A Polegarzinha – conto com sugestão de actividades

A Polegarzinha

Era uma vez uma mulher que desejava muito ter um filho, mas não sabendo como fazer para o conseguir, foi ter com o génio da floresta e disse-lhe:
— Queria ter um filho; diz-me o que devo fazer.
— Não é difícil — respondeu o génio. — Toma este grão de cevada, mas não é um grão de cevada como a que nasce nos campos ou a que se dá às galinhas. Mete-a num vaso de flores, e verás.
— Obrigada — disse a mulher. Depois, voltou para casa e semeou o grão de cevada.
Daí a poucos dias, viu sair da terra uma enorme flor, parecida com uma tulipa, mas ainda em botão.
— Que linda flor! — disse a mulher, beijando as pétalas vermelhas e amarelas. E, no mesmo instante, a flor abriu-se, fazendo muito barulho. Via-se agora que era realmente uma tulipa; mas no interior vermelho e branco estava sentada uma menina muito linda, da altura de um dedo polegar. Por isso, deram-lhe o nome de Polegarzinha.
Meteram-na dentro de um berço feito de uma casca de noz envernizada, com um colchão de folhas de violeta, e o cobertor era uma pétala de rosa. Durante a noite, a menina dormiu naquele berço, mas, no dia seguinte, já estava a brincar em cima da mesa onde a mulher punha um prato cheio de água com uma grinalda de flores à volta. Dentro do prato, boiava uma folha de tulipa onde a menina podia sentar-se e navegar de um lado ao outro, servindo-se, como remos, de duas crinas de cavalo branco.
Ficava encantadora assim, e depois, sabia cantar tão bem, que nunca se ouvira uma voz igual.
Certa noite, enquanto dormia, um horrível sapo entrou no quarto por um vidro partido e saltou para cima da mesa onde a Polegarzinha estava deitada no berço, coberta com a pétala de rosa.
— Que linda menina para o meu filho! — disse o sapo. Pegou na casca de noz, e, saltando pelo mesmo vidro partido, levou a menina para o jardim.
Havia ali um grande rio, que estava ligado por um braço de água a um pântano. E era nesse pântano que vivia o sapo com o filho. Sujo e viscoso, o filho era tal e qual o pai.
— Coac! Coac! Crrr-crr-crr! — coaxou ele, ao ver a linda menina dentro da casca de noz.
— Não fales tão alto, para não a acordares — disse o velho sapo. — Podia escapar-nos, porque é mais leve do que uma pena de cisne. Vamos pô-la sobre uma folha de nenúfar, mesmo no meio do rio. Assim, ficará numa verdadeira ilha, e já não poderá fugir. Entretanto, preparamos no fundo do pântano o quarto para as vossas núpcias.
Depois, o sapo saltou para dentro da água, escolheu uma enorme folha de nenúfar que estava presa ao fundo pelo pé, e pôs-lhe em cima a casca de noz onde dormia Polegarzinha.
Quando, no outro dia de manhã, a pobre menina abriu os olhos, viu onde estava e começou a chorar amargamente, porque se encontrava rodeada de água por todos os lados, e não podia voltar para terra.
O velho sapo, depois de ter enfeitado, com juncos e flores amarelas, o quarto nupcial no fundo do pântano, nadou, mais o filho, em direcção à folha onde estava Polegarzinha, para levar o berço de casca de noz para o quarto. Fez uma delicada vénia dentro de água em frente da menina e disse:
— Apresento-te o meu filho e teu futuro esposo. Preparei para vocês um quarto magnífico no fundo do pântano.
— Coac! Coac! Crrr-crr-crr! — acrescentou o filho.
Em seguida, pegaram no berço e afastaram-se, enquanto Polegarzinha ficava só, em cima da folha verde, chorando muito ao pensar naquele sapo tão feio, e no casamento horrível que a esperava.
Mas os peixes tinham ouvido o que dissera o sapo, e ficaram cheios de vontade de conhecer a menina. E assim que a viram, acharam-na logo mal empregada para casar com um sapo tão feio. Não podia ser! Então, juntaram-se em volta do pé que segurava a folha, cortaram-no com os dentes, e a folha soltou-se e levou a menina pelo rio abaixo, tão longe que os sapos não conseguiram apanhá-la.
Polegarzinha foi passando por diferentes sítios, e as aves dos bosques cantavam ao vê-la: “Que linda menina!” A folha continuava a boiar para longe, cada vez mais para longe. Era uma verdadeira viagem de recreio.
No caminho, uma enorme borboleta branca começou a bater as asas em volta dela e acabou por pousar na folha, cheia de espanto pela beleza da menina. Polegarzinha estava toda contente por ter escapado ao horrível sapo, e apreciava todas as maravilhas da natureza em seu redor, e a transparência da água, que o Sol fazia brilhar como prata. Tirou a fita que trazia à cintura, amarrou uma ponta à borboleta, a outra à folha, e avançou ainda mais depressa.
De repente, apareceu um grande besouro, e, ao vê-la, pegou nela com as patas e levou-a para cima de uma árvore.
Calcule-se o susto da pobre Polegarzinha quando o besouro a levou para cima da árvore! Este sentou-a na folha maior da árvore, ofereceu-lhe suco de flores, e, apesar de a menina não se parecer com um besouro, fez muitos elogios à sua beleza.
Daí a pouco, todos os outros besouros que viviam na mesma árvore vieram visitá-la. As meninas besouras, quando a viram, começaram a mexer muito as antenas e disseram:
— É aleijada! Só tem duas pernas.
— E não tem antenas — disse uma delas. — É tão magra, que parece um homem. Que horror!
Todavia, Polegarzinha era encantadora. Mas, apesar do besouro que a tinha raptado a achar linda, ao ouvir os outros, acabou por a considerar feia e não quis saber mais dela. Por isso, fizeram-na descer da árvore e deitaram-na em cima de um malmequer, deixando-a em liberdade.
A menina começou a chorar por os besouros a terem achado feia, mas as lágrimas tornavam-na mais linda do que nunca.
Polegarzinha passou assim o Verão sozinha no interior da floresta. Fez uma cama com palhas e pendurou-a num ramo de árvore, ao abrigo da chuva. Alimentava-se do suco das flores e bebia o orvalho que escorria das folhas ao amanhecer.
Passou-se assim o Verão e o Outono; mas chegou o Inverno, um Inverno duro e rigoroso. Todas as aves que a tinham distraído com o seu canto desapareceram, as árvores ficaram nuas, as flores murcharam, e o ramo onde colocara a cama feita de palhas já não lhe oferecia abrigo.
A pobre menina sentia cada vez mais frio, porque as roupas que usava estavam em farrapos. Depressa chegou a neve, e cada floco que caía em cima dela gelava-a como se fosse um nevão. Ainda que se envolvesse com folhas secas, não conseguia aquecer. Quase morria de frio. Perto da floresta havia um grande campo de trigo, mas só restavam as hastes saindo da terra gelada. E foi para a menina como se caminhasse novamente pelo meio de uma floresta.
A tremer de frio, chegou à toca de um rato do campo. Entrava-se por um pequeno buraco, escondido entre as palhas. O rato estava bem instalado, tinha a despensa cheia de grãos, uma linda cozinha e uma sala de jantar. Polegarzinha apresentou-se à porta e pediu um grão de trigo, porque ainda não comera nada naquele dia.
— Pobre menina! — disse o velho rato do campo, que, no fundo, tinha bom coração. — Vem comer comigo lá dentro. Está muito quentinho.
Depois, simpatizou com Polegarzinha, e acrescentou:
— Deixo-te passar cá o Inverno, mas com a condição de teres o meu quarto sempre limpo e de me contares histórias bonitas. Eu adoro histórias.
A menina aceitou a proposta, e não se arrependeu.
— Vamos ter uma visita — disse um dia o velho rato. — O meu vizinho costuma visitar-me uma vez por semana. Ele ainda vive melhor do que eu: tem grandes salões e usa uma peliça de veludo. Se ele quisesse casar contigo, serias muito feliz, porque ele não vê nada, e assim podias fazer tudo o que te apetecesse. Conta-lhe as histórias mais bonitas que souberes.
Mas a Polegarzinha não estava interessada em casar com o vizinho, porque ele era uma toupeira. Coberta com a sua peliça de veludo negro, a toupeira não tardou a aparecer. Falou da sua riqueza e instrução, mas disse mal das flores e do Sol, porque nunca os tinha visto. Polegarzinha cantou-lhe várias canções, entre elas: Fui ao jardim Celeste e Rosa branca ao peito. A toupeira, encantada com a sua linda voz, quis logo combinar a data do casamento, mas a menina, que era uma pessoa de juízo, não respondeu que sim nem que não.
Para ser agradável aos vizinhos, a toupeira convidou-os para passearem, sempre que quisessem, no grande túnel que acabava de abrir entre duas das suas moradias, mas disse-lhes que não se assustassem com um pássaro morto que ali fora enterrado no princípio do Inverno.
A primeira vez que os vizinhos aceitaram o amável convite, a toupeira caminhou à sua frente por um corredor escuro e comprido, levando na boca um pedaço de madeira velha que espalhava reflexos fosforescentes, para os alumiar. Quando chegou ao sítio onde jazia o pássaro morto, arrancou com o focinho um bocado de terra do tecto da galeria, abrindo assim um buraco por onde entrou a luz. No meio do corredor estava estendido o corpo de uma andorinha, morta certamente de fome, com as asas unidas ao corpo, e a cabeça e os pés escondidos entre as penas. Este espectáculo impressionou muito Polegarzinha; ela gostava dos passarinhos, que durante todo o Verão a tinham alegrado com os seus cantos! Mas a toupeira empurrou a andorinha com as patas e disse:
— Esta já não canta mais! Que infelicidade ter-se nascido pássaro! Graças a Deus que os meus filhos estão livres de semelhante destino. Estas criaturas só passam o Verão a cantar, e durante o Inverno morrem de fome.
— Diz muito bem! — respondeu o velho rato. — Com cantigas ninguém se governa e acaba na miséria, e ainda há quem se gabe de saber cantar.
Polegarzinha não disse nada, mas assim que os outros dois voltaram as costas, inclinou- se sobre a ave, e, afastando as penas que lhe escondiam a cabeça, beijou-lhe as pálpebras fechadas.
— Talvez esta andorinha seja a mesma que cantou para mim o Verão passado; pobre andorinha, como eu tenho pena de ti!
A toupeira, depois de tapar o buraco, acompanhou as visitas a casa. Sem poder dormir toda a noite, Polegarzinha levantou-se e entrançou uma linda esteira de feno, levou-a para o túnel e estendeu-a sobre o passarinho morto. Depois, colocou-lhe debaixo da cabeça um bocado de algodão que encontrara na toca do rato, como se tivesse receio que a humidade fizesse mal àquele corpo morto.
— Adeus, andorinha, adeus para sempre! — disse ela.— Obrigada pelo teu canto, que me alegrava durante o Verão, quando eu podia admirar o verde do bosque e aquecer-me ao sol.
Dizendo estas palavras, encostou a cabeça ao peito da andorinha, mas levantou-se imediatamente, muito assustada. Tinha ouvido um leve bater: era o coração da ave, que não estava morta, mas apenas entorpecida, e que, com o calor, tornava a viver.
No Outono, as andorinhas voltam para os países quentes e, se alguma se atrasa no caminho, cai como morta e é coberta pela neve. Polegarzinha tremia ainda de medo; comparada com ela, que não tinha mais do que uma polegada de altura, a andorinha parecia um gigante. Mas encheu-se de coragem, apertou bem o algodão em volta da ave, foi buscar uma folha de hortelã, que lhe servia de manta, e pôs-lha por cima.
Na noite seguinte, quando se dirigiu de novo para junto da doente, encontrou-a viva, mas com tão poucas forças que mal abriu os olhos um instante para ver a menina, que levava, para se alumiar, apenas um bocado de madeira fosforescente.
— Obrigada, linda menina — disse a ave, com voz fraca. — Deste-me um pouco de calor. Em breve terei novamente forças para voar ao sol.
— Ainda faz muito frio lá fora — respondeu Polegarzinha. — A terra está gelada. Deixa-te ficar na cama. Eu tomo conta de ti.
Em seguida, trouxe-lhe água numa pétala de flor. A avezinha bebeu e contou-lhe como rasgara uma asa num arbusto cheio de espinhos, e não pudera seguir as companheiras até aos países quentes. Acabara por cair, e daí para diante não se lembrava de mais nada.
Durante todo o Inverno, às escondidas da toupeira e do rato, a menina tratou da andorinha com o maior cuidado. Quando chegou a Primavera, e o Sol começou a aquecer a terra, a ave disse adeus a Polegarzinha, que tornou a abrir o buraco feito pela toupeira no tecto. A andorinha pediu à menina que a acompanhasse até à floresta, montada nas suas costas. Mas Polegarzinha sabia que a sua partida causaria desgosto ao velho rato do campo.
— Não posso — disse ela.
— Então, adeus, adeus, linda menina! — respondeu a andorinha, voando ao sol. Polegarzinha viu-a partir, com lágrimas nos olhos; já gostava tanto daquela andorinha!
— Cuí-cuí ! — trinou ainda uma vez a andorinha, que depois desapareceu nos ares.
O desgosto de Polegarzinha foi ainda maior porque nunca mais pôde sair para a floresta e aquecer-se ao sol. O trigo crescia por cima da casa do rato do campo, e era para a menina, que tinha uma polegada de altura, uma verdadeira floresta.
— Este Verão vais fazer o teu enxoval — disse-lhe o rato, porque a toupeira da peliça negra tinha pedido a mão de Polegarzinha.
— Para casares com a toupeira, tens de estar bem fornecida de vestidos e roupas.
A menina foi obrigada a pegar na roca, e além disso o rato do campo contratou quatro aranhas que fiavam todo o dia sem descanso. À tarde, a toupeira visitava-os e falava-lhes do problema do Verão, que torna a terra abrasadora e insuportável. Por isso, o casamento só se faria no fim da estação. Entretanto, Polegarzinha ia todos os dias à porta, ao nascer e ao pôr do Sol, e olhava, através das espigas agitadas pelo vento, o azul do céu, admirando a natureza e pensando na sua querida andorinha; mas a andorinha estava longe, e talvez nunca mais voltasse.
Chegou o Outono, e Polegarzinha acabara o seu enxoval.
— Daqui a quatro semanas é o casamento! — disse-lhe o rato. E a pobre menina chorou, porque não queria casar com a toupeira.
— Que parvoíce! — exclamou o rato. — Não sejas teimosa, se não dou-te uma dentada. Devias ficar muito contente por casar com um animal que tem uma peliça que faria a inveja do próprio rei. Devias agradecer a Deus por ires ter uma cozinha e uma adega tão bem fornecidas.
E chegou o dia da boda.
A toupeira apresentou-se para levar Polegarzinha para debaixo da terra, onde ela não tornaria a ver o Sol, porque o marido não podia suportar a luz. Em casa do rato do campo, ao menos a menina podia ir até à porta.
— Adeus, amigo Sol! — disse ela, muito aflita, levantando os braços. — Adeus para sempre! Estou condenada a viver, daqui em diante, num buraco triste onde nunca mais sentirei o teu calor.
Depois, deu alguns passos para fora de casa, porque já tinham ceifado o trigo, e só restava o colmo.
— Adeus, adeus! — disse ela, abraçando uma florinha vermelha. — Se por acaso vires a andorinha, dá-lhe saudades da minha parte.
— Cuí-cuí ! — ouviu ela gritar no mesmo instante.
Levantou a cabeça e viu que era a andorinha que ia a passar. A ave sentiu a maior alegria ao ver Polegarzinha; desceu rapidamente, repetindo o seu alegre cuí-cuí, e veio pousar junto da sua benfeitora. A menina contou-lhe que queriam obrigá-la a casar com a toupeira, que vivia debaixo da terra, onde nunca entrava o Sol. Enquanto dizia isto, chorava lágrimas em fio.
— Está a chegar o Inverno — disse a andorinha. — Volto para os países quentes; queres vir comigo? Sobes para as minhas costas e amarras-te bem pela cintura. Fugiremos para bem longe dessa toupeira e da escuridão da casa dela, para lá das montanhas, onde o Sol ainda é mais brilhante do que aqui, onde o Verão e as flores são eternos. Vem comigo, linda amiga, tu, que me salvaste a vida, quando eu estava enterrada naquele túnel sombrio, meio morta de frio.
— Sim, vou contigo! — disse Polegarzinha. E sentou-se nas costas da ave e amarrou o cinto a uma das penas mais fortes da andorinha. Depois, foi levada por sobre a floresta e o mar, e as altas montanhas cobertas de neve.
Polegarzinha sentiu frio; mas aconchegou-se debaixo das penas quentes da ave, espreitando só com a cabeça para admirar as belezas que deslizavam lá em baixo.
Foi assim que chegaram aos países quentes, onde as vinhas, com os seus cachos vermelhos e amarelos, crescem por toda a parte, onde se vêem extensos pomares de limoeiros e laranjeiras, onde mil plantas maravilhosas exalam os seus perfumes. Ao longo das estradas, as crianças corriam atrás de borboletas multicores.
Um pouco mais adiante, a andorinha parou junto de um lago azul onde se espelhava um antigo castelo de mármore, rodeado de colunas cheias de parreiras. No alto havia uma quantidade de ninhos.
Um destes ninhos pertencia à andorinha que levava a menina.
— Aqui tens a minha casa — disse a ave. — Mas não é conveniente que fiques a morar comigo. Além disso, não estou preparada para te receber. Escolhe tu mesma uma flor que te agrade. Levo-te até lá, e farei os possíveis para que passes um tempo agradável.
— Que bom! — respondeu Polegarzinha, batendo palmas.
Enormes flores brancas, lindíssimas, cresciam por entre os restos de uma coluna caída, e foi numa dessas flores que a andorinha deixou ficar a menina.
Polegarzinha estava radiante com toda a beleza que a rodeava naquele lugar encantador.
Mas, qual não foi o seu espanto, quando, sentado no meio da flor, viu um homem vestido de branco e transparente como o vidro, que não tinha mais do que uma polegada de altura. O homenzinho usava uma coroa na cabeça, e das costas saíam-lhe duas asas brilhantes.
Era o génio da flor; cada flor servia de palácio a um homem e a uma mulher muito pequeninos. E aquele era o rei de todos os outros.
— Como ele é bonito! — disse Polegarzinha à sua amiga.
Ao ver a ave, que lhe pareceu enorme, o principezinho primeiro assustou-se, mas encheu- se de coragem ao ver Polegarzinha, que achou a menina mais linda do mundo. Pôs-lhe na cabeça a sua coroa de ouro, perguntou-lhe como se chamava, e se ela queria casar-se com ele. Que marido, em comparação com o sapo e com a toupeira da peliça negra! Aceitando-o, tornava-se a rainha das flores!
Por isso, aceitou-o, e daí a pouco recebia a visita de uma multidão de senhores e damas que saíam de todas as flores para lhe oferecerem presentes. Mas o que lhe deu maior prazer foi um par de asas transparentes que tinham pertencido a uma grande mosca verde. Puseram-lhas nas costas e, assim, Polegarzinha pôde voar de flor em flor.
Entretanto, a andorinha, no alto da latada, trinava as suas mais lindas canções; mas sentia no fundo do coração uma enorme pena por ser obrigada a separar-se da sua benfeitora.
— Nunca mais te chamarás Polegarzinha — disse-lhe o génio da flor. — Esse nome é muito feio, e tu és bonita, tão bonita como deve ser a rainha das flores. A partir de hoje, passarás a chamar-te Maia.
— Adeus, adeus! — disse a andorinha, voando em direcção à Dinamarca.
E quando lá chegou, foi direita ao ninho que deixara no beiral da janela onde o autor destes contos esperava o seu regresso.
— Cuí-cuí! — trinou ela.
E foi assim que eu fiquei a saber esta história.

Contos de Andersen
Porto, Ed. AMBAR, 2002

  • A minúscula menina é tão bonita exteriormente como interiormente. Concordas? Queres dizer por que motivo?
  • Como tiveste ocasião de verificar, a toupeira mostra pouca simpatia em relação à andorinha.
    O que diz ela a seu respeito?
  • E tu, estás de acordo com a toupeira?

As roupas novas do imperador – conto com sugestão de actividades

As roupas novas do imperador

Há muitos anos havia um imperador que achava que roupas finas e novas eram tão importantes que nelas gastava todo o seu dinheiro. Não se preocupava com o seu exército, ou em ir ao teatro, ou em caçar na floresta, a não ser que isso representasse uma oportunidade para exibir as suas vestimentas novas. Tinha um fato diferente para cada hora do dia, e em vez de se dizer, em relação ao imperador, “Ele está reunido em conselho”, dizia-se, “Ele está no quarto de vestir”.
A grande cidade onde vivia era muito próspera e visitada diariamente por muitas pessoas. Um dia, contudo, chegaram à cidade dois aldrabões que se diziam tecelões e afirmavam fazer o tecido mais bonito que se podia imaginar. Não só eram as cores e o padrão do tecido invulgarmente bonitos, afirmavam, mas também as roupas com ele feitas tinham a maravilhosa propriedade de ficarem invisíveis aos olhos de quem não fosse competente no seu ofício ou de quem fosse particularmente estúpido.
— Essas roupas devem ser realmente maravilhosas! — pensou o imperador. — Se eu tivesse uma vestimenta assim, poderia saber quem é que nas minhas terras não é competente para a posição que ocupa. Poderia distinguir quem é esperto e quem é estúpido! Tenho de encomendar imediatamente esse tecido para mim!
E deu imenso dinheiro aos dois aldrabões para que começassem a trabalhar. Assim, eles montaram dois teares e fizeram de conta que estavam a trabalhar, mas na realidade não estavam a fazer nada. Disseram que precisavam da seda mais fina e do fio de ouro mais precioso, mas guardaram tudo para eles e continuaram a trabalhar nos teares vazios, até de madrugada.
— Como é que estará o meu tecido? — interrogou-se o imperador.
Contudo, sentiu-se ligeiramente receoso quando se lembrou de que todos os que fossem estúpidos ou incompetentes no seu trabalho não conseguiriam vê-lo; ele achava que, pela sua parte, não precisava de ter medo. Em todo o caso, resolveu mandar alguém ver como é que o trabalho estava a decorrer.
Todos os habitantes da cidade foram informados do maravilhoso poder do tecido e estavam ansiosos por descobrir se os seus vizinhos eram espertos ou estúpidos.
— Vou mandar o meu velho e honrado ministro fazer uma visita aos tecelões — pensou o imperador. — É a pessoa mais adequada para ver como está o tecido, pois é muito esperto e ninguém é melhor do que ele no seu trabalho.
E o velho e honrado ministro lá se dirigiu à sala onde os dois aldrabões estavam sentados a trabalhar nos seus teares vazios.
— Deus me valha! — pensou o velho ministro, arregalando os olhos. — Não consigo ver absolutamente nada! — mas calou-se.
Os dois aldrabões convidaram-no a aproximar-se. O padrão não era muito requintado? — perguntaram eles. E as cores não eram bonitas? À medida que falavam, iam apontando para o tear vazio, e o pobre do velho ministro continuava perplexo, não conseguindo ver nada, pois não havia nada para ver.
— Meu Deus! — pensou ele. — Será que sou estúpido? Nunca tinha pensado nisso. Bom, o que é certo é que ninguém pode ficar a saber disto! Será que não sou competente no meu trabalho? Nunca poderei dizer que não consigo ver o tecido!
— O senhor não diz nada? — perguntou um dos aldrabões, ao mesmo tempo que fingia continuar a tecer.
— Oh, sim! É fabuloso! Uma maravilha! — retorquiu o velho ministro, espreitando através dos óculos. — Que padrão! E as cores! Claro que vou dizer ao imperador que gostei imenso, de verdade!
— Estamos muito contentes por o ouvir dizer isso! — disseram os dois tecelões, e então puseram-se a falar das cores e a descrever o invulgar padrão. O velho ministro escutou com muita atenção, de modo a poder contar tudo, mais tarde, ao imperador, e assim aconteceu.
Os dois aldrabões pediram então mais dinheiro e mais seda e fio de ouro, dizendo que precisavam de mais materiais para a tecelagem. Claro que guardaram tudo para eles e continuaram a tecer nos seus teares tão vazios como anteriormente.
Pouco tempo depois, o imperador enviou outro honrado funcionário. Este olhou, olhou, mas como não havia nada nos teares, também ele não conseguiu ver nada.
— É ou não um belo tecido? — perguntaram ambos os aldrabões e, fazendo de conta que estavam a mostrar-lho, descreveram o belo padrão que, evidentemente, não existia.
— Tenho a certeza, eu não sou estúpido! — pensou o funcionário. — Por isso, devo ser incompetente no meu ofício! Isto é de facto estranho, mas não posso deixar que alguém saiba!
E assim, elogiou o tecido que não conseguia ver e referiu o quanto gostava das lindas cores e do bonito padrão.
— Na realidade, é de um gosto requintado! — confirmou ao imperador.
Todas as pessoas da cidade falavam daquele maravilhoso tecido e o imperador quis vê-lo com os seus próprios olhos enquanto ainda estava no tear. Fez então uma visita aos aldrabões, levando uma selecta comitiva, na qual se incluíam os dois honrados cavalheiros que já antes lá tinham ido. Os dois malandros teciam com toda a energia, apesar de não haver um único fio no tear.
— Não acha soberbo? — perguntaram o ministro e o funcionário. — Vossa Majestade repare só naquele padrão e naquelas cores!
E apontavam para o tear vazio, como se acreditassem que todos os outros conseguiam realmente ver o tecido.
— Meu Deus! — pensou o imperador. — Não consigo ver absolutamente nada! Isto é terrível! Serei estúpido? Não valho nada como imperador? Era a pior coisa que me podia acontecer!
No entanto, em voz alta, apenas disse:
— Oh, sim, é muito bonito! Gosto mesmo muito dele! — e abanou a cabeça em sinal de aprovação, olhando na direcção do tear vazio. Não queria, de modo nenhum, admitir que não conseguia ver absolutamente nada. Toda a comitiva que viera com ele olhou e tornou a olhar, mas não conseguia ver mais do que o ministro e o funcionário tinham visto, ou seja, nada. Contudo, imitaram o imperador e disseram:
— Na realidade, é lindíssimo!
E aconselharam-no a fazer um fato com aquele tecido, para vestir na grande procissão que iria realizar-se em breve. E todos exclamavam, uns a seguir aos outros:
— Soberbo! Requintado! Magnífico!
Ninguém deixou de comentar como o tecido era bonito, e o imperador deu então aos dois aldrabões medalhas para pendurarem na lapela e ordenou-os Cavaleiros do Tear.
Os dois astutos aldrabões estiveram a pé toda a noite na véspera da procissão, com dezasseis lâmpadas acesas, e toda a gente podia ver como eles estavam a trabalhar arduamente para conseguirem acabar a tempo as roupas novas do imperador. Fingiram que estavam a tirar o tecido do tear, agitaram a tesoura no ar como se estivessem a cortar e coseram atarefadamente com agulhas sem linha. Por fim, disseram:
— Vejam, as roupas estão prontas!
Chegou então o próprio imperador, com os seus mais distintos cortesãos, e os dois aldrabões levantaram os braços como se estivessem a segurar em alguma coisa.
— Aqui estão as calças! — disseram eles. — E aqui está o casaco! E o manto! E acrescentaram: — É tão leve como uma pena! Chega-se mesmo a pensar que não se traz nada vestido, mas aí é que está a beleza destas roupas!
— Sem dúvida nenhuma! — concordaram todos os cortesãos, apesar de não conseguirem ver nada, pois não havia nada para ver.
— Quer vossa Majestade fazer a fineza de despir as suas roupas? — pediram os aldrabões. — Assim, podemos vestir-lhe a roupa nova ali à frente daquele espelho grande!
E assim, o imperador despiu tudo e os dois aldrabões fingiram que estavam a vestir-lhe a roupa nova que supostamente teriam feito, puxando daqui, puxando dali, endireitando a cauda do manto, enquanto o imperador se virava e pavoneava em frente do espelho.
— Mas que roupas tão bonitas! — exclamaram todos. — Como assentam bem! E que padrão! Que cores! Na realidade, é um fato sumptuoso!
— O pálio sob o qual Vossa Majestade caminhará na procissão, já está lá fora —disse o mestre de cerimónias.
— Já estou pronto! — afirmou o imperador. — Assentam-me mesmo bem as roupas!
E mais uma vez deu uma volta em frente do espelho, fingindo que estava a admirar as belas roupas.
Os camareiros que iriam segurar na cauda tactearam desajeitadamente o chão como se estivessem a levantá-la e depois fizeram de conta que seguravam nela. Também eles estavam com medo que alguém reparasse que eles não conseguiam ver nada.
E assim caminhou o imperador, em procissão debaixo do majestoso pálio. Todas as pessoas que estavam na rua e à janela exclamavam:
— Oh! Como são maravilhosas as roupas novas do imperador! Que belo manto ele leva sobre o casaco! Como lhe fica bem!
Ninguém queria que pensassem que não conseguiam ver nada, pois isso significaria que ou eram estúpidos ou incompetentes no seu trabalho. Nenhuma outra roupa do imperador tinha alguma vez sido tão gabada como esta.
— Ah! O imperador vai nu! — exclamou uma criança.
— É apenas a voz da inocência! — desculpou-se o pai da criança.
Mas as pessoas começaram a passar palavra umas às outras, acerca do que a criança tinha dito.
— O imperador vai nu! Aquela criança ali afirma que o imperador vai nu!
Par fim, já todas as pessoas gritavam:
— O imperador vai nu!
O imperador sentiu-se embaraçado, pois no fundo pensava que eles tinham razão, mas disse para si próprio:
— Tenho de manter-me firme até ao fim da procissão.
E assim prosseguiu, ainda mais emproado do que antes, e os camareiros continuaram a segurar na cauda que não existia.

Contos de Andersen
Porto, Ed. AMBAR, 2002

  • O imperador é um homem vaidoso, que acaba por cair no ridículo. O que lhe acontece?
  • Por que motivo achas que ninguém, excepto a criança, teve a coragem de dizer a verdade? E tu, Também terias tido essa coragem?

O rouxinol do imperador – conto com sugestão de actividades

O rouxinol do imperador

Na China de outros tempos, certo imperador vivia no palácio mais extraordinário, todo de porcelana fina, de magnificência sem igual. O jardim circundante exibia as flores mais raras, e as que se distinguiam pela sua beleza tinham campainhas de prata que, tocando, chamavam a atenção de quem passava.
Tudo era maravilhoso no jardim do imperador. Estendia-se para longe, até à floresta de grandes árvores e lagos azuis que, por sua vez, descia até ao mar, de tal modo profundo que os grandes barcos ali passavam. Nos ramos das árvores habitava um rouxinol. Cantava tão bem que os pescadores, ao ouvi-lo, quase esqueciam o trabalho.
De toda a parte acorria gente a visitar a cidade, o palácio e os jardins do imperador. Achavam tudo maravilhoso, mas depois de ouvirem a extraordinária ave, diziam:
—O melhor de tudo é o rouxinol!
De regresso às suas terras, essa gente falava da cidade, do palácio e dos jardins. Os escritores e os poetas escreviam livros sobre tais maravilhas, dando sempre especial relevo ao rouxinol.
Estes livros correram mundo e alguns chegaram às mãos do imperador. Vestido de seda, sentado em belos cochins, lia com agrado o que se dizia dos seus domínios, mas, chegado ao fim, lá estava o remate:
— Entre tantas maravilhas, o rouxinol é a maior.
Um dia, o imperador mandou chamar o primeiro-ministro e disse-lhe:
— O que vem a ser isto? Como é possível existir, sem que eu o saiba, essa ave chamada rouxinol, que estes livros consideram o que há de melhor no meu império? Por que razão ainda não a vi?
— Nunca ouvi falar nela — respondeu o primeiro-ministro.
— Quero-a aqui esta noite, a cantar para mim. Só isto me faltava! O mundo inteiro sabe o que tenho, menos eu!
— Será cumprido o vosso desejo, real senhor — respondeu o primeiro-ministro, curvando-se. — Vou …
No palácio, ninguém conhecia o rouxinol. Por mais que perguntasse, nada conseguiu saber.
Voltou o primeiro-ministro ao imperador:
— Saiba Vossa Majestade que tal ave não existe. Deve ser invenção de quem escreveu esses livros!
— Não pode ser falso o que se diz nos livros enviados pelo meu amigo, o imperador do Japão. Portanto, quero aqui o pássaro esta noite, sob pena de toda a corte ser castigada!
De novo o primeiro-ministro subiu e desceu escadas, correu por aqui e por ali à procura de notícias do rouxinol, conhecido no mundo inteiro mas ignorado no palácio.
Por fim, encontraram na cozinha uma rapariga que exclamou:
— Oh, meu Deus! O rouxinol? Conheço-o muito bem! Quando, à noite, me dirijo para junto da costa, para levar a minha mãe os restos de comida que aqui me dão, oiço sempre essa maravilhosa ave, cujo doce cantar me traz lágrimas aos olhos.
— Pequena ajudante de cozinha — disse o primeiro-ministro — obterás o título de cozinheira, se me levares junto dele. Tenho de o trazer aqui esta noite!
Metade da corte (com medo do castigo, é claro) foi para a floresta à procura do rouxinol. No caminho ouviram uma vaca mugir. Certo cortesão, já radiante, exclamou:
— Ei-lo!
— Não, é uma vaca! — disse a rapariga. — Ainda estamos longe.
Daí a pouco ouviu-se o coaxar das rãs, nos pântanos.
— Encantador! — disse o capelão do palácio.
— Não, são as rãs a coaxar! — explicou a ajudante de cozinha. — Mas não tarda que o ouçamos.
Agora é ele! — disse a rapariga, daí a pouco. — Escutai, por favor!
De facto, o rouxinol cantava e todos viram um passarinho de cores discretas que, aos rogos da rapariga, cantou ainda melhor. E foi muito admirado.
Tendo consentido de boa vontade em mostrar a sua voz para deleite do imperador, foi recebido com grandes honras no palácio de porcelana, ao brilho de milhares de velas. Na grande sala onde o imperador se encontrava, colocaram um poleiro de ouro. Todos admiraram o seu canto mavioso.
O imperador tinha lágrimas nos olhos, de comovido, e foi esta a melhor recompensa para a ave. Nunca o esqueceria.
O êxito do rouxinol na corte foi extraordinário. E ficou decidido que o rouxinol ficaria na corte e teria uma gaiola só para ele. Tinha licença de dar um passeio duas vezes por dia e uma vez à noite, acompanhado de doze criados. Cada criado segurava uma fita de seda cuja ponta estava atada a uma das patas do passarinho. Passear nessas condições não devia ter mesmo graça nenhuma.
Certo dia chegou, endereçada ao imperador, urna grande caixa onde estava escrito: Rouxinol.
— Eis certamente outro livro sobre o célebre pássaro — disse o imperador.
Mas não era um livro. Dentro, vinha um rouxinol mecânico semelhante ao verdadeiro, coberto de diamantes, de rubis e de safiras. Quando lhe davam corda, cantava, movia a cauda e lançava chispas de luz. Trazia em volta do pescoço uma fita onde se lia: O rouxinol do imperador do Japão não passa de uma modesta imitação do rouxinol do imperador da China.
— Que lindo é! — exclamavam todos, entusiasmados, ao vê-lo e ouvi-lo.
— Ponham ambos a cantar ao mesmo tempo! — mandou o imperador.
Mas o pássaro verdadeiro cantava à sua maneira e o rouxinol mecânico cantava valsas.
Foi então resolvido que o rouxinol mecânico cantasse sozinho. Obteve grande sucesso, e repetiu, repetiu.
— Agora o rouxinol verdadeiro também tem de cantar — sugeriu o imperador.
Mas… onde estava ele? Ninguém se apercebeu de que voara pela grande janela aberta, em direcção à floresta.
Todos os cortesãos o censuraram:
— Que feia acção! Que ingrato! Não importa! Temos este que é bem melhor e mais bonito. Ao menos, com ele, sabemos o que vai seguir-se e podemos acompanhar a sua música. Com o outro era impossível, sempre diferente, inesperado.
O rouxinol cantava, cantava sem fadiga. Permitiu-se ao povo ver e ouvir aquela maravilha. Os pobres pescadores diziam:
— É lindo e canta bem, mas falta-lhe qualquer coisa …
Do verdadeiro rouxinol nunca mais houve notícias; já ninguém pensava nele.
Certa noite, estando o imperador deitado a deliciar-se com o canto do rouxinol mecânico, colocado em cima da mesa-de-cabeceira, ouviu-se um ruído “Tíup”! Partiu-se a corda do mecanismo; depois “Brrrr… ” e a música parou. O imperador saltou da cama, mandou vir o médico da corte, mas este não soube resolver a situação. Chamou-se então o relojoeiro, que consertou a corda e recomendou muita cautela, porque, com os parafusos gastos, podia quebrar- se novamente.
Foi grande o desgosto. O pássaro não podia agora cantar com frequência.
Cinco anos passaram.
Entre outros os cortesãos reinava a desolação, porque o seu amado imperador estava doente e não parecia ter hipóteses de
cura. O sucessor fora já eleito.
Muitos choravam, enquanto outros ansiavam por aclamar aquele que viria.
O velho imperador, estendido na cama, pálido e frio, lutava com a morte. À sua volta, uma quantidade de caras estranhas parecia esperar espreitar por entre as dobras da cortina de veludo; umas tinham expressões de maldade, outras aparentavam simpatia. Representavam as boas e más acções que o imperador praticara. Este, no meio da aflição, só pedia:
— Música! Música! Quero música!
Mas ninguém dava corda ao pássaro mecânico, porque o imperador estava sozinho. Consideravam-no já morto, e os cortesãos preparavam o palácio para receber o sucessor.
— Canta, ave preciosa, canta! — pedia o imperador moribundo.
A ave continuava muda, e o imperador sentia-se morrer, esmagado pelo silêncio confrangedor.
De repente, eleva-se no ar, junto da janela aberta, uma voz deliciosa. Era o rouxinol que, num ramo lá fora, tinha ouvido os gritos de aflição do seu imperador e viera confortá-lo.
A medida que ele cantava, o imperador sentia-se mais leve, melhorava, voltavam-lhe as forças, regressava à vida.
— Obrigado! Obrigado, pássaro celestial! Reconheço a tua voz! Esqueci-te inteiramente, e tu vieste livrar-me da morte com as suas negras visões que me afligiam. Como poderei recompensar-te?
— Já fui recompensado, quando em tempos vi lágrimas nos teus olhos enquanto me escutavas — replicou delicadamente o rouxinol.
— Fica sempre junto de mim. Cantarás quando quiseres e quebrarei em mil bocados o pássaro mecânico!
— Não faças isso! — replicou o rouxinol verdadeiro. — Ele fez o que podia. Conser-
va-o. Eu não posso instalar-me no palácio, mas virei, quando sentir desejos disso, e cantarei para ti, à noite, empoleirado neste ramo, junto da janela aberta, para te tornar feliz.
— Sim, farás como quiseres. O meu coração esperar-te-á sempre, para te receber com alegria e gratidão!
E quando os criados entraram, supondo encontrar o imperador já morto, viram-no, porém, sorrir e dizer calmamente:
— Bom dia!…

Hans Christian Handersen
O rouxinol do imperador
Porto, Ed. MAJORA, s/d
Adaptação

  • Reparaste que quase todas as pessoas que vivem no palácio se mostram muito distanciadas da natureza? Escolhe passagens da história que o comprovem.
  • O rouxinol veio libertar o imperador da doença.
    Que sentimentos lhe terá transmitido com o seu canto?
  • E, a propósito, já ouviste alguma vez um rouxinol cantar?

Branca de Neve e os sete anões – conto com sugestão de actividades

Branca de Neve e os sete anões

Era Inverno, e a neve caía como se fosse uma leve penugem… Uma jovem rainha bordava, sentada defronte da janela enquadrada de madeira de ébano. Quando olhou para os flocos brancos que esvoaçavam, picou-se num dedo e três gotas de sangue vermelho caíram na neve. A rainha formulou então um desejo:
— Ah! Como eu gostava de ter uma filha, linda, com a tez branca como a neve, uns lábios vermelhos como o sangue e uns cabelos negros como o ébano.
Algum tempo depois, a rainha teve uma filha. A tez era branca como a neve, os lábios eram vermelhos como o sangue e os cabelos negros como o ébano… Chamaram-lhe Branca de Neve.
Mas a rainha morreu quando ela nasceu.
Passou um ano, e o rei voltou a casar. A sua segunda mulher era muito bonita, mas era também muito orgulhosa e vaidosa. Não suportava a ideia de qualquer mulher poder ser mais bonita do que ela…
Todos os dias a rainha ia mirar-se no seu espelho mágico e perguntava-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondia-lhe sempre:
Senhora rainha, vós sois a mais bela de todo o reino.
A rainha ficava muito contente com essa resposta; sabia que o espelho nunca mentia. Mas, entretanto, Branca de Neve foi crescendo e cada dia ficava mais bonita…
Um dia, a rainha interrogou o espelho, que lhe respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza de Branca de Neve não podeis igualar!
Então a rainha ficou verde de medo e inveja. Começou a detestar Branca de Neve. A inveja ia crescendo no seu coração, como a erva má cresce nos campos, envenenando-lhe a vida, tirando-lhe o sono. E cada vez que via Branca de Neve, odiava-a um pouco mais.
Já não suportando mais, mandou vir um caçador e disse-lhe:
— Leva Branca de Neve para a floresta, não quero voltar a vê-la! Mata-a e traz-me o coração e o fígado como prova.
O caçador levou Branca de Neve para a floresta, mas, quando desembainhou o punhal para a matar, ela disse-lhe:
— Gentil caçador, não me mates! Eu vou para o interior da floresta e nunca mais volto!
Como ela era muito bonita, o caçador teve pena dela.
— Foge, menina! — disse-lhe, convencido de que os animais da floresta iriam devorá-la.
Levou à rainha o coração e o fígado de um pequeno javali como prova da morte de Branca de Neve. A rainha mandou o seu cozinheiro prepará-los e comeu-os, julgando estar a comer Branca de Neve…
A pobre rapariga, sozinha no meio do bosque, ficou cheia de medo. Correu pela floresta até cair a noite. Os animais selvagens rondavam, mas não lhe fizeram mal.
Correu, correu, enquanto as suas pernas permitiram. Viu então uma casinha e entrou para descansar.
Nessa casinha, todas as coisas eram muito pequeninas; era tudo muito bonito e muito limpo. Viu uma mesinha coberta com uma toalha branca, com sete pratinhos, sete colherinhas, sete faquinhas e sete copinhos. Muito arrumadas, encostadas à parede, viu sete caminhas cobertas com colchas muito brancas.
Branca de Neve tinha muita fome e muita sede, e então tirou um bocadinho de legumes e de pão de cada pratinho, e bebeu uma gota de vinho de cada copinho, pois não queria tirar tudo à mesma pessoa!
Depois, porque estava muito cansada, quis deitar-se numa cama. Mas a primeira cama era muito grande, a segunda muito pequena… e foi experimentando todas. A sétima tinha bom tamanho. Deitou-se e adormeceu.
Quando caiu a noite, os sete anões que habitavam naquela casa regressaram do trabalho na montanha. Acenderam as sete lanterninhas e viram que estava lá alguém…
Disse o primeiro:
— Quem é que se sentou na minha cadeira?
O segundo disse:
— Quem é que tirou comida do meu prato?
O terceiro disse:
— Quem é que tirou um bocado do meu pão?
O quarto disse:
— Quem é que tirou legumes do meu prato?
O quinto disse:
— Quem é que usou o meu garfo?
O sexto disse:
— Quem é que usou a minha faca?
O sétimo disse:
— Quem é que bebeu do meu copo?
Depois, o primeiro viu que a sua cama estava desarrumada.
— Quem é que esteve a dormir na minha cama? — disse ele.
Os outros aproximaram-se a correr e todos gritaram:
— Na minha cama também se deitou alguém!
O sétimo, quando olhou para a sua cama, viu Branca de Neve a dormir. Pegaram nas lanterninhas para iluminarem o rosto da menina.
— Que linda que ela é! — disseram os sete.
Deitaram-se sem a acordarem. Chegaram-se todos um bocadinho para o lado para arranjarem espaço para o sétimo anão, e assim se passou a noite.
De manhã, quando Branca de Neve acordou, teve medo. Mas os anões olhavam para ela com simpatia. Perguntaram-lhe como se chamava.
— Chamo-me Branca de Neve — disse ela.
E contou-lhes que a madrasta tentara matá-la.
— Fica connosco — propuseram-lhe os anões. — Se quiseres arrumar a casa, cozinhar, fazer as camas… não te faltará nada. Mas cuidado com a tua madrasta, ela pode descobrir que estás cá. Não deixes ninguém entrar!
Branca de Neve aceitou de bom grado e arrumou a casa toda. De manhã, os sete anões foram para a montanha, onde procuravam ouro, e quando à noite regressaram, a refeição estava pronta.
A rainha julgava que Branca de Neve estava morta, pois comera o seu fígado e o seu coração. No entanto, um dia interrogou o seu espelho mágico e ele respondeu-lhe:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

A rainha sabia que o espelho nunca mentia, e percebeu que o caçador a tinha enganado: Branca de Neve ainda estava viva! A inveja invadiu o seu coração, e ela deixou de ter sossego. Inventou então nova maneira de matar Branca de Neve…
Disfarçada de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas por detrás das quais viviam os sete anões, e bateu à porta da casa:
— Tenho coisas muito boas para vender! — disse ela. — Tenho cordões de todas as cores!
«É uma velhinha simpática, vou deixá-la entrar», pensou Branca de Neve. Abriu a porta e comprou-lhe um lindo cordão de seda.
— Minha menina — disse a velha — deixe-me pôr-lhe o cordão como deve ser.
A mulher passou o cordão pelo corpete de Branca de Neve, e depois apertou-o tanto que ela deixou de poder respirar e caiu como morta.
— Agora, já não és a mais bela! — gritou a velha, que se afastou da casa rapidamente.
À noite, os sete anões regressaram. Ficaram apavorados quando viram a sua querida Branca de Neve estendida no chão, sem vida. Notaram que o seu corpete estava demasiado apertado, e cortaram o cordão. Branca de Neve recuperou os sentidos.
— Foi a rainha má que quis matar-te… — disseram eles a Branca de Neve. — Tememos que ela regresse, por isso não deixes entrar ninguém enquanto cá não estamos.
Quando voltou ao castelo, a rainha interrogou o espelho:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha sentiu o coração estoirar de fúria e tentou encontrar outro modo de matar Branca de Neve. Por meio de feitiçaria, fabricou um pente envenenado, disfarçou-se novamente de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas e bateu à porta da casa dos sete anões.
Branca de Neve viu pela janela que ela se aproximava e disse-lhe:
— Continue o seu caminho, não posso abrir a porta a ninguém.
— Mas podes ver o que aqui trago… — disse a velha e mostrou-lhe o pente. — Deixa- me entrar, que eu penteio-te.
Então Branca de Neve deixou a velha entrar para a pentear, mas mal o pente tocou nos seus cabelos, o veneno fez efeito e a menina caiu no chão sem sentidos.
— És um prodígio de beleza, mas agora acabou-se! — disse a madrasta que se afastou rapidamente. Por sorte, estava quase na hora de os anões regressarem… Quando viram Branca de Neve inanimada, desconfiaram da rainha má; procuraram e logo encontraram o pente envenenado. Mal o tiraram dos cabelos de Branca de Neve, ela recobrou os sentidos e contou- lhes o que se tinha passado. Eles recomendaram-lhe novamente que não abrisse a porta a ninguém.
Quando chegou ao palácio, a rainha interrogou novamente o seu espelho mágico:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha tremeu de fúria e raiva.
— Branca de Neve tem de morrer — gritou ela — nem que para isso também eu tenha de morrer!
E num local sombrio, que ninguém conhecia, preparou uma maçã envenenada; depois disfarçou-se de camponesa, atravessou as sete montanhas, bateu à porta da casa dos sete anões…
Branca de Neve debruçou-se à janela e disse:
— Não posso abrir a porta a ninguém! Os sete anões proibiram-me!
— Pior para ti — disse a camponesa. — Vou vender as minhas maçãs a outra pessoa. Mas ao menos deixa-me oferecer-te uma…
— Não — disse Branca de Neve. — Não posso aceitar nada.
— Tens medo de ser envenenada? — perguntou a camponesa. — Olha, vou partir a maçã em duas partes; eu fico com a metade branca e tu com a metade vermelha!
Branca de Neve olhava para a maçã e estava tentada.
Quando viu a camponesa a comer a metade da maçã, estendeu a mão e pegou na outra metade.
Mal trincou a maçã, caiu morta no chão.
A rainha olhou para ela com olhos maliciosos, riu e troçou:
— Branca como a neve, vermelha como o sangue, negra como o ébano… Desta vez nem os anões te podem reanimar!
Ao chegar ao palácio, a malvada mulher interrogou o seu espelho, e ele finalmente respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela do reino.
Então, o invejoso coração da rainha repousou um pouco, mas um coração invejoso nunca tem verdadeiro repouso…
À noite, quando os anões regressaram a casa, viram Branca de Neve estendida no chão, sem respirar. Procuraram descobrir alguma coisa envenenada, mas não encontraram nada. A sua querida Branca de Neve estava morta!
Sentaram-se todos em volta dela e choraram durante três dias; depois, prepararam-se para a enterrar. Mas ela continuava fresca como se estivesse viva, com as faces rosadas como sempre.
— Não podemos enterrá-la na terra negra! — disseram. Fizeram um caixão de vidro, deitaram-na lá dentro e escreveram por cima o nome dela com letras de ouro, acrescentando que era filha de um rei. Depois levaram o caixão para o cimo da montanha e, revezando-se, fizeram guarda junto dela. Também os animais vinham chorar Branca de Neve… Branca de Neve ficou muito tempo, muito tempo, no seu caixão, sempre muito bonita, sempre como se estivesse apenas a dormir.
Ora aconteceu passar por ali o filho de um rei, que parou na casa dos anões, para lá pernoitar. Viu o caixão no cimo da montanha e lá dentro a bela Branca de Neve. E leu o que estava escrito a letras de ouro.
— Dêem-me esse caixão, e eu dou-vos tudo o que quiserem! — disse ele aos anões.
— Nem que nos desse todo o ouro do mundo! — responderam os anões.
— Então, ofereçam-mo, porque não poderei viver sem Branca de Neve. Quero venerá-la como a minha bem-amada.
Ao ouvi-lo dizer estas palavras, os bons anões tiveram piedade dele e ofereceram-lhe o caixão. Mas os servidores do príncipe, que o transportavam aos ombros, tropeçaram num tronco de árvore e a sacudidela fez saltar da boca de Branca de Neve o pedaço de maçã que ela trincara. Abriu os olhos, levantou a tampa do caixão e levantou-se. Estava novamente viva!
— Onde estou? — perguntou.
— Junto de mim — disse o príncipe. — Amo-te mais do que tudo neste mundo. Vem comigo para o castelo do meu pai. Serás a minha mulher.
Então Branca de Neve sentiu que o amava e foi com ele. As núpcias foram preparadas com grande pompa e magnificência. A rainha má também foi convidada.
Adornada com os seus mais belos atavios, olhou para o espelho e perguntou-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
O espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza da jovem soberana não podeis igualar!

A perversa mulher, mergulhada em ódio, teve tanto medo que perdeu a cabeça: levada pela curiosidade, não resistiu a ir ao casamento para ver a jovem rainha.
Ao reconhecer Branca de Neve, ficou pregada ao chão. Então, o castigo que a madrasta tantas vezes merecera por ter querido matar Branca de Neve abateu-se sobre ela.
Dando meia volta, saiu a correr do castelo, e consta que caiu num precipício, morrendo da queda, pois nunca mais foi vista por aquelas paragens.
E Branca de Neve e o príncipe viveram muitos e muitos anos de um feliz casamento.

O meu livro de contos
Marie Tenaille (org)
Porto, Asa Editores, 2001

  • A madrasta de Branca de Neve é uma mulher invejosa, que acaba por ser vítima da própria inveja.
    Já te aconteceu sentires inveja de alguém?
  • E já te apercebeste do quanto uma pessoa invejosa pode ser injusta com os outros?
  • Branca de Neve, apesar de simpática, não é prudente, pois cai por três vezes no mesmo tipo de armadilha. E tu, costumas ser prudente?
  • A madrasta de Branca de Neve dava excessivo valor a um atributo físico. Qual era? Concordas com o seu procedimento?
    Certamente que o seu carácter traiçoeiro e cruel também te impressionou. Por quê?

A Bela Adormecida – conto com sugestão de actividades

A Bela Adormecida

Certo dia de Verão, uma rainha, sentada a bordar na margem de um rio, chorava. Um sapo, que estava sentado numa folha de lírio, viu-lhe as lágrimas e perguntou:
— Porque choras, rainha?
— Porque envelheci e ainda não tenho filhos — disse a rainha.
Então o sapo disse: — Limpa as tuas lágrimas. Antes que o ano acabe, vais ter uma filha.
Tal como o sapo havia prometido, assim aconteceu. Na Primavera, a rainha deu à luz uma menina.
O rei estava cheio de alegria. Ordenou que se fizesse uma festa de baptizado e enviou mensagens para toda a gente do reino. Cavaleiros, barões, condes, duques e duquesas foram convidados. Então a rainha lembrou-se: — Não podemos esquecer-nos de convidar as fadas.
Havia treze fadas no reino. Doze delas eram bondosas, mas a última usava a sua magia para fazer o mal. O rei decidiu não a convidar.
No dia do baptizado, todo o reino celebrava. Os sinos tocaram, foram içadas bandeiras e a festa e as danças duraram horas. Os convidados trouxeram presentes para o bebé: ouro, esmeraldas, veludo, rendas – tudo o que uma princesa podia desejar.
Quando todos os senhores e senhoras acabaram de dar os presentes, as fadas avançaram com os seus. Uma deu à menina beleza; outra deu-lhe graça; as outras, uma voz angelical, um passo leve para a dança, habilidade para tocar todos os instrumentos musicais.
Já onze fadas tinham dado os seus presentes, quando uma sombra cobriu o berço. A décima terceira fada encontrava-se ali e estava zangada.
— Não fui convidada para o baptizado — disse ela — mas eu tenho um presente para a criança.
Debruçando-se sobre o berço, disse: — Quando a princesa tiver quinze anos, vai picar-se no dedo com um fuso e morrer.
A sala encheu-se de terror. A rainha desmaiou. O rei implorou perdão e rogou à fada que anulasse o feitiço, mas ela enrolou-se no manto e desapareceu.
— Ninguém pode ajudar-nos? — perguntou o rei. A décima segunda fada avançou.
— Eu ainda não dei o meu presente — disse ela.
O rei virou-se para ela cheio de esperança. — Podes quebrar este feitiço?
— Não — disse a fada. — Isso não está nas minhas mãos.
Mas ela debruçou-se sobre o berço e disse: — Quando a princesa se picar no fuso, não vai morrer, mas dormir durante cem anos. Crescerá uma floresta de espinhos à volta do palácio, e tudo o que for vivo dentro dele vai estar adormecido, até ao dia em que um príncipe encontre o caminho pela floresta encantada e acorde a princesa com um beijo.
Cem anos! Para o rei, isso parecia-lhe a morte. Ordenou que toda a fiação fosse proibida e todos os fusos queimados. Se a sua filha nunca visse um fuso, pensou ele, o feitiço da fada não podia tornar-se realidade.
A princesa cresceu tão bonita e inteligente quanto as fadas tinham prometido e toda a gente no palácio gostava muito dela.
Quando fez quinze anos, foi preparada uma festa. Na cozinha, os cozinheiros fizeram molhos e assaram carne; os criados trouxeram flores e verduras para decorar o salão.
Havia uma sala cheia de presentes para a princesa e cartas de príncipes que esperavam obter a mão da princesa em casamento.
No entanto, em vez de excitada, a princesa encontrava-se calma. Ela sentia que alguma coisa estranha ia acontecer-lhe.
Quando já estava vestida, desceu em direcção à galeria e espreitou para o salão onde estavam os convidados e onde os músicos começaram a tocar.
— Deixem-me!— disse ela às criadas. — Eu desço sozinha.
Quando as criadas foram embora, a princesa afastou-se do salão e dirigiu-se à parte velha do palácio onde já não vivia ninguém.
Não conhecia o caminho; no entanto, caminhou com um passo firme, como se uma vontade exterior a ela a impelisse. Chegou ao fundo de uma escada íngreme e estreita.
As escadas estavam cobertas de pó acumulado durante muitos anos. Ela subiu, deixando as suas pegadas nas escadas.
No cimo, havia uma porta. A princesa abriu-a e entrou.
Encontrou-se num pequeno quarto onde estava uma velha a fiar numa roca.
— Entra, minha querida — disse a velha. — Estava à tua espera.
A princesa não sabia que a velha era a fada má, disfarçada.
— O que é que estás a fazer? — perguntou ela. — Estou a fiar — disse a velha.
— Gostavas de experimentar?
A princesa ansiosa, pegou no fuso. Mas, assim que o fez, picou-se no dedo e gritou.
A fada deu uma gargalhada de triunfo, mas a princesa já não a ouviu; tinha caído num sono profundo.
Imediatamente o palácio se transformou. As criadas bocejaram e recostaram-se à parede. O rei e a rainha adormeceram nos seus tronos. O rabequista largou o seu arco e o flautista tocou uma nota gemida, enquanto caía no chão. Um gato, que andava a perseguir um rato, mudou de ideias, espreguiçou-se e adormeceu. O rato adormeceu; os cavalos nos estábulos, adormeceram; os pombos no pombal adormeceram.
Não havia mais movimento; não soprava nenhuma brisa.
Então, uma floresta começou a crescer à volta do castelo. Os rebentos abriram e surgiram os espinhos; ramos espessos alongaram-se. Numa hora, as paredes estavam escondidas; num dia, a bandeira que estava na torre deixou de se ver. Mês a mês e ano a ano, a floresta cresceu e os espinhos uniram-se de tal maneira que ninguém podia entrar.
Mas as pessoas lembravam-se. Contavam histórias de um castelo escondido e de uma princesa adormecida que só podia ser acordada pelo filho de um rei. A história correu mundo e muitos príncipes foram lá e tentaram entrar na floresta; mas ficavam presos nos espinhos e morriam.
Tinham passado cem anos. No último dia do feitiço da fada, chegou um príncipe na companhia de alguns caçadores. Tinham vindo a perseguir um veado que os guiou para longe de casa por florestas e bosques, noites e dias, e que, por fim, os levou à floresta de espinhos onde acabou por desaparecer.
O príncipe já tinha ouvido a história da bela adormecida. Imediatamente percebeu que o veado tinha sido mandado para o encontrar e que era ele quem tinha de acordar a princesa.
— Deixa este sítio, volta para casa — imploraram as pessoas. Mostraram-lhe os ossos de outros príncipes que tinham ficado presos nos espinhos. Mas o príncipe não tinha medo. Levantando a sua espada, preparou-se para entrar.
Mal a espada tocou na primeira folha, toda a floresta se transformou em flores. Os espinhos quebraram-se, abrindo um caminho onde o aroma a rosas estava por todo o lado. O príncipe guardou a sua espada, entrou pela floresta e os espinhos foram-se fechando atrás dele.
Andou pelo meio da floresta florida, até que chegou às escadas do castelo. Os guardas estavam adormecidos e as suas espadas deixadas contra a parede. Atravessou o pátio e chegou a uma porta de carvalho com uma trave de ferro. Abriu-a e entrou no salão.
À sua frente, sentados em dois tronos de ouro, estavam o rei e a rainha, profundamente adormecidos. À sua volta, convidados, criados e músicos dormiam deitados no chão. O príncipe passou por eles e subiu as escadas para a galeria, onde encontrou as criadas a dormir. Dirigiu-se então para a parte velha do palácio.
Quarto após quarto, foi seguindo o mesmo caminho que a princesa seguiu há muito tempo atrás. Finalmente chegou à escadaria onde encontrou as pegadas dela. Seguiu-as.
A porta, em cima, não estava trancada. Ele abriu-a e entrou.
No chão estava a bela princesa.
O seu cabelo estava tão brilhante, a sua cara tão fresca, como no seu décimo quinto aniversário, há cem anos atrás.
O príncipe, encantado com tal beleza, ajoelhou-se e beijou-a.
A princesa acordou logo. Sorriu e levantou-se. Em baixo, no salão, a rainha e o rei espreguiçaram-se e abriram os olhos. Os convidados começaram a mover-se. O gato acordou; o rato escondeu-se atrás de uma cadeira.
O príncipe pegou na mão da princesa e desceram juntos, através dos quartos vazios, em direcção ao salão. À medida que se aproximavam, ouviam música e vozes; passaram pelas criadas que conversavam atrás da galeria; o salão estava impregnado de um aroma a flores, e a luz entrava pelas janelas.
Lá fora, a floresta encantada tinha desaparecido e, com ela, a última magia da fada. O rei e a rainha cumprimentaram o príncipe, e ele declarou o seu amor pela princesa e pediu a sua mão em casamento. Eles aceitaram imediatamente. Assim, a festa de aniversário, que tinha sido começada cem anos antes, tornou-se um casamento. Os músicos tocaram uma melodia muito viva, a dança começou, e todos os sinos repicaram em celebração.

Clássicos dos Contos de Fadas
Porto, Ed. AMBAR, 1996

  • A princesinha, vítima de um malefício, é salva graças à coragem de um príncipe.
    Este conseguiu transformar um espaço fechado sobre si mesmo num local cheio de alegria e de luz. Como?
    Em tua opinião, por que motivo terá sido o príncipe o único a conseguir penetrar no castelo?

A Bela e o Monstro – conto com sugestão de actividades

A Bela e o Monstro

Era uma vez um mercador que tinha três filhas. As duas filhas mais velhas eram egoístas, vaidosas e profundamente antipáticas. Mas a filha mais nova era muito diferente. Era bondosa e simpática e — como irão ouvir — muito corajosa. Era tão bonita que as pessoas lhe chamavam, simplesmente, Bela.
As suas irmãs detestavam-na.
Um dia, o mercador ouviu dizer que, num porto longínquo, se estava à espera de um navio com um carregamento precioso para ele. Preparou-se imediatamente para partir numa longa viagem em busca da sua fortuna. As suas duas filhas mais velhas obrigaram-no a prometer que, quando voltasse, traria presentes valiosos para lhes dar. Bela, no entanto, apenas pediu uma rosa.
O mercador partiu no seu cavalo. Mas, ao chegar ao fim da sua longa viagem, ficou amargamente desapontado: não havia nenhum navio à sua espera com um carregamento valioso. A notícia era falsa. Iniciou tristemente a viagem de volta a casa. Afinal, não tinha dinheiro para comprar presentes caros para as suas filhas mais velhas. Já nem sequer conseguiria encontrar uma rosa para Bela, pois a estação já estava demasiado avançada para que ainda houvesse rosas.
Foi com tempo de Inverno que o mercador iniciou a cavalgada para casa. O caminho que tomou levou-o a uma enorme floresta e, por essa altura, já começara uma tempestade de neve. O mercador podia ouvir o distante uivar dos lobos, que se sobrepunha ao uivo do vento. Ele e o seu cavalo continuaram a esforçar-se. Estava ansioso, enregelado e – o pior de tudo – perdido.
Por fim, chegaram a um lugar onde as árvores formavam uma alameda, como se indicassem o caminho para alguma mansão. Foi por aí que o mercador guiou o cavalo. À medida que cavalgava pela alameda, a neve parou de cair e o vento cortante deixou de soprar. O sol apareceu, os pássaros começaram a cantar e as flores a abrir. Para sua surpresa, o mercador passou do Inverno para o pico do Verão.
Ao chegar ao fim da alameda, deparou com uma mansão tão magnífica que parecia um palácio. Cavalgou até ao princípio dos degraus de ágata que subiam até altas portas incrustadas a ouro. Desmontou, subiu os degraus e bateu nas portas. Ninguém o veio receber, mas as grandes portas abriram-se de par em par, como se lhe dessem as boas-vindas. No interior, viu um enorme vestíbulo, com chão e paredes de mármore, esplendidamente mobilado, mas sem sinais de vida.
— Não está ninguém em casa? — perguntou o mercador. Mas apenas lhe respondeu um eco: “Ninguém em casa… ninguém em casa…”
— Posso entrar? — perguntou ele, e mais uma vez o eco lhe respondeu: “Entrar… entrar…”
O mercador olhou para trás, para o seu cavalo: já estava a afastar-se em direcção aos estábulos, para encontrar comida e água e para descansar. Assim, o mercador passou arrojadamente pelas portas abertas e entrou no grande e esplêndido vestíbulo vazio, onde apenas existia o eco. Havia portas a toda a volta e, à medida que se aproximava de cada uma, esta abria- se. Entrou numa sala com uma excelente mesa posta para uma pessoa. Sentou-se e, imediatamente, apareceram à sua frente deliciosos manjares e bebidas. Esticou-se para pegar no garfo e na faca e logo estes saltaram para as suas mãos.
Depois de ter terminado o jantar, o mercador foi deitar-se na cama confortável e limpa que o esperava. De manhã, descobriu que as suas velhas e manchadas roupas de viagem tinham desaparecido e, no seu lugar, esperavam-no roupas novas da melhor qualidade. Vestiu-as e assentavam-lhe como uma luva.
Nessa altura, fez o caminho inverso através do grande vestíbulo que ecoava, passou através das portas incrustadas a ouro e desceu os degraus de ágata. Lá estava o seu cavalo à espera.
O mercador estava prestes a montar e a ir-se embora, quando se lembrou de que não tinha visto os jardins deste lugar encantado. Então, começou a passear nos jardins – atravessando veredas e relvados, passando através de arcos frondosos, até que, finalmente, chegou a uma vereda no fim da qual havia uma fonte com um grande repuxo de água brilhante. Para lá da fonte, havia um caramanchão de rosas, cujo odor enchia o ar.
A visão e o odor das rosas lembraram ao mercador a promessa que tinha feito a Bela. Esticou-se para apanhar uma rosa e, ao fazê-lo, ouviu-se um estremecer e um restolhar e, de entre os canteiros de rosas, surgiu um enorme Monstro, como o mercador jamais havia visto. Tinha olhos coruscantes, presas ferozes, garras ameaçadoras e pêlo áspero. E rugiu-lhe assim:
— Malvada criatura, quem te deu autorização para apanhares as minhas rosas?
O mercador estava mudo de temor.
O Monstro disse: — Ontem à noite foste meu convidado e concedi-te todos os teus desejos. Agora, esta manhã, roubas-me a única coisa que amo: as minhas rosas?
O mercador conseguiu murmurar: — Senhor, queria apenas levar uma rosa para uma das minhas filhas.
O Monstro disse: — Então tens filhas – filhas que te amam? Muito bem. Podes levar a rosa para casa. Tens de a dar àquela das tuas filhas que te amar o suficiente para voltar para aqui e viver comigo. E, se nenhuma delas gostar de ti o suficiente e não tiver coragem de vir para aqui, podes ter a certeza de que não irás escapar-me: morrerás. Agora vai!
Ainda com a rosa na mão, o mercador fugiu a correr para o cavalo que o esperava e, atirando-se para cima dele, começou a cavalgar apressadamente, cheio de medo. Não fazia ideia de qual era o caminho para casa, mas o cavalo, de sua livre vontade, levou-o até lá.
Quando chegou a casa, o mercador contou às suas filhas o que tinha acontecido à carga desaparecida e à fortuna perdida, e falou-lhes também do palácio encantado, do Monstro e das rosas do Monstro. As suas filhas mais velhas ficaram furiosas, porque o único presente que tinha trazido com ele era uma rosa para Bela. Começaram a discutir sobre qual das duas deveria ficar com ela. Mas, quando perceberam que quem ficasse com a rosa teria de voltar para ao pé do Monstro, nenhuma quis ficar com ela, nem mesmo para salvar a vida do pai.
Então, Bela pegou na rosa e disse que iria. Mas o pai não consentiu que o fizesse, embora temesse pela sua própria vida. Bela não discutiu, mas, a meio da noite, quando todos os outros dormiam, foi silenciosamente até aos estábulos, até junto do cavalo de seu pai. Montou-o e sussurrou-lhe ao ouvido: — Tenho a certeza de que és um cavalo esperto, que percebe tudo e que não se esquece de nada. Por favor, leva-me até ao palácio do Monstro.
O cavalo partiu imediatamente com ela.
Bela chegou ao palácio encantado antes do nascer do dia. Todas as janelas do palácio estavam brilhantemente iluminadas, como para celebrar a sua chegada. Subiu os degraus de ágata, passou pelas portas incrustadas a ouro e entrou no grande vestíbulo. Tal como o pai tinha contado, todas as portas se abriram à sua frente. Numa das salas encontrou uma mesa posta. Sentou-se à mesa, e deliciosos manjares e bebidas apareceram à sua frente; o garfo e a faca saltaram-lhe para as mãos.
Enquanto ainda estava a comer, todo o palácio começou a tremer, como se fosse atingido por trovões: o Monstro estava a chegar. Bela não fugiu nem se escondeu, mas estava com tanto medo que, quando a porta se abriu, fez uma vénia até ao chão para evitar ver o Monstro à sua frente.
O Monstro falou com uma forte voz de trovão, mas não foi indelicado. — Bela — disse ele — não tens de me fazer vénias, pois aqui és rainha e senhora. Este palácio e estes jardins, e todos os encantos que encerram, estão às tuas ordens. O meu único desejo é que sejas feliz neste sítio.
Ao ouvir isto, Bela levantou os olhos para ele. Embora o Monstro fosse exactamente como o seu pai tinha descrito, percebeu que ele já não estava zangado.
O Monstro disse: — Tenho uma pergunta para te fazer, Bela. É a única coisa que te perguntarei: Poderás amar-me?
— Infelizmente, pobre Monstro! — disse Bela, pois já estava com pena dele.
— Como poderei algum dia amar alguém como tu?
Ao ouvi-la, o Monstro deu um enorme suspiro e afastou-se tristemente. No dia seguinte, veio ter com Bela à mesma hora e com a mesma pergunta e Bela deu-lhe a mesma resposta; e todos os dias seguintes aconteceu o mesmo.
Entretanto, a vida de Bela no palácio encantado e nos seus jardins era plena de encantos, tal como o Monstro havia prometido. Adorava música, e instrumentos invisíveis tocavam aquilo de que mais gostava. Adorava animais, e pequenos gatinhos persas com pêlo sedoso brincavam aos seus pés, e pequenos cãezinhos corriam à sua frente para onde quer que fosse. Nos jardins, o odor das flores invadia o ar dos sítios por onde passeava, sobretudo o odor das rosas. O canto das cotovias junto da sua janela acordava-a todas as manhãs e, à noite, adormecia ao som do canto do rouxinol.
Bela poderia ter sido feliz, mas estava sempre a pensar no pai. Sabia que ele devia estar a sofrer por ela, pensando que estava morta. E, assim, pediu ao Monstro se podia ir a casa.
— Apenas por três noites — disse ela. — Apenas o tempo suficiente para tranquilizar o meu pai. Depois voltarei para junto de ti.
O Monstro deu um grande suspiro. — Podes ir, Bela — disse ele. — Mas lembra-te de que me sentirei sozinho sem ti. Se ficares longe de mim mais do que três noites, começarei a morrer de solidão.
Depois, deu-lhe um anel mágico e disse-lhe para o pôr ao lado da sua cama antes de adormecer. De manhã, acordaria no lugar em que quisesse estar.
Bela fez o que o Monstro lhe tinha dito e, na manhã seguinte, acordou no seu próprio quarto, em casa do seu pai.
O mercador ficou louco de felicidade ao ver novamente a filha, viva e com saúde, e com bonitas histórias do palácio encantado do Monstro e dos seus encantos. As duas irmãs mais velhas ficaram cheias de inveja e maldade. Conseguiram convencer Bela a ficar mais uma noite do que tinha prometido, dizendo-lhe que o pai precisava muito dela.
Nessa quarta noite, Bela adormeceu e começou imediatamente a sonhar com o Monstro. Ouviu a sua voz, cheia de tristeza: — Não voltaste para junto de mim, Bela, e estou a morrer de solidão.
Imediatamente, e ainda meio adormecida, Bela levantou-se da cama e pegou no anel mágico, colocou-o ao lado da cama e voltou novamente a dormir. Desta vez, acordou no palácio do Monstro, tal como tinha desejado.
Começou logo a procurar o Monstro, chamando-o pelo nome onde quer que fosse. Não o encontrou em lado nenhum. Correu do palácio para os jardins, entre as veredas e os relvados, continuando a chamá-lo. Por fim, chegou a uma vereda no fim da qual havia uma fonte com um grande repuxo de água brilhante e, para lá dela, havia um caramanchão de rosas.
Neste caramanchão, viu o Monstro deitado. Correu e ajoelhou-se ao seu lado. Ele apenas conseguiu murmurar: — Bela, estou a morrer…
— Não! — gritou ela. — Querido Monstro, não podes morrer, pois agora sei que te amo.
Ao ouvir as suas palavras, o Monstro começou a transformar-se num belo e jovem Príncipe.
O Príncipe pegou na mão de Bela e falou-lhe. Tinha uma voz gentil e terna, mas grave, como a voz do próprio Monstro ouvida no sonho. Contou-lhe que, há muito tempo, uma fada má o tinha transformado de Príncipe em Monstro, condenando-o a ficar assim até que alguém o amasse apenas por aquilo que era.
— E tu vieste, Bela — disse o Príncipe — e quebraste o feitiço malvado. Agora amas- me, Bela, e eu amo-te desde que te vi pela primeira vez. Vamos casar-nos imediatamente.
E assim o fizeram, festejando com as mais maravilhosas cerimónias. As irmãs mais velhas de Bela não foram convidadas para o casamento. No entanto, o pai esteve presente e chorou de alegria ao ver a felicidade da filha. E Bela e o Príncipe viveram felizes para sempre.

Clássicos dos Contos de Fadas
Porto, Ed. AMBAR, 1996

 

  • Bela é uma jovem de coração sincero. As irmãs são muito diferentes. Invejosas e mesquinhas, ficam irritadas com a felicidade da Bela e procuram prejudicá-la. O que pensas da atitude dela?
  • Imagina como se terão sentido ao saberem do casamento da irmã com o príncipe, e escreve um pequeno diálogo entre ambas a esse respeito.
  • Conheces um outro conto em que a heroína também tenha sido vítima da inveja de duas irmãs? Queres resumi-lo?

O Flautista de Hamelin – conto com sugestão de actividades

O Flautista de Hamelin

Nunca ouviram, certamente, falar de Hamelin. Não admira. Este nome, de facto, só é conhecido por aqueles que já sabem a lenda do flautista mágico. E como só agora iniciaste a leitura desta história, suponho que o nome «Hamelin» não te diga nada. Por isso, escuta com atenção.
Hamelin é uma cidade. Não tão grande como a vizinha Hanôver. No entanto, é um pouco maior do que uma aldeia. Possui uma bela muralha sobre a qual trepa a hera viçosa, uma catedral com altos pináculos de pedra trabalhada com grande pormenor, e um magnífico palácio municipal, também chamado «o palácio do relógio», porque, bem no centro da sua fachada, se pode admirar um enorme relógio redondo, cujos ponteiros e números são de ouro puro.
A sul da cidade, passa um rio com uma corrente serena e majestosa: o Veser, nas margens do qual os cidadãos costumam passear nos dias de festa, entre altíssimos choupos.
Querem um sítio mais agradável do que este para viver?
No entanto, quando esta história começa – há mais de seis séculos – os habitantes de Hamelin estavam desesperados. E porquê? A resposta é esta: porque a cidade tinha sido invadida pelos ratos.
Os ratos desde sempre lá tinham estado e sempre lá haveriam de estar. Enchiam as caves, os esgotos e os subterrâneos. Mas, como tinham o bom gosto de se manter escondidos, não se dava pela sua presença. E que diriam vocês se, de repente, os ratos – ratos grandes, ratos de esgoto e ratos do campo, ratos cinzentos e ratos de água, em suma, todos os ratos possíveis e imaginários – se fartassem de estar escondidos e, esfomeados, viessem ao ataque? Foi o que aconteceu em Hamelin. Os ratos encheram-se de ousadia, saíram dos seus escuros esconderijos e invadiram tudo. Assaltavam os cães e matavam os gatos, entravam nos berços e mordiam as crianças, comiam o queijo dos caldeirões onde estava o coalho, lambiam a sopa nas conchas das cozinhas, abriam os barris dos arenques salgados e faziam ninhos nos chapéus. A cidade fora invadida por um estranho ruído que cobria qualquer outro som. As paredes das casas vibravam desde os alicerces e, em toda a sua área, tremiam. Era uma mistura de apitos agudos, de guinchos, de chamamentos. Um roçar, um espernear, um ranger contínuo que fazia dores de cabeça.
Ao fim de uma semana, as pessoas já não podiam mais. Os valentes habitantes de Hamelin, impacientes, começaram a dizer:
— Mas, afinal, por que é que a Câmara Municipal não intervém? Eh! Bonito serviço! Temos um presidente da Câmara preguiçoso, uma assembleia que dá vontade de rir. E pensar que viajam com fatos forrados de arminho, que comem e bebem à nossa conta. Agora basta!
E dirigiram-se em conjunto ao palácio do município. Sim, aquele mesmo, o do relógio.
Era dia de sessão. Na sala do Conselho não faltava ninguém: nem o presidente da Câmara – um tipo pequeno mas gordíssimo, com a pele de tal forma esticada que parecia poder rebentar de um momento para o outro, e com uns grandes olhos de carneiro mal morto, sobre os quais as pálpebras caíam como os estores de uma loja à hora de fechar – nem os membros da assembleia. Estes últimos tinham o mesmo aspecto bem alimentado do presidente, o mesmo ar meio adormecido de quem engana, de quem vê as moscas a voar, de quem coça a barriga das pernas, de quem faz desenhos na acta da assembleia. Em suma, um triste espectáculo.
— Parece que estou a ouvir qualquer coisa… um ruído… um barulho na praça…
— disse o presidente.
Levantou-se pesadamente do seu cadeirão e abriu uma das janelas da sala. Melhor seria que o não tivesse feito. Mal assomou à janela, vieram da multidão, não apenas assobios, vaias, ofensas e pragas, como também uma intensa chuvada de frutos, de ovos estragados, de hortaliças. Um verdadeiro dilúvio!
— Basta, velhos gordalhaços! — ouvia-se gritar. — Têm de encontrar uma solução. Pensam que os elegemos para mandriarem de manhã à noite? Arranjem uma solução ou, então, expulsá-los-emos daí!
Aterrado com aquela espécie de revolução, o presidente fechou a porta o mais rápido que lhe foi possível, mas não o suficiente para evitar que um chorrilho de maçãs podres se fosse esborrachar nos bancos dos conselheiros.
— Ai de mim, senhores! — exclamou, então, o gordo homenzinho. — Era capaz de vender este uniforme por dez tostões, acreditem! Ah! Se eu pudesse estar a milhas daqui! «Digam, façam…» É fácil ordenar a uma pessoa que puxe pela cabeça. Mas o que havemos de inventar agora? Tenho uma enorme dor de cabeça… E depois… E depois é quase meio-dia, já estou a sentir um bocadinho de fome. E agora, senhores?
Naquele preciso instante ouviu-se um estranho rumor, proveniente da porta da entrada. Parecia um esfregar contínuo e abafado.
— Quem é? Serão os ratos? Quem quer que seja, entre!
A porta entreabriu-se e, na sala do Conselho, entrou a personagem mais extraordinária que já se viu em Hamelin desde o ano da sua fundação. Vestia um manto longuíssimo, dividido em dois, metade amarelo e metade vermelho. A sua estatura era alta, magra e seca. Tinha os olhos azuis e penetrantes como alfinetes, a cabeleira longa e fina, vermelho-escura. No seu rosto, sem barba nem bigode, exibia um estranho sorriso.
— Por Deus! — exclamou um conselheiro. — Mas quem é este? Um bobo que escapou da feira de Hanôver?
— A mim — acrescentou um outro — lembra-me a figura que fará o meu bisavô João Joaquim quando, no dia do juízo, ressuscitar do seu túmulo frio.
O homem dirigiu-se lentamente para as cadeiras do Conselho e disse:
— Que vossas Excelências se dignem escutar-me. O acaso quis que eu fosse dotado de um poder mágico. Por esse meio posso atrair todas as criaturas que existem na terra. E quando digo «todas», são mesmo todas: todos os seres que rastejam, que voam, que nadam e que correm, das toupeiras aos sapos, dos leitões às víboras. As pessoas chamam-me «o Flautista Mágico»…
Chegado a este ponto, o estranho indivíduo deteve-se por um instante, virando o seu olhar para os conselheiros. Sentindo mal-estar sob aquele olhar penetrante, que parecia atravessar-lhes os corpos maciços, os conselheiros baixaram as cabeças para verem o que o flautista trazia pendurado numa faixa amarela e vermelha, tal como o manto: uma flauta, longa e fina. As mãos do dono, também elas longas e finas, acariciavam-na com gestos ágeis e nervosos. Enquanto percorriam os furos do instrumento, os dedos pareciam impacientes por lhe arrebatarem, quem sabe, uma melodia extraordinária…
O flautista continuou:
— Neste mês de Junho, na Tartária, libertei o Grande Khan do enorme enxame de moscas que incomodava a população. Libertei a região de Nizam, na Índia, de um terrível bando de vampiros. E no ano passado, o califa de Bagdade, vendo o seu reino devastado por uma praga de gafanhotos, mandou-me chamar. Agora, se quiserem, vão até lá e vejam se encontram um gafanhoto, num raio de cem milhas! Naturalmente — recomeçou depois de uma breve pausa — cada coisa tem o seu preço. Se eu libertar a vossa cidade dos ratos dão-me, digamos, mil florins de ouro?
— Só mil? Mas cinquenta mil é quanto te daremos, sim, cinquenta mil! — exclamou o presidente com entusiasmo.
— Cinquenta mil, cinquenta mil! — disseram também os conselheiros.
Sem acrescentar palavra, o flautista deu meia volta e saiu para a praça. Erguendo a flauta, franziu os lábios, como fazem os músicos virtuosos. No seu olhar penetrante brilhava uma chama, ora esverdeada, ora azulada, da cor do fogo quando se lhe deita um punhado de sal. E, antes que o instrumento tivesse entoado três notas, ao longe começou a ouvir-se um murmúrio, como se um exército marchasse a grande distância. Depois, o ribombar transformou-se num estrondo poderoso, que sacudia as casas e as estradas.
Os ratos! Os ratos saíam! Ratos grandes, ratinhos minúsculos, ratos magros como anchovas, ratos robustos como porcos, ratos castanhos, ratos pretos, ratos cinzentos, ratos ruivos, ratos pomposos marchando compassadamente… ratos jovens e vivos, pais, mães, tios, primos… abanavam os rabos, endireitavam os bigodes e marchavam. Vinham em famílias, em grupos, em pelotões, em multidões, em exércitos.
E todos seguiam o flautista.
O homem avançava de rua em rua sem se voltar para trás, absorto na sua música. E os ratos, atrás, correndo, dançando, arrastando-se uns aos outros. Quando, enfim, o flautista saiu pela porta sul, estava a poucos passos do rio Veser, e aí ficou parado, mas a enorme multidão que o seguia, não. Era um espectáculo extraordinário ver aquela quantidade enorme de ratos a precipitar-se, de mergulho, no rio. A corrente do Veser fervilhava de patas, de rabos, de bigodes, de dorsos. Em poucos minutos, em Hamelin não havia nem um daqueles invasores!
O que é que tinha acontecido exactamente? Parecia que o único a escapar daquela matança, um gordo rato de água, contou, mais tarde, a alguns amigos seus de Hanôver, onde se tinha refugiado:
— As primeiras notas da flauta pareciam o rumor de um saboroso osso de porco a ser raspado. Logo de seguida, o de maçãs maduras, postas sobre a prensa para se fazer sidra; depois, um chiar como o das tinas de picles a abrirem-se, como um armário cheio de marmelada a entreabrir-se ou como o de rolhas de garrafões de óleo quando são destapados. Parecia que uma voz celestial me dizia: «Regozijem-se, bons ratos! Ruminem, trinquem, roam, devorem! Eis tudo junto e de uma só vez: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar!» E quando estava a ver-me diante de um barril de açúcar branco, cujo conteúdo brilhava como a lua cheia, dei comigo, de repente, nas profundas águas do Veser a fazer tudo para não me afogar.
Mas voltemos a Hamelin. Os habitantes da cidade pareciam loucos: riam, dançavam, saltavam. Alguns precipitaram-se para o campanário e começaram a tocar o sino para a festa, outros abriram pipas da melhor cerveja e brindaram com canecas que, de tão grandes, pareciam baldes. Enfim, uma alegria nunca antes vista! E o presidente? Ora, o gordalhão preguiçoso comandava e fazia alarido:
— Vamos! — gritava. — Ponham tábuas a tapar os ninhos! Fechem até o buraco mais pequeno. Que dos ratos não fique nem o rasto!
De repente, eis que o flautista aparece na praça do mercado. Aproximou-se do presidente e dos seus conselheiros e disse:
— Sim, sim, está tudo bem, mas primeiro, por favor, eu queria os meus mil florins…
— Mil florins?
O presidente perdeu as boas cores que tinha, empalideceu, e os conselheiros, de repente silenciosos, olhavam fixamente para ele, como se o flautista não existisse. Haviam de pagar mil florins àquele vagabundo do manto vermelho e amarelo, quando o vinho do Reno custava esse dinheiro? Que restaria para os senhores da assembleia poderem festejar condignamente o acontecimento?
— Bom homem — disse, por fim, o presidente — a praga dos ratos é agora só uma recordação. Os ratos nunca mais hão-de voltar. Claro que queremos recompensar-te. Mas, mil florins! Repara que era uma brincadeira. Portanto, toma estes cinquenta florins, bebe à nossa saúde e vai com Deus!
A cara do flautista ficou negra como o carvão. E disse:
— Não foi brincadeira nenhuma, caros senhores! À hora das refeições sou hóspede do califa de Bagdade. Ele sim, é uma pessoa reconhecida, e não tenho um minuto a perder. Avarentos e ingratos como são, não esperem que lhes faça um desconto. E lembrem-se: quem se comporta comigo deste modo, arrisca-se a que eu comece a tocar a flauta com intenções bem diferentes.
— Como!? — gritou o presidente. — Como te atreves, seu vadio horroroso? Quem és tu? Pensas que impressionas alguém, com essa flauta inútil e esse fato de bobo? Vá, vá, toca a tua bela flauta até ela se partir .
Sem acrescentar uma palavra, o flautista voltou-se, colocando, de novo, a sua flauta nos lábios. Começou a caminhar e, antes que tivesse entoado três notas, três notas apenas, um alegre murmúrio percorreu a cidade de Hamelin. Eram pezinhos que avançavam velozes, tamancos que ressoavam no empedrado, mãos que aplaudiam, vozes de crianças que falavam alegremente. Todos os meninos e meninas da cidade, de faces rosadas, olhos cintilantes e dentes brancos como pérolas, seguiam em bando, rindo alegremente, a música do flautista.
Ao ver isto, o presidente emudeceu e os membros da assembleia ficaram quietos de espanto, imóveis como pedras. Entretanto, o flautista percorreu a rua principal e encaminhou-se para o Weser, levando atrás de si todas as crianças de Hamelin. E já as pessoas choravam e arrancavam os cabelos, acreditando que os filhos teriam o mesmo fim que os ratos encantados, quando o homem vestido de amarelo e vermelho mudou de rumo, para oeste, em direcção à colina de Koppelberg, que domina a cidade.
Então, todos soltaram um suspiro de alívio:
— Vai parar, vão ver! — diziam. — Não pode escalar o Koppelberg…
Mas eis que, chegado ao sopé do monte, o alegre cortejo parou um instante. Um enorme portal se abriu de par em par, na base da colina, engolindo o flautista e o seu séquito e fechando- se quando a última criança o atravessou.
Dissemos «a última»? Não, desculpem, enganámo-nos. Uma daquelas crianças ficou para trás. Regressou à cidade a chorar e disse à mãe que a abraçava:
— Ah! O que eu perdi! Olha, o flautista estava a levar-nos para o País da Felicidade. Lá as águas jorram límpidas, as flores têm cores maravilhosas, os pardais são mais sarapintados do que os pavões, as abelhas não têm ferrão, os cavalos têm asas. Ai de mim! Como sou infeliz!
Ouvindo aquelas palavras, muitos se lembraram das palavras de Jesus: É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos Céus. Todos se arrependeram da avareza que tinham mostrado. O presidente enviou mensageiros para Norte e para Sul, para Oriente e para Ocidente, mas em vão. Nunca mais se encontrou o rasto, nem do flautista, nem das crianças de Hamelin. E, a partir daquele dia, em memória do terrível acontecimento, nos documentos oficiais de Hamelin, depois da data, pôde ler-se: Mas recordamos tudo o que aconteceu no dia vinte e dois de Julho de 1376. E não só. Em frente ao local onde se abrira o portal mágico, o município mandou erigir uma coluna, e quem hoje visita a catedral de Hamelin pode ver nos seus vitrais a história do flautista mágico.
Mas, afinal, o que é que aconteceu às crianças encantadas? Não se sabe. Porém, não podemos deixar de dizer que, nos montes da Transilvânia, existe uma aldeia de estrangeiros. São altos, louros e corados. Os seus vizinhos contam que os seus antepassados eram provenientes de uma cidade longínqua chamada Hamelin, perto de Hanôver. Mas não sabem explicar como e por que é que chegaram ali, à remota Transilvânia…
Talvez haja, nesta história, qualquer coisa para aprender. A minha opinião é que devemos pagar as nossas dívidas a todos, especialmente ao flautista. E, se alguém tocar flauta para nos libertar dos ratos, depois de lhe termos prometido alguma coisa, é conveniente mantermos a palavra dada.

Robert Browning
Os mais belos contos do mundo
Porto, Livraria Civilização, 1994

 

  • Os dirigentes da cidade achavam-se pessoas muito importantes. No entanto, não sabiam governar nem se preocupavam com os cidadãos; além disso, tinham vários defeitos. Queres indicá-los?
  • E tu, achas que tens algum desses defeitos?
  • Recordas-te de teres, alguma vez, faltado à tua palavra?
  • Por momentos, fecha os olhos… e tenta descrever o que vês no País da Felicidade.