Uma brasa resiliente pode ganhar vida quando atiçada – B. Cyrulnik

B. Cyrulnik – Os contos como pilar de resiliência – Introdução
B. Cyrulnik I -Uma brasa resiliente pode ganhar vida quando atiçada/Como levar uma criança maltratada a repetir os maus-tratos
B. Cyrulnik II -Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI
B. Cyrulnik III – A narração não é o regresso do passado/O contar é um instrumento de reconstrução do seu mundo
B. Cyrulnik IV – A angústia do mergulhador
B. Cyrulnik V – Mesmo os mais fortes têm medo de se lançar

 

Boris Cyrulnik
Le Murmure des fantômes
Paris, Éditions Odile Jacob, 2003
Excertos adaptados

Uma brasa resiliente pode ganhar vida quando atiçada

Tive oportunidade de ver voltar à vida certas crianças gravemente afectadas. Estou a pensar naquela avó genial, desdentada, muito pobre, mas rica de carinho, que decidira recolher três garotos sujos de um orfanato de Timisoara, por achar que viver só era de facto muito duro. Um ano mais tarde, os três rapazes estavam transformados. Responsáveis pela avó, rebocaram a casa, plantaram um jardim e construíram uma pocilga. Lavavam a roupa, a loiça e amparavam a velha senhora que, num sorriso sem dentes, dizia ter saudades do tempo em que podia trabalhar. Ao sentirem-se responsáveis por esta senhora vulnerável, os rapazes restauraram a casa, o estábulo e a sua auto-estima. A casa arranjada e a avó feliz eram a prova da sua competência e da sua generosidade.

Um pequeno leque de crianças abandonadas foi seguido num orfanato de Vidra, na Roménia. A partir do momento em que se entranharam num ambiente afectivo estruturado pelas acções rotineiras, a maior parte recuperou o seu desenvolvimento. Melhoraram as destrezas motoras, o atraso da linguagem foi recuperado e até as dificuldades relacionais se esbateram. As crianças aprenderam progressivamente a olhar de frente, a responder com o sorriso e a buscar o afecto de que necessitavam. Nem todas recuperaram da mesma forma, foram grandes as diferenças individuais. Crianças houve que recuperaram o atraso da fala em alguns meses, outras “preferiram” ganhar primeiro peso e altura, umas sorriram muito, outras passaram por um período de hiperactividade e um pequeno número não recuperou nada.

Estes numerosos exemplos provam que é a nossa cultura científica que divide o saber para melhor o dominar. Uma criança concreta não se pode fragmentar, é um ser total cuja melhoria corporal se associa ao progresso da linguagem e cuja inteligência se une à afectividade.

Pode-se pôr em causa a ideia tão espalhada de que a experiência precoce tem um efeito desproporcional no desenvolvimento posterior. A criança apreende o seu meio, incorpora-o na memória dos primeiros meses e no seu evoluir. Quando a estufa sensorial criada pela família está bem estruturada por rotinas afectivas e comportamentais, a criança desenvolve-se no decurso dessas estruturas sensoriais. Quando essas rotinas não se organizam ao longo dos primeiros meses, a criança não pode organizar-se nem desenvolver-se. É preciso que, mais tarde, esta criança desorganizada pela desorganização do seu meio, disponha delas, para poder retomar o desenvolvimento. Cada criança responde à sua maneira, mas, quando a privação durou demasiado tempo, quando a extinção psíquica foi total ou quando o novo ambiente não avivou as brasas da resiliência, será difícil para a criança retomar a vida.

 

Como levar uma criança maltratada a repetir os maus-tratos

Uma observação clínica deste género torna possível o estereótipo: “Por ter sido maltratado no decurso da sua infância, aprendeu que a violência é um modo normal de resolver problemas e repetirá então os maus-tratos.” É preciso reconhecer que as crianças maltratadas alternam frequentemente comportamentos de fria defesa com explosões de violência contra os mais chegados. Sempre alerta, são sisudas, atentas ao menor indício comportamental do adulto e tendem para os extremos. Um franzir de sobrolho, uma tensão vocal, um trejeito insignificante da boca significam para elas que há perigo. De repente, a pulsão explode em todos os sentidos contra outro, contra um objecto ou contra si próprio, já que a criança não aprende a dar forma às suas emoções.

Esta aprendizagem relacional, de incorporação de um estilo afectivo, faz-se a partir dos primeiros meses e explica porque é que num universo de crianças maltratadas, quase todas adquirem, entre os 12 e os 18 meses, uma ligação insegura, distante, ambivalente ou confusa.

Ao crescer, estas crianças adaptadas a um meio em que toda a informação é uma ameaça, falam pouco e não se esforçam na escola. Este estilo afectivo, impregnado na sua memória pelos hábitos comportamentais de um meio onde a ligação confusa se mistura com a violência, é uma adaptação, não um factor de resiliência, porque as crianças aprendem a ver só as ameaças do mundo e a ter de lhes dar resposta.

Quando a violência se repete em famílias fechadas, as respostas comportamentais da criança fixam-se e caracterizam a sua maneira de ser… enquanto o sistema não se abrir.

Conservo a lembrança aterradora de crianças de cabelo rapado, imóveis e mudas atrás das grades da sumptuosa instituição em que estavam fechadas. Depois de maltratadas pelos pais, eram-no também pela sociedade que, para as proteger, as separara, e depois isolara num casarão com um grande parque onde ninguém vinha vê-las. Habituadas a só receberem ameaças, reagiam às mais simples, tentando agredir os adultos. A relação estava totalmente pervertida, porque os adultos, por sua vez, ao sentirem-se ameaçados pelas crianças, alternavam, como elas, a vigilância glacial com explosões de cólera.

segue  Resiliência das crianças de rua na Suíça do séc. XVI

NOTA: a edição em língua portuguesa deste livro existe no Brasil:
Boris Cyrulnik, O Murmúrio dos fantasmas, Editora Martins Fontes
ISBN: 8533621272

Anúncios