Uma casa

janela flores m

Na pedra das janelas de grandes vidros foram pousadas jarras com tulipas ardentes, cor de fogo, púrpura e amarelo. O sol entra pela manhã, muito cedo, e derrama-se pelo chão de madeira cor de mel. Àquela hora, tudo fica quente e silencioso, quase secreto.

As folhas das árvores mexem com o vento e ouve-se um rumor vegetal, antigo e puro. Inundadas de luz, as folhas de cima dos arbustos, mais verdes, transparecem e devolvem a certeza primitiva das estações. Precisam de ser cortadas mas ninguém se atreve a ficar sem elas, sem o recorte das sombras que desenham nas paredes brancas. Alguém há de vir um dia aparar a sebe que cobre o muro de pedras e, então sim, as folhas verde-claro, quase transparente, hão de ser podadas, um dia.

A camélia resistiu aos ventos e começou a florir. Muitas flores abertas e por abrir pesam agora nos seus ramos novos. Flores rosa-branco, perfeitas e densas. Sensuais e poderosas.

A serra vê-se através dos vidros inteiros, por trás da camélia, da sebe, do muro de pedras e das árvores da casa. Enche o céu, define o horizonte e amplia o espaço. O tempo também. É uma serra de grandes montes e escarpas que descem até ao mar. Uma serra com árvores de tronco majestoso, coberto de musgo e com cheiro a resina. Uma serra com caminhos de sombra e terra fresca, molhada, salgada pelo mar que o vento traz.

Em casa ouve-se a chuva e o vento mas nunca o mar, que inunda a vista e corta a respiração mas não se deixa sentir. Embora muito próximo, parece distante, plano e, quase sempre, demasiado quieto. A ilusão da sua quietude traz segurança e uma paz que jamais saberei definir. E é na abstração líquida daquele azul infinito que acordo e adormeço. Feliz por também pertencer àquela casa.

Laurinda Alves

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