A Mesa dos Ricos

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Se nos vissem sentados na nossa mesa de cozinha, feita à mão e toda arranhada, saberiam logo que não somos ricos. Mas o meu pai está a tentar fazer-nos ver que somos.

Será que não vê os meus sapatos gastos? Ou que o meu irmãozinho tem remendos nas calças que leva para a escola? E como explicará ele aquela carrinha a desfazer-se, estacionada à nossa porta?

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A árvore do dinheiro

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Em janeiro, quando a Menina McGillicuddy estava a fazer uma colcha em frente da lareira, reparou numa forma invulgar do lado de fora da janela da sua sala de estar. 

Em fevereiro, quando a Menina McGillicuddy levantou os olhos do seu livro, percebeu que a forma era uma pequena árvore. “Uma dádiva dos passarinhos,” disse para consigo mesma.

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Memórias e malmequeres

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Já vi coelhinhos fofos bem cedo pela manhã e cheirei o perfume de doninhas através da janela do meu quarto à noite. Assisti, impotente, ao voo picado de um bando de pássaros sobre os meus legumes quase prontos a comer e tentei, vezes sem conta, criar uma horta. Dir-se-ia que, quando a colheita começa a ficar pronta e eu começo a antecipar o sabor dos frutos do meu trabalho, tudo acaba por desaparecer.

Contudo, não posso queixar-me, pois, quando era criança, estraguei alguns jardins…

Lembro-me do verão dos meus seis anos. Era o último verão de liberdade antes de entrar para a escola. Os meus amigos e eu passávamos dias ociosos na piscina ou a construir fortes, e costumávamos acabar por invadir o jardim de uma vizinha.

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Árvores

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Naquele tempo, as árvores pediam os meus cabelos.

Eu era alta, da altura da grande mocidade que me vivia, e as árvores tinham ramos que se curvavam para mim, e isso acontecia em todas as estações, ou então, nesse tempo eu era o verão e só sabia de flores e de frutos e mal tinha percebido a canção das seivas tronco acima, tronco abaixo.

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Podes?

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Podes vender-me o ar que passa entre os teus dedos,
te golpeia o rosto e desalinha os cabelos?
Acaso podes vender-me cinco moedas de vento?
Ou talvez uma tormenta?
Vender-me-ias ar puro – não todo –
o que percorre o teu jardim de flor em flor
e sustém o voo dos pássaros?
Dez moedas de ar puro, podes vender-me?

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