Uma segunda oportunidade

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A questão não é se iremos morrer, mas como iremos viver.

Joan Borysenko

Sentado na cama do hospital, Buddy sorriu e assegurou à esposa, Ruth, “Estarei de novo a dançar a valsa contigo muito em breve.” Ruth aquiesceu e apertou a mão dele um pouquinho mais. Ao olhar para o homem que amava, ela sabia que esta provação o tinha assustado muito mais do que ele alguma vez admitiria.

Mas Buddy não era o tipo de homem que deixa algo como um ligeiro ataque cardíaco deitá-lo abaixo. Pelo contrário, ele fazia um esforço combinado para pôr toda a gente à vontade. Além disso, os médicos asseguraram-lhe que poderia voltar a casa dentro de poucos dias. Portanto, a disposição de Buddy era ainda mais jovial que o costume, gracejando e piscando o olho à mulher.

Tudo isso mudou num instante quando a expressão de Buddy de repente se tornou vazia. Chamou “Ruth, pessoal, aproximem-se — rápido!” Então, serenamente, ele começou a recitar os versos da sua Confirmação, e continuou com o Pai Nosso, pedindo a todos para recitá-lo com ele. Então Buddy levantou o olhar para a sua família e disse “Pronto, está feito — amo-vos a todos. Adeus…” Ruth gritou “Ajudem-no!” à medida que sentia a mão dele desfalecer na sua. A sala encheu-‑se imediatamente de médicos e enfermeiros, e a família apavorada foi empurrada dali para fora. Ruth observava, impotente, a partir da sala de espera.

Buddy observava também, mas não da sala. Flutuando acima de toda aquela agitação, ele olhava tranquilamente para baixo, para aquela cena frenética. Subitamente, sentiu que era puxado através de um túnel de luz brilhante. E conseguia vislumbrar a mais bela das visões lá mais à frente… Era diferente de tudo o que tinha visto antes, e ele sabia que não era um sonho. Viu então uma montanha coberta de flores desde o sopé até ao topo. Cada botão de flor explodia em cores brilhantes, e nem o mais ínfimo estava escondido por folhas ou hastes. Na base da montanha, Buddy viu um vulto banhado de pura luz, no centro de um grupo de pessoas. E percebeu que estava na presença de Deus.

Uma menina pequena em camisa de noite estava ali perto. A criança sorriu para ele, depois caminhou até ao vulto cujos braços estavam estendidos para a receber. Buddy começou a andar na direção da figura brilhante, com uma avassaladora sensação de paz e alegria que aumentava a cada passo. Depois, apenas a alguns passos de distância, não conseguiu avançar mais. O vulto levantou uma mão e disse “Para, ainda não é a hora. Regressa.” Os olhos de Buddy agitavam-se, abertos. Por um instante a luz ainda encheu o seu quarto do hospital, mas depois sumiu-se. Atrás dos médicos e enfermeiros, Buddy conseguia ver a família preocupada, e sorriu. Ruth soprou-lhe um beijo, olhou para o alto e sussurrou “Obrigada.”

“Um ataque cardíaco forte.” Foi o diagnóstico do médico no dia em que todos os sinais vitais de Buddy efetivamente pararam. Uma cirurgia de triplo bypass foi feita com sucesso uma semana mais tarde, e com o tempo Buddy recuperou a sua força e saúde. Mas desde então aquela visão nunca o abandonou, nem aquelas palavras: “Para, ainda não é a hora. Regressa.”

Ruth e Buddy aperceberam-se, mais do que nunca, que cada dia que passavam juntos era uma dádiva especial. Dúzias de familiares e amigos foram convidados para a celebração das bodas de ouro pelos seus quarenta e cinco anos de casados, em vez de esperarem pelo quinquagésimo aniversário para comemorar o seu longo casamento. No brinde, Ruth disse a todos: “Buddy e eu acreditamos que, enquanto o celebrarmos juntos, cada ano que passa é de ouro.”

Buddy desfrutou cada dia com apreço renovado. O cheiro a relva recém cortada, o sabor do chá geladinho num dia quente de verão, a risada de um amigo, o oferecer conforto deixando que alguém chorasse no seu ombro – tudo se tornou para ele demasiado precioso.

Doze anos mais tarde, enquanto descansava à sombra da sua árvore favorita, a alma de Buddy deixou de novo o seu corpo.

Lembro-me de estar no funeral do meu pai e de ver mais gente naquela igreja do que alguma vez tinha visto. As pessoas estavam de pé nas coxias e mesmo fora das portas do santuário. Toda a gente falava do vislumbre de céu que o meu pai tinha tido, por momentos, há já mais de uma década. O pensamento era reconfortante perante a dor horrorosa da sua morte, mas eu apercebi-me ainda de algo mais.

Embora o meu pai fosse uma pessoa especial, eu não fazia ideia, até ao dia do seu funeral, de quantas pessoas pensavam como eu. Compreendi então que uma vida de sucesso é avaliada pelo modo como se vive e se ama durante o tempo que nos é dado viver. Ao meu pai foi dada uma segunda oportunidade de vida e ele tirou dela o máximo partido, não aumentando as suas ocupações, mas gozando-a mais plenamente. E cuidando das pessoas.

É para isso que servem as segundas oportunidades.

Renae Pick