Mãe solteira e trabalhadora

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Nos finais dos anos 90, a vida não tinha muito para me oferecer. Para falar francamente, estava quase sempre cheia de medo. Tinha duas filhas pequenas, três doenças incuráveis e estava sozinha. Não nascera sob bons auspícios e ainda não tinha conseguido dar a volta.

Fui dada para adoção à nascença e nunca soube o que era um parente até ter tido um filho. Se tivesse que dizer algo de positivo sobre a minha vida foi que cresci à minha custa e que a forma como o fiz determinou o que sou hoje.

Quando tinha cerca de 30 anos, fui oficialmente declarada “pessoa com incapacidade permanente”. Tinha na altura três doenças incuráveis. A pior era a doença de Crohn, que afeta de forma grave os intestinos. Tinha também irite, que me deixava intermitentemente cega, e artrite, que me obrigava a andar periodicamente de bengala. Comecei a trabalhar como jornalista freelancer a tempo parcial, pois era o único tipo de trabalho que me permitia conjugar a doença, as filhas e a falta de ajudas. 

No inverno de 1997, tive a ideia de criar o meu próprio jornal de “notícias positivas” em vez de trabalhar para os media dominantes. Confesso que para alguém tão cheio de limitações e desempoderado como eu, o plano tinha o seu quê de bizarro. Além de não ter qualquer sistema de apoio, também não tinha conhecimentos ou experiência sobre como publicar um jornal. Contudo, a ideia não me largava. A vontade de contribuir com algo de positivo para o mundo e para a minha família eram argumentos bem mais importantes do que a enorme lista de contras.

Em janeiro de 1998, após dois meses de planeamento e de incubação, que quase raiaram a obsessão, o meu primeiro jornal de ideias positivas chegou às ruas de Vancouver. Era um jornal pequeno, de aparência estranha e continha apenas dois anúncios. Mas era um empreendimento familiar do princípio ao fim.

Tinha-o colado todo à mão no chão da sala de estar durante horas a fio, nas quais alinhara anúncios e colunas de texto em 24 páginas. A minha filha de um ano, Brionna, “ajudava-me” descolando o que eu colara e a minha filha de oito anos, Christina, era a redatora da coluna infantil. Estava encarregada de procurar notícias sobre filmes, espetáculos e campos de férias para crianças. Também “redigia” críticas sobre restaurantes, dos mais elaborados aos mais corriqueiros. O seu primeiro entrevistado foi o presidente da Câmara de Coquitlam, na Colúmbia Britânica. Não sei qual dos dois se sentiu mais embaraçado, mas a entrevista durou uns bons 20 minutos. 

A nossa pequena família depressa se familiarizou com as temíveis técnicas de distribuição. Mal tínhamos recuperado da distribuição do mês anterior e já tínhamos de fazer uma nova. Convenhamos que entregar dez mil exemplares seja do que for não é tarefa fácil.

Quando não estava a escrever, paginar ou entregar jornais, vendia publicidade. Ia à empresas e comércios locais e vendia-lhes publicidade. Não que gostasse de o fazer, mas tinha filhas para alimentar e sonhos a realizar. Com o cabelo em desalinho e toda suada, abria as portas com um pé enquanto empurrava o carrinho de bebé com o outro. Levava ainda um saco de bebé cheio até mais não, uma pasta com jornais e a minha carteira com o telemóvel enfiado lá no fundo. Como é bom de ver, a minha apresentação gerava uma panóplia de reações.

Alguns dos meus potenciais clientes interagiam com a minha “pequena pessoa” apenas por instantes. As mães trabalhadoras eram as mais acolhedoras. Revelavam compreensão pelos desafios que eu enfrentava dando-nos bolachas ou material de escritório enquanto “negociávamos”. Outros assumiam uma atitude beligerante mal entravámos na receção, escondendo todo o material potencialmente partível e nunca desviando os olhos da minha filha mais nova. Eram reuniões particularmente curtas, estas.   

Um dia fomos a uma entrevista com o diretor de uma grande cadeia de restaurantes, um negócio de família. Cheguei mesmo a contratar uma baby-sitter para ir ao encontro, mas ela cancelou o compromisso à ultima hora. Quando lá chegámos, fomos encaminhadas para um escritório minúsculo, mas confortável. Esperei, apreensiva, a chegada do diretor.

Achei que despacharíamos o assunto em 20 minutos.

Quando o presidente da companhia entrou no escritório, olhou de relance para a minha “sócia” e cumprimentou-me afavelmente.  Depois de alguns minutos de conversa fiada, a reunião começou. E a minha filha começou também a sua participação. Embora fosse preparada com lápis de cor, a sesta das duas estava prestes a chegar. O que começou por ser uns pequenos grunhidos logo deu lugar a queixumes bastante audíveis. Continuei a minha apresentação comercial enquanto agitava freneticamente bonecos e comida diante dela.

Revelando um óbvio desinteresse pelas minhas táticas, a minha filha em breve declarou guerra aberta àquele encontro. Dei-lhe um tubinho de Smarties que ela abriu e cujo conteúdo lançou, quais mísseis, na direção da cabeça do meu potencial cliente.

— Fale-me um pouco da sua zona de implantação — pediu o presidente, mesmo antes de um Smartie vermelho lhe aterrar no nariz.

Fiquei de boca aberta e a minha filha parou o que estava a fazer. O homem olhou para o objeto e para a minha filha, que fixava o nariz dele. Após alguns momentos, que me pareceram uma eternidade, pegou no projétil e comeu-o.

— Os vermelhos são sempre os meus favoritos — disse a sorrir.

A minha filha também se riu.

E eu saí dali com um anúncio de uma página e a certeza de que, afinal, tudo era possível!

Nicole M. Whitney

(Tradução e adaptação)

 

 

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