A magia da infância

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Acredito na magia. Nasci e fui criado num tempo mágico, numa cidade mágica, entre mágicos. Quase ninguém se apercebia de que vivíamos dentro de um círculo mágico, ligados uns aos outros por filamentos de acaso e circunstância. Mas eu sabia que assim era.

Quando tinha doze anos, o mundo era a minha lanterna mágica, que me permitia, através de um pequeno espírito verde e brilhante, ver o passado, o presente e o futuro. Tenho a certeza de que havia outras pessoas que conseguiam fazê-lo, só que não se lembram disso. É minha convicção de que, à nascença, todos somos mágicos. Todos nascemos com redemoinhos, florestas e cometas dentro de nós. Nascemos com a capacidade de cantar para os pássaros, ler as nuvens e ver o nosso destino em grãos de areia. O problema é que somos depois educados de forma a expulsar a magia das nossas almas. A nossa educação religiosa rejeita-a, a nossa educação escolar doma-a e a nossa educação familiar domestica-a. Dizem-nos que temos de ser responsáveis e seguir caminhos pré-determinados, que temos de crescer e comportar-nos de acordo com a nossa idade. Tudo isto acontece porque as pessoas têm medo da nossa autenticidade e juventude e porque a nossa magia as faz sentir envergonhadas e tristes pela magia que deixaram morrer dentro delas.

Quando nos afastamos muito da magia, não temos forma de a recuperar. Apenas teremos vislumbres dela. Segundos em que a reconhecemos e a recordamos. As pessoas choram a ver filmes porque a escuridão da sala de cinema permite que o lago dourado da magia o toque. Mas o lago seca mal saem para a luz dura do sol da lógica e da razão, deixando-as com um sentimento de tristeza e perplexidade. Sempre que uma canção acorda uma memória, que partículas de pó dançam por entre raios de luz e nos distraem do mundo, que ouvimos um comboio passar ao longe na noite e nos perguntamos qual será o seu destino, cruzamos uma fronteira que nos leva para lá do que somos e de onde nos encontramos. Entramos no mundo da magia por um brevíssimo instante.

Acredito firmemente nisto.

Com o passar dos anos, vamo-nos afastando cada vez mais da essência com que nascemos. Somos sobrecarregados com fardos, alguns mais difíceis do que outros. Acontecem-nos coisas. Morrem seres que amamos. As pessoas sofrem acidentes e ficam incapacitadas. Ou perdem-se na vida por uma qualquer razão. Num mundo cheio de labirintos, não é raro acontecer. A vida encarrega-se de nos fazer esquecer a memória da magia. E só descobrimos que isso nos está a acontecer quando, um dia, sentimos que perdemos algo, mas não sabemos o quê.

Estas memórias de quem fui e de onde vivi são importantes para mim, porque constituem uma parte muito importante de quem serei no momento em que os passos da minha caminhada nesta vida começarem a abrandar. Nessa altura, vou necessitar da memória da magia para poder fazê-la ressurgir. Preciso de saber e de recordar. Para poder dizer-vos.

Robert McCammon
(Tradução e adaptação)

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