A Importância da Espiritualidade

 

Sejamos cautelosos em relação àqueles caminhos espirituais que apenas pressupõem a mudança das nossas ideias ou crenças. A espiritualidade autêntica não consiste em traduzir o mundo de forma diferente, mas em transformar a nossa consciência. No entanto, muitas das abordagens contidas no “novo paradigma” apenas requerem que mudemos a maneira como pensamos o mundo: espera-se que pensemos holisticamente, em vez de analiticamente; que acreditemos, não no mundo newtoniano-cartesiano, mas no mundo da teoria de sistemas e na grande Teia da Vida[1]; espera-se que pensemos, não em termos de divisão patriarcal, mas em termos da Deusa e Gaia holísticas.

Continuar a ler

A História como Destino

Há uma velha ideia dos povos que liga as catástrofes naturais aos fe­nómenos da cultura, que parece agora reactivar-se, com o que está a acontecer à nossa natureza. Os fogos des­te Verão, do Brasil à Rússia, as inundações, da Europa ao Paquistão e à China, fizeram surgir, com mais força do que nunca, a certeza da globalização das alterações cli­máticas. E, confusamente, associa-se essa ideia à da crise financeira global; enquanto as proporções dos desastres ecológicos de origem humana (como o derrame de crude no Golfo do México) atingem uma escala planetária, reforçando a crença numa relação negativa entre natureza e cultura. Não uma relação de causa e efeito (como, na Idade Média, entre o pecado e uma epidemia, por exemplo), mas um sintoma do catastrofismo inerente à marcha da História. Como se o pensamento do futuro próximo se traduzisse pela convicção de que «tudo irá cada vez pior».

Continuar a ler

A voz da terra

A Voz da Terra

Um rei que vivia solitário, certo dia, lembrou-se de mandar construir um palácio que fosse uma grande maravilha. E para que essa construção ficasse de facto grandiosa, pensou que só poderia erguê-la sobre uma alta coluna cujo alicerce infinitamente forte pudesse, em verdade, sustê-la. Chamando o seu íntimo ajudante, deu-lhe esta ordem:

Desejo que mandes alguns homens a todas as florestas e bosques do universo a fim de encontrarem a árvore mais ampla e mais alta que houver debaixo do sol. Não te surpreendas, vai.

E trinta rachadores de madeira partiram à procura da árvore gigantesca. Semanas depois, regressaram:

— Encontramos a árvore, mas é impossível transportá-la.

Levem cavalos para a trazer! – exclamou o rei.

Não poderiam com ela.

Algumas centenas de bois?

Não poderiam com ela.

Todos os meus elefantes?

Também não será bastante.

Pois seja como for; dentro de um prazo de oito dias, quero a árvore aqui! – disse, por fim, com azedume.

E os trinta leais servidores, de cabeça baixa, e em silêncio, partiram para a floresta. Porém uma outra árvore surgiu ainda mais bela. Era uma árvore venerada por todos os habitantes desse pequeno lugar e arredores, porque viviam na ilusão – ou na certeza! – de que um deus nela habitava e que a essa presença divina é que a árvore devia a sua exuberante formosura e o seu aspecto tão alto, tão forte, maravilhoso! Entretanto, o rei ordenou que a derrubassem porque só ela poderia ser a coluna do seu desejado palácio. Descantes e danças, abraços e beijos, à roda do velho tronco, misturavam-se na voz de alguém que a cantar dizia:

Deus, oculto e generoso,

Procura outra morada,

Que esta árvore frondosa,

À ordem de El-rei senhor,

Vai, por nós, ser derrubada.

 

A folhagem estremeceu; as ramarias mais altas inclinaram-se, chorosas, e um vago lamento se ouviu:

Se o vosso rei teimar nesse propósito, todas estas árvores de fruto e todas estas plantações que crescem à minha volta ficarão também destruídas. Digam, pois, ao vosso rei, que esse desejo é cruel. Contudo, se ele teimar, humildemente me entrego…

Nessa noite, enquanto o soberano dormia, o Deus da árvore venerada apareceu-lhe e ao ouvido assim falou tristemente:

Sei eu que mandaste derrubar a árvore maior e mais alta da floresta. Venho pedir-te que não pratiques esse monstruoso crime.

Mas onde vou eu encontrar a coluna para o palácio que quero mandar construir?

Raciocina, Rei sabedor: durante quatro mil anos recebi a adoração de todos os habitantes destas povoações vizinhas e, em troca, só benefícios saíram das minhas mãos. As aves adormecem, cantam e vivem nos meus ramos. Espalho sombra e bem-estar ao caminhante fatigado pelas ardências solares. Estão comigo a paz e o bem .

É verdade quanto dizes, ó alma dessa árvore formosa. Mas mantenho o que desejo.

Está bem; não devo contrariar-te. Só uma coisa ainda te peço. Manda-a cortar por três vezes. Primeiro, a cabeça coroada de folhagem verde; depois, o tronco com os seus braços abertos ao amor e ao infortúnio; e, por fim, as raízes que são tantas e tão profundas que hão-de abalar a terra inteira.

O que me pedes surpreende-me pela originalidade. Até hoje ninguém me pediu que lhe tirasse a vida por três vezes! Porque não queres suportar a morte num golpe certeiro?

Eu te respondo, rei inteligente: à volta de mim cresce e vive a minha família. Variadíssimas árvores prosperam à minha sombra generosa. Se eu tombar de um arranco, o meu corpo pesado e enorme, vai, certamente, mutilar essas vidas florescentes; mas, se cair por três vezes e em três bocados, será mais suave o desastre, por elas e não por mim!

No dia seguinte a ordem do rei era esta:

— Não quero que derrubem essa árvore! Nela mora um espírito de tanta beleza moral que é necessário respeitar e ouvir. As árvores são sagradas. Para edificar a minha casa outra coluna se arranjará; talvez de bronze ou de prata, ou, talvez, unicamente deste infeliz coração que bate aqui no meu peito.

Os Contos de António Botto

Marginália Editora, s/d

A Arvorezinha da vida

Na Rua do Ferro-Velho, em frente ao lar da Terceira Idade onde vivia a minha mãe, existia, por detrás de um muro coberto de telhas e com uma porta de grade, um pequeno jardim aberto aos moradores do lar e aos transeuntes que quisessem descansar num dos bancos lá existentes. O jardim era um triângulo delimitado por dois altos muros corta-fogo, enquanto o lado mais pequeno dava para a rua.

Pelas paredes não rebocadas trepava hera até ao segundo andar, tentando esconder o castanho-ferrugem dos tijolos gastos pelo tempo. Encostados às paredes havia alguns bancos, de onde se podia olhar para o centro do jardinzinho triangular, que só à tarde recebia a luz quente do sol, e ainda assim por pouco tempo. De resto, ficava mergulhado numa sombra melancólica.

Pela sua forma, o terreno não servia para construção, por isso o proprietário oferecera-o à casa Edmund-Hilvert, para que os seus moradores pudessem usá-lo como uma espécie de oásis no meio do deserto de pedra. A minha mãe usufruía do pequeno jardim. Depois do almoço, saía pela porta das traseiras, passava pelos contentores do lixo, atravessava a rua, abria a portinhola de grade e entrava no jardim, para se sentar num dos bancos pintados de branco virados para a parede com hera, ficando com o relvado à sua frente e, no meio deste, um pequeno ácer que lutava pela vida.

Ou porque a camada de húmus era muito fina, ou porque o terreno estava cheio de entulho, de pedras, de argamassa, de calcário e de cimento, ainda do tempo da guerra — talvez até venenos — ou mesmo por falta de sol, a pequena árvore era raquítica, miserável, com os seus frágeis ramos tristemente erguidos para a luz, como numa prece nunca atendida.

As folhas estioladas, sempre cobertas de pó, pendiam da arvorezinha: era como se ela não conseguisse respirar, ou melhor, sofresse de asma e respirasse com dificuldade.

A pequena árvore bem poderia ter feito parte do cenário da peça “Godot” de Beckett. ( À espera de Godot, peça do escritor irlandês Samuel Beckett). Era um cadáver vivo marcado pelo hálito da morte. E, ao mesmo tempo, na sua derradeira essência, representava a árvore como ser. Assim era e assim queria ficar.

Quando ia ao jardinzinho, minha mãe levava sempre um pequeno regador de plástico cor-de-laranja. Enchia de água o regador, com o qual, aliás, costumava regar as flores do peitoril da janela, e dava água à arvorezinha, a pouca que o regador podia levar e que ela conseguia transportar. Sentava-se então em frente da pequena árvore e ficava a vê-la agitar-se. Sim, porque ela mexia-se quando o vento passava e a bafejava; o vento que era capaz de dar vida, de a tirar e de a voltar a dar. E eu tenho a certeza de que, de algures, vinha até nós o chamamento de um melro. Ou ouvia-se o saltitar de um pássaro, de um pássaro qualquer, ali entre as paredes, de manhã cedo, pelo nascer do sol, e à noitinha, ao pôr-do-sol; e a minha mãe ouvia o chamar do pássaro, assim como percebia a muda agitação da pequena árvore. E mesmo que a não abraçasse nem falasse com ela, tinha na pequena árvore um vizinho e um alimento para os olhos, que, de outro modo, estariam cegos e vazios.

A arvorezinha erguia-se ali em representação de todas as árvores que alguma vez, ali ou noutros lugares, se ergueram, cresceram e definharam, e das que naquele momento cresciam noutro lugar. Árvores que, dali em diante, viveriam e morreriam como os homens e os animais e tudo o que, tendo vida e querendo viver, estava já talhado para a morte.

Eu encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que tinha ido visitar. Ela regara a arvorezinha, como fazia todos os dias, e estava agora com o regador cor-de-laranja vazio ao colo a dizer-me que todos os dias fazia aquilo.

— Espera só mais um bocadinho! — dissera-me quando ainda estávamos no lar. — Primeiro tenho de encher o regador.

De início, eu não percebia porque levava o regador, mas agora sabia-o.

— Sempre foste adoentado — disse minha mãe. — Já em criança. Adoecias muitas vezes.

Olhei para a arvorezinha. Era tão pequena, que tive a impressão de estar a olhá-la de cima para baixo. Encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que sabia que a sua vida se aproximava do fim e que, mesmo assim, se preocupava com aqueles que viviam. E eu sabia que, fizesse eu o que fizesse, nunca iria ser capaz de fazer nada melhor do que aquilo.

Theodor Weissenborn

SOS-Kinderdorf Caderno Anual, 1996

Texto adaptado