Amy Tan
A filha do curandeiro
Lisboa, Editorial Presença
A china dos anos vinte e S. Francisco dos nossos dias entrecruzam-se no retrato familiar de três mulheres de três gerações. Ruth é uma “escritora-fantasma” de livros de esoterismo e de auto-ajuda. Um dia, enquanto tenta pôr alguma organização no apartamento de sua mãe, que padece da doença de Alzheimer, encontra uns papéis escritos em chinês. Depressa descobre que esses documentos revelam segredos de família há muito escondidos e que são o testemunho das vivências da infância e da juventude de sua mãe, Luling. Ruth ficará a saber que Luling é natural de Xian Xian, Coração Imortal, onde se fizeram importantes escavações arqueológicas, e que a sua avó era filha de um famoso curandeiro… Escrito por Amy Tan, autora do livro Os Cem Sentidos Secretos, já publicado nesta colecção, A Filha do Curandeiro é, sem dúvida, um livro extraordinário, pleno de histórias supersticiosas, cheio de brilhantes metáforas e de vivo sentido de humor.
A filha do curandeiro
Excerto
Verdade
Estas são as coisas que eu sei serem verdadeiras:
O meu nome é LuLing Liu Young. Os nomes dos meus maridos eram Pan Kai Jing e Edwin Young, ambos falecidos, tendo levado com eles os nossos segredos. A minha filha é Ruth Luyi Young. Ela nasceu no Ano do Dragão da Água e eu, no Ano do Dragão do Fogo. Por isso, somos a mesma coisa mas por razões opostas.
Sei tudo isto, e, no entanto, há um nome de que não me consigo recordar. Encontra-se na mais antiga camada da minha memória, e eu não consigo arrancá-lo de lá. Cem vezes recordei aquela manhã em que a Titia Preciosa o escreveu. Na altura eu tinha apenas seis anos, mas era muito esperta. Sabia contar. Sabia ler. Tinha memória para tudo, e aqui está a minha memória daquela manhã de Inverno.
Eu estava ensonada, ainda deitada na cama de tijolo k’ang que partilhava com a Titia Preciosa. A conduta de aquecimento para o nosso pequeno quarto era a mais afastada do fogão da sala comum, e os tijolos por baixo de mim há muito que tinham ficado frios. Senti alguém a abanar-me o ombro. Quando abri os olhos, a Titia Preciosa começou a escrever num pedaço de papel, e depois mostrou–me o que tinha escrito. — Não consigo ver — queixei-me. — Está muito escuro.
Ela irritou-se, colocou o papel no armário mais baixo, e fez um gesto para que eu me levantasse. Acendeu o fogareiro da chaleira, e atou um lenço sobre o nariz e a boca quando aquela começou a fumegar. Deitou água de lavar a cara dentro da chaleira, e quando estava a ferver, ela deu início ao nosso dia. Esfregou-me a cara e as orelhas. Penteou-me o cabelo e a franja. Molhou as madeixas de cabelo que estavam espetadas como pernas de aranha. Depois juntou a parte comprida do meu cabelo em dois molhos e fez duas tranças. Atou a parte de cima com um laço vermelho, a de baixo com um laço verde. Abanei a cabeça de maneira a fazer as minhas tranças girarem como as orelhas felizes dos cães de luxo. E a Titia Preciosa pôs-se a cheirar o ar como se, também ela, fosse um cão interrogando-se, Que cheiro agradável é este? Aquela fungadela era a maneira de ela dizer a minha alcunha, Cachorrinho. Era assim que ela falava.
Ela não tinha voz, apenas arfadas e arquejos, os resfolgos de um vento rouco. Ela dizia-me coisas com caretas e ruídos, sobrancelhas dançantes e olhos agitados. Escrevia sobre o mundo no meu quadro de ardósia portátil. Também fazia desenhos com as suas mãos enegrecidas. Linguagem gestual, linguagem facial e linguagem com giz foram as linguagens com que eu cresci, silenciosas e fortes.
Enquanto ela enrolava o cabelo bem apertado à volta da cabeça, eu brincava com a sua caixa de tesouros. Retirei uma bonita travessa de cabelo, de marfim com um galo gravado em cada uma das extremidades. A Titia Preciosa tinha nascido no ano do Galo. — Põe isto — exigi eu, erguendo a travessa. — É bonita. — Eu ainda era bastante nova para acreditar que a beleza provinha dos objectos, e queria que a mãe a favorecesse mais. Mas a Titia Preciosa abanou a cabeça. Retirou o lenço e apontou para o seu rosto juntando as sobrancelhas. Que utilidade é que posso ter para a beleza? era o que estava a dizer.
A franja caiu-lhe sobre as sobrancelhas, como a minha. O resto do seu cabelo estava enrolado num nó e preso com uma travessa prateada. Tinha uma testa cor de pêssego, olhos afastados, bochechas cheias que terminavam num nariz pequeno e rechonchudo. Isto era a parte superior do seu rosto. Depois havia a parte inferior.
Agitava as pontas dos dedos negras como chamas esfomeadas. Estás a ver o que o fogo fez.
Eu não achava que ela fosse feia, não tão feia como outros membros da nossa família. Uma vez ouvi a Mãe fazer o comentário, «Ai-ya, ao vê-la, até um demónio saltaria para fora da sua pele.» Quando eu era pequena, gostava de passar os meus dedos pelo contorno da boca da Titia Preciosa. Era um puzzle. Metade tinha saliências, metade era lisa e fechava-se harmoniosamente. O interior da sua bochecha direita era rijo como cabedal, o da esquerda era húmido e macio. No sítio onde as gengivas tinham ardido, os dentes tinham caído. E a sua língua parecia uma raiz ressequida. Ela não podia saborear os prazeres da vida: salgado e amargo, azedo e apurado, picante, doce, e gordo.
Mais ninguém percebia o tipo de linguagem da Titia Preciosa, por isso eu tinha de dizer em voz alta aquilo que ela queria dizer. Mas não dizia tudo, não dizia as nossas histórias secretas. Ela falava-me com frequência sobre o seu pai, o Famoso Curandeiro da Boca da Montanha, sobre a gruta onde encontraram os ossos de dragão, sobre o modo como os ossos eram divinos e podiam curar qualquer dor, excepto a de um coração sofrido. «Conta-me de novo», disse eu naquela manhã, pedindo-lhe uma história sobre o modo como ela queimou o rosto e se tornou minha ama.