Feminilidade

O feminismo e a feminilidade não são mutuamente exclusivos e é injusto sugerir que o são. Infelizmente, as mulheres foram ensinadas a ter vergonha e a desculpar-se por interesses que são vistos como tradicionalmente femininos, tais como a moda e a maquilhagem.

Contudo, a nossa sociedade não espera que os homens sintam o mesmo em relação a interesses considerados masculinos, tais como carros desportivos e alguns desportos profissionais. Nem considera que o cuidado que um homem tem com o vestuário seja tão suspeito como o de uma mulher.

Um homem bem vestido nunca se preocupa que, pelo facto de estar bem vestido, sejam feitas certas conjeturas acerca da sua inteligência, capacidades ou integridade.

Por outro lado, uma mulher tem de ter sempre cuidado com o facto de o seu batom poder parecer demasiado berrante ou de a sua indumentária cuidada poder dar a entender que é uma pessoa frívola.

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Somos todos seres sociais e internalizamos ideias através da nossa socialização.

Dizemos às raparigas: “Podes ser ambiciosa, mas não demasiado. Deves desejar ter sucesso, mas não demasiado sucesso, caso contrário podes ser uma ameaça para o homem. Se, numa relação a dois, fores tu quem assegura o sustento da casa, finge que não o fazes, sobretudo em público. De outra forma, estarás a despojar o homem da sua masculinidade.”

Porque sou mulher, é suposto que aspire ao casamento. Espera-se que dê sempre prioridade a esta escolha de vida. Ninguém nega que o casamento pode ser algo de bom, uma fonte de alegria, amor e apoio mútuo. No entanto, porque se ensina as raparigas a ansiarem pelo casamento e não se faz o mesmo com os rapazes?

Isto causa-me indignação e acho que todos devíamos sentir-nos indignados. Aliás, a indignação tem um longo historial como catalisadora de mudanças positivas. Mas também tenho esperança, porque acredito profundamente na capacidade que as pessoas têm de mudar para melhor.

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Dado que os seres humanos viveram durante séculos num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência, era suposto que o líder fosse a pessoa fisicamente mais forte. Nesse contexto, o papel recaía sobre os homens, visto serem, salvo algumas exceções, as pessoas fisicamente mais fortes.

Atualmente, vivemos num mundo muito diferente, no qual a pessoa mais habilitada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte, mas a pessoa mais inteligente, mais informada, mais criativa e inovadora. E as hormonas não estão relacionadas com esses atributos. Tanto o homem como a mulher podem ser igualmente inteligentes, inovadores e criativos. Isto demonstra que evoluímos.

Contudo, as nossas ideias sobre género não acompanharam essa evolução.

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Seja qual for o lugar do mundo onde vivemos, a paridade de género tem sempre importância. Por isso, gostaria que começássemos a sonhar e a planear um mundo melhor. Um mundo mais justo. Um mundo onde haja homens e mulheres mais felizes e mais autênticos. Esse mundo só é possível se educarmos as nossas filhas e os nossos filhos de uma forma diferente.

Chimamanda Ngozi Adichie