O acendedor de sonhos

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 I

João Grande regressava a casa no final de um dia de trabalho. Estava cansado, mas satisfeito. Naquele dia, conseguira colar todos os cartazes que lhe tinham sido entregues. E foram muitos. Grandes. Pequenos. Imagens divertidas. Longos discursos que nunca mais acabavam.

João Grande gostava dos cartazes com figuras simpáticas. Ficava a olhar para eles, examinava-os nos mais ínfimos pormenores, colocava-os com o máximo cuidado. Pelo contrário, colava sem entusiasmo aqueles em que só havia palavras, palavras, palavras, e mais palavras. E resmungava:

— Só palavreado! Ando a trabalhar para nada!

Mas lá cumpria a sua tarefa com seriedade: tinha orgulho na sua reputação de bom colador de cartazes. Na realidade, o seu nome era João. Mas era tão alto e tão magro que os colegas tinham-no apelidado de João Grande. Até mesmo ele achava que o nome lhe ficava bem e tinha-se habituado àquela alcunha.

Ora, naquela tarde, João Grande regressava a casa. Caminhava apressado. Ia para o seu quarto, para o sossego, para o silêncio. Ao chegar faria uma sopa e, depois, esperavam-no os livros. Comprava-os por bom preço aos vendedores de rua, livros antigos de geografia, bandas desenhadas com imagens atraentes. Engolia a sopa e o queijo, depois metia-se na cama e mergulhava nas suas leituras. Às vezes, o seu olhar deixava a linha que estava a ler. De repente, esquecia o livro e punha-se a inventar uma história extraordinária. Contava-a em voz alta. Ninguém podia ouvi-lo. O apartamento do lado estava desabitado. A última inquilina fora viver para casa dos filhos e ainda ninguém respondera ao anúncio “Aluga-se apartamento”, colocado há quatro meses pela porteira na varanda do edifício.

Já era de esperar. O apartamento não tinha qualquer conforto: não havia água no quarto de banho, apenas uma torneira para o andar todo. E, ainda assim, o aluguer era caro. No fundo, João Grande estava bem contente por estar sozinho no seu canto. Podia contar as suas histórias em voz alta que não incomodava ninguém. Contudo, por vezes, lamentava não haver nenhuma criança por perto para o ouvir e para, juntos, inventarem contos maravilhosos!

João gostava de crianças. Nunca tivera filhos, nem sobrinhos, nem amigos. E essa era a sua grande pena escondida. Era esse desgosto que disfarçava quando cantava em cima da escada, quando ria com os colegas, quando brincava a qualquer hora do dia. Os colegas de trabalho costumavam dizer:

— O João Grande é um grande brincalhão.

Sim… talvez. Mas um brincalhão pode ter uma grande tristeza escondida no fundo do peito. Era nisto que João Grande pensava, enquanto seguia pelo passeio, e foi com estas reflexões que chegou diante do prédio onde morava.

Imediatamente se deu conta de que tinha havido mudanças. Primeiro, já não se via na varanda o anúncio: “Aluga-se apartamento”. Depois, diante do cubículo da porteira, estava uma mala, uma grande mala de verga. E a porteira nunca permitia que alguma coisa fosse deixada, por um instante que fosse, diante da sua porta, nem sequer um pequeno cesto…. A esta hora, a senhora deveria estar no cubículo sentada à mesa, a ler o jornal. João Grande via-a de perfil todas as tardes através do vidro da porta e costumava dizer muito alto:

— Boa tarde, senhora Maria!

E a senhora, que não queria interromper a leitura, respondia muito depressa:

— …tarde… sô João…

Mas hoje, a senhora Maria não estava a ler o jornal, não estava no cubículo. Ouvia-se a sua voz forte lá em cima, no apartamento, mas não se percebia o que estava a dizer. E havia outras vozes que lhe respondiam. João Grande começou a ficar preocupado e subiu rapidamente as escadas. A porta ao lado do seu quarto estava aberta. No apartamento, até então desocupado, reinava uma grande confusão. Uma mala, caixas, um grande saco. João Grande ia a passar rapidamente, porque em geral era muito discreto, mas a senhora Maria interpelou-o:

— Sô João… tem vizinhos novos!

Atrás do grande saco, uma mulher e um homem, ambos ainda jovens, sorriam. E depois, um rapazinho de seis ou sete anos aproximou-se, por cima da mala, um rosto redondo de olhos esbugalhados. João Grande levantou educadamente o boné, balançou-se por um instante em cima das suas longas pernas e depois, não sabendo mais o que dizer, entrou no seu quarto. E começou a preparar a sopa, sempre a matutar na notícia que acabava de receber.

Já tinha deixado de acreditar que iria ter vizinhos. Aos poucos, tinha-se acomodado à sua solidão e sentia-se bem assim. Deveria, por isso, naquela tarde, sentir-se muito aborrecido por ir ser incomodado nos seus pequenos hábitos. Acabavam-se as histórias contadas para as paredes. Dali em diante teria de se calar para não dizerem que era um velho maluco que passava o tempo a fazer barulho! Haveria uma criança a gritar, a chorar, uma mulher a cantar, um homem a rir muito alto.

João Grande enumerou todas estas coisas novas que iriam provocar uma reviravolta na sua vida bem organizada. Mas, para sua surpresa, sentia um certo calor no coração, um calor semelhante a … alegria.

II 

João Grande espalhou cola no último cartaz do dia. Depois, desceu da escada para contemplar a sua obra. Estava um trabalho muito bem feito, sim senhor. Nem uma ruga. Todo esticadinho e bem centrado na parede em frente da sua janela. Estava contente por o patrão ter escolhido aquele lugar. Assim, da janela do quarto, podia ver a grande imagem colorida. O jardim ali representado transbordava de flores de cores variadas. Uma rapariga linda, sentada num cadeirão de verga, parecia olhar para João Grande. Ele sorriu para ela. Deu-lhe um nome. Um nome que soasse bem, a condizer com os seus olhos azuis e cabelos louros. Decidiu que ela iria chamar-se Nina. Gostava menos do cartaz que tinha colado antes. Aquela publicidade a charcutaria enjoava-o, embora o rapaz sentado diante de uma pilha de salsichas tivesse um ar simpático. O certo é que João Grande não o via da sua janela. Os Pereiras, esses sim, viam-no da janela. Isso iria divertir Tomás.

Os Pereiras eram os novos vizinhos de João Grande. Talvez eles não soubessem mas, em pensamento, já os tinha como verdadeiros amigos. Ainda não arranjara coragem para conversar com eles. Limitava-se a cumprimentá-los, a dizer uma palavrinha simpática quando passava:

— Hoje está bom tempo.

Ou então:

— Pois é, as andorinhas já chegaram.

Quanto ao rapazinho, parecia que estava sempre à sua espera no patamar para lhe dizer:

— Boa noite, senhor João!

E, invariavelmente, João Grande respondia:

— Boa noite! Portaste-te bem na escola?

João Grande conhecia mal as crianças. Não estava habituado. Não sabia que nunca se faz essa pergunta a uma criança turbulenta. E o rapazinho, que não tinha vontade alguma de responder a uma pergunta tão palerma, ia a correr para casa a encolher os ombros. João Grande perguntava-se o que é que havia de dizer para entabular conversa com o pequenito. Porque era isso mesmo o que ele queria.

A senhora Maria sabia muitas coisas sobre os novos vizinhos. E João Grande, não por curiosidade mas por simpatia, ficou muito contente quando veio também a sabê-las. O senhor Pereira chamava-se Júlio Pereira, a senhora chamava-se Iolanda, tal como nos contos de fadas de outros tempos. Ficava-lhe mesmo bem! Era linda, elegante, morena, e tinha uma voz meiga. Quanto ao pequeno, chamava-se Tomás. João Grande achava-o lindo como uma estampa, com os caracóis escuros e os olhos muito azuis. Mas, a julgar pelo que ouvia através das paredes, nem sempre se portava bem. Tomás não gostava de puré de ervilhas nem de espinafres. E isso até se ouvia ao longe!

Júlio e Iolanda eram empregados de balcão numa grande loja. De manhã, levavam Tomás à escola; ao meio-dia, Tomás comia na cantina. Depois das aulas, ficava num A.T.L. e, à noite, regressavam todos juntos por volta das oito horas. João Grande ficava à espreita sem se mostrar. Pela janela via chegar aquele trio que ria e conversava no passeio e ouvia depois o ruído dos passos nas escadas. Os comentários daquele diabrete do Tomás ouviam-se ao longe:

— Hoje bati no João Luís. Mas foi ele que começou! — O pai e a mãe ralhavam-lhe. João Grande ria-se.

E era assim que tudo estava organizado na vida do colador de cartazes. Mas, às fases felizes da vida, sucedem-se, por vezes, momentos mais atormentados. E o contrário também. João Grande bem sabia! Também sabia que, em breve, faria sessenta e cinco anos e que essa é a idade da reforma para um colador de cartazes. O patrão não poderia mantê-lo. Outros esperavam que ele saísse para poderem trabalhar.

João Grande compreendia isso. Além do mais, a sua reforma e as suas economias bastavam-lhe para viver, pois tinha poucas necessidades. Só que a ideia de ficar sem fazer nada deixava-o doente. Privado do seu trabalho, privado dos gestos quotidianos que tinham regulado a sua vida durante quarenta e cinco anos, ia tornar-se um inútil. Não servia para nada. Seria um burro velho. Como suportar tal situação?

João Grande dobrou a escada. O patrão dissera-lhe:

— Uma vez que trabalha no quarteirão, peça licença à porteira para guardar a escada na cave.

A senhora Maria tinha concordado.

O colador de cartazes pôs a escada às costas, pegou no pincel e no balde da cola, e foi para casa. De repente, sentiu-se cansado, quase triste. Tinha horror à tristeza. Quando a sentia por perto, tentava sempre afastá-la. Mas, naquela tarde, estava com dificuldade: dentro de um mês, os seus sessenta e cinco anos bateriam à porta. Teria de se conformar. E passar a viver de braços caídos. Arrumou a escada. Subiu os degraus com o balde e o pincel na mão. Uma voz saudou-o, vinda de baixo. Era a voz da senhora Iolanda.

— Sr. João! Espere, por favor. Tenho uma coisa para lhe dizer.

Parou. A senhora Iolanda chegava, ofegante. Tomás, ao lado dela, os olhos a brilhar, os cabelos desgrenhados, com ar muito excitado, foi o primeiro a falar.

— Sr. João, gostas de gelado de morango?

Nem teve tempo de responder. A senhora Iolanda aproveitou a deixa:

— Hoje o Tomás faz seis anos e saiu mais cedo da escola. O Júlio vem ter connosco quando fechar a loja e vamos festejar — e apontou para o cesto das compras. — Vou fazer uma comidinha boa e queríamos convidá-lo.

João Grande ficou ali diante deles, confuso, embaraçado, a olhar para as mãos cheias de cola. Tomás gritou:

— Diz sim, Sr. João, diz sim!

E depois, subitamente, ordenou:

— Vá lá, vai lavar as mãos, que vamos comer.

— Ó Tomás, tu és terrível! — protestou a mãe, já em direção à porta. — Estou com pressa, tenho de preparar a refeição. Até logo, Sr. João. Contamos consigo!

E levou Tomás pela mão, que entretanto gritava:

— E também gostas de salada de tomate?

Sim. Gostava de tudo. Dos vizinhos. Das pessoas. Da vida. De tomate. Rápido, arranjar-se, para não fazer má figura. Depressa, à loja dos brinquedos mais próxima arranjar uma prenda para Tomás. E não esquecer as flores para a mãe. Há quanto tempo é que não comprava flores? Está feliz, atarefado. Sente-se importante.

♦♦♦♦♦

Mas eis que chegaram os sessenta e cinco anos! Hoje fora o seu último dia de trabalho. Oh! Não pode mostrar tristeza! O velho João finge-se forte. Os colegas quiseram oferecer‑lhe uma prenda de despedida. E ele, fiel à sua reputação de solteirão alegre, improvisara um discurso. Naquela noite, enquanto subia as escadas, teve de fazer um esforço para afastar aquela mágoa que queria instalar-se dentro dele. Sentia o coração pesado. Dali a instantes começava a festa na cidade. João Grande tinha visto os enfeites. Barracas no meio da praça. Nos passeios, diante das lojas, estavam montados os escaparates para a exposição dos produtos.

Naquela noite, João Grande não iria à festa. Não tinha vontade. A festa é boa quando se tem uma família que nos acompanha, uma mulher ao nosso lado, crianças que gritam, maravilhadas, em frente ao carrossel. O que é que ele iria fazer à festa? Ele, um velho que, dali em diante, não iria servir para nada! Posto de lado como um objeto que já não serve! Foi para o quarto. Nem sequer tinha vontade de fazer a comida, nem de abrir a janela para ver o céu de Verão, que começava a escurecer, por cima dos telhados. Sentou-se na cama e pôs-se a contemplar os dedos calejados.

— Que sabem vocês fazer, além de colar cartazes? — disse-lhes. — Não sabem desenhar, não gostam de jogar à bola nem de jogar cartas…

Tentou imaginar dias e dias de ócio. Mas não foi capaz. Bateram à porta. Levantou-se e abriu. O senhor Júlio estava de pé, à sua frente, com ar comprometido.

— Venho pedir-lhe um grande favor… A nossa loja vai vender na rua durante a romaria. A venda prolonga-se pela noite dentro… Os vendedores ficam à vez… A minha mulher e eu vamos assegurar o serviço nesta primeira noite… até à meia-noite…

Calou-se por uns momentos. Olhou para João Grande que tentava adivinhar o que queriam da sua pessoa. E, bruscamente, lançou muito depressa:

— Não podemos deixar o Tomás sozinho. Pode ficar com ele? Ele vai adormecer… Tenho a certeza… Mas compreende…, não temos ninguém a quem o confiar… Nem parentes…, nem amigos… A própria senhora Maria também vai à festa…

Poisou os olhos inquietos em João Grande e repetiu:

— Compreende…

Oh! Se João Grande não compreendia! Teria pulado de contente se, de repente, não se tivesse compenetrado da dignidade da tarefa. Tomar conta de uma criança! Ele! O velhote reformado! A senhora Iolanda apareceu então com Tomás…E João Grande aceitou com entusiasmo! A jovem explicou que ia dar de comer a Tomás, o metia na cama, e que ela e o marido sairiam imediatamente.

Tomás gritava, desenfreado:

— Não te preocupes, Sr. João! Podes tomar conta de mim! Eu vou portar-me bem! Vou dormir! Podes ter a certeza.

João Grande não tinha certeza nenhuma. Foi à pressa fazer a comida. E disse para os seus botões que, naquela noite, a vida lhe tinha reservado uma boa surpresa! 

III

O senhor Júlio e a esposa foram embora. Tomás tem o pijama vestido, um pijama vermelho com pintainhos bordados nos bolsos do casaco. Mas dormir, nem pensar! Aos pulos em cima da cama, de um lado para o outro, faz as honras do quarto a João Grande. Exibe todos os seus brinquedos, faz perguntas, para de olhos arregalados e volta a pinchar de novo pelos quatro cantos do quarto. Mais parece uma bola de borracha!

“É preciso acalmá-lo”, pensa João Grande, que começa a ficar preocupado.

— Vamos jogar ao loto — propõe.

— Está bem! — grita o petiz.

Jogam durante uns instantes. João Grande não tem sorte e lamentavelmente perde. Tomás, então, para de jogar.

— Não. É muito triste ser sempre eu a ganhar. Vamos jogar dominó, mas vê lá se desta vez te portas melhor!

Céus! Ao dominó, não é melhor. Acabam por abandonar o jogo mas João Grande já está um pouco mais calmo. De repente, o miúdo fica com um ar preocupado. Põe-se a examinar o velho amigo e decide fazer uma pergunta que parece preocupá-lo:

— Gostas que eu te trate por senhor João?

— Não — responde o outro. — Para ser franco, não.

— Então como queres que te chame?

— As pessoas chamam-me João Grande. João Grande!

Para Tomás, é um delírio. Salta, grita.

— João Grande é o nome mais lindo do mundo. Tu és meu amigo, João Grande! Vou dizer ao João Luís, à professora, à turma toda!

Ó céus! Esta criança já devia estar a dormir! Como é que se faz para adormecer uma criança? É preciso cantar? João Grande tem uma voz horrível, uma voz rouca. Canta desafinado. Ainda por cima não conhece canções para crianças, à excepção de Todos os patinhos. Ainda tentou, mas o riso de Tomás fê-lo parar mal abriu a boca.

— Cantas tão mal! E eu não gosto dessa canção! Não sabes uma mais moderna?

Não. Não conhece. E começa a ficar angustiado. O que vão pensar o senhor Júlio e a senhora Iolanda? A janela está aberta. Será que deve fechá-la? Não irá a criança constipar-se? Ouvem-se ao longe os rumores da festa, o ruído de foguetes a rebentar. Tomás, que adivinhou o movimento do amigo em direcção à janela, grita de sobrolho franzido.

— Não, não feches. Está calor.

E, de repente, o seu rosto descontrai-se. Vem para junto de João Grande, puxa-o para a varanda, encosta a cabeça ao velhote e murmura:

— Ouves a música?

Sim. Chegam até eles os acordes da música à mistura com o ruído das buzinadelas dos carros. João Grande afaga a cabeça do menino. Uma cabeça redonda e morna cuja franja de cabelos é macia como seda.

— Queres que te conte uma história? — pergunta-lhe, carinhosamente.

Tomás estremece todo e grita:

— Isso! Uma história! Uma história! Uma história!

Por momentos, João Grande sente-se um pouco perdido. É a primeira vez que tem alguém que o ouve. Mas, pouco a pouco, as histórias que há tanto tempo inventa, veem-lhe à cabeça. E sentado na varanda, a cabeça do menino apoiada no seu ombro, começa….

Aos ouvidos da criança, as aventuras sucedem-se. João Grande condu-lo ao país dos pequenos homens cinzentos vencedores dos grandes gigantes. Explica-lhe as desventuras de Tachi que queria muito ser feiticeiro, mas, que, como não percebia nada do assunto, confundia as fórmulas mágicas. E depois a história de Chandarli, o anão astucioso, que foi rei do País-dos-chocolates-gelados. E ainda outra história. E outra… e outra.

João Grande repara no rosto do menino. Será que está a dormir? Não totalmente, mas pouco falta. As pálpebras estão a tremelicar, chupa no dedo. O velhote cala-se. Faz-se um momento de silêncio. E, de repente, Tomas dá um grito e salta:

— Enganei-te! Julgaste que eu estava a dormir!

E ri às gargalhadas, feliz por ter pregado uma partida ao amigo. Os olhos sorriem de malícia. Céus! Não há meio de o fazer adormecer! É preciso zangar-se? Tem de ser duro?… Exigir?… Impor?… João Grande sente-se cada vez mais desamparado. De repente, o rosto de Tomás toma um ar sério. Aproxima-se de João Grande. Uma expressão angélica surge de novo nos seus olhos azuis. E o velhote fica maravilhado ao ver com que rapidez um rosto de criança pode mudar, passar da malícia à ternura, da alegria ao ar sisudo. Parece-lhe que, naquela noite extraordinária, aprendera mais do que em toda a sua vida!

A mãozinha que pega na grande mão calejada de João Grande é uma mão confiante, gentil e protetora ao mesmo tempo.

— Ouve, João Grande, não te preocupes! Quando os meus pais chegarem, eu vou fingir que já estou a dormir há muito tempo e não lhes vou dizer que nos divertimos muito os dois. Prometo!

João Grande fica em sobressalto. Até acreditou na sensatez súbita da criança. É incrível. Agora é cúmplice de uma mentira. Esta criança ainda vai deixá-lo maluco! O pobre colador de cartazes senta-se diante da varanda. Não tem mais ideias. Nem esperança. Acabou, o senhor Júlio e a esposa nunca mais irão confiar nele! Tomás aproximou-se do amigo. Puxa um banco para junto da cadeira de João Grande e apoia a cabeça no seu braço. A voz é meiga. O que irá ele ainda inventar?

— João Grande, e se me contasses uma história de amor?

João Grande olha para ele, espantado. De amor! O que é que ele sabe do assunto, ele que sempre viveu só, metido no seu buraco, entre sopa, queijo, cartazes e livros?

— Sim — insiste Tomás com ar gentil — até agora só me contaste histórias de lutas. Já estou farto disso. Agora gostava de uma história de amor a sério!

Os olhos fixam-se no velho amigo, cheios de doçura e de seriedade. Mas, por detrás daquela doçura esconde-se uma pequenina chama, mistura de teimosia e de malícia, que preocupa João Grande. É preciso obedecer. Sem falta! Os seus olhos dão de frente com o grande cartaz que colara, três semanas antes, em frente da varanda. O pequeno também fixa os olhos nele e pergunta com ternura:

— Sabes o nome dela?

— Nina — responde maquinalmente.

— E o outro, além, no cartaz em frente, sabes como se chama?

— Tó — responde ainda João Grande.

— É linda a senhora — acrescenta o miúdo com ar grave. — Sabes porque é que ela está triste?

Sim. João Grande sabe-o bem. Acaba de o saber naquele preciso instante. Acaba de compreender a história de Nina e de Tó. Nina, no seu jardim florido, cabelos loiros e olhos meigos. Tó, em frente dela, do outro lado da rua, diante de um monte de salsichas. Nina e Tó, habitantes da noite, e é a sua história que Tomás e João Grande vão contar um ao outro nessa noite. E que bela aventura!

IV

— A Nina não gosta do dia — começa João Grande. — Nos dias de sol, o calor queima‑lhe o rosto. Nos dias de chuva, a água desenha sulcos negros na face, nos braços despidos, no vestido de musselina.

— E de dia — intervém Tomás — vê-se tudo. Tó, ali em frente, do outro lado da rua, é testemunha dessa sujidade toda. E Nina é infeliz.

— Sim — aprova o velhote. — É por isso que a Nina só gosta da noite. De qualquer noite. Qualquer que seja a noite: a noite azul de luar, a noite de chuva, prateada de nevoeiro ou salpicada de neve. O candeeiro da rua faz brilhar os seus cabelos loiros, o vestido de musselina fica rosado, as flores do jardim parecem ganhar vida. Do outro lado, o Tó sorri. O seu olhar terno está pousado na Nina. E a Nina pergunta-se o que estará ele a pensar, certa de que nunca virá a sabê-lo.

— Eu sei! — exclama Tomás. — E vou dizer-to: o Tó também não gosta do dia. Seja que dia for, de sol ou de chuva. Porque o dia ilumina aquelas salsichas todas, os patés, os chouriços. É de mais. Até fico enjoado de ver aquilo tudo. Diante daquele monte de comida, Tó também tem vergonha de ser um comilão.

— E de noite… — murmura João Grande

— De noite — atalha Tomás impetuosamente — a luz da rua só ilumina o lado esquerdo do Tó.

A criança debruça-se. Puxa por João Grande.

— Olha, à sombra, aquela paparoca toda já não se vê!

Bem, a linguagem de Tomás não é lá muito académica, mas João Grande é da mesma opinião.

— Tens razão. De noite, Tó contempla os cabelos loiros de Nina e o vestido cor-de-rosa. Sabe que nesse momento também ela pode vê-lo sem pensar que ele é um glutão tremendo.

— Sabes — diz Tomás — eu bem vi ontem, ainda está uma grande garrafa de vinho na mesa do Tó.

— E a Nina, sabes o que ela bebe?

— Claro! Eu sei ler. Está escrito no cartaz. “A água não presta, beba Cocali bem fresca.”

— Leste isso tudo? — admira-se o colador de cartazes.

— O meu pai ajudou-me um bocadinho — confessa o pequeno.

— Bom. Vamos lá voltar à nossa história — diz João Grande. —O Tó gostaria de dizer a Nina que ela é bonita, que aceita viver toda a vida a beber Cocali fresca para a fazer feliz. Mas sabe que isso nunca vai acontecer.

— Porquê? — murmura o menino com ar triste. —O Tó não poderia sair da cadeira, descolar-se do papel, atravessar a rua, e deixar de ser o homem da charcutaria Queirós?

— Também leste isso? — pergunta João Grande.

— A minha mãe ajudou-me. “Charcutaria Queirós, charcutaria de todos nós.”

— E Nina lá terá de continuar a beber Cocali toda a vida, sem nunca falar ao Tó!

— Oh! Isso assim é muito triste! — lamenta-se Tomás, de lágrimas nos olhos.

João Grande está muito comovido com a emoção do pequeno. Sente-se mal com as suas histórias de fazer chorar meninos. Já nem pensa quando diz:

— Mas a situação pode compor-se.

— A sério? — grita Tomás, agora bem acordado. — Conta, João Grande!

O homem enche os pulmões de ar. Procura inspiração. E, num impulso:

— Então, chega o Zorro!

Segue-se um grande silêncio. Tomás olha para o velho amigo com um olhar reprovador. Abana a cabeça e articula com energia:

— Não. O Zorro, não. Nada de Zorro. Quem chegou foi o João Grande. És tu que vais compor tudo, estás a ouvir?

Sim, João Grande entende.

Gagueja, resmunga uns protestos, mas a porta abre-se.

Os pais do rapaz estão ali.

— Desculpe — diz a senhora — já é um pouco tarde. — O Tomás portou-se bem?

Perante os agradecimentos que lhe dirigem, João Grande levanta-se. Tomás lembra-lhe em tom bem alto:

— Não te esqueças que me prometeste arranjar a história!

Ele não prometeu nada! Aquele miúdo é terrível. Quando julga que já está satisfeito, faz novas exigências. Bem, mas amanhã terá de encontrar uma resposta, sem perder a dignidade. E, sobretudo, sem perder a confiança daqueles olhos azuis postos nele.

João Grande está no seu quarto. Não tem sono. Os rumores da cidade em festa já se calaram. Da janela aberta vê a rua, calma, o candeeiro a iluminar os dois cartazes. Mas, que ideia a dele de contar aquela história! Tomás não o tomou por um velho que já não serve para nada! Julga-o capaz de substituir Zorro, o herói invencível da televisão e da banda desenhada! Vendo bem, é um elogio. Um sorriso desenha-se ao canto da boca do velhote. Mas… como há-de sair de uma tal missão? Como encontrar, sem dececionar a criança, um desenlace para a história?

E, de repente, a solução brota, clara, nítida, no espírito do colador de cartazes. Vai ser ele o herói que salva os infelizes. Vai ser ele o benfeitor de Nina e de Tó. Será mais forte do que o Zorro. Será o João Grande! Então, abre a porta do quarto e desce devagarinho sem fazer ranger os degraus. A senhora Maria tem o ouvido apurado. Empurra a porta da cave. A sua escada grande lá está. Tem de a devolver amanhã ao antigo patrão. Numa caixa ao fundo arrumou os pincéis, as esponjas, o balde da cola. Sem fazer barulho, abre a porta da rua, tira a escada e o balde da cola.

Ergue a escada ao longo do cartaz que exibe a charcutaria Queirós. Vai à cave encher um balde de água, regressa, sobe pela escada e entra em acção. Uma espécie de frenesi apodera-se dele. Passa a água, raspa, descola. Puxa da faca e corta o grande cartaz afixado ali à sua frente. Tem de ser rápido. Dentro de algumas horas será madrugada. Que cara a dele, se alguém o surpreendesse em cima da escada a desfazer o seu próprio trabalho! O papel desliza. Não pode ser rasgado: primeiro a cabeça, depois os ombros. O corpo inteiro de Tó separa-se aos poucos do fundo da charcutaria exposta à sua frente. E não se pode esquecer da cadeira.

Agora tem de descer da escada. Mas cuidado, não pode estragar a silhueta do rapaz que balança na ponta do seu braço. Puxa a escada e coloca-a diante do cartaz onde Nina parece esperar, sorridente. O balde de cola, o pincel, a esponja, está tudo ali. A escada treme um pouco. João Grande tem de conseguir. Tomás acredita nele. Não pode dececioná-lo!

V

Tomás debruça-se na janela. Agarra a mão de João Grande. Não fala. Arregala os olhos extasiados. Já decorreram dois dias desde a famosa noite de Nina e Tó. Mas, logo no dia seguinte àquela noite memorável, João Grande recebia a recompensa da sua façanha! Mal chegou da escola, Tomás precipitou-se para o quarto do amigo a cantar com toda a garra:

— Chegou o João Grande! Que arranjou tudo! O João Grande é meu amigo!

Que linda canção! Para ele! O velhote corava, gaguejava. E a senhora Iolanda que vinha atrás do filho, tentou perceber:

— Mas… Tomás… O que é que estás para aí a dizer? E não grites dessa maneira, a senhora Maria vai ralhar-te. Porque é que estás a cantar para o Senhor João? O que é que ele fez?

João Grande fica calado, confuso. Tomás faz um ar de mistério.

— É um segredo só entre nós!

Parada diante da porta, a senhora Iolanda sorri.

— Ah! Está bem, já percebi. Não devo meter o nariz. Vou preparar o jantar. Não aborreças o senhor João. E não te esqueças que hoje tens de ir cedo para a cama.

O menino sentou-se, sonhador, diante da janela, o sobrolho franzido debaixo dos caracóis. E olha para Nina. Sem falar. Entretanto, o velho colador de cartazes prepara algo para comer. Tomás levanta-se por fim:

— Vou indo, João Grande. Não quero que a minha mãe se aborreça. Amanhã, quarta-feira, não há aulas e eu venho para casa mais cedo. Poderás então contar-me a história da Nina e do Tó.

E lá foi embora. Sem saltitar uma única vez… Sem bater com a porta. Com as passadas de um pequeno homem absorvido nos seus pensamentos profundos…

Hoje, ei-los aos dois : o velhote e a criança.

São cinco horas.

O dia já declina, neste fim de tarde outonal. E, à luz ténue do crepúsculo, no grande cartaz da rua, Nina inclina-se para Tó. E este, em frente, do outro lado, olha para ela. Deve pensar que é bem bonita… Vê-se bem: sentem-se felizes! Tomás murmura :

— Conta, João Grande ! Conta-me o que se passou…

E João Grande  conta :

— Lembras-te de que a Nina tinha um ar triste ? Queria dizer ao Tó tantas coisas! Confessar-lhe que queria que fossem amigos…Dizer-lhe que…

— E o Tó? — interrompe Tomás. — Lembras-te de como ele tinha um ar infeliz? Queria dizer tantas coisas à Nina… Dizer-lhe que queria que ela fosse sua amiga. Dizer-lhe que…

— Sim — continua João Grande. — Dizer-lhe que se aborrecia, sozinho, diante do monte de enchidos. Então, na outra noite, subi à escada… E aproximei-me da Nina.

— E ela falou contigo?

— Pareceu fazer um esforço. Um esforço enorme. Senti que o cartaz tremia.

— Isso é mesmo verdade?

— É verdade. Eu disse-lhe: “Como se chama?”

— Não era fácil para ela falar, pois não, João Grande?

— Não. Não é fácil quando se passou a vida calada, pintada num cartaz. Mas eu consegui ouvir: Nina…

— Já tinhas adivinhado o nome.

— Sim. E de repente ela olhou para o cartaz de charcutaria e disse: Tó…

— Tínhamos adivinhado! — exclamou Tomás, de olhos a brilhar.

— Sim. Então mudei a escada e fui para junto do Tó. Senti outra vez claramente o cartaz a tremer. Parecia que tudo se ia virar. E de repente, vi o Tó levantar-se, separar-se…

— Sozinho?

— Hum… Sim… Acho que sim… Bem… Peguei na cadeira e levei-o para o jardim de Nina… Então, o rapaz virou-se para mim e disse baixinho “Obrigado”.

— Tu és fantástico, João Grande!

— Pois.

Mas Tomás continua:

— E neste momento, João Grande, o que é que eles estão a dizer?

— O Tó diz que se sente muito bem no jardim.

— Que nunca mais vai comer aqueles quilos de salsichas grandes.

— Claro! E que no jardim da Nina se está muito bem…

— E que a Nina é bonita… E que são amigos para sempre. E a Nina, o que é que ela diz?

— Diz que está feliz…

— E achas que vai continuar a beber Cocali… Olha lá, João Grande… o que é que tens? Porque é que estás a arregalar tanto os olhos e a abrir a boca dessa maneira?

João Grande aponta para o cartaz. E pergunta numa voz abafada:

— Tomás… Consegues ler o que está escrito no cartaz?

— Com certeza — afirma o pequeno com um encolher de ombros.

E recita de cor, com toda a segurança, fingindo ler:

— A água é insípida, beba Cocali fresca.

— Não — atalha com severidade o amigo. — Tu não estás a ler, estás a dizer de cor. E eu enganei-me ao colar as palavras. O que lá está agora é: “ A Cocali é insípida, beba água fresca.”

— Bravo! — exclama Tomás com uma bela gargalhada. — E a Nina nunca mais vai beber Cocali. És o maior, João Grande!

O velho homem não está lá muito seguro disso. Até é assaltado por uma pequena apreensão. Estragou dois cartazes. Ele, que passou a vida a tratar dos que lhe eram confiados… E se descobrissem? Seria punido, certamente. Mas não importa! Dentro de quinze dias outros cartazes substituirão estes. Dentro de quinze dias terá encontrado outra história para contar a Tomás, ainda mais linda. Este murmura:

— Já vês que sabes histórias de amor! E são tão lindas as histórias de amor!

— Sim, são lindas! — confirma João Grande com convicção.

Ambos contemplam o rosto corado de Nina. O vestido vaporoso fica dourado sob a luz do candeeiro que acaba de acender. Tó, em frente, está sereno no meio das flores ternas do jardim.

— Sim, é linda, uma história de amor!

Entretanto, um sobressalto aperta o coração de João Grande. Quando o grande cartaz tiver desaparecido, quando for substituído por outro, vai ter a impressão de ter perdido dois amigos. Quando Tomás já lá não estiver, o velho ficará de novo só no seu quarto. Às voltas. À procura de alguém com quem falar. E Nina e Tó já não sorrirão para ele. Já não lhe darão coragem com o seu olhar, do outro lado da rua.

Sacode os ombros. Considera-se um velho pateta que não sabe o que quer.

Tomás vai-se embora, pois a mãe chamou-o.

São horas de fechar a janela.

VI

Tomás está na varanda. Elegante. A sapatear. A saltar. A virar a cabeça para a direita, para a esquerda. A examinar a rua, lá em baixo. Espreita em todos os sentidos. Empurra um vaso de flores. Um ramo da planta cai ao chão. A mãe suspira:

— Realmente, nunca mais vou conseguir ter gerânios na varanda!

Tomás sente alguns remorsos. Durante cinco minutos. Depois, volta a ficar agitado. Porque é que o João Grande está a demorar-se tanto? E logo numa tarde destas! Em que todas as novidades a anunciar ao mesmo tempo se atropelam no espírito de Tomás! Primeiro, a partida de Nina e de Tó. Sim, eles foram-se embora. De noite, sem dúvida. Ainda bem que João Grande o tinha avisado.

— Sabes, eles não podem ficar toda a vida ali. Um dia, ao acordares ou ao regressares da escola, já não os encontrarás. Terão ido para outro país.

— Onde há um jardim ainda mais lindo?

— Sim. E hão-de passear no meio dos passarinhos.

— Castores…veados… E vão andar, caminhar, conversar…

E pronto. Aconteceu. Ontem estava escuro, sem dúvida. Tomás não viu nada.

Esta manhã, estava meio a dormir quando os pais o levaram para a escola. E só esta tarde é que deu conta das mudanças na rua. Nina e Tó já não estão no cartaz, mas foi posto outro naquele sítio. Um grande cartaz com um carrão azul espectacular. Uma senhora e um homem estão no automóvel. Vão partir. Para onde? Alguns nomes de países bailam na cabeça de Tomás. Nomes que ouviu. De que mal se lembra. Surgem diante do carro numa paisagem de palmeiras que o acompanha. Itália. Noruega. Não. A Noruega parece que não fica para o lado das palmeiras. Tem de se informar melhor.

João Grande está a chegar. Vai com certeza arranjar uma linda história para o novo cartaz. Vão consolar-se mutuamente pela partida de Nina e de Tó. Lá no fundo do coração, Tomás tem pena que os amigos tenham partido. Ele e João Grande passaram uns serões maravilhosos a contemplá-los, a descobrir mais um pormenor ou outro… A criar mil e uma aventuras….E há outra novidade. A que lhes vai fazer esquecer a sua dor e que vai trazer a João Grande muita felicidade e a Tomás muito orgulho.

— Mãe, sou eu que vou dizer tudo ao João Grande, está bem?

A senhora Iolanda pára de deslizar o ferro sobre a camisa esticada à sua frente. Ergue a cabeça. Pensa por uns momentos.

— Se quiseres… Mas eu esclareço os pormenores para ele perceber melhor.

De repente, os olhos de Tomás arregalam-se ao ver o cartaz que o substituto de João Grande deve ter colado naquela manhã no lugar ocupado por Nina e por Tó. Mas estará ele a sonhar? A senhora loira instalada no carro parece-se com Nina! E o rapaz ao lado não se parece com Tó? Se fosse verdade, a maravilhosa história de amor continuaria. Oh! Podemos confiar em João Grande. Ele há de saber o que se passou. Há de conhecer todas as aventuras vividas por Nina e Tó para chegarem a este belo carro. Belas histórias em perspetiva!

— Aí está! Desta vez foi o vaso inteiro do gerânio que caiu ao chão.

A voz da senhora Iolanda fez-se ouvir, exaltada. Aflito, Tomás apressa-se a apanhar os ramos partidos. Tenta desajeitadamente voltar a plantá-los no vaso. Mas o seu espírito voa para bem longe das folhas e das pétalas martirizadas.

Naquele entretanto, João Grande volta para casa a passo lento.

O dia foi longo.

Tomás foi para a escola e só deve regressar à noite. Nina e Tó foram-se embora. E a solidão hoje pesou um pouco mais sobre ele. Viu o colega, o novo colador de cartazes, chegar à rua com a escada e os baldes. João Grande conhece o trabalho que se segue. Lavar. Raspar. Arrancar. E não precisa de muita imaginação para ver Tó arrancado da cadeira, o vestido de Nina desfeito em farrapos, as flores do jardim transformadas em restos sujos e molhados, a enlamear o passeio….

João Grande não quis assistir. Saiu. Para longe do quarteirão calmo. Caminhou pelas ruas barulhentas. Sempre em busca, na sua cabeça, de uma bela história para consolar Tomás. Porque este vai ter um grande desgosto, de certeza. Se João Grande se sente assim tão triste pela destruição do cartaz que tanta alegria lhes proporcionou, é por causa da criança, naturalmente. O bom homem avalia por um instante a sua própria tristeza. Sacode os ombros. Sacode-se com severidade. Pode-se estar assim tão emocionado só porque um cartaz foi substituído por outro? É verdade que ele gosta de contar histórias. Mas se se identifica com elas como uma criança, é porque está a ficar um pouco senil!

João Grande passa diante das montras iluminadas. Atravessa ruas movimentadas. Pouco a pouco, aproxima-se do quarteirão onde mora. Apressa o passo. Tomás deve estar agora a chegar. Para o velhote é este o melhor momento do dia. A criança tem de se deitar cedo e, como tal, a senhora Iolanda só permite uma visita de vinte minutos ao seu “velho amigo”, como ele diz. E durante esses vinte minutos, João Grande sente de novo que é útil. Indispensável até! E é tão maravilhoso! Isso fá-lo esquecer momentaneamente a sua desocupação do dia, aquelas longas horas em que tem a sensação de não passar de um preguiçoso a arrastar solidão e tédio.

Gostaria de ter um trabalho, por pequeno que fosse. Ainda que não ganhasse nada. Que lhe mostrasse que não é obrigado a afastar-se de um momento para o outro de toda a atividade. Mas é tolice, sabe-o bem. Há pessoas que se habituam sem problemas a não fazer nada. Gostam da pesca, de fazer pequenos trabalhos em casa. Bem, mas ele é como é. Trabalha desde os quinze anos. Não pode mudar aos sessenta e cinco!

Chega ao seu prédio. Sobe as escadas, esperando ouvir os gritos de Tomás que deve estar à espreita. Mas Tomás, absorvido pelos trabalhos de jardineiro e por mil pensamentos, não ouve os passos do amigo no corredor. O ruído da chave na fechadura fá-lo saltar. Corre para o patamar. A sua voz explode em fanfarra:

— João Grande, a Nina e o Tó voltaram! Acho eu! Tenho quase a certeza. Vais ver. E tu vais contar para muitos amigos e amigas… porque a loja, não é longe, e vais ter uma cadeira para te sentares… e depois o diretor vai dar-te….

João Grande tenta compreender. Gostaria de pedir explicações. Mas a senhora Iolanda também esclarece:

— Sim… Entre, senhor João Grande, sente-se um bocadinho. O Tomás mistura tudo. Vou pô-lo ao corrente.

Entra. A cozinha cheira bem, a carne guisada e a roupa lavada. Oferecem-lhe uma cadeira. Senta-se, intrigado. Tomás e a mãe tomam um ar misterioso que começa a preocupá-lo.

— Ora bem — começa Tomás. — Vou contar tudo: na loja há amiguinhos…

A senhora Iolanda intervém com calma:

— Tomás, o senhor João não consegue perceber nada.

Agora, Tomás e os pais falam, cada um na sua vez. O Sr. Júlio explica as condições de trabalho propostas a João Grande. A senhora Iolanda descreve o lindo recanto onde João Grande vai, doravante, contar as suas histórias. Tomás fala dos colegas que vão ficar tão felizes ao escutarem o seu amigo!

João Grande guarda silêncio. Saboreia aquela alegria maravilhosa que lhe dá vontade de rir como uma criança! Aquele orgulho que lhe dá conforto e aquece, todas as vezes que repete dentro de si: “Avô…, serei avô de todas aquelas crianças… Vou ter muito que fazer”.

— Vamos todos jantar! — decide o senhor Júlio.

João Grande, embora confuso, não tem força para protestar.

Tomás puxa-o para a varanda.

— Anda ver! A Nina e o Tó regressaram!

— Sem dúvida! — constata João Grande. — Vou contar-te como foi.

E a bela história continua…

Luce Fillol 
L’allumeur de rêves
Paris, Editions de l’Amitié, 1980 

(Tradução e adaptação)

O acendedor de sonhos  Luce Fillol: descarregar pdf