A Arvorezinha da vida

Na Rua do Ferro-Velho, em frente ao lar da Terceira Idade onde vivia a minha mãe, existia, por detrás de um muro coberto de telhas e com uma porta de grade, um pequeno jardim aberto aos moradores do lar e aos transeuntes que quisessem descansar num dos bancos lá existentes. O jardim era um triângulo delimitado por dois altos muros corta-fogo, enquanto o lado mais pequeno dava para a rua.

Pelas paredes não rebocadas trepava hera até ao segundo andar, tentando esconder o castanho-ferrugem dos tijolos gastos pelo tempo. Encostados às paredes havia alguns bancos, de onde se podia olhar para o centro do jardinzinho triangular, que só à tarde recebia a luz quente do sol, e ainda assim por pouco tempo. De resto, ficava mergulhado numa sombra melancólica.

Pela sua forma, o terreno não servia para construção, por isso o proprietário oferecera-o à casa Edmund-Hilvert, para que os seus moradores pudessem usá-lo como uma espécie de oásis no meio do deserto de pedra. A minha mãe usufruía do pequeno jardim. Depois do almoço, saía pela porta das traseiras, passava pelos contentores do lixo, atravessava a rua, abria a portinhola de grade e entrava no jardim, para se sentar num dos bancos pintados de branco virados para a parede com hera, ficando com o relvado à sua frente e, no meio deste, um pequeno ácer que lutava pela vida.

Ou porque a camada de húmus era muito fina, ou porque o terreno estava cheio de entulho, de pedras, de argamassa, de calcário e de cimento, ainda do tempo da guerra — talvez até venenos — ou mesmo por falta de sol, a pequena árvore era raquítica, miserável, com os seus frágeis ramos tristemente erguidos para a luz, como numa prece nunca atendida.

As folhas estioladas, sempre cobertas de pó, pendiam da arvorezinha: era como se ela não conseguisse respirar, ou melhor, sofresse de asma e respirasse com dificuldade.

A pequena árvore bem poderia ter feito parte do cenário da peça “Godot” de Beckett. ( À espera de Godot, peça do escritor irlandês Samuel Beckett). Era um cadáver vivo marcado pelo hálito da morte. E, ao mesmo tempo, na sua derradeira essência, representava a árvore como ser. Assim era e assim queria ficar.

Quando ia ao jardinzinho, minha mãe levava sempre um pequeno regador de plástico cor-de-laranja. Enchia de água o regador, com o qual, aliás, costumava regar as flores do peitoril da janela, e dava água à arvorezinha, a pouca que o regador podia levar e que ela conseguia transportar. Sentava-se então em frente da pequena árvore e ficava a vê-la agitar-se. Sim, porque ela mexia-se quando o vento passava e a bafejava; o vento que era capaz de dar vida, de a tirar e de a voltar a dar. E eu tenho a certeza de que, de algures, vinha até nós o chamamento de um melro. Ou ouvia-se o saltitar de um pássaro, de um pássaro qualquer, ali entre as paredes, de manhã cedo, pelo nascer do sol, e à noitinha, ao pôr-do-sol; e a minha mãe ouvia o chamar do pássaro, assim como percebia a muda agitação da pequena árvore. E mesmo que a não abraçasse nem falasse com ela, tinha na pequena árvore um vizinho e um alimento para os olhos, que, de outro modo, estariam cegos e vazios.

A arvorezinha erguia-se ali em representação de todas as árvores que alguma vez, ali ou noutros lugares, se ergueram, cresceram e definharam, e das que naquele momento cresciam noutro lugar. Árvores que, dali em diante, viveriam e morreriam como os homens e os animais e tudo o que, tendo vida e querendo viver, estava já talhado para a morte.

Eu encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que tinha ido visitar. Ela regara a arvorezinha, como fazia todos os dias, e estava agora com o regador cor-de-laranja vazio ao colo a dizer-me que todos os dias fazia aquilo.

— Espera só mais um bocadinho! — dissera-me quando ainda estávamos no lar. — Primeiro tenho de encher o regador.

De início, eu não percebia porque levava o regador, mas agora sabia-o.

— Sempre foste adoentado — disse minha mãe. — Já em criança. Adoecias muitas vezes.

Olhei para a arvorezinha. Era tão pequena, que tive a impressão de estar a olhá-la de cima para baixo. Encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que sabia que a sua vida se aproximava do fim e que, mesmo assim, se preocupava com aqueles que viviam. E eu sabia que, fizesse eu o que fizesse, nunca iria ser capaz de fazer nada melhor do que aquilo.

Theodor Weissenborn

SOS-Kinderdorf Caderno Anual, 1996

Texto adaptado

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A panela milagrosa – Emílio de Sousa Costa

A panela milagrosa

No arquipélago de Cabo Verde, há notável escassez de vegetação. Causa — falta de água. Rareando as chuvas, diminuem os produtos da terra, indispensáveis à alimentação; não há pastos para os gados, logo não há carne. Isto quer dizer: a fome reina em casa dos mais pobres.

Ficai sabendo, meus amigos, que o Chaço, no México, em poucos anos se transformou em deserto, devido ao corte das árvores. Anteriormente, erguia-se ali densa floresta. Mas os homens, tolos e gananciosos, na ânsia de enriquecerem com o produto das madeiras, gradualmente a devastaram. O solo tornou-se incapaz de reter a humidade. Os campos de cultura negaram-se a produzir e os homens viram-se forçados a abandonar a região infértil.

O mesmo se deu no Ceará, em terras brasileiras. E, em Cabo Verde, chega-se a morrer de fome, em virtude das mesmas causas. Por estas explicações, toda a gente compreende o quanto devemos querer bem à boa amiga árvore, que tudo nos dá, sem nos pedir mais do que ligeiros cuidados em plantá-la, tratá-la e guardá-la dos dentes vorazes de alguns animais daninhos e das foices inconscientes dos homens tolos.

Certa manhã ardente, Manuel Francisco – um camponês de pele bronzeada e chefe de numerosa família, desesperado por se ver sem trabalho nem alimento para si e para os seus, foi andando, andando, pela praia que ficava pertinho da sua casa.

Insensivelmente, afastou-se e alcançou um ponto onde jamais chegara. Cansado, sen ta-se num penedo e fica a meditar na sua triste sorte. O dia vai alto e milhares de raios de sol brincam à super fície das águas, esplendem em centelhas luminosas. Manuel Francisco mira ao longe e parece-lhe avistar um ilhéu, desconhecido dele, ao centro do qual se ergue, aprumada e esbelta, uma linda palmeira. Busca nos recantos da praia alguma canoa abandonada, na esperança de encontrar trabalho nesse ilhéu. Procura por aqui e por além e encontra uma canoa velha.

Manuel Francisco é remador hábil. Mete-se na canoa e dirige-se ao ilhéu.

O mar, calmo até àquela hora, embravece de súbito e o remador emprega sérios esforços para acercar-se do ilhéu. Aproa, desembarca, ata a canoa ao tronco dum coqueiro. Este e a palmeira constituem a única vegetação do ilhéu. Manuel Francisco trepa ao alto do coqueiro. Colhe dois cocos magníficos e tenta atirá-los para dentro da canoa. Mas tanto esses dois cocos, como outros que sucessivamente arranca, em vez de caírem dentro da canoa, vão mergulhar no mar.

Desce. Arreliado com a ideia de regressar a casa de mãos vazias, atira-se à água. Bom mergulhador como em regra, o são, os camponeses cabo-verdianos, desce, desce até ao fundo, a ver se agarra algum dos cocos. A sua surpresa é ilimitada ao descobrir, não os seus cocos, mas uma casa lindíssima, erguida no fundo do mar. Espanta-se com a descoberta, e mais aumenta a sua admiração quando, na sua frente, à porta da casa, surge um velhote de compridas barbas brancas e lhe pergunta:

— O que desejas? Não sabes que é proibido aos homens descerem até ao palácio do Régulo [1] dos Mares?

— Senhor, eu ignorava que havia régulos no fundo dos mares — responde tremendo Manuel Francisco. — Eu e a minha família temos fome. Colhi cocos no ilhéu e dei xei-os cair à água. Como já tenho mergulhado muitas vezes, a apanhar as moedas que os passageiros dos vapo res, em S. Vicente, atiram ao mar, vim buscar os meus cocos.

— Bom. Tenho pena de ti. Não te farei mal. Espe ra-me aqui.

Manuel Francisco esperou um momento. Em breve, o Régulo apareceu com uma panela de barro nas mãos. Entregou-a ao mulato, explicando-lhe:

— Leva-a para tua casa. Quando tiveres fome, é só ordenar-lhe: «Panela, dá-me de comer!» Ela dar-te-á alimento suficiente para ti e para a tua família.

Manuel Francisco agarrou sofregamente a panela e correu para a canoa. Apenas embarcou, decidiu-se a expe rimentar as virtudes da panela. Colocou-a diante de si e ordenou:

— Panela, minha rica panela, faz por mim o que costumavas fazer pelo Régulo dos Mares!

Da panela saiu imediatamente rico jantar, completo e apetitoso, a que não faltava sequer a magnífica sobre mesa.

Remou com presteza, na ânsia de levar mantimentos à família. Mas, ao desembarcar, um pensamento ruim, de cruel egoísmo, lhe impediu a prática desse justo dever.

— E se a minha mulher e os meus filhos, esfomeados como estão, comem tudo, e a panela nada mais tem para me dar? O melhor é guardar segredo e eles que se governem…

Escondeu a panela e, ao chegar a casa, vendo toda a família debilitada com fome, fingiu-se aflito, estendeu-se a um canto e não tardou a adormecer.

A mulher, desconfiada do seu sono tranquilo, bem diferente do da restante família, que enganara o apetite com pequena quantidade de papas de milho, resolveu ficar de sobreaviso.

Nos dias seguintes, principiou a notar que o marido saía e se dirigia a certo lugar, mal a família estava reco lhida. E engordava – o grande maroto – enquanto a mulher e os seus desditosos filhinhos emagreciam a olhos vistos e estavam quase esqueléticos. Uma noite, decidida a esclarecer o caso, a mulher seguiu-o na sombra e veri ficou a má conduta do Manuel Francisco. Este a voltar costas, ela a apoderar-se da panela, a correr à aldeia, em busca da família e, compadecida das desgraças alheias, a chamar também os vizinhos esfomeados, para saciarem o apetite.

A pressa e a miséria de alguns eram tais que, em compreensível descuido, quebraram a panela!

É fácil de imaginar a cólera do Manuel Francisco, quando soube o acontecido.

Espancou a mulher e os filhos, indignou-se com a vizinhança, prometeu vingar-se de tudo e de todos.

No dia seguinte, muito cedo, voltou à praia, embarcou na velha canoa e remou para o ilhéu. Colheu mais cocos, atirou-os à água e de novo desceu ao fundo do mar a buscá-los, na esperança de outra aparição do velho Régulo.

Assim sucedeu. Desta vez, o velhote, depois de ouvir o relato sucedido, encrespou as enormes sobrancelhas e, sem proferir palavra, entrou no seu domicílio, donde trouxe um bonito pau, de madeira rija, polida e brilhante. Ofereceu-o ao egoísta.

Manuel Francisco saltou à canoa, com o maior desembaraço e remou para a costa. Desembarcou e, mesmo à beira-mar, exclamou:

— Pau, meu rico pauzinho, faz por mim o que fazias pelo Régulo dos Mares!

O pau, em movimentos rápidos, desatou a bater no Manuel Francisco. Este, aflito, obrigado a fugir por debaixo de água, arrastou-se como pôde até uma praia distante. Só assim se livrou da pancadaria.

O egoísta compreendeu então a fealdade do seu acto e como fora justo o castigo aplicado pelo Régulo dos Mares. Resolveu emendar-se.

E, fiquem sabendo os meus meninos, emenda foi ela, que nunca mais procedeu como egoísta ou mau.

Emílio de Sousa Costa
Joanito Africanista
Porto, Livraria Figueirinhas, s/d

(excerto adaptado)

Saber Cuidar. Ética do Humano – Compaixão pela Terra I – L. Boff

Leonardo Boff
Saber Cuidar. Ética do Humano – Compaixão pela Terra
Petrópolis, Ed. Vozes, 1999
Excertos adaptados

I. Saber Cuidar. Ética do Humano – Compaixão pela Terra – L. Boff
II. Saber Cuidar – Sintomas da crise – L. Boff
III. Saber Cuidar – Figuras exemplares de cuidado – L. Boff

O tamagochi e o cuidado

A sociedade contemporânea, chamada sociedade do conhecimento e da comunicação, está cada vez mais a criar, contraditoriamente, incomunicação e solidão entre as pessoas. A Internet pode conectar-nos com milhões de pessoas sem precisarmos de encontrar alguém. Pode-se comprar, pagar as contas, trabalhar, pedir comida, assistir a um filme, sem se falar com ninguém. Para viajar, conhecer países, visitar pinacotecas, não precisamos de sair de casa. Tudo vem a nossa casa via on line.

A relação com a realidade concreta, com os seus cheiros, cores, frios, calores, pesos, resistências e contradições, é mediada pela imagem virtual, que é somente imagem. O pé já não sente o macio da relva verde. A mão já não pega num punhado de terra escura. O mundo virtual criou um novo habitat para o ser humano, caracterizado pelo encapsulamento sobre si mesmo e pela falta do toque, do tacto e do contacto humano.

Essa anti-realidade afecta a vida humana naquilo que ela possui de mais fundamental: o cuidado e a compaixão. Mitos antigos e pensadores contemporâneos dos mais profundos ensinam-nos que a essência humana não se encontra tanto na inteligência, na liberdade ou na criatividade, mas basicamente no cuidado. O cuidado é, na verdade, o suporte real da criatividade, da liberdade e da inteligência. No cuidado encontra-se o ethos fundamental do humano. Quer dizer, no cuidado identificamos os princípios, os valores e as atitudes que fazem da vida um bem-viver e das acções um recto agir.

O tipo de sociedade do conhecimento e da comunicação que temos desenvolvido nas últimas décadas ameaça a essência humana. Porventura, não ignorou ela as pessoas concretas com as feições dos seus rostos, com o desenho das suas mãos, com a irradiação da sua presença, com as suas biografias marcadas por buscas, lutas, perplexidades, fracassos e conquistas? Não colocou sob suspeita e até difamou como obstáculo ao conhecimento objectivo, o cuidado, a sensibilidade e o enternecimento, realidades tão necessárias, sem as quais ninguém vive e sobrevive com sentido? Na medida em que avança tecnologicamente na produção e serviço de bens materiais, será que não produz mais empobrecidos e excluídos, quase dois terços da humanidade, condenados a morrer antes do tempo?

A nossa meditação procura denunciar semelhante desvio. Ousamos apresentar caminhos de cura e de resgate da essência humana, que passam todos pelo cuidado.

 Alimentamos a profunda convicção de que o cuidado, pelo facto de ser essencial, não pode ser suprimido nem ignorado. Ele vinga-se e irrompe sempre por algumas brechas da vida. Se assim não fosse, repetimos, não seria essencial. Onde é que o cuidado aparece na nossa sociedade? Em algo de muito vulgar, de quase ridículo, mas extremamente indicativo: no tamagochi.

O que é o tamagochi ? É uma invenção japonesa dos inícios de 1997. Um porta-chaves electrónico, com três botões abaixo do écran de cristal, que alberga dentro de si um bichinho de estimação virtual. O bichinho tem fome, come, dorme, cresce, brinca, chora, fica doente e pode morrer. Tudo depende do cuidado que recebe ou não do seu dono ou dona. O tamagochi dá muito trabalho. Como uma criança, a todo momento deve ser objecto de cuidado; caso contrário, reclama com o seu bip; se não for atendido, corre risco. E quem é tão sem coração a ponto de deixar um bichinho de estimação morrer? O brinquedo transformou-se numa mania e tem mudado a rotina de muitas crianças, jovens e adultos, que se empenham em cuidar do tamagochi, dar-lhe de comer, deixá-lo descansar e fazê-lo dormir. O cuidado faz até o milagre de o ressuscitar, caso tenha morrido por falta de atenção e de cuidado.

Bem disse um perspicaz cronista carioca: “Solidão, o seu cognome é tamagochi“. O cuidado pelo bichinho de estimação virtual denuncia a solidão em que vive o homem/a mulher da sociedade da comunicação nascente. Mas anuncia também que, apesar da desumanização de grande parte da nossa cultura, a essência humana não se perdeu. Ela está aí na forma do cuidado, transferido para um aparelho electrónico, em vez de ser investido nas pessoas concretas à nossa volta: na avó doente, num colega de escola deficiente físico, num menino ou menina da rua, no velhinho que vende o pão matinal, nos pobres e marginalizados das nossas cidades ou até mesmo num bichinho vivo de estimação, seja um hamster, um papagaio, um gato ou um cachorro.

O cuidado serve de crítica à nossa civilização agonizante e também de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade. É o que vamos propor no presente livro.

Sonhamos com um mundo ainda por vir, onde não vamos precisar mais de aparelhos electrónicos com seres virtuais para superar a nossa solidão e realizar a nossa essência humana de cuidado e de gentileza. Sonhamos com uma sociedade mundializada, na grande casa comum, a Terra, onde os valores estruturantes se construirão em redor do cuidado com as pessoas, sobretudo com os culturalmente diferentes, com os penalizados pela natureza ou pela história. Cuidado com os espoliados e excluídos, as crianças, os velhos, os moribundos, cuidado com a nossa grande e generosa Mãe, a Terra. Sonhamos com o cuidado assumido como o ethos fundamental humano e como compaixão imprescindível para com todos os seres da criação.

Por toda a parte surgem sintomas que sinalizam grandes devastações no planeta Terra e na humanidade. O projecto de crescimento material ilimitado, mundialmente integrado, sacrifica 2/3 da humanidade, extenua recursos da Terra e compromete o futuro das gerações vindouras. Encontramo-nos no limiar de bifurcações fenomenais. Qual é o limite de suportabilidade do super-organismo Terra? Estamos a rumar na direcção de uma civilização do caos?

Na sua biografia, a terra conheceu cataclismos inimagináveis mas sempre sobreviveu. Sempre salvaguardou o princípio da vida e da sua diversidade. Supomos que agora não será diferente. Há hipóteses de salvação. Mas, para isso, devemos percorrer um longo caminho de conversão dos nossos hábitos quotidianos e políticos, privados e públicos, culturais e espirituais. A degradação crescente da nossa casa comum, a Terra, denuncia a nossa crise de adolescência. Importa que entremos na idade madura e mostremos sinais de sabedoria. Sem isso, não garantiremos um futuro promissor.

 Formalizando a questão, podemos dizer: mais do que o fim do mundo, estamos a assistir ao fim de um tipo de mundo. Enfrentamos uma crise civilizacional generalizada. Precisamos de um novo paradigma de convivência que funde uma relação mais benfazeja para com a Terra e inaugure um novo pacto social entre os povos, no sentido do respeito e da preservação de tudo o que existe e vive. Só a partir desta mutação, faz sentido pensarmos em alternativas que representem uma nova esperança.

Segue

Falar com um Século – J. J. Letria

Falar com um Século

 

Se não é fácil contar a história de uma pessoa desde o nascimento até à morte, há-de ser mais difícil contar a história de um século, ainda por cima do mais extraordinário e mais trágico da história da Humanidade.

Já deves ter percebido que estou a falar-te do século XX, em cuja fase final tu nasceste e do qual ainda viste alguns acontecimentos inesquecíveis.

Se te disse que foi o século mais extraordinário da história da Humanidade, foi porque, durante esses anos, a ciência e a técnica avançaram até níveis nunca antes alcançados ou sequer imaginados. Basta lembrar-te que é o século do cinema e da televisão, da aviação, da ida do Homem para o espaço, da chegada à Lua, da terrível invenção da bomba atómica, da clonagem e da Internet.

Mas o século XX foi também o mais trágico, por ter sido aquele em que mais pessoas morreram em duas guerras mundiais, para não falar de outras como a do Vietname, do Afeganistão, do Ruanda, da Coreia, das ex-Colónias portuguesas ou a Guerra Civil de Espanha. Foi também o século em que a guerra passou a ser feita com meios aéreos e com o recurso a meios químicos e bacteriológicos, que são a vergonha da espécie humana.

Mas, para não falarmos somente de aspectos negativos, deverei lembrar-te que este foi o século em que a Humanidade mais avançou em matéria de direitos e garantias para os cidadãos. Neste aspecto, pode dizer-se que foi o século do triunfo da democracia, dos direitos humanos e da entrada plena e definitiva da mulher na vida sindical, na vida política e no mundo do trabalho, em pé de igualdade com o homem, embora haja ainda, sobretudo em continentes como a África e a Ásia, passos de gigante a dar nesse domínio.

É de tudo isto que este livro irá falar ou, pelo menos, tentar falar. Mas como? Ora aí está uma excelente pergunta.

Decidi utilizar a forma de entrevista, ou de conversa, dando voz ao próprio século XX que, graças à imaginação de quem escreve, irá ser confrontado com as perguntas de um grupo de jovens do qual tu também podes, enquanto lês, supor que fazes parte. Aliás, proponho-te mesmo que o faças, para que possas sentir que as perguntas também te pertencem e que as respostas, de facto, te satisfazem. Quero que entres neste diálogo aberto, com a curiosidade que caracteriza os jovens e a sua relação com a vida e com o mundo.

Para poderes compreender os tempos que estão para chegar e nos quais tu e milhões de jovens da tua idade irão ser os protagonistas e tomar as decisões fundamentais, é indispensável que compreendas o que foi e o que representou o século XX. Sem se perceber o passado, é impossível ter-se uma visão acertada do que pode e deve ser o futuro.

O final do século XX foi marcado, sobretudo, pelo aumento da importância da imagem em relação à palavra. Se te digo isto é porque acredito que o livro e a palavra escrita irão continuar a desempenhar um papel fundamental na vida dos seres humanos e na defesa das suas identidades culturais.

No final desta entrevista ao século XX, que te irá surgir como um senhor idoso, sábio, experiente e, se calhar, um pouco desencantado, é natural que perguntes: “se tanta coisa avançou nos domínios da ciência, da técnica e do conhecimento em geral, por que razão continua o ser humano a cometer os mesmos erros de sempre, a ser agressivo e tantas vezes dominado pela inveja, pela cobiça e pela sede de poder? Se todos percebemos que é urgente proteger o ambiente e ser solidário, porque temos tanta dificuldade em praticar esses actos tão simples e tão essenciais?”

Imagino que este livro não tenha resposta para todas as tuas perguntas, mas tenho a certeza de que ficarás a saber um pouco mais do que sabias sobre o século em que nasceste.

De outra coisa estou certo: irás perceber que a qualidade de vida do século XXI dependerá em grande parte daquilo que, como cidadão, como mulher ou homem, fores capaz de fazer por ele, percebendo que se há direitos também há deveres e que falar de globalização ou de mundialização significa que nada do que acontece neste mundo nos deve ser indiferente. Mais do que nunca, nós fazemos parte deste mundo e temos o dever de o tornar melhor, para que não haja ricos cada mais ricos, pobres cada vez mais pobres e milhões de pessoas a morrerem diariamente de fome e com doenças que há muito deveriam estar afastadas da lista das nossas preocupações.

Imagina agora que o século XX vai responder às perguntas de uma turma igual à tua e que cada uma delas é feita por um jovem diferente, não importando os nomes nem a ordem por que vão falar. O que conta são as perguntas e a capacidade que as respostas terão de esclarecer e informar.

Se quiseres, forma um grupo com os teus amigos e distribuam entre vós as perguntas, arranjando alguém mais velho que represente o papel do século XX. Talvez assim, com vozes e rostos bem identificados, este exercício de diálogo se torne mais aliciante e ganhe vida, mesmo fora do livro para o qual foi escrito. O importante é que, sempre que se falar do século XX, percebas que é um assunto que também te diz respeito e que não há memória que possa viver sem os factos e as datas que preencheram estes cem anos da vida da Humanidade.

UM MUNDO DE COMUNICAÇÃO

P. – Basta olhar um pouco para trás no tempo para se perceber que até foi um século de grande agitação, de grande inovação e grande mudança. É também dessa opinião?

R. – Não podia estar mais de acordo convosco, e há vários domínios em que esses aspectos são muito visíveis.

P. –Pode dizer-nos quais são?

R. – Vou tentar, e digo que vou tentar porque, esta memória, velha de 100 anos, já não é o que era. Eu acho, por exemplo, que fui o século da comunicação e das comunicações. Durante os anos que tive de vida tudo se transformou, primeiro graças à rádio, depois, a partir dos anos 50, à televisão, ao vídeo, à técnica posta ao serviço da imprensa escrita, aos telefones, de alguns anos para cá aos telemóveis, e também graças aos computadores e ao aparecimento da Internet. Tudo isto mudou a vida das pessoas, os seus hábitos, a sua capacidade de comunicarem com as outras, vencendo distâncias que há uns 30 ou 40 anos atrás pareciam intransponíveis.

P. – Isso quer dizer que a comunicação entre as pessoas melhorou muito no século XX?

R. – Em sentido técnico sim. O aparecimento do telefone, depois, do fax e do telemóvel e, mais recentemente, do correio electrónico, pôs a pessoas muito mais em contacto umas com as outras do que alguma vez se imaginou que seria possível. Por isso digo que, em sentido técnico, se conseguiu um enorme avanço. Já no aspecto humano não poderá dizer -se o mesmo.

P. – O que o leva a dizer isso?

R. – Vou tentar explicar-vos. A comunicação entre seres humano não depende apenas da tecnologia. Depende também e sobretudo do afecto. E aí acho que não avançámos nada. Nunca a solidão foi tão grande nas grandes cidades, nunca as pessoas estiveram tão sós e as mesmo tempo tão cercadas de meios que fazem chegar a sua voz e até a sua imagem onde muito bem querem.

P. – E, na sua opinião, o que é que isso significa?

R. – Significa que a máquina pode ajudar, pode e deve ser um complemento, mas na base deve estar sempre o ser humano, as suas emoções os seus sentimentos. Uma pessoa pode ter em casa telefone, fax, Internet, mas pode não ter amigos e parentes com quem possa ou queira comunicar. E esse problema não há máquina, por mais sofisticada que seja, que o possa resolver. E é bom que o Homem perceba isso de uma vez por todas.

P. – Mas houve muitas coisas em que a tecnologia facilitou a vida das pessoas nestes anos, não houve?

R. – Claro que houve. Uma cozinha moderna, por exemplo, nada tem a ver com uma do princípio do século. Hoje o micro-ondas permite que se cozinhem refeições muito rapidamente, as máquinas de lavar e secar roupa tornam a vida muito mais fácil aos homens e às mulheres. Por outro lado, há cada vez mais pessoas que têm televisão e rádio na cozinha, podendo, enquanto confeccionam os alimentos, estar a acompanhar o que se passa no mundo. E, no entanto, nunca a alimentação foi tão perigosa, pois quem a produz utiliza produtos químicos que provocam doenças ainda sem cura, como o cancro e outras que ainda estão, calhar, por diagnosticar.

P. – E isso acontece porquê?

R. – Ora, por várias razões, mas a principal talvez seja a sede de lucro, a vontade de se ganhar dinheiro muito depressa, sem se levar em conta a saúde dos consumidores.

P. – Mas estávamos a falar de comunicação e de comunicações…

R. – É verdade. Nesse domínio, os meus 100 anos de vida, o tempo de existência do vosso século XX, foi um século de revoluções quase permanentes. Este foi o século do automóvel, do avião, dos comboios rápidos e da grande mobilidade humana entre países e continentes.

P. – Mas tudo isso teve aspectos positivos e negativos ao mesmo tempo, não é verdade?

R. – Infelizmente é verdade. O carro, o automóvel, tornou-se uma conquista extraordinária. Hoje, é raro uma pessoa, pelo menos nos países mais avançados, chegar à idade adulta e não ter um automóvel. Mas o automóvel é, ao mesmo tempo, o principal poluidor das grandes cidades e a causa dos intermináveis engarrafamentos que transformam num inferno a vida de quem vai para o emprego e volta dele em viatura própria. Devido a esse problema, as pessoas ganharam qualidade de vida e acabaram por perdê-la, tendo cada vez menos tempo para ler, para estar em casa com a família e para descansar. O avião também foi e continua a ser um grande avanço e um extraordinário meio de comunicação; mas acontece que hoje, no momento em que estamos a falar, há mais de 50 mil aviões no ar em todo o mundo, o que significa que o espaço aéreo tende a ficar perigosamente saturado, pondo em risco a vida de milhares de pessoas. Por sua vez, falando agora dessa forma de comunicação extraordinária que é a Internet, ela permite contactar o banco, marcar as férias e encomendar a “pizza” sem sair de casa, mas é, também, um perigoso meio de comunicação, se pensarmos em quem vive da pornografia ou em quem quer fazer propaganda ao nazismo e a outras formas de destruição da liberdade e da vida democrática.

P. – Talvez possa dizer-se que todas estas formas de progresso são como as moedas: têm duas faces. Uma é boa e a outra é má.

R. – Acho que é uma excelente comparação.

P. – Falou na aviação, e essa é uma das grandes conquistas do Homem no século XX, não acha?

R. – Sem dúvida que é. Enquanto eu durei, o ser humano realizou o sonho que o animava há milénios: o de voar. E não só conseguiu voar, para mostrar que era capaz de o fazer, mesmo não tendo asas, como transformou a aviação num rápido e extraordinário meio de transporte. E conseguiu mais. Partiu para o espaço, pousou na Lua e agora tem sondas a estudarem as condições de vida em Marte, tem estações orbitais onde já se pode viver um ano ou mais, e prepara-se para criar condições para que comunidades humanas venham, num futuro próximo, a viver algures no espaço. E é como vocês dizem e bem: estamos sempre perante duas faces da mesma moeda. A mesma inteligência que dá origem ao grande progresso científico também produz a tecnologia que destrói, como foi o caso da bomba atómica.

P. – E sempre com todas as descobertas e conquistas a serem prontamente divulgadas pela comunicação social.

R. – Precisamente, esse é outro dos aspectos que melhor caracterizam o meu século. Este foi o século da comunicação da palavra e da imagem a chegarem cada vez com maior rapidez a todo o lado. Agora, até já as guerras são transmitidas cm directo pela televisão. Foi o que aconteceu com a Guerra do Golfo, no princípio dos anos noventa e, mais recentemente, com a intervenção na Sérvia, por causa da questão do Kosovo. Isto é: ninguém pode dizer que não sabe que as coisas acontecem. Resta é saber se forma a respeito delas a opinião certa.

O CINEMA, O ROCK E OS MITOS

F. – Em resposta a uma pergunta que lhe fizemos, o Século XX falou do cinema. Que importância lhe atribui?

R. – Atribuo-lhe uma importância muito grande. Ele contribuiu, juntamente com a televisão, a partir de um certo momento, para que o século XX fosse sobretudo um século da imagem, muito mais do que um século da palavra.

P. – E a que é que isso se deve?

R. – Deve-se, para já, ao facto de os Estados Unidos terem transformado o cinema numa das suas maiores e mais rendosas indústrias. Mas trata-se também de uma indústria que é também uma grande arte, talvez mesmo a mais completa e popular de todas, um pouco como aconteceu com a ópera nos séculos XVIII e XIX. E chamo-vos a atenção para o facto de os irmãos Lumière, dois industriais franceses que inventaram o cinema, nunca terem acreditado que ele teria futuro. Felizmente enganaram-se!

P. – Portanto, o cinema é ao mesmo tempo uma arte e uma indústria.

R. – É verdade, uma arte e uma indústria que são essencialmente americanas. Os Estados Unidos exportaram o seu cinema para todo o mundo, havendo só um país que tem uma indústria forte para consumo interno: a índia, que produz centenas de filmes por ano para o seu bilião de habitantes. E nem sequer os países da União Europeia, apesar dos esforços que têm feito, conseguem encontrar alternativas.

P. – Mas, a verdade é que as pessoas gostam muito do cinema norte-americano, porque tem acção, drama e emoção.

R. – Gostam, sobretudo porque é um grande espectáculo que é feito com todos os ingredientes de que as pessoas gostam, desde o sexo à violência.

P. – E isso é bom ou é mau?

R. – Não vos sei responder. É bom, se ajudar a pensar e a ter opinião sobre as coisas. É mau, se embrutecer e alienar as pessoas e se as tomar violentas e intolerantes. O mesmo problema se pode pôr em relação à televisão, que é um dos grandes fenómenos do meu século. Hoje a televisão está em toda a parte, fazendo informação, mostrando filmes e entretendo as pessoas com telenovelas, concursos e outros tipos de programas Isso é mau, se levar as pessoas a afastarem-se da vida colectiva, a não exercerem a sua cidadania. E é bom, se as ajudar a ter informação e opinião sobre o que se passa à sua volta. É bom, se as levar a participar como cidadãos na vida da sociedade, o que infelizmente não tem acontecido.

P. – Pensando bem, é capaz de ter razão.

R. – Ainda bem que pensam assim. Mas já que me pedem que faça um balanço da minha vida, quero dizer-vos que este ficará também na história como o século do “rock”e dos novos mitos.

P. – Ah! é verdade, a música “rock”…

R. – Depois da Segunda Guerra Mundial assiste-se ao aparecimento, por influência dos Estados Unidos da América, de uma cultura de massas, cuja expressão principal talvez seja a música “rock”.A propagação de gira-discos portáteis e de discos mais leves, com o apoio da rádio e depois da televisão, deu origem a um impressionante movimento musical que tem como principais protagonistas Elvis Presley, os “Beatles”; os “Rolling Stones”, os “Pink Floyd”e mais tarde Michael Jackson, Madona ou os “U2”. A música “rock”e os seus intérpretes, cantando sempre em inglês, formaram o gosto de várias gerações em todo o mundo. Por isso, quando me pedem para escolher um dos símbolos do meu século, eu falo sempre da guitarra eléctrica.

P. – Mas falou também nos mitos, não foi?

R. – É verdade, os mitos. Desde a origem dos tempos que o Homem precisa dos mitos como precisa dos deuses, porque eles são a síntese dos grandes dramas, das grandes emoções e dos grandes sentimentos. Há os mitos gregos, os egípcios e os orientais e há, sobretudo, os mitos do século XX.

P. – De que mitos está a falar?

R. – Basta pensarem um pouco para descobrirem. Os mitos do século XX são sobretudo pessoas que viveram muito intensamente, que eram belas, que morreram ainda jovens. E o caso dos mitos do cinema como James Dean ou Marilyn Monroe, dos mitos do “rock” como Jimi Hendrix, Janis Joplin ou Jim Morrison,ou dos mitos da política como Che Guevara. O mito tem sempre atrás de si uma carga de tragédia. Tem que ser construído a partir de pessoas que viveram depressa, que tiveram sonhos e os deixaram por realizar devido a uma morte geralmente violenta e prematura. E também o caso recente de Diana de Gales.

P. – E como se construíram esses mitos?

R. – Construíram-se, principalmente, graças ao papel dos meios de comunicação e à existência de um mercado que gosta de os consumir em “posters”; em discos, em “t-shirts”; em filmes e até em medalhas, tatuagens ou porta-chaves. Os mitos contemporâneos são uma das principais fontes de receita do mercado mundial. Vejam o caso de Che Guevara, um argentino formado em Medicina, que ajudou a triunfar a Revolução Cubana e que era um inimigo declarado da sociedade de consumo. Uma vez transformado em mito, rapidamente, após a morte, se converteu numa fonte de negócio e de grande lucro para todos quantos trabalham com a sua imagem.

P. – Isso quer dizer que a sociedade de consumo é uma das grandes realidades do Século XX?

R. – Sem dúvida. Se precisarmos de um símbolo que ajude a definir o que foi o meu tempo de vida, podemos falar na sociedade de consumo, que resume o melhor e o pior desta época. E a sociedade de consumo é de tal maneira importante, por ter a ver com a natureza profunda do ser humano, que os regimes de Leste caíram por não lhe terem aberto as portas ou por não terem encontrado alternativas para ela. E o pior é que, para muita gente, a sociedade de consumo substituiu a crença e a espiritualidade. Hoje, muita gente vai para o hipermercado c para os centros comerciais fazer compras só para preencher o grande vazio espiritual que sente. E o pior é que cada vez se compra mais aquilo de que não se precisa, ficando-se endividado só porque o desejo de comprar se transformou num vício difícil de controlar. Os objectos e os padrões da sociedade de consumo, constantemente divulgados pela publicidade e por outras formas de “marketing”; ocupam o espaço dos valores e dos princípios. A própria moda transformou-se numa forma de ditadura. Quem não a segue, principalmente se for jovem, é marginalizado. Quem não usa roupas de marca é desvalorizado socialmente. Talvez isto explique o facto de o espectáculo da moda ocupar hoje um espaço regular nos telejornais, como se fosse um acontecimento socialmente muito importante e quase obrigatório. E é curioso notar que um dos grandes nomes do mundo da moda no século XX, a francesa Coco Chanel, disse que a moda é o que passa de moda. Tudo isto ajuda a fazer o diagnóstico de uma crise que tem de ser ultrapassada enquanto é tempo. E para isso o tempo é curto.

 

José Jorge Leiria

Conversa com o Século XX

Porto, Ambar, 2001

Pequena Árvore – Forrest Carter

Pequena Árvore

 

Pequena Árvore era metade branco, metade índio Cherokee. Quando tinha cinco anos, os seus pais morreram e ele foi viver com os avós Cherokee nas montanhas do Tennessee. Isto é o relato de um dia da sua vida, durante o primeiro ano que passou com os avós.

 

 

O Caminho

  Enquanto os bocados de pinheiro ardiam na lareira, a avó passou as noites de uma semana inteira a fazer os mocassins, sentada na cadeira de baloiço que rangia com o seu peso leve, à medida que trabalhava e trauteava. Tinha cortado a pele do veado com uma faca e feito as tiras, que coseu em torno da sola. Quando terminou, mergulhou-os em água e eu calcei-os molhados. Andei com eles, para trás e para a frente, até ficarem secos, macios e à minha medida, leves como uma pena.

Esta manhã, calcei-os em último lugar, depois de ter vestido o macacão e apertado o casaco. Estava escuro e frio. Era até demasiado cedo para que a brisa do vento matinal agitasse as árvores.

O avô tinha dito que eu podia ir com ele percorrer o trilho mais alto, se me levantasse a tempo. Ele não me acordaria.

― Um homem levanta-se de manhã cedo, se realmente tiver vontade ― dissera-me ele sem sorrir. Mas o avô tinha feito muito barulho a acordar, batendo na parede do meu quarto e falando alto com a avó, o que não era habitual. Por isso, eu ouvira-o e saíra primeiro, ficando à espera na escuridão, com os cães de caça.

― Com que então, já a pé?

O avô parecia surpreendido.

― Sim, avô ― disse, mantendo o orgulho longe da minha voz.

O avô apontou para os cães que saltavam e cabriolavam à nossa volta.

― Vocês ficam ― ordenou. Eles encolheram as caudas, ganiram, imploraram, e a velha Maud desatou a uivar. Mas não vieram atrás de nós. Ficaram juntos, com um olhar perdido, a verem-nos afastar.

Já tinha estado no trilho mais baixo, que serpenteava ao longo do vale até chegar ao prado onde o avô tinha o celeiro e guardava a mula e a vaca. Mas este era o trilho mais alto, que se dirigia para a montanha, sempre a subir a encosta do vale. Eu caminhava apressadamente atrás do avô, e podia sentir o declive do carreiro.

Também sentia algo mais, tal como a avó dissera. Mon-o-lah, a Mãe-Terra, vinha até mim através dos meus mocassins. Sentia-a ora a empurrar e a dilatar, ora a vacilar e a entregar-se. Sentia as raízes, que eram as veias do seu corpo, e a vida da água, que era o sangue que a percorria. Era quente, cheia de água borbulhante, e embalava-me no seu seio, tal como a avó dissera que faria.

O ar frio transformava a minha respiração em nuvens e o barulho da cascata fazia-se ouvir bastante abaixo do ponto em que nos encontrávamos. Nos ramos desnudos das árvores, pingava água dos bicos de gelo rendilhados e, à medida que subíamos, via-se geada no carreiro. Uma luz cinzenta aliviava a escuridão.

O avô parou e apontou para o lado.

― Lá está o rasto de um peru, vês?

Pus-me de joelhos e de mãos no chão, e vi o rasto de pequenas impressões concêntricas.

― Agora ― disse o avô ― vamos montar a armadilha.

Tentou encontrar um solo fácil de escavar. Limpámo-lo: primeiro tirámos as folhas e depois escavámos para tirar a sujidade, que espalhámos pelas folhas. Quando o buraco ficou profundo a ponto de eu não conseguir ver para fora, o avô tirou-me de lá e colocámos ramos de árvores a cobri-lo. Em cima daqueles, pusemos montanhas de folhas. Foi então que, com a faca grande, o avô cavou um caminho que ia do buraco às pegadas do peru. Pegou nas sementes de milho–índio vermelho que trazia no bolso e espalhou-as pelo trilho, deitando uma mão-cheia no buraco.

― Agora podemos ir ― disse. Partimos de novo rumo ao trilho mais alto. O gelo, que brotava da terra, estalava debaixo dos nossos pés. A montanha do outro lado aproximava-se, à medida que o buraco lá em baixo se tornava uma fenda estreita, fazendo a nascente parecer o gume de uma faca de aço que tivesse sido mergulhada no fundo…

Sentámo-nos nas folhas, fora do carreiro, enquanto os primeiros raios de sol tocavam o cume da montanha do outro lado do estreito. O avô tirou do bolso uma bolacha ressequida e um pouco de carne de veado para mim, e observámos a montanha enquanto comíamos.

O Sol atingiu o cume como uma explosão, num chuveiro de faíscas e centelhas. O brilho do gelo nas árvores feria-nos os olhos e descia a montanha como uma onda, enquanto o Sol afastava cada vez mais a sombra da noite. Um corvo, qual mensageiro, emitiu três avisos para anunciar a nossa presença.

A montanha estalava e suspirava agora, expelindo baforadas de vapor para o ar. Silvava e murmurava à medida que o Sol libertava as árvores da sua mortífera armadura de gelo.

O avô observava, tal como eu, e escutava os sons que cresciam com o vento da manhã, que fazia as árvores assobiarem baixinho.

― Está a nascer ― disse, baixinho e suavemente, sem tirar os olhos da montanha.

― Sim, avô ― disse eu ― está a nascer.

E soube logo ali que o avô e eu tínhamos uma cumplicidade que a maioria das pessoas não conhecia.

A sombra da noite foi-se afastando para o outro lado de um prado cheio de erva que resplandecia, banhado pelo Sol. O avô fez-me reparar numa codorniz que esvoaçava e saltitava na erva, alimentando-se das sementes. Depois, apontou para o céu azul gelado.

Não havia nuvens mas, de início, não me apercebi da mancha que surgiu na borda da montanha. Tornou-se maior. De frente para o Sol, para que a sombra não o precedesse, o pássaro apressou-se a descer a montanha, qual esquiador a roçar o topo das árvores. Vinha com as asas meio fechadas… como uma bala castanha… cada vez mais depressa em direcção à codorniz.

O avô sorriu entre dentes.

― É o velho Tal-con, o falcão.

A codorniz apressou-se a correr para as árvores ― mas foi lenta demais. O falcão atingiu-a. Primeiro, voaram penas, depois, as aves caíram por terra. A cabeça do falcão subia e descia ao ritmo das suas bicadas mortíferas. De repente, surgiu com a codorniz morta nas garras, partindo em direcção à montanha.

Não chorei, mas sei que devia estar triste, porque o avô disse:

― Não fiques triste, Pequena Árvore. É o Caminho. Tal-con apanhou a mais lenta e, por isso, a mais lenta não terá filhos que sejam também lentos. Tal-con vive segundo o Caminho. Está a ajudar a codorniz.

O avô desenterrou com a faca uma raiz-doce do solo e descascou-a, para que o seu sumo pleno de vida escorresse. Cortou-a a meio e deu-me a parte maior.

― É o Caminho ― disse suavemente. ― Tira apenas aquilo de que precisares. Quando matares o veado, não mates os melhores. Leva apenas os mais pequenos e mais lentos e, assim, os veados crescerão mais fortes e dar-te-ão sempre carne. Pa-koh, a pantera, sabe isto e tu também deves saber.

E riu-se.

― Só Ti-bi, a abelha, armazena mais do que precisa… e, por isso, o urso rouba-a, e o Cherokee também. É o que acontece aos que armazenam mais do que lhes é devido. Ser-lhes-á tirado. E haverá guerras por causa disso… e terão longas conversações, tentando ficar com mais do que lhes cabe. Dirão que têm o direito de o fazer… e morrerão homens por causa das palavras e das bandeiras … mas não conseguirão mudar as leis do Caminho.

Voltámos pelo carreiro. O Sol ia alto quando chegámos à armadilha dos perus. Podíamos ouvi-los antes de lá chegar. Lá estavam, comendo avidamente e emitindo sinais de alarme.

― A porta não tem fechadura, avô. Porque é que não baixam as cabeças e saem dali?

O avô esticou o braço para o buraco e tirou de lá um peru grande a grasnar, amarrou-lhe as pernas com uma tira de couro e sorriu abertamente:

― O velho Tel-qui é como algumas pessoas. Como acha que sabe tudo, nunca se dá ao trabalho de olhar para baixo para ver o que está à volta dele. Tem a cabeça demasiado empinada para aprender seja o que for…

O avô deitou-os no chão, com as pernas amarradas. Eram seis, e o avô apontou para eles.

― Têm quase todos a mesma idade… vê-se pela espessura da crista. Só precisamos de três, por isso agora escolhe tu, Pequena Árvore.

Andei à volta dos perus, que saltitavam no chão. Pus-me de cócoras, estudei-os e voltei a andar em roda deles. Tinha de ser cuidadoso. Pus-me de mãos e joelhos no chão e rastejei entre eles até retirar os três mais pequenos que consegui encontrar.

O avô nada disse. Arrancou as tiras das pernas dos outros, que fugiram a toda a velocidade pela montanha abaixo. Atirou com dois dos perus para cima do ombro.

― Podes levar o outro? ― perguntou.

― Sim, avô ― disse, sem saber se tinha procedido bem.

O avô esboçou um largo sorriso.

― Se não te chamasses Pequena Árvore… chamar-te-ia Pequeno Falcão.

Segui o avô pelo carreiro. O peru era pesado, mas sentia-me bem com ele ao ombro. O Sol tinha-se inclinado para a montanha mais longínqua e desaparecia nos ramos das árvores ao longo do caminho, deixando marcas de um amarelo-torrado. O vento esmorecera neste cair de tarde de Inverno, e eu ouvia o avô, à minha frente, a trautear uma canção. Teria gostado de viver naquele instante para sempre… porque sabia que agradara ao meu avô. Aprendera o Caminho.

 

 Forrest Carter

De: VERTICALIZAR

A nossa terra é sagrada – Chefe Índio Seattle

A nossa terra é sagrada

Carta do Chefe Índio Seattle ao Grande Chefe de Washington, Franklin Pierce, em 1854, em resposta à proposta do Governo norte-americano de comprar grande parte das terras da sua tribo Duwamish, em troca da concessão de uma reserva.

Como podereis comprar ou vender o céu? Como podereis comprar ou vender o calor da terra? A ideia parece-nos estranha. Se a frescura do ar e o murmúrio da água não nos pertencem, como poderemos vendê-los?

Para o meu povo, não há um pedaço desta terra que não seja sagrado. Cada agulha de pinheiro cintilante, cada rio arenoso, cada bruma ligeira no meio dos nossos bosques sombrios são sagrados para os olhos e memória do meu povo.

A seiva que corre na árvore transporta nela a memória dos Peles-Vermelhas, cada clareira e cada insecto que zumbe é sagrado para a memória e para a consciência do meu povo. Fazemos parte da terra e ela faz parte de nós. Esta água cintilante que desce dos ribeiros e dos rios não é apenas água; é o sangue dos nossos antepassados.

Os mortos do homem branco esquecem a sua terra quando começam a viagem através das estrelas. Os nossos mortos, pelo contrário, nunca se afastam da Terra que é Mãe. Fazemos parte dela. E a flor perfumada, o veado, o cavalo e a águia majestosa são nossos irmãos.

As encostas escarpadas, os prados húmidos, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencem à mesma família. Se vendermos esta terra, não ireis, decerto, ensinar aos vossos filhos que ela é sagrada. Como poderei dizer-vos que o murmúrio da água é a voz do pai do meu pai…

Também os rios são nossos irmãos porque nos libertam da sede, arrastam as nossas canoas, trazem até nós os peixes… E, além do mais, cada reflexo nas claras águas dos nossos lagos relata histórias e memórias da vida das nossas gentes. Sim, Grande Chefe de Washington, os nossos rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede, levam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos.

Se vos vendêssemos a nossa terra, teríeis de recordar e de ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também seus. E é por isso que eles devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Sabemos que o homem branco não percebe a nossa maneira de ser. Para ele um pedaço de terra é igual a um outro pedaço de terra, pois não a vê como irmã mas como inimiga. Depois de ela ser sua, despreza-a e segue o seu caminho.

Deixa para trás a campa dos seus pais sem se importar. Sequestra a vida dos seus filhos e também não se importa. Não lhe interessa a campa dos seus antepassados nem o património dos seus filhos esquecidos. Trata a sua Mãe-Terra e o seu Irmão-Firmamento como objectos que se compram, se exploram e se vendem tal como ovelhas ou contas coloridas. O seu apetite devora a terra, deixando atrás de si um completo deserto.

Não consigo entender. As vossas cidades ferem os olhos do homem pele-vermelha. Talvez seja porque somos selvagens e não podemos compreender. Não há um único lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desenrolar das folhas ou o rumor das asas de um insecto na Primavera.

O barulho da cidade é um insulto para o ouvido. E eu pergunto-me: que tipo de vida tem o homem que não é capaz de escutar o grito solitário de uma garça ou o diálogo nocturno das rãs em redor de uma lagoa? Sou um pele-vermelha e não consigo entender. Nós preferimos o suave murmúrio do vento sobre a superfície de um lago, e o odor deste mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.

Quando o último pele-vermelha tiver desaparecido desta terra, quando a sua sombra não for mais do que uma lembrança, como a de uma nuvem que passa pela pradaria, mesmo então estes ribeiros e estes bosques estarão povoados pelo espírito do meu povo. Porque nós amamos esta terra como uma criança ama o bater do coração da sua mãe.

Se decidisse aceitar a vossa oferta, teria de vos sujeitar a uma condição: que o homem branco considere os animais desta terra como irmãos.

Sou selvagem e não compreendo outra forma de vida. Tenho visto milhares de búfalos a apodrecer, abandonados nas pradarias, mortos a tiro pelo homem branco que dispara de um comboio que passa. Sou selvagem e não compreendo como uma máquina fumegante pode ser mais importante que o búfalo, que apenas matamos para sobreviver.

Tudo o que acontece aos animais acontecerá também ao homem. Todas as coisas estão ligadas. Se tudo desaparecer, o homem pode morrer numa grande solidão espiritual. Todas as coi sas se interligam. Ensinai aos vossos filhos o que nós ensinamos aos nossos sobre a terra: que a Terra é nossa Mãe e que tudo o que lhe acontece a nós acontece aos filhos da terra.

Se o homem cuspir na terra, cospe em si mesmo. Sabemos que a terra não pertence ao homem, mas que é o homem que pertence à terra. Os desígnios terrenos são misteriosos para nós. Não compreendemos porque os bisontes são todos massacrados, porque são domesticados os cavalos selvagens, nem por que os lugares mais secretos dos bosques estão impregnados do cheiro dos homens, nem porque a vista das belas colinas está guardada pelos “filhos que falam”.

Talvez um dia sejamos irmãos. Logo veremos. Mas estamos certos de uma coisa que talvez o homem branco descubra um dia: o nosso Deus é um mesmo Deus. Agora podeis pensar que Ele vos pertence, da mesma forma que acreditais que as nossas terras vos pertencem. Mas não é assim. Ele é o Deus de todos os homens e a sua compaixão alcança por igual o pele-vermelha e o homem branco.

Esta terra tem um valor inestimável para Ele e maltratá-la pode provocar a ira do Criador. O que é feito dos bosques profundos? Desapareceram. O que é feito da grande águia? Desapareceu também. Mas o homem não teceu a trama da vida: isto sabemos. Ele é apenas um fio dessa trama. E o que lhe faz, fá-lo a si mesmo.

Também os brancos se extinguirão, talvez antes das outras tribos. O homem não teceu a rede da vida. É apenas um fio e está a desafiar a desgraça se ousar destruir essa rede. Tudo está relacionado entre si como o sangue de uma família. E, se sujardes o vosso leito, uma noite morrereis sufocados pelos vossos excrementos. Assim se acaba a vida e só nos restará a possibilidade de tentar sobreviver.

De VERTICALIZAR

A filha da árvore

A FILHA DA ÁRVORE

          No alto de uma colina erguia-se um castanheiro.

Faziam-lhe companhia os animaizinhos da floresta e, em baixo, a cidade enviava para o céu nuvens de fumo azulado.

Porém, nas noites de Verão, quando a mãe arganaz embalava na cauda um dos seus filhotes, a árvore era invadida por uma grande tristeza.

“Só eu é que não tenho meninos para acarinhar”, pensava ela.

E pensou nisso com tanta força que, uma bela manhã, um dos seus ouriços desprendeu-se bruscamente.

Caiu, rolou e abriu-se.

Era uma menina.

Bem, estava um bocadinho pálida.

 “Mas o sol há-de dar-lhe uma linda cor!”, disse a árvore, que até brilhava de contente. Passou a chamar-se Florina.

A árvore fez-lhe um bercinho minúsculo de ervas e sentiu-se muito feliz.

Mas nem sempre era fácil.

Florina queria ser campeã de piruetas.

— Tem cuidado, meu rebentinho querido! – dizia, preocupada.

Florina brincava ao bichinho da fruta.

— Come tudo como deve ser!

E também fazia o pino.

— Tu pões-me a cabeça à roda! Cansa, ser pai!

Mas afinal até se davam bem. Às primeiras neves, todos os bichinhos prepararam um ninho fofinho para passarem o Inverno. Cada um escavou um buraco à sua medida no meio do feno e a árvore bocejou:

— Boa noite, Florina. Bons sonhos!

Em breve, tudo ficou em silêncio.

Florina virou-se para um lado.

Depois para o outro.

— Papá, não consigo dormir!

Mas ninguém respondeu, estava tudo branco e adormecido. Florina deixou-se escorregar para a neve e estremeceu.

Ao longe, a cidade acendia as luzes e brilhava calmamente. Florina encheu-se de coragem e desceu a colina.

Era um lugar estranho.

Tudo estava em movimento, à volta de Florina.

Empurravam-na.

— Sai daí! — disse alguém.

— Não fiques no meio da rua! — disse outra pessoa.

Florina começou a tremer.

De repente sentiu que alguém a levantava de cabeça para baixo.

— Larga-me! — gritou ela.

— Desculpa! — respondeu o macaco. — Julguei que eras uma castanha. Às vezes dão-me castanhas.

— Não tenhas medo! — disse uma senhora velhinha a sorrir. — O Gil é um macaco muito simpático.

Depois, cobriu Florina com um xaile.

— É noite – disse ela suavemente. — Temos de voltar para casa.

Levou Florina para o quarto das águas furtadas, deitou-a numa cama fofinha, aconchegou-lhe a roupa, deu-lhe um beijo e não disse mais nada porque a menina já tinha adormecido.

De manhã, Gil abanou Florina:

— Eh, castanha! Não vais passar o Inverno a dormir!

— Penso que não… — suspirou Florina.

— Veste roupa quente — aconselhou a velha senhora. — Está muito frio no parque.

— Olha bem para mim! — gritou Gil.

E subiu a toda a velocidade pela árvore mais próxima.

— Admirável, não?

— Qualquer pessoa pode fazer isso! — replicou Florina.

— E isto é que tu nunca fizeste! — Gil arremessou-se, saltando de árvore em árvore.

Mas, de repente, um ramo coberto de gelo partiu-se e Gil caiu de uma altura de vários metros.

Florina foi logo a correr.

O macaco já não se mexia.

Muito tristes, levaram-no para casa.

A velha senhora embrulhou-o num xaile, mas Gil tinha uma pata partida e continuava desmaiado.

— Deve haver alguma coisa que se possa fazer por ele! — soluçou Florina. — O meu pai deve saber…

Na colina, o castanheiro dormia profundamente.

— Papá — murmurou Florina — estou com um pequeno problema, ajuda-me! Um amigo meu está doente…

Então uma coisa extraordinária aconteceu. A árvore fez crescer uma folha, em pleno Inverno, uma folha pequenina, na ponta de um ramo.

E murmurou mesmo a dormir:

— Um chá! Um chá de uma das minhas folhas faz sempre bem quando se está mal disposto!

Florina colheu a folha. E levou também algumas avelãs para comer pelo caminho. A árvore continuava a ressonar.

Mal bebeu a primeira colher de chá, Gil sentiu-se logo muito melhor.

— Felizmente que há árvores! — disse Florina.

Dia após dia, o macaco recuperava a sua boa disposição e Florina esperava pela chegada da Primavera.

Finalmente, o vento trouxe um rebento verdinho e perfumado.

— A minha árvore acordou — anunciou Florina.

– Nós vamos acompanhar-te – propôs Gil.

A árvore assobiava baixinho, muito atarefada a fabricar folhas e gomos.

— Onde é que passaste a manhã? — perguntou a árvore muito admirada.

— Depois conto-te — disse Florina. — Dormiste bem?

— Como um cepo.

— Bom dia! — disse o macaco.

— É curioso, tenho a impressão de que já o conheço — admirou-se a árvore.

Florina ria-se, tapando a cara com as mãos.

— Mais tarde explico-te tudo… — disse ela. — Agora podemos ir jogar às escondidas?

Magali Bonniol

La fille de l’arbre

Paris, L’école des loisirs, 2002

tradução e adaptação