens de um enforcamento lhes despertassem a vontade de morrer. O psicólogo Eduardo Sá não tem grandes dúvidas: «Estas crianças, regra geral, não são “normais”. Isto quer dizer que são crianças ora muito despedaçadas e melancólicas por dentro, ora no limiar de um abismo emocional que as faz mimetizar comportamentos por impulso, ou ainda crianças que têm com as situações arriscadas uma relação semelhante a uma roleta-russa, que muitas vezes serve de mata-borrão para toda a angústia que as persegue, vão elas para onde forem.»

Às vezes, poderão nem querer morrer. Podem querer apenas experimentar. Testar limites. O pediatra Mário Cordeiro consegue mesmo imaginar um miúdo «a querer ver como é aquilo, deve ser porreiro dar um salto assim, e eu depois consigo agarrar-me à corda, na boa, vai ser cool». Sem escamotear as mortes que poderão ter acontecido por acidente, Eduardo Sá explica que mesmo as outras, as que ocorreram por convicção, não têm bem a morte como objectivo: «Mesmo as crianças que pretendem morrer fazem-no mais para aniquilarem uma parte de si, condensada num sofrimento intolerável, do que propriamente para se matarem.»

Falta de pais

Nenhuma destas explicações, porém, seria suficiente para acalmar Ana e Tiago Mendonça, naquela noite em que as luzes do Natal perderam o sentido. Os pais de António tiveram medo. «Medo de que ele se pusesse a imitar o que tinha visto, medo de que aquilo o tivesse afectado, medo do que pudesse pensar.» Por isso, com muita prudência, como quem caminha numa loja de porcelanas, Ana encetou aquela que foi, até hoje, a conversa mais difícil que teve com o António. «Sabes, filho, aquele senhor era realmente muito mau. E fez coisas muito más a outras pessoas. Então…» Os silêncios e as reticências foram, como se imagina, abundantes. Como explicar a uma criança de cinco anos que «…e então uns senhores decidiram que para castigo o senhor muito mau tinha de morrer»? Mas foi isso, exactamente, que a mãe do António lhe contou. E como se não bastasse, às perguntas sobre o tema sobrevieram outras, e a prosa tornou-se muito mais filosófica do que Ana tinha imaginado que seria: «E quando se morre já não se acorda?»; «E depois de morrer para onde é que se vai?»; «E quando morrerem todas as pessoas de Portugal quem é que vem para cá? Os espanhóis?»

Não se sabe se os adolescentes que puseram uma corda à volta do pescoço atirando-se de seguida para a morte terão feito perguntas – mais ou menos filosóficas – aos pais, na sequência das imagens televisivas que os perturbaram. Não se pode saber que respostas poderão ter dado esses pais para os sossegar. Mas para Eduardo Sá fica claro que sempre que uma criança brinca com a morte «há, salvo nas situações muito acidentais, uma falta significativa de pais». Esse jogo de sedução com a morte é, segundo o psicólogo, «uma forma de dizer aos pais: “caso não repares de outra maneira, eu estou aqui”».

Imagens de choque com legendas

As razões para as mortes que se sucederam à exibição do enforcamento podem ser o patriotismo, a identificação, a depressão, o abandono. Mas há sempre quem se pergunte: e se as imagens não tivessem sido transmitidas? E se não tivéssemos visto, repetidas vezes, Saddam Hussein a caminhar tranquilamente para a morte, como um mártir? E se não nos tivessem mostrado a corda, o nervoso em redor, e depois o corpo inerte de um homem? Teriam estas mortes sido impedidas? Teriam ocorrido mais tarde, desencadeadas por outros motivos? Devemos culpar a televisão e o despudor com que nos exibe a violência?

Para Joana Cordeiro e Francisca G. a televisão tem muitas culpas e, por isso mesmo, perdeu o estatuto que deteve durante anos nas respectivas casas. A primeira é mãe de Pedro, hoje com nove anos. À segunda, já iremos.

Pedro Cordeiro passou um mau bocado com as imagens televisivas do 11 de Setembro. Tinha então quatro anos e ficou extasiado a ver corpos voarem em direcção ao chão. «Aquilo são pessoas, mãe? Pessoas? E estão a saltar das janelas? E vão cair?» Joana Cordeiro foi apanhada de surpresa. A torrente de imagens não cessava, em catadupa, e também ela não conseguia desligar o aparelho. «Estava perplexa com tudo aquilo. Ver aquele horror não fez bem a ninguém, mas a verdade é que não deve ter havido uma pessoa que não tenha ficado a ver, vezes sem conta, os aviões abater nas torres e as pessoas a atirarem-se das janelas.» Pedro também não escapou. Mas era demasiado cedo para o expor a tamanha brutalidade, que nem os adultos conseguiram digerir de imediato. A criança passou a ter pesadelos, gritava que ia cair, tinha medo de adormecer porque achava que vinha um avião contra a parede do quarto. «Cheguei a pensar levá-lo a um psicólogo. Mas o pediatra aconselhou-me atentar sossegá-lo, a deixar passar algum tempo. Foi o que fiz. Um mês depois já estava tudo a voltar ao normal, mas aprendi uma lição. Há coisas que os miúdos pura e simplesmente não podem ver. E o meu televisor passou a estar desligado à hora do jantar. Só vejo notícias quando eleja está a dormir.»

Rodrigo Guedes de Carvalho, pivot do Jornal da Noite da SIC, não tem o discurso apaziguador habitual de quem está «do outro lado». Pelo contrário: «Pela sua dimensão e alcance, a televisão tem deveres redobrados. Sou, nesse aspecto, cada vez mais uma excepção porque facilmente cortaria grande parte das imagens que transmitimos. Chamemos-lhe pudor, característica de que o jornalismo não me isentou.» Para o jornalista, «este é um dos mais incompletos e importantes debates para quem faz jornalismo televisivo». E sim, no caso da exibição da pena de morte de Saddam, Rodrigo Guedes de Carvalho crê que a televisão foi longe de mais. «Como foi longe de mais na transmissão daqueles aberrantes vídeos das decapitações de reféns por terroristas no Iraque, ou na repetição ad nausea de grandes planos dos corpos que se precipitavam do World Trade Center.»

Deverá, então, existir uma autocensura? As televisões deverão abster-se de divulgar imagens demasiado chocantes? E quem define a fronteira entre o que impressiona e o que é suportável? Não seriam as imagens de Saddam a própria notícia? Poder-se-ia deixar de transmitir as imagens das pessoas que se atiravam das janelas das torres gémeas em chamas? O jornalista defende que há mil formas diferentes de dar uma notícia: «Não se trata de esconder a morte: todos sabemos que o sexo existe e não vejo pornografia nos telejornais. Há um nível de choque que causa repulsa, e um nível de choque que, no limite, funciona como arma nojenta de sedução. Conhecedores do pior abismo da natureza humana, sabemos que as pessoas não desgrudarão o olhar. Veja-se os acidentes nas estradas.»

Para o psiquiatra Álvaro Carvalho, é certo que «houve um certo despudor» na exibição das imagens de Saddam. Mas, por outro lado, afirma que «os pais poderiam aproveitar para falar aos filhos da morte, da justiça, do bem e do mal». O problema, acrescenta, é que «regra geral não é isso que se passa» e, nos dias céleres de hoje, «avança-se por cima das coisas, faz-se de conta que não se vê, assobia-se para o ar como se nada fosse». Também Eduardo Sá alerta para os perigos de uma televisão omnipresente e, logo, omnipotente: «A televisão é uma janela para o conhecimento. Faz bem às crianças. O que não será razoável é que a televisão seja a baby sitter oficial de muitas famílias. Não me choca que, mesmo os programas de informação, tenham uma recomendação das idades das pessoas a quem são dedicados. Isto tudo sem nunca esquecer que os pais são as verdadeiras legendas dos programas de televisão, devendo descodificar algumas mensagens que a televisão torna acessíveis.» O psicólogo considera ainda que «mais violenta do que a imagem do enforcamento de Saddam terá sido a repetição compulsiva com que foi passada, acompanhada pela indiferença de muitos pais que comiam um belo bife ou saboreavam um gelado, enquanto uma pessoa era morta».

O efeito da violência nos media

Mas nem todos estão de acordo com esta ideia de que «a televisão faz bem às crianças». Francisca G., mãe do André, não pode concordar. No Carnaval do ano passado, o filho vestiu o fato do Super-Homem e atirou-se de uma janela. Tinha então três anos e, apesar das explicações da mãe sobre a incapacidade de os homens voarem, abriu a janela do primeiro andar da moradia onde vivem e saltou. «Sempre tive cuidado com o que ele via na televisão. Sempre lhe expliquei que os bonecos voavam porque eram bonecos, que morriam e voltavam a acordar porque eram ficção. Mas ele não me deu ouvidos. E naquele dia 19 de Fevereiro de 2006 atirou-se mesmo.» André não voou. Aterrou directamente no chão mas teve sorte. Não partiu nada nem se magoou a sério. Para Francisca fica a dúvida: «E se ele tivesse visto as imagens do enforcamento? Mesmo que eu lhe dissesse que aquilo era muito perigoso, que o senhor tinha morrido, que morrer é partir e nunca mais voltar, quem me garante que ele não se punha a brincar com uma corda?» Como prevenir que as crianças fantasiem sobre o que vêem, apesar dos alertas dos pais?

Vera Reimão Pinto, psicóloga do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, aconselharia provavelmente Francisca a procurar apoio psicológico para o André. Essa é, de resto, a sugestão feita aos pais sempre que uma criança aparece ferida nas urgências por ter imitado algo que viu num programa de televisão. Ao seu consultório chegam sobretudo pequenos «seguidores» do wrestling, um desporto americano de luta que tem vindo a colher seguidores em Portugal. «Aparecem algumas crianças que se magoam, até hoje sem gravidade, na imitação desse desporto. Imitar comportamentos é normal mas pode tornar-se perigoso. E a televisão em excesso, sem acompanhamento de adultos, pode ser mesmo nociva.» Sobre o perigo das imagens noticiosas, que relatam a vida como ela é e não a ficção, a psicóloga é peremptória: «A televisão abusa, sem dúvida, da violência das imagens. Não só neste caso. Mas já se tornou “normal” vermos corpos destroçados pela guerra, justamente à hora do jantar, quando as crianças estão na sala em frente ao televisor. Devia haver um maior rigor. E não só nas notícias. É chocante perceber que nos intervalos dos programas infantis se exibem promoções de outros programas, muito pouco próprios para crianças, com imagens que não são adequadas.»

O Comité de Educação Pública da Academia Americana de Pediatria tem vindo a estudar o efeito da violência nos media, e alguns resultados parecem mostrar uma relação mais elevada do que seria de esperar entre o visionamento e o comportamento. Nos Estados Unidos, qualquer criança antes de atingir os 18 anos já assistiu a cem mil actos de violência na televisão, tendo oito mil retratado a morte (National Institute on Media on the Family). O debate mantém-se em aberto. As dúvidas também. Mas, pelo sim pelo não, existe hoje uma barreira mais reforçada entre a televisão, o António, o Pedro e o André. Falta saber se os outros sete meninos e meninas estariam a salvo se as imagens do enforcamento de Saddam Hussein não tivessem passado, e tornado a passar, pelas suas (demasiado) breves vidas.

A mão da mãe

A mão da mãe

Tão pequena que era ainda aquela mão de criança e tão fácil de esconder numa mão de mulher!

Era a mão de uma criança, do seu filho, mas era uma parte dela. E os dedos da mãe, dedos suaves e confiantes de mãe, estavam fechados em volta do seu bem mais querido.

— Se não acontecer um milagre… — dissera o médico com um encolher de ombros. E abandonara o quarto.

Os olhos da mãe deslizavam da face exausta e em agonia do rapazinho pousada na almofada para os objectos que a rodeavam, como se tivesse de pedir socorro a estes brinquedos mudos que faziam parte do seu círculo solitário.

No calendário junto à janela brilhava uma fotografia a cores: um esquimó, de cara castanha-dourada, sentado no seu trenó, segurava as rédeas das renas de olhos inteligentes e dos cães polares. Todos pareciam ter uma saúde que a morte nunca viria colher. Ao lado do avião de alumínio reluzente pousado em cima da cómoda, estava o búzio cor-de-rosa onde a criança gostava de encostar o ouvido e escutar o som do mar.

As recordações daquele quarto não eram iguais às que se instalam num quarto de adulto. Neste quarto de criança, não eram memórias. Eram o próprio futuro e o símbolo de mil e uma promessas.

O soldadinho de corda, cuidadosamente pousado na prateleira por cima da cama, já só marchava quando algum amigo de brincadeiras trazia consigo um irmão mais novo.

O menino de oito anos, que já não tinha pai, conseguia ser de uma atenção comovente para com os mais pequenos.

E também o era para com a mãe, tão comovedoramente preocupado. Como se quisesse dizer: nós mantemo-nos unidos e fortes contra o mundo inteiro.

Porém, agora, alguém mais forte do que o próprio mundo vinha exigir os seus direitos.

Mãe!

— Sim, filho.

— Vou morrer?

— Eu estou ao teu lado.

— Mãe, o que é que acontece quando se morre? Vem a morte?

— Quando se morre, a alma dos homens vai para Deus.

— Não. Quero dizer, vem a morte a sério, como está desenhada nos livros? Uma pessoa horrível, só com ossos?

— Não, não, filho! Essa morte não existe, é inventada.

— Mãe, mãe!

— O que é?

— Ali, no armário!

— O quê?

— O lobo, o lobo!

— Calma, calma, filho. És tu a sonhar!

— Mas olha, mãe, que olhos tão vermelhos e selvagens que ele tem!

— Não tenhas medo, filho! Eu seguro a tua mão com força e não te acontece nada.

— O lobo está a aproximar-se cada vez mais! Já está à tua beira!

— Vou fazer festas ao lobo. Vês? Ele não é mau. Quando a mãe lhe faz festas, ele porta-se bem. E agora está a ficar cada vez mais pequeno. Já só está do tamanho de um gatinho. Transformou-se num gatinho amoroso e tem três cores: branco, castanho e preto. Os gatos de três cores são gatos da sorte, sabias. Não ficas contente por termos um gatinho da sorte?

— Sim, mãe. Olha como ele está a levantar as patas. Vá lá, mãe, põe-no à minha beira na cama.

— Olha, filho, o gatinho já está em cima da cama à tua beira. Estou a passar a tua mão pela cabeça dele. Sentes como é macio?

— É! É macio e quente!… Mãe, mãe, ali, no tecto!

— O que é que há no tecto?

— Morcegos! E do tamanho de corvos! São muitos, muitos!

— Não tenhas medo, filho. A mãe sabe a palavra mágica. Mutantur! Mutantur! Agora os morcegos transformaram-se em lindíssimas aves-do-paraíso de longas penas coloridas.

— Mãe, já estamos no Paraíso?

— Sim, filho, estamos no Paraíso e eu vou levar-te pela mão porque quero mostrar-te tudo. Como é verde e aveludado o prado por onde vamos! As árvores estão totalmente brancas e cor-de-rosa com tantas flores. Vêm pousar-nos no braço muitas borboletas grandes e bonitas. À nossa frente uma lebre levantou-se nas patas traseiras e os veados e as gazelas passam a saltar. No Paraíso, sabes, o medo não existe. E tudo o que é bonito existe no Paraíso. Quando queremos voar, só temos de dizer ao cisne do lago. Então ele leva-nos até uma montanha que é um rubi reluzente. E se…

— Mãe, mãe!

— Sim!

— Não podes nunca… nunca… largar… a… minha… mão…!

— Não, filho, nunca, nunca!

— Mãe!

— Filho! Pelo amor de Deus, o que é?… Estás a ouvir-me? Filho! Filho! Foste para o Paraíso… Porque me deixaste com os lobos e com os morcegos?

Josef Guggenmos

SOS-Kinderdorf Caderno Anual, 1996

Texto adaptado

Partilha

Nove horas. A equipa de cuidados paliativos encontra-se na copa para beber o café matinal. Da ementa constam croissants e pãezinhos com chocolate. Foi o Dr. Clément que os trouxe. Acontece-lhe de manhã, ao sair de casa para se dirigir ao hospital, pensar nas enfermeiras. Algumas estão presentes desde as sete da manhã para acompanhar o despertar dos doentes. Ao passar pela padaria da Rua Coquillière, faz uma paragem. É certo que, quando ele chega com o seu largo sorriso e carregado daqueles pães a cheirar bem, uma lufada de calor e de bem-estar espalha-se pelo serviço.

A equipa está então reunida para uma dessas numerosas ocasiões de convívio e troca de experiências profissionais.

Há alguns anos que integro essa equipa. Fui a primeira, em França, a apresentar-me como voluntária para confortar e cuidar daqueles que vivem os seus últimos instantes.

Não sabia, ao fazer essa escolha, o quanto a proximidade do sofrimento e da morte dos outros iria ensinar-me a viver e outra maneira, mais consciente e intensamente. Não sabia que um local destinado a acolher os moribundos pode ser o inverso de uma antecâmara da morte, um lugar onde a vida se manifesta com toda a sua força. Não sabia que ali ia descobrir a minha própria humanidade, que ia, de certo modo, mergulhar no coração humano.

Atraída pelo cheiro do café a ferver e pelo ar festivo do Dr. Clément, Chantal, a enfermeira do turno da noite, decide-se a ficar mais uns momentos. Acabou o serviço, mas tem vontade de partilhar com os outros os frutos da sua noite. O serviço nocturno é uma tarefa solitária, por isso ela raramente perde a oportunidade de se juntar à equipa diurna para se sentir menos só. À sua maneira volúvel, ei-la que se põe a descrever o seu turno.

Patrícia, a jovem que entrou na véspera, tocou várias vezes a campainha sob os mais variados pretextos.

Chantal sentiu-a angustiada. Disse ter hesitado em ministrar-lhe um calmante, mas depois teve uma ideia luminosa. Pegando numa travessa, cobriu-a com um guardanapo branco e colocou-lhe em cima duas bonitas chávenas, um raminho de flores e uma vela acesa. Após ter enchido as chávenas com uma verbena a fumegar, entrou no quarto de Patrícia. Eram duas horas da madrugada: Descreve-nos o ar de surpresa e de satisfação da jovem, o ambiente de festa íntima que a sua ideia soubera criar.

Criar uma ambiência calorosa e calma em volta de um doente angustiado é, sem dúvida alguma, o melhor que podemos fazer por ele. Há muito tempo que Chantal percebeu isso. Aliás, os médicos ficam sempre muito admirados por haver tão poucos calmantes ou ansiolíticos ministrados aos doentes nas noites em que ela está de serviço. É verdade, ela prefere fazer-lhes massagens, contar-lhes histórias, ou pura e simplesmente deixá-los falar, enquanto fica calmamente instalada à cabeceira. Foi o que fez esta noite, diz-nos ela, com a Patrícia.

*

Sentada numa das poltronas confortáveis, concedo-me este momento de solidão, em que deixo o pensamento divagar; é a minha maneira de me recompor. A súplica de Patrícia, de não morrer antes de estar preparada, faz-me pensar em Xavier, um amigo que morreu de sida há poucas semanas. Um ano antes de morrer, quando se encontrava na reanimação após uma pneumocistose aguda, ele dissera-me: «Não tenho medo de morrer, mas não queria morrer sem estar pronto.» De noite, sonhara que devia partir para o «novo mundo», a América, sem dúvida, mas não queriam dar-lhe ainda o bilhete. «Lá o terá, a seu tempo», responderam-lhe. Lembro-me de me ter maravilhado com a maneira como o seu sonho o incitava a ter confiança no tempo. Partiria «a seu tempo». Ele pedira tempo para se preparar para a morte, a vida dera-lhe um ano. Eu sei, por tê-lo encontrado várias vezes nesse ano, que, para além das questões materiais a resolver, preparar para morrer significa, na realidade, cavar o mais profundamente possível o leito da sua relação com os outros, aprender a entregar-se.

Perguntam-me com frequência que razão me levou a vir trabalhar num sítio como este, a conviver com o sofrimento e a morte. Parece-me que, desde a infância, dois impulsos me trouxeram até aqui. Um deles, mais espiritual, nasceu no meio da angústia familiar em face da morte, questão sem resposta em que medito quotidianamente e que me faz avançar. O outro é a minha curiosidade infinita em relação à alma humana, que me levou a ser psicóloga, a explorar o campo da psicanálise e, mais recentemente, o da haptonomia, ciência do contacto afectivo.

A vida ensinou-me três coisas: a primeira é que não poderei impedir nem a minha morte nem a dos meus próximos. A segunda, é que o ser humano não se reduz àquilo que vemos, ou julgamos ver. É sempre infinitamente maior, mais profundo do que os nossos estreitos julgamentos podem exprimir. E, finalmente, ele nunca disse a última palavra, estando sempre a transformar-se, a realizar-se em potência, capaz de se modificar através das crises e das provações da sua existência.

A proximidade da morte desperta, por vezes, os medos, as inseguranças antigas. Podemos entender que, ao perdermos as nossas defesas, os nossos meios de protecção, ficamos extremamente vulneráveis. Vemos, por vezes, surgir dores ou terrores que remontam à mais tenra infância. Não será o ser humano à procura dessa protecção, dessa segurança que lhe falta?

No quarto 775, Christine passa por momentos semelhantes de terror, incontroláveis e de todo imprevisíveis. Esta rapariga de apenas trinta anos, que está a morrer de um cancro generalizado no útero, fica por vezes transida de pânico. Vê no seu quarto uma multidão de serpentes que lhe assaltam a cama. Nessas alturas, salta da cama em grandes gritos. Esta cena reproduziu-se já várias vezes. O serviço fica petrificado, os doentes dos quartos vizinhos, desnorteados: que se passa?

Mau grado um tratamento adaptado a este género de alucinações, os terrores persistem, e só cedem, em geral, passado um bom bocado. Durante o resto do tempo, Christine mostra-se bastante serena, eu diria mesmo que dá, por vezes, provas de uma maturidade surpreendente, no modo como vive esta derradeira fase da sua existência. Uma maturidade em grande contraste com os seus pânicos infantis. Fala abertamente da sua morte e preocupa-se com o futuro do noivo, repetindo-lhe com frequência que deseja que ele refaça rapidamente a sua vida com outra mulher.

Esta manhã, ao chegar ao serviço, dou com Christine esgazeada, no meio do vestíbulo, a gritar a plenos pulmões, dificilmente dominada pelo Dr. Clément e por Simone, que, pegando-lhe cada um num braço, tentam impedi-la de se evadir do serviço. Porque é isso que ela quer fazer.

Vou, naturalmente, ajudá-los. Christine grita que as serpentes a perseguem, suplica que a protejam. Sem reflectir demasiado, prendo-a nos meus braços. De resto, ela pesa tão pouco que não tenho a menor dificuldade em levá-la até à saleta anexa. Aí chegando, deixo-me cair num sofá e, mantendo-a bem apertada ao peito, começo a embalá-la suavemente, cantando-lhe o nome. O Dr. Clément, após ter-se certificado de que já não precisava dele, fechou a porta, pois Christine continua a gritar com a mesma força, embora já não procure fugir. Sinto que aceita ficar sentada nos meus joelhos, penso mesmo que se sente em segurança, com os meus braços em sua volta, a protegê-la contra esse medo invisível.

Enquanto ela não pára de gritar, continuo a embalá-la ao peito, e a cantarolar o seu nome, com doçura.

Agora, deixou de gritar, mas soluça aflitivamente, com a cabeça enterrada no meu pescoço, como uma criança. Dali a pouco, com uma voz de menina pequenina, entrecortada de choro, conta-me os terrores da sua infância. A mãe dela coleccionava serpentes vivas em grandes frascos de vidro, e deixava-as sair de cada vez que Christine fazia uma asneira. Custa-me a crer em semelhante crueldade, a crer que uma mãe possa ser tão louca. Pouco importa, de resto, qual é a parte de efabulação ou de realidade! Esses medos fazem, sem qualquer dúvida, parte da infância de Christine. Não posso fazer outra coisa senão dar-lhe a entender que também existem lugares onde nos podemos sentir em segurança. Também para ela existe um espaço seguro. De momento, é este dos meus braços, daqui a pouco será noutro lugar. Que posso eu senão fazê-la experimentar esta sensação de segurança?

Agora, já não chora mais. Está a brincar com o colar de borboletas de contas azuis, enfiadas por crianças leucémicas, que trago por dentro da minha bata branca, sempre com a cabeça inclinada no meu ombro. Faço-lhe festinhas nos longos cabelos louros que lhe chegam a meio das costas.

— Se quiseres, dou-to — digo-lhe. — As borboletas não se deixam apanhar pelas serpentes. Vão proteger-te.

O meu colar vai, pois, servir de objecto transicional. O psiquiatra inglês Winnicott denomina assim o objecto que a criança às vezes guarda consigo, e que lhe permite suportar a ausência da mãe, na medida em que está investido das suas qualidades.

Antes de acompanhar ao seu quarto Christine, que recuperou a calma, digo-lhe ainda que a borboleta simboliza a alma, essa verdadeira essência do humano que escapa às leis da biologia, aquilo que eu julgo ser a parte de eternidade do homem. Christine não tem qualquer dificuldade em entender a interpretação que lhe proponho: também ela acredita na eternidade da sua alma.

*

Montreal. Termina o congresso «processo de cura para além do sofrimento e da morte». O Dalai-Lama veio presidir à sessão plenária de encerramento. Estou sentada na primeira fila, ao lado de Luc Bessette. O audacioso organizador deste imenso congresso propôs-me amavelmente este lugar. Mais de mil e quinhentas pessoas vieram aqui para reflectir durante dois dias sobre as questões que colocam a doença e a morte. Pela primeira vez, um congresso científico internacional dá um lugar de destaque à contribuição das tradições orientais e às técnicas meditativas.

O sussurro esvaiu-se na imensa sala dos congressos, pois Sua Santidade o Dalai-Lama chegou ao estrado. Vemos subir pela escada lateral um jovem muito frágil, de cabeça rapada, quase diáfano. Vemos que se trata de um menino doente, apesar de se manter de pé, muito direito. Uma mulher guia-o até junto do Dalai-Lama, pronuncia algumas palavras, e vemos o santo homem inclinar-se para o menino. As duas cabeças calvas, uma bronzeada e castanha, a outra de uma brancura quase transparente, estão agora frente a frente. Há algo de infinitamente comovedor neste encontro de um velho sábio e este menino doente. Um homem, ao microfone, explica-nos que o menino sofre de leucemia e que a sua vida está em perigo, pois todos os tratamentos falharam. O maior desejo do menino era encontrar um dia o Dalai-Lama. Esse desejo foi hoje satisfeito.

O velho monge instala o menino à sua direita, na mesa de conferências, e as últimas intervenções do colóquio vão-se sucedendo ao microfone. É altura, finalmente, das perguntas a fazer pela assistência. Luc Bessette dirige-se ao menino doente e pergunta-lhe:

— Podes dizer-nos aquilo de que tens mais necessidade, neste ponto que a tua doença atingiu? Podes dizer-nos, ainda, o que significa a morte para ti?

Vemos então o menino pegar no microfone e, com uma firme autoridade interior, responder numa voz calma e prodigiosamente comedida:

— Tenho necessidade de que estejam comigo, como se eu não estivesse doente. Que se riam, que se divirtam comigo, que sejam naturais! Sei que estou na terra por um tempo limitado, para aprender alguma coisa. Quando tiver aprendido o que cá me trouxe, partirei. Mas, no meu cérebro, não consigo imaginar que a vida se acabe!

Foi assim que, nessa tarde, mil e quinhentas pessoas cultas receberam a mais bela lição de sabedoria e de simplicidade que possa existir. Uma palavra de ouro nos lábios de uma criança condenada pela medicina. Um enorme estremecimento percorreu a sala, seguido por um profundo silêncio. Em muitos olhos viam-se lágrimas. O velho monge levantou-se e inclinou-se perante o menino, como se teria inclinado perante um mestre. Colocou-lhe uma estola branca sobre os ombros e abençoou-o. Uma ovação interminável fez erguer a assistência, que não sabia dizer de outra maneira a intensa emoção que sentia.

*

Embora conviva quotidianamente com a morte há vários anos, recuso-me a banalizá-la. Vivi a seu lado os momentos mais intensos da minha vida. Conheci a dor de me separar de quem amava, a impotência perante os progressos da doença, momentos de revolta em face da lenta degradação física daqueles a quem assistia, momentos de esgotamento, com a tentação de parar com tudo: mas não posso negar o sofrimento e, por vezes, o horror que rodeiam a morte. Fui testemunha de imensas solidões, senti a dor de não poder participar de certos desamparos, pois há níveis de desespero tão fundos que não podem ser partilhados.

Conjuntamente com este sofrimento, tenho, mesmo assim, a sensação de me ter enriquecido. De ter conhecido momentos de uma densidade humana incomparável, de uma profundidade que não trocaria por nada deste mundo, momentos de alegria e de doçura, por incrível que isso pareça. Sei que não fui a única a tê-los vivido.

Há alguns anos, tive este sonho: estava na cozinha de uma velha casa, em presença de um homem, que era, sem dúvida, o hospedeiro daquele lugar. O homem apontava para a parede, por cima da lareira. Nesse sítio havia um buraco. Como ele parecia insistir em que eu fosse ver de mais perto, peguei numa cadeira, subi e olhei para o interior da chaminé. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que, ao longo das paredes cobertas de uma fuligem negra e espessa, escorria algo semelhante a mel. Intrigada, estendi a mão para me certificar: era mesmo mel!

Lembro-me de que, no sonho, eu estava profundamente abalada por essa descoberta, e tinha a sensação de que precisava, absolutamente, de prevenir os outros. Como se detivesse um segredo que era urgente partilhar.

Sabia que teriam dificuldade em acreditar em mim, e que a coisa levaria o seu tempo.

Irão encontrar neste sonho várias outras interpretações óbvias, estou consciente disso, mas, na altura em que o vivi, liguei-o, de propósito, ao que ia descobrindo de dia para dia, naquela proximidade do sofrimento e da morte! Existia dor, é certo, mas também doçura, muitas vezes uma infinita ternura. Eu descobria, assim, que o espaço-tempo da morte é, para os que querem penetrar nele e ver para além do horror, uma ocasião inesquecível de intimidade.

Marie de Hennezel
Diálogo com a morte
Lisboa, Editorial Notícias, 2002
Excertos

A esperança brilha como um diamante

A esperança brilha como um diamante

A menina escreve a giz no passeio:

Aqui é o inferno e lá o paraíso.

— Já não se vê a Sr.ª Bravoure ir comprar o jornal.

— A Sr.ª Bravoure tem um ar triste. Compreende-se. Depois do que passou nestes seis meses.

— A Sr.ª Bravoure não anda bem. Já não liga ao jardim.

Junto da casa tapada pela sebe, o coro da vizinhança aumenta o seu murmúrio de amizade. Mas a Sr.ª Bravoure não tem cura. Para falar a verdade: não se preocupa com nada. Juntamente com o seu velho, com o seu companheiro, enterrou o prazer de existir no dia-a-dia: a primeira chávena de café tomada lado a lado na varanda com a janela escancarada sobre o jardim, o jornal longamente comentado na cozinha iluminada por um ramo de chagas cor-de-laranja, as compras feitas em amena cavaqueira na mercearia, os serviços prestados a este e àquele, a expedição mensal à cidade próxima para se encontrarem com a neta recém-casada, o cheiro dos crepes à quarta-feira – um hábito herdado das merendas de antigamente, quando o pequeno (que tem agora cinquenta anos) partilhava da vida deles – a missa das seis da tarde na igreja matriz, o telejornal…

Já não tem gosto em nada. Ela, que atravessou com tanta valentia a doença prolongada de Paulo, o seu esposo – “Ainda tem mais três meses, no máximo” prevenira o médico do hospital. À força de cuidados, ela prolongou-os por seis meses – ela, que lhe deu a mão até ao último instante com um sorriso corajoso, não para lhe mentir, mas para ele se não sentir demasiado culpado por lhe tornar os dias pesados, por a deixar pelo caminho. E eis que agora se vai abaixo.

A Sr.ª Bravoure já nem se reconhece e preocupa-se em saber onde estará a energia, a sua diligência por todos conhecida. Um grande buraco negro. De noite, ela sonha: as suas mãos escorregam na parede a que tenta agarrar-se para subir. Não há nada a fazer. Nem as visitas calorosas, nem as cartas de encorajamento, nem as atenções com que uns e outros a rodeavam. Ouve as palavras deles, sim, mas como um murmúrio longínquo. Mordisca com a ponta dos lábios a tarte ainda quente, lê cada vez com mais dificuldade os postais enviados de Itália pelo filho. Tudo fica de fora sem a atingir.

“Desta vez desço um degrau da escada.”

Nunca esqueceu a representação da vida, observada no museu das artes populares por altura de uma visita com o marido (Há quanto tempo isso foi?)

— Sr.ª Bravoure, porque não se anima? Não devia ficar assim sozinha. Venha tomar o café a minha casa, é descafeinado.

— Muito obrigada, D.ª Lara, agora não. Ainda não acabei de separar os fatos do meu Paulo.

A Sr.ª Bravoure sabe muito bem que ainda não é hoje que vai realizar aquela tarefa superior às suas forças. Vai ficar sentada na penumbra e esperar, nem ela sabe bem o quê, e, com certeza, amanhã será igual.

Quem estará a tocar à campainha a esta hora?

“Depois das onze horas, não abra a porta a ninguém”, recomenda-lhe o filho em todas as cartas. “Há por aí pessoas mal-intencionadas”. Mas a campainha continua a tocar e a Sr.ª Bravoure não resiste. Pega no casaco à entrada, acende a luz do pátio e corre até à grade de madeira que já devia ter sido pintada. Uma silhueta um pouco volumosa… uma mulher.

— Maria!

Caíram nos braços uma da outra. Ao apertar Maria contra si, a Sr.ª Bravoure sentiu-lhe o ventre redondo de grávida.

— Maria! Bons olhos te vejam! Não contava contigo a esta hora… Vá, entra!

A Sr.ª Bravoure retomou a sua natural vivacidade para tirar o casaco da jovem, aquecer água, acender as luzes.

— Não tens frio? Posso aumentar o aquecimento.

Segura as perguntas impacientes.

— Comes uma sopinha de ervilhas?

— Dá-me licença que me deite um bocadinho?

— Estás em tua casa, Maria.

Paulo não suportava que nenhuma criança ou Maria se deitasse no canapé da sala de visitas.

— Isso não se faz — protestava ele.

— Mas, Paulo, não faz mal a ninguém e bem vês que ela está cansada!

A Sr.ª Bravoure dirigiu-se mentalmente ao ausente, como faz cada vez com mais frequência. Uma recordação de infância: a avó — que resmungava sozinha na cozinha. “Tenho de estar atenta. Vou acabar por ficar meio maluca.”

Deitada, Maria recompõe-se. Terá sido pela sopa com que se deleitava durante os meses em que partilhara a vida do casal?

O director da escola tinha anunciado, pouco à vontade:

— O Sr. e a Sr.ª Bravoure podiam prestar-me um serviço? Acolher por seis meses uma professora provisória, assegurar-lhe estadia e alimentação. Como sabem, não há hotel na aldeia e eu ficava tranquilo se ela ficasse em vossa casa. É muito jovem.

Disseram sim sem hesitar: o quarto do filho continuava vazio.

Assim surgira Maria: as suas saias floridas, o seu entusiasmo, as buzinadelas, as pilhas de cadernos para corrigir.

— Sr. Paulo, o senhor, que tem uma boa caligrafia, será que podia dar uma olhadela a estes ditados? Ainda tenho uma aula para acabar de preparar para amanhã.

Enquanto preparava a refeição da noite, a Sr.ª Bravoure regozijava-se ao ver Paulo pôr os óculos, munir-se de uma caneta Bic vermelha e consultar o dicionário. Ela sorria quando o ouvia indignar-se:

— Não é possível! Eles estão a fazer de propósito! No meu tempo…

— Ainda têm de aprender, Sr. Paulo. É para isso que vêm à escola. E depois gostam mais de ver a telenovela do que estudar a gramática.

Seis meses, tinha dito o director. Os Bravoure desejavam que a substituição se prolongasse, mas o professor, já curado, retomara o seu posto e Maria, sem trabalho, tinha aceite um compromisso em África.

Tinham-na acompanhado à estação. Riam, mas nenhum dos três se sentia à vontade.

— Escrevo-lhes já amanhã, prometo! — gritava Maria pela janela, enquanto o comboio ia ganhando velocidade.

Cumprira o que prometera durante um ano. Envelopes aéreos chegaram à caixa do correio e mantiveram-nos ao corrente das actividades de Maria. De facto, ela quase não tinha outra família a não ser eles, visto que, depois da morte da mãe, o pai se afastara lentamente dela para se dedicar aos filhos pequenos nascidos de um segundo casamento.

Depois, o correio começou a rarear. Uma breve mensagem pelo Natal “Tenho-vos presentes no meu pensamento”. Talvez tenha uma paixão, sugerira Paulo, com os olhos postos no mapa detalhado da região onde Maria exercia os seus talentos.

— Está sempre ao fogão! — exclamou Maria, ao vê-la na cozinha. — Tinham-me dito numa carta que iam seguindo os locais por onde eu andava, mas eu não…

A Sr.ª Bravoure lembra-se daquela rapariga, de cabeleira loura a esvoaçar quando corria “Vou chegar atrasada! Até ao meio-dia…” e o portão já estava a bater.

Estes jovens são incapazes de acordar a horas – dizia Paulo mal-humorado.

— É porque esteve a trabalhar até à meia-noite com os preparativos para o dia da mãe, Paulo.

A Sr.ª Bravoure pergunta:

— Quando é que a criança vai nascer?

— No princípio de Janeiro. Estou com medo…

É a mesma Maria ousada e sem medo que disse aquilo? A Sr.ª Bravoure  observa o rosto marcado  pelas manchas da gravidez sob o tufo de cabelos macios, presos por um elástico.

— De que tens medo, Maria?

E é o dilúvio, as lágrimas tanto tempo contidas. Vem tudo arrastado pela corrente: em África, o enfermeiro admirado, amado, desaparecido, o período atrasado, a suspeita de gravidez, o diálogo com esta criança que já mexe e que nada pedira, a anemia e o regresso forçado ao país, a desorientação e, de repente, a esperança “O Sr. e a Sr.ª Paulo”. Na estação, o empregado reconhecera-a e informara-a da morte do Sr. Bravoure. Demasiado tarde para recuar caminho.

— Está-se bem em sua casa.

A Sr.ª Bravoure olha para a sala de visitas aquecida pelas três lâmpadas. Amanhã tenho de substituir o ramo das flores secas. Não, vou ao mercado comprar ásteres.

— Queres crepes para a noite?

— Como é que adivinhou? — Maria admira-se. — A criança vai sentir o cheirinho. É um rapaz. A ecografia é nítida. Posso voltar a ocupar o meu quarto?

*

— A Sr.ª Bravoure recuperou o ânimo desde que a filha — bem, é como se fosse — regressou. Já voltou ao que era.

— Eu reparei. Maria está quase no fim do tempo, não?

— Estou a tricotar um casaquinho para o menino.

*

Murmúrios. Vozes conhecidas. Fadas à volta de um berço.

Na noite de Natal, quando começava com os preparativos para a ceia a duas, Maria perdeu as águas. A Senhora Bravoure acompanhou-a na ambulância até à maternidade da cidade.

— O seu companheiro não está presente para a acompanhar na sala de parto? — perguntou a parteira de serviço.

— É a minha avó que vai ficar ao meu lado — soprou Maria entre duas contracções.

À meia-noite, a Sr.ª Bravoure, extenuada, tem nos braços um minúsculo Paulo aos berros.

Natal. Nasceu-nos um menino.

Colette Nys-Mazure

Contes d’Esperance

Paris, Desclée de Brouwer, 1998

Tradução e adaptação