A Terra: um ser vivo e consciente que nos convida a refletir

Desde que, país após país, foi sendo decretado que a população deveria ficar em casa para impedir o avanço do coronavírus, não me sai da cabeça a ideia de que a Mãe Terra tem sabido, através de meios naturais, abrandar o nosso ritmo frenético. Um ritmo e um modo de vida que a afetam a ela e aos outros seres vivos do planeta, e que, em última análise, nos afetam e afetarão cada vez mais à medida que as alterações climáticas se tornarem tragicamente irreversíveis.

Temos agora a oportunidade de reconhecer que o modo de vida atual tem sido destrutivo, mesmo em relação a nós próprios: por fim, as restrições e um ritmo bem mais lento estão a permitir que a Terra respire. Os níveis de poluição estão, indiscutivelmente, a diminuir, e a situação poderia manter-se assim se uma grande parte da população continuasse a trabalhar, sempre que possível, a partir de casa.

Uma oportunidade para mudarmos os nossos comportamento e cultura

É como se alguém, inteligente e consciente, estivesse a dar-nos uma nova oportunidade: se agora, em 2020, repensarmos o modo de vida e fizermos algumas alterações aos comportamentos, poderemos ainda estar a tempo de evitar o desastre climático causado por esta civilização. Porém, muitos são ainda aqueles que só pensam em voltar à “normalidade”, a mesma de sempre.

Claro que quando digo que alguém inteligente e consciente está por detrás disto, (e não me refiro a nenhum ser humano, mas sim à Grande Mãe), muitos dirão que vejo o que quero ver. No entanto, acho que é pior ser-se cego e nada ver. Acreditarmos em algo maior do que nós sempre nos ajudou: não se trata de medo mas de consciência. De compreender que a Mãe Terra não existe para a explorarmos incansavelmente, mas para cuidarmos dela e a amarmos, sendo também responsáveis pelo bem-estar de todas as outras criaturas.

A evolução não nos fez mais inteligentes para dominar e poluir, nem para esmagar as outras criaturas da Terra. Pelo contrário, A natureza deu-nos uma capacidade única de amar, de partilhar, de cuidar, de nos enternecermos e sentirmos compaixão pelos outros. E este vírus está a mostrar não só o pior de alguns indivíduos, mas também o melhor de muitas pessoas e de muitos grupos.


Como a Mãe Terra nos inspira

Se falo da Grande Mãe, representada pela Mãe Terra, é porque ela poderá inspirar‑nos. Precisamos de trazer este grande símbolo de volta para equilibrar o mundo com a energia feminina, que as três principais religiões têm desvalorizado. Este desequilíbrio torna-se manifesto quando ouvimos falar de “guerra” contra o coronavírus: até mesmo os profissionais de saúde falam de guerra. E parece que não se conhece outra linguagem heroica que não seja a linguagem militar…

Mas lembremo-nos: os profissionais de saúde não são soldados, são cuidadores. Os empregados de limpeza não são soldados, são cuidadores. Os reabastecedores de supermercados não são soldados, são cuidadores. Os cidadãos não ficaram em casa para combater o vírus, mas para garantir que os mais vulneráveis não sejam infetados. Somos todos cuidadores.

Não se trata de lutar, trata-se de cuidar. Tradicionalmente, a palavra “luta” sugere uma visão masculina do mundo, enquanto o ato de cuidar implica quase sempre uma visão feminina. Mas… só quem luta é que pode ser considerado heroico? Porque não reconhecer no cuidar uma atitude heroica? Como esquecer que o cuidar é cada vez mais essencial? Que, nos nossos dias, é de cuidadores que precisamos e não de soldados?

Criar uma nova economia: a economia do cuidado

Os cuidadores são, com toda a justiça, a chave para renovar completamente uma economia que agora, por causa do confinamento, se teme que abrande e diminua.

Mas a economia depende essencialmente do que valorizamos, e hoje, está provado, o que temos de mais valioso são os cuidadores. Assim sendo, urge criar novos indicadores económicos que os respeitem e tenham em conta.

Escusado será dizer que tal imperativo iria mudar não só a economia, mas toda a sociedade que, em lugar de valorizar o que tira a vida (quanto se gasta em armamento!), deveria valorizar os gestos de cuidado e de cooperação.

Disso depende a nossa sobrevivência.

Marta Mondéjar
(Excertos adaptados)