Não sou um super-herói!

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Tenho seis anos.
Estou no meu quarto.
As paredes são cor de laranja, gosto mesmo dessa cor.
Foi o meu pai que colocou o papel de parede.

A minha mãe costuma gritar muito alto. O meu pai também.
Os gritos fazem-me sempre medo, muito medo.
Ouço outros barulhos, acho que começaram a bater um no outro.
Nunca ouvi a minha mãe gritar assim.
Queria ir lá ver, queria que parassem, mas fico muito quieto na cama.

A minha mãe entra aos gritos no meu quarto, o meu pai veio atrás dela.
Ela quer que eu a proteja.
Ele agarra-a pelos cabelos e começa a puxá-la para fora do quarto.
Ela cai e ele dá-lhe pontapés. Até na cara.
Começo também a gritar.
Quero muito que ele pare, tem de parar!

Por vezes, vou ao parque com o meu pai e jogamos à bola.
O meu pai dá pancadas na bola. Eu sou pequeno e a bola é muito grande.
O meu pai é como esta bola. Tem muita força.
Admiro-o por ser assim, e é assim que quero ser, também.
Costumo rir-me com ele.

Já tenho sete anos e os meus pais divorciaram-se.
A minha mãe explicou-me isso no comboio, quando vínhamos de férias.
O meu pai já não ficará a viver connosco.
Para me consolar, a minha mãe comprou-me um gato.

No entanto, os meus pais continuam a encontrar-se e, uma destas manhãs, estavam umas botas à porta do quarto da minha mãe.
Eram as botas do meu pai.
Eles já não estão juntos, mas eu vejo as botas à porta do quarto.
Saí para a escola, vi as botas, mas não vi o meu pai.

Tenho um medo terrível durante a noite.
Não posso ver a luz do corredor apagada, nem fechar a porta, se não, os monstros aparecem.
Houve uma noite em que vi uma caveira debaixo da minha cama.
A minha mãe contou-me que, quando eu era bebé, alguém me bateu.
Não me lembro disso.
Mas talvez seja essa a razão para eu ter sempre tanto medo.

As armas é que me acalmam e tenho sempre uma pistola de brincar comigo.
Faço de conta que a minha pistola é a sério e que ninguém pode fazer-me mal.
Até tenho uma debaixo da travesseira, como se vê nos filmes da TV.

Na escola disseram à minha mãe que eu não podia ir para as aulas com as minhas pistolas,

e ela proibiu-me de as levar.
Mas eu escondo-as e levo-as na mesma.

O meu pai já tem outra mulher.
Na casa dele, não há quarto para mim. Durmo num colchão a um canto, junto a umas malas vazias.
Aqui, não tenho medo dos monstros, porque eles não têm onde se esconder.
E depois há sempre barulhos e luz.
No meu cantinho, invento histórias terríveis de batalhas com os meus brinquedos.
Há sempre muitos mortos e heróis intocáveis.

Quando fiz nove anos, o meu pai deu-me um robô americano. É o melhor brinquedo do mundo! É muito grande e sai-lhe luz dos olhos e do laser intergaláctico.
Foi comprado numa loja que só vende robôs.
Foi um dia magnífico.

Imagino-me com superpoderes.
Sei voar, sou muito forte e nada me assusta.
Defendo os mais fracos. Todos gostam de mim, exceto, claro, os mesmo muito maus.
Com esses terei de ser muito firme.

De manhã, não vi uma garrafa de vinho vazia.
Ao cair, fez barulho e acordou o meu pai.
Ele ficou furioso e veio para a cozinha atrás de mim.
Tentando escapar-lhe, derrubei outras garrafas. Agora é que vou apanhar.
É assim: às vezes grita e bate-me. Depois fica triste como se lhe doesse a ele, e pede-me desculpa com um ar muito magoado.
Quando o vejo chorar, acho que é por minha causa que ele fica triste.
Então, sinto-me culpado ao vê-lo assim.

Mas não é assim, a culpa não é minha.
Sou apenas uma criança e não tenho nada com os problemas dos adultos.
Gosto dele e não quero magoá-lo, mas ele deixa-me assustado.

Um dia, também hei de ser grande e ninguém poderá magoar-me.
Ninguém me fará medo.
Vou defender todas as mães e todas as crianças…

E, nessa altura,
… Serei um SUPER-HERÓI !

Julien Josset ; Gilles Rapaport
Je ne suis pas un super héros
Paris, Circonflexe, 2004
(Tradução e adaptação)

 

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