Pão nosso de cada dia – António Botto

Pão nosso de cada dia

Viviam juntas mãe e filha. Uma encantava pela modéstia; outra irritava pela toleima – apesar de ser bonita. Certa noite, a mãe, não podendo adormecer, preocupada a pensar no destino de sua filha, ajoelhou-se e pediu a Deus que modificasse o feitio de Sília, fazendo-a bondosa e discreta.

Na manhã seguinte, perguntou-lhe:

— Que sonho era aquele, filha, quando esta noite cantavas?

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de cobre e me oferecia um anel com uma jóia tão preciosa e brilhante que não haverá no céu estrela de maior brilho.

— Foi um sonho de vaidade! — responde a mãe.

E nisto batem à porta. Sília corre e vai abrir: entra um rico lavrador. Oferece-lhe terras de lavoura, montados, hortas, pomares, uma infinita riqueza!

— Mesmo que viesses em carro de cobre e me desses uma jóia mais fulgurante e mais bela do que uma estrela do céu, não casaria contigo.

O lavrador, desiludido, foi-se embora, e, nessa noite, Sília voltou a sonhar.

— Com quem estás tu a sonhar? — perguntou a mãe, acordando-a.

— Ai, sonhava, minha mãe, que um senhor descia de uma carruagem de prata e punha nos meus cabelos valiosíssimo diadema de oiro!

— Que pecado, minha filha! Vai rezar para abrandar esse teu grande egoísmo!

Na tarde do dia seguinte, um moço esbelto, sadio, apareceu a oferecer-lhe a sua vida, a sua fortuna, o seu amor.

— Nem que viesses em carro de prata e pusesses nos meus cabelos formosíssimo diadema de oiro eu casaria contigo!

E o moço partiu tristemente.

— O teu orgulho há-de perder-te! — dizia a mãe para a filha.

Outra noite, Sília voltou aos seus sonhos de perdição e, ao ser interrogada pela mãe, contentíssima, exclamou:

— Ai, sonhava que um fidalgo descia de um carro de oiro e, pedindo-me em casamento, oferecia-me um vestido de rubis e diamantes.

— Não te emendas, minha filha, mas hás-de pagar bem caro essa fome de grandezas.

Momentos depois, três carros paravam à porta onde residiam ambas. Um de bronze, outro de platina e outro de cristal. O primeiro puxado a doze cavalos; o segundo, a vinte cavalos; e o terceiro, a quarenta! Dos carros de bronze e platina desceram pajens vestidos de seda verde e azul. Do carro de cristal saiu um lindo rapaz coberto de pedraria. Entrou em casa de Sília e, de joelhos e humilde, beijou-lhe as mãos num sorriso.

— Finalmente, sou feliz! O meu sonho transformou-se na mais bela realidade.

E, orgulhosa, foi vestir o vestido de noivado. Partiram para a Igreja. Os cavalos galopavam num frémito de alegria.

— Vou dar a minha mulher os meus presentes! — dizia ele ao regressar, e entrando na sala suave do seu palácio de turquesa:

— Tudo isto é para ti.

Sília sorriu e a sorrir foi-lhe dizendo:

— Sabes que já tenho fome?

— Ponham a mesa e sirvam-nos o banquete! gritou ele aos seus vassalos.

Saladas de topázio, assados de ametistas e doce de pérolas; todos comiam e repetiam. Só ela não podia comer. A medo pediu um bocadinho de pão.

— É a única coisa que não te posso dar! — respondeu ele.

E desatou às gargalhadas, gargalhadas metálicas, cantantes, porque o seu coração também era de metal.

Ela chorou!

— Chorar para quê? Não desejavas tudo isto? Não tens agora o que sempre ambicionaste?

Rodeada de riquezas, saía do palácio, à noite, e andava de porta em porta disfarçada e muito triste, a pedir cheia de fome um bocadinho de pão.

 

Os Contos de António Botto

Marginália Editora, s/d

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