A minha casa

baloiço 6 tradução

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A História como Destino

Há uma velha ideia dos povos que liga as catástrofes naturais aos fe­nómenos da cultura, que parece agora reactivar-se, com o que está a acontecer à nossa natureza. Os fogos des­te Verão, do Brasil à Rússia, as inundações, da Europa ao Paquistão e à China, fizeram surgir, com mais força do que nunca, a certeza da globalização das alterações cli­máticas. E, confusamente, associa-se essa ideia à da crise financeira global; enquanto as proporções dos desastres ecológicos de origem humana (como o derrame de crude no Golfo do México) atingem uma escala planetária, reforçando a crença numa relação negativa entre natureza e cultura. Não uma relação de causa e efeito (como, na Idade Média, entre o pecado e uma epidemia, por exemplo), mas um sintoma do catastrofismo inerente à marcha da História. Como se o pensamento do futuro próximo se traduzisse pela convicção de que «tudo irá cada vez pior».

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A Arvorezinha da vida

Na Rua do Ferro-Velho, em frente ao lar da Terceira Idade onde vivia a minha mãe, existia, por detrás de um muro coberto de telhas e com uma porta de grade, um pequeno jardim aberto aos moradores do lar e aos transeuntes que quisessem descansar num dos bancos lá existentes. O jardim era um triângulo delimitado por dois altos muros corta-fogo, enquanto o lado mais pequeno dava para a rua.

Pelas paredes não rebocadas trepava hera até ao segundo andar, tentando esconder o castanho-ferrugem dos tijolos gastos pelo tempo. Encostados às paredes havia alguns bancos, de onde se podia olhar para o centro do jardinzinho triangular, que só à tarde recebia a luz quente do sol, e ainda assim por pouco tempo. De resto, ficava mergulhado numa sombra melancólica.

Pela sua forma, o terreno não servia para construção, por isso o proprietário oferecera-o à casa Edmund-Hilvert, para que os seus moradores pudessem usá-lo como uma espécie de oásis no meio do deserto de pedra. A minha mãe usufruía do pequeno jardim. Depois do almoço, saía pela porta das traseiras, passava pelos contentores do lixo, atravessava a rua, abria a portinhola de grade e entrava no jardim, para se sentar num dos bancos pintados de branco virados para a parede com hera, ficando com o relvado à sua frente e, no meio deste, um pequeno ácer que lutava pela vida.

Ou porque a camada de húmus era muito fina, ou porque o terreno estava cheio de entulho, de pedras, de argamassa, de calcário e de cimento, ainda do tempo da guerra — talvez até venenos — ou mesmo por falta de sol, a pequena árvore era raquítica, miserável, com os seus frágeis ramos tristemente erguidos para a luz, como numa prece nunca atendida.

As folhas estioladas, sempre cobertas de pó, pendiam da arvorezinha: era como se ela não conseguisse respirar, ou melhor, sofresse de asma e respirasse com dificuldade.

A pequena árvore bem poderia ter feito parte do cenário da peça “Godot” de Beckett. ( À espera de Godot, peça do escritor irlandês Samuel Beckett). Era um cadáver vivo marcado pelo hálito da morte. E, ao mesmo tempo, na sua derradeira essência, representava a árvore como ser. Assim era e assim queria ficar.

Quando ia ao jardinzinho, minha mãe levava sempre um pequeno regador de plástico cor-de-laranja. Enchia de água o regador, com o qual, aliás, costumava regar as flores do peitoril da janela, e dava água à arvorezinha, a pouca que o regador podia levar e que ela conseguia transportar. Sentava-se então em frente da pequena árvore e ficava a vê-la agitar-se. Sim, porque ela mexia-se quando o vento passava e a bafejava; o vento que era capaz de dar vida, de a tirar e de a voltar a dar. E eu tenho a certeza de que, de algures, vinha até nós o chamamento de um melro. Ou ouvia-se o saltitar de um pássaro, de um pássaro qualquer, ali entre as paredes, de manhã cedo, pelo nascer do sol, e à noitinha, ao pôr-do-sol; e a minha mãe ouvia o chamar do pássaro, assim como percebia a muda agitação da pequena árvore. E mesmo que a não abraçasse nem falasse com ela, tinha na pequena árvore um vizinho e um alimento para os olhos, que, de outro modo, estariam cegos e vazios.

A arvorezinha erguia-se ali em representação de todas as árvores que alguma vez, ali ou noutros lugares, se ergueram, cresceram e definharam, e das que naquele momento cresciam noutro lugar. Árvores que, dali em diante, viveriam e morreriam como os homens e os animais e tudo o que, tendo vida e querendo viver, estava já talhado para a morte.

Eu encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que tinha ido visitar. Ela regara a arvorezinha, como fazia todos os dias, e estava agora com o regador cor-de-laranja vazio ao colo a dizer-me que todos os dias fazia aquilo.

— Espera só mais um bocadinho! — dissera-me quando ainda estávamos no lar. — Primeiro tenho de encher o regador.

De início, eu não percebia porque levava o regador, mas agora sabia-o.

— Sempre foste adoentado — disse minha mãe. — Já em criança. Adoecias muitas vezes.

Olhei para a arvorezinha. Era tão pequena, que tive a impressão de estar a olhá-la de cima para baixo. Encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que sabia que a sua vida se aproximava do fim e que, mesmo assim, se preocupava com aqueles que viviam. E eu sabia que, fizesse eu o que fizesse, nunca iria ser capaz de fazer nada melhor do que aquilo.

Theodor Weissenborn

SOS-Kinderdorf Caderno Anual, 1996

Texto adaptado

Pequena Árvore – Forrest Carter

Pequena Árvore

 

Pequena Árvore era metade branco, metade índio Cherokee. Quando tinha cinco anos, os seus pais morreram e ele foi viver com os avós Cherokee nas montanhas do Tennessee. Isto é o relato de um dia da sua vida, durante o primeiro ano que passou com os avós.

 

 

O Caminho

  Enquanto os bocados de pinheiro ardiam na lareira, a avó passou as noites de uma semana inteira a fazer os mocassins, sentada na cadeira de baloiço que rangia com o seu peso leve, à medida que trabalhava e trauteava. Tinha cortado a pele do veado com uma faca e feito as tiras, que coseu em torno da sola. Quando terminou, mergulhou-os em água e eu calcei-os molhados. Andei com eles, para trás e para a frente, até ficarem secos, macios e à minha medida, leves como uma pena.

Esta manhã, calcei-os em último lugar, depois de ter vestido o macacão e apertado o casaco. Estava escuro e frio. Era até demasiado cedo para que a brisa do vento matinal agitasse as árvores.

O avô tinha dito que eu podia ir com ele percorrer o trilho mais alto, se me levantasse a tempo. Ele não me acordaria.

― Um homem levanta-se de manhã cedo, se realmente tiver vontade ― dissera-me ele sem sorrir. Mas o avô tinha feito muito barulho a acordar, batendo na parede do meu quarto e falando alto com a avó, o que não era habitual. Por isso, eu ouvira-o e saíra primeiro, ficando à espera na escuridão, com os cães de caça.

― Com que então, já a pé?

O avô parecia surpreendido.

― Sim, avô ― disse, mantendo o orgulho longe da minha voz.

O avô apontou para os cães que saltavam e cabriolavam à nossa volta.

― Vocês ficam ― ordenou. Eles encolheram as caudas, ganiram, imploraram, e a velha Maud desatou a uivar. Mas não vieram atrás de nós. Ficaram juntos, com um olhar perdido, a verem-nos afastar.

Já tinha estado no trilho mais baixo, que serpenteava ao longo do vale até chegar ao prado onde o avô tinha o celeiro e guardava a mula e a vaca. Mas este era o trilho mais alto, que se dirigia para a montanha, sempre a subir a encosta do vale. Eu caminhava apressadamente atrás do avô, e podia sentir o declive do carreiro.

Também sentia algo mais, tal como a avó dissera. Mon-o-lah, a Mãe-Terra, vinha até mim através dos meus mocassins. Sentia-a ora a empurrar e a dilatar, ora a vacilar e a entregar-se. Sentia as raízes, que eram as veias do seu corpo, e a vida da água, que era o sangue que a percorria. Era quente, cheia de água borbulhante, e embalava-me no seu seio, tal como a avó dissera que faria.

O ar frio transformava a minha respiração em nuvens e o barulho da cascata fazia-se ouvir bastante abaixo do ponto em que nos encontrávamos. Nos ramos desnudos das árvores, pingava água dos bicos de gelo rendilhados e, à medida que subíamos, via-se geada no carreiro. Uma luz cinzenta aliviava a escuridão.

O avô parou e apontou para o lado.

― Lá está o rasto de um peru, vês?

Pus-me de joelhos e de mãos no chão, e vi o rasto de pequenas impressões concêntricas.

― Agora ― disse o avô ― vamos montar a armadilha.

Tentou encontrar um solo fácil de escavar. Limpámo-lo: primeiro tirámos as folhas e depois escavámos para tirar a sujidade, que espalhámos pelas folhas. Quando o buraco ficou profundo a ponto de eu não conseguir ver para fora, o avô tirou-me de lá e colocámos ramos de árvores a cobri-lo. Em cima daqueles, pusemos montanhas de folhas. Foi então que, com a faca grande, o avô cavou um caminho que ia do buraco às pegadas do peru. Pegou nas sementes de milho–índio vermelho que trazia no bolso e espalhou-as pelo trilho, deitando uma mão-cheia no buraco.

― Agora podemos ir ― disse. Partimos de novo rumo ao trilho mais alto. O gelo, que brotava da terra, estalava debaixo dos nossos pés. A montanha do outro lado aproximava-se, à medida que o buraco lá em baixo se tornava uma fenda estreita, fazendo a nascente parecer o gume de uma faca de aço que tivesse sido mergulhada no fundo…

Sentámo-nos nas folhas, fora do carreiro, enquanto os primeiros raios de sol tocavam o cume da montanha do outro lado do estreito. O avô tirou do bolso uma bolacha ressequida e um pouco de carne de veado para mim, e observámos a montanha enquanto comíamos.

O Sol atingiu o cume como uma explosão, num chuveiro de faíscas e centelhas. O brilho do gelo nas árvores feria-nos os olhos e descia a montanha como uma onda, enquanto o Sol afastava cada vez mais a sombra da noite. Um corvo, qual mensageiro, emitiu três avisos para anunciar a nossa presença.

A montanha estalava e suspirava agora, expelindo baforadas de vapor para o ar. Silvava e murmurava à medida que o Sol libertava as árvores da sua mortífera armadura de gelo.

O avô observava, tal como eu, e escutava os sons que cresciam com o vento da manhã, que fazia as árvores assobiarem baixinho.

― Está a nascer ― disse, baixinho e suavemente, sem tirar os olhos da montanha.

― Sim, avô ― disse eu ― está a nascer.

E soube logo ali que o avô e eu tínhamos uma cumplicidade que a maioria das pessoas não conhecia.

A sombra da noite foi-se afastando para o outro lado de um prado cheio de erva que resplandecia, banhado pelo Sol. O avô fez-me reparar numa codorniz que esvoaçava e saltitava na erva, alimentando-se das sementes. Depois, apontou para o céu azul gelado.

Não havia nuvens mas, de início, não me apercebi da mancha que surgiu na borda da montanha. Tornou-se maior. De frente para o Sol, para que a sombra não o precedesse, o pássaro apressou-se a descer a montanha, qual esquiador a roçar o topo das árvores. Vinha com as asas meio fechadas… como uma bala castanha… cada vez mais depressa em direcção à codorniz.

O avô sorriu entre dentes.

― É o velho Tal-con, o falcão.

A codorniz apressou-se a correr para as árvores ― mas foi lenta demais. O falcão atingiu-a. Primeiro, voaram penas, depois, as aves caíram por terra. A cabeça do falcão subia e descia ao ritmo das suas bicadas mortíferas. De repente, surgiu com a codorniz morta nas garras, partindo em direcção à montanha.

Não chorei, mas sei que devia estar triste, porque o avô disse:

― Não fiques triste, Pequena Árvore. É o Caminho. Tal-con apanhou a mais lenta e, por isso, a mais lenta não terá filhos que sejam também lentos. Tal-con vive segundo o Caminho. Está a ajudar a codorniz.

O avô desenterrou com a faca uma raiz-doce do solo e descascou-a, para que o seu sumo pleno de vida escorresse. Cortou-a a meio e deu-me a parte maior.

― É o Caminho ― disse suavemente. ― Tira apenas aquilo de que precisares. Quando matares o veado, não mates os melhores. Leva apenas os mais pequenos e mais lentos e, assim, os veados crescerão mais fortes e dar-te-ão sempre carne. Pa-koh, a pantera, sabe isto e tu também deves saber.

E riu-se.

― Só Ti-bi, a abelha, armazena mais do que precisa… e, por isso, o urso rouba-a, e o Cherokee também. É o que acontece aos que armazenam mais do que lhes é devido. Ser-lhes-á tirado. E haverá guerras por causa disso… e terão longas conversações, tentando ficar com mais do que lhes cabe. Dirão que têm o direito de o fazer… e morrerão homens por causa das palavras e das bandeiras … mas não conseguirão mudar as leis do Caminho.

Voltámos pelo carreiro. O Sol ia alto quando chegámos à armadilha dos perus. Podíamos ouvi-los antes de lá chegar. Lá estavam, comendo avidamente e emitindo sinais de alarme.

― A porta não tem fechadura, avô. Porque é que não baixam as cabeças e saem dali?

O avô esticou o braço para o buraco e tirou de lá um peru grande a grasnar, amarrou-lhe as pernas com uma tira de couro e sorriu abertamente:

― O velho Tel-qui é como algumas pessoas. Como acha que sabe tudo, nunca se dá ao trabalho de olhar para baixo para ver o que está à volta dele. Tem a cabeça demasiado empinada para aprender seja o que for…

O avô deitou-os no chão, com as pernas amarradas. Eram seis, e o avô apontou para eles.

― Têm quase todos a mesma idade… vê-se pela espessura da crista. Só precisamos de três, por isso agora escolhe tu, Pequena Árvore.

Andei à volta dos perus, que saltitavam no chão. Pus-me de cócoras, estudei-os e voltei a andar em roda deles. Tinha de ser cuidadoso. Pus-me de mãos e joelhos no chão e rastejei entre eles até retirar os três mais pequenos que consegui encontrar.

O avô nada disse. Arrancou as tiras das pernas dos outros, que fugiram a toda a velocidade pela montanha abaixo. Atirou com dois dos perus para cima do ombro.

― Podes levar o outro? ― perguntou.

― Sim, avô ― disse, sem saber se tinha procedido bem.

O avô esboçou um largo sorriso.

― Se não te chamasses Pequena Árvore… chamar-te-ia Pequeno Falcão.

Segui o avô pelo carreiro. O peru era pesado, mas sentia-me bem com ele ao ombro. O Sol tinha-se inclinado para a montanha mais longínqua e desaparecia nos ramos das árvores ao longo do caminho, deixando marcas de um amarelo-torrado. O vento esmorecera neste cair de tarde de Inverno, e eu ouvia o avô, à minha frente, a trautear uma canção. Teria gostado de viver naquele instante para sempre… porque sabia que agradara ao meu avô. Aprendera o Caminho.

 

 Forrest Carter

De: VERTICALIZAR