A velhinha que dava nomes às coisas

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Era uma vez uma velhinha que adorava dar nomes às coisas.
Chamava Betsy ao velho carro que conduzia.
Chamava Fred à velha cadeira onde se sentava.
Chamava Roxane à velha cama onde dormia.
Chamava Franklin à velha casa onde vivia.
E todas as manhãs saía da Roxane, bebia uma chávena de chocolate no Fred, fechava o Franklin, ia aos correios na Betsy. Estava sempre à espera de uma carta, mas só recebia contas para pagar.
Não recebia cartas porque todos os seus amigos já tinham falecido, o que a deixava preocupada. Não lhe agradava a ideia de ser uma velhinha solitária, sem amigos, sem alguém a quem pudesse recorrer.
Então, começou a dar nomes às coisas. Mas só às coisas que sabia que não iriam acabar. O seu carro Betsy tinha circulado mais do que outro qualquer. A sua cadeira Fred nunca empenou na vida. E nem um rangido, nem um gemido ouviu nunca da sua cama, Roxane. E a sua casa, Franklin, continuava de pedra e cal: com mais de cem anos parecia ter pouco mais de vinte.
A velhinha já não se preocupava em sobreviver a qualquer um deles… e vivia feliz.

Certo dia, estava a tirar lama da Betsy, dizendo-lhe que o Franklin não ia gostar de a ter à porta com os guarda-lamas sujos, quando um cãozinho castanho se aproximou timidamente do portão. (A velhinha não tinha dado nome ao portão porque as dobradiças tinham ferrugem e o portão iria durar pouco tempo.) O cãozinho abanava o rabo e parecia ter fome. A velhinha estava ao lado da Betsy e pôs-se a observá-lo por um momento.
— Hmmm — fez ela.
Então, entrou no Franklin, tirou do frigorífico um pouco de fiambre e saiu novamente. Deu o fiambre ao cachorrinho esfomeado e mandou-o embora.

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Disse-lhe que os cachorrinhos enjoavam sempre na Betsy, que o Fred não permitia que se sentassem nele e a Roxanne era demasiado pequena para um cachorrinho e uma velhinha dormirem nela. E que, além disso, o Franklin era alérgico a pelo de cão.
Por isso o cachorrinho foi-se embora.

Mas, no dia seguinte, regressou. A velhinha estava sentada no Fred a ler um livro sobre flores de jardim, quando olhou pela janela e viu o cachorro.
— Vai para casa! — disse-lhe.
O cachorrinho abanou o rabo quando a viu.
— Vai para casa! — disse novamente.
Mas o cachorrinho continuava a abanar o rabo.
A velhinha reparou que ele ainda parecia ter fome. Por isso foi de novo ao frigorífico.
Deu ao cachorrinho um pouco de queijo e dois biscoitos.
E depois disse-lhe para se ir embora.
E ele assim fez.

Naquela noite, enquanto ajeitava as almofadas na Roxanne, a velhinha pensou no cachorro…. Era um cachorrinho muito simpático e bonito. Mas não podia ficar com ele. Se ficasse, teria de lhe pôr um nome. E ele arriscava-se a não viver tanto como o Franklin, o Fred, a Betsy ou a Roxanne. Muito provavelmente morreria primeiro do que ela… E ela não queria correr esse risco. Não queria ver os seus amigos morrerem.
Pedir-lhe-ia para se ir embora.
Mas todos os dias o cachorrinho castanho vinha até ao portão da velhinha. E todos os dias ela dava-lhe comida e dizia-lhe para não voltar. E ele ia e voltava sempre no dia seguinte.
E assim se passaram muitos meses.
O cachorrinho cresceu, cresceu e, em pouco tempo, deixou de ser um cachorrinho.
Agora era um cão. E continuava a ser um cão sem nome.
Entretanto, a velhinha comprara um armário a que chamou Bill, um carrinho de mão a que pôs o nome Francine e um porco em barro para o jardim a que chamou Bud.
Mas o cão que ela fielmente alimentava todos os dias ao portão não tinha nome.
E, uma vez que não tinha nome, a velhinha não se afligia com ele…
Mas, um dia, o cão castanho não apareceu. A velhinha estava sentada no Fred e passou o dia a olhar para o portão. Mas o cão nunca chegou. E ela ficou triste.
No dia seguinte, o cão também não apareceu. A velhinha pegou na Betsy e foi à procura dele, mas não o encontrou. E ficou ainda mais triste. O cão continuou a não aparecer e a velhinha decidiu que tinha de fazer alguma coisa.
Pegou no telefone e ligou para o canil.
— Apanharam algum cão castanho? — perguntou ao funcionário.
— Temos o canil cheio de cães castanhos, minha senhora, — respondeu-lhe ele. — O seu tinha uma coleira com o nome?
— Não — respondeu a velhinha com tristeza.
E desligou o telefone.
Então sentou-se e pensou no cão castanho que não tinha coleira nem nome.
Onde quer que estivesse, ninguém saberia dizer que ela o esperava todos os dias ao portão; que lhe daria comida e depois lhe diria para se ir embora; que era assim que tudo deveria acontecer.
O tímido cão não tinha coleira nem nome. E ninguém haveria de saber dele.

A velhinha tomou então uma decisão.
Fechou o Franklin e conduziu a Betsy até ao canil. Aí, dirigiu-se ao funcionário.
— Vim buscar o meu cão.
Ele perguntou-lhe de que cor era.
— É castanho — respondeu.
Depois ele quis saber a idade.
— Tem cerca de um ano — respondeu a velhinha.
E ele quis saber qual era o nome dele.

A velhinha pensou durante um instante. Pensou em todos os seus velhos amigos que tinham falecido e lembrou-se dos seus nomes queridos. Como fora feliz por os ter conhecido! E achou que era uma mulher cheia de sorte.
— Chama-se Lucky — disse ao funcionário.

Ele levou-a então a um pátio cheio de cães brancos, pretos e castanhos. A velhinha olhou, olhou e olhou, até que descobriu o seu cão castanho sentado junto do portão. O cão olhava para a Betsy que estava estacionada na entrada.
A velhinha chamou-o.
— Vem, Lucky!
E ao ouvir a voz dela, o cão veio a correr.

A partir daquele dia, Lucky viveu com a velhinha, e vinha sempre quando ouvia o seu nome. Entretanto, descobriu-se que, afinal, nem todos os cães enjoavam na Betsy; que o Fred ficava feliz por o Lucky se sentar nele e que o Franklin não era alérgico a pelo de cão.
E todas as noites a cama Roxanne certificava-se de que havia espaço suficiente para um cão castanho, tímido e feliz … e para uma velhinha que lhe deu um nome.

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Cynthia Rylant
The old woman who named things
New York, Voyager Books, 2000
(Tradução e adaptação)

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