Pia vê tudo cinzento

Está novamente a chover.a

Como tantas vezes, Pia está sentada à janela com o olhar fixo na cidade molhada, lá em baixo. Nada mais do que casas e ruas! Pia só vê cinzento e também se sente assim: cinzenta, sombria e só. Não tem vontade de fazer nada. Há muito que já não consegue rir. Desde que o pai se mudou para casa da namorada. O que foi muito mau! A mãe limitava-se a ficar parada, a pensar e a chorar. Também Pia perguntava constantemente:

— Porque é que o papá fez isto?

— Temos de sair daqui — disse, certo dia, a mãe. — Para longe. Para esquecer! E tenho de voltar a trabalhar, assim fico sem tempo para pensar! Continuar a ler

Sugestões de leitura para adultos – edições brasileiras

A Garota Que Você Deixou Para Trás

Jojo Moyes
Intrínseca, 2014

Jojo Moyes apresenta a comovente história de duas jovens separadas por quase um século no tempo,mas juntas em sua determinação de lutar por aquilo que amam – custe o que custar.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem pintor francês Édouard Lefèvre é obrigado a se separar de sua esposa, Sophie, para lutar no front. Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, Sophie apega-se às lembranças do marido admirando um retrato seu pintado por Édouard. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca tudo – a família, a reputação e a vida – na esperança de rever Édouard, agora prisioneiro de guerra.

Quase um século depois, na Londres dos anos 2000, a jovem viúva Liv Halston mora sozinha numa moderna casa com paredes de vidro. Ocupando lugar de destaque, um retrato de uma bela jovem, presente do seu marido pouco antes de sua morte prematura, a mantém ligada ao passado. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar à vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura e sua tumultuada trajetória. Ao mergulhar na história da garota do quadro, Liv vê, mais uma vez, sua própria vida virar de cabeça para baixo. Tecido com habilidade, A garota que você deixou para trás alterna momentos tristes e alegres, sem descuidar dos meandros das grandes histórias de amor e da delicadeza dos finais felizes.


1A bibliotecária de Auschwitz

Antonio G. Iturbe
Nova Fronteira, 2013

Muitas histórias do horror e sofrimento testemunhados dentro dos campos de concentração nazistas são contadas e recontadas, já estão gravadas e arquivadas. É difícil, nesses relatos, encontrar atos de esperança e força diante de todo o mal registrado durante o Holocausto.

A Bibliotecária de Auschwitz é um livro diferente. É uma história verdadeira e cheia de detalhes a respeito de um professor judeu, Fredy Hirsh, que criou uma escola secreta dentro do bloco 31, no campo de concentração de Auschwitz, dedicando-se a lecionar para cerca de 500 crianças. Criou também uma biblioteca de poucos volumes com a ajuda de Dita Dorachova, uma menina judia de 14 anos que se arriscava para manter viva a esperança trazida pelo conhecimento e escondia os livros embaixo do vestido. É um registro de uma época sofrida da história, mas que também mostra a coragem de pessoas que não se renderam ao terror e se mantiveram firmes usando os livros como “arma”.


últimos-dias-de-nossos-pais-jOs últimos dias de nossos pais

Joël Dicker
Intrínseca, 2015

Após a frustração de ter tido o Exército britânico encurralado em Dunquerque, Winston Churchill tem uma ideia capaz de mudar o curso da guerra: a criação de uma nova seção do serviço secreto britânico, a SOE (Executiva de Operações Especiais), responsável por conduzir ações de sabotagem e se infiltrar nas linhas inimigas. Algo jamais feito na história. Na esperança de se juntar à Resistência, o jovem Paul-Émile deixa Paris e vai para Londres. Logo recrutado pela SOE, ele se integra a um grupo de franceses que se tornam seus companheiros de coração e de armas. Passando por formações e treinamentos intensos nos quatro cantos da Inglaterra, os selecionados voltarão para a França ocupada para contribuir na resistência. Mas a espionagem alemã está alerta… A existência da SOE por muito tempo foi mantida em segredo. Várias décadas após o fim das atrocidades da Segunda Guerra, Os últimos dias de nossos pais é um dos primeiros romances a abordar sua criação e a relembrar as verdadeiras relações entre a Resistência e a Inglaterra de Churchill. Dicker constrói um livro sobre amor, amizade e medo, com uma profunda reflexão sobre o ser humano e suas fraquezas.


Uma-Prova-do-CeuUma prova do céu

Dr. Eben Alexander

A jornada de um neurocirurgião à vida após a morte

Sextante, 2013

“Minha experiência mostrou que a morte não é o fim da consciência e que a existência humana continua no além-túmulo. E, mais importante ainda, ela se perpetua sob o olhar de um Deus que nos ama e que se importa com cada um de nós.

Cético, defensor da lógica científica e neurocirurgião há mais de 25 anos, o Dr. Eben Alexander viu sua vida virar do avesso quando passou por uma experiência que ele mesmo considerava impossível. Vítima de uma meningite bacteriana grave, ficou em coma por sete dias. Enquanto os médicos tentavam controlar a doença, algo extraordinário aconteceu.

Eben embarcou numa jornada por um mundo completamente estranho. Sem consciência da própria identidade, foi mergulhando cada vez mais fundo nessa realidade difusa, onde conheceu seres celestiais e fez descobertas transformadoras sobre a existência da vida após a morte e a profunda relação que todos nós temos com Deus.

Quando os médicos já pensavam em suspender seu tratamento, o inesperado aconteceu: seus olhos se abriram. Ele estava de volta. Mas nunca mais seria o mesmo. Aquela experiência o levou a questionar tudo em que acreditava até então. Afinal, como neurocirurgião, ele sabia que o que vivenciou não poderia ter sido uma mera fantasia produzida por seu cérebro, que estava praticamente destruído.

Analisando as evidências à luz dos conhecimentos científicos, o Dr. Eben decidiu compartilhar essa incrível história para mostrar que ciência e espiritualidade podem e devem andar juntas.

Narrado com o fascínio de um paciente que visitou o outro lado e com a objetividade de um médico que tenta comprovar a veracidade de sua experiência, este é um livro emocionante sobre a cura física e espiritual e a vida que se esconde nas diversas dimensões do Universo.”


Hereges

Leonardo Padura
Boitempo, 2015

O ponto de partida é um episódio real: a chegada ao porto de Havana do navio S.S. Saint Louis, em 1939, onde se escondiam 900 refugiados vindos da Alemanha. A embarcação passou vários dias à espera de uma autorização para o desembarque. No romance, o garoto Daniel Kaminsky e seu tio, aguardavam nas docas, trazendo um pequeno quadro de Rembrandt que pertencia à família desde o século XVII e que esperavam utilizar como moeda de troca para garantir o desembarque da família que estava no navio. No entanto, o plano fracassa, a autorização não é concedida, e o navio retorna à Alemanha, levando também a esperança do reencontro. Quase setenta anos depois, em 2007, o filho de Daniel, Elías, viaja dos Estados Unidos a Havana para esclarecer o que aconteceu com o quadro e sua família.


o homemO Homem que Amava os Cachorros

Leonardo Padura
Boitempo, 2013

A história é narrada, no ano de 2004, pelo personagem Iván, um aspirante a escritor que atua como veterinário em Havana e, a partir de um encontro enigmático com um homem que passeava com seus cães, retoma os últimos anos da vida do revolucionário russo Leon Trotski, seu assassinato e a história de seu algoz, o catalão Ramón Mercader, voluntário das Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola e encarregado de executá-lo.

Esse ser obscuro, que Iván passa a denominar “o homem que amava os cachorros”, confia a ele histórias sobre Mercader, um amigo bastante próximo, de quem conhece detalhes íntimos. Diante das descobertas, o narrador reconstrói a trajetória de Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido como Trotski, teórico russo e comandante do Exército Vermelho durante a Revolução de Outubro, exilado por Joseph Stalin após este assumir o controle do Partido Comunista e da URSS, e a de Ramón Mercader, o homem que empunhou a picareta que o matou, um personagem sem voz na história e que recebeu, como militante comunista, uma única tarefa: eliminar Trotski. São descritas sua adesão ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma história pouco conhecida e coberta, ao longo dos anos, por inúmeras mistificações.

As duas trajetórias ganham sentido pleno quando Iván projeta sobre elas sua própria experiência na Cuba moderna, seu desenvolvimento intelectual e seu relacionamento com “o homem que amava os cachorros”.


pintassilgoO pintassilgo

Donna Tartt
Companhia das Letras, 2014

Theo Decker, um nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe. Abandonado pelo pai, Theo é levado pela família de um amigo rico. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com quem não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma importante lembrança dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte.

Já adulto, Theo circula com desenvoltura entre os salões nobres e o empoeirado labirinto da loja de antiguidades onde trabalha. Apaixonado e em transe, ele será lançado ao centro de uma perigosa conspiração.
O Pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino.


homeroA odisseia de Homero

Gwen Cooper
Editora Sextante, 2010

Todo mundo que tem gatos sabe que eles são dotados de uma sensibilidade incrível e possuem uma forma peculiar de encarar a vida. Mas Homero tinha muito mais a ensinar.

Abandonado, cego e rejeitado, ele tinha tudo para ser amuado e medroso. Ninguém imaginaria que um gato sem os olhos – que precisaram ser retirados cirurgicamente para garantir sua sobrevivência – seria capaz de levar uma vida normal, com a alegria e a esperteza características dos felinos.

Contrariando todas as expectativas, Homero vivia como se seus olhos não lhe fizessem falta. Era bagunceiro, implicante, temperamental, divertido e dengoso como qualquer outro gato. Gwen Cooper fazia questão de afirmar que ele não era diferente. Mas ele era.

Diferente não por causa da falta de visão, mas por sua capacidade de fazer aflorar nas pessoas o que elas tinham de melhor. Parecia haver em seu espírito uma sabedoria oculta e uma energia latente que inspiravam todos à sua volta.

Homero se tornou o centro do mundo de sua dona. Foi se esforçando para garantir a segurança do seu gato que ela aprendeu a estabelecer a sua própria. Foi preocupando-se com a felicidade dele que Gwen percebeu quanto estava sozinha. E foi lhe oferecendo um amor incondicional que ela permitiu que esse sentimento entrasse em sua vida.

Mais do que um livro divertido e comovente sobre as aventuras de um gatinho, A odisseia de Homero é uma história de superação, de autoconhecimento, de transformação e de crescimento pessoal. Ela vai fazer você rir, se emocionar e compreender que, para conseguir o que queremos da vida, muitas vezes precisamos dar um salto no escuro, da mesma forma que Homero: confiando em nossos instintos e acreditando que sempre cairemos de pé.


O Jardim Secreto de Eliza

Kate Morton
Editora Rocco, 2009

O Jardim Secreto de Eliza – Em 1913, um navio chega à Austrália direto de Londres, trazendo com ele uma menina de quatro anos, absolutamente sozinha, sem um acompanhante adulto sequer. Com ela, apenas uma pequena mala com um livro de contos de fadas. O mistério de quem era a bela garota, que dizia não lembrar seu nome, e de como chegou ao porto, jamais foi desvendado. Em suas memórias ela trazia apenas a imagem de uma mulher que ela chamava de a dama ou a Autora e que dizia que viria buscá-la. Muitos anos depois, em 2005, na cidade australiana de Brisbane, a doce e reservada Cassandra herda de sua avó Nell uma casa na Inglaterra. Surpresa, ela descobre que a casa esconde as origens de sua avó, que foi uma vez a bela menina sem nome perdida no porto.

Enquanto acompanha a viagem de Cassandra para a Inglaterra em busca de suas origens, a autora revela uma trama paralela que se desenrola muitos anos antes do nascimento da menina, quando Nell vê seu mundo cair depois que seu pai revela, às vésperas de seu noivado, que ela não é sua filha verdadeira. A notícia a transforma numa mulher estranha, colecionadora de artigos antigos e raros e que vive numa casa em uma região afastada da Austrália. Seu exílio auto imposto, no entanto, é quebrado quando sua filha deixa a pequena Cassandra a seus cuidados. Revoltada com a filha por ter abandonado a menina, assim como aconteceu com ela quando criança, Nell acaba estreitando laços com a neta.

Um dia, porém, nos idos dos anos 1970, Nell, resolve finalmente reconstituir o caminho de volta a terra de onde veio: Londres. Lá, descobre muitas coisas sobre seu passado, incluindo as lembranças da moça que chamava de A Autora: Eliza Makepeace, uma travessa menina contadora de histórias que tinha sua própria cota de tragédias para viver na Inglaterra da virada do século XIX para o XX. Seria Eliza mãe de Nell? E por que ela a abandonou? Agora, é a vez de Cassandra revirar a pequena mala de segredos da avó e saber o que Nell conseguiu descobrir, se é que ela obteve sucesso em sua busca


Na terra da nuvem branca

Sarah Lark
Europa Editora , 2013

Governanta e professora de uma rica família em Londres, Helen Davenport anseia por um casamento, mas, sem pretendentes e já perto de completar 30 anos, sabe que suas possibilidades não são boas. Quando vê, na sua igreja, um anúncio de um fazendeiro na Nova Zelândia que procura uma mulher solteira e honrada para se casar, não pensa duas vezes. Após uma breve troca de correspondências com o pretendente, decide aceitar a proposta e emigrar.
Não muito longe, no País de Gales, Gwyneira Silkham, filha de um nobre e rico criador de ovelhas, está entediada com sua vida. Durante uma negociação de matrizes com um rico fazendeiro da Nova Zelândia, seu pai aceita o desafio para um jogo de cartas aparentemente inofensivo. Acaba apostando — e perdendo — a mão de sua filha em favor do filho do fazendeiro. Surpreendentemente, em vez de se revoltar, Gwyn vê na distante colônia a chance de uma vida vibrante e plena de aventuras.
Ambientado no século 19, durante o início da colonização inglesa na Nova Zelândia, o romance Na Terra da Nuvem Branca conta a história dessas duas corajosas mulheres que mudam radicalmente suas vidas e partem rumo ao desconhecido. Elas se encontram no navio, durante a longa e perigosa viagem, e começam a construir laços de uma duradoura amizade, que será decisiva na luta para a conquista de seus ideais.
Mesmo sendo uma história ficcional, a autora Sara Lark lança um olhar feminino sobre o momento histórico da colonização e a cultura dos nativos maoris. Destaca ainda a personalidade das mulheres e as dificuldades que enfrentam face às oportunidades que uma terra em formação oferece. E constrói uma saga envolvente e apaixonante.


A cidade do sol

Khaled Hosseini
Editora Nova Fronteira, 2013

Mariam tem 33 anos. Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos e Jalil, o homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rashid, um sapateiro de 45 anos. Ela sempre soube que seu destino era servir seu marido e dar-lhe muitos filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos.
Laila tem 14 anos. É filha de um professor que sempre lhe diz: “Você pode ser tudo o que quiser.” Ela vai à escola todos os dias, é considerada uma das melhores alunas do colégio e sempre soube que seu destino era muito maior do que casar e ter filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Confrontadas pela história, o que parecia impossível acontece: Mariam e Laila se encontram, absolutamente sós. E a partir desse momento, embora a história continue a decidir os destinos, uma outra história começa a ser contada, aquela que ensina que todos nós fazemos parte do “todo humano”, somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios.


Holocausto brasileiro
Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil

Daniela Arbex
Geração, 2014

Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.


A resposta

Kathryn Stockett
Bertrand Brasil, 2011

A Resposta – Uma história de otimismo ambientada no Mississippi em 1962, durante a gestação do movimento dos direitos civis nos EUA.

Eugenia Skeeter Phelan acabou de se graduar na faculdade e está ansiosa para tornar-se escritora, mas encontra a resistência da mãe, que quer vê-la casada. Porém, o único emprego que consegue é como colunista de dicas domésticas do jornal local. É assim que ela se aproxima de Aibellen, a empregada de uma de suas amigas. Em contanto com ela, Skeeter começa a se lembrar da negra que a criou e, aconselhada a escrever sobre o que a incomoda, tem uma ideia perigosa: escrever um livro em que empregadas domésticas negras relatam o seu relacionamento com patroas brancas.

Mesmo com receio de prováveis retaliações, ela consegue a ajuda de Aibileen, empregada que já ajudou a criar 17 crianças brancas, mas chora a perda do próprio filho, e Minny, cozinheira de mão cheia que, por não levar desaforo para casa, já esteve por diversas vezes desempregada após bater boca com suas patroas. Uma história emocionante e estarrecedora onde a cor da pele das pessoas determina toda a sua vida. Um livro que, devido ao seu tema, chegou a ser recusado por quase sessenta editoras antes de ser publicado.

Partilha

Nove horas. A equipa de cuidados paliativos encontra-se na copa para beber o café matinal. Da ementa constam croissants e pãezinhos com chocolate. Foi o Dr. Clément que os trouxe. Acontece-lhe de manhã, ao sair de casa para se dirigir ao hospital, pensar nas enfermeiras. Algumas estão presentes desde as sete da manhã para acompanhar o despertar dos doentes. Ao passar pela padaria da Rua Coquillière, faz uma paragem. É certo que, quando ele chega com o seu largo sorriso e carregado daqueles pães a cheirar bem, uma lufada de calor e de bem-estar espalha-se pelo serviço.

A equipa está então reunida para uma dessas numerosas ocasiões de convívio e troca de experiências profissionais.

Há alguns anos que integro essa equipa. Fui a primeira, em França, a apresentar-me como voluntária para confortar e cuidar daqueles que vivem os seus últimos instantes.

Não sabia, ao fazer essa escolha, o quanto a proximidade do sofrimento e da morte dos outros iria ensinar-me a viver e outra maneira, mais consciente e intensamente. Não sabia que um local destinado a acolher os moribundos pode ser o inverso de uma antecâmara da morte, um lugar onde a vida se manifesta com toda a sua força. Não sabia que ali ia descobrir a minha própria humanidade, que ia, de certo modo, mergulhar no coração humano.

Atraída pelo cheiro do café a ferver e pelo ar festivo do Dr. Clément, Chantal, a enfermeira do turno da noite, decide-se a ficar mais uns momentos. Acabou o serviço, mas tem vontade de partilhar com os outros os frutos da sua noite. O serviço nocturno é uma tarefa solitária, por isso ela raramente perde a oportunidade de se juntar à equipa diurna para se sentir menos só. À sua maneira volúvel, ei-la que se põe a descrever o seu turno.

Patrícia, a jovem que entrou na véspera, tocou várias vezes a campainha sob os mais variados pretextos.

Chantal sentiu-a angustiada. Disse ter hesitado em ministrar-lhe um calmante, mas depois teve uma ideia luminosa. Pegando numa travessa, cobriu-a com um guardanapo branco e colocou-lhe em cima duas bonitas chávenas, um raminho de flores e uma vela acesa. Após ter enchido as chávenas com uma verbena a fumegar, entrou no quarto de Patrícia. Eram duas horas da madrugada: Descreve-nos o ar de surpresa e de satisfação da jovem, o ambiente de festa íntima que a sua ideia soubera criar.

Criar uma ambiência calorosa e calma em volta de um doente angustiado é, sem dúvida alguma, o melhor que podemos fazer por ele. Há muito tempo que Chantal percebeu isso. Aliás, os médicos ficam sempre muito admirados por haver tão poucos calmantes ou ansiolíticos ministrados aos doentes nas noites em que ela está de serviço. É verdade, ela prefere fazer-lhes massagens, contar-lhes histórias, ou pura e simplesmente deixá-los falar, enquanto fica calmamente instalada à cabeceira. Foi o que fez esta noite, diz-nos ela, com a Patrícia.

*

Sentada numa das poltronas confortáveis, concedo-me este momento de solidão, em que deixo o pensamento divagar; é a minha maneira de me recompor. A súplica de Patrícia, de não morrer antes de estar preparada, faz-me pensar em Xavier, um amigo que morreu de sida há poucas semanas. Um ano antes de morrer, quando se encontrava na reanimação após uma pneumocistose aguda, ele dissera-me: «Não tenho medo de morrer, mas não queria morrer sem estar pronto.» De noite, sonhara que devia partir para o «novo mundo», a América, sem dúvida, mas não queriam dar-lhe ainda o bilhete. «Lá o terá, a seu tempo», responderam-lhe. Lembro-me de me ter maravilhado com a maneira como o seu sonho o incitava a ter confiança no tempo. Partiria «a seu tempo». Ele pedira tempo para se preparar para a morte, a vida dera-lhe um ano. Eu sei, por tê-lo encontrado várias vezes nesse ano, que, para além das questões materiais a resolver, preparar para morrer significa, na realidade, cavar o mais profundamente possível o leito da sua relação com os outros, aprender a entregar-se.

Perguntam-me com frequência que razão me levou a vir trabalhar num sítio como este, a conviver com o sofrimento e a morte. Parece-me que, desde a infância, dois impulsos me trouxeram até aqui. Um deles, mais espiritual, nasceu no meio da angústia familiar em face da morte, questão sem resposta em que medito quotidianamente e que me faz avançar. O outro é a minha curiosidade infinita em relação à alma humana, que me levou a ser psicóloga, a explorar o campo da psicanálise e, mais recentemente, o da haptonomia, ciência do contacto afectivo.

A vida ensinou-me três coisas: a primeira é que não poderei impedir nem a minha morte nem a dos meus próximos. A segunda, é que o ser humano não se reduz àquilo que vemos, ou julgamos ver. É sempre infinitamente maior, mais profundo do que os nossos estreitos julgamentos podem exprimir. E, finalmente, ele nunca disse a última palavra, estando sempre a transformar-se, a realizar-se em potência, capaz de se modificar através das crises e das provações da sua existência.

A proximidade da morte desperta, por vezes, os medos, as inseguranças antigas. Podemos entender que, ao perdermos as nossas defesas, os nossos meios de protecção, ficamos extremamente vulneráveis. Vemos, por vezes, surgir dores ou terrores que remontam à mais tenra infância. Não será o ser humano à procura dessa protecção, dessa segurança que lhe falta?

No quarto 775, Christine passa por momentos semelhantes de terror, incontroláveis e de todo imprevisíveis. Esta rapariga de apenas trinta anos, que está a morrer de um cancro generalizado no útero, fica por vezes transida de pânico. Vê no seu quarto uma multidão de serpentes que lhe assaltam a cama. Nessas alturas, salta da cama em grandes gritos. Esta cena reproduziu-se já várias vezes. O serviço fica petrificado, os doentes dos quartos vizinhos, desnorteados: que se passa?

Mau grado um tratamento adaptado a este género de alucinações, os terrores persistem, e só cedem, em geral, passado um bom bocado. Durante o resto do tempo, Christine mostra-se bastante serena, eu diria mesmo que dá, por vezes, provas de uma maturidade surpreendente, no modo como vive esta derradeira fase da sua existência. Uma maturidade em grande contraste com os seus pânicos infantis. Fala abertamente da sua morte e preocupa-se com o futuro do noivo, repetindo-lhe com frequência que deseja que ele refaça rapidamente a sua vida com outra mulher.

Esta manhã, ao chegar ao serviço, dou com Christine esgazeada, no meio do vestíbulo, a gritar a plenos pulmões, dificilmente dominada pelo Dr. Clément e por Simone, que, pegando-lhe cada um num braço, tentam impedi-la de se evadir do serviço. Porque é isso que ela quer fazer.

Vou, naturalmente, ajudá-los. Christine grita que as serpentes a perseguem, suplica que a protejam. Sem reflectir demasiado, prendo-a nos meus braços. De resto, ela pesa tão pouco que não tenho a menor dificuldade em levá-la até à saleta anexa. Aí chegando, deixo-me cair num sofá e, mantendo-a bem apertada ao peito, começo a embalá-la suavemente, cantando-lhe o nome. O Dr. Clément, após ter-se certificado de que já não precisava dele, fechou a porta, pois Christine continua a gritar com a mesma força, embora já não procure fugir. Sinto que aceita ficar sentada nos meus joelhos, penso mesmo que se sente em segurança, com os meus braços em sua volta, a protegê-la contra esse medo invisível.

Enquanto ela não pára de gritar, continuo a embalá-la ao peito, e a cantarolar o seu nome, com doçura.

Agora, deixou de gritar, mas soluça aflitivamente, com a cabeça enterrada no meu pescoço, como uma criança. Dali a pouco, com uma voz de menina pequenina, entrecortada de choro, conta-me os terrores da sua infância. A mãe dela coleccionava serpentes vivas em grandes frascos de vidro, e deixava-as sair de cada vez que Christine fazia uma asneira. Custa-me a crer em semelhante crueldade, a crer que uma mãe possa ser tão louca. Pouco importa, de resto, qual é a parte de efabulação ou de realidade! Esses medos fazem, sem qualquer dúvida, parte da infância de Christine. Não posso fazer outra coisa senão dar-lhe a entender que também existem lugares onde nos podemos sentir em segurança. Também para ela existe um espaço seguro. De momento, é este dos meus braços, daqui a pouco será noutro lugar. Que posso eu senão fazê-la experimentar esta sensação de segurança?

Agora, já não chora mais. Está a brincar com o colar de borboletas de contas azuis, enfiadas por crianças leucémicas, que trago por dentro da minha bata branca, sempre com a cabeça inclinada no meu ombro. Faço-lhe festinhas nos longos cabelos louros que lhe chegam a meio das costas.

— Se quiseres, dou-to — digo-lhe. — As borboletas não se deixam apanhar pelas serpentes. Vão proteger-te.

O meu colar vai, pois, servir de objecto transicional. O psiquiatra inglês Winnicott denomina assim o objecto que a criança às vezes guarda consigo, e que lhe permite suportar a ausência da mãe, na medida em que está investido das suas qualidades.

Antes de acompanhar ao seu quarto Christine, que recuperou a calma, digo-lhe ainda que a borboleta simboliza a alma, essa verdadeira essência do humano que escapa às leis da biologia, aquilo que eu julgo ser a parte de eternidade do homem. Christine não tem qualquer dificuldade em entender a interpretação que lhe proponho: também ela acredita na eternidade da sua alma.

*

Montreal. Termina o congresso «processo de cura para além do sofrimento e da morte». O Dalai-Lama veio presidir à sessão plenária de encerramento. Estou sentada na primeira fila, ao lado de Luc Bessette. O audacioso organizador deste imenso congresso propôs-me amavelmente este lugar. Mais de mil e quinhentas pessoas vieram aqui para reflectir durante dois dias sobre as questões que colocam a doença e a morte. Pela primeira vez, um congresso científico internacional dá um lugar de destaque à contribuição das tradições orientais e às técnicas meditativas.

O sussurro esvaiu-se na imensa sala dos congressos, pois Sua Santidade o Dalai-Lama chegou ao estrado. Vemos subir pela escada lateral um jovem muito frágil, de cabeça rapada, quase diáfano. Vemos que se trata de um menino doente, apesar de se manter de pé, muito direito. Uma mulher guia-o até junto do Dalai-Lama, pronuncia algumas palavras, e vemos o santo homem inclinar-se para o menino. As duas cabeças calvas, uma bronzeada e castanha, a outra de uma brancura quase transparente, estão agora frente a frente. Há algo de infinitamente comovedor neste encontro de um velho sábio e este menino doente. Um homem, ao microfone, explica-nos que o menino sofre de leucemia e que a sua vida está em perigo, pois todos os tratamentos falharam. O maior desejo do menino era encontrar um dia o Dalai-Lama. Esse desejo foi hoje satisfeito.

O velho monge instala o menino à sua direita, na mesa de conferências, e as últimas intervenções do colóquio vão-se sucedendo ao microfone. É altura, finalmente, das perguntas a fazer pela assistência. Luc Bessette dirige-se ao menino doente e pergunta-lhe:

— Podes dizer-nos aquilo de que tens mais necessidade, neste ponto que a tua doença atingiu? Podes dizer-nos, ainda, o que significa a morte para ti?

Vemos então o menino pegar no microfone e, com uma firme autoridade interior, responder numa voz calma e prodigiosamente comedida:

— Tenho necessidade de que estejam comigo, como se eu não estivesse doente. Que se riam, que se divirtam comigo, que sejam naturais! Sei que estou na terra por um tempo limitado, para aprender alguma coisa. Quando tiver aprendido o que cá me trouxe, partirei. Mas, no meu cérebro, não consigo imaginar que a vida se acabe!

Foi assim que, nessa tarde, mil e quinhentas pessoas cultas receberam a mais bela lição de sabedoria e de simplicidade que possa existir. Uma palavra de ouro nos lábios de uma criança condenada pela medicina. Um enorme estremecimento percorreu a sala, seguido por um profundo silêncio. Em muitos olhos viam-se lágrimas. O velho monge levantou-se e inclinou-se perante o menino, como se teria inclinado perante um mestre. Colocou-lhe uma estola branca sobre os ombros e abençoou-o. Uma ovação interminável fez erguer a assistência, que não sabia dizer de outra maneira a intensa emoção que sentia.

*

Embora conviva quotidianamente com a morte há vários anos, recuso-me a banalizá-la. Vivi a seu lado os momentos mais intensos da minha vida. Conheci a dor de me separar de quem amava, a impotência perante os progressos da doença, momentos de revolta em face da lenta degradação física daqueles a quem assistia, momentos de esgotamento, com a tentação de parar com tudo: mas não posso negar o sofrimento e, por vezes, o horror que rodeiam a morte. Fui testemunha de imensas solidões, senti a dor de não poder participar de certos desamparos, pois há níveis de desespero tão fundos que não podem ser partilhados.

Conjuntamente com este sofrimento, tenho, mesmo assim, a sensação de me ter enriquecido. De ter conhecido momentos de uma densidade humana incomparável, de uma profundidade que não trocaria por nada deste mundo, momentos de alegria e de doçura, por incrível que isso pareça. Sei que não fui a única a tê-los vivido.

Há alguns anos, tive este sonho: estava na cozinha de uma velha casa, em presença de um homem, que era, sem dúvida, o hospedeiro daquele lugar. O homem apontava para a parede, por cima da lareira. Nesse sítio havia um buraco. Como ele parecia insistir em que eu fosse ver de mais perto, peguei numa cadeira, subi e olhei para o interior da chaminé. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que, ao longo das paredes cobertas de uma fuligem negra e espessa, escorria algo semelhante a mel. Intrigada, estendi a mão para me certificar: era mesmo mel!

Lembro-me de que, no sonho, eu estava profundamente abalada por essa descoberta, e tinha a sensação de que precisava, absolutamente, de prevenir os outros. Como se detivesse um segredo que era urgente partilhar.

Sabia que teriam dificuldade em acreditar em mim, e que a coisa levaria o seu tempo.

Irão encontrar neste sonho várias outras interpretações óbvias, estou consciente disso, mas, na altura em que o vivi, liguei-o, de propósito, ao que ia descobrindo de dia para dia, naquela proximidade do sofrimento e da morte! Existia dor, é certo, mas também doçura, muitas vezes uma infinita ternura. Eu descobria, assim, que o espaço-tempo da morte é, para os que querem penetrar nele e ver para além do horror, uma ocasião inesquecível de intimidade.

Marie de Hennezel
Diálogo com a morte
Lisboa, Editorial Notícias, 2002
Excertos