Mani e a amiga-sombra (sobre o conceito de “sombra” adaptado a crianças)

Mani e a amiga-sombra

Mani gostava muito de brincar. Mal voltava da escola, lanchava, fazia os trabalhos de casa e ia brincar. Adorava passear pelo bosquezinho que começava em frente da sua casa e só acabava mesmo à beirinha da praia.

O bosque não era muito grande. Não era uma floresta a sério, com imensas árvores e muitos animais, onde uma pessoa pode até perder-se. Não. Mani é que, desde pequenina imaginava que ele, com aqueles troncos seculares, almofadados de musgo, que a encantavam, era quase mágico. Mani imaginava que as árvores lhe indicavam o caminho para um sítio muito especial, que ela tinha de encontrar sozinha. Que estava povoado de fadas e de animais mágicos, de seres encantados, de bruxas e de sombras. Oh, com as sombras é que ela tinha de ter atenção!

Mani já tivera muitas conversas com os habitantes daquela floresta mágica. Claro que ela sabia que era tudo imaginação sua, embora, por vezes, a conversa com os anões e as fadas fosse tão interessante e ela aprendesse tanto, que nem tinha bem a certeza se as tinha imaginado ou não.

Certa tarde, Mani sentou-se encostada ao tronco de uma grande árvore e… aconteceu-lhe uma coisa muito estranha. Mesmo MUITO estranha!

Mani estava muito quieta a observar um passarinho a saltitar de um ramo para outro – e a pensar como gostaria de ter uma casinha pequenina bem escondida no meio dos ramos de uma árvore – quando lhe apareceram à sua frente duas meninas gémeas de mãos dadas… MUITO parecidas com ela. Tão semelhantes, que mais pareciam a sua sombra.

― Olá, Mani! Não nos conheces? Eu sou a Nima e esta é a minha sombra. Vivo dentro de ti. Ando sempre contigo, sei tudo sobre ti. Podemos até dizer que sou como… olha, como a tua sombra! Sei que, às vezes, gostavas de ter alguém a quem contar muitas das coisas que te passam pela cabeça, muito daquilo que sentes. Se quiseres, posso ser a tua amiga especial. Aliás, acho que mesmo MUITO especial. Afinal, conheço todos os teus segredos, não é? A minha sombra também gosta muito de brincar e de conversar, mas não deves prestar-lhe grande atenção. Nascemos juntas e nunca podemos separar-nos, por isso vamos sempre as duas de mãos dadas para todo o lado. Chama-se Nima-Sombra.

― Mas essa é uma ideia fantástica! E porque é que só apareceste agora?

― Porque só agora é que eu devia aparecer. Tudo tem uma altura própria… Então, vamos ser amigas?

― Claro!

E pronto, a partir desse dia, a vida de Mani mudou completamente. Ela, Nima e Nima-Sombra passavam horas a conversar e depressa se tornaram muito amigas. Mani contava-lhes imensas coisas da sua vida, que Nima ouvia com muita atenção. Nima tentava ajudá-la. Quando Mani não sabia o que fazer em determinada altura, perguntava a Nima, que nunca deixava de orientá-la. E essa foi a grande mudança na vida de Mani.

Nima tinha uma voz muito especial. Uma voz séria que fazia Mani sentir que estava a crescer. De cada vez que Mani seguia o seu conselho, sentia-se feliz. É certo que Nima lhe dizia para fazer coisas que, às vezes custavam um pouquinho mas, coisa engraçada, Mani ficava com uma sensação boa. Sentia que tinha feito a coisa mais acertada, não sei se me compreendem. Sentia que… tinha crescido.

E Mani passou a escutar aquela voz que vinha de dentro dela.

Da Nima-Sombra, já não gostava tanto. Embora fosse gémea de Nima, era muito diferente dela. Tinha, por exemplo, uma voz esquisita, mais esganiçada. E era um pouco preguiçosa. Vou explicar: a voz dela não era tão adulta nem acertada. Falava quase como um palhaço e, passado algum tempo, passou também a tentar dizer-lhe o que fazer. Só que, como era preguiçosa, dizia sempre a Mani que seguisse o caminho mais fácil. Depois, esfregava as mãos de contente e ria-se baixinho de cada vez que Mani fazia o que ela queria. Mani sabia que Nima ficava triste e, por isso, nunca conseguia dormir bem essa noite. E, curiosamente, quando Mani fazia o que a Sombra lhe dizia, sentia-se como uma marionete, como se não fosse bem ela a fazer as coisas.

Tenho de dizer-vos que Mani também era um bocadinho – mas não muito – preguiçosa, e talvez tenha sido por isso que começou a dar mais ouvidos à voz de palhaço da Nima-Sombra. Por exemplo: uma vez, na escola, Mani não sabia se devia ir logo para casa ou explicar os exercícios de matemática à Susana, a colega de carteira. Era coisas como estas que Mani perguntava a Nima. Se fossem vocês, de certeza que iam ajudar Susana, mas Mani seguiu a voz de palhaço e respondeu:

― Oh, Susana. Pode ficar para outra vez? Agora tenho de ir para casa rápido porque a minha mãe vai sair e ainda tenho de fazer os trabalhos de casa de Português ― o que não era verdade.

De outra vez respondeu à mãe:

― Mãe, não posso tomar conta do Tomás, porque tenho de acabar este desenho.

Depois, começou a não ajudar a mãe a pôr a mesa:

― Já vou! ― e continuava a ver os desenhos animados.

A professora de piano perguntava-lhe se tinha estudado. Claro que a voz-palhaço dissera que era mais divertido ir brincar para o bosque em vez de estudar piano… E, na aula, aquela voz estridente murmurava que respondesse que sim, que tinha estudado.

A professora, que percebeu logo que ela nem sequer tinha olhado para as teclas, ralhou a Mani, e com razão…

E o que aconteceu a Nima? Começou a enfraquecer e a adoecer muitas vezes. É que, quanto mais se obedece a uma voz, mais forte essa voz vai ficando… A voz-palhaço foi ficando tão forte, que a Nima-Sombra até aumentou de tamanho. Tornou-se a nova sombra de Mani!!! Isto foi um horror, a pior coisa que lhe aconteceu na vida! Mani passou até a ser guiada pela Nima-Sombra.

Certo dia, a mãe recebera muitos amigos em casa e fizera muitas sobremesas. Mani e a Nima-Sombra eram malucas por doces, bolos, gomas, chocolates… Quando a Nima-Sombra viu os doces em cima da mesa, mandou Mani perguntar à mãe se podia comer mousse de chocolate.

― Claro que sim. Mas tem cuidado. Não comas demasiado, senão ainda ficas com dores de barriga! ― e a mãe deu a mousse a Mani.

Quando Mani acabou a mousse, Nima-Sombra viu o bolo de chantilly e a gelatina. E achou melhor nem perguntar à mãe! Depois foi o arroz doce e os bombons. Nima gritava: “Pára, pára!” Mani não queria comer mas não conseguia parar, e a Nima-Sombra enfiava-lhe na boca colheradas de tudo o que via em cima da mesa.

Nessa noite, Mani dormiu muito mal com dores de barriga… e não só. Seria possível libertar-se da Nima-Sombra e voltar a decidir da sua vida, sozinha e com a voz calma de Nima? Decidiu começar aquela luta logo no dia seguinte.

Se Mani conseguiu ganhar à Nima-Sombra e ficar só com Nima?

Não. As duas Nimas não podiam viver separadas. As sombras nunca desaparecem.

A única coisa que podemos fazer é torná-las pequeninas e fracas. Temos de aprender que todos temos uma Nima-Sombra-com-voz-de-palhaço dentro de nós, que nunca desaparece. Temos de descobrir o que é que ela mais gosta de fazer, pressentir quando é ela que está dar-nos ordens, e devemos tentar nunca seguir a sua voz de palhaço. Claro que, às vezes, caímos na asneira e damos-lhe ouvidos, mas não vamos ficar a chorar um dia inteiro por causa disso! Devemos aproveitar esse nosso erro para aprender a dar mais ouvidos à Nima-com-voz-calma. Temos de aprender a distinguir quando é ela e quando é a Nima-Sombra que nos fala.

Foi isso que Mani fez: tentou nunca mais deixar a Nima-Sombra dar-lhe ordens ou fazer alguma coisa em vez dela. Aos poucos, a Nima-com-voz-calma foi-se curando e ficando cada vez mais forte. E, o melhor truque de combate foi nunca fazer de conta que a Nima-com-voz-de-palhaço já não morava dentro dela! Quis conhecer-lhe todos os truques para poder levar-lhe sempre a melhor! Durante toda a vida.

E é este o segredo da felicidade de Mani!

O que mais aconteceu? Nem vão acreditar! Mani conseguiu, com a ajuda da Nima-com-voz-calma, encontrar o caminho pelo meio do bosque até ao local mágico que as árvores sempre lhe pareceram indicar!

I. Birnbaum

Sugestão de actividades

Após leitura do conto, será útil levar as crianças a compreender a presença, no interior de cada pessoa, de um lado luminoso e de um lado sombrio, através dos quais se manifestam, respectivamente, as qualidades e os defeitos humanos.

As crianças poderão, em seguida, ser convidadas a redigir um pequeno texto em que os dois lados referidos estabeleçam um diálogo entre si, a propósito das várias situações do dia-a-dia.

Para aprofundamento do tema, recomenda-se a leitura do texto intitulado Errado e certo e ficar liberto .

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