LYDIA CACHO e a luta pela liberdade

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 “O jornalismo está em liberdade condicional.”

Jornalista, feminista, escritora e defensora dos direitos humanos, Lydia Cacho é especialista em temas de género e violência na UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher). Cofundadora da Rede de Jornalistas do México, Centro-América e Caraíbas, é ainda, atualmente, fundadora e diretora do Centro de Atendimento Externo para Mulheres Maltratadas em Cancun, CIAM. Foi galardoada com os prémios Human Rights Watch 2007, o Prémio Mundial UNESCO para a Liberdade de Imprensa, Guillermo Cano – 2008 e, no mesmo ano de 2008, também recebeu o Prémio Liberdade de Expressão, da União de Jornalistas de Valência.

Em 2006, conheci Lydia, na Cidade Juárez, enquanto preparava a viagem ao México com a Plataforma das Mulheres Artistas, para denunciar os crimes contra as mulheres. Já antes dessa viagem, tinha estado em contacto com ela, e juntas planificámos todas as ações a levar a cabo no México. Recordo o primeiro encontro, na Casa de Espanha, e nunca esquecerei aqueles seus olhos cheios de vida e de doçura, nem aquela energia que me uniu a ela para sempre. Senti como se de minha irmã gémea se tratasse, como sei que sentem muitíssimas mulheres às quais foi devolvida a valentia e a força para seguirem em frente, particularmente as da Casa de Acolhimento que dirige, com uma metodologia baseada no amor e no Continuar a ler

lman Ahmad Jamas, lutando pela paz no Iraque

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 IMAN AHMAD JAMAS, lutando pela paz no Iraque

“Serão precisos muitos anos para reconstruir o Iraque.

Será muito difícil.”

Jornalista, tradutora e escritora, Iman Ahmad Jamas criou e dirigiu, em junho de 2003, o Observatório da Ocupação no Iraque, uma iniciativa de organizações internacionais e iraquianas para informar sobre a ocupação dos Estados Unidos e seus efeitos políticos, económicos e sociais, dando conta dos abusos e violações contra a população civil levada a cabo pelas tropas estrangeiras.

Apesar do importante trabalho de documentação e denúncia, o Observatório viu-se obrigado a encerrar em junho de 2004 devido à falta de segurança reinante no país. Refugiada en Espanha, recolheu centenas de testemunhos de torturas e crimes durante a ocupação dos Estados Unidos no seu  livro Crónicas do Iraque, publicado en 2006. Em abril de 2007 recebeu em Córdova o Prémio Internacional de Jornalismo, “Julio Anguita Parrado” em reconhecimento pelo seu trabalho.

Povoação a povoação, família a família, Iman Ahmad Jamas percorreu um Iraque em guerra para recolher os testemunhos das vítimas dos desmandos das tropas dos Estados Unidos, durante os primeiros anos da ocupação do país árabe. Mulheres Continuar a ler

Amira Hass

Aamira

AMIRA HASS, PERITA EM OCUPAÇÃO

O meu trabalho é vigiar o poder.

Oficialmente, é a correspondente para os assuntos palestinianos do diário israelita Aaretz, mas prefere ser conhecida como perita em ocupação. Amira Hass, jornalista israelita nascida em Jerusalém, dá a conhecer aos seus compatriotas o que se passa a poucos quilómetros de suas casas, o que muitos não querem ver. Com residência habitual na cidade da Cisjordânia, em Ramala, mantém na realidade “um romance com Gaza”, segundo as suas próprias palavras. Há já alguns anos que passa temporadas na faixa de Gaza e conta como é viver em estado de sítio.

O meu desejo de viver em Gaza não se deveu à sede de aventuras ou à loucura, mas ao medo de ser uma observadora passiva, à minha necessidade de compreender até ao último pormenor um mundo que, de acordo com os meus conhecimentos políticos e históricos, é uma criação profundamente israelita. Gaza encarna para mim toda a saga do conflito israelo-palestiniano, representa a principal contradição do Estado de Israel: democracia para alguns, privação para outros”, explica Hass.

Foi pela primeira vez à Faixa de Gaza como voluntária da organização Workers Hotline (Linha Direta de Trabalhadores), que se ocupava em defender os direitos dos trabalhadores palestinianos face aos abusos dos seus empregadores israelitas. E lá regressou, como jornalista, em muitas ocasiões.

A última vez foi Continuar a ler

A arte da lentidão

A arte da lentidão

José Tolentino Mendonça*

Talvez precisemos de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados.

À conta disso, os ritmos de atividade tornam-se impiedosamente inaturais. Cada projeto que nos propõem é sempre mais absorvente e tem a ambição de sobrepor-se a tudo. Os horários avançam, impondo um recuo da esfera privada. E mesmo estando aí é necessário permanecer contactável e disponível a qualquer momento. Passamos a viver num open space sem paredes nem margens, sem dias Continuar a ler

Horizonte

Só ausentando estás presente.

Nos passos perdidos encontrarás
as cerejas prometidas.

Negando-te afirmarás. Mil
palavras navegarão na humidade
da terra.

Esquecendo-te abrirás a prisão
em que te enclausuraste. Mil
luzes iluminarão a frescura
de seres a ilusão e a realidade.

A soma não interessa, apenas a subtração.

Subtraindo-te aumentarás a fundura
do celeiro. Inabalável se tornará
a fome da vida que te cerca
como as flores de um impossessivo jardim.

Não demores. A régua exata da lisura
mede os passos da caminhada.

João Guerra
Chuva de Rosas
(excertos)

http://poemasanonimos.wordpress.com/

O piano vermelho

China, 1975, um final de tarde de abril.
Há sete anos que pessoas jovens e cultas frequentam campos de reeducação, por vezes com entusiasmo, mas mais frequentemente sob ameaça. Objetivo dos campos: erradicar o elitismo através do trabalho manual. Os jovens convivem lado a lado com pobres camponeses e são “reeducados” pelo estudo das obras políticas do Presidente Mao.

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Um luar sinistro abate-se sobre o campo Zhangjiake 46-19 na fronteira entre a China e a Mongólia Interior.
Na camarata, os quartos repletos tresandam a suor doce, ao cheiro nauseabundo das fogueiras de carvão extintas e da terra sobrelotada. Apertados uns contra os outros, os camaradas já dormem no chão despido. Com passos pequenos e cautelosos, a rapariguinha deixa a casa comunitária.
Lá fora, o vento fustiga.
Era suposto haver um recolher obrigatório rigoroso, mas já passou muito tempo desde a última vez que o comité colocou guardas a vigiar. Tudo o que ela tem a fazer é saltar o muro da latrina e seguir por um caminho ladeado de árvores. No fim do caminho, no limite da aldeia, ela já consegue ver a casa da sua cúmplice, a mãe Han.
Um piano vertical ocupa o armazém. À luz do candeeiro o teclado é amarelo.
Puxa um banco baixo e levanta as mãos congeladas. Faz, então, uma pausa. O seu pensamento retrocede, no tempo, até ouvir o seu primeiro professor de piano murmurar:
— Precisas de aquecer as tuas mãos, minha pequenina, de preferência com um prelúdio de Bach, em vez de martelares nas teclas como se fosses louca.
Ela inclina-se para a frente, o seu corpo frágil perdido no seu casaco azul, as tranças roçando as teclas e, sem mais esperas, entrega-se ao seu prelúdio. O calor regressa.
A música eleva-se, livre, Continuar a ler

A fábula do velho cão

A fábula do velho cão

Uma velha senhora foi fazer um safari em África e levou consigo o seu velho cão. Um dia, enquanto caçava borboletas, o cão deu-se conta de que estava perdido. Enquanto vagueava em busca do caminho de regresso, reparou que um leopardo o vira e que caminhava na sua direção, com intenção, decerto, de o transformar em repasto.
O velho cão pensou “Estou metido em sarilhos!” Então, olhando em volta, viu que havia ossos espalhados pelo chão e pôs-se a roê-los, de costas voltadas para o predador. Quando o leopardo estava prestes a saltar sobre ele, o cão exclamou:
— Este leopardo estava delicioso! Haverá mais algum que se coma?
Ao ouvir isto, o leopardo desatou a fugir em direção às árvores, enquanto pensava Continuar a ler

O Astrónomo

O Astrónomo

À sombra de um templo
o meu amigo e eu
vimos um cego
sentado, solitário.

O meu amigo disse:
— Olha que esse
é o homem mais sábio da nossa terra.
Então, deixando o meu amigo,
aproximei-me do cego,
saudei-o e começámos a falar.

Pouco depois disse-lhe:
— Desculpa a pergunta,
mas há quanto tempo estás cego?
Ele respondeu:
— Desde que nasci.

 
Perguntei então:
— E que caminho de sabedoria escolheste?
Ele respondeu:
— Sou astrónomo.

Em seguida
levou a mão ao peito e disse:
— Sim, observo todos estes sóis,
estas luas e estas estrelas.

Khalil Gibran
O Profeta

Os fantasmas de Evros

Vêm de África, do Magrebe, do Afeganistão… Todas as noites tentam franquear, clandestinamente, as portas da Europa, nos confins do espaço Schengen, entre a Grécia e a Turquia. Centenas de pessoas já deixaram a sua vida nas águas do rio Evros, no país que faz tremer o Velho Continente e por onde passam cada vez mais os náufragos do sonho europeu.

Para já, não passa de um retângulo de arame farpado, ao mesmo tempo ameaçador e irrelevante, plantado na fronteira. De um lado, a bandeira turca e os minaretes de Edirna. Do outro, a Grécia e, sobretudo, o espaço Schengen, uma Europa sonhada que milhares de imigrantes tentam alcançar. Logo o retângulo se torna vedação: 12,5 quilómetros de comprimento, 3 metros de altura, câmaras por todo o lado, para repelir os clandestinos. Assim decidiu o Governo grego. Mas será que podemos impedir a chuva de cair? Já há mais de um ano que os clandestinos evitam aventurar-se nesta zona militarizada, entre a Grécia e a Turquia, uma planície lisa como uma pedra, sem uma árvore para os esconder das patrulhas policiais.
Hoje, o verdadeiro «muro» está um pouco mais a sul. Ao longo do rio Evros, que corre 180 quilómetros entre os dois países. Todos os dias, todas as noites, são centenas a tentar passar. Amontoados aos quinze ou vinte em barcos insufláveis, tal como aqueles que vemos nas praias. Ao longo das margens do Evros, as embarcações rebentadas e os montes de roupas abandonadas formam manchas coloridas. Papéis, cartas, mochilas… E, por vezes, também corpos. Cadáveres de afogados. Um a dois por semana, pelo menos, recenseados do lado grego. A corrente não quer saber de bandeiras nem de fronteiras.
Que vale isso, uma vida? Para«300561a», anónima, sexo feminino, 20 a 30 anos», não vale grande coisa. Clandestina, nunca existiu nos registos da polícia. Os seus documentos flutuam algures nas águas do Evros. A «300561a» é um fantasma. Exceto talvez para Pavlos Pavlivis, o responsável da morgue de Alexandroupoli, pequena cidade grega do Sul da região. Este homem calmo apesar das unhas roídas até fazer sangue deu à jovem uma existência administrativa e um número de processo («300561a»). Atribuiu-lhe um «processo». Quatro folhas dispersas e um envelope de onde surgiu este tesouro, ainda manchado pela lama do Evros: brincos, uma pulseira, um colar com um minúsculo pendente de couro cozido. «Há uma oração no interior», diz Pavlivis. «Uma sura do Corão. Esta desconhecida era, pois, muçulmana. Talvez da Somália ou da Nigéria…»

VIDAS ‘LOWCOST’ Continuar a ler

Ainda há espaço para a alegria?

Ainda há espaço para a alegria?

O ano que agora começa não vai ser pro­priamente um tempo festivo. Por isso, poderá parecer ao leitor que este tema é uma dolorosa provocação. Mas não é: falo muito a sério.

A alegria é um sentimento sem o qual os hu­manos não podem viver. Mesmo na noite mais escura, em que a dor, o sofrimento e o choro encharcam a nossa alma, se não encontrarmos um espaçozinho para a verdadeira alegria, dificilmente suportaremos tal situação.

É claro que há várias formas de alegria e nem todas produzem esse efeito libertador.

Há a alegria de aviário, que não tem consistên­cia, usa-se quando a circunstância a exige, mas não tem nada por detrás. É como a carne dos frangos produzidos em série, obrigados a crescer à pressão, com um sabor sem sabor, filhos de hormonas e antibióticos insossos.

Há a alegria industrializada, que estrondeia nas vielas da noite, alimentada a combustíveis etíli­cos ou a passas que não são de uva. É hoje muito estimada por industriais legais de drogas ilegais que se alimentam da sua distribuição bem lucra­tiva e muito desejada, porque gera euforias mo­mentâneas a quem as usa e lhe dá bravata para tomar atitudes das quais, em estado sóbrio, se envergonharia.

Há a alegria amarela, Continuar a ler

A violência humana sobre as outras espécies

A violência humana sobre as outras espécies

ESPECISMO

A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo de carne industrial e de lacticínios.

Vivemos uma profunda crise do paradigma que dominou a humanidade europeia-ocidental e se mundializou: nele o homem vê-se como centro e dono do mundo, reduzindo natureza e seres vivos a objectos desprovidos de valor intrínseco, meros meios destinados a servir fins e interesses humano. Se a tecnociência contemporânea confiou no progresso geral da hu­manidade mediante a exploração ilimitada dos recursos naturais e dos seres vivos, frustra-se hoje essa expectativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico-económico: o sonho dos projectos neoliberais e socialistas converteu-se no pesadelo da guerra, fome e pobreza, da crise económico-financeira, da destruição da biodiversidade, do sofrimento humano e animal e da iminência de colapso ecológico.

Os relatórios científicos mostram o tremendo impacte que o actual modelo de crescimento económico tem sobre a biosfera planetária, acelerando a sexta extinção em massa do Holoceno, com uma redução drástica da biodiversi­dade, sobretudo nos últimos 50 anos, a um ritmo que chega a 140 000 espécies de Continuar a ler

Brinquedo – Miguel Torga

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel
Um codel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subido, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim,sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga, Diário I, 1941

Conversas maldosas

Conversas maldosas

Introdução

O relacionamento com os outros é uma necessidade universal, assim como o sentimento de pertença. No entanto, é importante compreender que se pode responder a estas exigências tanto de forma construtiva como destrutiva. Conversas maldosas é a história de uma rapariga chamada Bailey que o fez de um modo destrutivo. Infelizmente, Bailey não é uma exceção. Na nossa cultura aprendemos muitas vezes a relacionar-nos com os outros pela partilha de informação negativa (“Ouviste falar de _____?”) ou de informação que não nos compete a nós partilhar (“Imagina o que eu ouvi?”), ou dando opiniões ou conselhos não solicitados (“Não é para te desiludir, mas…”).
Alguns estudiosos descobriram que as mulheres são particularmente vulneráveis à armadilha das “conversas maldosas”. Isto faz todo o sentido, dado que as meninas aprendem a socializar desde muito cedo no seio de uma cultura que sugere relações mais íntimas com os outros pela partilha de segredos… Por vezes, os próprios segredos, muitas vezes, os dos outros.
Enquanto adultos, uma das nossas tarefas é a de ensinar rapazes e raparigas a desenvolver relações saudáveis e íntimas sem partilhar informação que não é deles e que não lhes compete divulgar. Partilhar os problemas dos outros permite estabelecer laços e torna-se entusiasmante. Mas pode também vir a ser um pau de dois bicos, que acaba por ferir…
A necessidade de adquirir poder e estatuto entre pares pode levar aos rumores, à criação de alianças, à exclusão, e a uma miríade de outros comportamentos destrutivos, sintomáticos de agressões relacionais. Infelizmente, o desfecho inclui quase sempre relacionamentos desfeitos e sentimentos de traição que podem bem prolongar-se até à idade adulta. Seria bem melhor que as crianças aprendessem cedo a criar e manter amizades, usando conversas construtivas e saudáveis, e partilhando esperanças, sonhos e objetivos, em vez de ferir-se umas às outras.

**

Conheço uma rapariga que tem realmente uma língua enorme… O nome dela é Bailey. Bailey Boca Grande. Nunca soube que lhe chamo isto porque eu nunca o disse em voz alta. Mas é o que penso.
Quando Bailey veio para a Escola básica de Hoover, a minha professora, a Srª. Rodriguez, escolheu-me para ser a “Amiga das Boas Vindas”.
No início, eu mostrava-me um pouco envergonhada: tinha medo de dizer algum disparate e que ela não gostasse de mim. Mas Bailey começou logo a tagarelar, a fazer montes de perguntas sobre a escola e sobre os miúdos que a frequentam. E eu gostava de lhe dizer tudo o que ela queria saber.
Sentávamo-nos juntas todos os dias ao almoço e falávamos de tudo. E Bailey nunca esgotava o repertório, contando sempre piadas muito engraçadas.

Tudo estava a correr lindamente — até à noite em que dormimos em casa de Keisha.
“Vamos jogar ao Verdade ou Consequência,” disse Bailey. “Eu sou a primeira. Keisha — verdade ou consequência?”
“Verdade!” respondeu ela com uma risadinha.
“Não é para te ofender, mas essa camisa que trazes é demasiado pequena. Foram as tuas roupas que encolheram ou estás a engordar?”
Keisha abriu a boca de espanto. Continuar a ler

A patinha e a doberman

Embora Jessie, a nossa Doberman preta de quase quarenta quilos, tivesse um ar ameaçador — rosnava sempre que via estranhos e atacava todas as criaturas que aparecessem no pátio das traseiras — era uma cadela extremamente leal e amorosa connosco. Apesar de querermos ter um outro cão, achávamos que a Jessie estava melhor sozinha, porque tínhamos medo de que a inveja a fizesse atacar um qualquer animal que trouxéssemos para casa.
Quando, um dia, o nosso filho Ricky trouxe um ovo da escola, pressentimos que ia haver sarilho. O ovo tinha a ver com um projeto que envolvia a incubação e o nascimento de patos. Como não o ovo não abrira na escola, o professor tinha deixado trazê-lo para casa. O meu marido e eu não pensávamos que o ovo abrisse fora da incubadora, mas deixámos que o Ricky ficasse com ele. O nosso filho colocou-o num pedaço de relva ao sol e ficou à espera.
Na manhã seguinte, acordámos com um guincho bizarro vindo do pátio das traseiras. Quando fomos ver o que se passava, a Jessie tinha o focinho colado ao bico de uma patinha cor de pêssego, acabada de nascer.
— A Jessie vai engoli-la viva! — gritei para o meu marido. — Agarra-a!
Mas o meu marido disse: Continuar a ler

O pão dos outros

Remi está a conversar com a avó. Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.
— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.
Remi lança palpites:
— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?
A avó riu-se:
— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.
— Então, faziam as prendas?
— Não propriamente!
— Mas como é que faziam?
— Era muito simples. Ora ouve…

Antigamente, cada família cozia o seu pão. Continuar a ler

Tarte para inimigos

Devia ter sido um Verão perfeito. O meu pai ajudara-me a construir uma cabana numa árvore do nosso jardim. A minha irmã tinha ido três semanas para um acampamento. E eu estava na melhor equipa de basebol da cidade. Devia ter sido um Verão perfeito. Mas não foi.

Estava a correr tudo bem até o Cláudio Garcia se ter mudado para o meu bairro, para a casa mesmo ao lado da do Filipe, o meu melhor amigo. Eu não gostava do Cláudio Garcia. Ria-se de mim quando eu perdia no basebol. Deu uma festa em sua casa para saltar na cama elástica, mas não me convidou. Mas ao Filipe, o meu melhor amigo, sim.

O Cláudio Garcia era o único que constava da minha lista de inimigos. Nunca tive sequer uma lista de inimigos até ele ter vindo para cá mas, mal chegou, precisei de uma. Preguei-a na minha cabana, onde ele não podia entrar.

O meu pai era um especialista em inimigos. Contou-me que, na minha idade, também tinha tido inimigos. Mas que conhecia uma forma de nos livrarmos deles. Pedi-lhe que me contasse o segredo.

— Contar-te? Vou mostrar-te — disse o meu pai.

Tirou da estante um livro de receitas muito, muito antigo. Continuar a ler

Que batom combina com as montanhas?

É no aconchego mútuo que as pessoas vivem.
Provérbio Irlandês

“Há apenas três coisas que me preocupam,” disse a minha mãe ao telefone.

Conseguia imaginá-la de pé, em frente à janela da cozinha, com o telefone preso entre a cara e o pescoço, enquanto cortava orégãos frescos para o jantar. “Ser atacada por ursos, precisar de ir à casa de banho… e ficar feia nas fotografias.”

Esforcei-me por fazer ouvir a minha voz mais confiante, suave e tranquilizadora…e disse-lhe: “Se tiver de ser, vou espantar os ursos para bem longe com um pau, mas provavelmente não veremos nenhum. Ter que fazer chichi de cócoras no meio do monte não é nada de especial; e prometo que não vamos publicar fotografias feias na revista. Se o fizermos, podemos sempre pôr uma daquelas tiras pretas por cima dos teus olhos….”

Estava combinado.

Iria levar a minha mãe de cinquenta e um anos, Priscilla, e a sua irmã gémea, Linda, numa viagem de três dias de mochila às costas — um trabalho para a revista Backpacker. Estava entusiasmada, mas também nervosa. A minha mãe e a tia Linda não são exatamente montanhistas… Para elas, passar um dia inteiro ao ar livre equivale a dezoito buracos de golfe e a um bife no churrasco. Mas cada uma delas tem três filhos que adoram o ar livre. E estavam ansiosas por ver o que aquilo era…

“Posso ao menos levar um batom?” suplicou a minha mãe já no trilho principal, enquanto eu verificava o conteúdo do seu saco. Continuar a ler

«A nossa hora chegou» – Jean Ziegler

Marie-Ange Magloire é uma avó de 59 anos, refugiada da fome de Jérémie, no Sul do Haiti. Com os seis filhos da sua filha falecida, de idades compreendidas entre os 3 e os 9 anos, ela ocupa uma barraca de 15 m2, sem água nem eletricidade, na zona de Cité Soleil. Este bairro de lata estende-se à beira do cintilante mar das Caraíbas, junto de Port-au-Prince, a capital, e abriga em 4 km2 umas trezentas mil pessoas.
Bandos rivais, em luta pelo domínio do tráfico da cocaína, semeiam o terror neste aglomerado.
Uma vala a céu aberto atravessa o bairro onde habita Marie-Ange, cloaca que escoa detritos e dejetos humanos, infestada de ratos. Na penumbra do casebre, sobre uma esteira roída pelas baratas, o mais novo dos netos, Dieudonné, de 3 anos, dorme.
Marie-Ange está acocorada desde o nascer do Sol diante da barraca. A sua magreza esconde-se debaixo de um vestido vermelho, remendado vezes sem conta, roto de um lado. Sobre os seus cabelos pretos usa um lenço vermelho; nos pés, sandálias de cauchu.
Tem o porte de uma rainha. O seu olhar é grave; os seus gestos, enérgicos.
Uma bacia de plástico onde se amontoam algumas tiras de cabaça está no chão à sua frente.
Marie-Ange vende bolos de lama.
Misturada com um pouco de sal e com dejetos vegetais que fornecem matéria gorda, a lama forma uma massa lisa. Depois de secar ao sol, torna-se dura.
Marie-Ange vende-a às rodelas. A lama é apreciada pelo seu cálcio. Betona o estômago e alivia a fome.
Mesmo no meio das piores tragédias, os Haitianos não perdem o seu sentido de humor. A essas rodelas dão o nome de «biscoitos duros».
Para centenas de milhares de famílias, o bolo de lama constitui a principal refeição do dia.
Em tempo normal, os nove milhões de haitianos consomem 200 000 toneladas de farinha e 320 000 toneladas de arroz por ano. A farinha é importada a 100%, o arroz a 75%.
Entre Janeiro de 2007 e Janeiro de 2008, o preço da farinha no Haiti teve um aumento de 83%, o do arroz subiu 69%.
Seis milhões de haitianos vivem numa pobreza extrema. Estão condenados a comer lama.
«Ojos que no ven, corazón que no siente» («Olhos que não veem, coração que não sente»).
Raramente, na História, os Ocidentais deram mostra de uma tal cegueira, de um tal desinteresse, de um tal cinismo como este que hoje demonstram. A sua ignorância das realidades é impressionante. E assim se alimenta o ódio.
Durante o primeiro trimestre de 2008, motins da fome rebentaram em trinta e sete países do Sul, Continuar a ler

As crianças escravas de Wuze – Jean Ziegler

Wuze-Market II é um cafarnaum, um interminável labirinto de barracas de betão cinzento, de tabernas, de restaurantes finos, de armazéns, de parques de camiões e carroças, de ruelas incontáveis e estreitas, de avenidas inundadas de lixo de plástico, de milhares de talhos a céu aberto, de poços de água, de capelas, de mesquitas.

É percorrido dia e noite por uma turba discreta e colorida. Povos vindos de toda a Nigéria e de muitos outros países da África Negra, do Magrebe, do Médio Oriente, das costas do mar Vermelho são ali reconhecíveis pelas suas escarificações, pelos seus bubus, pelas suas túnicas, pelas suas tangas ou pelos seus cânticos. Dezenas de milhares de pessoas bebem, comem, negoceiam, vendem, compram, rezam, cantam, deambulam permanentemente neste espaço caótico.

Aqui reina a grande paz dos comerciantes. A atmosfera é agradável, as pessoas sorriem prazenteiramente umas para as outras. Nenhuma agressividade é percetível. Aqui um mercador iemenita anuncia ruidosamente as suas especiarias e os seus aromas, ali os ourives senegaleses oferecem – a preços espantosamente baixos para uma capital – joias sumptuosas. Os bidões de óleo de palma, os sacos de arroz, pirâmides de cebolas, batatas, tomates, caixas de ananases, nozes de cola, feijão vermelho, peixe fumado (pouco peixe fresco), carcaças de zebus e de carneiros amontoam-se a perder de vista.

Wuze II é um mercado rico, que oferece produtos variados em grande quantidade. Nas artérias à volta circulam os Peugeot pretos climatizados – viaturas standard dos ministros, dos generais e dos altos-funcionários. São as suas arrogantes esposas que os usam para irem ao mercado. Mas o essencial do tráfico é feito por carroças sobrecarregadas, puxadas por burros.

De tempos a tempos, passa um camelo.

A maioria dos compradores é pobre. Pensam demoradamente, hesitam, partem, voltam atrás, tentam uma baixa do preço; finalmente compram em quantidade reduzida.

Na Nigéria, existe um costume tocante. Todo o estrangeiro que passe o limiar de uma habitação, qualquer que ela seja Continuar a ler

A propósito do Dia Mundial da Consciencialização do Autismo – O passeio de Ian

Está um dia perfeito para ir ao parque dar de comer aos patos com a minha irmã mais velha, a Tara. Só que o meu irmão também quer ir connosco.

— Oh, Ian, porque é que não ficas aqui? — pergunto.

O Ian, porém, nem me responde, porque tem autismo. Mas bate com os dedos com força contra a rede da porta e começa a choramingar.

— Tudo bem, Ian. Ele pode vir connosco? — pergunto à minha mãe.

— Vais ter de o vigiar bem. Tens a certeza de que queres fazê-lo? — pergunta ela. Continuar a ler

…vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam (Shahenaz Kureshi, 18 anos)

Chamo-me Shahenaz Kureshi.

Tenho 18 anos e vivo com a minha mãe nos bairros de lata de Nagpur. O meu pai, Hakim Kureshi, queria desesperadamente ter um herdeiro varão e, por isso, ficou furioso com a minha mãe quando eu nasci. De­pois de eu nascer, começou a mal­tratá-la, tanto física como men­talmente. Considerava o facto de eu ser a primeira criança do sexo feminino da sua família como uma ofensa pessoal e tentou matar-me.

Por fim, a minha mãe decidiu deixá-lo para me salvar.

Quando tinha apenas um mês, a minha mãe partiu da nossa terra natal em Orissa, em direção a Nagpur, onde viviam os meus avós maternos. Mas, quando lá chegámos, eles não quiseram receber-nos. A minha mãe sentiu-se completamente desamparada e, nos dias seguintes, vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam.

Para piorar ainda mais a situação, Continuar a ler

…e largou-o. A ele, à droga e à prostituição (Inês 43 anos)

Rebelde, com boa imagem e uma vontade imensa de experimentar coisas novas, deixou-se aliciar por um estado surreal que alguns traficantes lhe proporcionavam através da droga. Tinha 19 anos, na altura, e trabalhava num hipermercado.

Deixou-se levar, e em três tempos estava no Técnico a prostituir-se. Na primeira vez que se prostituiu, encontrou um homem que a tratou bem e a tentou desincentivar desse caminho, mas o vício e a necessidade de ter dinheiro eram superiores a qualquer tipo de consciência. “Adorava consumir. A droga é uma maravilha, o pior é conseguir sustentá-la.” E começou logo a ter muitos clientes, a prostituir-se de dia e de noite e a consumir cada vez mais, “ao ponto de adormecer assim que entrava num carro”. Ainda assim, sabia que tinha de parar. “Ou parava ou morria”. O acesso à droga era facílimo. Continuar a ler

A filha de Elizabeti

Elizabeti tinha um  irmão ainda bebé chamado Obedi. Via a mãe cuidar dele e, por isso, também queria  ter um bebé para cuidar.

Mas não tinha nenhuma  boneca. Assim sendo, saiu de casa e apanhou um pau. Pegou nele, tentou  abraçá-lo, mas ele picava-a e, assim, ela deixava-o sempre cair ao chão. Depois,  apanhou uma pedra. Tinha mesmo o tamanho ideal! Elizabeti podia segurá-la e não  a magoava quando a abraçava. Por isso, beijou a pedra e deu-lhe um nome:  Eva.

Quando o irmãozinho  tomava banho, chapinhava e molhava a mãe. Mas quando Eva tomava banho,  portava-se muito bem e só chapinhava um pouquinho.

A mãe dava de comer a  Obedi e ele fazia “Brrrrp!” bem alto. Elizabeti dava de comer a Eva, mas ela era  muito educada e nunca arrotava… Continuar a ler

Um segredo para a minha Mãe

Enquanto  espero pelas festas, penso em todos os Natais calorosos e maravilhosos quando  era criança, e dou-me conta de que um sorriso me ilumina a  face.  Na verdade, são tempos que vale a pena recordar! Contudo, reparo que, à medida  que fui ficando mais velha, as memórias do Natal tornaram-se menos vívidas e  foram-se transformando numa época triste e deprimente… até ao ano passado. Foi  nessa data que creio ter recuperado a alegria própria da infância. A alegria que  eu sentia quando era criança…

♥♥♥

Todos  os anos me canso à procura de algo para oferecer à minha mãe no Natal. Mais um  roupão e uns chinelos, um perfume, umas camisolas? Tudo prendas interessantes,  mas que não dizem Amo-te da maneira  que deviam dizer. Desta vez, queria algo de diferente, algo que ela recordasse  para o resto da vida… Algo que Continuar a ler

O milagre

O milagre

A dificuldade que se tem no relacionamento com Don Crescenzo resulta do facto de ele ser surdo. Não ouve a mais pequena coisa, mas é demasiado orgulhoso para ler nos lábios. Além disso, não se pode iniciar uma conversa com ele escrevendo simplesmente qualquer coisa num papel. Não; tem de se fazer de conta que ele é ainda uma parte do nosso mundo barulhento e falador.
Quando perguntei a Don Crescenzo como passara o Natal, estava ele sentado numa cadeira de vime à entrada do seu hotel. Eram seis horas e o cortejo das caravanas tinha passado. O silêncio reinava e sentei-me na outra cadeirinha de vime, exatamente por baixo do barómetro com a imagem de publicidade da linha marítima, um barco branco no mar azul. Repeti a minha pergunta e Don Crescenzo levou as mãos às orelhas e abanou a cabeça com pesar. Em seguida, retirou um bloquinho e um lápis do bolso; eu escrevi a palavra Natale e olhei-o, na expectativa. Continuar a ler

As luzes de Natal

As luzes de Natal

Antes de o meu pai morrer, o Natal era uma época mágica nos longos e escuros invernos de Bathrurst, em New Brunswick. Os dias frios e tempestuosos começavam cedo, logo no fim de setembro. A dada altura, acendiam-se as luzes de Natal e a expectativa crescia. Por alturas da véspera de Natal, o vulgar pinheiro que o meu pai arrastara até nossa casa dez dias antes adquiria uma vida própria, plena de magia e de luz. O seu brilho era de tal forma maravilhoso que conseguia, sozinho, afastar toda  a escuridão do inverno.

Na véspera de Natal, pouco antes da meia noite, agasalhávamo-nos bem e íamos à missa do galo. A beleza do som do coro causava-me arrepios e, quando a minha irmã mais velha, que era solista, cantava Noite Feliz, a minha face corava de orgulho.

No dia de Natal de manhã, eu era o primeiro a levantar. Saía da cama atabalhoadamente e descia em direção ao brilho intenso da sala de estar. Embora tentasse manter-me direito, os olhos cheios de sono faziam-me cambalear. Quando entrava na sala, via-me diante do esplendor do Natal. Os meus olhos toldados e cheios de sono criavam uma auréola à volta de cada luz, amplificando-a e aquecendo-a. Após uns breves instantes, esfregava os olhos e via uma infinidade de fitas e laços e um amontoado de presentes coloridos. Nunca me esquecerei da sensação Continuar a ler

A canção da avó – história do México

No  coração do México, os falcões sobrevoam as altas montanhas, mergulhando em  direção às encostas suaves, semeadas de milho. Debaixo do sol tropical, as  iguanas descansam sobre rochedos brilhantes, e os tucanos conversam com os  guaxinins empoleirados em árvores verde-esmeralda. Por entre as colinas, os  pumas correm, as raposas cinzentas procuram galinhas, e os lobos uivam entre si,  à noite.

Numa  aldeia situada no sopé das montanhas, vivia uma avó com a neta. Plantavam milho,  tomates e girassóis na Primavera e juntas viam os rebentos verdes despontar da  terra. No Verão, colhiam lírios brancos como leite, punham-nos em cestos às  costas, e levavam-nos para vender no mercado. Pelo Outono, decoravam caules  esguios de milho para a festa das colheitas, a fim de agradecer os cereais de um  ano inteiro. No Dia dos Mortos, costumavam erigir um altar e acender velas,  relembrando os entes queridos. E no Natal, pegavam em cola e papel e faziam  pinhatas, que enchiam com frutas e doces.

A  avó era alta e imponente. Tinha as faces macias e as maçãs do rosto bem  marcadas. Os olhos eram profundos, castanhos e doces. Embora tristes, eram  bondosos. Tinha o peito largo e as ancas redondas. Pernas e pés robustos  ligavam-na à terra, como se fosse uma árvore antiga. Os braços eram fortes e as  mãos graciosas, com dedos longos e finos. Era uma mulher tão delicada como os  rebentos de um jacarandá.

A  neta gostava de explorar e de sonhar. Costumava brincar sozinha, nos campos e  nas florestas, mas tinha medo das sombras escuras, dos barulhos dos animais, e  de tudo o que fosse novo e diferente. Continuar a ler

Uma guloseima para a Noite das Bruxas

 

O saco das guloseimas estava pronto e sentia-me ansiosa por ver chegar as crianças marotas. Mas, na manhã da Noite das Bruxas tive um ataque de artrite muito forte e, à tardinha, mal me conseguia mexer. Como sabia que ia ser difícil atender todas as vezes que batessem à porta, decidi deixar o saco pendurado da parte de fora da porta e ver, na sala às escuras, o desfile das crianças mascaradas.

A primeira a chegar foi uma bailarina com três fantasminhas. Cada um pegou numa guloseima, excepto o último, que tirou do saco uma mão cheia. Foi então que ouvi a bailarina ralhar: “Não podes tirar mais do que uma!” Fiquei contente por a criança mais velha agir como se fosse a consciência do pequeno.

Seguiram-se princesas, astronautas, esqueletos e extraterrestres. Apareceram mais crianças do que as de que eu estava à espera. Como as guloseimas estavam a acabar, preparei-me para desligar a luz da entrada. Detive-me ao reparar que tinha mais quatro visitas. Os três mais velhos meteram a mão no saco e retiraram um chocolate cada. Sustive a respiração, esperançada de que ainda restasse um para uma bruxinha. Mas, quando ela retirou a mão, tudo o que segurava era apenas uma simples goma de laranja.

Os outros chamaram:

— Emily, despacha-te! Não há ninguém em casa para te dar mais guloseimas.

Mas Emily deixou-se ficar mais um pouco. Meteu a goma no saco e, imóvel, ficou a olhar para a porta. Depois, disse:

— Obrigada, casa. Gosto muito da goma de laranja.

E correu a juntar-se aos companheiros.

Uma bruxinha querida tinha-me lançado um feitiço.

Evelyn M. Gibb

J. Canfield; M. V. Hansen; J. Read Hawthorne; M. Shimoff

Second Chicken Soup for the Woman’s Soul

Florida, HCI, 1998

(Tradução e adaptação)

As rosas dos meus tapetes – a vida num campo de refugiados

As rosas dos meus tapetes

Para um jovem refugiado que vive com recordações de perda e de terror, o tempo é medido em termos do próximo balde de água, do próximo pedaço de pão, e da próxima chamada para a oração. Aqui, onde tudo — paredes, chão, pátio —  é feito de lama, o coração de um rapazinho ainda consegue ansiar por liberdade, independência e segurança. E aqui, onde a vida é extremamente frágil, é a necessidade que cria a força para resistir. Mas a força para sonhar vem do interior.

 

 

 É sempre o mesmo. Os jactos já me viram. Estou a correr demasiado devagar, porque tenho de puxar pela minha mãe e pela minha irmã. O terreno é traiçoeiro, cheio de crateras de bombas, e a minha mãe e a minha irmã impedem-me de avançar. Fui atingido em cheio. Quando estou prestes a morrer, ou pouco depois de ter morrido, acordo.

Abençoada escuridão. Demoro algum tempo a aperceber-me de que estou na nossa casa de lama, no campo de refugiados. A salvo. Ouço a respiração suave da minha mãe e da minha irmã perto de mim.

Um galo canta. É madrugada. Talvez seja melhor levantar-me e ir buscar água antes que se forme uma fila junto ao poço.

Quando regresso com o balde pesado, vejo que a minha respiração forma nuvens. A asa de plástico crava-se na palma da minha mão e isso faz-me parar e descansar várias vezes.

Quando chego a casa, lavo a cara. Um hábito inútil, já que aqui as paredes são de lama, o chão é de lama e até o pátio é de lama. É impossível mantermo-nos limpos.

Acordo a minha mãe antes de ir rezar à mesquita. Quando regresso, o pequeno-almoço está pronto. Como a minha irmã Maha ainda está a dormir, como o meu pedaço de pão e bebo o meu chá sossegado. Depois, dou-lhe um beijo na cara e vou para a escola.

Quando regresso a casa para almoçar, a cabana já está varrida. Como devagar, cortando o pão em pedaços, para o fazer durar mais. A Maha engole a porção dela e olha fixamente para a minha.

— Não — diz a minha mãe com severidade.

Mas, quando ela vira costas, dou uns bocadinhos à minha irmã. Terei de apertar a minha faixa um pouco mais.

O muezzin volta a chamar para a oração. Saio para a rua estreita, esquecendo-me de ter cuidado. Um carro passa rente a mim e buzina com força.

Neste lugar, as pessoas conduzem como se os demónios as perseguissem, sem prestar atenção a quem cruzam no caminho. Penso na Maha. Ainda bem que está a salvo em casa.

Depois das orações vem a minha parte favorita do dia. Vou aprender a arte de tecer tapetes. Quando teço, posso fugir dos jactos, dos pesadelos, de tudo. Como se, com as minhas mãos, criasse um mundo que a guerra não pode atingir. Um paraíso como aquele em que o meu pai está.

O meu pai era um agricultor, sempre à mercê do tempo ou de alguém que lhe viesse roubar a terra e as culturas. Mas eu hei-de ter uma arte que ninguém poderá roubar. Enquanto for forte e válido, a minha família nunca passará fome.

Primeiro, tenho de praticar. Alguém longe daqui possibilita a minha formação. Sou uma criança apadrinhada. Um filho adoptivo. Até me tiraram uma fotografia.

Em breve serei um mestre artesão e o dinheiro do meu padrinho já não será necessário.

Cada cor que uso tem um significado especial.

Os fios que cercam a moldura na qual todos os outros fios são entrelaçados são brancos, como a mortalha em que embrulhámos o corpo do meu pai. O preto é para a noite que nos esconde dos olhos inimigos. O verde é a cor da vida. O azul é para o céu, que estará, um dia, livre de jactos.

Como tudo no campo é de um castanho sujo, nunca uso o castanho nos meus tapetes.

A minha cor favorita é o vermelho. É a cor das rosas. Nunca cultivei flores. Cada pedaço de terra tem de produzir comida. Por isso, faço com que haja muitas rosas nos meus tapetes.

Teço padrões intrincados de rosas, todos ligados entre si. Um jardim de beleza rodeado por uma fronteira, uma parede. Uma parede em torno de um pequeno pedaço de paraíso.

Estou tão concentrado  a tecer que não ouço a respiração ofegante do rapaz que entrou na sala. É o silêncio que me desperta. Ergo os olhos e vejo toda a gente a olhar para mim. Aconteceu algo de terrível.

— É a tua irmã.  Foi atropelada por um camião.

Ponho-me em pé de um salto e espalho mil fios pelo chão. Um amigo diz que os apanhará por mim. Agradeço-lhe com um aceno e corro pela porta fora.

O rapaz diz-me que a Maha está na clínica e que a minha mãe está com ela. Estão a operá-la para tentar salvar-lhe as pernas.

Quando chego à clínica,  a minha mãe está histérica, porque quer ir ter com a filha. Há pessoas que a impedem e oiço gritos. São os meus gritos.

A minha mãe vira a cabeça e o seu olhar é quase desumano. Como quando o meu pai morreu.

Tenho de ser forte. Não posso chorar. Com gentileza, afasto-a um pouco, dizendo-lhe que pode atrapalhar. As minhas palavras surtem efeito. Coloca a cabeça no meu ombro e dou-me conta do quanto cresci. É uma altura estranha para reparar em coisas como esta. Peço à minha mãe que vá para casa e que reze pela segurança da Maha. Quando houver notícias, irei dar-lhas.

Como não consigo ficar quieto, ando de um lado para o outro. Depois rezo, lembrando-me do conselho que dei à minha mãe. Rezo pela Maha e pela minha mãe. Depois rezo pelo meu padrinho que paga a operação da minha irmã e nem sequer o sabe. Sinto-me melhor depois de rezar.

O médico aparece finalmente, com um olhar cansado. As notícias são boas: a minha irmã vai ficar bem. Tem as pernas partidas, mas vai conseguir andar de novo. Não em breve, mas um dia. Um sentimento de alívio inunda-me a face como chuva bem-vinda. Corro para casa para contar as novidades à minha mãe, que chora de alegria.

Jantamos pão e água. A minha mãe corta o pão em três pedaços antes de se lembrar de que hoje somos só dois. Dá-me a parte da Maha e eu devolvo-lhe metade. Comemos em silêncio. Cada bocadinho de pão se atravessa na minha garganta e não há água que chegue para ajudar-me a engolir.

Exausto, deito-me no tapete de palha que faz de cama. Sem a Maha, a casa está demasiado silenciosa. Tenho muitas saudades dela e fico acordado durante muito tempo.

À noite, quando sonho, sonho novamente com jactos a rasgar o tecido do céu.

Mas, desta vez, a minha mãe e a minha irmã correm comigo e não me detêm.

Porque, ao correr, encontramos um espaço, do tamanho de um tapete, onde as bombas não nos podem atingir.

E dentro desse espaço há rosas.

Rukhsana Khan
The Roses in my Carpets
Ontario, Fitzhenry & Whiteside, 2004
(Tradução e adaptação)

O papagaio que dizia “amo-te”

O papagaio que dizia “amo-te”

Talvez por ser órfã de mãe e por o seu pai estar sempre fora de casa, Beatriz crescera triste e solitária. Na escola, chamavam-lhe “Beatriste”, porque se sentava sempre sozinha e não queria brincar com os colegas.

Em casa, depois de feitos os deveres, metia-se no quarto e lia até adormecer.

Beatriz tinha um pesadelo frequente: estava numa ilha deserta e não avistava nenhum barco. À noite, tinha frio e, de dia, fome e sede, pois o único alimento que havia na ilha era o coco. Ao acordar, Beatriz dizia para consigo: “Afinal, a minha vida é igual à do meu pesadelo”.

Não tinha amigos e os dias sucediam-se sem sentido, uns atrás dos outros, como cocos a cair de palmeiras.

Como dormia mal de noite, Beatriz acordava com sono e com poucas forças para falar com o pai. Este via o noticiário e saía logo a correr para o escritório, onde ficava a trabalhar até muito tarde. Quando voltava, já Beatriz estava a dormir, ou melhor, acordada, na sua ilha deserta cheia de coqueiros.

A menina interrogava-se se o pai gostaria mesmo dela ou se viera a este mundo por acaso, já que ele nunca a abraçava, beijava ou dirigia palavras de carinho. As conversas com ele eram sempre do género:

— Beatriz, não te esqueças, como ontem, do caderno dos deveres.

— Sim, papá.

— Já puseste o lanche na pasta?

— Sim, papá.

— Não atravesses a rua com o sinal vermelho ou amarelo!

— Sim, papá.

As trocas de palavras entre ambos não passavam disto, porque o pai, se calhar, era tão tímido como ela. Talvez ele também vivesse numa ilha, que barco algum jamais visitava…

******

Contudo, numa segunda-feira de manhã, aconteceu algo extraordinário que mudaria para sempre a vida de Beatriz.

Ainda não bem desperta, a menina teve a impressão de estar a ser observada. Todavia, ao abrir os olhos, viu que não havia ninguém no quarto. Nem se ouvia sequer o barulho da televisão, sinal de que o pai já tinha saído e lhe deixara o pequeno-almoço em cima da mesa.

Mas, quando olhou para a janela, Beatriz viu um papagaio grande e verde, pousado nas cordas do estendal. A ave olhava para ela de esguelha. Recuperada do susto, a menina perguntou-se de onde teria vindo aquele papagaio e o que faria ali, a espiá-la. Cheia de curiosidade, saltou da cama e abriu a janela para o ver melhor.

— Papagaio, pequenino, vem cá! — chamou-o em voz baixa, para não o assustar.

Tinha certamente escapado da casa de algum vizinho, pois logo respondeu ao convite de Beatriz, acercando-se dela.

— Perdeste-te? — perguntou a menina. — Vens de alguma ilha longínqua, cheia de palmeiras?

A ave pousou no braço de Beatriz, que a princípio se assustou. Porém, quando viu que o papagaio não a picava e que queria ser seu amigo, pô-lo no seu quarto, onde colocou um copo de água e um prato com migalhas de pão. Em seguida, saiu para a escola, muito feliz.

******

Ao meio-dia, telefonou ao pai para lhe contar o que se tinha passado e para lhe pedir que a deixasse ficar com o papagaio. Ia chamar-lhe Tequilha porque imaginava que ele tinha vindo de um país longínquo onde bebiam esse licor.

O pai falava pouco mas era muito atento. Por isso, quando Beatriz voltou da escola, já encontrou Tequilha instalado numa gaiola dourada, com o comedouro cheio de sementes de girassol.

— Olá! — cumprimentou-a, na sua voz estridente.

— Sabes falar! — exclamou a menina, admirada. — Ora vê se consegues dizer o meu nome: Beatriz, Beatriz, Beatriz…

Tequilha seguia atentamente a lição e movia o bico, mas não conseguia repetir o nome. Beatriz, que lera que os papagaios e os periquitos têm muita facilidade em pronunciar o “t”, disse-      -lhe:

— Chama-me então Beatriste, como fazem na escola. Beatriste, Beatriste…

Nem precisou de o repetir pela terceira vez, porque o papagaio logo exclamou:

— Beatriste!

A dona, orgulhosa, pulou de alegria. Depois de um dia tão bonito e emocionante, e logo após a empregada lhe ter servido o jantar, Beatriz deitou-se e adormeceu, cansada. Quando a luz da manhã a acordou, Tequilha estava a descascar uma semente, que segurava com uma pata.

— Bom dia, Tequilha! Não cumprimentas a tua Beatriste?

O papagaio acabou de descascar a semente, comeu-a com prazer e bradou:

— Amo-te!

Quando ouviu isto, Beatriz não conteve um grito de emoção. Depois, pensou que não era normal que o papagaio tivesse dito uma expressão típica de um galã de telenovelas. Será que vira muitas ou teria pertencido a algum par de recém-casados?

Podia ser apenas uma casualidade. Os papagaios brincam com as palavras que vão ouvindo e, por vezes, dizem coisas com sentido.

“Deve ser isso”, pensou Beatriz.

Contudo, na manhã do dia seguinte, Tequilha acordou-a com uma saudação igual:

— Amo-te!

— Quem te ensinou isso? — disse Beatriz. — Só os adultos usam essa palavra.

Como os papagaios falam, mas não conversam, Tequilha continuou a olhar para a sua dona e amiga com grande interesse, sem, contudo, dizer mais nada. Depois descascou outra semente.

Quando na quinta-feira, logo de manhã, o papagaio voltou a exclamar “Amo-te”, Beatriz resolveu investigar. Era estranho que as declarações de amor do papagaio só ocorressem de manhã. Quer de tarde quer à noite, Tequilha só dizia “Olá!”, “Beatriste” ou “Caramba!”.

******

Sabendo que o pai ainda estava a tomar o pequeno-almoço, Beatriz correu a expor-lhe o mistério. Mas o pai, muito vermelho e quase a engasgar-se, nada respondeu. Levantou-se, apressado, despediu-se da filha com um beijo e saiu de casa com a pasta.

De repente, Beatriz compreendeu o que acontecera e teve vontade de chorar. Só que de felicidade, desta vez! É que Tequilha repetia, cada manhã, o que o pai de Beatriz lhe dizia à noite, quando ela já dormia.

 

Agora reflecte…

O Afecto

“O amor é a cura de todos os males”.

Leonard Cohen

Os sábios da Índia dizem que, quando olhamos para o mundo, o colorimos com as nossas próprias cores. Por isso, se olharmos os outros com ódio ou desconfiança, iremos receber ódio e desconfiança. Pelo contrário, se os virmos com amor, viveremos sempre rodeados de carinho.

E tu, como preferes viver?

Há quem tenha vergonha de expressar os seus sentimentos, mas isso não significa que não gostem de nós. Muitas vezes basta que lhes mostremos o nosso amor (com palavras amáveis, com um beijo, com um presente inesperado…) para nos abrirem o coração.

Se te custa dar carinho a alguém de quem gostas, imagina que o mundo vai acabar amanhã. O que farias hoje? Certamente correrias a abraçar os teus pais, irmãos e amigos. Dir-lhes-ias o quanto gostas deles, e falarias dos bons momentos que passaram juntos… Para fazeres isso, não é preciso esperar pelo fim do mundo! Podes começar hoje mesmo a dar-lhes afecto… mesmo que seja à tua maneira!

Mostra o teu carinho

 

Há muitas maneiras engraçadas e originais de demonstrar amor a quem te rodeia. Eis algumas:

a) Escrever um lindo poema no frigorífico com letras magnéticas.

b) Colocar um desenho muito alegre e bem colorido no seu quarto.

c) Compor uma canção para ele/a.

d) Oferecer-lhe um trabalho manual feito por ti.

Etc., etc.,…

Dr. Eduard Estivill; Montse Domènech
Cuentos para crecer: Historias mágicas para educar con valores
Barcelona: Editorial Planeta, 2006
(Tradução e adaptação)

A nascente no deserto

A nascente no deserto

 

Descontrai-te, mantém-te imóvel e ouve – ouve com atenção esta história sobre uma pobre família que estava a viajar para ir ao casamento de uma prima rica, num bonito templo, lá longe. Queres saber o que aconteceu durante a viagem? Vamos lá ver se conseguimos descobrir!

Então… a família tinha avançado bastante até ali, passando por muitas cidades e vilas na sua pequena carroça, mas de repente chegou à orla de um deserto enorme e terrivelmente quente. Preocupados, pediram conselho às pessoas que ali moravam sobre a melhor maneira de o atravessarem. Todos disseram a mesma coisa – para não se aproximarem dele durante o dia e, em vez disso, para o atravessarem durante a noite, quando o Sol escaldante descansava, indefeso, na sua cama. «Mas como poderemos saber por onde ir no meio da escuridão?», perguntou o chefe da família.

«Orientem-se pelas estrelas», responderam os habitantes da região.

«Parece-me tudo muito bem», pensou ele. «Mas pouco sei sobre as estrelas, temos de encontrar alguém que conheça o assunto para nos guiar.»

Por isso perguntou por toda a vila e rapidamente encontrou um jovem que se dizia ser um dos melhores guias da região.

Nessa noite, depois de a escuridão ter caído sobre a terra e a areia ter ficado mais fresca, a família deu início à viagem. O guia tomou nas suas mãos as rédeas do boi e sentou-se direito e orgulhoso na carroça. Olhando fixamente para o céu noturno brilhante, leu as estrelas e conduziu-os em direção a leste.

Contudo, o rapaz desfrutara de um grande jantar, para não mencionar de um grande copo de chocolate quente, antes de partir, e tudo isso lhe dava uma certa sonolência. Dentro de pouco tempo, o doce embalar da carroça fê-lo cair num sono profundo, sem que nenhum dos passageiros, que também dormiam, desse conta do que acontecia. Naturalmente que o boi que puxava a carroça não sabia ler as estrelas, por isso, com o guia a dormir, vagueou sem destino – numa direcção totalmente errada. Quando o chefe da família acordou com a primeira luz da manhã, compreendeu que estavam completamente perdidos!

«Onde estamos nós?», indagou a mulher quando acordou. «Certamente que a esta hora já devemos ter praticamente atravessado o deserto. Vamos chegar atrasados ao casamento!»

Quando viram que o guia estava a dormir profundamente, ficaram muito zangados com ele, mas esse sentimento depressa se transformou em medo. «Um dia completo no deserto!», lamentaram-se as crianças. «Iremos ficar sem água! Que vamos nós fazer?», disseram elas a chorar.

O pai tomou o comando e tentou acalmá-las. «Não se preocupem», disse ele, «encontraremos uma maneira de sairmos desta situação.»

Andando para a frente e para trás, pensou e voltou a pensar. Em seguida, sentou-se na areia e fixou os olhos na distância. Devia haver alguma coisa que ele pudesse fazer… De repente viu uma pequena planta que crescia na areia junto a uma rocha. «Ah! Afinal alguma coisa cresce aqui nestas areias quentes e secas! E onde há plantas tem pelo menos de haver um pouco de água!», concluiu ele.

Chamou o jovem guia e mostrou-lhe a planta. «Quero que caves neste local, porque acredito que deve haver água aqui perto», disse-lhe ele. O guia olhou-o duvidoso, mas, como os metera naquela embrulhada, não se encontrava em posição de discutir. Por isso, retirou uma pá da carroça e começou a cavar.

Cavou e voltou a cavar, mas continuava a não encontrar água. Estava agora cheio de calor e de sede. De repente bateu em qualquer coisa: «Bati numa rocha!», gritou ele. «Tudo o que encontrei foi uma pedra grande e seca. Que perda de tempo!»

O resto da família olhou-o muito desanimada. Mas o pai não era homem de desistir facilmente, por isso incitou-os a não perderem a esperança. «Não desistam agora. Não podemos desistir! Se o fizermos agora, estaremos todos perdidos! Enquanto ainda nos restam forças, e antes que fique mais calor, temos de continuar a tentar. Pensem no que a nossa prima irá sentir se não aparecermos para o casamento!»

O silêncio caiu sobre eles. Estavam todos tão cansados e tinham tanta sede que nem tinham força para protestar! O chefe da família sentou-se na rocha e olhou em redor. Depois, no silêncio, ouviu, ou pelo menos pensou ter ouvido, um ténue som de água a correr. «Estarei a ouvir coisas?», interrogou-se ele.

«Prestem atenção! Tenho a certeza de que ouço água! Conseguem ouvir também?», perguntou.

«O que estás tu a dizer? Apanhaste demasiado sol e ficaste louco?», disse a mulher.

«Não, escutem, tenho a certeza de que consigo ouvir água», disse ele excitado, «e parece vir da pedra. Bate na rocha!», ordenou ele.

O guia pegou numa marreta e começou a bater na rocha. Inicialmente nada aconteceu, mas então, de repente, a rocha abriu-se e, para surpresa e alívio de todos, a água começou a jorrar, formando uma fonte refrescante.

Ouviu-se um grande grito de alegria enquanto todos se precipitavam para beber um pouco de água fresca e cristalina. A família dançou de alegria, abraçando-se uns aos outros, a rir. Agora tinham água que chegasse! Deram de beber ao boi e encheram os recipientes para o resto da viagem.

Aliviados e refrescados, a festa recomeçou depois de o Sol se pôr. Quando a Lua subiu no céu estrelado, o guia conduziu-os em segurança através do deserto, e finalmente chegaram ao templo depois da aurora, ainda a tempo para o casamento da prima.

Umas horas mais tarde, vestidos com a sua melhor roupa, estavam confortavelmente a participar num delicioso banquete em honra da sua bela prima e do seu jovem marido. Observando a família a divertir-se, o pai sorriu contente consigo próprio ao mesmo tempo que, silenciosamente, brindava com eles com o seu copo de água cristalina. Como estava feliz por não ter desistido no deserto!

A vida apresenta-nos todo o tipo de dificuldades e coloca com frequência obstáculos no nosso caminho. Nessas ocasiões, é demasiado fácil desistir. Uma pessoa sensata sabe que, se continuar a tentar, acabará por conseguir ter êxito.

 

Dharmachari Nagaraja
Buda para Ler ao Deitar
Lisboa, Editorial Estampa, 2011
(Adaptação)

Os novos abolicionistas

Retirado de A condição da Mulher

OS NOVOS ABOLICIONISTAS

Embora, em termos globais, as mulheres não tenham alcançado posições de topo como líderes políticas, são elas que encabeçam as fileiras do empreendorismo social. Mesmo em países onde os homens monopolizam o poder político, as mulheres constituíram organizações influentes e têm desempenhado um papel catalisador como agentes de mudança. Muitas mulheres tornaram-se empreendedoras sociais para poderem assumir posições de liderança no novo movimento abolicionista contra os traficantes de sexo. Uma delas, Sunitha Krishnan, um Membro da Ashoka[1] na Índia, é uma figura lendária nesse domínio.

Oriunda da classe média, Sunitha frequentou um infantário em criança. Quando chegava a casa, pegava numa lousa e ia ensinar a um grupo de crianças pobres o que aprendera nesse dia. Essa experiência marcou-a tanto que decidiu tornar-se assistente social. Fez estudos universitários na Índia e a sua atenção centrou-se na literacia. Um dia, quando, acompanhada por um grupo de colegas, tentava ajudar alguns pobres de uma aldeia, foi interrompida por um bando de homens que se ressentia da sua “interferência”.

“Como não gostaram do que estávamos a fazer, decidiram dar-nos uma lição,” recorda Sunitha.

Num inglês de classe média-alta, o que a faz parecer mais uma professora universitária do que uma ativista, Sunitha descreve, de forma analítica e neutra, embora incisiva, a violação de que foi alvo e a sua recusa em fazer uma denúncia, por achar que era tempo perdido. Contudo, esse ato levou à estigmatização da sua família e à sua culpabilização.

“Não foi tanto a violação que me afetou como a forma como a sociedade me tratou. Ninguém questionou a motivação daqueles homens. Apenas questionaram a razão da minha presença ali e o facto de os meus pais me terem dado liberdade para eu o fazer. Compreendi que o sucedido fora um episódio isolado para mim, mas que, para muitas mulheres, era algo que ocorria todos os dias.”

Sunitha decidiu, então, dedicar-se à abolição do tráfico sexual em vez de à implementação da literacia. Viajou por todo o país e falou com o maior número de prostitutas possível, num esforço para compreender o mundo do sexo comercial. Estava a viver em Hyderabad, quando a polícia levou a cabo uma ação repressiva numa das zonas de meretrício, talvez porque os donos dos bordéis não lhe tivessem pago subornos suficientes ou precisassem de um “incentivo”. A ação teve consequências catastróficas. De um dia para o outro, os bordéis da zona foram fechados, sem que as raparigas que lá trabalhavam recebessem qualquer tipo de apoio. As prostitutas eram alvo de um tal estigma que não tinham para onde ir nem tinham forma de ganhar qualquer tipo de sustento.

“Muitas daquelas mulheres começaram a suicidar-se,” recorda Sunitha. “Quando ajudei a cremar corpos, vi que a morte funcionava como um fator de união entre as pessoas. Quando perguntei às mulheres o que queriam que fizéssemos por elas, pediram que fizéssemos antes algo pelos filhos.”

Sunitha começou a trabalhar com um missionário católico, o Irmão Joe Vetticatil. Embora ele já tenha morrido, Sunitha ainda mantém uma fotografia dele no seu gabinete e a fé dele marcou-a profundamente.

“Embora seja uma hindu convicta, considero os ensinamentos de Cristo muito inspiradores,” comenta.

Sunitha e o Irmão Joe abriram uma escola num antigo bordel. No início, apenas se inscreveram cinco de entre os 5 mil filhos de prostitutas que tinham direito a frequentar a escola. Mas a escola cresceu e, em breve, Sunitha começou a construir albergues, não só para as crianças, mas também para as raparigas e mulheres que tinham sido libertadas dos bordéis. Chamou Prajwala à sua organização, que significa “Uma Chama Eterna”, e cujo endereço eletrónico é http://www.prajwalaindia.org.

Embora uma zona de meretrício tenha sido fechada, havia outras em Hyderabad e Sunitha começou a organizar operações de resgate das prostitutas que trabalhavam nos bordéis. Percorreu as periferias mais abomináveis e sórdidas da cidade para falar com elas e tentar convencê-las a organizarem-se e a denunciarem os proxenetas. Em seguida, confrontou proxenetas e donos de bordéis, numa tentativa de recolher informações para entregar na polícia e convencer os agentes a levar a cabo mais ações repressivas. Tudo isto enfurecia os donos das casas de passe, que não compreendiam por que razão uma mulher minúscula lhes fazia frente e tornava o seu negócio tão pouco lucrativo. Organizaram-se e exerceram represálias, atacando Sunitha e todos quanto trabalhavam com ela. Partiram-lhe um braço e deixaram-na surda de um ouvido.

O primeiro empregado de Sunitha foi Akabar, um antigo proxeneta que tomou consciência do mal que cometera e que lutou de forma valerosa para ajudar as raparigas da zona de meretrício. Mas os donos dos bordéis retaliaram, apunhalando-o até à morte. Foi quando teve de contar à família de Akabar como este morrera que Sunitha se deu conta da necessidade de ser mais cautelosa.

“Apercebi-me de que a nossa abordagem não era sustentável. Se quiser levar a cabo uma tarefa duradoura, tenho de prestar contas à minha equipa e às suas famílias. Não posso esperar que ajam todos como eu.”

A organização Prajwala começou a trabalhar com o governo e com grupos de ajuda para fornecer reabilitação, aconselhamento e outros serviços. Sunitha arranjou forma de ensinar as antigas prostitutas a fazer artesanato e encadernações — algo que outras organizações também costumam fazer — bem como a ser soldadoras e carpinteiras. Até agora, Sunitha já ajudou a reabilitar 1500 mulheres, ao fornecer-lhes estágios de trabalho de seis a oito meses que lhes vão permitir iniciar carreiras novas. A Prajwalatambém ajuda as mulheres a regressar às suas famílias, a casar, ou a viver sozinhas. Sunitha afirma que, até agora, 85 por cento das mulheres têm conseguido manter-se afastadas da prostituição, enquanto 15 por cento regressaram a ela.

“Há mais prostituição agora do que quando começámos a trabalhar,” declara, com tristeza. “Quase diria que falhámos, porque em cada dez raparigas que salvamos, entram outras vinte nos bordéis.”

Nós, contudo, cremos que este balanço é demasiado pessimista.

Comemos em conjunto um almoço simples servido em pratos de lata amolgados. Enquanto debica o seu chapati, Sunitha entabula conversa com uma das suas voluntárias, Abbas Be, uma jovem de cabelo negro e pele castanha clara. Abbas tinha sido levada para Deli em adolescente para trabalhar como empregada doméstica, mas acabou num bordel, onde a espancavam com um bastão de críquete para a forçar a obedecer. Três dias depois da sua entrada, Abbas e as setenta raparigas foram forçadas a assistir ao castigo infligido a uma outra adolescente, que tinha repelido os clientes e tentado incitar as outras raparigas a rebelar-se.

Quando Abbas foi libertada durante um raide, Sunitha encorajou-a a vir para a Prajwala e aprender uma profissão. Neste momento, Abbas está a iniciar-se na arte da encadernação e ensina as outras raparigas da organização a evitarem ser traficadas.

Ambas desejam que todos os bordéis sejam fechados e não apenas regulamentados e a opinião de Sunitha tem cada vez mais impacto na região. Há uma dezena de anos atrás, seria impensável que uma jovem assistente social, de baixa estatura e com um pé aleijado, pudesse ter alguma influência sobre as máfias que dirigem os bordéis de Hyderabad. Os grupos de ajuda eram demasiado sensatos para se imiscuírem no problema. Contudo, Sunitha entrou corajosamente nesse mundo e fundou a sua própria organização, numa atitude que é caraterística dos empreendedores sociais. Embora pareçam, por vezes, pessoas pouco razoáveis e difíceis, são estas mesmas caraterísticas que as tornam bem-sucedidas.

Sozinha, Sunitha não teria tido recursos para fazer campanha contra os bordéis. Foram os doadores americanos que a apoiaram e ampliaram o seu impacto. A título de exemplo, um dos maiores apoiantes dos programas da Prajwala tem sido a organização americana Catholic Relief Services[2].

As redes de apoio e as referências que Bill Drayton tem feito a ela, enquanto Membro da Ashoka, também ajudaram a alargar a sua influência. Este é o tipo de aliança entre o primeiro e o terceiro mundo de que o movimento abolicionista necessita.

Nicholas D. Kristoff & Sheryl Wudunn
Half the sky – How to change the world
London, Virago Press, 2010
(Tradução e adaptação)

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[1] Fundada pelo americano Bill Drayton em 1980, a Ashoka é uma organização mundial, sem fins lucrativos, pioneira no campo da inovação social, do trabalho e do apoio aos empreendedores sociais – pessoas com ideias criativas e inovadoras capazes de provocar transformações com amplo impacto social. (N.T.)

[2] A agência humanitária oficial da comunidade católica dos Estados Unidos. (N.T.)

Os pequenos cavalos de vento

Os pequenos cavalos de vento*

Nessa noite, por baixo da manta, Dolma tomara uma decisão. No dia seguinte, partiria ao alvorecer com o seu iaque e subiria o estreito que leva ao grande lago sagrado Zhara Yuntso. Ficava longe e muito alto na montanha, mas fá-lo-ia, pela sua mãe doente. Arranjara muitos pequenos cavalos de vento que lançaria do cume para levarem as suas orações.

Antes do amanhecer, Dolma encheu o alforge com comida para a viagem: carne seca, bolas de tsampa** e chá de manteiga. Abraçou a mãe e saiu para a manhã fria. O ar glacial apanhou-a de surpresa. Cerrou os dentes, pegou na corda do seu iaque e afastou-se do acampamento que ainda dormia. Após algumas horas de marcha, levantou-se uma tempestade, mas Dolma descobriu uma gruta entre as inclinadas rochas que a rodeavam.

— Vamos abrigar-nos!

No fundo da gruta, a menina encontrou uma estátua de Buda. Ajoelhou-se, murmurando uma súplica. Mas, de tão esgotada que estava devido à longa caminhada, adormeceu aos pés da estátua. E sonhou que estava na mão de Buda e sobrevoava imensas planícies verdes. Buda falava-lhe docemente, animava-a, tranquilizava-a. E apontou-lhe com o dedouma ermida perdida na montanha. Dolma acordou sobressaltada, com uma estranha frase a martelar-lhe na cabeça: “Desconfia do mel doce oferecido no gume da navalha.”

Estava sozinha com o seu iaque e segurava na mão uma pequena flauta. Quando a levou aos lábios, dela saiu uma doce melodia. Nesse instante sentiu a presença de alguém…uma sombra que logo desapareceu. A menina correu para a entrada da gruta e viu um enorme e belo bharal***.

— Espera! Não te vás embora! — gritou ela. — Tenho de ir até à pequena ermida no cimo da montanha. Ajuda-me!

— Porque é que te hei de ajudar? — perguntou a cabra azul.

— Porque, sozinha, nunca conseguirei lá chegar! E tu és a rainha desta montanha.

— O que fazes aqui sozinha?

— A minha mãe está doente e já não temos remédios que a curem. E o meu pai está na aldeia. Vou ao desfiladeiro de Zhara enviar as minhas preces aos deuses. É a única coisa que posso fazer.

— Anda comigo — disse a cabra a sorrir. — O som da tua flauta tocou-me.

Montada no seu iaque, Dolma seguiu obharal até ao pôr-do-sol. Outras cabras vieram-se-lhes juntar e, à chegada ao mosteiro, eram já um pequeno grupo. Dolma agradeceu a ajuda da cabra e quis oferecer-lhe a flauta. Mas aquela recusou:

— A flauta escolheu-te a ti. Adeus e boa sorte, pequena Dolma.

A divisão estava na penumbra. Dolma aproximou-se. Pela janela aberta viu um velho monge a rezar diante de um altar. Bateu suavemente à porta para não assustar o ermita.

— Boa tarde. Gostaria de passar aqui a noite. Prometo não incomodar.

— Entra, pequena, entra. Estava à tua espera! — disse o monge, retorcendo-se de um modo estranho.

Dolma viu que o seu olhar era maligno. Tossia e a cara desfigurava-se ao falar.

— Acomoda-te, grrr, fica à vontade. Trago-te já um pouco de chá e uns deliciosos bolinhos. Volto já, grrr

— Que esquisito! — pensou Dolma.

Foi então que viu um prato cheio de raízes. Apanhou algumas e guardou-as no gorro. Do quarto para onde o monge tinha desaparecido vinha um cheiro a chá, mas também uns sons nada tranquilizadores. Dolma lembrou-se do sonho e das palavras de Buda. Levantou-se para ver melhor o que se passava. E o que viu deixou-a sem fala: um demónio! Invadiu-a um cheiro a podre. Não havia um minuto a perder!

Fugiu dali. Pegou no alforge e no seu iaque e correu tanto quanto as suas pequenas pernas o permitiram. Deixou-se cair atrás de um chorten**** e acariciou o iaque, tranquilizando-o.

— Escapámos por um triz, meu bom amigo. Mais um pouco e estaríamos agora entre aquelas coisas que estavam dependuradas no teto.

Dolma olhou à sua volta. A noite estava clara. O iaque apontou então com a cabeça para o cume da montanha.

— Tens razão! — suspirou Dolma — Afastemo-nos mais desse demónio.

Caminharam a bom passo, mas o frio era tão intenso que a menina deixou de sentir os pés. Parou ao abrigo do vento e o iaque deitou-se, com ela entre as suas patas. Dolma pegou na flauta, e a melodia que saiu aqueceu-lhe o coração. Adormeceu sorrindo, embalada pela respiração do animal. Ao despertar, um pequeno cavalo fitava-a com curiosidade.

— Assustaste-me!

— Desculpa. O que fazes aqui?

— Vou para o desfiladeiro do lago sagrado. Vou oferecer as minhas orações.

— Posso acompanhar-te porque para mim é fácil. Mas, primeiro, tens de me deixar comer algumas dessas raízes para me darem força.

Dolma deu-lhe os pedaços que apanhara em casa do monge. O cavalo depressa os comeu. E logo saíram a galope. Parecia à menina que estavam a voar. Andaram muito e iam tão depressa que logo viram o resplendor do sol refletido na superfície do lago dominado pelo majestoso Zhara Lhatse.

— Oh, que fumo é aquele a sair da água?

— São as fontes quentes da montanha. Podes tomar banho lá, se quiseres.

Dolma entrou com prazer nas águas borbulhantes. Em seguida, continuaram o caminho e, após umas horas, chegaram ao desfiladeiro de Zhara. A menina pegou nos seus pequenos cavalos de vento, aproximou-os dos lábios e soprou com todo o amor e força que tinha dentro de si. Fechou os olhos e enviou-os em pensamento aos deuses.

A viagem de regresso durou muitos dias. Dolma orou todo o caminho até chegar à aldeia. Ao entrar na tenda, deparou com o pai, os irmãos… e a mãe sentados em volta do lume. Colocou a pequena flauta diante da estátua de Buda e atirou-se para os braços da mãe.

♦♦♦♦

Vocabulário:

*CAVALOS DE VENTO: pequenos papéis com a figura de um cavalo pintado que se lançam ao céu. O vento leva aos deuses as preces que se escrevem neles. Os cavalos de vento também podem ser de tecido, em forma de bandeirinhas de oração.

**TSAMPA: bolinhas muito nutritivas típicas do Tibete, confecionadas com feijão vermelho, grão-de-bico, lentilhas, milho, amendoim natural, mel puro, banana verde, soja em grão e trigo.

***BAHRAL: cabra de pelagem azul e cornos grandes que vive nas montanhas do Tibete.

****CHORTEN ou STUPA: monumento funerário que guarda as relíquias de um santo ou orações sagradas. Encontram-se por todo o lado, porque dão vida aos lugares à entrada das aldeias, ao lado dos mosteiros, nos desfiladeiros e nos vales.

Anne-Catherine de Boel
Los pequeños caballos del viento
Barcelona, Corimbo, 2009
(Tradução e adaptação)

 

A música de Imani

A música de Imani

Nascido durante a época das plantações no fim do século XIX, o meu avô W. D. era um homem do Era uma Vez, que morava no Aqui e Agora, porque a vida o tinha ali colocado. Era conhecido em cinco condados como um contador de histórias que conseguia levar um conto ao tapete. Vivia entre o Era uma Vez, o Aqui e Agora e O Que Vai Vir. Eram pessoas como ele que mantinham a tradição viva.
W. D. tinha uma velha bengala que levava para todo o lado. Dizia que tinha sido feita com pranchas do navio de escravos que tinha trazido o seu avô. Achava que, enquanto tivesse aquela bengala, nenhum navio de escravos teria algo a ver com ele.
De vez em quando, dava a volta à casa, arrastando a bengala pelo chão, desenhando uma linha. Depois chamava-nos com a mão nodosa e íamos todos a correr para dentro do círculo que ele traçara. Nesse espaço, W. D. atravessava o rio do tempo como se este fosse uma mera poça de água da chuva. Com as suas primeiras palavras e um cheirinho do ar da noite, entrávamos todos na terra do Era uma Vez, como se fosse Aqui e Agora.
Isto porque as pessoas são o que são e as coisas não mudam tanto quanto isso. Ainda há quem queira ser amado, quem se case e tenha filhos. A fome ainda nos leva à procura de comida, e enterrar as pessoas ainda faz os seus parentes chorar.
— Tenham cuidado — advertia-nos, enquanto nos aproximávamos dele. — Não molhem os pés no Rio do Tempo, atravessem com cuidado para a terra do Era uma Vez.
Era uma vez um tempo em que não havia música no planeta. A música era uma iguaria tão cobiçada que os Antepassados a guardavam para si, e dela só comiam um bocadinho todos os dias. Estava guardada numa prateleira do céu nocturno, em taças enormes, negras e brilhantes. De vez em quando, uma rajada de vento ou uma tempestade abanava as taças, fazendo com que caísse um pouco de música na terra. Mas o mundo nunca soube o que perdia, porque todos se abrigavam. Todos menos Imani, uma criatura que adorava música.
Ao contrário dos outros gafanhotos, Imani adorava que a chuva lhe caísse em cima. De cada vez que havia uma tempestade, descobria que lhe tinha sido dado um presente. Conseguia esfregar as patas traseiras numa folha de planta ou numa tira de erva, e obter os sons mais maravilhosos.
Era algo tão bom que não queria guardá-lo só para ele. Quando tocava, com alegria, numa folha de palmeira ou de vinha, desejava que o resto do mundo pudesse partilhar o seu presente.
Então, numa noite especial em que tinha caído uma chuva suave, Imani escolheu uma tira de erva do Serengeti para tocar. Fez uma vénia e dedicou a sua actuação aos Antepassados. Tocou para o céu escuro durante horas. Tocou enquanto interiormente entoava uma prece. Quando a última nota se fez ouvir, murmurou com toda a fé de que era capaz:
— Por favor, Antepassados, dêem música ao mundo.
Quando os Antepassados olharam para baixo e ouviram as primeiras notas da canção de Imani, viram quão feliz ele estava.
— É um gafanhoto músico. Devíamos dar-lhe música.
Rindo e dançando tão ruidosamente que balançavam os céus e a terra, verteram toda a música que tinham nas taças negras. Um banho de melodias caiu sobre Imani, e o resto da terra apanhou as restantes como uma esponja apanha a água.
Havia agora música por todo o lado e em tudo. O dom da música foi atribuído a todos os gafanhotos, embora só pudessem tocar com as pernas, não com pétalas ou ervas.
Também foi atribuída aos leões e às girafas; às serpentes e aos pássaros (estes tiveram direito a uma grande parte porque estavam a voar no momento em que a música caiu); às árvores, às montanhas, aos cactos e às pessoas! Se não acreditam, batam, agitem ou piquem com gentileza tudo o que há na terra e ouçam a música a sair.
No início, as pessoas juntavam as suas vozes às canções de Imani. Depois, os músicos criaram instrumentos para tocar com ele, trazendo à superfície a música escondida nas canas, nas árvores, nas peles dos animais, no marfim, no cobre, no bronze, criando flautas, baterias, banjos, guitarras, xilofones, liras e harpas.
Em breve tudo se fazia ao som da música. Os camponeses faziam as colheitas ao som dela. Os reis eram por ela embalados quando davam longos e pensativos passeios. Os trabalhadores abatiam árvores e construíam aldeias ao som de canções. Os amantes cantavam cantigas de amor. Os mercadores apregoavam as virtudes da sua mercadoria. E os reinos saudavam a passagem do poder de geração em geração através de instrumentos e de árias.
Imani procurava em todo o lado novas folhas que pudessem ser tocadas. Viajava por montanhas de dia e tocava na folhagem à noite. Lavradores, mercadores e pastores, atraídos pelas suas melodias, diziam-lhe por onde ir.
Um dia, um mercador de tecidos muito viajado, chamado Umoja, apontou-lhe o oeste e disse-lhe:
— As ervas mais altas crescem perto da orla do mar. Vai e toca-as! Os oceanos ecoam os seus sons. Toca devagar. As ondas hão-de levar as tuas canções através das águas. Vem viajar comigo e guiar-te-ei.
Imani seguiu o conselho do mercador e em breve se tornaram amigos. Umoja tecia por profissão e tocava flauta por amor. As suas vozes misturavam-se belissimamente e nos locais onde acampavam nunca estavam sozinhos.
Numa manhã radiosa e cheia de luz, Imani e Umoja chegaram à costa. Aí, enormes navios cantavam: cush, cush, cush. A voz da areia fazia-se ouvir sob os seus pés: grish, grish, grish e as ondas faziam lap, lap, lap contra a praia. A juntar-se à sua canção havia vozes que falavam línguas estranhas e ouvia-se o som de cadeias metálicas: clink, clink, clink.
— Que música estranha tocam estes elementos juntos — exclamou Imani. — Tenho de lhes adicionar a minha voz.
Só que, exausto da viagem, decidiu dormir uma sesta e aconchegou-se no saco de Umoja, que era feito de tecido e corda.
Subitamente, foi acordado pela algazarra das pessoas, pela canção das cadeias de metal, pelo som das vagas do oceano, e pelos gritos de Umoja, que tinha sido apanhado numa rede de muitas malhas. Não se sabe bem como, estavam ambos a bordo de um daqueles navios. E o navio tinha levantado âncora.
Horrorizado, Imani começou a chorar. Deixava para trás a sua terra, os seus amigos, a sua família, e a sua amada relva do Serengeti! Havia mar por todo o lado! E o mar cantava uma canção triste e estranha, acompanhada por cadeias de metal, por ondas rumorejantes, e pelas vozes das pessoas. Secando as lágrimas, Imani abraçou o conforto da sua música e cantou toda a noite, com afinco.
Através de um buraquinho minúsculo no chão do convés, Imani conseguia ver uma multidão de gente: homens, mulheres e crianças, todos amontoados e ligados por uma corrente comum. Eram os mercadores, lavradores e pastores que tinha encontrado nas suas viagens. Chamavam-no em KiSwahali, Yoruba, e em muitas outras línguas.
— Gafanhoto, traz-nos água, temos sede!
— Gafanhoto, traz-nos comida!
E muitos rogavam:
— Gafanhoto, diz à minha mãe para onde fui e que voltarei, se puder.
Ouvir e ver o que se passava no porão do navio fez com que Imani deixasse de poder cantar. Como poderia ele fazer o que lhe pediam? A própria mãe de Imani não sabia onde ele estava. Naquele momento, Imani soube que o destino do seu povo seria o seu destino e as lágrimas brotaram novamente dos seus olhos.
— Não chores — pediu uma voz que vinha do porão. — As tuas lágrimas não podem ajudar-nos.
Imani sentiu-se reconfortado, porque conhecia aquela voz. Era Umoja.
— Ir buscar água e comida para nós é-te impossível, pequenote. Mas podes dar-nos esperança, podes dar-nos a tua música!
— Darei! — prometeu Imani. — Precisais de música no sítio para onde ides. Pode ser mesmo tudo o que vos resta.
Imani cantou com todos os bocadinhos de vegetação que encontrou no navio, desde as despensas às galés, da cabina do capitão à torre de vigia. Aprendeu canções novas. Embora as cantasse com tristeza, continuava a cantar.
Quando o navio cessou de baloiçar e aportou finalmente a uma praia nova, Umoja e os outros foram conduzidos em muitas direcções. Imani ficou sozinho. Fartou-se de procurar, mas não encontrou milho-miúdo, sorgo, ou juncos. Nunca mais conseguiria ouvir a música que a tira de erva do Serengeti produzia. Perguntou a lavradores e pastores que ia encontrando, mas eles não o compreendiam.
Imani atravessou a nova terra de lés a lés. Não deixou uma única casca de milho por virar, em busca de sons novos que trouxessem esperança ao seu povo. Nunca encontrou Umoja mas, quando encontrou uma ou duas das centenas de pessoas que tinham viajado com eles, cantou-lhes as suas novas canções. Eles, por seu turno, ensinaram estas canções a outros.
— Enquanto outrora éramos vários povos, agora somos um só, e temos uma só língua e uma só música. Temos de viver, trabalhar, amar, e confortar-nos mutuamente nesta nova terra, unidos por novas canções.
E foi assim que aprenderam estas novas melodias. Às vezes, cantavam-nas com tristeza e saudade, mas nunca deixavam de cantar!
Durante as suas viagens, Imani conheceu uma gafanhota chamada Esperança, que traduziu o nome dele para a sua língua e chamou-lhe Fé. Fé casou com Esperança e tiveram muitos filhos, aos quais Fé passou o seu dom para cantar.
Embora as ervas e vinhas desta nova pátria produzissem sons maravilhosos, não eram iguais às de África. Quando Imani levava os filhos ao círculo dos contadores de histórias, ia muitas vezes com eles até à terra do Era uma Vez e contava-lhe contos da sua terra natal, das suas noites claras e da erva real do Serengeti.

Sheron Williams
Imani’s Music
New York, Atheneum Books, 2002
Tradução e adaptação

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O homem que comia dinheiro

O homem que comia dinheiro

Okereke gostava de manusear dinheiro. Se tivesse preparação para isso, gostaria de ser empregado bancário. Não podia imaginar nada de mais agradável do que contar mancheias de notas, pondo de lado desdenhosamente as notas velhas e gastas, entregando pacotes de notas novas através do postigo aos clientes agradecidos. Seria um trabalho maravilhoso, mal se poderia considerar trabalho.

Mas era um camponês, não um empregado bancário, e tinha muito pouco dinheiro seu para manusear. Apesar do pai lhe ter deixado muitas terras, nunca parecia ganhar muito com a agricultura, e o que ganhava derretia-se bem depressa com as ruidosas exigências da mulher, filhos, despesas de todo o tipo e outros gastos não tão inocentes. Foi por isso que, quando a aldeia necessitou de alguém para o trabalho de cobrador de impostos, ele se ofereceu imediatamente. De facto, foi tão rápido que nem reparou que não havia ninguém que quisesse o emprego.

O cobrador anterior era um homem magro com um ar ansioso, que ia descansar para casa do filho em Umuahia.

Olhou, com um ar de dúvida, para o impaciente Okereke.

— É uma grande responsabilidade — lembrou-lhe — ser cobrador. As pessoas não pagam e é necessário persegui-las em nome do governo. Não te pagarão tudo de uma vez, mas dar-te-ão um xelim aqui, seis pence além e dirão sempre «amanhã», «amanhã». Tens que te lembrar bem daquilo que foi efectivamente pago e daquilo que só foi o prometido. O dinheiro que tiveres nas mãos tem que ser guardado cuidadosamente para que o tenhas à disposição quando o governo o reclamar.

— Sim, sim — disse Okereke, e começaram a falar alegremente de outros assuntos mais controversos, argumentando acaloradamente que lhes diziam muito mais respeito do que o pagamento de impostos.

O dinheiro já pago passou para as mãos de Okereke, que assinou o recibo. O ex-cobrador ficou com um ar tão feliz como se tivesse pousado um pesado fardo ao cabo de uma longa e penosa caminhada. Partiu para Umuahia quase com um sorriso.

Durante o resto do ano, Okereke tratou do negócio sensatamente, sem nunca se enganar. Os problemas começaram no ano seguinte.

Começou por tirar emprestado da caixa algum dinheiro, apressadamente, e restituiu-o. Depois tirou mais algum, não o devolveu, depois ainda mais, também sem o repor. Quando finalmente, após muitos meses, comparou minuciosamente a lista com o dinheiro que tinha na mão, viu que faltavam quinze libras.

Okereke sentou-se e suspirou consternado. Quinze libras! Era terrível. Como podia ele ter gasto tanto dinheiro? Onde o encontraria de novo? Teria a coragem de dizer à aldeia que tinha devorado o seu dinheiro? E, mesmo se o fizesse, alguém poderia salvá-lo? Via à sua frente a ignomínia e a prisão. Era um assunto doloroso.

Claro que havia algumas saídas. Podia ir à cidade e procurar um agiota. Mas sabia bem que o braço do agiota era tão longo como o da lei e era muito mais rápido. Procuraria o seu dinheiro ou os juros no fim do primeiro mês.

Outra saída seria vender alguma coisa. Saiu de casa, olhou pensativamente para a bicicleta encostada a uma árvore, e até tentou raspar-lhe a ferrugem. Mas o transporte de muitos fardos, durante anos, tinham-na deixado bem marcada. Parecia pronta a desfazer-se, os guarda-lamas abanavam, os travões não funcionavam, o fecho estava partido.

A mulher viu-lhe o olhar avaliador e reconheceu imediatamente os sinais de quem necessitava de dinheiro. Chamou a filha mais velha e entraram juntas em casa. Momentos mais tarde, a rapariga, sem fazer barulho, deixava a casa e penetrava no bosque atrás da casa, sem o pai a ver, levando à cabeça a máquina de costura.

— Ijeoma!

— Meu marido?

— Traz-me a máquina de costura.

— É pena — respondeu prazenteiramente. — Acabo de emprestá-la à minha mãe.

— Ah — disse Okereke. A mãe de Ijeoma era uma mulher alta, com grande força de vontade, com uma voz forte e eloquente, que com a idade se tinha tornado cada vez mais penetrante. Fora ela quem, antes do casamento, comprara a máquina de costura para a filha.

Decidiu ir ter com o seu amigo Okafor, cuja profissão era fabricar vinho de palma.

Quando chegou ao aldeamento do amigo, Okafor fazia descer, do alto de uma palmeira, uma cabaça cheia. Okereke mandou embora o miúdo que estava no fundo da escada e substituiu-o para receber o vinho, depois atou a cabaça nova a uma corda que Okafor fez subir. Quando estava bem segura, desceu pela escada e apertaram-se as mãos. Depois, foram sentar-se à sombra para beber vinho e conversar.

Por fim, Okafor disse:

— Tu tens mau aspecto hoje. Estás doente?

— Tenho um grande problema — disse Okereke. — Um amigo meu pediu-me para o ajudar e não sei o que hei-de fazer.

— Qual é o problema?

— Precisa de dinheiro… quinze libras… muito rapidamente… e não sabe onde encontrá-las.

Okafor suspirou.

— O dinheiro é escasso. Nunca tenho um xelim na mão. Sangro estas árvores todas, as minhas e as dos outros, e nunca fico com dinheiro.

Serviu mais vinho e beberam, enquanto a tarde quente ia lentamente arrefecendo e as pessoas começavam a aparecer na estrada. Uns raios trémulos faiscavam por entre as nuvens acompanhadas de trovões.

— No tempo dos nossos avós, um homem da minha profissão era um homem rico. Tinha dinheiro e poucos estavam ao seu nível. Agora, olha para mim. Todos os rapazes novos têm a sua bicicleta, rádio, sapatos de borracha, camisa de nylon. Onde vejo eu essas coisas? O dinheiro está escasso.

— O dinheiro está escasso — repetiu Okereke como um eco, e beberam, inclinando mais a cabaça.

Quando, finalmente, acabaram o vinho, Okereke agradeceu ao amigo e ergueu-se para se ir embora. Seguiram um bocado juntos pela estrada e de repente Okafor parou e bateu na coxa.

— Este homem que necessita de dinheiro… Tens confiança nele?

— Como em mim próprio.

— Não te aconselharia isto se ele não fosse de confiança, mas já sei o que podes fazer. Empresta-lhe tu o dinheiro e tira-o do dinheiro dos impostos. Como ele é digno de confiança, não te deixará ficar em apuros por sua causa e restituir-te-á o dinheiro rapidamente. — Olhou para o amigo, todo contente com a sua solução.

Okereke nem foi capaz de falar e limitou-se a apertar a mão do amigo e separaram-se.

Okereke regressou a casa, sombriamente. De manhã, levantou-se muito cedo e saiu do aldeamento antes da sua mulher poder recomeçar a fazer-lhe perguntas. Encontrou o homem mais velho da aldeia à porta de casa, olhando desconfiadamente para o novo dia.

Okereke parou para o saudar.

— Para onde vai tão cedo? — perguntou o ancião.

— Vou ter com um amigo. Tem grande necessidade de dinheiro e não sabe onde encontrá-lo.

— Ah — disse o velho. — O dinheiro está escasso.

Fê-lo entrar para a sala e sentaram-se. Okereke tirou a caixa de rapé que aspiraram, franzindo o rosto e limpando lágrimas de prazer.

— Recordo-me — disse o velho com ar meditativo — que, no tempo do meu pai, havia um homem que tinha muitas dívidas. Tinha demasiadas dívidas e os credores chegavam ao seu aldeamento antes do nascer do Sol, para apanhá-lo antes que pudesse fugir para a floresta e à noite, quando tinha de regressar a casa para dormir.

— Sim — incitou Okereke todo curioso.

— O homem ficou muito preocupado porque não podia pagar-lhes e, no entanto, eles não acreditavam e não lhe davam tréguas. Uma manhã, deixou-se dormir e, quando acordou, já o dia ia avançado. Pôs a tanga e saiu apressadamente de casa, mas muitos dos credores já estavam no aldeamento.

— Que fez ele? — perguntou Okereke. O velho tomou mais rapé e disse:

— Saltou para dentro do poço.

Houve um silêncio pensativo.

— Que aconteceu depois? — perguntou Okereke em voz baixa.

— Era a estação seca e não havia muita água no poço. Depois de todos os credores terem fugido, a mulher dele, com uma escada, ajudou-o a sair de lá.

— E quanto às suas dívidas?

— Oh… não sei. Mas teve sossego durante um dia.

Okereke deu voltas à cabeça com tal história. Era de certo interessante, até divertida. Se estivesse com disposição para isso, ter-se-ia rido francamente com a imagem de um homem desaparecer num poço e a multidão desaparecer em pânico. Mas, nesse momento, não lhe servia de nenhuma ajuda.

Quando se despediu e saiu do aldeamento, parou e deitou uma olhadela para o poço por cima dos troncos que o rodeavam. A superfície da água estava a dois metros do cimo, pois a estação das chuvas mal tinha acabado e o poço estava muito cheio. A água era escura como óleo e parecia tão espessa como sopa.

Okereke estremeceu.

Tentou esquecer-se da história do velho e continuou a andar um pouco ao acaso em direcção à aldeia. Quando sentiu um carro a aproximar-se por detrás, não olhou mas afastou-se com a cara virada para floresta, para o deixar passar, acompanhado de uma sufocante nuvem de pó.

Mas o carro parou e o condutor debruçou-se da janela para o saudar. Era o marido da irmã de Ijeoma, Chukuem, um mestre-de-obras que estava muito bem na vida. Passava a maior parte do tempo na cidade e só raramente ia a casa. Okereke desejou saber que é que o trazia a casa desta vez e Chukuem esclareceu-o rapidamente.

— Tentei comprar mais uma terra para cultivar, mas houve demasiadas discussões. Três dos donos anteriores discutiam os limites e um outro homem limpava a terra enquanto falavam. Por isso deixei de a comprar para não arranjar problemas.

Olhou de lado para Okereke.

— Sabes de algum pedaço de terra que alguém esteja disposto a vender?

Não foi a primeira vez que Okereke se admirou da velocidade com que as novidades se espalhavam. Como de costume, a explicação, uma vez conhecida, era simples. Mas o que ele não sabia era que a mãe de Ijeoma, tendo recebido a máquina de costura para guardar em segurança, comentara para quem a quisesse ouvir que o inútil do Okereke parecia estar necessitado de dinheiro. Chukuem, marido da outra filha, que acontecia estar de visita, ouviu o que ela disse. Alguns anos antes, quando tentara comprar terras, Okereke tinha respondido que ele não necessitava de vender as terras do seu pai, falando com mais orgulho do que o aconselhável, irritando a mãe de Ijeoma, cujo pai tinha arranjado má fama por tal comportamento … mas essa era uma outra história.

Agora aqui estava Chukuem a fazer a mesma abordagem, obviamente apoiado nalguma informação de que desta vez teria sucesso. Via-se claramente isso pela forma tranquila como se sentava ao volante, tirando um cigarro que acendeu, e pela sua expressão confiante.

Okereke não perdeu tempo em perguntas inúteis.

Sorriu.

— Ainda bem que me encontras. O dinheiro está escasso. Quero vender um pequeno bocado das minhas terras.

— O preço também é pequeno, espero — retorquiu o cunhado, sorrindo também, e foram juntos vê-lo.

Umas horas mais tarde, Okereke dirigiu-se lentamente para casa. Essa noite tinha de se encontrar com Chukuem, assinar o contrato e receber o dinheiro, exactamente quinze libras. Lembrou-se do cobrador anterior, com a cabeça curvada pela preocupação e o sorriso forçado, devido à falta de hábito. Ijeoma e a mãe dar-se-iam imediatamente conta de que se tinha apropriado do dinheiro dos impostos, quando não vissem um centavo do pagamento de Chukuem. Seria essa a única explicação possível para a venda apressada sem lucro. Então começariam as discussões, as perguntas sem resposta, as censuras inevitáveis. Entre esse momento e o momento presente teria que saborear a paz e a calma que sem dúvida não teria durante todo o próximo ano.

Sentiu-se muito cansado.

 

Rosina Umelo
O homem que comia dinheiro
Lisboa, Edições 70, 1980

 

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A escola secreta de Nasreen – uma história verdadeira do Afganistão

A escola secreta de Nasreen

Uma história verdadeira do Afeganistão

 

A minha neta Nasreen vive comigo em Herat, uma antiga cidade do Afeganistão, onde outrora floresceram as artes, a música e a educação. Mas depois chegaram os soldados e tudo mudou. As artes, a música e a educação desapareceram. Nuvens negras pairam agora sobre a cidade.

A pobre Nasreen fica em casa todo o dia, porque as raparigas estão proibidas de frequentar a escola. Os talibãs não querem que as raparigas estudem, como eu e a mãe de Nasreen fizemos quando éramos crianças.

Uma noite, vieram eles e levaram o meu filho, sem qualquer explicação. Esperámos dias e noites pelo seu regresso. Cansada de esperar, a mãe de Nasreen pôs-se, finalmente, a caminho, à procura dele, embora fosse proibido às mulheres e raparigas andar sozinhas pela rua.

Muitas luas passaram à minha janela enquanto eu e Nasreen esperávamos. Nasreen nunca falava nem sorria. Ficava sentada, à espera que o pai e a mãe aparecessem.

Eu sabia que tinha de fazer algo.

Ouvi rumores sobre uma escola secreta para raparigas que ficava por detrás de um portão verde, num caminho perto da nossa casa. E queria muito que Nasreen frequentasse essa escola. Queria que ela conhecesse o mundo, que estudasse, como eu tinha feito. Queria que ela falasse de novo. Assim, um dia, Nasreen e eu apressamo-nos a chegar ao portão verde. Felizmente, nenhum talibã nos viu. Bati ao de leve. A professora abriu o portão e corremos para dentro. Atravessamos o recreio da escola – uma sala numa casa particular cheia de raparigas. Nasreen sentou-se ao fundo da sala. Quando a deixei rezei: “Por favor Alá, abre-lhe os olhos para o mundo.” Nasreen não falou com as outras raparigas. Também não falou com a professora. E em casa manteve-se em silêncio.

Eu receava que os talibãs descobrissem a escola. Mas as raparigas eram espertas. Entravam e saíam a diferentes horas para não levantar suspeitas. E quando os soldados se aproximavam do portão, alguns rapazes desviavam a sua atenção. Ouvi falar de um talibã que bateu ameaçadoramente no portão, exigindo que o abrissem. Mas tudo o que encontrou foi uma sala cheia de raparigas a lerem o Corão, o que era permitido. As raparigas tinham escondido os seus trabalhos, enganando assim o soldado.

Uma das raparigas, Mina, sentava-se junto de Nasreen todos os dias. Mas nunca falavam uma com a outra. Enquanto as raparigas aprendiam, Nasreen vivia fechada em si mesma. A minha preocupação agravava-se. Quando a escola fechou para as longas férias de inverno, Nasreen e eu sentávamo-nos junto ao fogão. Alguns familiares poupavam comida e lenha para nos dar.

Mais do que nunca, tínhamos saudades da mãe de Nasreen e do meu filho. Alguma vez viríamos a saber o que tinha acontecido?

No dia em que Nasreen regressou à escola, Mina sussurrou-lhe ao ouvido:

— Tive saudades tuas.

— E eu também — respondeu-lhe Nasreen.

Com aquelas palavras, as primeiras desde que a mãe fora à procura do pai, Nasreen abriu o seu coração a Mina. E sorriu pela primeira vez desde que o pai fora levado à força. Pouco a pouco, dia após dia, Nasreen finalmente aprendeu a ler, a escrever, a somar e subtrair. Todas as noites mostrava-me o que descobrira naquele dia. Abriam-se, para Nasreen, as janelas naquela sala de aula. Conheceu e estudou os artistas, os escritores, os sábios e os místicos que, muito tempo antes, tinham tornado Herat importante.

Nasreen já não se sente só. O conhecimento que vai acumulando estará sempre com ela, como um bom amigo. Agora ela pode ver o céu azul para lá das nuvens escuras.

Quanto a mim, tenho a consciência tranquila. Continuo à espera do meu filho e da sua mulher. Mas os soldados nunca poderão fechar as janelas que se abriram para a minha neta.

Insha’ Allah.

Nota da Autora

O Fundo Internacional para as Crianças, uma organização sem fins lucrativos que se dedica a ajudar crianças de todo o mundo, contactou-me para escrever um livro baseado numa história verdadeira. Senti-me imediatamente atraída por uma organização no Afeganistão que fundou e apoiou escolas secretas para raparigas durante a ocupação Talibã, entre 1996 e 2001. O fundador destas escolas que pediu anonimato partilhou comigo a história de Nasreen e da sua avó. O nome de Nasreen foi alterado.

Antes de os Talibãs controlarem o Afeganistão:

70% dos professores eram mulheres;

40% dos médicos eram mulheres;

50% dos estudantes de Cabul eram do sexo feminino.

Depois da ocupação Talibã:

as raparigas estavam proibidas de frequentar a escola ou a universidade;

as mulheres estavam proibidas de trabalhar fora de casa;

as mulheres estavam proibidas de sair de casa sem um familiar do sexo masculino;

as mulheres eram obrigadas a usar a burca que cobria toda a cabeça e o corpo, deixando apenas uma pequena abertura para os olhos;

não era permitido cantar, dançar ou lançar papagaios. As artes e a cultura foram banidas na terra natal do famoso poeta Rumi. As esculturas colossais de Bamiyan Buddhas, esculpidas na montanha, foram destruídas.

Tinham começado anos e anos de isolamento e de terror. Mas também havia atos de coragem de cidadãos que desafiavam, de muitas formas, o regime Talibã, incluindo o apoio a escolas secretas de raparigas. A sua coragem nunca vacilou.

Jeannete Winter

Nasreen’s Secret School – A true story from Afghanistan

New York, Beach Lane Books, 2009

(Tradução e adaptação)

 

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A partida de xadrez – conto oriental

A partida de xadrez

 

Pena-de-Águia-Flutuante, filho e neto de índios maias, contou-me esta história, aprendida de um monge budista da Tailândia.

Um guerreiro de rosto tenso, cansado de vaguear sem destino, de festins para derrotas e destas para triunfos ilusórios, foi um dia visitar, no fundo de uma floresta, um ere­mita bastante afamado pelas suas bondade e sabedoria imperturbável. Na cabana de ramos onde foi recebido, depois de ter contado ao santo homem as penosas aventuras e de ter confessado o seu cansaço perante as maldades humanas, disse:

― Só te quero a ti como mestre. Ensina-me o saber que ilu­mina o teu rosto e que torna a vida bela.

O eremita aconselhou-o a que meditasse, procurasse para além das aparências, se esforçasse por descobrir, nas nocivas ninharias do mundo, o fruto saboroso da paz. Ensinou-o a dominar a respiração e a conduzir os pensamentos. Conversaram durante três dias intei­ros, após os quais o guerreiro prometeu ao mestre observar aqueles mandamentos.

Decorrido um ano, límpido para um, amargo para o outro, o guerreiro, que tinha decidido atingir a sabedoria, envolvera-se corajosamente no caminho traçado, mas perdera-se nos labirintos da alma. E assim, numa manhã de Verão, tendo chegado ao fim das suas forças, veio queixar-se ao santo homem:

― Apesar dos meus esforços ― disse ―, não fiz quaisquer pro­gressos. É claro que sei agora respirar como me ensinastes, mas con­tinuo ávido, infeliz e incapaz de amar. Como poderei amar a vida que me rodeia? Como poderei amar os outros se não me amo a mim mesmo?

Com infinita paciência, o eremita deu-lhe novas pistas. Ensinou-lhe a arte de conter os excessos dos sentidos e a de alcançar as calmas profundezas do coração, para lá de toda e qualquer tempestade. Três dias depois, o guerreiro partiu, revigorado, cheio de novas esperanças. Fatigou‑se ainda um ano inteiro a livrar o espírito dos fardos que o cobriam, observou rigorosamente a disciplina que lhe tinha sido aconse­lhada, tentou compreender e saborear a vida, mas nada conseguiu.

Então, sentiu-se mais infeliz do que nunca, e acabou por se perguntar se a vida que levava antes de ter tido a ideia peregrina de alcançar a sabedoria não era melhor do que a insuportável impotência em que mergu­lhara. Dirigiu-se uma vez mais à cabana do eremita e repreendeu-o pela sua incompetência.

― Não soubestes ensinar-me a amar ― disse-lhe. ― Acho que não passas de um impostor!

O eremita não se ofendeu, muito pelo contrário. Ouviu as queixas com uma atenção quase infantil e, depois, foi a um canto escuro da cabana buscar um jogo de xadrez.

― Joguemos uma partida ― disse-lhe, a sorrir ―, mas que seja definitiva e impiedosa. Aquele que perder deve morrer, o que vencer cortar-lhe-á a cabeça. Estás de acordo?

O guerreiro, surpreendido, olhou para o mestre; depois, vendo bri­lhar nos seus olhos uma luz de desafio, respondeu:

― Está bem.

Colocaram, à frente da cabana, o tabuleiro sobre uma laje e, à sombra de uma grande árvore, sentaram-se frente a frente, debru­çando as testas enrugadas sobre as figurinhas de madeira. E a partida começou.

Pouco tempo depois já o guerreiro estava em má posição. Ao fim de seis jogadas já tinha perdido três peças importantes e o rei estava perigosamente a descoberto. Sentiu medo. Transtornado pela mão fria da morte, que já sentia pesar sobre a nuca, começou a jogar cada vez pior. Doze jogadas depois estava à beira da derrota. Olhou para o adversário e viu-o completamente impassível. Decerto que não hesita­ria um momento em matá-lo, se acaso perdesse.

Nesse momento pensou que era altura de reflectir sem erros. Lembrou-se de que costumava ser bom no xadrez e tornou-se-lhe claro que só o espectro da morte o impedia de mostrar o que valia. «Em primeiro lugar, tenho de me desembaraçar do medo, se quero uma oportuni­dade de sobreviver; tenho de me desembaraçar dele imediatamente!» Esforçou-se por respirar como aprendera e pensou: «Aconteça o que acontecer, tenho de dar o meu melhor. Só isso importa.»

Então, con­templou o tabuleiro com atenção redobrada. Viu como salvar o rei, em risco de ser comido. Foi invadido por uma alegria súbita. Recuperou a espe­rança e esqueceu o pânico. Dezoito jogadas depois a sua situação restabelecera-se a ponto de encarar confiantemente uma longa batalha. Ao fim de vinte e quatro jogadas descobriu uma falha no jogo do adversário. Exaltou-se e deu um grito de triunfo.

― Perdeste ― disse.

Estendeu vivamente a mão para devorar a rainha na brecha ofe­recida, mas deixou-a suspensa sobre o jogo. Olhou o eremita. Viu-o ainda e sempre impassível. Nesse momento interrogou-se: «Por que razão mataria eu este homem corajoso? Estou certo de que poderia ter ganho facilmente a partida quando o medo me atormentava. Mas não o fez. Que bárbaro seria se abatesse o meu sabre sobre o seu pescoço?»

A exaltação abandonou-o subitamente. Fungou, baixou a cabeça e empurrou um peão inútil. Então, só então, o eremita voltou o tabuleiro ao contrário na relva com um gesto desajeitado.

― Por fim compreendeste… Primeiro, é preciso vencer o medo. Só depois pode vir o amor ­― disse.

O guerreiro sorriu. Só agora tinha descoberto como poderia viver em plenitude!

 

 

 

 

 

 

 

Henri Gougaud

A Árvore dos Tesouros

Lisboa, Gradiva, 1988

(adaptação)

O devorador de coragem

O devorador de coragem

 

Em pleno centro da zona pedonal estava sentado um tipo gordo a olhar com má cara para as pessoas que passavam. Abria constantemente a boca, abocanhava no vazio, mastigava e engolia. Depois, coçava a enorme barriga, sorridente, e tornava a abrir a boca em busca de nova presa invisível. Uma e outra vez.

As pessoas que passavam por ele, ou que por vezes quase tropeçavam nele, estremeciam, assustavam-se, e apressavam-se a fugir. Parecia que estavam com medo. Mas o indivíduo ia ficando cada vez mais gordo. O que é que aquele monstro gordo estaria sempre a comer?

As pessoas indignavam-se.

— Que desaforo! — dizia uma a tremer. — Devia-se afugentar o fulano!

— Ora veja, parece que está a comer-nos!

— Sinto um calafrio pelas costas abaixo. Porque é que ninguém faz nada?

A opinião era unânime: aquele indivíduo tinha de desaparecer e com ele aquela sensação desconfortável que todos sentiam. No entanto, ninguém ousava fazer nada. As pessoas rondavam por ali, cheias de medo. O indivíduo gordo, no entanto, continuava a abocanhar e comia, comia, e o medo das pessoas crescia, crescia.

De repente, uma menina pequena dirigiu-se ao homem gordo.

— Quem és tu? — perguntou-lhe, destemidamente. — E o que estás aqui a fazer?

— Não me conheces? — ressoou o monstro. — Ah, ah, ah! Vais já ficar a conhecer-me, sua menina impertinente.

O indivíduo gordo ergueu-se em frente da menina, mostrando todo o seu tamanho. Abriu o focinho devorador, bateu os dentes e rugiu.

— Sou bem conhecido por toda a gente. Mas tu não me conheces, o Devorador de Coragem? Uááá!

Como soou horripilante! As pessoas assustaram-se. Mas a menina disse:

— Não tenho medo!

— Isso vai já mudar! — gritou o Devorador de Coragem, abrindo a boca na direcção da menina. — Apanho-vos a todos!

Mas a menina riu-se e disse em voz alta:

— Coragem, é só o que é preciso! — E repetiu uma e outra vez, e todas as pessoas se lhe juntaram:

— Coragem, é só o que é preciso!

A frase ecoava alto pela zona pedonal e, de repente, as pessoas começaram a sentir um pouco menos de medo.

O Devorador de Coragem olhou em volta, inseguro. Aquilo nunca lhe acontecera. Respirou com dificuldade. Custava-lhe cada vez mais a respirar!

— O que é que queres de mim? — perguntou a arfar. E a menina respondeu:

— Coragem, é só o que é preciso!

— Preci-ci-so! Co-co-ragem! — gemeu o monstro. Abocanhou novamente para o ar, depois esvaziou-se. Como um balão, explodiu em nada e — puff! — desapareceu.

— Agora comeu-se a ele mesmo! — exclamou a menina, rindo-se.

As pessoas sentiram-se aliviadas.

— Coragem, é só o que é preciso! — disseram a rir-se, e continuaram o seu caminho.

A menina apressou-se a ir para a escola. Já era muito tarde! Pensou na professora, que, de certeza, ia voltar a ralhar-lhe. E murmurou baixinho:

— Coragem, é tudo o que é preciso!

 

Elke Bräunling

Da wird die Angst ganz klein

Limburg, Lahn Verlag, 1998

Tradução e adaptação

 

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Crianças abandonadas

Crianças abandonadas

Aumentam na Europa os bebés abandonados em “rodas” modernas

  

ONU revela-se contra as caixas onde os bebés são deixados

Em vários países europeus, os bebés indesejados são abandonados numa espécie de “caixas” semelhantes à “roda”, na Idade Média. Em 12 anos, mais de 400 crianças foram deixadas nesses dispositivos. As Nações Unidas consideram que é uma violação dos Direitos da Criança.

Na Idade Média, em Portugal, os bebés ilegítimos eram colocadas na chamada Roda dos Enjeitados que foi oficializada em 1783 por Pina Manique, Intendente Geral da Polícia. Foi por sua iniciativa que foram criadas as Casas de Roda para receber essas crianças indesejadas. Esses depósitos de recém-nascidos foram extintos por decreto em 1867. Hoje, os bebés indesejados são entregues em instituições e muitos deles são depois candidatos à adoção.

O recurso a sistemas semelhantes ao da “roda” para abandonar bebés recém-nascidos está a aumentar na Europa. Na República Checa, na parede exterior do edifício da clínica GynCentrum, no leste de Praga, está colocada uma “caixa” que recolhe bebés indesejados. É um local isolado, onde as mães podem evitar ser vistas. No interior desse dispositivo encontram-se folhetos em checo, russo e inglês, com números de telefone que oferecem ajuda às mães que mudem de ideias. Logo que a criança é ali deixada, soa um alarme dentro da clínica para alertar os enfermeiros que recolhem o recém-nascido do outro lado da parede. Dezassete bebés foram deixados na “caixa” da clínica checa desde que abriu em 2005, segundo Lenka Benediktova, uma das responsáveis, ouvidas pelo The Guardian.

Esta é um dos 50 dispositivos para o efeito colocados em todo o país pela Fundação para Crianças Abandonadas (Statim), uma ONG privada dirigida por Ludvik Hess, um pai de 20 filhos, oito biológicos e os outros adotados, que se diz poeta e empresário e afirma agir por motivos humanitários. Cada um custa 39 mil euros e os fundos são angariados junto de empresas, incluindo um dos maiores bancos da República Checa, o Komercni.

 Graças a estas “caixas”, 75 bebés já foram salvos, segundo Ludvik Hess. O objetivo é instalar 70 equipamentos destes para fazer a cobertura de todos os distritos do país, ajudando as mães solteiras e acolhendo os bebés indesejados para os dar para adoção. Zuzana Baudysova, diretora da Fundação Criança, uma instituição checa de caridade para crianças, nota que esta iniciativa beneficia muitos bebés indesejados, filhos de mulheres de outras nacionalidades. “Muitos delas não são checas, mas dos Balcãs, Albânia ou Roménia. Algumas são imigrantes africanas”, diz, acrescentando não ter dúvidas de que, “se as caixas não existissem, alguns desses bebés seriam deitados no lixo”.

Nações Unidas preocupada

O aumento destas caixas que acolhem bebés na Europa está a preocupar cada vez mais as Nações Unidas por considerar que esta prática “contraria o direito da criança a ser conhecida e cuidada pelos seus pais”. O comité da ONU que zela sobre o cumprimento dos Direitos da Criança mostra-se alarmado com o aumento destas “caixas” colocadas geralmente no exterior dos hospitais. Este comité lamenta que as “rodas”, que já tinham desaparecido da Europa no século passado, reapareceram na última década e totalizam quase 200 em países tão diversos como Alemanha, Áustria, Suíça, Polónia, República Checa e Letónia.

Desde 2000, mais de 400 crianças foram abandonadas nesses dispositivos. Em França e na Holanda, as mulheres têm o direito ao anonimato após o parto; no Reino Unido continua a ser um crime abandonar secretamente uma criança. Para os funcionários da ONU, a existência destas “caixas” viola uma das ideias básicas da Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC), que diz que estas têm direito a conhecer os seus pais e, mesmo em caso de separação, o Estado tem o dever de “respeitar o direito da criança a manter relações pessoais com o pai ou a mãe “. No ano passado, o comité das Nações Unidas recomendou ao Governo da República Checa que tomasse “todas as medidas necessárias para acabar com a situação o mais rapidamente possível”. Tal não está a acontecer.

 

Jornal “O PÚBLICO”

11.06.2012

Uma oficina diferente

Aboubacar trancou a porta da sua oficina com um suspiro cansado mas satisfeito. O dia fora longo. Parecia que todas as motas e motocicletas da cidade tinham decidido avariar naquele dia. Felizmente não lhe faltavam clientes. Alguns diziam que não havia melhor mecânico em toda a capital, Ouagadougou, outros diziam que em todo o Burquina Faso! Aboubacar sorria modestamente. Sabia bem que, quando os clientes que tinham chegado suados a empurrar a motoreta sob o sol intenso regressavam a casa montados nela, não se poupavam a elogios… de alívio e de felicidade!

A meio dos quarenta, Aboubacar era o filho mais velho de uma família numerosa. Ainda pequeno, os pais tinham-no enviado para casa de um parente afastado que vivia na capital, para aprender um ofício e ser mais tarde o chefe da família, como era a tradição. Um vizinho mecânico, a quem todos tratavam carinhosamente por TioAssouf, gostou daquele rapazinho de olhar vivo e curioso, e acabou por levá-lo para a sua oficina. A família afeiçoou-se a Aboubacar, e como os filhos de Assouf tinham partido para França, este acabou por passar a viver em casa dele.

Ao final do dia, o Tio Assouf gostava de se sentar à porta de casa a fumar e a ler o jornal. Certo dia, o rapazinho perguntou-lhe:

— Tio Assouf, o que está a fazer com esses papéis nas mãos?

— Estou a ler o jornal, Aboubacar — respondeu-lhe seriamente.

— E porque é que está sempre a ver os mesmos papéis?

— Aboubacar, eu não estou a ver, estou a LER — disse-lhe. — E isto é um jornal. Aqui estão escritas as coisas mais importantes que acontecem no nosso país. Chega cá.

E perguntou-lhe em tom mais baixo:

— Tu sabes ler?

— Não.

— Humm… é pena… podias ajudar-me aqui numa frase que não consigo ler. Sabes, quando tinha a tua idade, não tive a sorte de poder ir para a escola todos os dias e aprendi só um bocadinho. Mas como tinha muita vontade, fui continuando a aprender sozinho. Mas há algumas palavras que não sei ler muito bem, e outras que não percebo, porque são novas. É por isso que demoro muitos dias, quer dizer… Bem… digamos que leio mais devagar. Mas… espera aí! Se não sabes ler, como é que descobriste que estou com o mesmo jornal?

— Porque há dois dias que vejo sempre a mesma imagem na parte de trás da página — respondeu Aboubacar.

— Tu és esperto, rapaz! — exclamou o Tio Assouf, passando-lhe a mão pela cabeça e soltando uma gargalhada jovial. De repente parou, com os olhos fixos em Aboubacar e disse-
-lhe, com um largo sorriso radioso:

 — Como é que eu não pensei nisto mais cedo! TU é que vais aprender a ler e a escrever. E vamos ver se conseguimos que seja já na próxima semana! De manhã, escola. De tarde, logo se vê.

— Tio Assouf, eu tenho de trabalhar na oficina. É por isso que estou aqui!

— Não, Aboubacar. Aprender a ler e a escrever, a pensar sozinho e a compreender o que se passa à nossa volta é mil vezes mais importante. Até para trabalhar na oficina. Sabes fazer melhor as contas, percebes melhor o que fazes, podes ler e aprender coisas novas em livros e não demoras uma semana para ler um jornal de cinco folhas, como eu. Amanhã mesmo vou falar com o professor e logo se vê se podes ir para a escola normal ou juntar-te ao grupo de crianças cá do bairro a quem dá aulas em casa ao fim do dia. Anda, vamos jantar e contar tudo à Tia Esther.

A esposa de Assouf ficou radiante com a perspetiva de oferecer um futuro mais promissor a Aboubacar. Ela própria lamentava ter sido obrigada a ficar em casa e a ocupar-se unicamente das tarefas domésticas. Sentia que as raparigas não deviam ter um tratamento diferente dos rapazes. Por que razão não as mandavam à escola e as retiravam de lá quando eram precisas em casa? Se eram elas que iam ao mercado, que vendiam e faziam as compras? E dizia o que pensava em voz alta, sem vergonha do que pudessem pensar:

— As mulheres são tão capazes como os homens!

Decididamente, a família do Tio Assouf era muito diferente das normais, e não admira que Aboubacar se tivesse empenhado ao máximo em aprender avidamente tudo o que lhe ensinavam, quer fosse na escola ou na oficina, e escutasse com atenção as conversas de Assouf e da esposa e se começasse também a questionar sobre determinados assuntos.

Assim, de cada vez que fechava a oficina, que fora a de Assouf, Aboubacar nunca deixava de pensar nele e na esposa, e agradecia-lhes as oportunidades que lhe tinham dado.

♦♦♦

Naquele dia tão quente, Aboubacar ainda tinha tempo, antes do jantar, para se juntar aos amigos no largo, debaixo da árvore de mangas.

— Então, Abubacar, que tal o dia? — saudaram os amigos quando o viram chegar.

— Bebe uma cerveja — convidou-o Salit. — Com este calor, qualquer dia vais ter de comprar um ar condicionado para a oficina!

— Ar condicionado? Isso é para ti, que trabalhas para o estado…

— Sim, mas também não faz grande falta. À velocidade com que carimbam os papéis, não devem aquecer muito! — riu-se Aziz.

— Valia mais gastar o dinheiro num despertador. Passam o tempo a dormir, qualquer dia ainda ficam lá fechados de noite! — riu-se outro.

— Se o negócio continuar assim, precisava era de meter um… — começou Aboubacar.

— Olha, quem tem mais um em casa, sou eu.

— Vais ter outro filho?

— Não, tenho uma cunhada da sobrinha da minha mulher. Diz que o marido a tratava mal e resolveu fugir… Apareceu lá em casa cheia de nódoas negras, quase sem forças e lavada em lágrimas. Imaginem que caminhou dois dias inteiros. Vinha num estado miserável! A pena que metia!

— Coitada! Não consigo entender porque é que alguns maridos tratam tão mal as mulheres! Uma prima da Srª Maimouna, a que vende bolos no mercado, também fugiu para cá.

— Tratar mal? Mas as mulheres querem-se em casa a trabalhar e a ter filhos! E as filhas devem casar-se o mais depressa — ripostou o velho Suleiman.

— Porquê? Isso não é vida. Porque não hão de saber ler e escrever, ir à escola, trabalhar em qualquer lado, serem tratadas com respeito? São tão capazes como os homens. Olha a prima da Srª Maimouna. Tirou um curso de costura e agora trabalha em casa como costureira. Aprendeu a ler e consegue costurar a partir dessas revistas de costura modernas.

— Ora, lá vens tu com as tuas modernices, Abubacar — continuou Suleiman.

— Não são modernices. Vocês, Salit, não têm mulheres lá no escritório? E não fazem o mesmo trabalho?

— Sim, são da família do chefe. E… a verdade é que até não trabalham mal, quero dizer… bem… despacham as coisas mais depressa, lá isso é… E já que falas na prima da Srª Mamouna, a minha mulher já lá mandou coser uns tecidos e diz que não quer mais ninguém.

— Veem? Então?

— Pode ser, mas não acho bem. Só tive rapazes, mas se tivesse filhas…

— Pensavas de maneira diferente — atalhou rapidamente Abubacar.

— Ai, sim? Tu e as tuas ideias do costume. Se são tão boas como os homens, Abubacar, porque não metes nenhuma na oficina? — perguntou o velho Suleiman num tom desafiador.

— E porque não? Só porque ainda não me apareceu nenhuma.

Nesse momento, a mulher de Aboubacar chegou a correr.

— Aboubacar, desculpa, podes vir depressa para casa? Precisava de falar contigo.

— Aconteceu alguma coisa, Aida?

— Vem depressa. É a tua irmã Miriam.

♦♦♦

Miriam era a irmã mais nova de Aboubacar. Embora com vinte anos menos, era a sua preferida. Sempre insistira em trazê-la para junto dele, mas os pais nunca o permitiram e obrigaram-na a ficar na aldeia e a trabalhar no campo. Um pouco à revelia e com o apoio do irmão, Miriam tinha conseguido frequentar a escola durante três anos, chegando a levar os livros para o campo enquanto guardava as cabras. Tentara ganhar o máximo de tempo que conseguira, mas os pais acabaram por obrigá-la a casar aos dezoito anos com um homem dezanove anos mais velho. Numa família, uma mulher é mais um peso, uma boca a alimentar, e, se não casar, é mal vista por todos.

Fora um casamento infeliz. Miriam tinha de trabalhar no campo, cuidar dos animais e da casa. Era obrigada a entregar ao marido o dinheiro que conseguia juntar com as vendas no mercado, e ele gastava-o todo em cerveja. Bêbedo, humilhava-a e batia-lhe violentamente. Por infelicidade, o primeiro filho que teve foi uma menina, que morreu ao fim de um ano. O marido violentava-a porque queria um rapaz. O segundo filho tornou a ser uma menina que nasceu já morta. Bêbedo, o marido espancou-a e a família passou a desprezá-la ainda mais, obrigando-a a fazer todo o tipo de trabalhos e injuriando-a por não conseguir gerar filhos. Fruto da violência física e psicológica de que era vítima, nunca mais pôde ter filhos. Até que num dia em que o marido, bêbado, a espancara e abalara da aldeia com outra mulher, levando todo o dinheiro que possuíam, Miriam fugiu.

— Bem sabes que a nossa família nunca me aceitará de volta e a do meu marido, então… Nem a quero ver. Desculpa ter aparecido aqui, Aboubacar, mas não tenho dinheiro nenhum nem para onde ir. Só me lembrei de ti. E como sempre quiseste que viesse para Ouaga…

— Mas como conseguiste chegar até aqui? São mais de cem quilómetros!! E olha-me para a tua cara, estás toda pisada. Tens de ir imediatamente ao hospital.

— Estava tão desesperada que saí da aldeia sem pensar. Apanhei alguma fruta pelo caminho até chegar perto da aldeia do Sr. Ibrahim, que me encontrou na estrada. Como vinha ao mercado, trouxe-me na carrinha dele. Foi uma sorte. Importas-te que fique aqui por uns dias? Não quero incomodar nem dar despesa; hei de arranjar trabalho e, logo que possa, mudo-
-me.

— É que nem pensar, Miriam! — interrompeu Aida. — Ficas aqui connosco. Primeiro, vamos curar-te essas feridas, descansas o tempo que for preciso e depois pensamos numa forma de passares a ganhar algum dinheiro para ti. Temos agora uma costureira nova cá no bairro a quem aconteceu o mesmo que a ti. Tem bastante serviço, talvez precise de uma ajudante, e as mulheres têm de se unir. Tu ainda és nova e a vida não acabou, não é, Aboubacar?

— Claro! E desde quando é que a minha irmã mais nova ia andar por aí perdida nesta cidade? Agora que te livraste do teu marido, é aqui que a tua vida vai finalmente começar. E agora vais lavar-te imediatamente e descansar.

— Obrigada, Aboubacar, obrigada, Aida. Muito, muito obrigada. Sinto-me bem melhor e vocês tiraram-me um peso enorme do coração. Vou lavar-me e venho já ajudar-te a preparar o jantar, Aida.

— Não preferes descansar?

— Acho que não. Sinto-me tão aliviada que parece que já nem estou cansada.

— Tu é que sabes. Então, para comemorar, o jantar tem de ser especial. Não é todos os dias que se comemora uma decisão e uma mudança tão importante como a tua. O que há de ser?

— Hum… que tal um estufado de inhame com arroz de tomate e cebolas? Se bem te conheço, Miriam — atalhou Aboubacar — é a tua comida preferida! E voltei a esquecer-me de uma coisa na oficina! O tio Bono trouxe-me umas papaias … que por sinal também são os nossos frutos preferidos! Venho já!

— Muito obrigada! — agradeceu Miriam atirando-se ao pescoço do irmão. — E a ti também, Aida. Nem imaginas a sorte que tens!

Nessa noite, a sobremesa teve de esperar para o dia seguinte: Miriam adormeceu à mesa. Aida e Aboubacar deitaram-na cuidadosamente na cama deles e voltaram para a cozinha.

— Coitada da tua irmã. Acontece a tantas mulheres! Ao menos ela teve a coragem de sair da aldeia.

— Eu sei. Estive sempre à espera deste momento, acreditas?

♦♦♦

Nessa noite, Miriam dormiu pesadamente e só acordou depois da hora do almoço do dia seguinte.

— Meu Deus! — exclamou ao encontrar Aida. — Nem acredito que dormi tanto!

— Como te sentes? Tens a cara toda pisada.

— Estou bem, obrigada. Estou com muito mau aspeto mas não me dói nada. Desta vez não fiquei com golpes. Vou por umas folhas para ajudar a cicatrizar. Aliás, sinto-me tão aliviada, que nem penso na minha cara. Mas acredito que não esteja nada bonita…

— O Aboubacar está na oficina e eu tenho de sair, não sei se queres vir comigo.

— Estive a pensar… Realmente, se a tal costureira precisar de alguém que a ajude… Costurar não é o meu forte, mas faço qualquer coisa. Achas que posso fazer algumas limpezas?

— Espera. Vamos ver primeiro cá no bairro. Também há um restaurante de uma organização holandesa que dá aulas de hotelaria…

— Muito obrigada, Aida. Eu vou ter com o meu irmão.

Miriam passou a fazer companhia ao irmão na oficina e, com o tempo, a dar-lhe uma ajuda. Enchia os pneus, mudava o óleo, afinava os travões. Os amigos de Aboubacar brincavam com ele e a princípio não viam com bons olhos que as suas motas fossem arranjadas por uma mulher. Chegou até a perder alguns clientes. Mas encolhia os ombros e continuava. E Miriam gostava cada vez mais do trabalho. Descobrira a sua vocação!

— Aboubacar — disse certo dia Salit, entrando com a motoreta pela mão. — Desculpa dizer-te isto, mas prefiro que sejas tu a compor a minha mota. Trouxe-ta cá ontem para arranjar, e hoje ia-me enfiando pela barbearia dentro porque me falharam os travões. O Aziz também trouxe a dele e está boa… Não sei o que se está a passar, se é que me percebes. Sabes que gosto do teu trabalho e não queria mudar…

Aboubacar observou a motoreta e coçou a cabeça, embaraçado.

— Peço imensa desculpa — Salit. — Sei muito bem o que se passou. Ontem tivemos muito trabalho e lembro-me que a minha irmã arranjou a do Aziz e eu a tua. Esqueci-me de ver se os travões estavam afinados. A minha irmã nunca se esquece… Lamento imenso. Vou já arranjá-la.

— Hum… foi a tua irmã que tratou a do Aziz? É que ele…

— Sim, sim — respondeu Aboubacar. — Deve ser de família. Ela tem imenso jeito e aprendeu em pouco tempo. Aconteceu alguma coisa à do Aziz? — perguntou preocupado. — Como ela não tem ainda muita experiência…

— Hum… Bem… não. É que… O Aziz disse que a mota dele tinha ficado como nova desde que saiu ontem daqui e anda a espalhar isso pelo mercado. Estou a ver que não vais precisar de nenhum empregado. Ou melhor… até vais, pela publicidade que ele anda a fazer. Fico contente por ti e pela Miriam. Tem outro ar e … outra postura, desde que trabalha contigo, não sei explicar. Soube ontem que a minha prima também está a passar mal com o marido. Ainda é muito nova, também casou à força e o marido trata-a brutalmente. Tenho imensa pena porque ela é muito jovem e bonita. Desde que te conheci que fiquei a pensar nestas coisas e já lhe dei a entender, da última vez que a vi, que podia vir para minha casa. A minha mulher até foi a primeira a falar-lhe. De cada vez que vejo a Miriam pergunto-me porque é que a minha prima não faz o mesmo.

— O que é que eu fiz, Salit? — pergunta Miriam, que vinha a entrar e ouvira a última parte da conversa.

— Mudaste a tua vida! Tenho uma prima que está a passar pelo mesmo que tu passaste e dei-lhe a entender que podia vir para minha casa.

— E fizeste muito bem, Salit. Tenho sabido no mercado que há imensas mulheres a quererem libertar-se. Nem é vir para a cidade, algumas até são de cá. É sair do inferno em que vivem e recomeçarem a viver. Tenho ouvido imensas histórias… Aboubacar, tenho uma proposta para te fazer: lembrei-me de abrirmos uma espécie de escola de mecânica só para mulheres. Conheci duas raparigas que me pediram muito que as ensinasse e se a tua prima quiser, Salit, já tem onde vir aprender. O que é que não falta em Ouagadougou? E no Burkina Faso? Motas, motocicletas e motorizadas. E os mecânicos são sempre precisos. Vais ver, irmão, que vamos poder ajudar imensa gente! E acredita que ainda vamos abrir mais escolas!

— Faz isso Aboubacar, faz! — insistiu Salit — Se for preciso dinheiro para alguma coisa, eu ajudo.

— Obrigado, Salit, mas é claro que a ideia me agrada. Já andava a pensar nisso há algum tempo, mas não tinha pensado em que fosse só para mulheres. Acho que quem não vai gostar da ideia vai ser o tio Suleiman — disse Aboubacar com uma gargalhada. — Não sei o que tem, mas desde domingo que não me fala, só cumprimenta com um ar estranho.

— A sério? — perguntou Salit. — O que é que lhe fizeste? Anda por aí a correr montado na mota como um rapaz! Realmente anda esquisito, nuca o vi conduzir tão rápido! Acreditas que ia virando uma bancada de mangas? Vi eu com os meus olhos!

— Olha, lá vem ele!

— Boa tarte, tio Suleiman! Quer uma cerveja? Já vamos fechar!

— Aa… hum… Aboubacar, Miriam, boa tarde. Não obrigado, tenho de ir para casa. — Tossicou antes de continuar: — E venho entregar-te este dinheiro para pagar o resto da reparação, Miriam. A mota está ótima! — acrescentou num tom entusiasmado, e seguiu.

— Realmente anda esquisito! Mas que dinheiro? Que reparação? Nem cá veio com a mota…

— Eu sei o que se passa — disse Miriam, satisfeita. — Na quarta-feira passada, naquela semana em que tiveste de sair da cidade e eu fiquei sozinha, apareceu aqui na oficina a velha tia Celine, a mulher dele, com a mota. Parece que ele não queria mandá-la arranjar porque tu não estavas. Mas ela precisava que ele lhe fizesse uns recados com urgência. Sabes como ele é teimoso. Insistia em que só tu é que lha podias compor. A tia Celine, que fala muito comigo, e até já chorou quando me contou umas coisas, fartou-se. Aproveitou quando ele estava a dormir e trouxe a mota. Pagou-me metade porque era dinheiro dela… bem sabes que as mulheres não têm muito… Quando ele saiu ao fim da tarde, notou que a mota estava diferente. Ela acabou por contar-lhe e ele zangou-se tanto que não lhe falou durante um dia inteiro. E disse-lhe que não pagava o resto da reparação nem lhe dava dinheiro. Só não estava à espera da coragem da mulher, que disse que não lhe cozinhava enquanto ele a tratasse assim! Como teve de comprar comida fora e tem bastante idade, apanhou uma tal diarreia…e lá acabou por fazer as pazes ao fim do segundo dia, e confessar que a mota nunca tinha andado tão bem, segundo me contou a tia Celine. Agora que está bom de saúde, passa o dia montado nela de um lado para o outro. E o facto de ter vindo pagar o que faltava, foi um bom sinal. Amanhã entrego o dinheiro à tia Celine, quando a encontrar. Não são ricos e de bom grado lho ofereço. Parabéns, tia Celine, temos sempre idade para exigir que nos respeitem!

 

 

In: DeutscheWelle

(Tradução e adaptação)

O Herói do papel

O Herói do papel

Assim que o sol derreteu os grãos de neve escuros, e lavou a água suja e todo o lixo doméstico depositado durante o inverno – trapos, ossos, vidros partidos –, começaram a sentir-se no ar um sem número de odores, sobrepondo-se a todos eles o cheiro doce da terra no início da primavera. Foi então que Genia saiu para o pátio.

O seu nome era tão ridículo que ele, desde que aprendera a escrever, o sentia como uma humilhação. Para mais, Genia tinha, de nascença, um problema nas pernas que o fazia saltar de uma forma esquisita quando andava. A acrescentar a tudo isso, o nariz, continuamente entupido, obrigava-o a respirar pela boca, de forma que os lábios estavam sempre secos, o que o fazia lambê-los constantemente. Para completar, não tinha pai. É certo que metade das crianças não tinha pai mas, ao contrário das outras, Genia não podia dizer que o pai havia morrido na guerra: ele nunca tinha tido um pai. Tudo isto o tornava muito infeliz.

Saiu, portanto, para o pátio, ainda meio convalescente das suas maleitas de inverno e de primavera, com um gorro de lã enfiado na cabeça, por cima de um lenço, e um longo cachecol verde enrolado à volta do pescoço. O sol estava incrivelmente quente. As meninas tinham descido as meias, enrolando-as à volta das pernas como salsichas. A senhora da casa número sete, com a ajuda da neta, arrastara uma cadeira para debaixo da janela, e ali se encontrava sentada, com a cara virada ao sol. O ar, a terra, tudo estava cheio de vida e emanava força, principalmente as árvores despidas, de onde, a qualquer momento, pequenas folhas rebentariam alegremente.

Genia estava parado no meio do pátio, escutando, impressionado, os magníficos sons à sua volta. Um gato gordo atravessava o pátio na diagonal, colocando, hesitante, as patas na terra molhada. A primeira bola de lama caiu exatamente entre o rapaz e o gato, que curvou as costas e deu um salto para trás. Genia estremeceu. Chapiscos de lama bateram-lhe com força na cara. A segunda bola acertou-lhe nas costas, e ele nem esperou pela terceira: desatou a correr aos saltos em direção à porta de casa. Um dito trocista perseguiu-o como uma lança sonora: Genia Manco, limpa o ranho!

Voltou-se. Kolka atirava as bolas de lama, as meninas riam-se e por detrás deles, encontrava-se aquele a quem todos obedeciam, inimigo de quem não pertencesse ao seu grupo: o astucioso e destemido Shenka. Genia correu para a porta de casa. A avó vinha naquele momento a descer as escadas, uma avó minúscula, com um chapéu castanho na cabeça. Ia passear no jardim. Uma pele de raposa já gasta, com olhos de âmbar luzidios, repousava-lhe sobre os ombros.

Naquela noite, quando Genia ressonava por detrás do biombo verde, a mãe e a avó ficaram bastante tempo sentadas à mesa.

— Porquê? Porque é que andam sempre a fazer-lhe mal? — perguntou a avó num sussurro.

— Acho que devíamos convidá-los para o aniversário dele — respondeu a mãe.

— Estás maluca! — disse a avó assustada. — Aquilo não são crianças, são bandidos!

— Não vejo outra saída — retorquiu a mãe. — Temos de fazer um bolo, alguma coisa para comer e preparar-lhe uma festa de anos a sério.

— São uns bárbaros e uns bandidos. Vão levar-nos tudo o que temos em casa — teimava a avó.

— Ora diz lá, o que é que tens que possam roubar-te? — perguntou a mãe de Genia. — Os teus sapatos velhos, talvez?

— Ora, os sapatos! — a avó soltou um suspiro pesado. — O rapaz faz-me pena.

♥♥♥♥

Passaram-se duas semanas. Chegou uma primavera suave e amena. A lama secara. O pátio ficou coberto de erva e, embora os moradores se esforçassem por sujá-‑la novamente, ela continuava limpa e verde. As crianças brincavam de manhã à noite aos “polícias e ladrões”. As cercas estavam pintalgadas de setas de giz e carvão, o sinal dos ladrões à solta. Há já duas semanas que Genia ia à escola. A mãe e a avó trocavam olhares entre si. A avó, supersticiosa, cuspia por cima do ombro – pelo sim e pelo não. O intervalo entre duas doenças geralmente não durava mais de duas semanas. De manhã, a avó levava o neto à escola. Depois das aulas, esperava por ele no átrio, enrolava-lhe o cachecol verde, pegava-lhe pela mão e levava-o para casa.

Na véspera do dia de anos, a mãe disse a Genia que nesse ano iam fazer uma festa a sério.

— Convida quem tu quiseres da tua sala e do pátio — sugeriu.

— Não quero ninguém. Por favor, mãe, não! — pediu Genia.

— Tem de ser — respondeu a mãe laconicamente, e o estremecer das sobrancelhas disse a Genia que nada a demoveria.

Ao anoitecer, a mãe desceu ao pátio e convidou as crianças para o dia seguinte. Falou ao grupo inteiro, sem diferenciar ninguém; só a Shenka é que se dirigiu em separado:

— E tu também, Shenka.

Ele olhou-a com uns olhos tão frios e adultos, que ela ficou embaraçada.

— E porque não? Eu vou — respondeu, impassível.

E a mãe foi começar a preparar a massa do bolo.

Genia olhava tristemente em volta do quarto. O que mais o preocupava era o piano preto e brilhante. De certeza que mais ninguém tinha em casa uma coisa daquelas. O armário dos livros e as partituras na prateleira ainda se desculpavam… Mas Beethoven, aquela horrível máscara preta de Beethoven! De certeza que alguém iria perguntar maldosamente: “Aquele é o teu avô? Ou o teu pai?”

Genia pediu à avó que guardasse a máscara. A avó ficou admirada.

— Mas o que é que te incomoda nela agora? Olha que a tua mãe recebeu-a de presente, da professora!

E a avó contou, pela infinitésima vez, como a mãe era uma pianista de talento e como, se não tivesse sido a guerra, teria acabado o conservatório…

Sobre a mesa posta havia, pouco antes das quatro, uma terrina com salada de batata, pão torrado com arenque, e pirogas com recheio de arroz. Genia estava sentado à janela, de costas voltadas para a mesa e tentava não pensar que dali a nada os seus barulhentos, alegres e irreconciliáveis inimigos entrariam por ali dentro… Parecia completamente mergulhado na sua ocupação favorita: fazer um barco de folha de jornal.

Genia era um grande mestre na arte do papel. Passara na cama centenas de dias da sua vida. Bronquite de outono, anginas de inverno e constipações de primavera, tudo aguentara com paciência, dobrando pontas e alisando dobras de folhas de papel, tendo junto de si um livro cinzento azulado com uma girafa na capa. Intitulava-se “Horas divertidas” e tinha sido escrito por um sábio, um mágico, o melhor homem do mundo – um tal M. Gershenson. Este era um grande professor, mas Genia era também um grande aluno. Incrivelmente dotado para aquele passatempo de papel, já tinha feito coisas que nem Gershenson ousara imaginar! Genia rodava nas mãos o barquinho incompleto, esperando, com pavor, a chegada dos convidados.

Chegaram em grupo às quatro em ponto. As irmãs loirinhas, as convidadas mais novas, entregaram-lhe um grande ramo de margaridas. Os outros vieram sem prenda. Ordeiramente, todos se sentaram à mesa. A mãe serviu gasosa caseira com cerejas, e disse:

— Vamos brindar ao Genia, que faz anos hoje.

Cada um pegou no seu copo e brindaram. A mãe puxou o banco giratório, sentou-se ao piano e tocou “A marcha turca”. As irmãs olhavam fascinadas para as mãos a deslizar pelas teclas. A mais nova estava com uma cara assustada, como se fosse desatar a chorar a qualquer momento. Shenka, com um ar indiferente, comia salada de batata e uma piroga, e a avó rodeava cada convidado de cuidados, como costumava fazer com Genia. A mãe tocava agora canções de Schubert. Que cena incrível! Doze crianças mal vestidas, mas limpas e bem penteadas, comiam em completo silêncio, enquanto uma mulher magra tirava sons fugidios das teclas do piano. O aniversariante estava sentado, com as mãos transpiradas, a olhar fixamente para o prato. A música entretanto chegou ao fim, voou pela janela, e só alguns tons graves ficaram a pairar sob o teto, antes de seguirem os outros.

— Genia — disse de repente a avó, com voz doce —, não queres tocar também alguma coisa?

A mãe lançou à avó um olhar alarmado. O coração de Genia quase parava: eles detestavam-no pelo nome ridículo, pelo andar saltitante, pelo cachecol comprido e pela avó que ia passear com ele. E agora tinha de tocar piano à frente deles!

A mãe viu que ele empalidecera, adivinhou a razão e respondeu:

— Noutro dia. O Genia toca noutro dia.

A corajosa Valka perguntou, incrédula e quase admirada:

— Ele sabe tocar?

A mãe trouxe o bolo. Serviu-se chá. Numa taça redonda havia bombons, rebuçados de fruta e caramelos. Kolia comia à boca cheia sem vergonha nenhuma, e metera ainda alguns ao bolso. As irmãs chupavam rebuçados ácidos e pensavam em quais iriam pegar a seguir. Valka alisava papel de prata em cima do joelho bicudo. Shenka olhava em volta da sala com à-vontade. Os olhos deslizavam de um lado para o outro. Por fim, apontou para a máscara e perguntou:

— Tia Mussia! Quem é aquele? Pushkin?

A mãe sorriu e respondeu amavelmente:

— Aquele é Beethoven. Um compositor alemão. Era surdo mas, mesmo assim, compôs música magnífica.

— Um alemão? — perguntou Shenka alerta.

A mãe apressou-se a ilibar Beethoven de qualquer suspeita.

— Já morreu há muito tempo. Viveu há mais de cem anos, muito antes do fascismo.

A avó começara já a contar que a tia Mussia recebera a máscara de presente da professora, mas a mãe olhou-a com um olhar severo e ela calou-se.

— Querem que vos toque alguma coisa de Beethoven? — perguntou a mãe.

— Sim, por favor — concordou Shenka, e a mãe puxou novamente o banco, voltou-o  para o piano  e tocou a peça  preferida de Genia, “A Marmota”, que, por uma razão qualquer, lhe causava tristeza.

Estavam todos sentados muito quietos, sem o mínimo sinal de impaciência, embora os rebuçados e os doces já tivessem acabado há muito. A tensão de Genia afrouxara e, pela primeira vez, sentia até uma espécie de orgulho: a sua mãe estava a tocar Beethoven e ninguém se ria, todos a escutavam e olhavam para as mãos fortes correndo sobre as teclas.

A mãe parou de tocar.

— Pronto, chega de música. Vamos jogar alguma coisa. A que é que gostavam de jogar?

— Talvez às cartas — disse Kolia, sem pensar duas vezes.

— Vamos antes fazer um jogo de prendas — propôs a mãe.

Ninguém sabia o que era. Shenka estava à janela e revirava nas mãos o barquinho inacabado. A mãe explicou como funcionava um jogo de prendas, mas ninguém tinha nada para dar. Lília, uma menina com uma trança complicada, tinha sempre um pente no bolso, mas não queria dá-lo – e se desaparecesse? Shenka poisou o barquinho em cima da mesa e disse:

— Esta é a minha prenda.

Genia pegou no barquinho, e muito facilmente o terminou.

— Genia, faz também prendas para as meninas — pediu a mãe, colocando um jornal e duas folhas de papel mais rijo em cima da mesa.

Genia pegou numa folha, pensou um instante, dobrou o papel ao meio…

As cabeças rapadas dos rapazes e as cabeças com tranças apertadas das meninas curvaram-se sobre a mesa. Um barco, uma barcaça, um barco à vela, um copo, uma barrica de sal, um cesto de pão, uma camisa…

Mal Genia acabava uma peça, os outros arrancavam-lha imediatamente da mão.

— Para mim também, faz-me também alguma coisa!

— Mas tu já tens! Agora é a minha vez!

— Faz-me um copo, Genia, por favor!

— Um boneco, Genia, faz-me um bonequinho!

O jogo estava esquecido. Genia dobrava, alisava, voltava a dobrar, virava cantos. Uma pessoa, uma camisa, um cão… Esticavam as mãos na sua direção, ele oferecia aquelas maravilhas de papel e todos sorriam, todos lhe agradeciam. Puxou uma vez do lenço e assoou-se – e ninguém notou, nem mesmo ele.

Só em sonhos experimentara uma sensação daquelas. Estava feliz! Não sentia medo, rejeição, hostilidade. Não era nem um pouco inferior a eles. Mais ainda: admiravam-lhe um talento trivial, a que nem mesmo ele dava importância alguma. Pela primeira vez observou-lhes os rostos: não estavam zangados. Não estavam absolutamente nada zangados.

Shenka virava e revirava uma folha de jornal no parapeito da janela. Tinha desdobrado o barquinho e tentava dobrá-lo outra vez. Quando viu que não era capaz, chegou junto de Genia, pôs-lhe a mão no ombro e perguntou-lhe, tratando-o pela primeira vez pelo nome:

— Ora olha, Genia, e agora, como é que se faz?

A mãe lavava a loiça, sorria e as lágrimas caíam-lhe na água com sabão.

Feliz, o rapazinho distribuía brinquedos de papel.

 

 

Ludmila Ulitzkaia

Ein glücklicher Zufall und andere Kindergeschichten

München, Carl Hanser Verlag, 2005

(Tradução e adaptação)

Ah-nuld, o macaco

Durante os últimos dez anos tenho orientado passeios ecológicos e de vida selvagem na Costa Rica. Embora tenha tido inúmeros encontros hilariantes com macacos, preguiças, jaguares e outros animais exóticos da floresta tropical, há uma viagem que se destaca entre todas —quando o nosso grupo teve o privilégio de testemunhar um acontecimento verdadeiramente extraordinário.

Nessa viagem em particular, o nosso grupo de entusiastas da vida selvagem incluía Jim e o seu filho adolescente Andy. Pai e filho não eram o que podemos chamar de clientes típicos. Jim era um antigo militar de modos austeros, nos seus cinquenta e muitos anos, que não falava muito, mas que parecia entrar frequentemente em confronto com o filho. Eu tinha pena de Andy, cujo entusiasmo pela aventura chocava com a carapaça dura e modos controladores de Jim. Uma vez, Jim chegou mesmo a ser rude com ele, puxando-o asperamente pelo braço quando Andy se deixou ficar para trás tentando apanhar uma rã venenosa de cor vermelha e azul. Ninguém proferiu palavra, mas quase todos os do grupo passaram a evitar Jim depois desse episódio.

Tentei passar um tempo extra com Andy. Ele confessou-me que estava morto por ver um jaguar. Então esgueirávamo-nos, tarde na noite, já depois de todos terem ido para a cama, para ir procurar rãs e outros animais noturnos. Era o nosso pequeno segredo.

Mais ou menos a meio da viagem, numa área remota do Parque Nacional do Corcovado, o nosso grupo encontrou um bandode vinte macacos capuchinho de cara branca e parámos para observar. Os capuchinhos de cara branca são frequentemente usados em filmes, porque são extremamente espertos e têm um comportamento muito semelhante ao dos humanos. Mas embora estes macacos sejam, por norma, bastante amistosos e sociáveis, este bando incluía um macho alfa, que era invulgarmente agressivo. Era muito territorial e até ao final da tarde já tínhamos presenciado várias escaramuças violentas. Quando algum dos outros macacos se aproximava demasiado, ele corria em direção aos outros arreganhando os dentes, chegando mesmo a embater contra eles. Pusemos-lhe a alcunha de Ah-nuld, em homenagem a Arnold Schwarzenegger.

Mantendo uma distância respeitosa, seguimos o bando de macacos à medida que eles iam pilhando através da floresta, parando ocasionalmente para se regalar com figos maduros que pendiam de algumas árvores. Na retaguarda do bando encontrava-se um macaquinho bastante jovem, que não teria mais de 1 metro de altura, cuja mãe andava já a ensinar-lhe como trepar aos ramos e seguir os outros. De quando em quando, a mãe conseguia levá-lo do tronco de uma árvore mais larga até um ramo mais afastado. Isto era o mais difícil de fazer para o macaquinho. Parava, choramingava, recuava e avançava, analisando qualquer outra opção antes de finalmente dar o salto para além do tronco. O nosso grupo batia palmas entusiasticamente sempre que ele conseguia.

Depois de algum tempo, o macaquinho começou a ficar cansado e a deixar-se ficar para trás. Quanto mais afastado ficava, mais alto ele choramingava e gemia, para conseguir a atenção da mãe. Esta parava e esperava por ele, mas nunca voltou para trás. Finalmente, o macaquinho bebé chegou a uma árvore grande, que era demasiado larga para ele conseguir ultrapassar. O seu choro tornou-se cada vez mais alto até que, por fim, a mãe recuou uns passos e permitiu que ele usasse as suas costas como uma espécie de ponte. Uma vez a salvo o filhote, ela continuou na retaguarda do bando, com o pequeno macaco cansado, ainda a choramingar, agarrado fortemente às suas costas.

Mas o choro continuou, cada vez mais alto e irritante, até que despertou a atenção do macho alfa que liderava o bando —o terrífico Ah-nuld. Arreganhando os dentes e silvando furiosamente, o grande macho dirigiu-se para a mãe e a cria, deitando fogo pelos olhos. Aquela assumiu uma postura defensiva e emitiu um forte rosnado. Todos nós suspendemos a respiração, sem saber o que Ah-nuld iria fazer, mas esperando o pior.

Quando Ah-nuld se abeirou de mãe e do filhote, a sua face suavizou-se. Olhou diretamente para o macaquinho bebé, como se o visse pela primeira vez. De seguida, Ah-nuld acercou-se da cria aterrorizada, tomou delicadamente a minúscula cara do bebé entre as mãos e depositou-lhe um beijo na testa. O bebé parou de chorar imediatamente. Ah-nuld ficou ali, embalando suavemente a cabeça do macaquinho, e afagando-lhe amorosamente o pelo com os dentes.

O nosso grupo deixou escapar um suspiro coletivo de alívio. Estávamos tão rendidos à ternura do momento que quase não nos apercebemos de Jim, o nosso Ah-nuld, a soluçar discretamente. Ninguém disse uma palavra, talvez por delicadeza, embora eu suspeite que, lá no fundo, todos nós ficámos felizes ao vê-lo amolecer um pouco. Sussurrando com entusiasmo, fizemos o percurso de regresso à cabana. Depois do jantar, sentei-me com Jim e alguns outros na varanda, a balançar nas redes e a escutar os sons da floresta tropical, tão lindos e variados como se de uma sinfonia se tratasse.

A paz foi quebrada quando Andy se dirigiu para o alpendre e Jim se esticou para agarrá-lo, segurando bruscamente o braço do rapaz. Andy ficou tenso. O coração caiu-me aos pés, pois estava à espera de outra luta entre os dois. Todos os olhares se fixaram ansiosamente no pai e no filho. Então Jim puxou Andy até ele, deu-lhe um abraço e disse “Estou tão feliz por estarmos a fazer esta viagem juntos! Sempre quis que tivesses uma experiência deste tipo. Andy, eu sei que muitas vezes nem te dás conta, mas eu amo-te.” Chocado, Andy olhou para o pai, como se fosse a primeira vez que o tinha ouvido dizer “Eu amo-te”. Mais tarde, viemos a saber que efetivamente assim era.

Josh Cohen

Jack Canfield; Mark Victor Hansen; Steve Zikman

Chicken soup for the nature lover’s soul

Florida, HCI, 2004

(Tradução e adaptação)

Gratidão: Uma Atitude de Cura

Gratidão: Uma Atitude de Cura

Dr. Emmett E. Miller

O Dr. Emmett E. Miller ensinou, com sucesso, as pessoas a melhorar a sua saúde e bem-estar durante mais de vinte e cinco anos. As suas cassetes de relaxamento e imagética (I am, Letting go of stress e Healing journey, entre outras) são o padrão reconhecido por todo o mundo e são muito utilizadas por atletas olímpicos, homens de negócios, médicos e outros actores das artes curativas. O seu novo livro intitula-se Deep heeling: the essence of mind/body medicine.

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Olhem só para a minha vida! Devia eu estar a sentir gratidão, ou será que fui enganado? Estará o copo meio-vazio ou meio-cheio?

Posso queixar-me por as roseiras terem espinhos, ou posso estar grato por alguns arbustos espinhosos darem rosas. A nível puramente intelectual ou «científico», estas duas atitudes são equivalentes. Mas, na vida real, faz uma diferença enorme qual escolhemos.

Quando a imagem que temos de nós próprios em relação ao mundo nos retrata como vítimas, o sentimento de impotência que daí resulta é transmitido através de todo o sistema. A consequência física disto pode ser a falha ou colapso de um órgão ou de um sistema de órgãos.

Quer sintamos gratidão e opulência, ou perda, privação e ressentimento, é criado um estado químico interno correspondente. Este estado, por sua vez, gera comportamentos característicos – saúde ou doença, autoridade/impotência, realização/descontentamento, sucesso/fracasso.

No meu exercício médico (medicina de mente/corpo), a importância da gratidão é notoriamente clara de um ponto de vista psicofisiológico – as pessoas gratas curam-se mais depressa; elas são capazes de eliminar comportamentos nocivos das suas vidas com maior facilidade; elas são mais felizes.

Em vinte e tal anos de exercício, fiz uma descoberta interessante. Há uns que aproveitam o que aprendem comigo para fazer alterações profundas nas suas vidas; há outros, cujos sintomas e doenças são exactamente os mesmos, que têm dificuldade em curar-se ou mudar os seus comportamentos. Os pacientes que estão gratos pelas sessões que temos, que reconhecem a energia e a concentração que lhes dou, são aqueles que se dão bem. Aqueles que têm suspeitas e desconfianças, que acham que as sessões deviam ser mais longas ou menos dispendiosas, que se perguntam se estarão a ser «enganados», demoram muito mais tempo a mudar. E óbvio, pela sequência de acontecimentos, que a gratidão (ou falta dela) vem primeiro.

O modo como vemos o mundo modela as nossas respostas aos desafios que a vida nos apresenta. Um sentido de gratidão dá-nos poder para escolhermos com sensatez… como nos sentimos, o que dizemos, aquilo em que acreditamos, o que fazemos. Que absurdo é da nossa parte, os americanos, que somos mais ricos e consumimos dez vezes mais os recursos do que 95 por cento da população mundial, que, em média, vivemos mais vinte e cinco anos do que os nossos bisavós, que nos deleitamos com a nossa liberdade pessoal e potencial, concentrarmo-nos no «meio-vazio». A gratidão leva-nos a ver o que está disponível, o que pode desenvolver-se. Afinal, não há nada com que trabalhar na parte vazia do copo.

Sem a atitude de gratidão, resulta um sentimento de privação bem conhecido, por exemplo, dos 60 por cento de americanos obesos. De um modo semelhante, os fumadores, alcoólicos e toxicodependentes – cuja qualidade de vida se deteriora continuamente – são incapazes de pôr em prática as escolhas aparentemente simples que eles dizem e verdadeiramente acreditam que querem fazer. Essas pessoas estão num estado involuntário de negação – uma negação da riqueza que possuem dentro deles. A tomada de consciência da plenitude do Eu tornaria indistintas, em comparação, as suas compulsões. Sem a sensação de quem realmente somos, é difícil discernir o verdadeiro valor de qualquer coisa que tenha lugar na nossa vida, a não ser ao nível directo e transitório da gratificação imediata.

Círculo Vicioso, Círculo Virtuoso

Quando nos sentimos gratos, interagimos com outras pessoas a partir da nossa plenitude; elas sentem-se reconhecidas e são atraídas pela nossa energia. O ressentimento, a amargura e a vitimização tendem a repelir as pessoas, e nós passamos a ter menos apoio dos outros. De um modo semelhante, quando a nossa falta de gratidão leva à impotência e à doença, sentimo-nos «enganados» por a nossa saúde estar a ir por água abaixo, enquanto outros se divertem.

Gratidão Aprendida

No campo da psiconeuroimunologia, temos agora a certeza de que as emoções, as convicções e as interpretações (o nosso mapa do mundo) têm um efeito profundo no funcionamento do corpo, incluindo a possibilidade de ficarmos doentes ou resistirmos à doença. Mais dramáticos são os estudos sobre a «impotência aprendida». Quaisquer que sejam os desafios ou crises na nossa vida, se nos sentirmos impotentes em relação a eles, temos muito mais probabilidades de ficar doentes.

O estado de espírito a que chamamos gratidão não é inato, na minha opinião, mas sim uma coisa que aprendemos, A gratidão tem a ver com sentirmo-nos plenos, completos, adequados – temos tudo o que precisamos e merecemos; abordamos o mundo com uma sensação de valor. E a experiência da quantidade de realização que é possível que nos leva a uma capacidade de gratidão. Sem gratidão, a tendência é para nos sentirmos incompletos, enganados, deficientes – numa palavra, impotentes.

Se não teve a sorte de ter aprendido a atitude da gratidão em criança, pode sentir-se, de tempos a tempos, a cair no desespero, ressentido e não abençoado. Isso ainda acontece comigo, por vezes, e quando acontece, recordo-me simplesmente das minhas razões para fazer as coisas que faço, a minha missão e visão pessoal da vida, com gratidão, Pode demorar um pouco, mas com concentração interior e imagética, a minha atitude altera-se sempre. Afinal, tal como você, «Eu sou o que penso».

Louise L. Hay

Gratidão, Uma forma de vida

Lisboa, Editora Pergaminho, 2011

O tesouro do peregrino – conto marroquino

Ao início da manhã, a aldeia de In-Amènas não tinha ainda retomado as suas atividades habituais: alguns camponeses altivos, envoltos nos seus bournous (mantos de lã com capucho), falavam em voz alta, bebendo chá de menta.

Um grupo de homens em pé rodeava dois jogadores de dominó que dispunham lentamente as suas pedras numa pequena tábua oscilante. Um nómada que transportava vários feixes de raízes secas esperava pacientemente um eventual comprador… Os camelos, habituados ao grande erg (deserto de areia), e nervosos por se encontrarem num local fechado, rodeado de arcadas, soltavam roncos insuportáveis.

Nas casas baixas de paredes sem janelas, ouvia-se de vez em quando o barulho de um tear. Na parte inferior das pequenas lojas sombrias, os mercadores dormitavam de leque na mão. Numa pequena sala do andar térreo contígua à mesquita, o velho Taleb, com uma longa cana na mão, obrigava todas as crianças de cócoras diante de si a repetir versículos do Corão, e o ruído surdo das vozes roufenhas dos pequenos perdia-se nas ruas estreitas…

Mas eis que chega, pela porta norte da aldeia, um homem montado num camelo. Com imponência e lentidão, penetra pela poterna e para. O viajante afrouxa a rédea do animal e inclina a cabeça sobre o peito. De repente, veem-no cair na areia. Os que bebiam chá, os jogadores de damas, os mercadores e os artesãos, todos se precipitaram na direção do pobre que tentava falar…

Revirando os olhos, o que podia ser entendido como a angústia de um moribundo, o viajante sussurrou algumas palavras incompreensíveis, ao mesmo tempo que apontava, com uma mão trémula, para uma grande bolsa de couro que trazia presa à cintura. Em seguida, elevando um dedo para o céu, recitou a Fatiha (oração diária) … A cabeça voltou a pender sobre o ombro… Estava morto!

A multidão que, entretanto, se tinha aglomerado, estava imóvel. Quem seria ele? De onde viria? Para onde iria? Ninguém era capaz de responder. Prepararam o cadáver e enterraram-no, no dia seguinte, num pequeno cemitério situado bem longe das casas, por detrás das primeiras dunas.

Na sala do café, foi decidido fazer o inventário dos objetos que o desconhecido transportava no seu camelo e dos que se encontravam nele. Numa das bolsas, roupas; na outra, diversos objetos indispensáveis aos viajantes; mas, na grande bolsa de couro negro que trazia à cintura, descobriu-se, com estupefação, um tesouro! Colares, braceletes, diademas, anéis, fivelas, pedras preciosas e peças em ouro amontoavam-se na mesa do café…

 

♦♦♦♦♦

Toda a gente se entreolhou em silêncio, mas todos pensavam o mesmo: “Que vamos fazer com estas riquezas? Reparti-las? Distribuí-las pelos pobres?” Estava instalada a discussão e cada um, querendo que a sua opinião fosse adotada, protagonizava uma rápida subida do tom de voz. Não tardariam as escaramuças. Seria mais avisado pedir a opinião da djemaa, o conselho dos anciãos.

Sob a autoridade do imã da mesquita, os dez anciãos de In-Amènas reuniram-se no dia seguinte. Foi decidido vender o camelo e o conteúdo das duas grandes bolsas e dar o dinheiro apurado aos pobres. Sábia decisão que todos aplaudiram. E o tesouro? Após longa e cuidadosa reflexão, o imã sentenciou que o tesouro seria enterrado na sepultura do desconhecido.

Esquecida a deceção, pensou-se que, afinal, fora esta a decisão mais acertada. Esse tesouro teria, porventura, despoletado invejas, rancores, porque cada um pensaria, certamente, que os outros teriam sido mais favorecidos que ele próprio. O tesouro desconhecido voltaria ao nada. Um buraco muito profundo foi cavado ao pé do túmulo e aí foi lançado o saco.

 

♦♦♦♦♦

Passaram-se meses, passaram-se anos… A pequena aldeia de In-Amènas já tinha esquecido o incidente e retomado a sua vida normal. Os camponeses bebiam chá, outros jogavam dominó, os mercadores dormitavam e as crianças recitavam versículos do Corão… quando um dia, de repente, ecoaram imensos gritos que pareciam vir do cemitério… Quem podia gritar daquela maneira? Toda a gente correu na direção das sepulturas e, no sítio da do viajante desconhecido, viram o imã deitado ao pé da cova com os braços enterrados no buraco que havia escavado. Era ele que soltava aqueles gritos terríveis…

Os primeiros que chegaram puxaram-no pelos pés para o tirar daquela posição deplorável. Tempo perdido! As suas duas mãos estavam presas à bolsa de couro negro que parecia tão pesada como um rochedo de várias toneladas… Toda a gente compreendeu, então, que o imã tinha querido recuperar o tesouro e que se tinha ordenado que o enterrassem era para, mais tarde, o poder reaver…

Mas, no imediato, era necessário tirá-lo daquela posição miserável. Puxaram-no pelos braços, pelas pernas, pelo corpo… Em vão! Os mais caridosos construíram um pequeno abrigo de palmas sobre a cabeça do imã, evitando, assim, uma insolação. Só ao fim da tarde, vencido pela dor, é que o imã se sentiu obrigado a reconhecer a sua falta diante de toda a aldeia, que, entretanto, se tinha reunido à sua volta:

— Não passo de um ganancioso! Sou indigno da vossa confiança. O que fiz não tem perdão. Quis recuperar o tesouro e guardá-lo só para mim!

Mal acabou de proferir estas palavras, as mãos separaram-se da bolsa… Mas, quando se pôs de joelhos diante da sepultura, apenas tinha dois tocos queimados pelo fogo nas extremidades dos braços. Apressou-se a deixar a aldeia e foi esconder a sua vergonha numa das montanhas de Aïr.

Voltaram a tapar o buraco escavado pelo imã e todos tentaram esquecer o incidente.

♦♦♦♦♦

 

Contudo, seria possível esquecer que na sepultura do viajante havia um tesouro digno de um rei? Seria possível ignorar que esse ouro poderia transformar um pobre camponês num senhor ainda mais rico que um sultão?

Ali não pensava noutra coisa, e refletia sem cessar… Foi assim que arquitetou um plano que lhe permitiria, no seu entender, recuperar o saco sem lhe tocar… Ali era burriqueiro. Ganhava a vida a transportar, com o seu animal, pedras, areia ou legumes. Montado no dorso do burro, tinha muito tempo para pensar no desenrolar do seu plano. No entanto, decidiu esperar alguns anos, o tempo necessário para fazer cair no esquecimento o que se tinha passado.

Quando chegou o momento que lhe parecia mais propício, saiu de noite e dirigiu-se ao cemitério. Tirou uma das duas pedras presas na sepultura e, com a pá, cavou um buraco onde sabia que se encontrava a bolsa com o tesouro. De facto, descobriu a bolsa de couro com as duas mãos do imã enegrecidas ainda coladas a ela, uma de cada lado. Não tocou em nada e, sentado junto à sepultura, esperou o nascer do sol.

De manhã, viu caminhar na sua direção o pequeno Mohamed. Mohamed era demasiado jovem para ter ouvido falar da bolsa com o tesouro. Conduzia um burro e dirigia-se ao palmeiral. Ali levantou-se e pediu-lhe que tivesse a amabilidade de descer à cova a fim de reaver a bolsa que, inadvertidamente, lhe tinha caído.

Mohamed parou e olhou para a bolsa no fundo do buraco:

— Mas por que é que tu não a podes ir buscar?

— Porque fiquei com uma dor nas costas, ontem ao fim do dia, — respondeu Ali, agarrando-se aos rins e esboçando um esgar de dor — não me posso baixar.

— Nesse caso, segura o meu animal que eu vou buscar a tua bolsa.

Mohamed desceu à cova, pegou na bolsa e subiu. Não viu que as duas mãos do imã se soltaram e rolaram para o fundo do buraco.

— Toma a tua bolsa — disse.

Ali estava felicíssimo: a maldição deixara de existir! Aproximou-se, agradeceu a gentileza a Mohamed e pegou na bolsa. Mas, de repente, soltou gritos de dor. As suas duas mãos ficaram presas à bolsa de couro e Ali quase desmaiou… E a bolsa rolou para o fundo da cova, arrastando-o com ela! Uma fumaça espessa emanava do corpo, que se calcinava, espalhando um odor infeto. Mohamed estava aterrorizado e não compreendia o que se passava; tentou puxar o seu companheiro pelos pés, mas depressa desistiu.

Alertados pelos gritos inumanos do ladrão, os habitantes da aldeia reuniram-se de novo à volta da sepultura… Os mais velhos sabiam muito bem o que estava a acontecer e pediram a Ali para reconhecer rapidamente a sua falta.

— Perdoai-me. Quis roubar o tesouro do viajante. Sou um ser indigno!

Nesse preciso momento, as mãos do ladrão separaram-se dos braços e permaneceram coladas à sacola. Quando se levantou, verificou que apenas tinha nas extremidades dos braços dois cotos enegrecidos pelo fogo do inferno. Apenas lhe restava fugir da aldeia se não quisesse ouvir as reprimendas dos amigos.

Mas a lenda não acaba aqui… Os anciãos da aldeia de In-Amènas reuniram-se e decidiram fazer desaparecer para sempre a bolsa que já tinha provocado tanta dor! Pediram, então, a Mohamed, para pegar nela – ele que nunca tinha pensado em roubar podia pegar-lhe sem dificuldade – e imploraram-lhe que a escondesse na montanha. Foi o que fez… e, logo que voltou à aldeia, ninguém lhe perguntou nada.

 

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Pois bem, amigos, estão avisados: se, um dia, encontrarem numa gruta da montanha de Tassili N’Ajjer uma bolsa de couro negro, não toquem nela! Sabem bem o risco que correm!

Os anciãos de In-Amènas que contam esta lenda acrescentam para concluir: “A bolsa do tesouro é o que tu desejas. As mãos queimadas são os remorsos que te farão sofrer se pegares no que não te pertence. E o jovem Mohamed, que pode tocar na bolsa sem se ferir, é a felicidade prometida àquele que não tem maus pensamentos. No entanto, a bolsa escondida na montanha é também a esperança de nos tornarmos ricos um dia, mas na condição de sermos tão puros como o pequeno Mohamed! Parece não haver muita esperança para nós… mas, quem sabe? …”

André Voisin

Contes traditionnels du désert

Toulouse, Ed. Milan, 2002

(Tradução e adaptação)

 

 

 

Noivas-crianças (crianças menores de 15 anos estão à mercê desta forma de escravatura e abuso sexual)

Noivas-crianças

 

Mais de 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamentos durante a próxima década, uma prática que traz como consequência a maternidade precoce. Desprovidas de direitos, crianças menores de 15 anos estão à mercê desta forma de escravatura e abuso sexual.

Condicionadas por sociedades arcaicas, costumes ancestrais, leis religiosas e pobreza, crianças são casadas à força em todo o mundo. Grande parte das vítimas de casamentos forçados são meninas provenientes das camadas mais marginalizadas e vulneráveis da sociedade, que ficam isoladas ao serem retiradas das suas famílias e escolas e separadas das suas amigas. Mais de 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamentos forçados durante a próxima década, segundo o estudo da UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, que revela que a taxa de casamentos de menores é de 39 por cento na África Subsariana.

Os casamentos de crianças ocorrem em todo o mundo, mas são mais comuns no Sul da Ásia e em zonas da África Subsariana. As taxas de casamento de menores atingem 65 por cento no Bangladesh e 48 por cento na Índia. Em África, alcançam 76 por cento no Níger e 71 por cento no Chade.

O relatório «Child Marriage – Girls 14 and Younger at Risk», promovido pela organização IWHC, foca o noivado e o casamento de meninas de 14 anos ou menos, especialmente vulneráveis a violações da sua saúde e dos seus direitos e classifica tais casamentos como «forçados», porque raparigas tão jovens raramente têm capacidade jurídica ou interferência pessoal para desobedecer aos mais velhos ou para fornecer ou negar o seu consentimento.

Em 2007, a iniciativa «UNICEF Photo of the Year» denunciou a prática de casamentos forçados ao premiar como imagem do ano a foto de um afegão de 40 anos casado com a menina Ghulam, de 11 anos. A família de Ghulam vendeu-a ao «marido» para poder comprar alimentos a outros filhos. A representante especial do secretário-geral das Nações Unidas sobre a Violência contra as Crianças alerta que «ao casar e ao assumir responsabilidades no seio da família, as meninas não só ficam dependentes da autoridade do marido, mas também da família do marido». Marta Santos Pais explica que «muitas vezes, sem terem direito à educação e poder contribuir, construtivamente, para o desenvolvimento da família e da sociedade. Ao engravidar, dão à luz com uma idade muito baixa e isto cria riscos gravíssimos no momento do nascimento da criança», acrescenta a portuguesa representante especial sobre a Violência contra as Crianças.

As menores casadas têm pouca ou nenhuma escolaridade e fracas oportunidades de educação, o que lhes limita a capacidade para ingressar na força de trabalho remunerada e ter um rendimento independente. Factores que criam uma maior insegurança pessoal perante a possibilidade de divórcio ou viuvez precoce e isolamento social da sua própria família e amigos.

Violação desumana

Na África Subsariana e no Sul da Ásia, os pais frequentemente acreditam estar a preservar a segurança das suas filhas menores ao casá-las com homens com dinheiro ou condição social mais elevada. Nestas regiões, os estupradores não são punidos caso concordem casar com a vítima violada.

O casamento arranjado de meninas na puberdade, ou até antes, costuma ocorrer com o objectivo de «proteger a virgindade», a «honra da família» ou para aumentar o seu «valor de troca». Os pais podem sentir-se também eles forçados a casarem as suas filhas cedo por temerem pela sua protecção e segurança económica. Nos países nos quais o registo dos recém-nascidos não é efectuado imediatamente em virtude de registo a posteriori, a idade das meninas pode ser fixada arbitrariamente, o que facilita os casamentos precoces, já que as meninas menores de idade podem facilmente ser declaradas como maiores para legitimar casamentos forçados. As meninas que se casam muito jovens sofrem um maior controlo por parte da família do marido, inclusive restrições à sua procura de serviços de saúde e planeamento familiar. As menores casadas têm também maior probabilidade de sofrer de violência doméstica e abuso sexual.

Nos países em desenvolvimento, a idade mínima mais comum do casamento sem o consentimento paterno é de 18 anos. Contudo, muitos destes Estados permitem casamentos mais cedo com o consentimento dos pais, responsáveis legais ou autoridades judiciais ou religiosas. Particularmente, os casamentos antes dos 15 anos violam as leis que estabelecem uma idade mínima para o consentimento de uma jovem para a prática de sexo.

A esmagadora maioria dos países já legislou sobre o casamento de crianças, inibindo-o, ou são signatários de tratados internacionais que o proíbem. Mas estes procedimentos não se traduziram, na prática, em mudanças reais. No Níger, o Código Civil proíbe que os rapazes se casem com menos de 18 anos e as raparigas com menos de 15 anos. Contudo, o código raramente é aplicado por causa da existência de dois sistemas legais, o judicial e o islâmico, que permitem o casamento com menores de idade. Mesmo sem estas excepções, a legislação que rege a idade mínima para o casamento pode ser ignorada ou burlada. Uma menina pode casar-se numa cerimónia tradicional muito antes de a união ser registada junto das autoridades civis ou as idades podem ser falsificadas na ausência de certidões de nascimento. Na Zâmbia, a idade legal mínima para o casamento é de 21 anos, mas 10 por cento das meninas casam quando chegam aos 15 anos. Torna-se necessário fortalecer os sistemas de registo de casamentos para exigir o registo civil obrigatório, comprovação da idade e «consentimento livre e total» dos noivos e eliminar o mito do casamento como zona de segurança para as meninas.

Entrave ao desenvolvimento

O casamento infantil tem sido um grande entrave para o progresso em seis dos oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, promovidos pelas Nações Unidas. As expectativas globais na redução da mortalidade infantil e materna, no combate ao VIH/sida e na educação primária universal são prejudicadas pelo facto de uma em cada sete mulheres (15 por cento) nos países em desenvolvimento se casar antes dos 15 anos. O casamento infantil também frustra as ambições para eliminar a extrema pobreza e a promoção da igualdade de género.

A probabilidade de as meninas menores de 15 anos morrerem durante a gravidez ou no parto é cinco vezes maior do que as mulheres na faixa dos 20 anos. A falta de informação e a impossibilidade de negociar práticas sexuais seguras também aumenta o risco de as noivas-crianças serem infectadas pelo VIH, em comparação com as outras meninas solteiras da sua classe etária. Além disso, as noivas-crianças são mais propensas a abandonar a escola para se concentrarem nas tarefas domésticas e na criação dos filhos.

A pobreza é um dos principais motores do casamento infantil. Em muitos países e comunidades pobres, casar uma filha representa menos uma boca para alimentar. Por outro lado, o «preço» da noiva, ou o dote, é um factor encorajador, dado que a entrada de bens, em géneros ou dinheiro, é um benefício para as famílias desesperadas. Tudo isto tem um impacto negativo intergeracional. Os filhos de meninas jovens e pouco instruídas tendem a ter um pior desempenho na escola e salários mais baixos, perpetuando o ciclo da pobreza.

Os ex-presidentes dos Estados Unidos e do Brasil Jimmy Carter e Fernando Henrique Cardoso, membros da parceria Girls Not Brides, promovida pelo grupo de líderes The Elders, alertam que «há relutância em intervir no que é tradicionalmente considerado um assunto de família. O casamento infantil é uma tradição enraizada em muitas sociedades, muitas vezes sancionada pelos líderes religiosos e não pela doutrina religiosa. A distorção da fé e os costumes antigos são usados para ignorar os direitos das raparigas e para manter as suas comunidades em situação de pobreza».

Com a imigração, estes problemas transferiram-se também para os países desenvolvidos. Na Europa, os casamentos forçados entre imigrantes estão na «moda», dado que o casamento representa uma possibilidade legal de imigração. São frequentes os relatos de jovens muçulmanos de ambos os sexos que subitamente se encontram no estado civil de casados no território da União Europeia ou após umas férias no seu país de origem, sendo muito ténue a barreira entre um casamento «forçado» e um casamento «combinado». O casamento forçado, que também constitui uma expressão da recusa de integração, é uma prática mais comum do que se supunha no território da União Europeia e já suscitou polémica após o líder espiritual da Arábia Saudita, mufti Abdul Aziz al-Ashaikn, defender que «as meninas de dez ou doze anos estão aptas a casar e quem pensa que são demasiado jovens está a ser injusto para com elas», numa clara violação dos direitos da criança.

Carlos Reis

Revista Além-Mar,Fevereiro 2012

 

 

Meninas menores de 15 anos em   risco

 

País Casamento Maternidade
Níger 27% 4%
Bangladesh 26 6
Guiné 20 7
Mali 19 5
Chade 18 6
Nigéria 16 3
Rep.   Centro-Africana 16 4
Índia 14 2
Etiópia 14 1
Mauritânia 13 3
Fonte: Measure DHS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Moi Nojoud, 10 ans, Divorcée»

Em 2008, Nojoud Ali, uma menina iemenita de 10 anos, foi notícia mundial quando, ao ousar pedir e obter o divórcio, desafiou não só as tradições ancestrais do seu país, mas também a autoridade paterna. Casada à força, com idade inferior à legal para a contração de matrimónio, Nojoud Ali manifestou uma maturidade que só a violência pode forjar na cabeça de uma criança, indo ao tribunal da sua cidade pedir o divórcio ao juiz, quando se julgava que tinha ido comprar pão.

Libertando-se de um casamento indesejado com um homem três vezes mais velho do que ela, Nojoud Ali tornou-se um símbolo da causa das mulheres do Iémen, criando um antecedente que ajudou outras crianças casadas à força, antes da idade legal do casamento, a obterem também o divórcio. No livro Moi Nojoud, 10 ans, Divorcée, conta a sua história «para que outras meninas, nas mesmas circunstâncias, possam ter a coragem de pedir o divórcio». A narrativa foi escrita em colaboração com a jornalista francesa Delphine Minoui, especializada no Médio Oriente, e publicada em 2009 pela editora Michel Lafon.

O olhar do professor – Rubem Alves

Walt Whitman conta o que sentiu quando, menino, foi para a escola:

 

Ao começar os meus estudos, agradou-me tanto o passo inicial, a simples consciencialização dos factos, as formas, o poder do movimento, o mais pequeno insecto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor – o passo inicial, torno a dizer, assustou-me tanto, agradou-me tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali a vaguear o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados.

Nietzsche disse que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É a primeira tarefa porque é através dos olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contacto com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm que ser educados para que a nossa alegria aumente.

Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didáctica – mas, por mais que me esforce, não me consigo lembrar de qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar na educação.

Por isso, lhe digo: Professor: trate de prestar atenção ao seu olhar. Ele é mais importante que os seus planos de aula. O olhar tem o poder de despertar ou, pelo contrário, de intimidar a inteligência. O seu olhar tem um poder mágico!

O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar. Ela continua lá, mas recusa-se a partir para a aventura de aprender. A criança de olhar amedrontado e vazio, de olhar distraído e perdido. Ela não aprende. Os psicólogos apressam-se em diagnosticar alguma perturbação cognitiva. Chamam os pais. Aconselham-nos a mandá-la para uma terapia. Pode até ser. Mas uma outra hipótese tem que ser levantada: que a inteligência dessa criança – que parece incapaz de aprender –, tenha sido petrificada pelo olhar do professor.

Por isso lhe digo, professor: cuide dos seus olhos…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)