O limpador de placas

Conheci um homem que era limpador de placas de rua.
Todas as manhãs, às sete horas, ele ia para o trabalho.
Para chegar à Central de Limpeza de Placas de Rua, na Praça do Incenso, ele levava mais ou menos meia hora. Cumprimentava o porteiro, fazia algum comentário sobre o tempo e ia para o vestiário.
Lá vestia um macacão azul, botas azuis de borracha, e depois, sem muita pressa, ia para o almoxarifado, onde lhe entregavam uma escada azul, um balde azul, uma escova azul e uma flanela também azul.
Enquanto ia arrumando as coisas, ele conversava com os colegas, que também preparavam seus instrumentos de trabalho. Depois iam todos até ao depósito pegar as bicicletas azuis e saíam pelo portão.
A saída dos limpadores de placas de rua nas suas bicicletas era um espetáculo magnífico. Eles pareciam imensos pássaros azuis saindo do ninho ao mesmo tempo. Continuar a ler

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Grace, uma menina surpreendente

Grace gosta de teatro mas nunca pensou que só os rapazes pudessem representar os papéis masculinos. Gostava que lhe dessem o papel de Peter Pan no teatro que vai ser feito na escola mas os colegas acham que não pode por ser negra e rapariga. Será que vai conseguir?

Outra história que pode ver e descarregar aqui. 

O piano vermelho

China, 1975, um final de tarde de abril.
Há sete anos que pessoas jovens e cultas frequentam campos de reeducação, por vezes com entusiasmo, mas mais frequentemente sob ameaça. Objetivo dos campos: erradicar o elitismo através do trabalho manual. Os jovens convivem lado a lado com pobres camponeses e são “reeducados” pelo estudo das obras políticas do Presidente Mao.

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Um luar sinistro abate-se sobre o campo Zhangjiake 46-19 na fronteira entre a China e a Mongólia Interior.
Na camarata, os quartos repletos tresandam a suor doce, ao cheiro nauseabundo das fogueiras de carvão extintas e da terra sobrelotada. Apertados uns contra os outros, os camaradas já dormem no chão despido. Com passos pequenos e cautelosos, a rapariguinha deixa a casa comunitária.
Lá fora, o vento fustiga.
Era suposto haver um recolher obrigatório rigoroso, mas já passou muito tempo desde a última vez que o comité colocou guardas a vigiar. Tudo o que ela tem a fazer é saltar o muro da latrina e seguir por um caminho ladeado de árvores. No fim do caminho, no limite da aldeia, ela já consegue ver a casa da sua cúmplice, a mãe Han.
Um piano vertical ocupa o armazém. À luz do candeeiro o teclado é amarelo.
Puxa um banco baixo e levanta as mãos congeladas. Faz, então, uma pausa. O seu pensamento retrocede, no tempo, até ouvir o seu primeiro professor de piano murmurar:
— Precisas de aquecer as tuas mãos, minha pequenina, de preferência com um prelúdio de Bach, em vez de martelares nas teclas como se fosses louca.
Ela inclina-se para a frente, o seu corpo frágil perdido no seu casaco azul, as tranças roçando as teclas e, sem mais esperas, entrega-se ao seu prelúdio. O calor regressa.
A música eleva-se, livre, Continuar a ler

Bemol Saltitante, um ratinho ao piano

Bemol Saltitante, um ratinho ao piano

O ratinho Bemol Saltitante adorava música. Por isso, vivia dentro de um piano. Era um lugar amplo, elegante e quentinho, mas o que mais lhe agradava era que todos os dias podia ouvir música durante horas.

O dono do piano era um pianista que adorava a sua profissão, pelo que passava dias inteiros a tocar e tocar. Sonatas, rapsódias, partituras e outras peças de música ecoavam na enorme sala, e escapavam pelas janelas.

Bemol gostava de se sentar num cantinho tranquilo ao fundo da caixa de ressonância e desfrutar das baladas de amor. Gostava também de dançar entre os abafadores quando o pianista tocava uma marcha.

O pianista estava radiante com o seu piano. Tinha um som estupendo e, surpreendentemente, não o afinava havia anos. O que o pianista não sabia era que, durante as noites, o pequeno Bemol se encarregava de esticar e afinar as cordas e de limpar o pó que se acumulava entre as teclas. Bemol gostava de ter a sua casa em boas condições.

Algumas noites, o ratinho divertia-se a patinar sobre a tampa do piano, outras passava-as lendo e decorando as partituras que o pianista deixava sobre a estante.

Os outros ratos que viviam na casa consideravam Bemol um louco. Em vez das pequenas frestas nas paredes, das caixas no sótão ou dos livros ao fundo da biblioteca, preferia viver num piano. Isso era de doidos. Além de que o risco de ser descoberto pelo pianista era enorme e, se tal acontecesse, o homem saberia que tinha ratos em casa, o que seria uma desgraça para todos.

O Conselho dos Ratos reuniu-se para tratar do assunto e pôr na ordem o rato rebelde.

— Bemol Saltitante — disse o rato mais velho da casa. — É decisão deste conselho que, a partir desta mesma noite, abandones o piano como tua residência. Pões toda a comunidade em risco e isso não podemos permitir. De modo que terás de viver aqui connosco.

Bemol tentou argumentar, mas o ancião interrompeu-o:

— Bemol, não se fala mais nisto, já está decidido. Contudo, preparámos-te uma das caixas mais cómodas da cave. É de madeira e está cheia de novelos de lã. Além disso, encontra-se na última prateleira, um óptimo sítio. Se queres ser um membro desta comunidade, terás de aceitar a nossa decisão.

Bemol podia estar louco, mas era um bom ratinho, de maneira que aceitou aquela decisão, pensando no bem de todos.

A caixa não podia ser melhor, cómoda e bem situada. Como forma de lhe desejarem as boas-vindas, outros ratos tinham-lhe deixado três pedacinhos de queijo. Mas Bemol estava triste, e como lhe fazia falta o seu piano!

Na primeira noite comeu um bocadinho de queijo e, com os outros dois, fez uns tampões para os ouvidos. Funcionou, não ouviu nada toda a noite e depressa adormeceu.

No dia seguinte, quando lhe deu a fome, comeu um dos tampões de queijo.

Devagarinho, as notas de uma preciosa melodia que chegavam da sala de música foram entrando pelo seu ouvido direito. Bemol sentiu uma imensa vontade de correr em direcção ao som, mas cerrou os dentes e tapou a orelha com a mão. Assim passou o dia inteiro, com uma mão e um pedaço de queijo a tapar os ouvidos.

Ao terceiro dia, Bemol comeu o último pedaço de queijo e, assim, ficou sem tampões. Logo chegaram aos seus ouvidos, dos confins da sala de música, as primeiras notas da Fantasia Kortakowsky, sem dúvida a obra musical mais bela e complexa alguma vez escrita para piano.

A sua primeira reacção foi tapar de novo as orelhinhas, mas, sem querer, começou a trauteá-la. Primeiro retirou uma mão, depois a outra e, sem poder evitá-lo, desatou a correr escada acima em direcção à sala de música.

Atravessou vários tabiques, subiu pela canalização e chegou até uma pequena fresta na parede da sala de música. E ali estava o pianista, a interpretar aquela peça maravilhosa.

— Tenho de chegar ali — pensou Bemol.

E, sem sequer parar para pensar, desatou a correr em direcção ao piano, arriscando-se a ser descoberto.

Mas Bemol teve sorte e chegou aos enormes pés do piano sem ser visto. O pianista estava concentrado, movendo vertiginosamente as mãos sobre as teclas. O ratinho trepou pelo piano e escondeu-se mesmo atrás da estante. Esse seria o lugar indicado para desfrutar do concerto. Que belo regresso a casa, na primeira fila a ouvir a Fantasia Kortakowsky.

A música era cada vez mais complexa; o pianista via-se e desejava-se para chegar a todas as teclas. O pequeno Bemol continuava atrás da estante, movendo os seus dedinhos sobre um teclado imaginário. Até que chegou o último andamento, o mais complicado. Nenhum pianista, depois de Kortakowsky, tinha sido capaz de o interpretar correctamente. Bemol respirou fundo e preparou-se para escutar a parte final. As notas multiplicaram-se por dez, cada vez mais rápidas, cada vez mais belas.

E, então, já no fim da escala mais difícil, aconteceu: uma nota fora de lugar soou como o chiar de uma porta no meio da melodia.

— Maldição! Não é assim! — gritou o pianista, dando um soco no teclado. — Jamais conseguirei alcançar estas notas.

Bemol ficou imóvel, cruzando os dedos enquanto repetia a escala mentalmente. Então, o pianista respirou fundo e disse:

— Está bem, vou tentar mais uma vez. E começou de novo o último andamento.

As suas mãos foram acariciando as teclas cada vez mais depressa. Em boa verdade, pareciam montes de borboletas voando enlouquecidas. Bemol, com os dedos cruzados, pensava em cada nota, em cada tecla, mesmo antes de o pianista as tocar. E, então, voltou a acontecer: duas notas trocaram de sítio e o resultado foi um som tão desagradável como um puxão de orelhas. Desta vez foi Bemol quem gritou:

— Maldição! — E, de imediato, tapou a boca assustado. Todavia o pianista não o ouvira. Tinha começado a deambular pela sala, murmurando aborrecido. Além disso, a voz dos ratos não é lá grande coisa.

O homem voltou a sentar-se, sussurrando:

— Muito bem, última tentativa.

Bemol continuava escondido, mas, quando as notas começaram a soar, não conseguiu conter-se. O pianista estava quase a chegar ao mesmo compasso que o fizera falhar e foi então que o ratinho saiu detrás da estante e, com um salto certeiro, foi cair exactamente sobre a nota que o pianista não conseguira alcançar.

Bemol não acreditava no que acabara de fazer. Estava em cima de uma tecla, de olhos tapados, à espera que um murro o fizesse em puré e, o que seria pior, acabara de pôr em sério risco os outros ratos. Então, o músico deixou de tocar e o ratinho pensou que seria o seu fim. No entanto, perante a sua surpresa, o homem falou:

— Muito bem, ratinho! Importavas-te de repetir?

Bemol concordou rapidamente com um aceno de cabeça. O pianista começou novamente a tocar e o pequeno roedor saltava e saltava sobre as teclas exactas no momento certo.

Assim estiveram toda a tarde, tocando a dois, a peça mais complicada e bela alguma vez escrita para piano. Então, o homem compreendeu o segredo da Fantasia Kortakowsky: havia sido escrita para ser tocada por um pianista e um rato. E assim o fizeram a partir de então.

De modo que, se alguma vez tiverem a sorte de assistir a um recital de piano, prestem bem atenção ao ratinho que salta de tecla em tecla entre as mãos do pianista. Assim saberão que estão a tocar a Fantasia para Pianista e Rato de Kortakowsky.

António Amago
Bemol Saltitante, um ratinho ao piano
Matosinhos, Quidnovi Editora, 2006
adaptação

A árvore que cantava

A árvore que cantava

Era Janeiro, uma daquelas manhãs claras e secas que fazem lembrar velhos montanheses de bigodes gelados e olhos piscos do sol. Nevara. Grandes e densos flocos tinham caído durante toda a noite. Depois, com a chegada do dia, um forte sopro de vento norte limpou o céu.

A floresta, que começa atrás da casa e se estende pela montanha, estava completamente adormecida, envolta num grande silêncio gelado. Por entre as árvores estendiam-se sombras azuis. Os pinheiros vergavam sob a carga da neve, pois o vento da madrugada soprara apenas o suficiente para afastar as nuvens.

Isabel e Gerardo viviam ali, junto do bosque, em casa dos avós. Era uma casinha cinzenta de portadas verdes. Lá longe, na margem gelada da ribeira, ficava a aldeia, que mal se via naquela manhã, bem como o caminho que seguia ao longo dos campos e atravessava a pradaria.

Da janela, as duas crianças esforçavam-se por segui-lo com o olhar. Viam-no bem até à primeira curva, junto do grande ácer morto há dois anos, e que o avô ainda não tinha decidido cortar, mas, para lá dele, tudo se confundia.

Enquanto estavam assim, de nariz colado ao vidro, Isabel e Gerardo viram passar um pássaro, depois outro e depois um bando que se empoleirou na ramada fazendo cair montinhos de neve.

— Estão com frio — disse Isabel. — É preciso dar-lhes sementes ou pão para eles comerem.

Arranjou alguns grãos e Gerardo abriu a janela.

— Fecha depressa — gritou o avô — que o Inverno vai entrar-nos pela casa dentro!

As crianças puseram-se a rir. Como se o Inverno pudesse entrar numa casa!

Isabel atirou os grãos para a vereda que o avô tinha varrido para poder ir buscar lenha. A avó pôs-se a tossir e levantou as tampas redondas do fogão para lá meter um enorme cavaco. Depois de fechada a janela, dois pássaros desceram da latada. Os outros pareciam inquietos mas, ao verem que nada se mexia, voaram também, enquanto outros desciam do telhado, direitinhos, quase sem baterem as asas.

— A comida não vai chegar para todos — disse Isabel. — Estão a vir cada vez mais.

— Chega! Já chega! — gritou a avó. — Se lhes deres tudo, as minhas galinhas é que vão ficar sem nada!

— E se continuas, vais atrair todos os pássaros da floresta — disse o avô exagerando.
Isabel lá se conformou e voltou para a janela. Ficou bastante tempo ao lado do irmão, limpando o vidro embaciado quando deixava de conseguir ver. De repente, agarrou no braço do irmão e disse, apontando:

— Olha para o caminho!

Gerardo levantou os olhos. Ao fundo, para lá do ácer morto, um curioso animal avançava sobre a neve. Parecia o coelhinho de corda mecânico que o Pai Natal tinha trazido a Gerardo, alguns anos atrás. Saltitava, vacilava da direita para a esquerda e parava a todo o momento, exactamente como o brinquedo. Estava vestido de pêlo cinzento e tinha orelhas compridas, que se tocavam no cimo da cabeça, tal e qual o coelho.

Esta aparição era tão surpreendente que as crianças esqueceram as aves e ficaram de boca aberta a observar aquele estranho animal cujos olhos, por vezes, reflectiam luz.

Quando o coelho, que caminhava apenas com as patas de trás, chegou junto da sebe que circundava o jardim, as crianças só lhe viram a cabeça.

— Parece que vem para aqui! — murmurou Gerardo.

— É verdade! Está a contornar o jardim.

O coelho desapareceu e seguiu-se um longo silêncio angustiante. As crianças sustinham a respiração, à escuta. Em breve ouviram-se passos no degrau de pedra, e os pássaros voaram tão rápido que as crianças se assustaram.

— Não ouviram nada? — perguntou o avô.

Os dois pequenos abanaram a cabeça.

— O que poderá ser? — disse a avó. Àquela hora o carteiro ainda estava longe. Os avós não tinham visto nada da estranha figura e os pequenos não ousavam responder. Não podiam dizer: “É um coelho mecânico, grande como um homem, que vem sozinho e está a bater as botas na soleira da porta!”

Sentiu-se ainda um roçar na parede, depois ouviu-se bater à porta. Os avós olharam um para o outro e depois para a porta. Como voltaram a bater com mais força, o avô gritou por fim:

— Entre!

A porta abriu-se lentamente e uma baforada gelada entrou na cozinha. Desta vez era o coelho quem trazia o Inverno no pêlo cinzento. Porque era mesmo ele que se encontrava ali, de pé, na soleira da porta, surpreendido com o calor e o cheiro do lume onde se cozinhava carne de coelho verdadeiro.

A avó correu a fechar a porta. E não é que o coelho se põe a falar!…

— Bom dia, bom dia — disse ele. — Venho muito cedo, desculpem, mas…

Os pêlos cinzentos afastam-se à altura do rosto, aparecem uns grandes óculos, depois um nariz muito vermelho, depois uns bigodes espetados como uma vassoura de crinas de cavalo e a seguir uma cara de barba branca, parecida com a do avô.

— Mas, é o Vicente! — disse o avô, admirado. — É o Vicente!

E era verdade! Era mesmo o Vicente. E só quando tirou o boné de orelhas levantadas e despiu a peliça cuja gola lhe tapava os olhos é que as crianças tiveram a certeza de que o coelho mecânico era um homem. Nunca o tinham visto, mas o avô já lhes tinha falado muitas vezes daquele velho amigo.

O tio Vicente limpava os óculos, limpava as lágrimas que lhe corriam dos olhos e repetia:

— Quase nem vos vejo. O calor, depois do frio, faz-me sempre chorar. E os óculos ficam embaciados.

Não via, mas podia falar e ouvir. Rapidamente se sentou ao canto da lareira junto do avô e pôs-se a contar histórias do seu tempo de rapaz. O avô também contava as suas. Falavam ao mesmo tempo, não ouviam o que cada um dizia, mas ambos pareciam felizes.

As crianças tinham voltado para a janela. Já não havia grãos, mas algumas aves teimavam em procurá-los. Uma sombra passou sobre a neve, um pássaro grande, preto, baixou para ir pousar em cima da árvore morta. Gerardo voltou-se e disse:

— Avô, está uma águia em cima da árvore morta! Anda depressa! Anda ver depressa, avô!

O avô nem se mexeu, mas Vicente levantou-se e juntou-se às crianças. Com os óculos redondos, e agora já limpos, em cima do nariz, disse:

— Não é uma águia, é um corvo. E a árvore é um ácer, mas não está morta.

Do seu sofá, o avô gritou:

— Já está morta há dois anos. E, mal possa, vou arrancá-la.

— Asseguro-te que não está morta — afirmou Vicente. — As árvores nunca morrem…

— Não me digas uma coisa dessas! — disse o avô admirado. — Garanto-te que já passaram duas primaveras sem ela dar rebentos. Digo-te que está morta e pronta para ser queimada.

Vicente olhou-os a todos mas dir-se-ia que não estava a vê-los, que fixava outra coisa distante, para lá do fim da planície.

— Repito que as árvores nunca morrem — disse. — E vou provar-vos. Hei-de prová-lo, fazendo cantar o vosso velho ácer.

O avô pareceu não acreditar, mas calou-se. Vicente era seu amigo, por isso não queria contrariá-lo.

As crianças entreolharam-se. Será que tinham ouvido bem?

Vicente voltara a sentar-se no cadeirão e retomara já o fio das suas histórias. Vai ficar por ali até ao anoitecer e partilhar com eles a refeição do meio-dia.

Quando Vicente se vai embora, o avô acompanha-o até ao ácer. Andam em volta da árvore como se jogassem às escondidas, e parecem minúsculos à luz do crepúsculo que afasta tudo e confere à paisagem o aspecto de um postal de boas-festas.

Mal o avô regressa, as crianças correm para ele e perguntam:

— Então, o que é que ele disse?

— O Vicente teima que o ácer não está morto. E até me prometeu que ia fazê-lo cantar.

— Mas como, avô? Como é que ele irá fazer?

— Esse é o segredo dele. Mais tarde verão. Não posso dizer-vos nada porque ele nada me explicou. É preciso esperar.

As crianças bem insistem, mas o avô não diz mais.

O tempo passou. A neve derreteu e as chuvas da Primavera limparam as últimas marcas do Inverno no flanco da colina. As crianças nunca mais pensaram no tio Vicente. Porém uma tarde, ao regressarem da escola, aperceberam-se de que faltava qualquer coisa na paisagem. Era o ácer. No seu lugar havia apenas um cepo enorme, alguns ramitos, pedaços de casca e serradura semelhante a um montinho de neve que tivesse ficado ali esquecido pelo sol.

— Deve ter sido o avô que cortou a árvore — disse Gerardo. — Não devia ter feito isso. O senhor Vicente tinha prometido que ia fazê-la cantar.

— E tu acreditas nisso? — perguntou Isabel.

— Claro, porque foi o senhor Vicente que prometeu.

— Mas o avô acha que uma árvore morta só pode cantar no lume!

— Não quero que a queimem — disse o rapaz. — Anda, vem depressa!

Desataram a correr para casa. Pousaram as pastas ao fundo das escadas e escaparam-se para a casa da lenha, uma pequena cabana de madeira que o avô construíra ao fundo do quintal.

A porta estava escancarada e a carroça de mão parada diante da entrada. As crianças correram a toda a velocidade e chegaram coradas e ofegantes. O avô e Vicente saíam da casinha da lenha. Um troço do ácer ainda estava em cima da carroça. As crianças olharam para Vicente com ares de reprovação nos seus olhos claros, mas o velhote sorriu-lhes por baixo do bigode. Aproximou-se do carro e pôs-se a acariciar o tronco do ácer como se fosse um cão.

As mãos do senhor Vicente são grandes, com dedos compridos e grossos e unhas levantadas na ponta, com uma forma esquisita. Quando Vicente acaricia a madeira parece que está lixá-la, de tão ásperas que são as suas mãos. Quando cumprimenta, dir-se-ia que traz calçadas luvas de ferro, como as que usavam os cavaleiros na Idade Média.

Acariciou a madeira e piscou o olho, dizendo:

— Não se preocupem, ele cantará. Prometi e cumpro sempre as minhas promessas.

— Há-de cantar no fogão — resmungou o avô. — Como todas as árvores que morrem. Fazê-lo cantar assim é fácil.

O avô devia estar a brincar! Mas Vicente deu ares de se zangar.

— Cala-te! — gritou ele. — Tu não percebes nada. Eu cá digo-te que vai cantar melhor do que quando estava vivo, com os pés enterrados e a cabeça ao sol. Melhor do que nos dias em que estava carregado de pássaros e era sacudido pelo vento.

As crianças escutavam aquela linguagem curiosa. Como pareciam duvidar, Vicente agarrou cada uma pelo braço e apertou-as com as suas mãos duras. Apertava muito, quase magoava, mas aquela força dele dava muita segurança. Virou-se para a carroça e continuou a apalpar o grande tronco deitado em cima das tábuas.

Inclinava-se, batia com os nós dos dedos, escutava, levantava-se meneando a cabeça, exactamente como faz o médico quando estamos doentes na cama, com muita febre. Mas Vicente não parecia preocupado. Continuou a auscultar a árvore, repetindo de vez em quando:

— Está boa… está muito boa… Está saudável… Há-de cantar… Hão-de ver que é verdade o que lhes digo. Há-de cantar, melhor do que quando estava carregadinha de pássaros.

No dia seguinte, tinha desaparecido tudo. Na cabana já só restavam alguns ramos e um monte de serradura. As crianças puseram-se à procura e lá acabaram por encontrar o ácer no sótão. Mas, desta vez, ficaram muito decepcionadas. A árvore estava irreconhecível, toda transformada em grandes tábuas. Tinha mesmo o aspecto de uma árvore morta.

— O senhor Vicente estava a brincar connosco — disse Isabel. — Ele nunca vai fazer cantar esta árvore. Só se fosse feiticeiro. E o senhor Vicente não é nenhum feiticeiro.

— Sabes lá?

Isabel olhou para o irmão muito espantada.

— Achas que ele é feiticeiro!? — perguntou.

Gerardo deu-se ares de importante:

— Não seria impossível. Eu sei cá umas coisas… umas coisas.

De facto, gabava-se de que estava mais bem informado do que a irmã, mas o certo é que não sabia mais acerca do tio Vicente do que vocês e eu. Mas a Primavera está cheia de vida e as crianças depressa esqueceram a velha árvore. Antes da seiva começar a subir, o avô tinha ido à floresta e trouxera dois áceres pequenos que plantara à beira do caminho, de cada lado do velho cepo. Agora, aquelas árvores pequenas já tinham folhas e começavam a cantar com o vento que vinha do horizonte distante, empurrando enormes nuvens brancas no céu azul.

Passou a Primavera e depois, um dia, no mês de Julho, o avô tirou o carro de mão da casa da lenha e foi ao sótão buscar as tábuas maiores que tinha feito com o ácer.

— Vamos lá então à oficina do Vicente — disse.

Isabel trepou para a carroça. O avô puxava pelo timão, enquanto Gerardo empurrava atrás. Andaram mais de uma hora até chegarem à aldeia. Uma hora debaixo de um sol escaldante.

Vicente vivia mesmo no fim da aldeia, numa casa cujas janelas viam correr a água do ribeiro. Mal ouviu ranger as rodas de ferro na calçada do pátio, Vicente apareceu à soleira da porta. Levantou os braços num gesto cómico e exclamou.

— Diacho! Aqui estão clientes sérios! Há quanto tempo vos esperava!

Vestia uma camisa clara e um avental de lona azul que lhe chegava aos pés. As mangas arregaçadas deixavam ver os antebraços magros e por isso as mãos pareciam ainda mais gordas.

Ajudou o avô a transportar as tábuas até ao fundo de um grande barracão sombrio onde as crianças não se atreveram a entrar. Lá de dentro vinha um cheiro esquisito, por isso deixaram-se ficar ali de mãos dadas.

Contudo, Vicente mandou-as entrar para um outro compartimento mais claro. O sol, reflectido pela água do ribeiro, dançava no tecto.

— A madeira — dizia ele — é um material nobre.

O reflexo da água do ribeiro brincava por cima das suas cabeças, assemelhando-se a ondas agitadas.

— Dêem-me licença de que acabe o que estava a fazer — disse Vicente.

O avô aprovou e o velhote lançou-se ao trabalho. As suas mãos enormes, que pareciam tão desajeitadas, podiam manipular os objectos mais minúsculos e mais frágeis. Vicente explicou que estava a polir o mecanismo da fechadura de um cofre de segredo. Fazia tudo em madeira, até as fechaduras e as dobradiças.

Para ele, o metal estava ao serviço da madeira.

— A madeira — dizia — é um material nobre. Vivo? Sempre vivo. O metal é bom para fabricar os instrumentos que permitem trabalhar a madeira. Mas a madeira… a madeira…

Quando pronunciava esta palavra, os olhos nem pareciam os mesmos.

Vicente não era um homem como os outros: era um apaixonado pela madeira.

Falava dela como de um ser vivo, como de uma pessoa da sua família com quem vivesse há anos. Com a madeira podia fazer tudo. Caixinhas pequeninas incrustadas de marfim e de embutidos complicados. Pequenas mesinhas, cujos pés eram tão finos que as crianças até sustinham a respiração com receio de as fazer cair.

As paredes da sua oficina estavam guarnecidas de instrumentos colocados em prateleiras ou suspensos em ganchos. Havia plainas de todos os tamanhos e de todas as formas, serras, goivas, tesouras, galopas, caixas com formas, compassos e muitos outros instrumentos cujos nomes as crianças estavam a ouvir pela primeira vez. E depois, havia frascos de cola, garrafas de verniz, bolas de cera e madeira por todo o lado. Madeira de todas as qualidades, de todas as formas e de todas as cores.

Quando Isabel, que era muito curiosa, se dirigia para uma pequena porta e já tinha a mão pousada no puxador, Vicente correu até junto dela:

— Não, não — disse ele — não entres aí… É nesse quarto que está o meu segredo.

Isabel imaginou o quarto do Barba-Azul, mas riu-se. Há muito tempo que não acreditava nessas coisas.

— É o meu segredo — repetiu Vicente. — Hás-de conhecê-lo quando ouvires a tua árvore cantar.

O Verão passou demasiado depressa, com as férias e as maravilhosas correrias pelo campo e pela floresta. As duas árvores plantadas pelo avô cresciam bem. Os pássaros já lá pousavam. No início das aulas, as suas folhas começaram a ficar amarelas e os fortes ventos de Outono levaram-nas para longe. Os dois pequenos áceres pareciam mortos, mas Gerardo e Isabel sabiam que acabavam de adormecer para o Inverno. Por causa dos trabalhos de casa, sempre difíceis, e das lições a estudar, as duas crianças não pensaram mais nos áceres nem na promessa do tio Vicente.

Numa quinta-feira de manhã, uns dias antes do Natal, os pequenos aperceberam-se, ao acordar, de que a neve tinha chegado.

Havia um grande silêncio em volta da casa, e a luz filtrada pelas frinchas das persianas era mais branca do que a das outras manhãs. Levantaram-se muito depressa, apesar do frio.

— Os pássaros! — disse Isabel. — Temos de pensar nos pássaros!

Ia abrir a janela para deitar comida, quando avistou, a cambalear pela vereda branca, o coelho mecânico.

— Vicente, é o tio Vicente!

Era mesmo ele, vestido com a peliça cinzenta e o boné de orelhas, mas trazia debaixo do braço um grande volume, comprido, embrulhado num papel castanho. O velho homem aproximava-se lentamente, acertando com dificuldade no traçado do caminho. Passou pelos dois áceres que mal se viam no meio daquela brancura, o boné dançou por uns momentos acima da sebe e depois desapareceu.

— É ele! — repetiam. — É mesmo ele!

Não sabiam o que trazia o tio Vicente, mas o coração pôs-se-lhes a bater muito depressa. Mal os pés do velho bateram na soleira de pedra, Gerardo correu a abrir a porta.O ar que entrou ao mesmo tempo que Vicente vinha salpicado de flocos brancos. O fogo crepitou mais forte e depois fez-se silêncio. Estavam ali os quatro a olhar para o tio Vicente e para o seu embrulho muito bem atado.

Vicente pousou o embrulho em cima da mesa, tirou os óculos, limpou-os devagarinho, assoou-se, voltou a pôr os óculos e aproximou-se do fogo, a esfregar as mãos, que faziam um ruído como se fossem de lixa.

— Está-se melhor aqui do que lá fora — disse ele.

As crianças estavam impacientes. Uma de cada lado da mesa, miravam o embrulho sem ousarem tocar-lhe. O velho homem parecia que sentia prazer em fazê-las esperar. Observava-as pelo canto do olho e deitava uns sorrisos cúmplices aos avós.

Por fim, virou-se e disse:

— Então, por que esperam para o abrir? Não sou eu que vou desmanchar o embrulho!

Quatro mãozinhas voaram ao mesmo tempo. Eram muitos nós e estavam muito apertados.

— Avó, empresta-nos a tesoura…

— Não — disse Vicente. — É preciso aprender a paciência e a economia. Desfaçam os nós e não estraguem nada, quero recuperar o fio e o papel.

Foi preciso ter paciência, magoar as unhas, aborrecer-se um bocadinho. O tio Vicente ria-se.

Os avós, tão impacientes como as crianças, esperavam, seguindo com os olhos todos os seus gestos. Finalmente o papel foi retirado, e surgiu uma caixa comprida de madeira avermelhada e luzidia. Era mais larga num lado do que no outro. Vicente aproximou-se lentamente e abriu-a.

No interior, numa cama de veludo verde, dormia um violino.

— Aqui está, e tudo isto feito com a vossa árvore — disse o Vicente.

— Meu Deus — repetia a avó, que juntara as mãos em sinal de admiração. — Meu Deus, que lindo que é!

— Ora, uma destas!… com que então!… — gaguejava o avô. — Sabia que eras habilidoso, mas não tanto!

O velho artesão sorria. Passou várias vezes a mão pelo bigode antes de dizer:

— Percebem agora por que é que não queria deixar-vos entrar na estufa? É que veriam lá violinos, guitarras, bandolins e muitos outros instrumentos. E vocês teriam adivinhado tudo. É verdade! Sou luthier. Faço violinos… E o ácer, sabem, é a madeira que melhor canta.

A sua mão avançou lentamente para acariciar o instrumento, depois retirou-a a tremer.

— Então? — disse ele a Gerardo. — Não queres experimentar? Não queres fazer cantar a tua árvore? Anda lá, podes pegar nele. Olha que não morde, fica tranquilo.

O rapaz retirou o violino da caixa e pegou nele como via fazer aos músicos. Pousou o arco em cima das cordas e fez sair uma chiadeira horrorosa. A avó tapou os ouvidos, enquanto o gato, acordado em sobressalto, desaparecia debaixo do guarda-loiça. Todos se riram.

— Está bem! — disse o avô. — Se é a isto que chamas cantar!

— Tem de aprender — disse Vicente pegando no instrumento, que colocou debaixo do queixo.

E o velho luthier de mãos enormes pôs-se a tocar. Tocava e caminhava devagarinho em direcção à janela. Imóveis, as crianças olhavam e escutavam.

Era uma música muito suave, que parecia contar uma história semelhante às velhas lendas vindas do fundo do horizonte.

Vicente tocava, e era mesmo a alma da velha árvore que cantava naquele violino.

Bernard Clavel
L’arbre qui chante
Paris, Pocket Jeunesse, 2002
Tradução e adaptação

O piano velho

O piano velho  

Quando ela vem e se senta, o meu coração começa a bater mais forte.

Os seus dedos, macios de veludo, seguram-me a tampa, encostam-na, com cuidado, à parte de trás. Dois panos do pó que um dia a avó bordou, que me tapam e protegem as teclas, são atirados para cima da escrivaninha, ao meu lado, onde ela costuma sentar-se a estudar e a ler.

É então que sinto as cordas do meu coração quase a estoirar de alegria, pois que é agora que lhe posso dizer tudo o que me vai na alma!!!

Os seus deditos a medo, titubiantes, começam a arrancar os primeiros acordes. E eu a fazer todo o possível para que tudo saia bem e ela não desista e me tape outra vez. Que esforço eu faço!… Mas alguns dos meus dentes brancos já não correspondem totalmente ao acorde que ela pretende. E eu esforço-me…

Ela levanta-se, e eu penso sempre, de cada vez, que se vai embora, que já não quer mais,… mas não! São sobressaltos do vem-que-não-vem, do fica-que-não-fica,… mas a vida é isso mesmo!

Só que desta vez ela não foi. Procurou apenas a partitura de Beethoven.

Que lindo! Toda a minha sensibilidade se motiva e canaliza nesta bonita sonata. Todo eu estou ali, inteiro, a dar o meu melhor; eu e ela numa música só, em uníssono, na produção da música-vida-beleza que Beethoven nos deu.

São os meus melhores momentos…! Em que eu dou conta que sou mais que um simples móvel de quarto…; em que sinto que faço parte da vida presente-futuro dela, pois sou eu que a ajudo a criar, a ser capaz de transmitir a todo o universo o que sente, o que lhe vai na alma e que lhe sai pelas pontas dos dedos.

Quando ela acaba, e me tapa outra vez, já não me importa! Demos a nossa contribuição à vida, por hoje.

O que me entristece e me faz infeliz, isso sim, é o facto de ela deixar o amanhã para depois de amanhã. O de ela, pequenina ainda, não compreender que a vida se vive em cada minuto, que o dia que passa se não recupera mais!

Mas só lho posso dizer através dela e é ela que tem de o compreender sozinha, enquanto eu, fechado, tapado, espero o toque da sua mão.

Gabriela Carvalho
A caixinha de Memórias
Magna Design, 1999
adaptado