Memórias de infância

A maioria das outras coisas bonitas da vida vem aos pares ou aos trios,
às dúzias ou às centenas. Muitas rosas, estrelas, arcos-íris, irmãos e irmãs, tias e primos.
Mas só há uma mãe em todo o mundo.
Kate Douglas Wiggin

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Ela está passivamente sentada em frente ao televisor. Pouco interessa o programa que está a ser transmitido desde que não tenha de se mexer para mudar de canal. Caminhar, como tudo o resto, tornou-se uma tarefa difícil para ela. Precisa que a ajudem a vestir, a comer e a tomar banho. Não é porque o seu corpo se tenha tornado velho e decrépito — ela só tem 48 anos, mas o seu cérebro sim.
Tem a doença de Alzheimer. É a minha mãe.
Por vezes, parece que o tempo não passou desde a minha infância, quando dávamos passeios ao ar livre pelas redondezas. A natureza foi sempre uma das paixões da minha mãe: costumava levar-me à praia para explorarmos as marés. Saltávamos de rocha em rocha, tentando evitar com cuidado o rebentar das ondas, alguns metros à nossa frente.
Mostrava-me os ouriços do mar de cor roxa e cheios de picos, e as estrelas do mar coloridas. Ainda consigo sentir a frescura da água na minha cara e o seu cheiro salgado. Gostava também de me levar em passeios pelos bosques depois de ter chovido. Procurávamos as lesmas amarelas que brilhavam na escuridão do bosque. Cheirávamos a humidade das folhas das árvores gigantes quando caminhávamos através delas e nos perdíamos na magnificência desse local encantado.
Muito envolvida na atividade política dos anos 60, a minha mãe acreditava na luta pelos direitos e nos protestos. Não era uma pessoa radical; apenas se preocupava com o mundo em que vivíamos. Lembro-me de ter ido com ela a uma marcha pela paz, quando tinha 10 anos. Era uma caminhada silenciosa durante a noite, pela Baixa da cidade. Cada um segurava uma vela acesa que simbolizava a esperança de trazer luz ao mundo através da nossa mensagem silenciosa.
A educação era outra coisa importante para a minha mãe. Era professora e tinha acabado o curso quando eu já andava na escola. Ainda não entendo como conseguiu. Mesmo embrenhada nos seus estudos, não me lembro de uma única vez em que ela não me ajudasse. Como era educadora, empenhou-se na procura de um jardim infantil antes de me inscrever. Enquanto a maioria dos pais escolhe a escola que está mais perto de casa, a minha mãe levou-me a ver várias escolas até encontrar uma que lhe agradasse.

Hoje olho muitas vezes para a minha filha e vejo a minha mãe. Vejo a minha mãe com um cabelo castanho-claro ondulado, fios louros e ruivos. Vejo o seu queixo a sair um bocadinho para fora da sua cara estreita e várias dobras numa das pálpebras — são os mesmos traços que a minha mãe deve ter visto quando olhou para mim e se viu a si própria. Noto que ultimamente me rodeio de coisas que me lembram a minha mãe.
Sempre que tomo uma chávena de chá para dormir, o cheiro suave recorda me aquelas noites que ela passava ao meu lado quando eu estava doente. Quando me visto, de manhã, o cheiro do creme de ervas e o cheiro a fruta da laca de cabelo que eu uso são os mesmos que a minha mãe costumava comprar. Quando oiço o tom político de uma canção de Joan Baez ou o ritmo de uma canção reggae de Jimmy Cliff, oiço a voz da minha mãe.
É raro o dia em que não oiço, cheiro, saboreio ou vejo alguma coisa que me traz recordações da minha mãe. Estas coisas são reconfortantes e permitem-me voltar à minha infância, quando a minha mãe ainda era como eu me lembro dela.
Esta doença roubou rapidamente a mulher que eu em tempos conheci.
Ela tinha sempre um papel tão ativo na vida… e, agora, senta-se quieta…
Li uma vez um poema, «Para a minha mãe, que sofre da doença de Alzheimer», que dá forma a esta ideia comovente:

Querida mãe, com os teus brilhantes olhos azuis,
Ver-te vazia… faz chorar o meu coração.

A minha mãe pode não se lembrar do impacto que teve na minha vida, mas eu não esqueci. O mais difícil para mim é aprender a amar a mãe que eu tenho agora enquanto recordo aquilo que ela costumava ser.
Rezo por ela quase todas as noites, mas as minhas orações já não são as mesmas. Costumava dizer: «Senhor permite-me encontrar a cura». Agora peço simplesmente: «Senhor, deixa-a ser feliz no seu mundo, como ela me fez feliz no meu.»
Por vezes, na esperança de que ela me consiga ouvir, murmuro: «Adoro-te, mãe, sinto a tua falta.»

Sasha Williams

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