A Polegarzinha – conto com sugestão de actividades

A Polegarzinha

Era uma vez uma mulher que desejava muito ter um filho, mas não sabendo como fazer para o conseguir, foi ter com o génio da floresta e disse-lhe:
— Queria ter um filho; diz-me o que devo fazer.
— Não é difícil — respondeu o génio. — Toma este grão de cevada, mas não é um grão de cevada como a que nasce nos campos ou a que se dá às galinhas. Mete-a num vaso de flores, e verás.
— Obrigada — disse a mulher. Depois, voltou para casa e semeou o grão de cevada.
Daí a poucos dias, viu sair da terra uma enorme flor, parecida com uma tulipa, mas ainda em botão.
— Que linda flor! — disse a mulher, beijando as pétalas vermelhas e amarelas. E, no mesmo instante, a flor abriu-se, fazendo muito barulho. Via-se agora que era realmente uma tulipa; mas no interior vermelho e branco estava sentada uma menina muito linda, da altura de um dedo polegar. Por isso, deram-lhe o nome de Polegarzinha.
Meteram-na dentro de um berço feito de uma casca de noz envernizada, com um colchão de folhas de violeta, e o cobertor era uma pétala de rosa. Durante a noite, a menina dormiu naquele berço, mas, no dia seguinte, já estava a brincar em cima da mesa onde a mulher punha um prato cheio de água com uma grinalda de flores à volta. Dentro do prato, boiava uma folha de tulipa onde a menina podia sentar-se e navegar de um lado ao outro, servindo-se, como remos, de duas crinas de cavalo branco.
Ficava encantadora assim, e depois, sabia cantar tão bem, que nunca se ouvira uma voz igual.
Certa noite, enquanto dormia, um horrível sapo entrou no quarto por um vidro partido e saltou para cima da mesa onde a Polegarzinha estava deitada no berço, coberta com a pétala de rosa.
— Que linda menina para o meu filho! — disse o sapo. Pegou na casca de noz, e, saltando pelo mesmo vidro partido, levou a menina para o jardim.
Havia ali um grande rio, que estava ligado por um braço de água a um pântano. E era nesse pântano que vivia o sapo com o filho. Sujo e viscoso, o filho era tal e qual o pai.
— Coac! Coac! Crrr-crr-crr! — coaxou ele, ao ver a linda menina dentro da casca de noz.
— Não fales tão alto, para não a acordares — disse o velho sapo. — Podia escapar-nos, porque é mais leve do que uma pena de cisne. Vamos pô-la sobre uma folha de nenúfar, mesmo no meio do rio. Assim, ficará numa verdadeira ilha, e já não poderá fugir. Entretanto, preparamos no fundo do pântano o quarto para as vossas núpcias.
Depois, o sapo saltou para dentro da água, escolheu uma enorme folha de nenúfar que estava presa ao fundo pelo pé, e pôs-lhe em cima a casca de noz onde dormia Polegarzinha.
Quando, no outro dia de manhã, a pobre menina abriu os olhos, viu onde estava e começou a chorar amargamente, porque se encontrava rodeada de água por todos os lados, e não podia voltar para terra.
O velho sapo, depois de ter enfeitado, com juncos e flores amarelas, o quarto nupcial no fundo do pântano, nadou, mais o filho, em direcção à folha onde estava Polegarzinha, para levar o berço de casca de noz para o quarto. Fez uma delicada vénia dentro de água em frente da menina e disse:
— Apresento-te o meu filho e teu futuro esposo. Preparei para vocês um quarto magnífico no fundo do pântano.
— Coac! Coac! Crrr-crr-crr! — acrescentou o filho.
Em seguida, pegaram no berço e afastaram-se, enquanto Polegarzinha ficava só, em cima da folha verde, chorando muito ao pensar naquele sapo tão feio, e no casamento horrível que a esperava.
Mas os peixes tinham ouvido o que dissera o sapo, e ficaram cheios de vontade de conhecer a menina. E assim que a viram, acharam-na logo mal empregada para casar com um sapo tão feio. Não podia ser! Então, juntaram-se em volta do pé que segurava a folha, cortaram-no com os dentes, e a folha soltou-se e levou a menina pelo rio abaixo, tão longe que os sapos não conseguiram apanhá-la.
Polegarzinha foi passando por diferentes sítios, e as aves dos bosques cantavam ao vê-la: “Que linda menina!” A folha continuava a boiar para longe, cada vez mais para longe. Era uma verdadeira viagem de recreio.
No caminho, uma enorme borboleta branca começou a bater as asas em volta dela e acabou por pousar na folha, cheia de espanto pela beleza da menina. Polegarzinha estava toda contente por ter escapado ao horrível sapo, e apreciava todas as maravilhas da natureza em seu redor, e a transparência da água, que o Sol fazia brilhar como prata. Tirou a fita que trazia à cintura, amarrou uma ponta à borboleta, a outra à folha, e avançou ainda mais depressa.
De repente, apareceu um grande besouro, e, ao vê-la, pegou nela com as patas e levou-a para cima de uma árvore.
Calcule-se o susto da pobre Polegarzinha quando o besouro a levou para cima da árvore! Este sentou-a na folha maior da árvore, ofereceu-lhe suco de flores, e, apesar de a menina não se parecer com um besouro, fez muitos elogios à sua beleza.
Daí a pouco, todos os outros besouros que viviam na mesma árvore vieram visitá-la. As meninas besouras, quando a viram, começaram a mexer muito as antenas e disseram:
— É aleijada! Só tem duas pernas.
— E não tem antenas — disse uma delas. — É tão magra, que parece um homem. Que horror!
Todavia, Polegarzinha era encantadora. Mas, apesar do besouro que a tinha raptado a achar linda, ao ouvir os outros, acabou por a considerar feia e não quis saber mais dela. Por isso, fizeram-na descer da árvore e deitaram-na em cima de um malmequer, deixando-a em liberdade.
A menina começou a chorar por os besouros a terem achado feia, mas as lágrimas tornavam-na mais linda do que nunca.
Polegarzinha passou assim o Verão sozinha no interior da floresta. Fez uma cama com palhas e pendurou-a num ramo de árvore, ao abrigo da chuva. Alimentava-se do suco das flores e bebia o orvalho que escorria das folhas ao amanhecer.
Passou-se assim o Verão e o Outono; mas chegou o Inverno, um Inverno duro e rigoroso. Todas as aves que a tinham distraído com o seu canto desapareceram, as árvores ficaram nuas, as flores murcharam, e o ramo onde colocara a cama feita de palhas já não lhe oferecia abrigo.
A pobre menina sentia cada vez mais frio, porque as roupas que usava estavam em farrapos. Depressa chegou a neve, e cada floco que caía em cima dela gelava-a como se fosse um nevão. Ainda que se envolvesse com folhas secas, não conseguia aquecer. Quase morria de frio. Perto da floresta havia um grande campo de trigo, mas só restavam as hastes saindo da terra gelada. E foi para a menina como se caminhasse novamente pelo meio de uma floresta.
A tremer de frio, chegou à toca de um rato do campo. Entrava-se por um pequeno buraco, escondido entre as palhas. O rato estava bem instalado, tinha a despensa cheia de grãos, uma linda cozinha e uma sala de jantar. Polegarzinha apresentou-se à porta e pediu um grão de trigo, porque ainda não comera nada naquele dia.
— Pobre menina! — disse o velho rato do campo, que, no fundo, tinha bom coração. — Vem comer comigo lá dentro. Está muito quentinho.
Depois, simpatizou com Polegarzinha, e acrescentou:
— Deixo-te passar cá o Inverno, mas com a condição de teres o meu quarto sempre limpo e de me contares histórias bonitas. Eu adoro histórias.
A menina aceitou a proposta, e não se arrependeu.
— Vamos ter uma visita — disse um dia o velho rato. — O meu vizinho costuma visitar-me uma vez por semana. Ele ainda vive melhor do que eu: tem grandes salões e usa uma peliça de veludo. Se ele quisesse casar contigo, serias muito feliz, porque ele não vê nada, e assim podias fazer tudo o que te apetecesse. Conta-lhe as histórias mais bonitas que souberes.
Mas a Polegarzinha não estava interessada em casar com o vizinho, porque ele era uma toupeira. Coberta com a sua peliça de veludo negro, a toupeira não tardou a aparecer. Falou da sua riqueza e instrução, mas disse mal das flores e do Sol, porque nunca os tinha visto. Polegarzinha cantou-lhe várias canções, entre elas: Fui ao jardim Celeste e Rosa branca ao peito. A toupeira, encantada com a sua linda voz, quis logo combinar a data do casamento, mas a menina, que era uma pessoa de juízo, não respondeu que sim nem que não.
Para ser agradável aos vizinhos, a toupeira convidou-os para passearem, sempre que quisessem, no grande túnel que acabava de abrir entre duas das suas moradias, mas disse-lhes que não se assustassem com um pássaro morto que ali fora enterrado no princípio do Inverno.
A primeira vez que os vizinhos aceitaram o amável convite, a toupeira caminhou à sua frente por um corredor escuro e comprido, levando na boca um pedaço de madeira velha que espalhava reflexos fosforescentes, para os alumiar. Quando chegou ao sítio onde jazia o pássaro morto, arrancou com o focinho um bocado de terra do tecto da galeria, abrindo assim um buraco por onde entrou a luz. No meio do corredor estava estendido o corpo de uma andorinha, morta certamente de fome, com as asas unidas ao corpo, e a cabeça e os pés escondidos entre as penas. Este espectáculo impressionou muito Polegarzinha; ela gostava dos passarinhos, que durante todo o Verão a tinham alegrado com os seus cantos! Mas a toupeira empurrou a andorinha com as patas e disse:
— Esta já não canta mais! Que infelicidade ter-se nascido pássaro! Graças a Deus que os meus filhos estão livres de semelhante destino. Estas criaturas só passam o Verão a cantar, e durante o Inverno morrem de fome.
— Diz muito bem! — respondeu o velho rato. — Com cantigas ninguém se governa e acaba na miséria, e ainda há quem se gabe de saber cantar.
Polegarzinha não disse nada, mas assim que os outros dois voltaram as costas, inclinou- se sobre a ave, e, afastando as penas que lhe escondiam a cabeça, beijou-lhe as pálpebras fechadas.
— Talvez esta andorinha seja a mesma que cantou para mim o Verão passado; pobre andorinha, como eu tenho pena de ti!
A toupeira, depois de tapar o buraco, acompanhou as visitas a casa. Sem poder dormir toda a noite, Polegarzinha levantou-se e entrançou uma linda esteira de feno, levou-a para o túnel e estendeu-a sobre o passarinho morto. Depois, colocou-lhe debaixo da cabeça um bocado de algodão que encontrara na toca do rato, como se tivesse receio que a humidade fizesse mal àquele corpo morto.
— Adeus, andorinha, adeus para sempre! — disse ela.— Obrigada pelo teu canto, que me alegrava durante o Verão, quando eu podia admirar o verde do bosque e aquecer-me ao sol.
Dizendo estas palavras, encostou a cabeça ao peito da andorinha, mas levantou-se imediatamente, muito assustada. Tinha ouvido um leve bater: era o coração da ave, que não estava morta, mas apenas entorpecida, e que, com o calor, tornava a viver.
No Outono, as andorinhas voltam para os países quentes e, se alguma se atrasa no caminho, cai como morta e é coberta pela neve. Polegarzinha tremia ainda de medo; comparada com ela, que não tinha mais do que uma polegada de altura, a andorinha parecia um gigante. Mas encheu-se de coragem, apertou bem o algodão em volta da ave, foi buscar uma folha de hortelã, que lhe servia de manta, e pôs-lha por cima.
Na noite seguinte, quando se dirigiu de novo para junto da doente, encontrou-a viva, mas com tão poucas forças que mal abriu os olhos um instante para ver a menina, que levava, para se alumiar, apenas um bocado de madeira fosforescente.
— Obrigada, linda menina — disse a ave, com voz fraca. — Deste-me um pouco de calor. Em breve terei novamente forças para voar ao sol.
— Ainda faz muito frio lá fora — respondeu Polegarzinha. — A terra está gelada. Deixa-te ficar na cama. Eu tomo conta de ti.
Em seguida, trouxe-lhe água numa pétala de flor. A avezinha bebeu e contou-lhe como rasgara uma asa num arbusto cheio de espinhos, e não pudera seguir as companheiras até aos países quentes. Acabara por cair, e daí para diante não se lembrava de mais nada.
Durante todo o Inverno, às escondidas da toupeira e do rato, a menina tratou da andorinha com o maior cuidado. Quando chegou a Primavera, e o Sol começou a aquecer a terra, a ave disse adeus a Polegarzinha, que tornou a abrir o buraco feito pela toupeira no tecto. A andorinha pediu à menina que a acompanhasse até à floresta, montada nas suas costas. Mas Polegarzinha sabia que a sua partida causaria desgosto ao velho rato do campo.
— Não posso — disse ela.
— Então, adeus, adeus, linda menina! — respondeu a andorinha, voando ao sol. Polegarzinha viu-a partir, com lágrimas nos olhos; já gostava tanto daquela andorinha!
— Cuí-cuí ! — trinou ainda uma vez a andorinha, que depois desapareceu nos ares.
O desgosto de Polegarzinha foi ainda maior porque nunca mais pôde sair para a floresta e aquecer-se ao sol. O trigo crescia por cima da casa do rato do campo, e era para a menina, que tinha uma polegada de altura, uma verdadeira floresta.
— Este Verão vais fazer o teu enxoval — disse-lhe o rato, porque a toupeira da peliça negra tinha pedido a mão de Polegarzinha.
— Para casares com a toupeira, tens de estar bem fornecida de vestidos e roupas.
A menina foi obrigada a pegar na roca, e além disso o rato do campo contratou quatro aranhas que fiavam todo o dia sem descanso. À tarde, a toupeira visitava-os e falava-lhes do problema do Verão, que torna a terra abrasadora e insuportável. Por isso, o casamento só se faria no fim da estação. Entretanto, Polegarzinha ia todos os dias à porta, ao nascer e ao pôr do Sol, e olhava, através das espigas agitadas pelo vento, o azul do céu, admirando a natureza e pensando na sua querida andorinha; mas a andorinha estava longe, e talvez nunca mais voltasse.
Chegou o Outono, e Polegarzinha acabara o seu enxoval.
— Daqui a quatro semanas é o casamento! — disse-lhe o rato. E a pobre menina chorou, porque não queria casar com a toupeira.
— Que parvoíce! — exclamou o rato. — Não sejas teimosa, se não dou-te uma dentada. Devias ficar muito contente por casar com um animal que tem uma peliça que faria a inveja do próprio rei. Devias agradecer a Deus por ires ter uma cozinha e uma adega tão bem fornecidas.
E chegou o dia da boda.
A toupeira apresentou-se para levar Polegarzinha para debaixo da terra, onde ela não tornaria a ver o Sol, porque o marido não podia suportar a luz. Em casa do rato do campo, ao menos a menina podia ir até à porta.
— Adeus, amigo Sol! — disse ela, muito aflita, levantando os braços. — Adeus para sempre! Estou condenada a viver, daqui em diante, num buraco triste onde nunca mais sentirei o teu calor.
Depois, deu alguns passos para fora de casa, porque já tinham ceifado o trigo, e só restava o colmo.
— Adeus, adeus! — disse ela, abraçando uma florinha vermelha. — Se por acaso vires a andorinha, dá-lhe saudades da minha parte.
— Cuí-cuí ! — ouviu ela gritar no mesmo instante.
Levantou a cabeça e viu que era a andorinha que ia a passar. A ave sentiu a maior alegria ao ver Polegarzinha; desceu rapidamente, repetindo o seu alegre cuí-cuí, e veio pousar junto da sua benfeitora. A menina contou-lhe que queriam obrigá-la a casar com a toupeira, que vivia debaixo da terra, onde nunca entrava o Sol. Enquanto dizia isto, chorava lágrimas em fio.
— Está a chegar o Inverno — disse a andorinha. — Volto para os países quentes; queres vir comigo? Sobes para as minhas costas e amarras-te bem pela cintura. Fugiremos para bem longe dessa toupeira e da escuridão da casa dela, para lá das montanhas, onde o Sol ainda é mais brilhante do que aqui, onde o Verão e as flores são eternos. Vem comigo, linda amiga, tu, que me salvaste a vida, quando eu estava enterrada naquele túnel sombrio, meio morta de frio.
— Sim, vou contigo! — disse Polegarzinha. E sentou-se nas costas da ave e amarrou o cinto a uma das penas mais fortes da andorinha. Depois, foi levada por sobre a floresta e o mar, e as altas montanhas cobertas de neve.
Polegarzinha sentiu frio; mas aconchegou-se debaixo das penas quentes da ave, espreitando só com a cabeça para admirar as belezas que deslizavam lá em baixo.
Foi assim que chegaram aos países quentes, onde as vinhas, com os seus cachos vermelhos e amarelos, crescem por toda a parte, onde se vêem extensos pomares de limoeiros e laranjeiras, onde mil plantas maravilhosas exalam os seus perfumes. Ao longo das estradas, as crianças corriam atrás de borboletas multicores.
Um pouco mais adiante, a andorinha parou junto de um lago azul onde se espelhava um antigo castelo de mármore, rodeado de colunas cheias de parreiras. No alto havia uma quantidade de ninhos.
Um destes ninhos pertencia à andorinha que levava a menina.
— Aqui tens a minha casa — disse a ave. — Mas não é conveniente que fiques a morar comigo. Além disso, não estou preparada para te receber. Escolhe tu mesma uma flor que te agrade. Levo-te até lá, e farei os possíveis para que passes um tempo agradável.
— Que bom! — respondeu Polegarzinha, batendo palmas.
Enormes flores brancas, lindíssimas, cresciam por entre os restos de uma coluna caída, e foi numa dessas flores que a andorinha deixou ficar a menina.
Polegarzinha estava radiante com toda a beleza que a rodeava naquele lugar encantador.
Mas, qual não foi o seu espanto, quando, sentado no meio da flor, viu um homem vestido de branco e transparente como o vidro, que não tinha mais do que uma polegada de altura. O homenzinho usava uma coroa na cabeça, e das costas saíam-lhe duas asas brilhantes.
Era o génio da flor; cada flor servia de palácio a um homem e a uma mulher muito pequeninos. E aquele era o rei de todos os outros.
— Como ele é bonito! — disse Polegarzinha à sua amiga.
Ao ver a ave, que lhe pareceu enorme, o principezinho primeiro assustou-se, mas encheu- se de coragem ao ver Polegarzinha, que achou a menina mais linda do mundo. Pôs-lhe na cabeça a sua coroa de ouro, perguntou-lhe como se chamava, e se ela queria casar-se com ele. Que marido, em comparação com o sapo e com a toupeira da peliça negra! Aceitando-o, tornava-se a rainha das flores!
Por isso, aceitou-o, e daí a pouco recebia a visita de uma multidão de senhores e damas que saíam de todas as flores para lhe oferecerem presentes. Mas o que lhe deu maior prazer foi um par de asas transparentes que tinham pertencido a uma grande mosca verde. Puseram-lhas nas costas e, assim, Polegarzinha pôde voar de flor em flor.
Entretanto, a andorinha, no alto da latada, trinava as suas mais lindas canções; mas sentia no fundo do coração uma enorme pena por ser obrigada a separar-se da sua benfeitora.
— Nunca mais te chamarás Polegarzinha — disse-lhe o génio da flor. — Esse nome é muito feio, e tu és bonita, tão bonita como deve ser a rainha das flores. A partir de hoje, passarás a chamar-te Maia.
— Adeus, adeus! — disse a andorinha, voando em direcção à Dinamarca.
E quando lá chegou, foi direita ao ninho que deixara no beiral da janela onde o autor destes contos esperava o seu regresso.
— Cuí-cuí! — trinou ela.
E foi assim que eu fiquei a saber esta história.

Contos de Andersen
Porto, Ed. AMBAR, 2002

  • A minúscula menina é tão bonita exteriormente como interiormente. Concordas? Queres dizer por que motivo?
  • Como tiveste ocasião de verificar, a toupeira mostra pouca simpatia em relação à andorinha.
    O que diz ela a seu respeito?
  • E tu, estás de acordo com a toupeira?

As roupas novas do imperador – conto com sugestão de actividades

As roupas novas do imperador

Há muitos anos havia um imperador que achava que roupas finas e novas eram tão importantes que nelas gastava todo o seu dinheiro. Não se preocupava com o seu exército, ou em ir ao teatro, ou em caçar na floresta, a não ser que isso representasse uma oportunidade para exibir as suas vestimentas novas. Tinha um fato diferente para cada hora do dia, e em vez de se dizer, em relação ao imperador, “Ele está reunido em conselho”, dizia-se, “Ele está no quarto de vestir”.

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O rouxinol do imperador – conto com sugestão de actividades

O rouxinol do imperador

Na China de outros tempos, certo imperador vivia no palácio mais extraordinário, todo de porcelana fina, de magnificência sem igual. O jardim circundante exibia as flores mais raras, e as que se distinguiam pela sua beleza tinham campainhas de prata que, tocando, chamavam a atenção de quem passava.
Tudo era maravilhoso no jardim do imperador. Estendia-se para longe, até à floresta de grandes árvores e lagos azuis que, por sua vez, descia até ao mar, de tal modo profundo que os grandes barcos ali passavam. Nos ramos das árvores habitava um rouxinol. Cantava tão bem que os pescadores, ao ouvi-lo, quase esqueciam o trabalho.
De toda a parte acorria gente a visitar a cidade, o palácio e os jardins do imperador. Achavam tudo maravilhoso, mas depois de ouvirem a extraordinária ave, diziam:
—O melhor de tudo é o rouxinol!
De regresso às suas terras, essa gente falava da cidade, do palácio e dos jardins. Os escritores e os poetas escreviam livros sobre tais maravilhas, dando sempre especial relevo ao rouxinol.
Estes livros correram mundo e alguns chegaram às mãos do imperador. Vestido de seda, sentado em belos cochins, lia com agrado o que se dizia dos seus domínios, mas, chegado ao fim, lá estava o remate:
— Entre tantas maravilhas, o rouxinol é a maior.
Um dia, o imperador mandou chamar o primeiro-ministro e disse-lhe:
— O que vem a ser isto? Como é possível existir, sem que eu o saiba, essa ave chamada rouxinol, que estes livros consideram o que há de melhor no meu império? Por que razão ainda não a vi?
— Nunca ouvi falar nela — respondeu o primeiro-ministro.
— Quero-a aqui esta noite, a cantar para mim. Só isto me faltava! O mundo inteiro sabe o que tenho, menos eu!
— Será cumprido o vosso desejo, real senhor — respondeu o primeiro-ministro, curvando-se. — Vou …
No palácio, ninguém conhecia o rouxinol. Por mais que perguntasse, nada conseguiu saber.
Voltou o primeiro-ministro ao imperador:
— Saiba Vossa Majestade que tal ave não existe. Deve ser invenção de quem escreveu esses livros!
— Não pode ser falso o que se diz nos livros enviados pelo meu amigo, o imperador do Japão. Portanto, quero aqui o pássaro esta noite, sob pena de toda a corte ser castigada!
De novo o primeiro-ministro subiu e desceu escadas, correu por aqui e por ali à procura de notícias do rouxinol, conhecido no mundo inteiro mas ignorado no palácio.
Por fim, encontraram na cozinha uma rapariga que exclamou:
— Oh, meu Deus! O rouxinol? Conheço-o muito bem! Quando, à noite, me dirijo para junto da costa, para levar a minha mãe os restos de comida que aqui me dão, oiço sempre essa maravilhosa ave, cujo doce cantar me traz lágrimas aos olhos.
— Pequena ajudante de cozinha — disse o primeiro-ministro — obterás o título de cozinheira, se me levares junto dele. Tenho de o trazer aqui esta noite!
Metade da corte (com medo do castigo, é claro) foi para a floresta à procura do rouxinol. No caminho ouviram uma vaca mugir. Certo cortesão, já radiante, exclamou:
— Ei-lo!
— Não, é uma vaca! — disse a rapariga. — Ainda estamos longe.
Daí a pouco ouviu-se o coaxar das rãs, nos pântanos.
— Encantador! — disse o capelão do palácio.
— Não, são as rãs a coaxar! — explicou a ajudante de cozinha. — Mas não tarda que o ouçamos.
Agora é ele! — disse a rapariga, daí a pouco. — Escutai, por favor!
De facto, o rouxinol cantava e todos viram um passarinho de cores discretas que, aos rogos da rapariga, cantou ainda melhor. E foi muito admirado.
Tendo consentido de boa vontade em mostrar a sua voz para deleite do imperador, foi recebido com grandes honras no palácio de porcelana, ao brilho de milhares de velas. Na grande sala onde o imperador se encontrava, colocaram um poleiro de ouro. Todos admiraram o seu canto mavioso.
O imperador tinha lágrimas nos olhos, de comovido, e foi esta a melhor recompensa para a ave. Nunca o esqueceria.
O êxito do rouxinol na corte foi extraordinário. E ficou decidido que o rouxinol ficaria na corte e teria uma gaiola só para ele. Tinha licença de dar um passeio duas vezes por dia e uma vez à noite, acompanhado de doze criados. Cada criado segurava uma fita de seda cuja ponta estava atada a uma das patas do passarinho. Passear nessas condições não devia ter mesmo graça nenhuma.
Certo dia chegou, endereçada ao imperador, urna grande caixa onde estava escrito: Rouxinol.
— Eis certamente outro livro sobre o célebre pássaro — disse o imperador.
Mas não era um livro. Dentro, vinha um rouxinol mecânico semelhante ao verdadeiro, coberto de diamantes, de rubis e de safiras. Quando lhe davam corda, cantava, movia a cauda e lançava chispas de luz. Trazia em volta do pescoço uma fita onde se lia: O rouxinol do imperador do Japão não passa de uma modesta imitação do rouxinol do imperador da China.
— Que lindo é! — exclamavam todos, entusiasmados, ao vê-lo e ouvi-lo.
— Ponham ambos a cantar ao mesmo tempo! — mandou o imperador.
Mas o pássaro verdadeiro cantava à sua maneira e o rouxinol mecânico cantava valsas.
Foi então resolvido que o rouxinol mecânico cantasse sozinho. Obteve grande sucesso, e repetiu, repetiu.
— Agora o rouxinol verdadeiro também tem de cantar — sugeriu o imperador.
Mas… onde estava ele? Ninguém se apercebeu de que voara pela grande janela aberta, em direcção à floresta.
Todos os cortesãos o censuraram:
— Que feia acção! Que ingrato! Não importa! Temos este que é bem melhor e mais bonito. Ao menos, com ele, sabemos o que vai seguir-se e podemos acompanhar a sua música. Com o outro era impossível, sempre diferente, inesperado.
O rouxinol cantava, cantava sem fadiga. Permitiu-se ao povo ver e ouvir aquela maravilha. Os pobres pescadores diziam:
— É lindo e canta bem, mas falta-lhe qualquer coisa …
Do verdadeiro rouxinol nunca mais houve notícias; já ninguém pensava nele.
Certa noite, estando o imperador deitado a deliciar-se com o canto do rouxinol mecânico, colocado em cima da mesa-de-cabeceira, ouviu-se um ruído “Tíup”! Partiu-se a corda do mecanismo; depois “Brrrr… ” e a música parou. O imperador saltou da cama, mandou vir o médico da corte, mas este não soube resolver a situação. Chamou-se então o relojoeiro, que consertou a corda e recomendou muita cautela, porque, com os parafusos gastos, podia quebrar- se novamente.
Foi grande o desgosto. O pássaro não podia agora cantar com frequência.
Cinco anos passaram.
Entre outros os cortesãos reinava a desolação, porque o seu amado imperador estava doente e não parecia ter hipóteses de
cura. O sucessor fora já eleito.
Muitos choravam, enquanto outros ansiavam por aclamar aquele que viria.
O velho imperador, estendido na cama, pálido e frio, lutava com a morte. À sua volta, uma quantidade de caras estranhas parecia esperar espreitar por entre as dobras da cortina de veludo; umas tinham expressões de maldade, outras aparentavam simpatia. Representavam as boas e más acções que o imperador praticara. Este, no meio da aflição, só pedia:
— Música! Música! Quero música!
Mas ninguém dava corda ao pássaro mecânico, porque o imperador estava sozinho. Consideravam-no já morto, e os cortesãos preparavam o palácio para receber o sucessor.
— Canta, ave preciosa, canta! — pedia o imperador moribundo.
A ave continuava muda, e o imperador sentia-se morrer, esmagado pelo silêncio confrangedor.
De repente, eleva-se no ar, junto da janela aberta, uma voz deliciosa. Era o rouxinol que, num ramo lá fora, tinha ouvido os gritos de aflição do seu imperador e viera confortá-lo.
A medida que ele cantava, o imperador sentia-se mais leve, melhorava, voltavam-lhe as forças, regressava à vida.
— Obrigado! Obrigado, pássaro celestial! Reconheço a tua voz! Esqueci-te inteiramente, e tu vieste livrar-me da morte com as suas negras visões que me afligiam. Como poderei recompensar-te?
— Já fui recompensado, quando em tempos vi lágrimas nos teus olhos enquanto me escutavas — replicou delicadamente o rouxinol.
— Fica sempre junto de mim. Cantarás quando quiseres e quebrarei em mil bocados o pássaro mecânico!
— Não faças isso! — replicou o rouxinol verdadeiro. — Ele fez o que podia. Conser-
va-o. Eu não posso instalar-me no palácio, mas virei, quando sentir desejos disso, e cantarei para ti, à noite, empoleirado neste ramo, junto da janela aberta, para te tornar feliz.
— Sim, farás como quiseres. O meu coração esperar-te-á sempre, para te receber com alegria e gratidão!
E quando os criados entraram, supondo encontrar o imperador já morto, viram-no, porém, sorrir e dizer calmamente:
— Bom dia!…

Hans Christian Handersen
O rouxinol do imperador
Porto, Ed. MAJORA, s/d
Adaptação

  • Reparaste que quase todas as pessoas que vivem no palácio se mostram muito distanciadas da natureza? Escolhe passagens da história que o comprovem.
  • O rouxinol veio libertar o imperador da doença.
    Que sentimentos lhe terá transmitido com o seu canto?
  • E, a propósito, já ouviste alguma vez um rouxinol cantar?

Branca de Neve e os sete anões – conto com sugestão de actividades

Branca de Neve e os sete anões

Era Inverno, e a neve caía como se fosse uma leve penugem… Uma jovem rainha bordava, sentada defronte da janela enquadrada de madeira de ébano. Quando olhou para os flocos brancos que esvoaçavam, picou-se num dedo e três gotas de sangue vermelho caíram na neve. A rainha formulou então um desejo:
— Ah! Como eu gostava de ter uma filha, linda, com a tez branca como a neve, uns lábios vermelhos como o sangue e uns cabelos negros como o ébano.
Algum tempo depois, a rainha teve uma filha. A tez era branca como a neve, os lábios eram vermelhos como o sangue e os cabelos negros como o ébano… Chamaram-lhe Branca de Neve.
Mas a rainha morreu quando ela nasceu.
Passou um ano, e o rei voltou a casar. A sua segunda mulher era muito bonita, mas era também muito orgulhosa e vaidosa. Não suportava a ideia de qualquer mulher poder ser mais bonita do que ela…
Todos os dias a rainha ia mirar-se no seu espelho mágico e perguntava-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondia-lhe sempre:
Senhora rainha, vós sois a mais bela de todo o reino.
A rainha ficava muito contente com essa resposta; sabia que o espelho nunca mentia. Mas, entretanto, Branca de Neve foi crescendo e cada dia ficava mais bonita…
Um dia, a rainha interrogou o espelho, que lhe respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza de Branca de Neve não podeis igualar!
Então a rainha ficou verde de medo e inveja. Começou a detestar Branca de Neve. A inveja ia crescendo no seu coração, como a erva má cresce nos campos, envenenando-lhe a vida, tirando-lhe o sono. E cada vez que via Branca de Neve, odiava-a um pouco mais.
Já não suportando mais, mandou vir um caçador e disse-lhe:
— Leva Branca de Neve para a floresta, não quero voltar a vê-la! Mata-a e traz-me o coração e o fígado como prova.
O caçador levou Branca de Neve para a floresta, mas, quando desembainhou o punhal para a matar, ela disse-lhe:
— Gentil caçador, não me mates! Eu vou para o interior da floresta e nunca mais volto!
Como ela era muito bonita, o caçador teve pena dela.
— Foge, menina! — disse-lhe, convencido de que os animais da floresta iriam devorá-la.
Levou à rainha o coração e o fígado de um pequeno javali como prova da morte de Branca de Neve. A rainha mandou o seu cozinheiro prepará-los e comeu-os, julgando estar a comer Branca de Neve…
A pobre rapariga, sozinha no meio do bosque, ficou cheia de medo. Correu pela floresta até cair a noite. Os animais selvagens rondavam, mas não lhe fizeram mal.
Correu, correu, enquanto as suas pernas permitiram. Viu então uma casinha e entrou para descansar.
Nessa casinha, todas as coisas eram muito pequeninas; era tudo muito bonito e muito limpo. Viu uma mesinha coberta com uma toalha branca, com sete pratinhos, sete colherinhas, sete faquinhas e sete copinhos. Muito arrumadas, encostadas à parede, viu sete caminhas cobertas com colchas muito brancas.
Branca de Neve tinha muita fome e muita sede, e então tirou um bocadinho de legumes e de pão de cada pratinho, e bebeu uma gota de vinho de cada copinho, pois não queria tirar tudo à mesma pessoa!
Depois, porque estava muito cansada, quis deitar-se numa cama. Mas a primeira cama era muito grande, a segunda muito pequena… e foi experimentando todas. A sétima tinha bom tamanho. Deitou-se e adormeceu.
Quando caiu a noite, os sete anões que habitavam naquela casa regressaram do trabalho na montanha. Acenderam as sete lanterninhas e viram que estava lá alguém…
Disse o primeiro:
— Quem é que se sentou na minha cadeira?
O segundo disse:
— Quem é que tirou comida do meu prato?
O terceiro disse:
— Quem é que tirou um bocado do meu pão?
O quarto disse:
— Quem é que tirou legumes do meu prato?
O quinto disse:
— Quem é que usou o meu garfo?
O sexto disse:
— Quem é que usou a minha faca?
O sétimo disse:
— Quem é que bebeu do meu copo?
Depois, o primeiro viu que a sua cama estava desarrumada.
— Quem é que esteve a dormir na minha cama? — disse ele.
Os outros aproximaram-se a correr e todos gritaram:
— Na minha cama também se deitou alguém!
O sétimo, quando olhou para a sua cama, viu Branca de Neve a dormir. Pegaram nas lanterninhas para iluminarem o rosto da menina.
— Que linda que ela é! — disseram os sete.
Deitaram-se sem a acordarem. Chegaram-se todos um bocadinho para o lado para arranjarem espaço para o sétimo anão, e assim se passou a noite.
De manhã, quando Branca de Neve acordou, teve medo. Mas os anões olhavam para ela com simpatia. Perguntaram-lhe como se chamava.
— Chamo-me Branca de Neve — disse ela.
E contou-lhes que a madrasta tentara matá-la.
— Fica connosco — propuseram-lhe os anões. — Se quiseres arrumar a casa, cozinhar, fazer as camas… não te faltará nada. Mas cuidado com a tua madrasta, ela pode descobrir que estás cá. Não deixes ninguém entrar!
Branca de Neve aceitou de bom grado e arrumou a casa toda. De manhã, os sete anões foram para a montanha, onde procuravam ouro, e quando à noite regressaram, a refeição estava pronta.
A rainha julgava que Branca de Neve estava morta, pois comera o seu fígado e o seu coração. No entanto, um dia interrogou o seu espelho mágico e ele respondeu-lhe:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

A rainha sabia que o espelho nunca mentia, e percebeu que o caçador a tinha enganado: Branca de Neve ainda estava viva! A inveja invadiu o seu coração, e ela deixou de ter sossego. Inventou então nova maneira de matar Branca de Neve…
Disfarçada de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas por detrás das quais viviam os sete anões, e bateu à porta da casa:
— Tenho coisas muito boas para vender! — disse ela. — Tenho cordões de todas as cores!
«É uma velhinha simpática, vou deixá-la entrar», pensou Branca de Neve. Abriu a porta e comprou-lhe um lindo cordão de seda.
— Minha menina — disse a velha — deixe-me pôr-lhe o cordão como deve ser.
A mulher passou o cordão pelo corpete de Branca de Neve, e depois apertou-o tanto que ela deixou de poder respirar e caiu como morta.
— Agora, já não és a mais bela! — gritou a velha, que se afastou da casa rapidamente.
À noite, os sete anões regressaram. Ficaram apavorados quando viram a sua querida Branca de Neve estendida no chão, sem vida. Notaram que o seu corpete estava demasiado apertado, e cortaram o cordão. Branca de Neve recuperou os sentidos.
— Foi a rainha má que quis matar-te… — disseram eles a Branca de Neve. — Tememos que ela regresse, por isso não deixes entrar ninguém enquanto cá não estamos.
Quando voltou ao castelo, a rainha interrogou o espelho:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha sentiu o coração estoirar de fúria e tentou encontrar outro modo de matar Branca de Neve. Por meio de feitiçaria, fabricou um pente envenenado, disfarçou-se novamente de velha vendedeira, atravessou as sete montanhas e bateu à porta da casa dos sete anões.
Branca de Neve viu pela janela que ela se aproximava e disse-lhe:
— Continue o seu caminho, não posso abrir a porta a ninguém.
— Mas podes ver o que aqui trago… — disse a velha e mostrou-lhe o pente. — Deixa- me entrar, que eu penteio-te.
Então Branca de Neve deixou a velha entrar para a pentear, mas mal o pente tocou nos seus cabelos, o veneno fez efeito e a menina caiu no chão sem sentidos.
— És um prodígio de beleza, mas agora acabou-se! — disse a madrasta que se afastou rapidamente. Por sorte, estava quase na hora de os anões regressarem… Quando viram Branca de Neve inanimada, desconfiaram da rainha má; procuraram e logo encontraram o pente envenenado. Mal o tiraram dos cabelos de Branca de Neve, ela recobrou os sentidos e contou- lhes o que se tinha passado. Eles recomendaram-lhe novamente que não abrisse a porta a ninguém.
Quando chegou ao palácio, a rainha interrogou novamente o seu espelho mágico:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
E o espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
mas para lá dos montes do sol,
na casa dos sete anões,
vive Branca de Neve,
cuja beleza não podeis igualar!

Ao ouvir estas palavras, a rainha tremeu de fúria e raiva.
— Branca de Neve tem de morrer — gritou ela — nem que para isso também eu tenha de morrer!
E num local sombrio, que ninguém conhecia, preparou uma maçã envenenada; depois disfarçou-se de camponesa, atravessou as sete montanhas, bateu à porta da casa dos sete anões…
Branca de Neve debruçou-se à janela e disse:
— Não posso abrir a porta a ninguém! Os sete anões proibiram-me!
— Pior para ti — disse a camponesa. — Vou vender as minhas maçãs a outra pessoa. Mas ao menos deixa-me oferecer-te uma…
— Não — disse Branca de Neve. — Não posso aceitar nada.
— Tens medo de ser envenenada? — perguntou a camponesa. — Olha, vou partir a maçã em duas partes; eu fico com a metade branca e tu com a metade vermelha!
Branca de Neve olhava para a maçã e estava tentada.
Quando viu a camponesa a comer a metade da maçã, estendeu a mão e pegou na outra metade.
Mal trincou a maçã, caiu morta no chão.
A rainha olhou para ela com olhos maliciosos, riu e troçou:
— Branca como a neve, vermelha como o sangue, negra como o ébano… Desta vez nem os anões te podem reanimar!
Ao chegar ao palácio, a malvada mulher interrogou o seu espelho, e ele finalmente respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela do reino.
Então, o invejoso coração da rainha repousou um pouco, mas um coração invejoso nunca tem verdadeiro repouso…
À noite, quando os anões regressaram a casa, viram Branca de Neve estendida no chão, sem respirar. Procuraram descobrir alguma coisa envenenada, mas não encontraram nada. A sua querida Branca de Neve estava morta!
Sentaram-se todos em volta dela e choraram durante três dias; depois, prepararam-se para a enterrar. Mas ela continuava fresca como se estivesse viva, com as faces rosadas como sempre.
— Não podemos enterrá-la na terra negra! — disseram. Fizeram um caixão de vidro, deitaram-na lá dentro e escreveram por cima o nome dela com letras de ouro, acrescentando que era filha de um rei. Depois levaram o caixão para o cimo da montanha e, revezando-se, fizeram guarda junto dela. Também os animais vinham chorar Branca de Neve… Branca de Neve ficou muito tempo, muito tempo, no seu caixão, sempre muito bonita, sempre como se estivesse apenas a dormir.
Ora aconteceu passar por ali o filho de um rei, que parou na casa dos anões, para lá pernoitar. Viu o caixão no cimo da montanha e lá dentro a bela Branca de Neve. E leu o que estava escrito a letras de ouro.
— Dêem-me esse caixão, e eu dou-vos tudo o que quiserem! — disse ele aos anões.
— Nem que nos desse todo o ouro do mundo! — responderam os anões.
— Então, ofereçam-mo, porque não poderei viver sem Branca de Neve. Quero venerá-la como a minha bem-amada.
Ao ouvi-lo dizer estas palavras, os bons anões tiveram piedade dele e ofereceram-lhe o caixão. Mas os servidores do príncipe, que o transportavam aos ombros, tropeçaram num tronco de árvore e a sacudidela fez saltar da boca de Branca de Neve o pedaço de maçã que ela trincara. Abriu os olhos, levantou a tampa do caixão e levantou-se. Estava novamente viva!
— Onde estou? — perguntou.
— Junto de mim — disse o príncipe. — Amo-te mais do que tudo neste mundo. Vem comigo para o castelo do meu pai. Serás a minha mulher.
Então Branca de Neve sentiu que o amava e foi com ele. As núpcias foram preparadas com grande pompa e magnificência. A rainha má também foi convidada.
Adornada com os seus mais belos atavios, olhou para o espelho e perguntou-lhe:
— Espelho, espelho meu, há no reino alguém mais belo do que eu?
O espelho respondeu:
Senhora rainha, vós sois a mais bela deste lugar…
Mas a beleza da jovem soberana não podeis igualar!

A perversa mulher, mergulhada em ódio, teve tanto medo que perdeu a cabeça: levada pela curiosidade, não resistiu a ir ao casamento para ver a jovem rainha.
Ao reconhecer Branca de Neve, ficou pregada ao chão. Então, o castigo que a madrasta tantas vezes merecera por ter querido matar Branca de Neve abateu-se sobre ela.
Dando meia volta, saiu a correr do castelo, e consta que caiu num precipício, morrendo da queda, pois nunca mais foi vista por aquelas paragens.
E Branca de Neve e o príncipe viveram muitos e muitos anos de um feliz casamento.

O meu livro de contos
Marie Tenaille (org)
Porto, Asa Editores, 2001

  • A madrasta de Branca de Neve é uma mulher invejosa, que acaba por ser vítima da própria inveja.
    Já te aconteceu sentires inveja de alguém?
  • E já te apercebeste do quanto uma pessoa invejosa pode ser injusta com os outros?
  • Branca de Neve, apesar de simpática, não é prudente, pois cai por três vezes no mesmo tipo de armadilha. E tu, costumas ser prudente?
  • A madrasta de Branca de Neve dava excessivo valor a um atributo físico. Qual era? Concordas com o seu procedimento?
    Certamente que o seu carácter traiçoeiro e cruel também te impressionou. Por quê?

A Bela Adormecida – conto com sugestão de actividades

A Bela Adormecida

Certo dia de Verão, uma rainha, sentada a bordar na margem de um rio, chorava. Um sapo, que estava sentado numa folha de lírio, viu-lhe as lágrimas e perguntou:
— Porque choras, rainha?
— Porque envelheci e ainda não tenho filhos — disse a rainha.
Então o sapo disse: — Limpa as tuas lágrimas. Antes que o ano acabe, vais ter uma filha.
Tal como o sapo havia prometido, assim aconteceu. Na Primavera, a rainha deu à luz uma menina.
O rei estava cheio de alegria. Ordenou que se fizesse uma festa de baptizado e enviou mensagens para toda a gente do reino. Cavaleiros, barões, condes, duques e duquesas foram convidados. Então a rainha lembrou-se: — Não podemos esquecer-nos de convidar as fadas.
Havia treze fadas no reino. Doze delas eram bondosas, mas a última usava a sua magia para fazer o mal. O rei decidiu não a convidar.
No dia do baptizado, todo o reino celebrava. Os sinos tocaram, foram içadas bandeiras e a festa e as danças duraram horas. Os convidados trouxeram presentes para o bebé: ouro, esmeraldas, veludo, rendas – tudo o que uma princesa podia desejar.
Quando todos os senhores e senhoras acabaram de dar os presentes, as fadas avançaram com os seus. Uma deu à menina beleza; outra deu-lhe graça; as outras, uma voz angelical, um passo leve para a dança, habilidade para tocar todos os instrumentos musicais.
Já onze fadas tinham dado os seus presentes, quando uma sombra cobriu o berço. A décima terceira fada encontrava-se ali e estava zangada.
— Não fui convidada para o baptizado — disse ela — mas eu tenho um presente para a criança.
Debruçando-se sobre o berço, disse: — Quando a princesa tiver quinze anos, vai picar-se no dedo com um fuso e morrer.
A sala encheu-se de terror. A rainha desmaiou. O rei implorou perdão e rogou à fada que anulasse o feitiço, mas ela enrolou-se no manto e desapareceu.
— Ninguém pode ajudar-nos? — perguntou o rei. A décima segunda fada avançou.
— Eu ainda não dei o meu presente — disse ela.
O rei virou-se para ela cheio de esperança. — Podes quebrar este feitiço?
— Não — disse a fada. — Isso não está nas minhas mãos.
Mas ela debruçou-se sobre o berço e disse: — Quando a princesa se picar no fuso, não vai morrer, mas dormir durante cem anos. Crescerá uma floresta de espinhos à volta do palácio, e tudo o que for vivo dentro dele vai estar adormecido, até ao dia em que um príncipe encontre o caminho pela floresta encantada e acorde a princesa com um beijo.
Cem anos! Para o rei, isso parecia-lhe a morte. Ordenou que toda a fiação fosse proibida e todos os fusos queimados. Se a sua filha nunca visse um fuso, pensou ele, o feitiço da fada não podia tornar-se realidade.
A princesa cresceu tão bonita e inteligente quanto as fadas tinham prometido e toda a gente no palácio gostava muito dela.
Quando fez quinze anos, foi preparada uma festa. Na cozinha, os cozinheiros fizeram molhos e assaram carne; os criados trouxeram flores e verduras para decorar o salão.
Havia uma sala cheia de presentes para a princesa e cartas de príncipes que esperavam obter a mão da princesa em casamento.
No entanto, em vez de excitada, a princesa encontrava-se calma. Ela sentia que alguma coisa estranha ia acontecer-lhe.
Quando já estava vestida, desceu em direcção à galeria e espreitou para o salão onde estavam os convidados e onde os músicos começaram a tocar.
— Deixem-me!— disse ela às criadas. — Eu desço sozinha.
Quando as criadas foram embora, a princesa afastou-se do salão e dirigiu-se à parte velha do palácio onde já não vivia ninguém.
Não conhecia o caminho; no entanto, caminhou com um passo firme, como se uma vontade exterior a ela a impelisse. Chegou ao fundo de uma escada íngreme e estreita.
As escadas estavam cobertas de pó acumulado durante muitos anos. Ela subiu, deixando as suas pegadas nas escadas.
No cimo, havia uma porta. A princesa abriu-a e entrou.
Encontrou-se num pequeno quarto onde estava uma velha a fiar numa roca.
— Entra, minha querida — disse a velha. — Estava à tua espera.
A princesa não sabia que a velha era a fada má, disfarçada.
— O que é que estás a fazer? — perguntou ela. — Estou a fiar — disse a velha.
— Gostavas de experimentar?
A princesa ansiosa, pegou no fuso. Mas, assim que o fez, picou-se no dedo e gritou.
A fada deu uma gargalhada de triunfo, mas a princesa já não a ouviu; tinha caído num sono profundo.
Imediatamente o palácio se transformou. As criadas bocejaram e recostaram-se à parede. O rei e a rainha adormeceram nos seus tronos. O rabequista largou o seu arco e o flautista tocou uma nota gemida, enquanto caía no chão. Um gato, que andava a perseguir um rato, mudou de ideias, espreguiçou-se e adormeceu. O rato adormeceu; os cavalos nos estábulos, adormeceram; os pombos no pombal adormeceram.
Não havia mais movimento; não soprava nenhuma brisa.
Então, uma floresta começou a crescer à volta do castelo. Os rebentos abriram e surgiram os espinhos; ramos espessos alongaram-se. Numa hora, as paredes estavam escondidas; num dia, a bandeira que estava na torre deixou de se ver. Mês a mês e ano a ano, a floresta cresceu e os espinhos uniram-se de tal maneira que ninguém podia entrar.
Mas as pessoas lembravam-se. Contavam histórias de um castelo escondido e de uma princesa adormecida que só podia ser acordada pelo filho de um rei. A história correu mundo e muitos príncipes foram lá e tentaram entrar na floresta; mas ficavam presos nos espinhos e morriam.
Tinham passado cem anos. No último dia do feitiço da fada, chegou um príncipe na companhia de alguns caçadores. Tinham vindo a perseguir um veado que os guiou para longe de casa por florestas e bosques, noites e dias, e que, por fim, os levou à floresta de espinhos onde acabou por desaparecer.
O príncipe já tinha ouvido a história da bela adormecida. Imediatamente percebeu que o veado tinha sido mandado para o encontrar e que era ele quem tinha de acordar a princesa.
— Deixa este sítio, volta para casa — imploraram as pessoas. Mostraram-lhe os ossos de outros príncipes que tinham ficado presos nos espinhos. Mas o príncipe não tinha medo. Levantando a sua espada, preparou-se para entrar.
Mal a espada tocou na primeira folha, toda a floresta se transformou em flores. Os espinhos quebraram-se, abrindo um caminho onde o aroma a rosas estava por todo o lado. O príncipe guardou a sua espada, entrou pela floresta e os espinhos foram-se fechando atrás dele.
Andou pelo meio da floresta florida, até que chegou às escadas do castelo. Os guardas estavam adormecidos e as suas espadas deixadas contra a parede. Atravessou o pátio e chegou a uma porta de carvalho com uma trave de ferro. Abriu-a e entrou no salão.
À sua frente, sentados em dois tronos de ouro, estavam o rei e a rainha, profundamente adormecidos. À sua volta, convidados, criados e músicos dormiam deitados no chão. O príncipe passou por eles e subiu as escadas para a galeria, onde encontrou as criadas a dormir. Dirigiu-se então para a parte velha do palácio.
Quarto após quarto, foi seguindo o mesmo caminho que a princesa seguiu há muito tempo atrás. Finalmente chegou à escadaria onde encontrou as pegadas dela. Seguiu-as.
A porta, em cima, não estava trancada. Ele abriu-a e entrou.
No chão estava a bela princesa.
O seu cabelo estava tão brilhante, a sua cara tão fresca, como no seu décimo quinto aniversário, há cem anos atrás.
O príncipe, encantado com tal beleza, ajoelhou-se e beijou-a.
A princesa acordou logo. Sorriu e levantou-se. Em baixo, no salão, a rainha e o rei espreguiçaram-se e abriram os olhos. Os convidados começaram a mover-se. O gato acordou; o rato escondeu-se atrás de uma cadeira.
O príncipe pegou na mão da princesa e desceram juntos, através dos quartos vazios, em direcção ao salão. À medida que se aproximavam, ouviam música e vozes; passaram pelas criadas que conversavam atrás da galeria; o salão estava impregnado de um aroma a flores, e a luz entrava pelas janelas.
Lá fora, a floresta encantada tinha desaparecido e, com ela, a última magia da fada. O rei e a rainha cumprimentaram o príncipe, e ele declarou o seu amor pela princesa e pediu a sua mão em casamento. Eles aceitaram imediatamente. Assim, a festa de aniversário, que tinha sido começada cem anos antes, tornou-se um casamento. Os músicos tocaram uma melodia muito viva, a dança começou, e todos os sinos repicaram em celebração.

Clássicos dos Contos de Fadas
Porto, Ed. AMBAR, 1996

  • A princesinha, vítima de um malefício, é salva graças à coragem de um príncipe.
    Este conseguiu transformar um espaço fechado sobre si mesmo num local cheio de alegria e de luz. Como?
    Em tua opinião, por que motivo terá sido o príncipe o único a conseguir penetrar no castelo?

A Bela e o Monstro – conto com sugestão de actividades

A Bela e o Monstro

Era uma vez um mercador que tinha três filhas. As duas filhas mais velhas eram egoístas, vaidosas e profundamente antipáticas. Mas a filha mais nova era muito diferente. Era bondosa e simpática e — como irão ouvir — muito corajosa. Era tão bonita que as pessoas lhe chamavam, simplesmente, Bela.
As suas irmãs detestavam-na.
Um dia, o mercador ouviu dizer que, num porto longínquo, se estava à espera de um navio com um carregamento precioso para ele. Preparou-se imediatamente para partir numa longa viagem em busca da sua fortuna. As suas duas filhas mais velhas obrigaram-no a prometer que, quando voltasse, traria presentes valiosos para lhes dar. Bela, no entanto, apenas pediu uma rosa.
O mercador partiu no seu cavalo. Mas, ao chegar ao fim da sua longa viagem, ficou amargamente desapontado: não havia nenhum navio à sua espera com um carregamento valioso. A notícia era falsa. Iniciou tristemente a viagem de volta a casa. Afinal, não tinha dinheiro para comprar presentes caros para as suas filhas mais velhas. Já nem sequer conseguiria encontrar uma rosa para Bela, pois a estação já estava demasiado avançada para que ainda houvesse rosas.
Foi com tempo de Inverno que o mercador iniciou a cavalgada para casa. O caminho que tomou levou-o a uma enorme floresta e, por essa altura, já começara uma tempestade de neve. O mercador podia ouvir o distante uivar dos lobos, que se sobrepunha ao uivo do vento. Ele e o seu cavalo continuaram a esforçar-se. Estava ansioso, enregelado e – o pior de tudo – perdido.
Por fim, chegaram a um lugar onde as árvores formavam uma alameda, como se indicassem o caminho para alguma mansão. Foi por aí que o mercador guiou o cavalo. À medida que cavalgava pela alameda, a neve parou de cair e o vento cortante deixou de soprar. O sol apareceu, os pássaros começaram a cantar e as flores a abrir. Para sua surpresa, o mercador passou do Inverno para o pico do Verão.
Ao chegar ao fim da alameda, deparou com uma mansão tão magnífica que parecia um palácio. Cavalgou até ao princípio dos degraus de ágata que subiam até altas portas incrustadas a ouro. Desmontou, subiu os degraus e bateu nas portas. Ninguém o veio receber, mas as grandes portas abriram-se de par em par, como se lhe dessem as boas-vindas. No interior, viu um enorme vestíbulo, com chão e paredes de mármore, esplendidamente mobilado, mas sem sinais de vida.
— Não está ninguém em casa? — perguntou o mercador. Mas apenas lhe respondeu um eco: “Ninguém em casa… ninguém em casa…”
— Posso entrar? — perguntou ele, e mais uma vez o eco lhe respondeu: “Entrar… entrar…”
O mercador olhou para trás, para o seu cavalo: já estava a afastar-se em direcção aos estábulos, para encontrar comida e água e para descansar. Assim, o mercador passou arrojadamente pelas portas abertas e entrou no grande e esplêndido vestíbulo vazio, onde apenas existia o eco. Havia portas a toda a volta e, à medida que se aproximava de cada uma, esta abria- se. Entrou numa sala com uma excelente mesa posta para uma pessoa. Sentou-se e, imediatamente, apareceram à sua frente deliciosos manjares e bebidas. Esticou-se para pegar no garfo e na faca e logo estes saltaram para as suas mãos.
Depois de ter terminado o jantar, o mercador foi deitar-se na cama confortável e limpa que o esperava. De manhã, descobriu que as suas velhas e manchadas roupas de viagem tinham desaparecido e, no seu lugar, esperavam-no roupas novas da melhor qualidade. Vestiu-as e assentavam-lhe como uma luva.
Nessa altura, fez o caminho inverso através do grande vestíbulo que ecoava, passou através das portas incrustadas a ouro e desceu os degraus de ágata. Lá estava o seu cavalo à espera.
O mercador estava prestes a montar e a ir-se embora, quando se lembrou de que não tinha visto os jardins deste lugar encantado. Então, começou a passear nos jardins – atravessando veredas e relvados, passando através de arcos frondosos, até que, finalmente, chegou a uma vereda no fim da qual havia uma fonte com um grande repuxo de água brilhante. Para lá da fonte, havia um caramanchão de rosas, cujo odor enchia o ar.
A visão e o odor das rosas lembraram ao mercador a promessa que tinha feito a Bela. Esticou-se para apanhar uma rosa e, ao fazê-lo, ouviu-se um estremecer e um restolhar e, de entre os canteiros de rosas, surgiu um enorme Monstro, como o mercador jamais havia visto. Tinha olhos coruscantes, presas ferozes, garras ameaçadoras e pêlo áspero. E rugiu-lhe assim:
— Malvada criatura, quem te deu autorização para apanhares as minhas rosas?
O mercador estava mudo de temor.
O Monstro disse: — Ontem à noite foste meu convidado e concedi-te todos os teus desejos. Agora, esta manhã, roubas-me a única coisa que amo: as minhas rosas?
O mercador conseguiu murmurar: — Senhor, queria apenas levar uma rosa para uma das minhas filhas.
O Monstro disse: — Então tens filhas – filhas que te amam? Muito bem. Podes levar a rosa para casa. Tens de a dar àquela das tuas filhas que te amar o suficiente para voltar para aqui e viver comigo. E, se nenhuma delas gostar de ti o suficiente e não tiver coragem de vir para aqui, podes ter a certeza de que não irás escapar-me: morrerás. Agora vai!
Ainda com a rosa na mão, o mercador fugiu a correr para o cavalo que o esperava e, atirando-se para cima dele, começou a cavalgar apressadamente, cheio de medo. Não fazia ideia de qual era o caminho para casa, mas o cavalo, de sua livre vontade, levou-o até lá.
Quando chegou a casa, o mercador contou às suas filhas o que tinha acontecido à carga desaparecida e à fortuna perdida, e falou-lhes também do palácio encantado, do Monstro e das rosas do Monstro. As suas filhas mais velhas ficaram furiosas, porque o único presente que tinha trazido com ele era uma rosa para Bela. Começaram a discutir sobre qual das duas deveria ficar com ela. Mas, quando perceberam que quem ficasse com a rosa teria de voltar para ao pé do Monstro, nenhuma quis ficar com ela, nem mesmo para salvar a vida do pai.
Então, Bela pegou na rosa e disse que iria. Mas o pai não consentiu que o fizesse, embora temesse pela sua própria vida. Bela não discutiu, mas, a meio da noite, quando todos os outros dormiam, foi silenciosamente até aos estábulos, até junto do cavalo de seu pai. Montou-o e sussurrou-lhe ao ouvido: — Tenho a certeza de que és um cavalo esperto, que percebe tudo e que não se esquece de nada. Por favor, leva-me até ao palácio do Monstro.
O cavalo partiu imediatamente com ela.
Bela chegou ao palácio encantado antes do nascer do dia. Todas as janelas do palácio estavam brilhantemente iluminadas, como para celebrar a sua chegada. Subiu os degraus de ágata, passou pelas portas incrustadas a ouro e entrou no grande vestíbulo. Tal como o pai tinha contado, todas as portas se abriram à sua frente. Numa das salas encontrou uma mesa posta. Sentou-se à mesa, e deliciosos manjares e bebidas apareceram à sua frente; o garfo e a faca saltaram-lhe para as mãos.
Enquanto ainda estava a comer, todo o palácio começou a tremer, como se fosse atingido por trovões: o Monstro estava a chegar. Bela não fugiu nem se escondeu, mas estava com tanto medo que, quando a porta se abriu, fez uma vénia até ao chão para evitar ver o Monstro à sua frente.
O Monstro falou com uma forte voz de trovão, mas não foi indelicado. — Bela — disse ele — não tens de me fazer vénias, pois aqui és rainha e senhora. Este palácio e estes jardins, e todos os encantos que encerram, estão às tuas ordens. O meu único desejo é que sejas feliz neste sítio.
Ao ouvir isto, Bela levantou os olhos para ele. Embora o Monstro fosse exactamente como o seu pai tinha descrito, percebeu que ele já não estava zangado.
O Monstro disse: — Tenho uma pergunta para te fazer, Bela. É a única coisa que te perguntarei: Poderás amar-me?
— Infelizmente, pobre Monstro! — disse Bela, pois já estava com pena dele.
— Como poderei algum dia amar alguém como tu?
Ao ouvi-la, o Monstro deu um enorme suspiro e afastou-se tristemente. No dia seguinte, veio ter com Bela à mesma hora e com a mesma pergunta e Bela deu-lhe a mesma resposta; e todos os dias seguintes aconteceu o mesmo.
Entretanto, a vida de Bela no palácio encantado e nos seus jardins era plena de encantos, tal como o Monstro havia prometido. Adorava música, e instrumentos invisíveis tocavam aquilo de que mais gostava. Adorava animais, e pequenos gatinhos persas com pêlo sedoso brincavam aos seus pés, e pequenos cãezinhos corriam à sua frente para onde quer que fosse. Nos jardins, o odor das flores invadia o ar dos sítios por onde passeava, sobretudo o odor das rosas. O canto das cotovias junto da sua janela acordava-a todas as manhãs e, à noite, adormecia ao som do canto do rouxinol.
Bela poderia ter sido feliz, mas estava sempre a pensar no pai. Sabia que ele devia estar a sofrer por ela, pensando que estava morta. E, assim, pediu ao Monstro se podia ir a casa.
— Apenas por três noites — disse ela. — Apenas o tempo suficiente para tranquilizar o meu pai. Depois voltarei para junto de ti.
O Monstro deu um grande suspiro. — Podes ir, Bela — disse ele. — Mas lembra-te de que me sentirei sozinho sem ti. Se ficares longe de mim mais do que três noites, começarei a morrer de solidão.
Depois, deu-lhe um anel mágico e disse-lhe para o pôr ao lado da sua cama antes de adormecer. De manhã, acordaria no lugar em que quisesse estar.
Bela fez o que o Monstro lhe tinha dito e, na manhã seguinte, acordou no seu próprio quarto, em casa do seu pai.
O mercador ficou louco de felicidade ao ver novamente a filha, viva e com saúde, e com bonitas histórias do palácio encantado do Monstro e dos seus encantos. As duas irmãs mais velhas ficaram cheias de inveja e maldade. Conseguiram convencer Bela a ficar mais uma noite do que tinha prometido, dizendo-lhe que o pai precisava muito dela.
Nessa quarta noite, Bela adormeceu e começou imediatamente a sonhar com o Monstro. Ouviu a sua voz, cheia de tristeza: — Não voltaste para junto de mim, Bela, e estou a morrer de solidão.
Imediatamente, e ainda meio adormecida, Bela levantou-se da cama e pegou no anel mágico, colocou-o ao lado da cama e voltou novamente a dormir. Desta vez, acordou no palácio do Monstro, tal como tinha desejado.
Começou logo a procurar o Monstro, chamando-o pelo nome onde quer que fosse. Não o encontrou em lado nenhum. Correu do palácio para os jardins, entre as veredas e os relvados, continuando a chamá-lo. Por fim, chegou a uma vereda no fim da qual havia uma fonte com um grande repuxo de água brilhante e, para lá dela, havia um caramanchão de rosas.
Neste caramanchão, viu o Monstro deitado. Correu e ajoelhou-se ao seu lado. Ele apenas conseguiu murmurar: — Bela, estou a morrer…
— Não! — gritou ela. — Querido Monstro, não podes morrer, pois agora sei que te amo.
Ao ouvir as suas palavras, o Monstro começou a transformar-se num belo e jovem Príncipe.
O Príncipe pegou na mão de Bela e falou-lhe. Tinha uma voz gentil e terna, mas grave, como a voz do próprio Monstro ouvida no sonho. Contou-lhe que, há muito tempo, uma fada má o tinha transformado de Príncipe em Monstro, condenando-o a ficar assim até que alguém o amasse apenas por aquilo que era.
— E tu vieste, Bela — disse o Príncipe — e quebraste o feitiço malvado. Agora amas- me, Bela, e eu amo-te desde que te vi pela primeira vez. Vamos casar-nos imediatamente.
E assim o fizeram, festejando com as mais maravilhosas cerimónias. As irmãs mais velhas de Bela não foram convidadas para o casamento. No entanto, o pai esteve presente e chorou de alegria ao ver a felicidade da filha. E Bela e o Príncipe viveram felizes para sempre.

Clássicos dos Contos de Fadas
Porto, Ed. AMBAR, 1996

 

  • Bela é uma jovem de coração sincero. As irmãs são muito diferentes. Invejosas e mesquinhas, ficam irritadas com a felicidade da Bela e procuram prejudicá-la. O que pensas da atitude dela?
  • Imagina como se terão sentido ao saberem do casamento da irmã com o príncipe, e escreve um pequeno diálogo entre ambas a esse respeito.
  • Conheces um outro conto em que a heroína também tenha sido vítima da inveja de duas irmãs? Queres resumi-lo?

O Flautista de Hamelin – conto com sugestão de actividades

O Flautista de Hamelin

Nunca ouviram, certamente, falar de Hamelin. Não admira. Este nome, de facto, só é conhecido por aqueles que já sabem a lenda do flautista mágico. E como só agora iniciaste a leitura desta história, suponho que o nome «Hamelin» não te diga nada. Por isso, escuta com atenção.
Hamelin é uma cidade. Não tão grande como a vizinha Hanôver. No entanto, é um pouco maior do que uma aldeia. Possui uma bela muralha sobre a qual trepa a hera viçosa, uma catedral com altos pináculos de pedra trabalhada com grande pormenor, e um magnífico palácio municipal, também chamado «o palácio do relógio», porque, bem no centro da sua fachada, se pode admirar um enorme relógio redondo, cujos ponteiros e números são de ouro puro.
A sul da cidade, passa um rio com uma corrente serena e majestosa: o Veser, nas margens do qual os cidadãos costumam passear nos dias de festa, entre altíssimos choupos.
Querem um sítio mais agradável do que este para viver?
No entanto, quando esta história começa – há mais de seis séculos – os habitantes de Hamelin estavam desesperados. E porquê? A resposta é esta: porque a cidade tinha sido invadida pelos ratos.
Os ratos desde sempre lá tinham estado e sempre lá haveriam de estar. Enchiam as caves, os esgotos e os subterrâneos. Mas, como tinham o bom gosto de se manter escondidos, não se dava pela sua presença. E que diriam vocês se, de repente, os ratos – ratos grandes, ratos de esgoto e ratos do campo, ratos cinzentos e ratos de água, em suma, todos os ratos possíveis e imaginários – se fartassem de estar escondidos e, esfomeados, viessem ao ataque? Foi o que aconteceu em Hamelin. Os ratos encheram-se de ousadia, saíram dos seus escuros esconderijos e invadiram tudo. Assaltavam os cães e matavam os gatos, entravam nos berços e mordiam as crianças, comiam o queijo dos caldeirões onde estava o coalho, lambiam a sopa nas conchas das cozinhas, abriam os barris dos arenques salgados e faziam ninhos nos chapéus. A cidade fora invadida por um estranho ruído que cobria qualquer outro som. As paredes das casas vibravam desde os alicerces e, em toda a sua área, tremiam. Era uma mistura de apitos agudos, de guinchos, de chamamentos. Um roçar, um espernear, um ranger contínuo que fazia dores de cabeça.
Ao fim de uma semana, as pessoas já não podiam mais. Os valentes habitantes de Hamelin, impacientes, começaram a dizer:
— Mas, afinal, por que é que a Câmara Municipal não intervém? Eh! Bonito serviço! Temos um presidente da Câmara preguiçoso, uma assembleia que dá vontade de rir. E pensar que viajam com fatos forrados de arminho, que comem e bebem à nossa conta. Agora basta!
E dirigiram-se em conjunto ao palácio do município. Sim, aquele mesmo, o do relógio.
Era dia de sessão. Na sala do Conselho não faltava ninguém: nem o presidente da Câmara – um tipo pequeno mas gordíssimo, com a pele de tal forma esticada que parecia poder rebentar de um momento para o outro, e com uns grandes olhos de carneiro mal morto, sobre os quais as pálpebras caíam como os estores de uma loja à hora de fechar – nem os membros da assembleia. Estes últimos tinham o mesmo aspecto bem alimentado do presidente, o mesmo ar meio adormecido de quem engana, de quem vê as moscas a voar, de quem coça a barriga das pernas, de quem faz desenhos na acta da assembleia. Em suma, um triste espectáculo.
— Parece que estou a ouvir qualquer coisa… um ruído… um barulho na praça…
— disse o presidente.
Levantou-se pesadamente do seu cadeirão e abriu uma das janelas da sala. Melhor seria que o não tivesse feito. Mal assomou à janela, vieram da multidão, não apenas assobios, vaias, ofensas e pragas, como também uma intensa chuvada de frutos, de ovos estragados, de hortaliças. Um verdadeiro dilúvio!
— Basta, velhos gordalhaços! — ouvia-se gritar. — Têm de encontrar uma solução. Pensam que os elegemos para mandriarem de manhã à noite? Arranjem uma solução ou, então, expulsá-los-emos daí!
Aterrado com aquela espécie de revolução, o presidente fechou a porta o mais rápido que lhe foi possível, mas não o suficiente para evitar que um chorrilho de maçãs podres se fosse esborrachar nos bancos dos conselheiros.
— Ai de mim, senhores! — exclamou, então, o gordo homenzinho. — Era capaz de vender este uniforme por dez tostões, acreditem! Ah! Se eu pudesse estar a milhas daqui! «Digam, façam…» É fácil ordenar a uma pessoa que puxe pela cabeça. Mas o que havemos de inventar agora? Tenho uma enorme dor de cabeça… E depois… E depois é quase meio-dia, já estou a sentir um bocadinho de fome. E agora, senhores?
Naquele preciso instante ouviu-se um estranho rumor, proveniente da porta da entrada. Parecia um esfregar contínuo e abafado.
— Quem é? Serão os ratos? Quem quer que seja, entre!
A porta entreabriu-se e, na sala do Conselho, entrou a personagem mais extraordinária que já se viu em Hamelin desde o ano da sua fundação. Vestia um manto longuíssimo, dividido em dois, metade amarelo e metade vermelho. A sua estatura era alta, magra e seca. Tinha os olhos azuis e penetrantes como alfinetes, a cabeleira longa e fina, vermelho-escura. No seu rosto, sem barba nem bigode, exibia um estranho sorriso.
— Por Deus! — exclamou um conselheiro. — Mas quem é este? Um bobo que escapou da feira de Hanôver?
— A mim — acrescentou um outro — lembra-me a figura que fará o meu bisavô João Joaquim quando, no dia do juízo, ressuscitar do seu túmulo frio.
O homem dirigiu-se lentamente para as cadeiras do Conselho e disse:
— Que vossas Excelências se dignem escutar-me. O acaso quis que eu fosse dotado de um poder mágico. Por esse meio posso atrair todas as criaturas que existem na terra. E quando digo «todas», são mesmo todas: todos os seres que rastejam, que voam, que nadam e que correm, das toupeiras aos sapos, dos leitões às víboras. As pessoas chamam-me «o Flautista Mágico»…
Chegado a este ponto, o estranho indivíduo deteve-se por um instante, virando o seu olhar para os conselheiros. Sentindo mal-estar sob aquele olhar penetrante, que parecia atravessar-lhes os corpos maciços, os conselheiros baixaram as cabeças para verem o que o flautista trazia pendurado numa faixa amarela e vermelha, tal como o manto: uma flauta, longa e fina. As mãos do dono, também elas longas e finas, acariciavam-na com gestos ágeis e nervosos. Enquanto percorriam os furos do instrumento, os dedos pareciam impacientes por lhe arrebatarem, quem sabe, uma melodia extraordinária…
O flautista continuou:
— Neste mês de Junho, na Tartária, libertei o Grande Khan do enorme enxame de moscas que incomodava a população. Libertei a região de Nizam, na Índia, de um terrível bando de vampiros. E no ano passado, o califa de Bagdade, vendo o seu reino devastado por uma praga de gafanhotos, mandou-me chamar. Agora, se quiserem, vão até lá e vejam se encontram um gafanhoto, num raio de cem milhas! Naturalmente — recomeçou depois de uma breve pausa — cada coisa tem o seu preço. Se eu libertar a vossa cidade dos ratos dão-me, digamos, mil florins de ouro?
— Só mil? Mas cinquenta mil é quanto te daremos, sim, cinquenta mil! — exclamou o presidente com entusiasmo.
— Cinquenta mil, cinquenta mil! — disseram também os conselheiros.
Sem acrescentar palavra, o flautista deu meia volta e saiu para a praça. Erguendo a flauta, franziu os lábios, como fazem os músicos virtuosos. No seu olhar penetrante brilhava uma chama, ora esverdeada, ora azulada, da cor do fogo quando se lhe deita um punhado de sal. E, antes que o instrumento tivesse entoado três notas, ao longe começou a ouvir-se um murmúrio, como se um exército marchasse a grande distância. Depois, o ribombar transformou-se num estrondo poderoso, que sacudia as casas e as estradas.
Os ratos! Os ratos saíam! Ratos grandes, ratinhos minúsculos, ratos magros como anchovas, ratos robustos como porcos, ratos castanhos, ratos pretos, ratos cinzentos, ratos ruivos, ratos pomposos marchando compassadamente… ratos jovens e vivos, pais, mães, tios, primos… abanavam os rabos, endireitavam os bigodes e marchavam. Vinham em famílias, em grupos, em pelotões, em multidões, em exércitos.
E todos seguiam o flautista.
O homem avançava de rua em rua sem se voltar para trás, absorto na sua música. E os ratos, atrás, correndo, dançando, arrastando-se uns aos outros. Quando, enfim, o flautista saiu pela porta sul, estava a poucos passos do rio Veser, e aí ficou parado, mas a enorme multidão que o seguia, não. Era um espectáculo extraordinário ver aquela quantidade enorme de ratos a precipitar-se, de mergulho, no rio. A corrente do Veser fervilhava de patas, de rabos, de bigodes, de dorsos. Em poucos minutos, em Hamelin não havia nem um daqueles invasores!
O que é que tinha acontecido exactamente? Parecia que o único a escapar daquela matança, um gordo rato de água, contou, mais tarde, a alguns amigos seus de Hanôver, onde se tinha refugiado:
— As primeiras notas da flauta pareciam o rumor de um saboroso osso de porco a ser raspado. Logo de seguida, o de maçãs maduras, postas sobre a prensa para se fazer sidra; depois, um chiar como o das tinas de picles a abrirem-se, como um armário cheio de marmelada a entreabrir-se ou como o de rolhas de garrafões de óleo quando são destapados. Parecia que uma voz celestial me dizia: «Regozijem-se, bons ratos! Ruminem, trinquem, roam, devorem! Eis tudo junto e de uma só vez: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar!» E quando estava a ver-me diante de um barril de açúcar branco, cujo conteúdo brilhava como a lua cheia, dei comigo, de repente, nas profundas águas do Veser a fazer tudo para não me afogar.
Mas voltemos a Hamelin. Os habitantes da cidade pareciam loucos: riam, dançavam, saltavam. Alguns precipitaram-se para o campanário e começaram a tocar o sino para a festa, outros abriram pipas da melhor cerveja e brindaram com canecas que, de tão grandes, pareciam baldes. Enfim, uma alegria nunca antes vista! E o presidente? Ora, o gordalhão preguiçoso comandava e fazia alarido:
— Vamos! — gritava. — Ponham tábuas a tapar os ninhos! Fechem até o buraco mais pequeno. Que dos ratos não fique nem o rasto!
De repente, eis que o flautista aparece na praça do mercado. Aproximou-se do presidente e dos seus conselheiros e disse:
— Sim, sim, está tudo bem, mas primeiro, por favor, eu queria os meus mil florins…
— Mil florins?
O presidente perdeu as boas cores que tinha, empalideceu, e os conselheiros, de repente silenciosos, olhavam fixamente para ele, como se o flautista não existisse. Haviam de pagar mil florins àquele vagabundo do manto vermelho e amarelo, quando o vinho do Reno custava esse dinheiro? Que restaria para os senhores da assembleia poderem festejar condignamente o acontecimento?
— Bom homem — disse, por fim, o presidente — a praga dos ratos é agora só uma recordação. Os ratos nunca mais hão-de voltar. Claro que queremos recompensar-te. Mas, mil florins! Repara que era uma brincadeira. Portanto, toma estes cinquenta florins, bebe à nossa saúde e vai com Deus!
A cara do flautista ficou negra como o carvão. E disse:
— Não foi brincadeira nenhuma, caros senhores! À hora das refeições sou hóspede do califa de Bagdade. Ele sim, é uma pessoa reconhecida, e não tenho um minuto a perder. Avarentos e ingratos como são, não esperem que lhes faça um desconto. E lembrem-se: quem se comporta comigo deste modo, arrisca-se a que eu comece a tocar a flauta com intenções bem diferentes.
— Como!? — gritou o presidente. — Como te atreves, seu vadio horroroso? Quem és tu? Pensas que impressionas alguém, com essa flauta inútil e esse fato de bobo? Vá, vá, toca a tua bela flauta até ela se partir .
Sem acrescentar uma palavra, o flautista voltou-se, colocando, de novo, a sua flauta nos lábios. Começou a caminhar e, antes que tivesse entoado três notas, três notas apenas, um alegre murmúrio percorreu a cidade de Hamelin. Eram pezinhos que avançavam velozes, tamancos que ressoavam no empedrado, mãos que aplaudiam, vozes de crianças que falavam alegremente. Todos os meninos e meninas da cidade, de faces rosadas, olhos cintilantes e dentes brancos como pérolas, seguiam em bando, rindo alegremente, a música do flautista.
Ao ver isto, o presidente emudeceu e os membros da assembleia ficaram quietos de espanto, imóveis como pedras. Entretanto, o flautista percorreu a rua principal e encaminhou-se para o Weser, levando atrás de si todas as crianças de Hamelin. E já as pessoas choravam e arrancavam os cabelos, acreditando que os filhos teriam o mesmo fim que os ratos encantados, quando o homem vestido de amarelo e vermelho mudou de rumo, para oeste, em direcção à colina de Koppelberg, que domina a cidade.
Então, todos soltaram um suspiro de alívio:
— Vai parar, vão ver! — diziam. — Não pode escalar o Koppelberg…
Mas eis que, chegado ao sopé do monte, o alegre cortejo parou um instante. Um enorme portal se abriu de par em par, na base da colina, engolindo o flautista e o seu séquito e fechando- se quando a última criança o atravessou.
Dissemos «a última»? Não, desculpem, enganámo-nos. Uma daquelas crianças ficou para trás. Regressou à cidade a chorar e disse à mãe que a abraçava:
— Ah! O que eu perdi! Olha, o flautista estava a levar-nos para o País da Felicidade. Lá as águas jorram límpidas, as flores têm cores maravilhosas, os pardais são mais sarapintados do que os pavões, as abelhas não têm ferrão, os cavalos têm asas. Ai de mim! Como sou infeliz!
Ouvindo aquelas palavras, muitos se lembraram das palavras de Jesus: É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos Céus. Todos se arrependeram da avareza que tinham mostrado. O presidente enviou mensageiros para Norte e para Sul, para Oriente e para Ocidente, mas em vão. Nunca mais se encontrou o rasto, nem do flautista, nem das crianças de Hamelin. E, a partir daquele dia, em memória do terrível acontecimento, nos documentos oficiais de Hamelin, depois da data, pôde ler-se: Mas recordamos tudo o que aconteceu no dia vinte e dois de Julho de 1376. E não só. Em frente ao local onde se abrira o portal mágico, o município mandou erigir uma coluna, e quem hoje visita a catedral de Hamelin pode ver nos seus vitrais a história do flautista mágico.
Mas, afinal, o que é que aconteceu às crianças encantadas? Não se sabe. Porém, não podemos deixar de dizer que, nos montes da Transilvânia, existe uma aldeia de estrangeiros. São altos, louros e corados. Os seus vizinhos contam que os seus antepassados eram provenientes de uma cidade longínqua chamada Hamelin, perto de Hanôver. Mas não sabem explicar como e por que é que chegaram ali, à remota Transilvânia…
Talvez haja, nesta história, qualquer coisa para aprender. A minha opinião é que devemos pagar as nossas dívidas a todos, especialmente ao flautista. E, se alguém tocar flauta para nos libertar dos ratos, depois de lhe termos prometido alguma coisa, é conveniente mantermos a palavra dada.

Robert Browning
Os mais belos contos do mundo
Porto, Livraria Civilização, 1994

 

  • Os dirigentes da cidade achavam-se pessoas muito importantes. No entanto, não sabiam governar nem se preocupavam com os cidadãos; além disso, tinham vários defeitos. Queres indicá-los?
  • E tu, achas que tens algum desses defeitos?
  • Recordas-te de teres, alguma vez, faltado à tua palavra?
  • Por momentos, fecha os olhos… e tenta descrever o que vês no País da Felicidade.

A fada Publicidade

A Fada Publicidade

Era uma vez uma menina chamada Minucha, que vivia no país das fadas e que passava o dia inteiro a ver televisão. Até as fadas têm defeitos, é verdade! Do que ela mais gostava não era dos documentários ou dos desenhos animados. Era… da publicidade.

É que até as fadas têm necessidade de um pouco de sonho e de muita magia. E a publicidade fazia sonhar, e de que maneira! Todos aqueles brinquedos, todos aqueles objectos que a televisão propunha, mesmo que fossem só em imaginação, eram inacreditáveis. Havia um foguetão telecomandado que ia até à lua, um submarino de tamanho natural, um audioformiga para compreender a língua dos insectos, uma boneca que fazia gelados de morango, etc. Assim, quando chegava a publicidade, o coração de Minucha batia muito rápido, as faces ficavam coradas e os olhos em bico.

A vontade chegava, incontrolável. Primeiro, parecia um buraco no estômago, depois um formigueiro na barriga, a seguir uma ideia fixa na cabeça, e finalmente uma voz estridente a gritar: “Quero! Vou comprar! Quero, e hei-de ter.” E aquele mal-estar não a largava, até ao momento em que, finalmente, conseguia o objecto.

No país das fadas, mesmo sem dinheiro e graças ao pó mágico, consegue-se tudo o que se quer, excepto as varinhas de condão. Estas só são entregues pela Academia das Fadas. Minucha conseguia todos os objectos: o foguetão telecomandado, a boneca pasteleira, o submarino de tamanho natural, o robô que arruma o quarto.

Durante um ou dois segundos, Minucha ficava muito contente. Ria sozinha, cantava, corria por todo o lado, mas, a partir do momento em que possuía o brinquedo, ficava inevitavelmente desiludida. O robô só funcionava com pilhas que eram difíceis de encontrar, o foguetão não regressava da lua, os gelados de morango sabiam a plástico. Em conclusão, a magia desaparecia quando o objecto se tornava real.

Mesmo assim, Minucha não se cansava de ver a publicidade, que conta tão lindas histórias e cria em nós a vontade de possuir o mundo inteiro!

Então, lá voltava o carrossel: buraco no estômago, comichão, ideia fixa, voz a gritar “Quero e hei-de ter!”, um brinquedo a sair da televisão, e uma grande crise de lágrimas por causa da decepção. Já não tinham conta os brinquedos que se acumulavam no sótão, ainda a brilhar de novos, as bonecas, os comboios que já não apitavam, os novos carrinhos, uns mais rápidos do que outros, os novos cereais para o pequeno-almoço com o brinde que a televisão tinha mostrado!

Certo dia, ao ligar a televisão, Minucha sentiu o coração bater ainda mais rápido, as faces ficarem ainda mais vermelhas. No pequeno ecrã, uma pequena feiticeira apregoava as qualidades de uma varinha de condão.

— Com uma varinha prateada, o teu Q. M. (Quociente Mágico) será mais elevado e farás maravilhas! Com a varinha preciosa, serás a mais feliz das fadas.

A pequena feiticeira enumerou, em seguida, todos os fabulosos truques de magia que se podia fazer com a varinha de condão: transformar uma princesa em orangotango, uma mãe em pai, um pai em avó, uma panela de pressão em chapéu de madrasta, um pedaço de chocolate num quadrado de açúcar… Oh! Como a pequena fada gostaria de ter uma!

Mas lembra-te de que as pequenas fadas podem conseguir tudo, excepto as varinhas de condão. Quando tomou consciência daquela atroz realidade, Minucha quase arrancava os cabelos. Era a primeira vez que não podia calar a voz estridente: “Eu quero, eu hei-de ter!” Tinha o coração cheio de amargura. Se não podia transformar uma princesa em orangotango e uma gazela em três sapos, uma panela de pressão em chapéu de madrasta e um pedaço de chocolate em açúcar, de que lhe servia viver? Dava voltas na cama a matutar como haveria de fazer para conseguir uma varinha de condão prateada que fizesse maravilhas.

Uma noite, depois de ter dado 1678 voltas na cama, apareceu à sua frente a fada-madrinha, aquela que vem socorrer as pequenas fadas que estão desesperadas. Quando Minucha lhe explicou que não conseguia dormir por causa da varinha de condão prateada que fazia maravilhas, a madrinha desatou às gargalhadas.

— Porque te ris? Não tem graça nenhuma! — resmungou Minucha.

Mas a madrinha não parava de rir.

— É a Fada Publicidade! A marota! Diz o que lhe vem à cabeça e raramente cumpre as suas promessas. Se queres saber, ela é um pouco feiticeira… Quando vê uma criança diante da televisão, esfrega as mãos de contente e põe-se a fazer chacota lá do seu canto: “Ah, ah, ah! Aqui está mais uma que caiu em meu poder…” É assim aquela tonta. A única coisa que lhe interessa é ser a rainha do mundo! – E a fada-madrinha fez um ar muito sério. — A sua varinha prateada é como outra varinha qualquer, só que brilha um pouco mais.

A pequena fada teve uma crise de cólera: bateu o pé, atirou o edredão ao ar, deitou brinquedos pela janela fora. Depois acalmou-se e começou a reflectir.

Não desistiu de ver televisão mas, quando a ligava e começava a sentir a comichão no estômago, a ideia fixa, o coração a bater mais rápido, isto é, a vontade de possuir o brinquedo da televisão, ela via a Fada Publicidade, lá no seu canto, a rir e a esfregar as mãos de contente:

— Sonha, minha filha, sonha! Em breve serei a rainha do mundo! Todas as crianças serão minhas!

Então, Minucha desligava a televisão e dizia muito alto:

— Não, não, fada má! Desta vez não vais apanhar-me! O teu brinquedo parece mágico, mas não é!

E era ela que ria à socapa, imaginando a fada verde de raiva. E dizia para consigo:

— De nós as duas, sou eu a mais forte!

 

Sugestão de actividades

A partir da leitura do conto A fada Publicidade, as crianças poderão ser ajudadas a tomar consciência das ilusões criadas pela televisão, entre as quais a busca de fama e protagonismo, e o apelo à aquisição de bens materiais, fonte de permanente insatisfação.

Será útil ensinar as crianças a dar apreço aos brinquedos que possuem, mesmo quando já usados, realçando-se, entre outros aspectos, o seu valor afectivo, e pondo-se em causa a mentalidade do “descartável”, típica da sociedade contemporânea.

Recomenda-se ainda a leitura dos contos

 

  • Vida de urso
  • Natal no hipermercado – Luísa Ducla Soares
  • O piano velho – Gabriela Carvalho
  • A boneca – Tilde Michels
  •  

    Mani e a amiga-sombra (sobre o conceito de “sombra” adaptado a crianças)

    Mani e a amiga-sombra

    Mani gostava muito de brincar. Mal voltava da escola, lanchava, fazia os trabalhos de casa e ia brincar. Adorava passear pelo bosquezinho que começava em frente da sua casa e só acabava mesmo à beirinha da praia.

    O bosque não era muito grande. Não era uma floresta a sério, com imensas árvores e muitos animais, onde uma pessoa pode até perder-se. Não. Mani é que, desde pequenina imaginava que ele, com aqueles troncos seculares, almofadados de musgo, que a encantavam, era quase mágico. Mani imaginava que as árvores lhe indicavam o caminho para um sítio muito especial, que ela tinha de encontrar sozinha. Que estava povoado de fadas e de animais mágicos, de seres encantados, de bruxas e de sombras. Oh, com as sombras é que ela tinha de ter atenção! Continuar a ler

    Arranja tempo para brincar!

    Tempo para brincar

    tempo para

    Arranja um passatempo, pratica um desporto, procura realizar um sonho teu — mas fá-lo sempre pela alegria que isso pode trazer-te.
    Brincar e divertires-te não significa teres de atingir uma meta ou venceres alguém ou alguma coisa…
    Brincar significa unicamente boa disposição e alegria.

    Trabalha alegremente
    Procura ser criativo e bem-disposto na tua actividade, e verás como o trabalho pode ser uma diversão.

    Brinca despreocupadamente.
    Todos os divertimentos que tenham como finalidade vencer, passar à frente, dominar — não têm graça.

    Procura ser amigo daqueles que despertam em ti sentimentos de alegria.
    Eles são um tesouro de valor incalculável para a tua vida.

    Arranja momentos para te divertires sozinho.
    Verás que o estar só te ajudará a reflectir sobre coisas que são importantes na tua vida.

    Repara como a própria natureza é divertida:
    O murmúrio dos riachos,
    A luz cintilante do sol,
    O cantar dos pássaros,
    As pequenas folhas que lentamente vão caindo do cimo das árvores,
    As estrelas cintilantes no véu escuro da noite…

    E vê como todas estas criações se divertem a brincar contigo!

    Responde sempre aos convites que os teus animais de estimação te fazem para brincares com eles.
    Eles estão só a lembrar-te que esse é o melhor momento para te divertires.

    Michael Joseph
    Tempo para brincar
    Lisboa, Paulinas, 1998
    adaptação

    O duende Dudu, professor de felicidade

    O duende Dudu, professor de felicidade

    Duende Dudu

    Naquele dia, Martinho acordara muito, muito mal disposto, como era, aliás, habitual todas as manhãs. Martinho estava sempre de péssimo humor. Mas não era por falta de uma mãe sorridente, de um pai carinhoso, de uma linda casa, nem de todas aquelas coisas que são necessárias para se ser feliz.

    — Bom dia, querido! — exclamou a mãe. O sol inundou o quarto.

    — Grrr — disse Martinho, à laia de bom-dia.

    — Hoje está bom tempo, podes vestir os teus calções — disse-lhe a mãe carinhosamente.

    — Não gosto de bom tempo — resmungou Martinho. — Quando está bom tempo, fica muito quente.

    A mãe suspirou. Porque seria ele tão resmungão?

    Mas, naquela manhã, alguma coisa ia mudar na vida de Martinho. Ao despir o casaco do pijama, sentiu uma coisa no bolso… Assustado, sacudiu o casaco.

    — Ai, ai! Ui! — ouviu-se do chão uma vozinha minúscula.

    Martinho semicerrou os olhos… Diante dele, agitava-se o mais pequenino duende que alguma vez existiu à face da terra. Um duendezinho que esfregava o seu minúsculo pé esquerdo, ao mesmo tempo que fazia caretas.

    — O que estás aqui a fazer? — perguntou Martinho.

    — Não és nada simpático. Ao menos podias perguntar-me se eu não me magoei, não achas? Julgo que parti o pé esquerdo.

    — E depois? — perguntou Martinho, cruzando os braços.

    O pequeno duende estendeu-lhe a sua mãozinha minúscula.

    — Sou o duende Dudu, professor de felicidade — disse em tom solene. — Às tuas ordens.

    — Professor de felicidade? E que mais? — disse Martinho, rindo maldosamente. — Porque não professor de delicadeza e de boas-maneiras?

    — Acertaste em cheio! — exclamou Dudu com a sua vozinha minúscula — porque sou tudo isso ao mesmo tempo. Ensino a gentileza, as boas-maneiras, os sorrisos, o desejo de viver. E agora, cuidas-me da perna e levas-me para a escola, por favor?

    De má-vontade, Martinho foi buscar cartão, fósforos e fio de pesca para fazer uma tala. Em seguida, meteu Dudu no bolso do casaco, dizendo:

    — Nunca se sabe… talvez eu me aborreça menos do que de costume!

    A caminho da escola, o duende Dudu pôs a sua pequenina cabeça fora do bolso.

    — Martinho, levanta a cabeça! Tens os olhos pregados no chão! Assim só vês o cocó dos cães!

    — E depois? — perguntou Martinho com um tom arrogante. — Quero lá saber do que se passa à minha volta!

    — Não me admira que andes sempre mal disposto, assim fechado em ti mesmo como numa prisão! — suspirou o duende da felicidade. — Olha à tua volta! Olha para esta banca de frutos! Aprecia estes morangos! Davam-me para uma casa fantástica. Quando for rico, hei-de comprar um morango como aquele e fazer dali a minha segunda residência. Com cortinados brancos às pintinhas cor-de-rosa.

    “É doido de todo”, pensou Martinho.

    Mas o duende não parava de se extasiar:

    — Oh! Olha! Aquela menina… Que beleza! Parece saída das Mil e Uma Noites. Se lhe puseres um diadema, fica uma verdadeira princesa.

    Pela primeira vez, Martinho reconheceu que Dudu tinha razão. Quando se olhava para ela com olhos de duende, aquela menina parecia saída de um conto de fadas.

    — Oh! É extraordinário! — voltou Dudu a exclamar.

    — O que é agora? — perguntou Martinho cheio de curiosidade, erguendo os olhos. — O que estás a ver, Dudu?

    — Bem, é o senhor Peixoto, o peixeiro — exclamou Dudu com a sua vozinha estridente. — Vai de bicicleta, olha! Deve ir à pesca.

    — Para onde?

    — Pode ir para o rio Douro, para o rio Tejo, para o oceano… tanto faz!

    — É verdade — concordou Martinho. — Não importa saber para onde. O que tem graça é imaginá-lo a pescar…

    Na escola, Dudu admirava-se a cada instante. A aula de Matemática fê-lo dar saltos dentro do bolso.

    — Ena! Tantas possibilidades! Tantos cálculos até ao infinito!

    A aula de História fê-lo suspirar de satisfação.

    — Tantas histórias… — murmurava ele com a sua vozinha minúscula de duende. — Histórias de reis, de imperadores…

    Mas a sua preferida foi a aula de Geografia.

    — Os mares! Os oceanos! Tantas ilhas, tantos lugares que não conhecemos e que podemos imaginar só de olharmos para um mapa! Os mapas geográficos são um verdadeiro sonho!

    Era assim mesmo, sem tirar nem pôr! Martinho começou a pensar que aquele homenzinho estava cheio de razão, e passou a prestar atenção àquilo que acontecia na escola.

    — Gostavas de ir a algum lado, Martinho?

    — Gostava de ir à Polinésia — respondeu Martinho. — Porque lá a água do mar é quente e há peixes de todas as cores.

    Quando saiu da escola, às quatro e meia, com o duende no bolso, Martinho já não ia cabisbaixo. Sentia agora que a sua vida estava cheia de sonhos e de cores.

    — Vês — disse Dudu — basta mudar-se o que se tem na cabeça. Se pensarmos: “Vou aborrecer-me na escola”, aborrecemo-nos de certeza. Mas, se pensarmos: “Vou ouvir histórias bonitas sobre países longínquos”, tudo se torna diferente.

    O ar cheirava a framboesas e Dudu não parava de falar.

    — Sabes que mais? Se eu tivesse uma mãe como a tua, só teria um desejo: sentir a cara dela junto da minha, respirar o seu perfume… As mães são tão perfumadas, tão carinhosas! Ficamos tão contentes quando pensamos nelas…

    E a sua voz tornou-se grave:

    — Eu tive mãe, há muito, muito tempo… E agora daria tudo para poder respirar o seu perfume. Mas é tarde demais.

    Martinho compreendeu que a mãe de Dudu e o seu desaparecimento tinham um papel muito importante na história do duendezinho e na sua maneira de procurar ser feliz.

    Naquela noite, Martinho deu à mãe um abraço muito apertado e respirou com força o seu perfume. A mãe deu-lhe um abraço mais apertado ainda.

    — Sinto que estás melhor, Martinho, e estou muito contente por isso.

    — É natural! — respondeu Martinho a rir-se. — Trago comigo um génio bom… Um pequeno duende que me ensina a ser alegre.

    A mãe também se riu e deu-lhe as boas-noites.

    No dia seguinte, quando Martinho acordou, meteu a mão no bolso à procura de Dudu. Nada. Sacudiu com força o casaco do pijama à espera de ouvir o duende resmungar, como na véspera. Mas aquilo que caiu foi uma minúscula folha de papel branco que ele desdobrou.

    O meu pé melhorou e já posso ir-me embora. Espero que o teu pé também esteja melhor. Desejo-te uma vida bonita, cheia de pequenas alegrias.

    Martinho fez um esforço para não chorar. Passado algum tempo, já não se sentia triste nem zangado. Comentou simplesmente:

    — Que sorte tive eu de o ter conhecido! Foi o melhor professor de felicidade que alguma vez encontrei!

    Foi assim que a sua vida mudou por completo. Quando cresceu, Martinho casou-se com uma princesa das Mil e Uma Noites. Viajou para longe, durante muito tempo. Descobriu regiões desconhecidas, só vistas nos mapas, tal como a Polinésia, o que lhe dava sempre uma enorme satisfação.

    Por vezes, diante de um oásis, de uma duna, ou de um cardume de peixes multicores que nadavam rumo ao sonho, ele pensava no duende Dudu e sabia que, onde quer que este estivesse, no seu morango gigante ou no deserto da Arábia, iria sempre olhar para ele com o seu olhar sábio de filósofo e murmuraria:

    — Bravo, Martinho! Estou orgulhoso de ti! O teu pé esquerdo está agora muito melhor!

    *  *

    Sugestão de actividades

    Tratando-se O Duende Dudu de um conto que ensina a ver o lado positivo e esperançoso da vida, poder-se-á sugerir às crianças a realização de diversas actividades, tais como indicar uma qualidade de cada um dos seus colegas de turma, redigir uma pequena composição sobre a beleza que um dia frio e chuvoso de Inverno também pode ter, ou sobre aspectos que acabaram por se revelar positivos de alguma experiência difícil por que tenham passado.

    Propõe-se, como leitura complementar, o conjunto de pequenas reflexões intitulado Tempo para brincar.

    A História da Rosa – Gorjão Duarte

    A História da Rosa

    Sabes, meu filho, não há rosas sem espinhos. Pois é, concordei eu. Mas nem sempre foi assim. Sabias? Isso já não, confessei. É verdade meu filho, tempos havidos, as rosas não tinham espinhos, como qualquer outra flor. A velhota despertara-me a curiosidade. Queres saber o que se passou entretanto? Claro, queria mesmo. Então escuta com atenção.

    Como te disse, tempos houve em que as rosas não tinham espinhos. Aqui na Serra, também não havia tanta flor, tudo estava coberto de matagal e os lobos eram mais do que os espinheiros. A Natureza tem muita força, ela rege a vida do Universo, predestina tudo, a vida dos animais, das plantas e dos homens.

    Um dia, por desígnios seus, apareceu uma bela rosa, uma rosa mais bela do que qualquer outra, crescendo sozinha no meio do mato. As abelhas e as mariposas logo levaram a notícia em todas as direcções e nunca mais a rosa deixou de ser visitada por verdadeiros enxames desses simpáticos insectos. Talvez por isso, quem sabe, mas não lhe podemos levar muito a mal, tornou-se um poucochinho vaidosa. Fechando os olhos à beleza que a rodeava – a Serra é muito bela, não achas? – fechando os olhos à beleza que a rodeava, ia eu dizendo, a rosa nem sequer se apercebeu de que quase junto ao caule, nascera e crescia um gordo cacto. Esta planta é muito humilde, talvez por se considerar feia e horrível, com os seus picos sempre espetados contra inimigos, uns verdadeiros e outros imaginários. O cacto desta história sentia-se ainda mais humilde e triste por ter uma vizinha que não lhe ligava. Viveram assim durante muito tempo as duas plantas: uma lá no alto, vistosa, a outra rente ao chão, modesta. Mas, um dia, ah!, aconteceu uma coisa de pasmar.

    Sofria-se nesse momento uma pavorosa seca. A nossa rosa, porém, mantinha o viço como se todos os dias fosse regada. As raízes continuavam a sentir o subsolo húmido e a criar seiva para a flor permanecer de pé e não desmaiar de cor. Como era possível tal coisa? Apenas porque o cacto tinha no interior um reservatório de água e, de quando em vez, libertava alguma dessa água para a terra. Mas, como era modesto e tímido, nada confessava desse seu gesto.

    Por essa ocasião, conta-se, um homem perdeu-se na serra e, vagueando, vagueando, quase morto de sede, abeirou-se do sítio onde viviam a rosa e o cacto. Ao ver este, como era viajado e conhecedor, recordou sabedorias antigas, e pegando numa faca de mato arrancou-o, abriu-o ao meio e bebeu a água muito fresquinha. Desta forma, o homem ganhou novas forças e salvou-se de uma morte certa. O pobre cacto, esse, coitado, morreu. Mas a rosa aprendeu a lição; se aprendeu! Desde logo suspeitou se ainda estava viva, ao cacto o devia. Fora dele, sem dúvida, a água que impedira que ela murchasse e secasse. Teve por isso de reconhecer: nem só a beleza é coisa importante. Afinal, o cacto, a cuja presença nunca ligara, salvara a vida de um homem. E então chorou, arrependida, por não ter tido tempo, ocupada com a sua beleza como sempre estivera, de reconhecer e dar valor ao vizinho. Debruçou-se a seguir sobre os seus restos, num abraço de despedida.

    Disse-te há pouco, a natureza é cheia de desígnios e só ela os entende. Nós não podemos nada contra ela. Pois sucedeu uma coisa inesperada: ao dar-se aquele abraço, os picos do cacto espetaram-se no caule da rosa. Não, não, ela não sentiu dor nenhuma. A flor até ficou reconhecida por isso ter sucedido. Era a última homenagem prestada à valente planta. E aqui tens: a partir desse dia as rosas passaram a nascer com espinhos.

    Gorjão Duarte
    A Minha Amiga Serra
    Lisboa, Livros Horizonte, 1990

    Sugestão de actividade

    Dado que o conto põe em destaque a atitude de orgulho da rosa, contraposta à humildade e discrição do cacto, poder-se-á sugerir às crianças a criação de uma lista de defeitos, e uma outra alusiva às virtudes correspondentes, tais como:

    vaidade — simplicidade
    cobardia — coragem
    desonestidade — honestidade
    preguiça — diligência
    hipocrisia — sinceridade
    mentira — verdade
    impaciência — paciência

    etc.

    Apenas um rapaz – Ant. Torrado

    Era uma vez um rapaz bravio que gostava de pregar partidas e fazer matulices, só por embirração. Era muito antipático este rapaz.

    Mas emendou-se. Eu conto como foi.

    Um dia, por maldade, deu-lhe na veneta atormentar uma pobre velhota, que vivia numa casinha pobre, à beira do povoado. Foi para uma pedreira que havia perto e pôs-se a atirar pedras e a rebolar pedregulhos, que iam cair no quintal da velhota. Para o que lhe havia de dar!?

    No fim do seu feito, já cansado, aproximou-se da casa da velhinha, para ver de perto os resultados da sua proeza. Andava a velhinha a recolher as pedras, espalhadas pelo quintal.

    — Foi uma bênção que me caiu do céu — dizia a velhinha. — Precisava, há que tempos, de consertar o muro do quintal, mas não tinha forças para trazer tantas pedras. Se não fosse esta avalanche…

    O rapaz ficou de boca aberta. E mais sem fala ficou quando a velhinha lhe propôs:

    — Bom rapazinho, importas-te de me ajudar a consertar o muro?

    Ele, que tinha de fazer de conta que era um bom rapazinho, não teve outro remédio. Passou o resto do dia a acartar pedras, as pedras que ele lançara do alto do monte.

    No fim da tarefa, a velhota agradeceu-lhe o trabalho e deu-lhe um grande boião de mel. O rapaz lá se foi, cansado e a lamber os beiços, um tanto confundido. À noite, quando se deitou, estava cá com uma dor nas costas, que não lhes digo nada! Mas regalado com o mel que a velhinha lhe dera.

    Ora pois! Serviu-lhe de emenda. Mudou de intenções. Não posso garantir se, dessa vez em diante, nunca mais pregou partidas. Um diabinho não se transforma de repente num santinho. É exigir demais. Mas, na verdade, deixou-se de brincadeiras tolas.

    Sem que possa ser considerado um virtuoso rapazinho, também já não é um venenoso rapazote. Nem rapazinho, nem rapazote. Apenas um rapaz. Nem muito mau, nem muito bom. Como quase toda a gente, aliás.

    António Torrado
    historiadodia.pt

    Sugestão de actividades


    Sublinhada a mudança de comportamento do rapaz após o contacto com a velhinha do conto, as crianças poderão ser incentivadas a sugerir formas de acompanhar e apoiar as pessoas de mais idade.

    É conveniente que a leitura do conto seja seguida de uma reflexão sobre as dificuldades e limitações com que os idosos muitas vezes se debatem, numa sociedade que tende a relegá-los para um plano totalmente secundário.

    Chico

    Chico

    Chico

    Chico vive numa aldeia perdida num dos muitos países de África. Podia ser em Angola, no Senegal ou no Ruanda. Podia chamar-se Chico, Abuabar ou N’gouda. Há muitos Chicos em África. Chicos de olhos brilhantes e pés descalços, com a cabeça povoada de sonhos, com vontade de ter um futuro para viver.

    Como quase todos os seus companheiros, Chico levanta-se bem cedinho pela manhã. Ajuda a mãe a tratar das duas cabrinhas, Flor e Kenchú, e só depois parte para a escola. Chico gosta particularmente de Flor. Foi ele quem lhe pôs o nome, no mesmo dia em que ela chegou à palhota, apertada nos braços fortes do pai, ainda mal se segurando nas patinhas frágeis, e a berrar pela mãe. Fora um vizinho que lha dera, como forma de pagar a ajuda no arranjo da cabana.

    Na primeira noite, Flor berrou todo o tempo a chamar pela mãe e nem deixava que Kenchú a tentasse acalmar, lambendo-a. Deitado na sua esteira, Chico não conseguia adormecer. Entendia tão bem a cabrinha! O pai dele arranjara trabalho longe, lá na cidade, e só podia vir a casa de quinze em quinze dias. Às vezes, para fazer mais algum dinheiro, ficava fora mais tempo. Quando chegava a hora de regressar à cidade, o pai dizia-lhe que se portasse como o chefe da casa e que devia obedecer à mãe. Como se fosse preciso dizer-lho! Ele bem sabia que a mãe, com o trabalho na fazenda do Sr. Macedo, com os gémeos de três anos e Linita, de oito, não podia fazer tudo, e precisava da ajuda dele.

    De todas as vezes que o pai partia, Chico ficava triste o resto do dia, mas depois passava. Quando a saudade lhe enchia o peito até cima e parecia querer saltar pelos olhos, apertava na mão com muita força o seixo que o pai lhe dera naquela tarde em que Chico pescara o maior peixe da sua vida. O pai explicara-lhe que tinha arranjado na cidade um bom trabalho, mas que ia deixar de poder vê-los todos os dias. Depois, metera a mão na água e tirara dois seixos, os mais bonitos que Chico alguma vez vira, e colocou-lhe um na palma da mão.

    — Quando tiveres muitas saudades minhas, apertas com força esta pedrinha. A tua saudade vai passar para a minha pedra e eu vou recebê-la e tu vais sentir-te acompanhado.

    Em certas ocasiões, as saudades eram tantas que acabavam por conseguir irromper para fora e duas lágrimas teimosas, quentes e grossas, deslizavam suavemente pela face castanha-escura de Chico. Ah, como ele compreendia a cabrinha malhada com a manchinha branca na testa! Esgueirou-se para fora da palhota sem acordar os pais e os irmãos que dormiam, saiu para a noite quente e húmida e entrou na cabana dos animais. Passou a noite inteira deitado ao lado de Flor, que se acalmou e acabou por adormecer com a cabeça poisada no peito de Chico. No dia seguinte, já aceitou de bom grado o leite que Kenchú lhe oferecia.

    Os pais estranharam a mudança mas, durante algum tempo, a causa dessa transformação ficou um segredo entre Chico, Flor e Kenchú. Só depois de ordenhadas as cabras e de lhes ter deitado de comer, é que Chico saía para a escola. À saída da aldeia encontrava-se com Djimbu e Mkembé, os seus dois melhores amigos, e juntos faziam o caminho até à escola das Missões.

    Ir à escola era o que Chico mais gostava. O seu maior sonho, já segredado para dentro das orelhas de Flor e contado ao pai, durante uma tarde de pesca, era, um dia, poder ensinar outros meninos como ele a ler e a escrever. E haveria de trabalhar tanto, que iria até conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta novinha para os irmãos, igual a uma que vira um dia. Bem, do que ele gostava mesmo, mesmo, era de um dia poder ter um carro como o do Sr. Macedo, o dono da fazenda onde a mãe às vezes ia trabalhar.

    Mas esse era o seu maior segredo e ainda nem se atrevera a contar a ninguém, nem mesmo a Flor. Claro que, se o contasse a Djimbu ou a Mkembé, eles também iam querer, e deixava de ser um desejo só dele… De cada vez que o Sr. Macedo vinha à casa grande, somente de tempos a tempos, Chico ficava parado no caminho a observar o grande carro branco e brilhante, tão brilhante que, quando o sol cintilava nos vidros, até fazia doer os olhos, e assim ficava perdido no seu segredo.

    Ao chegar à escola, Chico notou um alvoroço desacostumado. Alguns homens em manga de camisa transportavam caixas para dentro do edifício da escola. Pareciam todos muito bem dispostos, e até o Palhinhas, o cão acastanhado do professor, soltava latidos alegres e abanava a cauda, bem disposto. Chico, Djimbu e Mkembé estugaram o passo. Que confusão! Quando a velha furgoneta partiu, deixando a velha escola atafulhada de caixas, sentaram-se, de pernas cruzadas no chão e o professor deu início à abertura das caixas.

    Era uma encomenda vinda da Europa com uma oferta de material para a escola. Perante o olhar fascinado das crianças, o professor foi retirando, com largos gestos teatrais mas sinceros, folhas soltas, restos de cadernos, cadernos e blocos novos e usados. Chico nem queria acreditar! Aquele material podia não ser novo, mas para eles isso não tinha a menor importância e era-lhes muitíssimo útil. Quem o enviara parecia adivinhar exactamente aquilo de que estavam a precisar!

    O professor continuou a retirar lápis, lápis novos e usados, restos de lápis, lápis de cor – que bonitas as cores! – canetas – eram tão poucas as que lhes chegavam à escola! – borrachas que apagavam o que o lápis escrevia. Mas o melhor de tudo vinha no último caixote… Quando o professor o abriu, o rosto iluminou-se num sorriso. Muito lentamente, como um mágico que tira um coelho da cartola, o professor foi erguendo o braço. As crianças, mortas de curiosidade e com os olhos a brilhar, sustinham a respiração. O professor mostrou…

    Livros!! Livros com imagens cheias de cor! Chico sentiu o coração a bater mais rápido. Parecia-lhe que estava a viver um sonho e só tinha medo de que a mãe o acordasse naquele momento.

    Livros! Chico era capaz de ficar horas a fio mergulhado e perdido nas páginas de um livro. Ainda não tinha lido muitos. Só três dos meros vinte que constituíam a magra biblioteca da escola. Podia ser muito reduzida, mas os meninos achavam-se importantes por os terem e manuseavam-nos carinhosamente e com muito cuidado. Chico tinha lido os três mesmo até ao fim, e tantas, tantas vezes, até saber as histórias de cor e poder contá-las à noite, em volta do lume, à mãe, ao pai e aos irmãozinhos, que o escutavam com os grandes olhos castanhos muito abertos de espanto e com a respiração suspensa. Se Chico pudesse, levaria um daqueles para casa para lhos ler. Ficariam certamente ainda mais orgulhosos dele. Se algum dia conseguisse ganhar dinheiro, haveria de poupar até conseguir juntar o suficiente para comprar um grande livro de histórias ou de aventuras para ler aos irmãos. O maior e o mais grosso que houvesse à venda.

    Os pensamentos de Chico foram interrompidos pela passagem do professor. Já tinha partido os lápis em pedaços mais pequeninos, que distribuía naquele momento pelos alunos. Cada um ia encaixar o seu pedacinho de lápis numa caninha ou num pau para conseguir aproveitá-lo até ao fim. Tinham autorização para levar o material para casa, mas ninguém o levava com medo de perder as preciosas folhas de papel ou os lápis.

    Chico pegou no seu, como quem recebe em mãos uma relíquia ou um tesouro. Não, hoje ia ter muito cuidado. Da última vez que preparara o lápis, no preciso momento em que estava a cortar a cana, o Sr. Macedo apareceu no seu carro brilhante, a apitar a uma gazela que se atravessara no caminho. Por momentos, Chico esqueceu tudo o que estava a fazer, imaginando-se sentado nos bancos macios, por trás do volante, com o vento a acariciar-lhe a face, e a apitar a empalas, zebras e macacos. Zás! Deixou cair o braço e cortou o bico do lápis, que, se já era pequeno, ainda mais reduzido ficou.

    Que tristeza! Até deu pontapés no velho baobá que se erguia à saída da cabana, de tão furioso que ficou. Porque é que o Sr. Macedo tinha de aparecer precisamente naquele momento? Por causa daquele carro enfeitiçado, já não teve lápis para escrever ao pai – o encarregado da fábrica lia as cartas aos empregados – por aquela altura em que esteve muito tempo sem vir a casa. Não, desta vez ia estar com mil olhos. Nem que passassem dois carros a apitar mesmo ao lado dele, ele ia ceder à tentação de olhar!

    Ao regressar a casa, Chico apertava com força o seixinho do rio Tinha tantas novidades para contar em casa! E tanta coisa para escrever ao pai! Queria dizer-lhe que, da próxima vez que viesse a casa, ele, Chico, iria ter novas histórias para contar à noite, junto ao fogo.

    I. Birnbaum

    A ponte

    A ponte

    Max e Pedro eram alunos da terceira classe. Moravam em frente um do outro, na mesma rua de uma pequena cidade. Já tinham sido grandes amigos, mas, por um motivo qualquer, tiveram um dia uma discussão e passaram a odiar-se.

    Quando Max saía da porta do pátio, gritava para o outro lado da rua:

    — Ó palerma! — E mostrava o punho ao ex-amigo.

    Pedro respondia:

    — Quantos escaravelhos como tu são precisos para fazer um quilo? — E ameaçava-o também com o punho.

    Os colegas da turma tinham já tentado reconciliá-los por várias vezes, mas todos os esforços haviam sido vãos. Eram mesmo dois teimosos! Da última vez, acabaram a atirar bolas de lama um ao outro.

    _Um dia, tinha chovido muito. Depois, as nuvens afastaram-se e o sol voltou a brilhar, mas a rua ficara inundada. Quem queria atravessar tentava, a medo, medir a profundidade da água com a ponta do pé, e recuava.

    Max saiu de casa, parou na frente do pátio e olhou satisfeito à sua volta. Tudo fresco e lavado pela chuva, brilhava agora ao sol. De repente, o seu rosto tornou-se sombrio. Do outro lado da rua, estava Pedro parado à porta de casa. E Max reparou que ele tinha na mão uma grande pedra.

    “Ah!”, pensou Max. “Então queres atirar-me com uma pedra! Isso também eu sei fazer!”

    Correu novamente em direcção ao pátio, procurou um tijolo e voltou para a rua, pronto para se defender.

    Mas Pedro não lhe atirou a pedra. Baixou-se na beira do passeio e depô-la na água com cuidado.

    _Depois, experimentou com o pé para ver se oscilava, e desapareceu.

    A pedra parecia uma pequena ilha.

    “Ah!”, pensou Max. “Isso também eu sei fazer!” E colocou o seu tijolo na água.

    Pedro voltou a aparecer, carregando uma segunda pedra. Pôs o pé com cuidado em cima da primeira e colocou a segunda pedra na água, alinhada com o tijolo do seu inimigo. Max trouxe então três tijolos de uma só vez.

    E assim foram construindo uma passagem sobre a água.

    Nos dois lados da rua, as pessoas observavam-nos e esperavam. Por fim, ficou apenas a distância de um passo entre o último tijolo e a última pedra. Max e Pedro estavam em frente um do outro. Era a primeira vez, desde há muito tempo, que se olhavam novamente nos olhos.

    — Tenho uma tartaruga no meu pátio — diz Max. — Queres vir vê-la?

    N. Oettli

    Jutta Modler (org.)
    Brücken Bauen
    Wien, Herder, 1987

    O Baile das Flores

    O Baile das Flores

    — Hoje vou ao baile das flores — anunciou o repolho. — Quem quer vir comigo?

    — Ao baile das flores? — sussurrou a cebola, horrorizada. — Para que é que temos o nosso Baile da Salada Russa? É muito mais divertido!

    — Tu ficas bem entre iguais — disse a alface. — O teu lugar é aqui e tudo mantém a sua devida ordem.

    O pepino anuiu sabiamente com a cabeça.

    — Acautelai-vos com as flores do jardim do outro lado da cerca — continuou a alface. — Andam de nariz levantado e olham-nos de cima para baixo. Não passam de ervas sentadas em vasos!

    — Não queremos ter nada a ver com elas — disseram as ervilhas. Um arrepio percorreu-lhes as vagens e tilintaram, venenosas:

    — Aquelas perfumadas da horta não passam de umas campainhas de enfeite…

    — Mas o que é que vocês todos têm contra as flores? — suspirou o repolho tristemente. — Eu gostava muito de ir ao baile delas mas, sozinho, não me atrevo.

    — Eu não tenho nada contra as flores. Só têm um aspecto diferente do nosso e às vezes não cheiram tão bem como nós — disse a cenoura pensativa. E calou-se por um momento.

    — Sabes que mais? Também vou contigo — decidiu, com um estremecimento da raiz à ponta das folhas.

    — Óptimo!

    O repolho limpou as folhas e enfeitou-se com uma peninha. A cenoura encontrou uma linda máscara para si.

    — Mas que bonitos que vocês estão! — elogiaram os rabanetes e, de repente, deixaram de ter caras coradas e alegres.

    O repolho empertigou-se e ofereceu à cenoura um braço forte.

    — A menina vem?

    Ela acenou com a cabeça, animada, e, de pé leve, deixaram a horta.

    No baile, a animação já tinha começado. As flores tinham pedido ajuda ao galo, às galinhas e ao salgueiro. Os grilos cantavam com afinco e os pardais chilreavam ritmos quentes. A água espumava e borbulhava. Alguém tinha aberto a pipa da água da chuva e o escaravelho servia-a aos convidados.

    Sentado à entrada, o cão de guarda meneava a cabeça. — Os convidados já estão um bocadinho tocados!…

    Repolho e cenoura passeavam pelo baile e iam cumprimentando à direita e à esquerda.

    — Quem são estes? — cochichava um cravo a uma tulipa mais velha.

    Esta olhou por cima dos óculos e torceu o nariz.

    — Legumes, diria eu…

    O cravo ficou sem poder respirar e coçava as pétalas, atónito.

    — Mas que horror! — exclamou. — Legumes crus no nosso baile. Que indecência!

    — Mas o que é que eles têm de vir aqui fazer? Foram ao menos convidados? — queria saber uma rosa.

    — Mas que gente tão simplória, não acha, minha querida?

    O rosmaninho fez uma vénia perfeita em frente da rosa e levou-a para a pista de dança. Ela ainda era jovem e vermelha.

    — Devíamos pô-los daqui para fora. Onde é que já se viu, legumes desconhecidos no nosso baile! — a rosa canina endireitava-se, pronta a picar. — Que gentinha miserável, que ervas insignificantes!

    — Nem mais! Não passam de mergulhadores de sopa sem graça, e de pastéis
    mal-cheirosos — um malmequer arrepiava-se todo, já meio enjoado.
    O repolho ouvia o falatório e os cochichos, e reparara como as rosas se encolhiam, os cravos tremiam de indignação e como um amor-perfeito tivera até um ataque de soluços.

    — Parece eles não gostam de nós — disse à cenoura.

    — É pena. A música deles é tão bonita — respondeu a cenoura, sonhadora. Cheirou o ar à sua volta. — E há um perfume no ar. É fantástico!

    Pensou um pouco.

    — Fizemos-lhes algum mal? — perguntou ao repolho.

    — Não. Fizeram-nos eles algum mal? — perguntou ele.

    — Não — respondeu a cenoura.

    — Então pronto, ninguém tem razões para estar zangado.

    O repolho sentiu-se mais tranquilo e confiante. Compôs a pena e fez uma vénia à cenoura.

    — Estou tão só, menina — disse. — Dá-me a honra?

    A cenoura sentiu-se feliz. A noite estava morna, a luz era suave e os pirilampos estavam bem-dispostos. A lua rolou no céu e apareceram estrelas, curiosas. Era uma noite perfeita.

    A cenoura piscou-lhe um olho através da máscara. — Será um prazer — disse, estendendo-lhe uma folha delicada.

    Misturaram-se com os bailarinos. Um gladíolo recuou quando os viu, e chegaram a pisar os pés de uma dália.

    — Se ao menos fossem ervas daninhas — suspirou uma glicínia — ainda floriam quase como nós — mas calou-se, admirada.

    O repolho tinha agarrado a cenoura pela cintura e dançavam uma animada rumba-feijoca. Em seguida, deslizaram um maravilhoso tango-pepino e, por fim, saltaram ainda um elegante cha-cha-cha-piri-piri. A cenoura ia ficando sem fôlego, mas seguiu-o corajosamente e não caiu uma única vez. Os dois formavam um par bonito de se ver e as flores aplaudiram, a contra-gosto.

    Depois de ver isto, o lírio ousou por fim dirigir-se à cenoura e o repolho convidou uma margarida para dançar. Tocou-se uma valsa encantadora. Depois, a cenoura dançou um galope com um manjerico e o repolho foi buscar a gerbera para uma animada polca.

    Foi uma bela noite.

    Todos puderam conversar, conhecer-se e cheirar-se.

    — Nós vamos convidar-vos para a nossa Salada Russa — prometeu o repolho ao despedir-se.

    — E vocês voltam no próximo baile, não é? — perguntou o lírio diligente, que tinha deitado uns olhinhos à cenoura.

    Os dois entraram em casa em bicos de pés. Estavam felizes, muito cansados e não queriam acordar ninguém.

    Quando o repolho estava quase a adormecer murmurou:

    — Quem diria? Tenho de escrever a história desta noite para nunca a esquecer.

    — E eu desenho-te algumas imagens — sussurrou a cenoura — e ficamos com um livro.

    Os olhos fecharam-se-lhe. — E um dia mais tarde havemos de lê-lo aos nossos netos.

    E começou a ressonar baixinho.

    Sigrid Laube; Silke Leffler
    Der Blumenball
    Wien, Annette Betz Verlag, 2005
    Texto adaptado

    Histórias com actividades

    Lista das histórias com sugestão de actividades e leituras complementares

    As palavras cor-de-rosa e as palavras cinzentas

    A Bomba e o General – Umberto Eco   [ O violoncelo do Sr. O Os três astronautas ]

    O Soldado João – Luísa Ducla Soares

    A Doçura

    Uma outra forma de escutar

    Chico

    O Dia-da-Presença  [ As sereiras não gostam de discussões  ;  As irmãs têm de se ajudarO cacto ; O papá urso foi embora ]

    A fada Publicidade

    Apenas um rapaz

    Mani e a amiga sombra  [Errado e certo e ficar liberto]

    O duende Dudu, professor de felicidade   [Tempo para brincar]

    A história da rosa – Gorjão Duarte

     

    Contos tradicionais com sugestão de actividades:

    * A Polegarzinha

    * As roupas novas do imperador

    * O rouxinol do imperador

    * Branca de Neve e os sete anões

    * A Bela Adormecida

    * A Bela e o Monstro

    * O flautista de Hamelin

    A liberdade é isto? (realidade infantil de muitas crianças)

    A liberdade é isto?

    Carlos, um rapaz das Honduras, é uma dos cerca de quarenta milhões de crianças que, por não terem lar, vivem abandonadas à sua sorte nas ruas das cidades latino-americanas. Muitas delas ainda têm pais, mas estes são tão pobres que não podem tomar conta dos filhos. Há cinco anos que Carlos ganha o sustento como engraxador de sapatos. Não é nada fácil sobreviver.

    O meu maior problema é dormir. Não é nada fácil encontrar um lugar seguro onde não seja incomodado. Eu não quero juntar-me a nenhum bando e começar a roubar. Isso não é futuro. Mas como não estou em nenhum bando, também não tenho ninguém que me proteja. Às vezes é horrível não ter ninguém no mundo que goste de mim. É preciso ser-se muito forte para aguentar.

    Há dias em que tenho a impressão de que toda a gente me detesta. Olham-me, furiosas, quando pergunto: “Quer engraxar os sapatos?” Outras insultam-me porque estou sujo. Mas já me habituei a ser insultado só por ser pobre.

    A vida na rua é difícil. Quando comecei a trabalhar, havia rapazes mais velhos e mais fortes que me tiravam o dinheiro todo e até me batiam. Os polícias também me bateram várias vezes. Uma vez, meteram-me num lar, mas era como estar numa prisão. Ao fim de algumas semanas, fugi.

    A maioria das pessoas não fala comigo quando me manda engraxar os sapatos. Lê o jornal ou olha em frente. Mas também há quem me diga: “Dá-te por feliz por poderes viver em liberdade, por ninguém te dar ordens”, ou coisas parecidas. Isto põe-me furioso.

    É liberdade ter fome? É liberdade não poder ir à escola por ter de trabalhar? É liberdade não poder aprender uma profissão e ser talvez condenado a passar a minha vida inteira na rua?

    Hannelore Bürstmayr
    Grün wie die Regenzeit
    Mödling, Verlag St. Gabriel, 1986
    (tradução e adaptação)

    Eu, sozinho, no Fim do Mundo

    Eu, sozinho, no Fim do Mundo

    Eu vivia sozinho no Fim do Mundo.
    Os dias decorriam devagar e bem. Procurava tesouros em velhos mapas de impérios decadentes. Limpava rochas e encontrava fósseis. Reconstituía o esqueleto de monstros enormes com cordel. Jogava à bola até cair de cansaço. Sentava-me e lia. Gostava de ouvir o vento soprar através dos pinheiros eriçados, cujos ramos ondulavam no azul do céu. Comia biscoitos salgados e cartilagens. Ao sol-pôr, tocava melodias para a minha mula ouvir.
    Em noites de tempestade, gostava de ficar na minha cabana. Aconchegava-me junto ao fogão e ouvia a chuva e a trovoada. Via os animais de longas caudas, cinco patas, ou bocas beijoqueiras, enfrentarem o trovão. Também nunca tive medo. Adormecia ao som dos seus grunhidos, que mais pareciam barulhos de canalização. Sabia que, de manhã, não haveria vestígios da chuva, excepto um pequeno orvalho nas árvores que ficavam junto dos rochedos desolados. Sentia-me feliz, sozinho, no Fim do Mundo.
    Até um dia. Nesse dia, estava eu sentado de cabeça para baixo para que o meu cabelo ficasse completamente de pé, quando vi um homem estranho. Tinha pernas altas, um chapéu de aba larga e uma barba circular. Os seus óculos reflectiam as nuvens.
    Montou um cavalete. Tirou um pincel da bota. Pintou o céu e o pinheiro mais solitário. E disse, numa voz que parecia a lã de um carneiro:
    — Chamo-me Constantino Brilho e sou visionário profissional.
    Olhou-me de alto a baixo e continuou:
    — Rapaz, o que fazes o dia inteiro no Fim do Mundo?
    — Muitas coisas — respondi.
    E contei-lhe dos assobios, do vento e dos pinheiros.
    — Só isso? — perguntou, com um ar aborrecido. — Não te divertes? Não tens amigos?
    Olhei para os meus pés. Dantes achava que o que fazia era divertido. Agora já não tinha a certeza.
    — Penso que as coisas vão mudar bastante por estes lados — disse o Sr. Brilho.
    Por cima da pintura do rochedo e do pinheiro solitário, escreveu as palavras: CONSTANTINO BRILHO, VIAGENS MÁGICAS AO FIM DO MUNDO. DIVERTIMENTO GARANTIDO!
    Uma semana mais tarde, estava eu a pescar peixes que voavam sobre as cataratas, quando ouvi o ruído de máquinas grandes e homens a darem ordens. Estavam a pavimentar uma clareira. Estavam a abrir valas. E o Sr. Brilho guiava uma visita.
    — Aqui — anunciava ele — é o Fim do Mundo. Este é o rochedo. Este é um rapaz local com a sua mula. Vejam como nos olham com um olhar sonhador. E aqui está o local da futura Estalagem do Fim do Mundo.
    Fiquei em estado de choque. Tinha-se juntado uma pequena multidão composta por pais e filhos, que me olhavam com curiosidade e fitavam o rochedo embasbacados.
    Nem queria acreditar que ele tinha aplanado o terreno.
    — Sr. Brilho! — chamei. — Sr. Constantino Brilho!
    Apontei para as lajes.
    — O que está a fazer? O que fez?
    — Trouxe-te uns amigos. Se lhes mostrares a paisagem, dou-te uma moeda de ouro.
    — A paisagem? Mas eu vivo numa cabana sozinho. Não quero amigos e não preciso de…
    Foi então que olhei para os miúdos que o rodeavam. Sorriam e eram simpáticos. Estenderam as mãos. Um chamava-se Alberto, outro Júlio, e a rapariga chamava-se Margarida. Queriam gostar de mim. E eu queria gostar deles. Sorri.
    — Bem — comecei — na realidade…
    O Sr. Brilho acenou, encorajador. Perguntei aos miúdos:
    — O que querem que vos mostre?
    — O que fazes por estas bandas?
    Pensei no que fazia: entretinha-me com fósseis, pores-do-sol, assobios, ouvia os ramos, observava os pinheiros.
    Tentei pensar em algo que fosse excitante.
    — Bem, se cuspirem no topo da terra, a cuspidela nunca mais pára de dar voltas.
    — Isso é o máximo! — exclamaram os miúdos.
    Passámos o dia na floresta junto aos rochedos. Cuspimos e batemos palmas. Mostrei-lhes os fósseis. Mostrei-lhes os caminhos. Mostrei-lhes as árvores e as pegadas dos animais rastejantes.
    Quando chegou a altura de regressarem à cidade, disseram:
    — Não queremos ir embora. Voltaremos no Outono à Estalagem do Fim do Mundo.
    Quando chegou o Outono, Constantino Brilho tinha terminado a sua estalagem, que ostentava pórticos, torres e espigões. Uma a uma, as folhas caíram das árvores e despenharam-se pela borda do mundo. Gostava de as ver, a rodopiar. Caíam aos meus pés, vindas do céu.
    Quando as cores estavam mesmo brilhantes, o Alberto, o Júlio e a Margarida chegaram da cidade. Corremos a estalagem de uma ponta à outra, brincámos com os elevadores, e eles pediram que lhes servissem peru e pastilha elástica no quarto.
    Alugámos quatro planadores e atirámo-nos dos rochedos no Fim do Mundo. Gritámos quando sentimos o sangue afluir todo aos nossos pés.
    — Nada de lágrimas! — avisou o Sr. Brilho, que estava em terra firme. — Nada de lamúrias! É tempo de divertimento! Senhores e Senhoras, coloquem-se em fila. Saltem hoje e esqueçam o amanhã!
    No Inverno, a neve caiu nas árvores, nos rochedos e nos túmulos. Observei os flocos a caírem em silêncio sobre a terra. Um dia, apareceu um trenó, com o Alberto, o Júlio e a Margarida. Cuspimos nas mãos, apertámo-las e piscámos o olho.
    Divertimo-nos imenso. Vimos espectáculos de sombras de marionetas à noite, enquanto o vento soprava. Alugámos patins e fizemos figuras de oito nas Cataratas Pataratas e figuras de nove no Lago Conta-Gotas. As pessoas gritavam, enquanto se balançavam nos pinheiros. Os hóspedes patinavam e esquiavam em massa, descendo as encostas aos saltos e deslizando por longas rampas.
    — Isto é ou não divertido? — perguntava o Sr. Brilho. — Divertimento a sério. Sentem-se sozinhos, Senhores e Senhoras? Na Estalagem do Brilho, nunca!
    O Júlio, o Alberto, e a Margarida voltaram na Primavera. Não se ouvia o vento soprar através dos pinheiros eriçados. O barulho das festas era demasiado alto na floresta. Homens de bigode ensinavam o fox-trot a duquesas e a herdeiras de lavandarias vestidas de seda. Os monstros já não se mostravam quando os relâmpagos surgiam com as chuvas da Primavera. Tinham medo do barulho e das máquinas. O Júlio, o Alberto, a Margarida e eu corríamos pelos caminhos através das florestas, caminhos agora cheios de lixo. Também jogávamos às escondidas.
    A cabana onde eu vivia estava rodeada de carrinhos. Já não conseguia encontrar ossos de dinossauros ou moedas de oiro antigas. Os pavilhões e as escadas rolantes tinham-nos coberto.
    No Verão, as multidões eram imensas e a estalagem estava aberta para casais em lua-de-mel que vinham em busca do sossego e dos pores-do-sol de quatro horas. Só que estes mal se viam devido à bruma que cobria o paredão e provinha das luzes artificiais das arcadas.
    — Quero ver mais divertimentos! — gritava o Sr. Brilho ao megafone, pendurado num prego que parecia vindo do céu. — Nada de silêncios solenes no Fim do Mundo! Só gargalhadas! E saltos! Senhoras e senhores, recomendo-lhes vivamente as vertigens!
    Não dormia há sete dias. Havia sempre alguma coisa para me distrair. Tentei falar com os meus amigos:
    — Sabem, estive a pensar…
    — Não há tempo para pensar! — interrompeu o Sr. Brilho. — É tempo para se divertirem! Vejam, minha gente, o Fim do Mundo! Que vista magnífica, sublime e resplandecente! Vou construir tudo aquilo que quiserem! Deixem tudo o que estão a fazer! Não há tempo para tristezas ou ideias! Vamos DIVERTIR-NOS! DIVERTIR-NOS sem PARAR!
    A Margarida estava toda suada.
    — Anda lá! — insistiu comigo.
    — Aqui vimos nós! — gritava o Júlio.
    — Aqui vamos nós! — ria-se o Alberto, rangendo os dentes e rasgando a camisa nas tropelias.
    — Penso que é tempo de ir também — disse para comigo.
    Tirei o chapéu de papel da cabeça e as luvas das mãos. Enrolei-as e dei-as ao Júlio.
    Depois disse-lhe:
    — Tenho de ir embora. Sinto falta do vento.
    E fui embora.
    Agora vivo sozinho no Topo do Mundo. É uma montanha muito alta. Consigo ver a borda da montanha. Os dias passam-se devagar e bem. Como biscoitos salgados e cartilagens. Limpo as rochas e encontro fósseis. Procuro tesouros em velhos mapas de impérios decadentes. Sento-me no alpendre da minha cabana e escrevo cartas aos meus amigos na cidade, Alberto, Júlio e Margarida. Um dia destes vou visitá-los.
    Às tardes, escuto o rumor do vento por entre os ramos dos pinheiros eriçados.
    Sinto a suavidade da solidão a cair.
    Por ora, sinto-me bem, sozinho, aqui no Topo do Mundo.

    M. T. Anderson; Kevin Hawkes
    Me, All Alone, at the End of the World
    London, Walker Books, 2007
    (Tradução)

    Uma outra forma de escutar

    Uma outra forma de escutar

    Escutar

    Outrora conheci um homem que conseguia ouvir o milho cantar sempre que passava por um campo.

    — Ensine-me — pedi-lhe um dia. — Explique-me como consegue ouvir o milho.

    — É preciso muita paciência — respondeu ele. — Não podes ter pressa.

    — Tenho muito tempo — disse eu.

    Este homem ouvia tão bem! Certa vez, ouviu as sementes das flores campestres a germinar debaixo do solo. Quando lhe perguntei como o conseguira, disse-me que tinha tido a sorte de estar no desfiladeiro naquele dia, depois de uma boa chuvada. Segundo ele, aquele era o lugar mais sossegado que conhecia e ficara lá o tempo suficiente para escutar o silêncio.

    Disse-lhe então:

    — Aposto que ficou admirado quando ouviu as sementes!

    — Não, não fiquei — respondeu. — Pareceu-me a coisa mais natural do mundo.

    E sorriu, relembrando aquele momento.

    Numa outra ocasião, quando estávamos juntos, vimos uma lagartixa a correr para junto de uma rocha. O homem, que tinha por hábito fazer perguntas difíceis que demoram a responder, disse:

    — Pergunto-me o que a lagartixa e a rocha pensarão uma da outra.

    Encostámo-nos durante algum tempo a uma outra rocha. Depois o homem perguntou-me:

    — Estás a ouvir? Parecem gostar bastante um do outro.

    E eu respondi:

    — Não ouvi nada.

    Então ele disse:

    — Às vezes, quando as coisas se sentem bem, fazem um leve rumor. O que ouvi, agora mesmo, foi o som de satisfação que a rocha emitiu.

    Perguntei-lhe, como sempre:

    — Ficou admirado por ouvir esse som?

    E ele respondeu:

    — Nem por isso. Pareceu-me a coisa mais natural do mundo.

    — Quem me dera ouvir também — disse eu, com pena.

    — Talvez um dia ouças — animou-me o homem.

    Depois, contou-me que uma amiga sua tinha ouvido, aos sete anos, o rumor de um céu cheio de estrelas. E que essa mesma amiga ouvira, aos oitenta e três anos, um cacto a florescer na escuridão. A princípio, não compreendera o que ouvia e tinha-se limitado a seguir o som. Quando deparou com o cacto, este tinha vinte flores brancas que reluziam ao luar.

    — A maioria das pessoas nunca ouve estas coisas — comentou o homem.

    — Porque será? — perguntei.

    — Porque não usam o tempo para fazer uma coisa tão importante como esta.

    — Eu vou usar bem o meu tempo, mas tem de me ensinar a escutar — prometi.

    — Gostava de poder ensinar-te, mas tens de o aprender com as colinas, as formigas, as lagartixas, as sementes, e coisas desse género. São elas que nos ensinam.

    — E não pode dar-me uma pista para eu saber como começar? — pedi.

    — Esforça-te por conhecer uma coisa o melhor que puderes. Começa por uma coisa pequena. Não comeces por uma montanha. Não comeces pelo Oceano Pacífico. Começa por uma pocinha, uma semente seca, uma lagartixa, uma mão cheia de pó, ou uma onda de areia.

    — Vou começar pela onda de areia — disse eu.

    O homem disse-me que tinha começado por uma árvore. Quando era jovem, todas as manhãs trepava a um choupo, e ficava lá sentado a escutar. Valia sempre a pena. Segundo ele, as árvores são muito honestas e não gostam de pessoas complicadas. Não se recordava de ter feito algo mais importante na vida do que sentar-se naquela árvore.

    — Conte-me tudo — pedi-lhe.

    — Em primeiro lugar, tens de respeitar aquilo que pretendes ouvir. Se pensares que és superior a uma lagartixa, nunca a ouvirás, nem que, para isso, te sentes ao sol durante o resto da vida. Não deves ter vergonha de aprender com a areia, os insectos, ou seja o que for.

    — Não terei — assegurei-lhe.

    — É bom andar com pessoas, mas deves ir sozinha também. Assim, podes parar e escutar sempre que o momento seja apropriado.

    — Vou lembrar-me do que me disse.

    E lembrei-me. Mas não funcionou como pensava. Achei que devia ter algum problema porque só ouvia o que todas as pessoas podiam ouvir: o vento, os coiotes, as pombas, as codornizes. Quase desisti, embora continuasse a passear nas montanhas. Na verdade, costumava cantar-lhes canções. Já que elas não cantavam para mim, cantava eu para elas, embora a minha canção só tivesse um refrão: “Olá, montanhas!”

    Certa vez, tive de me ausentar durante uma semana. Quando regressei, senti saudades das montanhas. Na manhã seguinte, levantei-me cedo e fui vê-las. E aquelas montanhas pareciam novas. Todos sabemos que as coisas têm um aspecto diferente ao amanhecer… Por onde quer que eu fosse, só pensava: “Eis-me aqui!” e tudo parecia estar bem. Subi a montanha pelo lado rochoso, em vez de tomar o trilho que leva ao topo.

    Prefiro aquele caminho, embora seja mais íngreme. Encontrei três penas de falcão, peguei nelas e saudei de novo as montanhas. De repente, dei-me conta de que não era a única a cantar. As montanhas cantavam comigo. Parei e deixei-me estar ali durante mais de uma hora. Nunca escutei com tanta atenção em toda a minha vida.

    Claro que as montanhas não cantam alto. Nem sequer cantam de forma a que possamos explicar o som que fazem. Não cantam com palavras. Não podemos transcrever a sua canção. Só posso afirmar que o som vinha das rochas cobertas de lava brilhante, e que era um murmúrio que se movia com o vento. Parecia o som mais antigo do mundo.

    E eu estava no centro daquele som às sete horas da manhã e pensava apenas: “Eis-me aqui a escutar!” E nem sequer estava surpreendida. Parecia-me a coisa mais natural do mundo.

    Byrd Baylor
    The other way to listen
    New York, Aladdin Paperbacks, 1997
    (Tradução e adaptação)

    Sugestão de actividades

    O conto acima transcrito é um acto de reverência face à natureza e aos seus mistérios. A atenção silenciosa e expectante da narradora, bem como a sua persistência, acabaram por torná-la sensível aos sons mais subtis e à vida que palpita no interior das coisas.

    Ensinar às crianças o sentido da contemplação da Natureza é importante para o desenvolvimento da sua sensibilidade e espírito criativo, que poderão em seguida manifestar através de desenhos ou de escrita de pequenos apontamentos poéticos.

    Sugere-se ainda a leitura dos contos:

    A mesa dos ricos

    Um lugar tranquilo

    Eu, sozinho, no Fim do Mundo

    As palavras cor-de-rosa e as palavras cinzentas

     

    As palavras cor-de-rosa e as palavras cinzentas

    Um dia, sem se saber muito bem porquê, tudo aconteceu de repente: as palavras cor-de-rosa desapareceram do planeta. O que são palavras cor-de-rosa? São palavras delicadas, como, Obrigado, Faça favor, Se não se importa, És tão importante para mim. Palavras tão doces que são como mel no coração.

    Seria obra do Mago Cinzento, que só gostava do salgado, do picante e do amargo? Não… Eram os homens que, vá lá saber-se porquê, preferiam as palavras picantes, amargas e salgadas.

    Continuar a ler

    O cacto

       

    O cacto

    Sónia está quase a chorar. A chorar de raiva. Quer ser ela a decidir sozinha se vai ou não a uma festa de aniversário. Decidiu que NÃO VAI a casa de Catarina, mas a mãe insiste que se deve aceitar sempre um convite de aniversário, tanto mais quando o aniversariante é da mesma turma que nós. E quando a mãe do aniversariante é nossa amiga.

    O pai compreende Sónia. Quando não gosta de ir a algum lado, ele também não vai.

    — Deixa a Sónia em paz! — diz ele à mãe. — Se ela não quer ir à festa de anos, então que não vá.

    — A Catarina só me convidou porque a mãe dela queria — barafusta Sónia. — Sabes muito bem, mamã. A mãe dela acha que, só por vocês serem amigas, nós também temos de ser!

    É Sónia que escolhe as suas amigas e elas são todas muito diferentes de Catarina: não têm tranças sem graça, sempre do mesmo tamanho e da mesma grossura a caírem pelas costas abaixo, não usam blusas impecavelmente limpas, sem uma pontinha de sujidade, nem mesmo no colarinho, não usam meias altas de uma só cor, que nunca escorregam. As amigas de Sónia são barulhentas, gostam de roupas garridas e andam um pouco desarranjadas. E quando alguém precisa, estão sempre dispostas a ajudar. E Catarina?

    Catarina, se tivesse um grande guarda-chuva preto, daqueles de homem, abri-lo-ia por cima do caderno para que ninguém pudesse copiar. Quando não tem a melhor nota da turma, Catarina parece ainda mais magra, mais macilenta e calada. Catarina nunca ri. É fechada como uma ostra.

    — Coitada da Catarina — diz a mãe de repente. — Se não leva ‘Muito Bons’ para casa, o pai grita com ela. E a mãe não diz uma palavra. Com um marido com tão mau-génio, nem se atreve a falar. Só me admira que a Catarina possa dar uma festa de anos. Numa casa como aquela, onde todos têm de andar em chinelos para não sujarem o chão e onde não se pode fazer barulho, porque o pai não suporta nenhum ruído!…

    “Não gostava nada de ter um pai destes”, pensa Sónia. “Quando trago um “Satisfaz” para casa, o máximo que o meu diz é: — Bem, pelo menos não trouxeste nenhum ‘Não Satisfaz’! — A Catarina é mesmo infeliz.”

    A mãe já embrulhou a prenda: papel de carta com linhas fluorescentes. Há muito tempo que Sónia queria ter um assim, mas com as cores do arco-íris.

    Aquilo nem faz nada o género de Catarina.

    “Vou ficar com ele para mim”, pensa Sónia. “A Catarina não sabe o que vai receber. E de certeza que as nossas mães, quando se encontrarem, não vão falar do papel de carta . O que eu queria mesmo era escrever uma carta assim:

    Querida mamã,

     

     

     

     

     

    A Catarina é uma palerma. Como não tenho vontade nenhuma de ir à festa de anos de uma palerma, vou ficar no meu quarto.

    Sónia

     

     

    Era bom mas, infelizmente, não pode ser.”

    Sónia pensa no que pode oferecer, em vez do papel de carta. O que gostava era de lhe dar um cacto. Um, com picos da grossura de um dedo. Sónia está a pensar naquela vez, ainda há pouco tempo, em que lhe emprestou o seu bonequinho de chumbo preferido, e ela, no recreio, o deixou cair na grelha da água. E agora, em troca, vai receber um cacto cheio de picos. Um dos da colecção da mãe. Ela já nem lhes presta atenção. Nascem como cogumelos — costuma dizer, porque a família e os amigos só lhe oferecem cactos. De certeza que a mãe não vai reparar se lhe faltar um vaso no meio dos cinquenta e nove!

    Sónia escolhe um cacto pequeno e torto com muitos cabelinhos e inúmeros picos. Na ponta tem uma espécie de espinho, mole e amarelo-acastanhado. Ainda fica a pensar se não devia cortá-lo, mas acaba por deixar o cacto como está.

    Embrulha-o em quatro folhas de papel de seda para não se picar e põe-no junto dos chinelos de casa, dentro do saco de plástico.

    “Deve ser horrível ter de levar sempre cincos para casa”, pensa Sónia no eléctrico a caminho de casa de Catarina. “E ter um pai que grita e de quem todos têm medo…”

    Desde que soube aquilo sobre o pai, Sónia passou a ver Catarina com outros olhos. Ela faz-lhe pena.

    Olha para o saco pousado entre os pés. Se calhar não devia ter trocado o bonito papel de carta pelo feio cacto. A viagem é longa e ele ainda se estraga metido no saco.

    De repente, Sónia lembra-se da cara que Catarina fez quando reparou que ela tinha colado uma cábula por baixo da carteira. Lançara-lhe um olhar ameaçador, como se fosse fazer imediatamente queixa dela, mas até agora não tinha feito. Aquilo é que fora um olhar zangado!

    Não! Sónia nem sequer vai dar-lhe os parabéns. Só vai sorrir-lhe delicadamente, assim uma espécie de sorriso pequenino só do canto da boca, e apertar-lhe a mão. E dar-lhe o cacto.

    O cacto, que nem sequer tem perfume.

    O cacto, que só pica.

    Sónia está em frente da casa de Catarina. Até que está muito barulho lá dentro, para quem tem um pai que quer sempre silêncio.

    — Ainda bem que vieste — diz a mãe de Catarina. — A Catarina vai ficar contente.

    “Ora esta!” pensa Sónia. “Então ela pensou que eu não queria vir?”

    Catarina vem à porta a correr. Chega a transpirar, de cabelo solto, vestida com uma camisola cor-de-rosa e umas calças verde-alface.

    — Olá! — grita alegremente. — Hoje estou diferente, não? — diz, ao ver a cara esquisita com que Sónia olha para ela.

    — Tive autorização para escolher isto sozinha.

    Catarina aponta orgulhosamente para o rosa-choque e o verde-alface.

    — Muitos parabéns — diz Sónia baixinho. Aquela Catarina tão mudada apanhou-a completamente de surpresa.

    Desembrulha o cacto com cuidado… e tem de olhar duas vezes até poder acreditar:

    — Não é possível! — murmura Sónia.

    Mas lá está ela, pequenina, delicada, amarela.

    Com o calor do saco, aquilo que dantes era castanho e murcho transformara-se numa florinha amarela.

    — É tão querido! — exclama Catarina. — Um cacto em flor! O meu primeiro cacto!

    Catarina está sinceramente contente. Já não é uma ostra esquisita e calada. Em casa, onde não tem de se esforçar para ter cincos, é completamente diferente.

    Levanta o cacto no ar e vira-o de todos os lados. Ri por sair tão torto da terra.

    “É esquisito”, pensa Sónia. “Trouxe um cacto feio a uma pessoa de quem não gostava. Entretanto, o cacto tornou-se bonito e, de repente, passei a gostar dessa pessoa!”

    Texto traduzido e adaptado

    Evelyne Stein-Fischer
    13 Geschichten vom Liebhaben
    München, DTV Junior, 1990