Da devastação

fogo m

primeiro
negociaram o fim da agricultura
de subsistência; e os pequenos
agricultores como já não precisavam
do estrume
para adubar os campos (com as leiras
abandonadas ou em pousio)
venderam o gado
e o tojo que ano após ano era cortado
para a cama dos animais
começou a crescer abundantemente
nos matos e ao redor das casas;

entrementes
acabaram com os guardas florestais;
e aposentaram os cantoneiros
que limpavam as bermas das estradas,
para evitar os fogos;

depois
começou a florescer
uma casta de altos defensores
do eucalipto
do petróleo verde
e do pinheiro bravo
da fileira de grandes áreas
de monocultura
amante do papel

de muito papel
e de tudo o que suba
a cotação na bolsa de valores;

e a floresta
à mercê do abandono de uns
e da ganância de outros
alastrou desordenadamente;

e como as trovoadas secas
e as mãos criminosas não se extinguem
por decreto

e os fogos se tornaram
uma constante nos meses de verão
montou-se uma indústria de combate
aos incêndios
que todos os anos corre o país de lés a lés
como se fosse uma máquina de guerra;

e
entre mortos
e feridos
ninguém
escapa aos efeitos
da devastação.

Domingos da Mota