Um mundo em desagregação

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I

No crepúsculo do século XX, dizia-se que o mundo passaria a ser marcado por um “confronto entre civilizações” e especialmente entre religiões. Por mais angustiante que seja, essa previsão não foi negada pelos factos. Onde nos enganámos profundamente foi em supor que esse “choque” entre diferentes espaços culturais fortaleceria a coesão no interior de cada um deles. Ora, aconteceu o oposto. O que carateriza hoje a humanidade não é uma tendência para se reagrupar em conjuntos vastos, mas uma propensão à fragmentação, ao fracionamento, frequentemente com violência e acrimónia.

É evidente que isto se aplica ao mundo árabe-muçulmano, que parece ter-se encarregado de ampliar até ao absurdo todos os males da nossa época. Se o ódio continua a aumentar entre ele e o resto do planeta, é no seu interior que ocorrem as piores brechas, como testemunham os inúmeros conflitos sangrentos aí ocorridos nas últimas décadas, do Afeganistão ao Mali, passando por outros países como o Líbano, a Síria, o Iraque, a Líbia, o Iémen, o Sudão, a Nigéria ou a Somália.

Este é, certamente, um caso extremo. Noutras “áreas da civilização”, não se veem os mesmos níveis de desagregação. Mas a tendência para a fragmentação e o tribalismo verifica‑se em todo o mundo. Observamo-la na sociedade norte-americana, o que levou algumas mentes maliciosas a falar em “Estados Desunidos”. Observamo-la na União Europeia, que foi abalada pela deserção da Grã-Bretanha e pelas crises e tensões relacionadas com as migrações. Observamo‑la de forma particularmente aguda em alguns dos maiores e mais antigos países do continente, unificados há séculos, que já possuíram os mais vastos impérios, e hoje têm de fazer face — na Catalunha, na Escócia e em outros lugares — a movimentos independentistas fortes e resolutos. Sem esquecer a antiga União Soviética e outros países anteriormente comunistas da Europa de Leste, que formavam nove Estados aquando da queda do Muro de Berlim, e que hoje ascendem a vinte e nove.

Seguramente, não existe uma explicação simples e única para estes fracionamentos. No entanto, além das especificidades locais, podemos reconhecer pulsões semelhantes, claramente associadas ao “espírito do tempo”. Em particular, parece-me que, no seio de cada uma das nossas sociedades, bem como em toda a humanidade, há cada vez mais fatores que fragmentam e cada vez menos fatores que cimentam. O que agrava ainda mais essa tendência é o facto de o mundo estar hoje cheio de “cimentos falsos”, designadamente a religião, que pretendem reunir os homens quando, na realidade, desempenham o papel inverso.

Como prelúdio à minha reflexão sobre aquilo em que se tornou a solidariedade humana, devo mencionar esta ideia, que exerce uma influência determinante nas mentalidades dos nossos contemporâneos, embora remonte à Inglaterra do século XVIII, segundo a qual cada pessoa devia agir de acordo com os seus próprios interesses, contribuindo o somatório de todos esses egoísmos para o benefício da sociedade no seu conjunto; como se uma “mão invisível” interviesse providencialmente para harmonizar todos os nossos atos — uma operação subtil, complexa e misteriosa que as autoridades públicas seriam incapazes de executar, e fariam melhor em não se imiscuir porque a sua intervenção complicaria as coisas em vez de as facilitar.

Formulada por Adam Smith num livro publicado em 1766, esta ideia tornou-se novamente atual desde o final dos anos 70 do século XX, influenciando de modo significativo as atitudes dos nossos contemporâneos. Podemos ver claramente as suas implicações políticas, e o seu poder de atração, para todos os que desconfiam do papel do Estado enquanto regulador da economia e redistribuidor da riqueza. Não é de admirar, portanto, que os defensores de revoluções conservadoras como as de Thatcher ou Reagan a tenham retomado por conta própria e tenham visto nela a própria base da sua visão do mundo.

Uma abordagem deste tipo pode parecer nebulosa para mentes racionais. Com toda a lógica, a teoria da “mão invisível” deveria ter caído há muito tempo no esquecimento exceto talvez para aqueles que se interessam pela história das ciências económicas ou mesmo pela sua pré-história. Mas não foi o que aconteceu. A intuição de Adam Smith resistiu ao tempo e ao escárnio dos detratores, e o fascínio que ela exerce hoje é muito maior do que há duzentos e cinquenta anos.

Esta longevidade explica-se principalmente pelo fracasso do modelo soviético, que atribuíra grande importância ao caráter “científico” do seu socialismo. Este deveria demonstrar que apenas os poderes públicos estavam em condições de racionalizar os processos de produção e distribuição. Mas demonstrou o contrário, ou seja, que quanto mais centralizada fosse a economia, mais o seu funcionamento se tornava absurdo; quanto mais pretendia gerir os recursos, mais escassez provocava.

Como resultado, foi o “socialismo científico” que caiu no esquecimento da História, enquanto a “mão invisível” regressava honrosamente, mais credível e mais legítima do que nunca, a ponto de ser reivindicada pelos conservadores militantes como o princípio fundador do seu compromisso. Até o caráter misterioso e algo irracional deste conceito se revelou bastante atraente; muitas pessoas perceberam, de facto, uma dimensão espiritual e como que um aval divino do funcionamento do capitalismo face ao dirigismo “ateu”.

*

Os preceitos de Adam Smith contribuem hoje, mais do que no passado, para moldar o nosso mundo. E não apenas no que diz respeito ao papel do Estado na vida económica: a crença numa “mão invisível” tem consequências em muitos outros domínios.

Compreender-se-á facilmente, que aqueles que não confiam no seu próprio governo sejam ainda mais desconfiados relativamente às instâncias internacionais. É a mesma atitude mental que está aqui em ação. Se não queremos que o poder público intervenha na vida económica da nação, não vamos querer, por maioria de razão, que uma autoridade supranacional emita diretivas. Se alguém considerar que há demasiado governo no seu próprio país, é normal que desconfie de tudo o que se assemelhe a um “governo global”, como as Nações Unidas; ou, como no caso da Europa, a um “governo continental” como o que tem sede em Bruxelas.

Da mesma forma, é natural que se desconfie espontaneamente das Cassandras que preveem as catástrofes globais e que, para as enfrentar, exigem solidariedades ativas que transcendem o âmbito nacional. Sem me querer deter aqui sobre o debate climático, parece‑me útil ressaltar que o ceticismo neste domínio, procede de uma atitude mental semelhante. Aqueles que são hostis a qualquer governação global terão tendência a enfatizar os argumentos que põem em causa a realidade do aquecimento global e a responsabilidade das atividades humanas pelas alterações.

Tendo realçado a resiliência e a surpreendente longevidade da doutrina inspirada em Adam Smith, devo acrescentar que a sua capacidade para sair vitoriosa do duelo com o marxismo não significa que constitua uma resposta adequada aos desafios colocados pelo mundo de hoje.

Que o dirigismo socialista tenha sido uma falsa boa ideia não implica necessariamente que a “mão invisível” constitua a solução providencial para todos os males presentes e vindouros. Em matéria ambiental, por exemplo, podemos considerar seriamente que seja suficiente que cada um faça o que considera ser do seu interesse para que o resultado seja positivo para todo o país e para a totalidade do planeta? A resposta é, obviamente, negativa, no entanto, algumas pessoas parecem acreditar nisso, designadamente nos Estados Unidos.

E nas relações entre nações é suficiente que cada uma atue de acordo com os seus próprios interesses, as suas próprias ambições, para que possamos ver toda a humanidade avançar rumo à paz e à prosperidade? Uma vez mais a resposta deveria ser negativa. Mas os cidadãos que desconfiam das ingerências do seu próprio Estado nos seus assuntos são ainda mais desconfiados em relação a tudo o que se assemelhe a uma governação global ou supranacional.

Se insisto nestes factos é porque me parece desconcertante que no nosso mundo globalizado, onde as imagens, os utensílios, as ideias e também as doenças e as febres se propagam à velocidade da luz, a ideologia que prevalece e que estabelece os padrões seja baseada no egoísmo sagrado dos indivíduos e das suas “tribos” — nações, grupos étnicos, comunidades de todas as espécies.

Podemos ver o caminho histórico que conduziu a tais atitudes. Mas não podemos deixar de nos preocupar com a confiança excessiva atribuída à “soma algébrica” dos nossos egoísmos planetários. Há aqui, evidentemente, uma deriva para a irracionalidade, para uma espécie de pensamento mágico, que revela uma profunda desorientação face à complexidade do mundo. Sentindo-nos incapazes de encontrar soluções adequadas, queremos acreditar que elas surgirão por si, como por milagre, e que basta ter fé na “mão invisível” do Céu ou do destino.

Receio que isso não augure nada de tranquilizador para as próximas décadas.

II

Outra caraterística perturbadora da nossa época, e que assenta na mesma visão do mundo, é a legitimação das disparidades, por mais acentuadas que possam ser.

É verdade que poucos continuam ainda a considerar a igualdade efetiva entre todos os seres humanos um objetivo razoável. No entanto, o próprio conceito, embora maltratado manteve-se até agora como referência moral simbólica, e evitava-se, em todo o caso, fazer o elogio das desigualdades. Sabia-se que eram inevitáveis, mas não se pensava em aplaudi-las. E poder-se-ia fazer uma constatação semelhante a propósito do desemprego: há já algum tempo que ninguém acredita no pleno emprego, mas não se viam os mercados bolsistas mundiais/globais saudarem com uma vaga de aquisições as empresas que procediam a despedimentos em massa.

Foi isso que mudou com o novo espírito do tempo. Mesmo na minha pátria adotiva, a França, onde se continua a invocar o princípio da igualdade, o enriquecimento ultrajante é agora encarado com fascínio, não com horror; e se ainda ficamos escandalizados com os rendimentos de alguns dirigentes empresariais, o mesmo não acontece em relação aos jogadores de futebol, aos atores ou às estrelas da música. esta atitude é ainda bem mais pronunciada em países como a Rússia ou a China, onde um igualitarismo de fachada serviu durante muito tempo para encobrir a injustiça e a tirania.

E quando, como frequentemente acontece, os meios de comunicação exibem uma lista das maiores fortunas comparadas com o que o resto da humanidade possui, o assunto não suscita nenhuma explosão de raiva. Já ninguém espera uma revolta dos “condenados da terra” e seria assustador se eles um dia se sublevassem e fizessem tábua rasa do passado, como nos versos de A Internacional. Tal revolta conduziria a um banho de sangue gigantesco e a uma orgia de destruição. Certamente, não é isso que podem desejar aqueles que ainda cultivam um ideal de progresso, de liberdade, de decência ou mesmo de igualdade. Se as disparidades são, hoje em dia, preocupantes não é por poderem causar revoltas à escala planetária, mas porque o desaparecimento da bússola moral que representa o princípio da igualdade contribui — em cada um dos nossos países e em toda a humanidade — para a desintegração do tecido social.

Esta constatação parece evidente para quem acompanha dia após dia a marcha do mundo, mesmo que não seja fácil corroborá-la com argumentos convincentes. Como demonstrar que, num tempo em que o enriquecimento ultrajante fascina a faz sonhar é inevitável que a corrupção se propague entre as classes dirigentes e em toda a sociedade? Que quando o egoísmo dos indivíduos e clãs é justificado, legitimado, ou mesmo considerado como instrumento da Providência, os laços de solidariedade entre os diferentes componentes da população enfraquecem? Que quando os “ricos e famosos”, ainda que desonestos, são apontados como exemplo a seguir, é toda a escala de valores que é desacreditada?

Em “A Cigarra e a Formiga” La Fontaine ilustrara a moral do seu tempo, que parecia ter uma validade universal e perpétua, ou seja, o trabalho meticuloso, aplicado, diário, era um valor seguro, no qual a Cigarra deveria ter-se inspirado, em vez de cantar todo o verão.

Na fábula, a formiga tinha o papel mais simpático. A sua diligência no trabalho, em qualquer estação do ano, granjeava-lhe a aprovação de todos e permitia-lhe escarnecer. “Ai cantaste? Folgo muito com isso”, zomba ela. “Pois bem, dança agora!”

A Cigarra estava, por assim dizer, na mó de baixo. Hoje, acontece o oposto. As formigas são escarnecidas e desprezadas. Os jovens que viram os pais labutar a vida toda, de manhã à noite, sem nunca acederem ao conforto material nem fazerem parte da classe média, muito menos escaparem ao anonimato, sentem por eles mais pena do que estima. Nada os leva a seguir o seu exemplo. Pelo contrário, tudo os incita a demarcarem-se para imitar aqueles que “conseguiram”, os que enriqueceram, ainda que através da extorsão e do tráfico sórdido; ou para ganhar, por qualquer meio, o seu quarto de hora no paraíso da notoriedade. Nunca é demais chamar a atenção para as perturbações que a inversão dos modelos pode provocar no seio de uma população; quando se começa a admirar o que desde há muito era considerado repreensível e a desprezar o que sempre fora considerado exemplar. Serão necessárias longas demonstrações para compreender que um bairro onde os traficantes são mais admirados do que os professores se torna um viveiro de desagregação social? E quando toda a sociedade tem um estado de espírito semelhante, quando as atividades financeiramente lucrativas são mais valorizadas do que aquelas socialmente úteis, as consequências devastadoras são impossíveis de controlar. Todos os comportamentos dos cidadãos são afetados…

*

Como muitos dos que se dedicam à arte ou a literatura, sinto-me tão próximo da formiga como da cigarra, e não julgarei a atividade de uma mais recomendável do que a da outra. O meu maior receio, também aqui, é ver os fatores que fragmentam as sociedades humanas sobreporem-se aos que as cimentam.

Já evoquei antes o paradoxo tão perturbador de um mundo que não cessa de progredir nas ciências, nas inovações tecnológicas e no desenvolvimento económico, mas que, noutros domínios essenciais, incluindo tudo o que se refere às relações entre diferentes comunidades humanas, marca passo e parece mesmo regredir.

Encontramo-nos no cerne deste paradoxo quando analisamos os efeitos produzidos nas últimas décadas pelas doutrinas económicas, sociais e políticas, com base na “mão invisível”. Por um lado, libertaram energia, estimularam o comércio e aceleraram a inovação. Ao mesmo tempo, o seu menosprezo pelo papel regulador das autoridades públicas e a apologia do enriquecimento excessivo minaram a própria ideia de interesse geral e enfraqueceram os laços entre os cidadãos.

Este reverso da medalha parece-me inquestionável e com consequências graves, ainda que difíceis de aferir. Como calcular, num país, a perda de sentido cívico? Como medir o enfraquecimento ou o reforço das relações entre os vários componentes de uma população? Como demonstrar que existe uma relação entre a desconfiança face às autoridades públicas e o aumento do espírito identitário, da violência ou da corrupção? Estamos aqui no domínio do intangível e do não quantificável seria inútil acumular números e fatos.

***

Para além das peripécias e das urgências da atividade quotidiana, para além do alvoroço deste século e das suas discussões ensurdecedoras, existe uma preocupação essencial que deveria nortear constantemente as nossas reflexões e as nossas ações: como convencer os nossos contemporâneos de que, permanecendo prisioneiros das conceções tribais de identidade, de nação ou de religião, e continuando a exaltar o egoísmo sagrado, estão a preparar para os próprios filhos um futuro apocalíptico?

Num mundo em que as diversas populações convivem tão de perto, e em que tantas armas devastadoras se encontram em tantas mãos, não se pode dar livre curso às paixões e à avidez de cada um. Se pensarmos que, por virtude de um qualquer “instinto coletivo de sobrevivência”, os perigos se dissiparão por si, não demonstraremos otimismo e fé no futuro, estaremos em estado de negação, de cegueira e de irresponsabilidade.

Amin Maalouf
O naufrágio das civilizações
Lisboa, Editorial Presença, 2020

 

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